QUANDO A JUSTIÇA É MANCA


Possuíam um esplêndido e supervalorizado imóvel, porém completariam dois anos que residiam de favor num micro apartamento.

A compreensiva senhora Lurdes, proprietária do imóvel em cujo banheiro dormia, para ceder espaço para a família composta por quatro pessoas, naquela noite, mais uma vez disse para a esposa do senhor Artêmio:

-Venho suportando cada vez menos o abatimento crescente de seu esposo. A única saída para a resolução do problema é o senhor Maneca. Haverá desastrosa consequência, mas serão vocês as vítimas. Por quanto tempo tal situação permanecerá? As duas garotinhas estão mais crescidas e continuam dormindo amontoadas na sala. O potencial de vocês é imenso. Fora uma enxurrada que os desequilibrou. Então o que falta para recomeçarem?

-... Capital, senhora...

-Que pode ser obtido através da venda do imóvel que possuem. Alugado para inadimplentes delinquentes.

-Sabemos disso... Deve imaginar a senhora o que já se passou em nossas cabeças.

-Seria estupidez. Atrás das grades não é lugar para se viver. Sejam elegantes. Têm vocês duas lindas crianças para cuidar.

-Cansamos de ir ao fórum e orar.

-Venho me questionando sobre o comércio dos homens e a sensibilidade de Deus... Tente mais uma vez convencer o esposo da imediata necessidade de se recorrer ao senhor Maneca. Amanhã é feriado e o temido homem não despacha nos feriados. Visitaremos as instalações sem compromisso.

-Preocupo−me quanto ao pagamento.

-De bom tamanho, cinquenta por cento do valor da venda do automóvel que possuem.

-Sobrevivemos dele! – retrucou angustiada a esposa do senhor Artêmio.

-Restará cinquenta por cento.

-...!

O senhor Artêmio também não estava mais suportando aquela situação incômoda. Tanto que, assim que a esposa começou a alinhavar a conversa, para surpresa dela, ele além de nada contra-argumentar, retrucou:

-Conheço a fama do Maneca e procurei evitar o trágico. Mas estou convencido de que devo lavar as mãos.

Visita posta em prática enquanto os adultos caminhavam na imensa área a céu aberto, as duas crianças corriam deliciando−se com o frescor da manhã.

-Não avisto uma ave sequer. – comentou o senhor Artêmio.

-Aves? Apenas de hábito noturno. Os socorridos pelo senhor Maneca costumam dizer que a natureza é ingrata com ele. – conversou a senhora Lurdes.

Observaram a residência do temido homem e caminharam de encontro a uma pequena edificação que era o escritório. Através da vidraça olharam para o interior do amplo espaço.

-... Lúcifer! – pronunciou o senhor Artêmio um tanto receoso.

-O titular da casa. – replicou a senhora Lurdes. – São noventa quilos de ouro maciço. O cedro e coroa são também confeccionados em ouro, e são removíveis. A porteira permanece vinte e quatro horas escancaradas. Não há nenhum tipo de segurança e ninguém nunca se atreveu afanar.

Caminharam e a senhora Lurdes apresentou a capela:

-A casa do patrono. Nela que ele habita.

A capela era pintada nas cores vermelho e preto.

-... Após breve cerimônia sempre realizada, por volta da meia−noite, é depositada no batente da porta principal uma bandeja em ouro contendo as queixas que foram registradas ao longo do dia.

-Queixas? – inquiriu a esposa do senhor Artêmio.

-Ignoro a consistência da diferença entre queixa e pedido. Mas aqui é uma espécie de delegacia. Acolhe apenas queixa e não pedido. A bandeja raramente amanhece vazia. Ou seja, as queixas raramente são rejeitadas. Passam por severo crivo do senhor Maneca.

-A nossa queixa é consistente, não é, querido? – inquiriu a esposa do senhor.

-Bastante consistente.

-Vai registrá−la?

-Amanhã pela manhã retornarei para fazer isso.

O senhor Maneca despachava numa sala. Uma vez a porta estando aberta, o curioso tinha a oportunidade de avistar o subtitular, senhor Maneca. O temido homem media não mais do que um metro e meio de altura. Sentado na poltrona que parecia ter sido fabricada para gigantes, lia atento os boletins de ocorrência, os quais eram formalizados pelo escrivão.

O escrivão, acomodado por de trás do computador, convidou o senhor Artêmio.

-Sente−se. – orientou.

O senhor Artêmio apresentou o recibo de promessa de pagamento e sentou−se. O escrivão pediu para que relatasse a verdade, apenas a verdade.

O senhor Artêmio então relatou que foram vítimas de uma adversidade da natureza. O meio de sobrevivência se fora. Para se protegerem da chuva, alugaram a residência. Mas aconteceu de o inquilino só pagar o primeiro mês do contrato. Quatro meses se passando sem ver um níquel sequer, propôs vender o imóvel. Ofertou um quarto do valor. Ingressou na Justiça solicitando reintegração de posse, sentiram−se ofendidos.

-São pessoas extremante violentas e escandalosas. Vivem sob extrema ostentação. Quatro advogados cuidam dos negócios deles, inclusive desse processo. – concluiu o senhor Artêmio.

Silenciando, o escrivão perguntou se tinha algo mais para acrescentar.

-Não, senhor.

O escrivão, erguendo−se, disse que, caso a queixa fosse acatada pelo subtitular e posteriormente pelo titular, sugeria que vendessem imediatamente o imóvel para não correrem o risco de serem perturbados por infiéis seguidores do outro.

-Como assim?

-Sempre acham que há crueldade e injustiça. - recolheu o papel da impressora, pediu para que lesse e assinasse. Em seguida o dispensou, dizendo que era para aguardar.

O senhor Artêmio e a esposa não tiverem coragem de acompanhar o desfecho, mas a senhora Lurdes teve. Que viera como uma flecha enlouquecida, igual a dominó enfileirado, os quatro mencionados advogados tombaram no mesmo dia. E o relato do bombeiro proferido no dia seguinte foi impressionante: a família oportunista composta de seis pessoas, ocupantes do luxuoso automóvel de vidros blindados, tinham os cintos de segurança enroscados no corpo. As portas do automóvel, uma vez destravadas, eram automaticamente travadas. Lutaram desesperadamente em vão, tentando se livrarem das altas labaredas.

Quando certa história chegou ao fórum, a sentença de reintegração de posse do imóvel foi imediatamente assinada. A senhora Lurdes endossou o conselho do escrivão.

-Já que as coisas foram resolvidas, tratem de vender o imóvel.