PONTO DE EQUILÍBRIO


Na vitrine havia um revólver calibre 38, tambor com capacidade para sete munições e, ao lado, seis projéteis. - evidente que eram réplicas em cera.

O encontro de amigos perdeu o brilho assim que Teles dissera que desafiaria a lei da probabilidade.

-Largue de besteira! - retrucou o compenetrado “Filósofo”, ao perceber a que se referia.

-Estou quebrado, gente! Necessitado de grana. O valor do prêmio oferecido corresponde a duzentos automóveis zero quilômetro. Existe motivo melhor para desafiar a roleta−russa oficializada pelo nosso município?

“Filosofo” disse que a senhora Ninfa fora sábia. Ponto de Equilíbrio nada mais significava do que um tópico de alerta. Um paralelo, para reflexão de tormentos.

-Eu sei.

-Não ironize, Teles. Trata-se de uma vitrine para que as pessoas avaliem loucuras. Um tópico, como disse, para reflexão. O valor do prêmio oferecido representa o cego desejo da aflição que ofusca a possível e desastrosa consequência. Daí a necessidade de meditar. O mal é o prêmio não ser simbólico. Mas, se fosse simbólico, não haveria reflexão.

Teles, aplaudindo zombeteiro, outro amigo recordou-se do problema vivido.

-Aliás, vocês conhecem a história. Se eu não tivesse refletido, teria insistindo em permanecer com a minha apetitosa ex. E só Deus sabe o que teria acontecido.

A conversa voltou à baila no dia seguinte, quando Teles jantava com os familiares. A mãe, que já estava ciente da asneira, ao ouvir a introdução do irritante tema, retirou-se da mesa, permanecendo o pai e a irmã.

-Tolice, Teles. - disse a irmã.

-Tolice é ficar sem grana... Covardes.

-Covarde ou equilibrado? - perguntou o pai.

-...

-Eu sei que, assim que Ponto de Equilíbrio, sábia criação da senhora Ninfa, passou a enfeitar a vitrine da prefeitura, o número de asneiras praticadas em nosso município caiu drasticamente. As pessoas, assim como nós estamos fazendo, passaram a discutir os angustiantes problemas vividos, levando-se em consideração o ponto sensato para o equilíbrio da situação vivida. Você está refletindo sobre a possível consequência da sua infeliz ideia fixa?

-...

-Creio que não. E qual seria o ponto de equilíbrio para elucidar a situação? Reorganizar a vida. Assim procedendo, terá 99,9% de chance de recuperar tudo o que perdeu. Coisa inversa do que enfrentar, estupidamente, o fatídico desafio. Para que você apague a minha imagem de durão, digo−lhe: enfrentando, estupidamente, o desafio, terá 99,9% de chance de nos causar uma grande dor e tristeza. Agora, dê−me licença que irei ver a mãe de vocês.

-... Acho que ninguém faz ideia do patrimônio que perdi.

-Fazemos sim, meu irmão. O que você deve fazer é sacudir a poeira e seguir em frente, convencido de uma nova vitória. - disse−lhe a irmã.

Às dez horas da manhã do diante seguinte, Teles encontrava-se no gabinete do prefeito o qual, ao ouvir a predisposição do jovem desequilibrado, indagou:

-É o que realmente deseja?

-É sim.

-Tem certeza?

-Tenho trinta e cinco anos idade.

-Muito bem. Então não me resta mais nada a dizer?

-Não, senhor.

-Resta sim. Fraquejar faz parte da regra, mesmo que já esteja no interior da cabine. Tenho certeza de que os sensatos jamais entenderão como ato de covardia.

Deixando a sede da prefeitura com os termos do desafio assinado e com a promessa de que o evento aconteceria na quarta−feira da semana seguinte, visitou uma jovem com a qual estava mantendo um relacionamento e, a fim de evitar inadequados conselhos, foi aguardar o dia do evento numa cidade vizinha.

A rádio da cidade havia divulgado insistentemente o evento. Eram vinte e uma horas da mencionada quarta−feira. A Praça Noruca, onde o desafio aconteceria, estava repleta de curiosos e, no coreto, havia uma cabine montada. O prefeito, juntamente com a equipe de auxiliares, já se encontrava no local.

Teles, ao comparecer, escutou alguém do meio da multidão gritar:

-É suicídio, Teles! Desista!

O prefeito demonstrou que estava de acordo. Porém, retirou um revólver de verdade da caixa, de tambor com capacidade para sete cartuchos, e o carregou com seis projéteis, também de verdade. Girou o tambor, fechou−o e o entregou dizendo:

-A arma é vedada, não há como tentar espiar a sorte. Aponte−a para a têmpora - ilustrou - a uma distância de dez centímetros. Caso obtenha sucesso, o que desejamos, e o prêmio estará à disposição. Aguarde o aviso: uma luz vermelha piscará no interior da cabine. Sorte é o que lhe desejo. Repito: fraquejar faz parte da regra, mesmo que já esteja no interior da cabine.

-...

-Pode se dirigir a ela. - orientou o prefeito.

-É suicídio, Teles! - voltou a escutar.

Todavia, Teles, como se fosse um forasteiro, dirigiu-se à cabine, sem se voltar um instante sequer para o público. Acessando−a, o delegado e oito policiais se dirigiram para o monitor. E Teles passou a ser filmado. O prefeito se distanciou. A luz vermelha piscou e um estampido se ouviu.

-Oh, meu Deus! - foi o que ecoou na praça.

Os pais e a irmã de Teles se abraçaram em prantos, e os amigos em lágrimas. O médico confirmou a morte. O prefeito, entristecido, deixou a praça. O grande público, em silêncio, o imitou. Acessando−a na contramão, o pessoal do instituto médico legal para recolher o corpo do estúpido inconsequente.