QUE ASSIM TIVESSE SIDO


A mãe de Yzolda, estava apreensiva, pois a filha, 26 anos, que havia chegado a casa, demasiadamente atrasada, insistia em viajar àquela hora da noite.

-São vinte e duas horas, minha filha.

-Eu sei, mamãe, mas o que posso fazer? - retrucou Yzolda enfiando pertences na mala.

-O que pode fazer? É viajar ao amanhecer.

-Como se pudesse.

-Claro que pode, o trabalho que espere.

Yzolda a olhou com um sorriso, mas engolindo a resposta disse:

-São apenas seis horas, mamãe.

-Eu sei que são apenas seis horas, Yzolda. Mas, difere se tivesse saído às dezoito horas. Trafegará pela pouco recomendável rodovia Lufo. Se tivesse saído no horário programado, a essa hora, já estaria próximo de Mularte.

-Mas cheguei atrasada e terei de viajar. E, mesmo que quisesse ir de avião, não poderia... Procurei por passagens e não encontrei. - enfatizou Yzolda fechando a mala.

Uma e trinta da manhã, aquele trecho da rodovia Lufo, ladeada por altos eucaliptos, era um breu e deserto só. O automóvel de Yzolda encontrava-se parado no acostamento. Lanternas e faróis acessos e um dos pneus arriado.

-... Nunca acertei trocar pneus. - disse ela a um homem que havia surgido do nada, o qual se prontificara em ajudá-la.

-Mal das mulheres. - retrucou ele, correndo a mão no pneu que havia esvaziado.

-O que encontrou? - inquiriu ela.

-“porco-espinho.”

-Porco-espinho?

-Madeira com pregos atirada na pista para furar pneus. - explicou ele.

-Meus Deus...

Erguendo-se, pediu para que as ferramentas de praxe fossem providenciadas, já que efetuaria a troca... Ferramentas então providenciadas. O homem, voltando a se agachar junto ao pneu avariado, perguntou-lhe para onde estava indo.

-Para Mularte.

-Fazer o quê? Se me permite?

-Sou vendedora da Neriocal. Fecharei uma grande encomenda.

-Mentira!

-É verdade! - retrucou.

-Sou gerente da Niazigi. - disse ele.

-Mentira!

-É verdade!

-E o que faz por aqui? Se bem que aqui também me encontro. – perguntou Yzolda.

-Estou de férias, descansando na casa de meus pais. Ao caminhar até à varanda e avistar um automóvel parado no acostamento, com lanternas acessas, cheguei aqui para verificar o que estava acontecendo.

-Nem ao ar livre o celular funciona. - confessou ela.

-Aqui nada funciona. - replicou ele.

-Engraçado, não avistei nenhuma residência e nem muito menos qualquer iluminação.

-Os eucaliptos impedem a visão. No entanto, se quiser, pode verificar, espiando através de alguma de suas frestas. - sugeriu o desconhecido.

Ela, erguendo-se e acatando a sugestão do homem, avistou em meio à escuridão uma imensa e isolada residência, totalmente iluminada. Na sala, era possível enxergar um casal de idosos dançando juntos, embalados por uma música suave.

-São seus pais? - perguntou ela.

-Aposto que estão dançando.

-Estão sim! - afirmou.

-Assim, há vinte e dois anos, todas as noites, eles fazem isso.

Yzolda os contemplou por alguns minutos e, voltando a se agachar, confessou:

-Gostaria que fosse assim com os meus pais. Infelizmente eles são separados.

-... Acontece. - disse ele.

Minutos depois, o homem ergueu-se e disse que havia concluído o agradável serviço. Guardou as ferramentas e o pneu avariado, fechando, em seguida o porta-malas.

-Pronto!

-Como posso agradecer-lhe? - perguntou Yzolda estendendo-lhe a mão.

-Dando-nos a honra de um dia nos visitar.

-Um dia, os visitá-los-ei. - garantiu.

O homem, gentilmente, abriu-lhe a porta do automóvel. Ela, sem pestanejar, entrou, acionou o motor, engrenou marcha, ligou a seta, acenou e partiu.

O dia amanhecia quando dois policias batiam à porta da residência da mãe de Yzolda. Imediatamente a senhora abriu a porta e lhes perguntou o que desejavam.

-A senhora é a mãe de Yzolda Miran? - perguntou um dos policiais.

-Sou. O que aconteceu?

-Infelizmente, senhora...

-Não! - gritou à senhora, levando às mãos à cabeça.

Yzolda fora encontrada morta, ao lado do automóvel. Havia um “porco-espinho” cravado em um dos pneus. Estava despida e retalhada. Seu ‘desdobramento’, aqui narrado, faz parte de seus últimos suspiros: ‘agonizando’ e delirando. Desejando, que assim tivesse sido.