O PREÇO DA AMBIÇÃO


Um policial idoso, aposentado e no leito da morte, havia confidenciado ao neto que, num plantão de uma longínqua madrugada, recebera um telefonema anônimo informando que, na Baía Boris, uma embarcação, à deriva, continha fartas garrafas de uísque contrabandeado. Juntamente com um colega dirigiram-se ao local e, ao inspecionar a tosca embarcação , depararou-se com maços de dólares embalados e acondicionados num invólucro plástico. A baía estava silenciosa e deserta. Nisso, brotam-se maus pensamentos: "Confiarei o volume a um amigo que trabalha como vigia de certa obra." Disse o colega.

O dia amanhecia quando acessaram o Parque Atlântico, que estava em construção. O vigia, mais que depressa, introduziu os maços de dinheiro na forma da laje do quinto andar de certo prédio, alegando que a obra daquele edifício estava parada. Como o dia já havia clareado, solicitou uma carona explicando que, uma vez o dia amanhecido, o expediente já podia ser considerado encerrado. Entraram na viatura e partiram, acabando por colidir o veículo, quilômetros depois, com um caminhão, parando os três em um hospital, lá permanecendo cerca de seis meses, tempo suficiente para que o “esqueleto” do mencionado edifício fosse concluído.

Então o moribundo estava convencido de que na laje do quinto andar do tal edifício, que recebera o nome de Carabela, jazia uma volumosa quantia de dólares cujo montante ignorava. Era, pois, muito dinheiro, a ponto de o invólucro principal assemelhar-se a uma caixa de um robusto fogão.

O neto guardou aquilo consigo. Tempos depois, vendeu a história para um grande empreendedor o qual, ao averiguar tal versão, obtivera informações de que, nas ocorrências sigilosas, havia, deveras, registro do desaparecimento de uma extraordinária quantia que navegara, pontiagudamente, à deriva na Baía Boris. O montante estava estimado em cem milhões de dólares. Esse era o melhor entendimento para aquilo, manutenção severa do ignorado sumiço do dinheiro. O empreendedor, com olhos crescidos, tratou de comprar o respectivo prédio, porém mesmo oferecendo o dobro do valor de mercado não obtivera êxito, pois, um dos moradores, discordou da venda. Sugeriu, então, a esposa do empreendedor que se implodisse o prédio e, posteriormente, fossem comprados os escombros... O Parque Atlântico era imenso, um complexo de prédios de dez pavimentos, de alto padrão, distribuídos, espaçadamente, em quadras, batizadas com nomes de arrecifes. E os edifícios, com nomes de embarcações, carrancas e de pequenas ilhas... O empreendedor, que tinha absolvido a sugestão da esposa, convidou o vendedor do segredo que voltasse ao escritório, dobrando o percentual do dividendo o elegeu preposto da Prefeitura, cuja tarefa seria a de coletar concreto dos pilares dos edifícios a fim de verificar a resistência: camuflagem. Isto, pois, apenas para acessar o local, cuja verdade seria colocar bananas de dinamite nos orifícios abertos: iria implodir o prédio com moradores e tudo. O dia e o horário marcados foram às 10 horas de uma manhã de domingo. O técnico, que acionaria o detonador, encontrava-se a postos e aguardava a chegada dos retardatários, os quais se encontravam retidos num congestionamento provocado por um moroso desfile de ciclistas. Observando a hora se aproximar, os ambiciosos homens, empreendedor e vendedor do segredo, optaram por acessar o parque pela ala norte, cujos prédios eram batizados com nomes de carrancas. Seguindo trajeto, o vendedor do segredo, subitamente, embranqueceu, pois avistara: “Edifício Carabela”! Recorreu às lembranças do relato do avô, fora aquilo: Edifício Carabela. Sentiu a barriga revirar e pálido que nem gelo perguntou:

-Levamos em consideração ser o nome Edifício Caravela não foi?

-Sim!

Pediu para que parasse o carro. Em seguida, saiu correndo segurando a barriga e, ao escutar a detonação, atordoado, pronunciou:

-Implodimos o edifício errado!