REENCONTRO


Uma pessoa manifestou desejo de falar com Deborah. Foi quando a proprietária da loja piscou para ela e, amistosamente, lhe indagou se ele era o jovem, senhor Casio. Respondendo positivamente à pergunta, ela disse que a emoção era tanta...

-Ela se encontra?

-Sim, está a meu lado.

O telefone foi passado para Deborah.

-Casio?

Casio lhe disse que precisava conversar com ela o mais rápido possível. Só aceitaria recusa ao convite se lhe fosse apresentada uma plausível justificativa. E, se esse fosse o caso, a compreenderia.

-Não há, Casio.

-Fico feliz, Deborah. Às dezenove horas, o motorista a apanhará para jantarmos no Luart, está bom assim?

-Está ótimo.

Ao desligar, Deborah expressava desnorteada:

-... Nossa...

E Casio, à mesa da sua gigantesca sala, parecia ter realizado o sonho adormecido de sua vida.

Encontravam-se então à mesa do Luart.

-... Meu Deus...- Casio, feliz, encarou a moça por alguns segundos.

Deborah, irradiando contentamento, também fita-o durante alguns instantes.

-Sabe o que nos trouxe aqui? - inquiriu ele.

-Não faço a mínima ideia.

-Uma maldita colisão. O motorista, em dado momento, me disse que teríamos de enfrentar a trepidante Rua Silas. Como não havia alternativa, acatei a sugestão dele e, ao passar na porta da loja a avistei.

Deborah esboçou um lindo sorriso.

-E acenei.

- Ordenei-lhe que parasse, mas ele retrucou, dizendo-me ser impossível, dado ao grande número de automóveis que se encontrava atrás de nosso carro. Fitei, na verdade, a porta da loja, mas você já havia fugido. Sem perder tempo, gravei em meu celular o número do telefone o qual constava na placa da loja.

-Não fugi, Casio. - explicou ela.

O garçom serviu-lhes uísque e, se afastou. Casio lhe perguntou se ela estava magoada com ele.

-Silêncio magoa. - confessou.

-Ao retornar, eu a procurei, mas, para meu desconforto, você havia se mudado para outro estado. - explicou ele.

-De fato. Loucura de papai. Mas as coisas não deram certo e acabamos retornando.

-E com você, especialmente, o que aconteceu?

-Não sei, as coisas simplesmente não aconteceram. Trabalho na loja de uma amiga de mamãe.

-Reside com os seus pais?

-Sim.

Casio, a acariciou o rosto e lhe disse:

-Você jamais saiu de meus pensamentos, Deborah. Nunca me esqueci de nosso bom relacionamento, nem dos sonhos que juntos tivemos.

Deborah se mostrou emocionada e Casio disse:

-... Sou perverso, direi novamente...

-Por favor, Casio. - pediu ela.

A não invisível aliança de noivado, que se encontrava em um dos dedos dele, havia reluzido.

-É verdade. - reconheceu ele. - Mas é verdade também que não estamos fazendo nada demais... E os seus pais, como estão? - quis saber ele, retornando ao encosto da cadeira.

-Bem. E os seus?

Aquele jantar e os contados telefônicos mantidos pelo novo casal já se refletiam no relacionamento entre Casio e a noiva.

-Quem é a rival? - inquiriu a moça numa certa noite.

-Não existe, Noeli.

-Como não existe, Casio? A sua transformação é mais que visível.

Casio, diante da indagação da noiva, mostrou-se pensativo:

-Viu você?!

A tempestiva conversa acontecia na sala de estar do tríplex do senhor Casio. Ela, que saboreava suco de melancia, irritada com o silêncio confesso do noivo, ergueu−se, olhou-o profundamente, atirou o copo na parede, apanhou a fina bolsa sobre a mesa e, ao sair, bateu violentamente a porta.

-... - Casio, indiferente ao estrago.

Certamente, os pais de Deborah, informados pela filha, sabiam que Casio estava noivo. Mesmo assim, a ideia do almoço partira do pai da garota.

-Deu um salto de gigante. - disse o pai de Deborah, quando todos estavam acomodados na sala.

-Identifiquei-me bem com a informática. - replicou ele.

-... Coisa complicada...

-Trouxe a saudosa horta para o novo lar? - quis saber Casio.

Amante do passatempo, o senhor Medrado sorriu prazeroso e o convidou para ir ao quintal. Deborah, que fora também convidada, os seguiu.

-... Um espetáculo! - contemplou Casio.

Porém, alguém ao telefone desejava falar com o anfitrião que, abrindo os braços, pediu licença e se retirou, ficando Casio e Deborah a sós... Olharam−se.

-Sem, “por favor,”, Deborah. - pediu Casio.

E envolveram-se em beijos e carícias.

O almoço, regado a vinho, transcorreu de modo agradável. Ao terminar, Deborah assumiu as inevitáveis tarefas da cozinha. A mãe, valendo-se do bom relacionamento que sempre tivera com Casio, levou-o ao quarto da filha. Retirou do armário um par de trajes de mergulho e colocou-os sobre a cama.

-Comprou há três anos... - disse ela.

-Meu Deus! Somos apaixonados por mergulho.

-Sua roupa e a dela.

-Incrível isto!

Não satisfeita, retirou uma caixa e a abriu, mostrando−lhe os pertences:

-Este coração partido representa o dela. Assim nos dizia em razão de seu silêncio.

-Eu, senhora...

-Por favor, Casio, não exijo explicações... Os recortes de revistas destacam a sua trajetória.

Casio, ao fitar o recorte mais recente, indagou:

-Deborah sabia onde me encontrar?

-Sabia, mas temia ser evitada.

-Meu Deus!

-Ela o ama, Casio, não a faça sofrer.