O homem da estação

Com o súbito falecimento do delegado da comarca de Jasmim, a Secretaria de Segurança designa Vivaldo para substituir o finado. Segue com ele o amigo e policial Ricardo acompanhado da esposa, a jovem senhora de nome Juciana. Em Jasmim, esta imaginativa jovem mulher conhece a nativa senhora Persuinha, 38 anos, comerciante endividada e mãe solteira, que carregava consigo a dor da perda do filho Alex, de dezoito anos de idade. Contagiada com a simpatia da amiga. Juciana a apresenta ao divorciado Vivaldo, de onde nasce imediatamente um romance entre ambos.

Meses depois

Sob formoso luar, o quarteto, em passos descontraídos, retorna da residência dos avós paternos de Alex os quais ainda estavam consternados com o trágico e inexplicável suicídio do neto... Persuinha diz:

− Falaram sobre tudo, menos sobre a canalhice do filho. O país tornou−se pequeno para ele, refugiou−se no exterior.

−Discordo, Persuinha. O seu ex−sogro a socorreu. Reconheceu a maldade e a ingratidão do filho. Segundo ele, enterrou a sua vida. − observa Juciana.

–... Preferiria ouvir que enterrara a sobrevivência. – aborda Vivaldo.

−São divorciadas? − indaga Persuinha.

−Divorciados reestruturam um novo amor.

Ricardo, por sua vez, diz que havia escutado insistente modinha.

−Do meu silêncio sobre o motivo do suicídio de Alex... Nunca procurou esmiuçá−lo, Vivaldo?

−Não, Persuinha.

Seguem nos passos. Ao margearem o exuberante prédio da estação férrea, Persuinha olha−o e confessa:

−Receava ou ainda receio de ficar conhecida como a mãe do louco.

−Estapafúrdio assim? − pergunta Vivaldo.

Ela medita, suspira e conta:

–O dia amanhecia quando Alex invadira o meu aposento relatando uma perturbadora história. Tinha as vestes rasgadas e sujas de sangue, porém... Segundo ele, retornava da casa de Marli, sua namorada, residente na vizinha cidade de Trim, e acreditou ter cochilado no trem, pois, ao abrir os olhos, o mesmo partia. Mesmo assim descera por uma porta mal fechada precipitando−se vagão abaixo. Escuridão e silêncio foram o que viu e ouviu e, num filete de sentidos, viu que o seu braço direito já não mais lhe pertencia. Decepado, descansava sobre os dormentes. Avistara, no ínterim, um homem se aproximar, se agachar e recolher o membro que havia sido amputado. Era tudo que conseguia lembrar. Ao acordar com o sol daquela manhã aquecendo seu corpo, viu que estava num canto da estação são e salvo, como se nada lhe tivesse acontecido.

−Não seja extravagante, Persuinha.

−Por favor, Ricardo. Relato a versão do meu filho.

−Perdoe−me.

−Atordoada envolvida naquela situação, questionei−me: com quem estaria andando? Estaria usando drogas? Que se banhasse, se alimentasse e tratasse de dormir. Fora o que lhe disse. Mas, transtornado, dizia: “Foi Ele mamãe, creia! Eu vi. Reconstituiu meu corpo.” Blasfemei. Partiu para me agredir. Escapulir e fugir para o banheiro. Adentrou. Tentando me estrangular pronunciando as difíceis afirmações, escapulir mais uma vez. Arrebatei a chave da porta, fechei−a e tranquei. Esmurrando a porta contou a história umas mil vezes. Quando sua voz definhou, me aproximei e, ao avistar sangue escorrendo por sob a porta, a destranquei, sendo em vão as tentativas de adentrar... Havia imenso peso atrás da porta. Gritei desesperada, corri para o quintal e chamei pelo vizinho de nome Murilo. Socorreu−me. Mas, ao adentrarmos, depois de muito esforço, encontramos Alex morto... – atrás da porta. Havia cortado os punhos com lâmina de barbear.

Nada mais conversam. Mudos e pensativos, seguem, passo a passo, sob o luar para as suas respectivas moradias.

Na manhã do dia seguinte, Ricardo encontra Vivaldo no cartório, no prédio anexo ao da delegacia, folheando documentos contidos numa pasta.

Vivaldo, ao vê−lo, pergunta:

−Você também teve uma noite de insônia?

−...

−Foi horrível para mim.

−...

−... O meu antecessor fez um excelente trabalho: fotos de ângulos, essências e os depoimentos dos senhores Persuinha e Murilo contrapostos emanam coerência. Portanto, dúvida não existe de que fora realmente suicídio. Porém, não me satisfaz.

−Não se esqueça de que somos policiais. − adverte Ricardo.

Vivaldo o olha e diz que Persuinha havia mencionado dois nomes: Murilo e Marli. No entanto, Marli residia na cidade de Trim. Designava−o para ouvir o senhor Murilo. Sob o argumento de se tratar de uma pesquisa de cunho social, determinada pela Secretaria de Segurança. Coletaria dados de roubo, assassinato, suicídio, enfim. No entanto, como já haviam conversado sobre a pontualidade do senhor Antunes, proprietário da Farmácia Jasmim, deveria também ouvi−lo. Erguia pontualmente as portas do estabelecimento às 5 horas da manhã, e o estabelecimento, como sabiam, era trajeto forçado para os usuários da estação férrea.

−Necessário?

−Para mim, sim. Está intimado. Mantenha discrição. − bate no ombro do amigo e, ao deixar a sala, pede para que ele, ao sair, trancasse a porta e lhe entregasse a chave.

−... Farei.

Ao meio−dia Ricardo passa em casa para almoçar. Conta a Juciana a determinação de Vivaldo.

−Sabia o que aconteceria. Afinal, fora casado com uma mulher que tinha hábito de mentir.

−Está aborrecido. Contou−me dias atrás que estavam pensando em efetivarem um

relacionamento mais sério.

−Casariam?

−Não sei. Para os pais de Vivaldo seria bigamia.

−Já colocou em prática a traumática determinação?

−Iniciarei à tarde. Cheguei a pouco da capital. Recambiei um preso.

−Seja discreto.

−Vivaldo recomendou.

−Persuinha é um encanto. Não pode ser machucada.

FARMÁCIA JASMIM

O enrugado senhor Antunes, por detrás do balcão, vestido num alvo jaleco, apoia a iniciativa da Secretaria de Segurança. Ricardo, indagando sobre o segundo item da pesquisa: assassinato. O senhor responde que fazia tempo que não ouvia falar. Terceiro item em pauta: suicídio. Responde que, depois de décadas, fora o do Alex. Filho da senhora Persuinha. Ricardo anotando o senhor observa:

−Aliás, você deve saber.

Ricardo diz que desconhecia a grandiosa particularidade daquela cidade: espaçadas lacunas de tragédias.

−Sim, Sim... Jasmim é uma pacata cidade. − afirma o senhor.

−... Há quem não goste do sossego. − conversa Ricardo.

O senhor Antunes diz que os desbravadores, certamente. E deliberadamente conta:

−Erguia a porta do estabelecimento quando vi o jovem Alex passar. Estranhei o fato já que eram 5 horas da manhã. Roupas rasgadas e sujas de sangue. Perguntei o que havia acontecido, ele apontou para o céu e disse que Ele tinha reconstituído−lhe. Assim destaco porque havia apontado para o céu. Naquele momento, ri: riso saudosista, cujas recordações, numa velocidade impressionante, viajaram no túnel do tempo. Tocando, entre os meus dezoito a vinte e tantos anos de idade... Entretanto, encorpado numa superioridade passageira, remota e eterna, que não há como decair. Dúvida sempre haverá de existir, de o velho um dia ter sido novo.

−O que insinua? − pergunta Ricardo.

−Não sei se a verdade me cabe, há mulheres carentes por aí. O Alex era um rapaz vistoso. Então deduzi que havia se metido numa dessas enrascadas. Durante o velório realizado pela tarde, Murilo e eu comentamos sobre o ocorrido. Fora o Murilo, inclusive testemunha da versão narrada pela senhora Persuinha sobre o suicídio do filho. Disse−me o Murilo que escutava o Alex afirmar: creia, mamãe. Ele que me salvou. Murilo, um grande amigo por sinal, trabalha na capital. Às 4 horas da manhã já se encontra de pé preparando−se para enfrentar o batente.

−Certifica da possibilidade de ter escutado.

−São vizinhos cujas residências são separadas por um quintal em comum. Deram uma coça no rapaz. Assim acredito.

Pesquisa concluída Ricardo o agradece e, antes de sair, diz:

−Dúvida sempre haverá de existir, de o velho um dia ter sido novo.

−Assim vejo.

−Anotarei na minha agenda pessoal.

−Ficarei honrado.

O farmacêutico, desimpedido, se dirige para atender um cliente.

−Não sei o seu nome. Mas sei que está instalando um comércio na estação férrea. − conversa ele.

O cliente diz o seu nome: Vicente. E concorda sobre a instalação do comércio.

−Há quanto tempo? − quer saber o farmacêutico.

−Há seis meses.

−Um massacre, o trem distribuidor.

–De fato.

O farmacêutico diz que apostava que ele, nas noites de quarta−feira, permaneceria até altas horas aguardando que ele passasse.

−Sim.

Encurva−se sobre o balcão e propõe:

−Coisa de uns cinco meses, topa?

O cliente, concordando, diz que a reflexão fazia sentido porque os trens só voltavam a cruzar a estação a partir das 5,30 horas da manhã...

– ...

Pergunta:

−Recorda-se de ter presenciado, numa das noites de quarta−feira, luta corporal ou alguém caracterizado de ter participado de algo do tipo?

−... Não, senhor.

O senhor Antunes recompõe a postura e diz:

−... Estava refletindo sobre as diabruras peculiares dos jovens. Às vezes, o susto é tanto que acaba delirando a ponto de se crer que tenha havido interferência divina.

O senhor Vicente, como assim se apresentou, esboça pálido sorriso e, uma vez efetivada a compra, deixa o estabelecimento. Porém, adiante estanca e fica pensativo.

Ricardo aproveita o resto da tarde para resolver a morosa papelada da casa que havia alugado e, uma vez terminado, comparece na delegacia. A porta da sala do delegado encontrava−se aberta. Adentra, saúda−o e senta−se.

−Algo a dizer? − pergunta Vivaldo apagando o cigarro no cinzeiro.

−O relato de Persuinha é digno de fé. Conversei com o simpático e falante senhor Antunes. Relatou−me gratuitamente sobre a passagem de Alex à porta do seu estabelecimento, quando se dirigia para casa, isso às 5 horas da manhã, momentos antes de ter cometido suicídio. Roupas rasgadas e sujas de sangue. O senhor Antunes perguntou−lhe o que havia acontecido, Alex apontara para o céu e afirmou que ‘Ele’ havia reconstituído o seu corpo. Como se não bastasse, disse−me que, durante o velório, realizado à tarde, conversou com o amigo Murilo. Disse−me, também, o que o amigo lhe havia relatado que em nada difere do que Persuinha nos havia falado. Tecera inclusive uma suposição: de o Alex estar invadindo o cercado. Explicaria os machucados e as vestes rasgadas.

Vivaldo alegra−se.

−Persuinha não é psicopata igual à ex.

−Não dela a autoria da fábula...

Vivaldo se ajeita na cadeira, olha em volta e confidencia:

−Persuinha não compareceu hoje à tarde ao mercado. Está arrasada. Conversamos durante longo tempo ao telefone. A sua dívida é imensa; vêm ao longo dos últimos dois anos ganhando um e pagando dois. O seu comércio vive num descompasso infernal. Fora informada hoje pela manhã pelo seu advogado que todo seu patrimônio seria penhorado.

−O que o canalha fez para envolvê−la nessa situação?

−Observo o cuidado. Para não me constranger, evita mencionar o nome do sujeito, bem como todo e qualquer tipo de relacionamento que mantiveram. Mas concluir, como você deve também ter concluído, naquela nossa conversa ocorrida na residência dos pais do fulano que, de boa fé, assinou um documento... Nunca conversamos nada a respeito. Lamento, no entanto, vindo à tona, em razão de o copo estar transbordando: está liquidada. O montante da dívida paga mensalmente é assustador. Não sei se eu agiria assim.

−Com agiria?

Vivaldo medita e reconhece:

−... Situação difícil. O pilantra enveredou mundo afora e a dívida, quer queira quer não, pertence a ela.

Havia alguém à porta desejando falar com Vivaldo. Ricardo, ao perceber os insistentes olhares do chefe lançados para a porta, revelando a presença de alguém, se levanta.

−Missão encerrada. − avisa Vivaldo.

Ricardo entende a que se referia e diz que a noite visitariam Persuinha.

−Estará lá? − pergunta.

−Estarei. − confirma Vivaldo.

Reunidos:

Persuinha, sensível com a sua situação, enxugava as lágrimas com um lenço.

−Não conhecerá fome e nem sede. E não perderá esses seus amigos. − diz Vivaldo.

−E nem sem teto ficará. − complementa Juciana.

Persuinha diz que os amavam também. O que havia conseguido não fora através de vara de condão. Houvera trabalho esforço e dedicação. De repente ver tudo esvair? Não tinha como não mergulhar naquele astral. Que a perdoassem.

Ricardo antecipa pedido de desculpas e pergunta como havia permitido que aquilo lhe acontecesse.

Resquícios de um relacionamento, o ex não era nenhum estranho. Porém, maldoso, enxertou o documento que havia assinado. Não mais estava suportando? Não. Uma barreira de concreto e aço que se ergueram. O prédio do mercado, o sítio, a casa de praia e aquele imóvel estavam sob confisco. Não tinha mais dezoito anos de idade. Idade que iniciara a vida como ambulante, peregrinando nas ruas daquela cidade. Enfrentara aquela distante realidade sem dívida, com o nome limpo e proporcionalmente capitalizada. Mas o que poderia fazer naquele presente momento, se até as poucas mercadorias que restavam tinham destinatário?

Juciana levanta−se, apanha o exemplar da revista Momento que também ali, sobre a mesa de centro, repousava e pergunta:

−Sabe o que eu faria, amiga?

−... Não, Juciana... − responde Persuinha inocente.

−Atenderia o desejo do então paralítico, senhor Neri... Um industrial da capital... Confessa, na longa reportagem, que daria tudo o que possuía para ser como era antes... Decerto que não precisaria ser tanto. Mas uma soma significante para que você saísse dessa sufocante situação seria fácil de conseguir.

−Juciana... − adverte−a Ricardo.

Eis que, de repente, escutam forte estrondo. Correm para a janela. Um automóvel havia colidido no poste. Vivaldo e Ricardo deixam a residência; outras pessoas surgem. O condutor do veículo, um senhor, se queixava de ter sido acometido de súbita tontura. Mas sentia−se bem, garantia. A colisão fora do lado do carona, onde não havia acompanhante... Vivaldo se dirige à viatura exclusiva do delegado e, através do rádio, passa uma mensagem.

−O que você quis insinuar, Juciana? − pergunta Persuinha, estando ambas afastadas da janela.

–...?

−Você acha que eu seria capaz de negociar um trauma vivido pelo meu filho?

Juciana responde que contaria uma fantasiosa história de esperteza para fazê−la rir...

−Por favor, Juciana.

−...!

−Não me convence.

−Juro!

−Você é inescrupulosa.

Juciana a olha.

−Pelo amor de Deus, Persuinha! O que há com você? Vocês me conhecem. Costumo desenhar histórias fantasiosas com o propósito de distraí−los. Recordam-se da imaginação do geólogo e do prefeito que vocês se embolaram de rir? Não interprete como maldade, amiga.

−... Você acha que eu seria capaz de negociar um trauma vivido pelo meu filho?

−Por favor, Persuinha.

−Estou decepcionada, Juciana.

−Não fique, amiga. Não houve segundas intenções.

Persuinha se dirige à poltrona, senta−se e fica pensativa.

Ricardo e Vivaldo adentram. Vivaldo, ao vê−las distantes, pergunta o que havia acontecido.

−Nada. − responde Persuinha.

Estavam estranhas. Volta−se para Juciana e repete a pergunta.

–Não houve nada, Vivaldo. O que poderia ter havido?

−Quero saber.

−Ora, Vivaldo! Não me amole. − resmunga.

Ricardo olha para ela e balança a cabeça.

A visita torna−se insípida. Vivaldo, ao despedir−se de Persuinha, garante que ela não estaria só.

−Estou convencida disso.

Eles, Vivaldo e Ricardo, se retiram. Juciana se aproxima de Persuinha e confidencia:

−Não houve maldade, Persuinha.

−Não mais repita.

−Por Deus.

Juciana se junta a eles. Observam que do acidente só havia o automóvel de encontro ao poste.

−Deu sorte. − comenta Ricardo.

Entram na viatura e partem. Nada conversam ao longo do curto trajeto. Vivaldo ao parar o veículo à porta da residência do casal de amigos, pergunta:

−Foi você tendenciosa, Juciana?

−A que se refere?

−A que me refiro? Da introdução da imaginação não prosperada em razão do acidente.

−Não houve maldade. Desenharia uma história para descontraí−la. Foi isso.

−...

No entanto, de súbito, diz:

−Revelarei uma espionagem: acredito ter sido o senhor Vicente que retirou Alex dos trilhos.

−Quem é Vicente?

−Um forasteiro sem eira nem beira. Ocupa um Box instalado na estação férrea. Nas noites de quarta−feira permanece até as tantas aguardando o trem distribuidor passar. Daí suspeitar de ter sido ele quem resgatou o Alex da via férrea.

−O que mais sabe? − pergunta Vivaldo.

−Nada além.

−Juciana?

Esboça feição de contrariedade e conta:

−Persuinha, numa certa oportunidade, mostrou−me uma carta de profundo pesar enviada por Marli. Relatava, saudosa, a rotina amorosa entre eles: namoravam à porta da residência. Ao se aproximar o horário de o namorado partir, acompanhava−o até a estação férrea de Trim. Sempre às 21 horas e 45 minutos. E Alex embarcava no derradeiro trem que descia para a capital. Naquela noite, uma quarta−feira, véspera do suicídio, não foi diferente. Vicente, por sua vez, reside, às escondidas, no Box que comprará, alugará ou arrendará. Não sei. A estação férrea, a partir das 21 horas, é um deserto só. Movimentada apenas no verão. Segundo soube.

−Então fora você maliciosa. − afirma Vivaldo.

−Juro que não. Desenharia uma história por estas vias.

−O que você sabe sobre o senhor Neri?

−Apenas o que consta na reportagem da revista Momento... Ora, Vivaldo. Você que está sendo tendencioso indagando isso.

−...

−Se está sendo tendencioso, garanto−lhe que é irrelevante.

−Por que o senhor Neri não seria paralítico?

−Eu não sei. Sei que é irrelevante. Basta sabermos como fazer.

−Sabermos fazer o quê?

−Não banque o ingênuo, Vivaldo. Se quer saber, houve algo entre Persuinha e eu.

−O que houve?

−Perguntou−me o que eu queria insinuar com aquela introdução. Respondi−lhe que nada. Não sei se acreditou na minha sinceridade. Afastou−se e sentou−se no sofá, pensativa.

−O que quer dizer de ela ter ficado pensativa?

−Que ficou pensativa.

Ricardo se manifesta: planejavam extorquir o senhor Neri?

−... Planejamos ajudar a nossa amiga. − replica Juciana.

−Orquestrem em outro momento. Está frio.

−Está frio, Vivaldo. − diz Juciana.

Vivaldo retira o olhar que tinha em Juciana, saúda−os e o carro parte na semi−escuridão.

Vivaldo residia num pensionato.

O grande relógio da estação férrea de Jasmim marcava 8 horas e 30 minutos. Do trem, que havia parado, descera um grande contingente de pessoas. Vicente, no interior do oco comércio, é abordado por um homem que se desprendera do grupo e lhe pede cigarros. Ao entregá−lo pergunta o que estava acontecendo.

−Certamente não é daqui? − indaga o desconhecido.

−Não senhor.

O desconhecido fala da necessidade da construção da ponte sobre o Rio Jasmim. Facilitaria a vida da comunidade, bem como a vida dos comerciantes da cidade de Roseada. Cento e vinte quilômetros de estrada desapareceriam. A capital e Roseada e vice−versa ficariam mais próximas. Há dez anos houve um plebiscito. Mas foram vencidos por quase unanimidade. Os jasminenses alegaram descaracterização do rio e a invasão das terras que, a bem da verdade, não passavam de fedido mangue.

– ... O prefeito irá nos receber prometendo realizar um novo plebiscito. No entanto, se não pressionar, não passará de intenção. O senhor dever saber como é.

−Mais ou menos.

−Havendo o plebiscito, peço que vote a favor da construção da ponte... Foi um prazer. Dê−me licença que temos de ir. Tenha um bom dia.

−... Igualmente. − retruca Vicente.

Persuinha foi morosa, refletiu muito. Mas, desde que a encenação que fariam não envolvesse o nome dela nem o do filho, estava de acordo.

Vivaldo e Juciana conversavam em algum ponto da mata que circundava Jasmim. O vento agradável da gostosa manhã embalançava as folhagens.

−Tola por ter demorado. − comenta Juciana.

−Mas concordou.

−Está na bancarrota. É uma tentativa que faremos na esperança de conseguir extrair alguma coisa do fingido senhor Neri. A encenação, passará aquém da história do filho. Porém, obedecerá a semelhante modelo.

−Como será isso? − pergunta Vivaldo curioso.

−... Ricardo, ao chegar à estação férrea, vê que o poste já terá sido retirado de cima das pernas da garota. Assim, o doutor Gerson, agachado ao lado da menina, examinando−a, dirá que haverá necessidade de conduzi−la à capital para a amputação das pernas: os fêmures sofreram gravíssimo trauma interno. Ricardo, que se manterá próximo de Vicente, informará ao médico que será ele quem a conduzirá até a capital. Erguê−la−á nos braços e pedirá que alguém o acompanhe para ajudá−lo. Apontará para Vicente determinando−o que o acompanhe.

--...

--Posteriormente escreverei uma esperançosa e pequena carta endereçada ao senhor Neri relatando o ocorrido.

−A garota será a Cristina?

−Não existe melhor indicação.

−Imaginei... Doutor Gerson esperneou ao ouvir a proposta?

−Absolutamente. Fora o que Persuinha dissera: uma pessoa aberta. Ao contar−lhe o pretendido sorriu.

−Sabe que a imagem dele ficara pendurada.

−Pendurada por vida: alcoólatra.

−Especulou valor?

−Caso especulasse não o saberia informar. Não. Não especulou.

Vivaldo, observa as folhagens ao sabor do vento e Juciana diz:

−Quanto teci aquela não maldosa introdução, havia no meu íntimo o seguinte questionamento: se o senhor Neri blefava com a história de ser paralitico viria a toda na busca de um blefe, para livrá−lo do blefe que criou. Observava isso. Mas a minha intenção fora a de entreter Persuinha desenhando uma divertida imaginação.

−Persuinha já compreendeu... Vicente fará parte do dividendo caso isso aconteça?

−Até o presente momento não.

Vivaldo diz que toda a sua preocupação consistia no fato de não ter encontrado indício de farsa do senhor Neri. A perda dos movimentos fora causada por uma queda no banheiro da residência.

−Entenda...

−Já li a reportagem por diversas vezes, Juciana.

−Quer me ouvir? O senhor Neri, então deprimido por conta da suposta paralisia, faliu, quebrou e arruinou a Zunil. Os filhos Paulo e André a adquiriram. Óbvio que alguém perdeu. A Linuz, que é a mesma Zunil, nome registrado invertido. Livre e desimpedida de sócios, já começa a dar bons frutos. Voltará a ser como era antes, uma empresa familiar. Entende?

−Permaneceria o resto dos dias numa cadeira de rodas?

−Melhor ficar quietinho numa cadeira de rodas do que voltar a se locomover de ônibus, coisa que muito bem conhece. A largada será na quinta−feira.

−... Quinta−feira?

−Rezemos. Porque a encenação acontecerá num dia previsto de possível acerto.

Ricardo ri com a falta de fé.

−O que poderá dar errado? − pergunta.

−Tudo. Até mesmo o fato de o pneu da viatura estourar. Caso um imprevisto aconteça, não sei se haverá outra oportunidade para uma nova encenação. Portanto, rezemos.

Vivaldo medita por momentos, levanta−se e pergunta:

−Retornará comigo?

−O tempo está firme. Retornarei pelo mesmo caminho que aqui cheguei. Por entre a rica flora que circunda a cidade.

−Quinta−feira?

−Quinta−feira.

Juciana se ergue e segue nos passos, e Vivaldo caminha de encontro à viatura.

Vivaldo e Persuinha não participariam da encenação, porém, na noite de véspera do dia da encenação, ele, na residência da companheira, dormiria. Porque, embora Persuinha não fosse participar, sentia que algo a corroía.

−Acalme−se, Persuinha. − pede Vivaldo.

−Quanto mais diz isso mais agitada fico. Sinto−me como se estivesse traindo algo que não deveria ser traído.

−Como você exigiu e “empombou”, a encenação passará, em termos, ano−luz da história do seu filho.

−Eu sei, Vivaldo.

−Seria bom se nada disso estivesse acontecendo. Sinto−me também desconfortável, se quer saber. Porém, mais desconfortável ficaria, caso visse você querendo voltar a se erguer sem saber como, embora nomes estivessem à disposição. Mas, ainda assim, se sentiria insatisfeita porque as novas conquistas não estariam em seu nome. Viveria eu então assim com uma pessoa eternamente insatisfeita.

Como se a agitação tivesse desaparecido, Persuinha o olha e diz:

−Eu o amo. Dança bem com as palavras.

−Amo−a também. Não estou dançando com as palavras. Estou sendo sincero.

Ela o abraça.

−Que bom conhecê−lo.

−Acalmou?

−Creio que sim.

A bons metros distantes dali, Juciana, desforrando a cama, dizia que tudo teria de dar certo.

−Já imaginou o vexame se algo falhar? − cogita.

−...

−Que decepção, senhor... Nem é bom imaginar.

−Preocupo−me com o posterior. − confessa Ricardo.

−O que, por exemplo?

−Associarem fatos.

−Quem associaria fatos?

−Os senhores Murilo e Antunes. Associando, concluíram que algo cheira esquisito.

−Ora, Ricardo. São assíduos frequentadores das missas dominicais.

−Base de crédito?

−Claro que sim.

−...

−O que estaria cheirando esquisito? − pergunta ela.

−Recomposição de ossos ‘triturados’? Nem mesmo Jesus se atreveu a tanto.

Juciana balança a cabeça e replica:

−Ignorante é você, querido! Fique sabendo que Ele colocou a orelha de volta do sumo sacerdote Malco, quando Simão Pedro decepou-lhe a orelha. Isso está escrito na bíblia, no evangelho.

−Aconteceu isso?!

−Aconteceu, sim. Não recito o versículo por ter fugido da memória.

Ricardo fica pensativo e Juciana pergunta se era garantido que Coimbra estivesse próximo do serviço de rádio da delegacia.

−Dever dele: registrar queixa e atender ao rádio.

−Lembre−se: estará na rua quando será informado.

Ricardo suspira e se ergue pensativo.

Eram 8,30 horas da manhã, quando Ricardo, ao volante da viatura, sirene ligada, cruza as ruas a toda velocidade, rompendo a monotonia da cidade. Os transeuntes ficam assustados. Ricardo havia sido informado de um acidente ocorrido na estação férrea, e a missão que lhe cabia devia−se ao fato de a ambulância do posto de saúde se encontrar na Cidade de Rubin.

Ao chegar ao local, como Juciana, premeditou solidários homens já haviam retirado o poste que estava sobre as pernas da franzina garota. Agachado junto a ela, o pouco ético doutor Gerson a examinava.

−Meu Deus, como isso pôde acontecer?! − indaga aos céus uma senhora.

O doutor Gerson, por sua vez, balança a cabeça e afirma:

−Terá que ser conduzida até a capital. Os fêmures não suportaram a pancada. Foram seriamente afetados. As pernas terão de ser amputadas.

A multidão fica chocada. Naquele instante, Ricardo, que procura se manter perto de Vicente, apresenta−se ao médico e diz que seria ele quem a conduziria. O doutor Gerson autoriza que a levantassem. Ricardo a ergue nos braços e, ao conduzi−la para a viatura, fala da necessidade de ajuda. Determina, então, à pessoa que estava mais próximo: “o cidadão Vicente é o intimado”. Com o inesperado convite, Vicente olha para o seu comércio. Porém, o administrador da estação, que os seguia na retaguarda, diz que arriaria a porta do Box. Vicente adianta os passos, abre as portas do carro. Em seguida, Ricardo coloca a garota no banco de trás. Vicente entra e Ricardo assume a direção; liga a sirene e a viatura parte a toda velocidade.

−Que horror, meu Deus! Coitada da garota.

O retardatário e esbaforido Pitágoras: motorista, repórter, redator e proprietário da Gazeta Jasmim, surge. Quer saber do doutor Gerson o que havia acontecido. Responde que o poste condenado pelos poderes público havia tombado sobre as pernas de Cristina. A lama deveria ter contribuído.

−Olhe para o meu estado, Pitágoras... Já deveria está clinicando na cidade de Trim. − diz ele.

−O senhor...

−O trem se aproxima, Pitágoras... − enfatiza, dirigindo−se para a plataforma.

Pitágoras, com papel e lápis em mãos, caminhando por entre a abatida multidão, coleta as palavras do administrador da estação:

−São os pais da garota uns irresponsáveis. Residem no bairro de Galhas. Mas a peste da mal cuidada menina não arreda o pé daqui. Diariamente a expulso, mas é um “grude”. Soube que se exibia sobre o poste inclinado para uma mulher, de torço, vestida com trajes estranhos. Teria que retornar à quadra mais uma vez? Eu me acabaria assim. De repente, escutei gritos ao chegar à quadra lamacenta, já havia muita gente, inclusive o doutor Gerson.

Jasmim estava triste. A tida futura artista da cidade teria as pernas amputadas.

−Gosto da moleca. − era o que se ouvia.

Uma hora e quarenta minutos havia se passado, e Juciana fumava e consultava constantemente o relógio. Olhava impaciente através da janela a movimentação da rua. Eis que o telefone toca.

−Juciana, aqui é a Persuinha.

−Até o momento nenhuma notícia. − retruca Juciana.

−Receio de o doutor Gerson ter exagerado na dose. São pensamentos.

−Garantiu que seria ínfima.

−Grogue demais, os médicos poderão avançar nos exames vindo a descobrir que está sedada.

−Não me avexe mais do que já estou, Persuinha.

−Conversa de uma também avexada, criatura.

−... A garota é por demais querida. − comenta Juciana.

−Muito. Todos a conhecem. Exibidinha...

No entanto, Juciana lhe pede que silencie e observa as duas jovens moradoras da residência em frente: haviam deixado a moradia em desabalada correria e anunciavam para o mundo que Cristina estava bem. Tudo fora engano.

−Ela está bem! Cristina está bem! − gritavam.

Outras jovens juntam−se a elas e começam a pular festejando. O irmão das garotas da residência em frente, um menino de cinco anos de idade, surge imitando−as. Porém, por ter certamente escutado de algum adulto, correndo e pulando nos curtos saltos anunciava:

−Pernas de aço. Está bem!... Pernas de aço. Está bem!...

Juciana retoma a fala e comunica:

−Persuinha?

−Pode falar.

−Festejemos. Pernas de aço está bem. Tudo fora engano.

−Pernas de aço?!

−Assim escuto da garotada vibrando aos gritos.

Cristina, apesar de inquieta, era querida. O número de pessoas em clima de festa que a aguardava era impressionante. Ricardo, através do rádio, já havia sido informado da calorosa recepção. A qualquer momento a viatura apontaria numa das esquinas da praça. Persuinha e Juciana, que faziam parte da multidão, vez por outra, se olhavam em razão dos comentários.

−Só pode ter sido milagre. − diz uma mulher.

−O que pode se esperar do doutor Gerson? − retruca um homem que estava a seu lado.

−Vez por outra, acerta. − afirma a mulher.

−Depende do horário.

−O acidente ocorrera por voltada das 8,30 horas.

−Álcool é o seu desjejum.

−Implicância.

Persuinha e Juciana se olham com expressões. A viatura surge e o pipocar de fogos se inicia.

Anoitece e, se ainda havia alguma festividade, deveria ser no Bairro de Galhas.

Juciana está sentada à mesa da sala munida de papel e caneta.

−Redigirá a carta? − pergunta Ricardo.

−... Sim...

Ricardo passa a girar em torno da mesa.

−Vicente aparenta ser um bom sujeito. Acariciou os cabelos de Cristina até a capital. Um médico quis saber se tínhamos algum parentesco com ela. Identifiquei−me e contei o ocorrido. Disse−me que parecia estar sedada. Porém, o telefone tocou, foi atender e não mais retornou... Por um triz... Ainda estava grogue quando chegamos. Seus pais ensaiaram exemplificar a não ser fujona e tive que interferir. Vicente a colocou no quarto e ficou acariciando os negros cabelos dela até dormir.

−Por favor, Ricardo. Preciso me concentrar.

−Tudo bem.

Juciana concentra−se e inicia:

“Prezado senhor Neri. Quem escreve essa singela confidência é Juciana, moradora da cidade de Jasmim. Ainda encontro−me perplexa e aposto que o senhor também ficará. Sou esposa de um honrado policial. Contou−me que, ao transportar para a capital uma garota, vítima de um acidente, cuja recomendação médica apontava para amputação das pernas, próximo do destino viu, em dado momento, através do retrovisor interno da viatura, o homem que os acompanhava colocar uma das mãos sobre as pernas da garota, fechar os olhos e orar. Ato de fé. Assim julgou. Porém, na capital, os médicos, ao examiná−la, constataram ter sido mero equivoco. Como explicar? Li na revista Momento o seu angustiante desabafo. Então, sensibilizada com o seu relato, senti-me na obrigação de confidenciar. Forneço−lhe o número do meu telefone e peço−lhe que, antes de qualquer providência, que me contate. Porque as pessoas dotadas de poderes sobrenaturais são extremamente reservadas.”

Finalizando a missiva, lê e se dirige ao esposo.

−... Podia ser melhorada. − opina Ricardo, depois de ouvir o texto.

−Entenderá o que eu quero dizer. Amanhã depositarei nos correios.

Quinze dias se passaram e nenhuma manifestação do senhor Neri. Juciana encontrava−se no imenso mercado de propriedade de Persuinha, o qual, falido, parecia, pelo aspecto, que havia sido saqueado.

−São apenas dias concedidos, Juciana, nada mudará.

−Quantos dias concederam?

−Sessenta dias. Não concedidos através do esforço do meu advogado: esmoreceu. Um tonto de um juiz que concedeu. A razão desconheço. Sinto−me amargurada, perdida e vazia, a ponto de dizer que seria melhor se estivesse condenada à morte.

−Não diga isso, amiga.

−É verdade. Viva, estará um passado presente requebrando sob as minhas vistas. Será doloroso.

Um bimotor fazia trabalho de reconhecimento para descer no campo de pouso. Persuinha prontamente deixa a máquina registradora e sai à porta. Olhando para o céu, pergunta a Juciana que, ao seu lado, a imitava.

−... Será que é ele?

−... Por que suspeita?

−Longe de temporada de festa e distante do calendário político.

−Jasmim só avista tal engenhoca em tais ocasiões?

−Ou quando alguma aeronave de fazendeiros da redondeza entra em pane.

−... Já presenciou alguma bicar o chão?

−Por favor, Juciana.

−Para descontraí−la.

O bimotor havia desaparecido da observação das duas amigas. Ao reaparecer numa menor altitude, dava para ler nas laterais da fuselagem o nome do proprietário da aeronave: NERI.

−Santo Cristo! − balbucia Juciana.

Persuinha, que havia confessado que seu estômago sofrera um mal- estar, diz que não podia deixar o triste mercado mais abandonado do que já estava.

−Irei vê−lo. − prontifica−se Juciana.

Ao chegar ao campo de pouso, havia curiosos presentes. O aparelho já tinha taxiado e encontrava−se parado. Para a sua indignação, avista um veículo se aproximar: Gazeta Jasmim.

−Não é possível! − diz para si.

A aeronave adaptada atendia às condições físicas do proprietário. O vento soprava forte. Uma esbelta senhora, que já havia descido, mão sobre a cabeça, impedia que o vento lhe roubasse o elegante chapéu. A cadeira de rodas motorizada, então em solo firme, girava vagarosamente e a esbelta senhora passa a caminhar ao lado. O piloto, que havia prestado significante ajuda, fica para trás. Pitágoras, munido de papel e lápis, se aproxima. O senhor Neri estende−lhe a mão. Ambos conversam brevemente. Um automóvel robusto avança na área restrita e para. Momentos depois, ao partir, o único sobrevivente da mágica foi o Pitágoras.

−...!

Juciana, na delegacia, precisamente, na sala do delegado, afirma:

−O homem é realmente paralítico.

−Acalme−se, Juciana. − pede o esposo.

−O mais drástico, conversou com Pitágoras.

−O que conversaram? − indaga Ricardo.

--Estava omissa na vegetação igual ao Camboja, Ricardo.

−Persuinha já sabe? − quer saber Vivaldo.

−Vimos o bimotor chegar.

−... Pitágoras especulado... − balbucia Vivaldo meditando.

−Faz parte do ofício recepcionar visitantes. − entoa Ricardo.

Vivaldo quer saber:

−Pitágoras, que estendeu a mão para Neri, ou fora este senhor que estenderá a mão a Pitágoras?

−O senhor Neri que estendeu a mão para o Pitágoras.

−Comunicaram−se. − conclui Ricardo.

O senhor Neri havia chegado pela manhã. E Juciana estava ansiosa, pois até aquele presente horário, 20 horas, o aguardado senhor não havia mantido nenhum contato. No entanto, o telefone toca e ela atende.

−Senhora Juciana?

−Ela!

O senhor Neri cumprimenta-a e diz que se encontrava em Jasmim, hospedado no hotel que leva o nome da encantadora cidade. Agradece e, volta a agradecer. Agradece de novo e exalta a compaixão e a espiritualidade dela. Depois de reiterar o agradecimento, solicita que compareçam ao hotel onde os estaria aguardando.

−Às 21 horas, senhora.

−... Combinado, senhor Neri. − enfatiza.

Ao desligar o aparelho, lentamente e pensativa, tinha as sobrancelhas unidas. Ricardo adentra e ela diz:

−O senhor Neri acaba de telefonar. Encontra−se hospedado no Hotel Jasmim. Agradeceu, agradeceu e agradeceu. Colocou a minha compaixão e solidariedade lá no alto e, depois de agradecer mais uma vez, disse que desejava nos receber às 21 horas.

Ricardo olha para o relógio sobre a peça e diz que iria se preparar para visitá−lo.

−Qual o motivo da cara esquisita? − pergunta ele.

−Reagiu contrário à minha expectativa.

−Como imaginou que seria?

−Não dessa forma.

Ao chegaram ao hotel avistam Pitágoras na recepção acomodado numa das poltronas; trocam olhares e se dirigem ao atendente. Este solicita os seus respectivos nomes.

−Ricardo e Juciana.

O atendente consulta o livro e diz:

−De fato. O senhor Neri os aguarda. Encontra−se hospedado na suíte 608.

Assim dizendo, aponta gentil para o elevador.

O elevador encontrava−se no oitavo andar.

−Viu o sujeito? − pergunta entre os dentes, Juciana.

−Vi.

−O que será que faz aqui?

−Entrevistá−lo.

−Teve todo o dia para entrevistá-lo.

O elevador estaca. Eles desaparecem no seu interior e Pitágoras se dirige ao atendente e pergunta:

−O senhor Neri mencionou quem seria o casal?

−A senhora Juciana acompanhada do marido.

−Eu sei quem são eles. Detalhe que eu quero.

−Nada mencionou.

Ricardo aciona a campainha. Segundos depois, a porta é aberta pela mulher que receava de que o vento lhe roubasse o chapéu.

−Entrem. − convida afável.

... Avistam então o senhor Neri num aconchegante ambiente, numa cadeira de rodas e um manto sobre as pernas.

−Sentem−se... − sugere ele com a mesma gentileza.

A mulher indica onde eles se sentariam e acomoda−se em uma da poltrona.

O senhor Neri os encara por longo tempo e diz que estava maravilhado com o poder sobrenatural do senhor Vicente. Aquele não era o nome dele?

−...

−Agradeço−lhe mais uma vez, senhora, fora bastante gentil. − diz ele.

−... Um dever... − replica Juciana sentindo a boca secar.

Continuando, o senhor Neri diz que mantinha o nome em sigilo.

−Nem mesmo o senhor Pitágoras sabe. Mas será fácil saber quem é.

−...

Diz o senhor Neri que o ato será realizado sobre um palanque instalado numa praça. A esposa e ele estavam cuidando das providências e, assim que eles se retirassem, o senhor Pitágoras subiria, oportunidade em que entregaria para que fosse publicada na Gazeta Jasmim a correspondência que ela lhe havia endereçado.

−...

−Sente−se bem, senhora? − pergunta a mulher ao perceber palidez no rosto de Juciana.

−... Estou bem, sim... Sinto−me bem.

O senhor Neri ainda diz que estava convencido de que não estava sendo inescrupuloso. Sentia−se grato pela gentileza, presteza, atenção, compaixão e solidariedade as quais ela dispensou.

−Assim que me livrar dessa infeliz cadeira, senhores, eu os convidarei para o jantar.

−...

Ao deixarem o elevador, cujo foco parecia não haver outro, a não ser o chão, e ao cruzarem a portaria, Pitágoras abandona a poltrona e se dirige ao atendente. Então, ao ar livre, caminhando de encontro à viatura de uso exclusivo do delegado, a qual se encontrava estacionada discretamente, Ricardo não resiste:

−Meu Deus, Juciana.

−...

A porta do lado do carona explode. O carro em movimento, Juciana arria o vidro, coloca a cabeça do lado de fora e, voltada para o iluminado Hotel grita:

−Convide a puta da mãe para jantar!

Na residência de Persuinha, Juciana, desfeita sobre o sofá, tinha as vistas distantes. Ricardo relata o episódio.

−... Que vexame... − diz Persuinha levando a mão à testa.

−Senti−me deste tamanho. − ilustra Ricardo com o indicador e o anular.

−Assumam a responsabilidade da zombaria em que tentaram me envolver... −Interpreta Vivaldo o episódio.

Persuinha pergunta a Juciana se aceitava água.

−... O filho da puta não é paralítico... − replica Juciana.

Ricardo a repreende:

−Ainda insiste com isso, Juciana?

−... Deseja a realização de um ato público para que todos tomem conhecimento. Não há como reclamar na Justiça da bênção de um milagre.

−Quem reclamará na Justiça?

−Os acionistas que foram lesados.

−Nos roubou o Vicente. − observa Ricardo.

Vivaldo e Persuinha concordam. Juciana pergunta:

−Viu como se posicionaram, Ricardo? Estratégicos? Girava-a, no mínimo, e, nos olhando dizia: coitados dos caipiras. Querem nos golpear. Não duvido de que o Vicente já tenha sido embolsado. No entanto, daremos o troco.

−Que troco? − quer saber Ricardo.

−O delegado Vivaldo prenderá o Vicente.

−Por qual motivo? − pergunta Vivaldo.

−Assim que a minha correspondência se tornar pública, o Vicente deverá ser preso. Quero ver para onde vão.

Vivado medita e sugere:

−Prendê−lo, não. Recolhê−lo, antecipadamente.

Ricardo o apoia e diz:

−‘Reside’ no Box. Na madrugada, nós o visitaremos.

Juciana quer saber onde ficaria recolhido.

−No cartório. Só o Vivaldo tem acesso.

Vivaldo acende o cigarro e concorda.

−... Quero ver para onde vão... − reforça Juciana a ideia.

−Ficaram encurralados. − diz algum deles.

Quando os relógios espalhados pela pequena cidade de Jasmim marcaram 8 horas e 45min, auge em que a matéria publicada pela Gazeta Jasmim adquiriu robustez, o que se via de cego, paralítico, manco e expressiva massa de necessitados correndo desesperados para a estação férrea foi algo assustador. Pois, a matéria não deixava dúvida de ter sido Vicente quem seguira com Ricardo.

−Cadê o Vicente? − perguntavam diante do Box.

Então aquela massa diante do Box pertencente a Vicente, cuja via férrea o beirava, os trilhos pareciam não representar perigo. O administrador da estação, ao avistar aquilo, correu para o escritório e, através do serviço de telégrafo, informou que nenhuma locomotiva deveria se aproximar da estação de Jasmim.

–Cadê ele? − perguntavam.

Por sua vez, na suíte 608 do Hotel Jasmim, o senhor Neri era repreendido pela esposa.

−Viu você! Tiro pela culatra.

−Filhos da mãe!

−Nós os subestimamos. Tiraram o tingido de circulação. Agora estará você à mercê deles. Ainda bem que o sujeito não pediu adiantamento.

−...

−E agora? − quer saber ela.

−... Burrada... − lamenta o senhor Neri.

Havia alguém na porta. O senhor Neri ajeita a postura e a esposa vai atendê−la. Um empregado do hotel adentra e, depois de cumprimentá−los, diz:

−O proprietário da Farmácia Jasmim, senhor Antunes, respalda o poder do senhor Vicente. Alex, excelente rapaz que conheci, filho da senhora Persuinha, suicidou−se. Então, o senhor Antunes conta que, momentos antes da tragédia, o avistara passar à porta do seu estabelecimento com roupas rasgadas e sujas de sangue. Perguntou−lhe o que havia acontecido, apontara para o céu e afirmara que Ele o tinha reconstituído. Assim, o senhor Antunes, associando os fatos, crê que tinha sido o Vicente. A versão tem aval do senhor Murilo, testemunha dos momentos que antecederam ao suicídio do rapaz.

O senhor Neri ficou boquiaberto e a esposa agradeceu o mensageiro.

Retirando−se, ela festeja:

−Ótima notícia! Ótima notícia!

−...?

−Entendeu, Neri? − pergunta ela.

−... Mais ou menos...

−A história dos caipiras, embora altamente suspeita, tem respaldo. Respaldara−nos muito.

−... Será que nós tentamos comprar a pessoa errada? − questiona ele.

−Por favor, Neri. Conversa de jovem embriagado. Começo a unir pontas.

Pitágoras comparece à delegacia e, ao procurar saber sobre o paradeiro de Vicente. Ricardo, pergunta se desejava registrar queixa.

−... Não... É o meu dever esclarecer a verdade dos fatos.

−O nosso, o de apurar denúncias. Existe alguma suspeita?

−... Não.

−Havendo, favor nos procurar.

Pitágoras o olha e se retira. Vivaldo surge e convida Ricardo a comparecer a sua sala.

−... O prefeito telefonou−me. O governador reclama da interrupção do trânsito férreo. Telefonarei para o administrador da estação solicitando que os alto−falantes anunciem que o Vicente foi visto em Seiva. Deslocaram−se para lá.

−Em Seiva, só existe relva.

−Local perfeito e ideal para o Vicente. Porque assim farei. Para desbloquearam a via antes que o secretário de segurança nos afaste ou até mesmo envie um inspetor, o que seria pior.

−Brilhante ideia.

Vivaldo lança mão do telefone. Ricardo, antes de sair, fala da visita de Pitágoras.

−Registrou queixa?

−Não.

Os trilhos iam gradativamente se esvaziando. A multidão, maciçamente, se dirigia para Seiva.

No final da tarde, Persuinha telefona para Juciana manifestando preocupação: o prefeito seguido do capelão posicionava−se contrário à realização do ato idealizado pelo senhor Neri. Dissera que a cidade de Jasmim não seria palco de malabarismo. Afetaria a credibilidade dos moradores.

−Como os conheço, Juciana, posso garantir que nem mesmo aquilo os faria mudar de ideia.

−Impenetráveis assim?

−Caso o juiz não estivesse de férias, seria mais um que manteria igual posicionamento.

−O que podemos fazer se são assim?

−A situação está travada. − opina Persuinha.

−Nem tanto, Persuinha. O senhor Neri terá de me procurar. Penso em realizar o ato além dos limites da cidade. Inicia−se vasta e infinita área de propriedade do estado. E somente o estado é que poderá intervir. Como será um ato breve e passageiro, assim que o estado se rebole para intervir, o ato já foi realizado.

−Não desiste mesmo da convicção de o senhor Neri não ser paralitico.

−Não. Aguardo que me telefone. Terá que telefonar e, quando telefonar, valorizarei a impossibilidade da realização do ato. No entanto, deixando margem de esperança.

Persuinha questiona como seria a reintrodução do Vicente.

−Venho matutando.

−Nada definido?

−Ainda não.

Persuinha pergunta como as pessoas a olhavam.

−Uns desconfiados, outros não. Mas a solidez da história, Persuinha, está assentada no relato do senhor Antunes.

Há silêncio.

−Deveria ter dado melhor atenção ao Alex. − confessa Persuinha. Pede desculpa e desliga.

Nas primeiras horas da noite, a esposa do senhor Neri, com cara de tempestade, caminha lado a outro na espaçosa suíte.

−Não pretendo ficar por muitos dias aqui. Dois a três dias a mais extrapolariam o meu limite de suportar o ócio. Você sabe que não sou de ficar olhando para o teto. Quanto mais a história se prolongar de mais oxigênio carecerá. Só faltou essa dos donos da cidade manifestarem−se contra a realização do ato. Trate de achar solução.

−...

−Por que não liga para a senhora Juciana? – sugere.

−Para dizer o quê?

−O quê desde o início desejou ouvir. E que agora certamente terá de ser estendido para os durões. Liga para a caipira e desempaca isso.

O senhor Neri medita e se apodera do telefone.

−Senhora Juciana?

−O senhor Neri. Reconheci a voz. − replica Juciana.

−Magoada?

−Ora, senhor Neri, em se tratando de comércio, não pode haver mágoa.

−Fico feliz.

−Que bom!

−Queira corrigir−me, caso esteja equivocado.

−Com o maior prazer, senhor.

−Fui informado de que tanto o prefeito quanto o capelão se manifestaram contrariamente à realização do ato.

Juciana expressa lamento e diz:

−É verdade, senhor Neri. Manifestam−se contra. Se o Juiz não estivesse de férias, seria outro que teria o mesmo posicionamento. Trabalham num só coro. A nossa comarca, no momento, encontra−se sob jurisdição da comarca de Trim, cujo juiz, até a presente hora, não se manifestou. É assim, que essas comarcas procedem em se tratando das férias dos juízes. Mas o que o senhor deseja?

−A realização do ato.

−Sobre o palanque instalado numa praça?

−Sim.

−Acabei de explanar a situação, senhor Neri. Foi o senhor que destruiu tudo. Divulgou a minha correspondência e, sem nenhuma autorização, disse que o ato se realizaria numa praça.

−A senhora acabou de dizer que não está magoada.

−É verdade.

−Por favor, senhora.

−... Tentarei convencê−los, senhor. Mas antecipo que a chance de vitória é praticamente nula, principalmente em razão da sensibilidade da coisa. Como lhe disse, trabalham num só coro. Então, convencida estou de que a palavra que prevalecerá será a do prefeito, isso porque tem como berço uma família numerosa e altamente religiosa. Assim, descarto falar sobre os princípios do capelão. Mas não se preocupe, pois tentarei convencê−los.

−A situação desgastará caso seja protelada.

−Naturalmente que eu sei. Até o papa poderá intervir.

−Tente, senhora.

−Usarei de tudo na tentativa.

–Esforce-se e me fale.

−Esforçar e falar?!

−Sim.

−Esforçar−me−ei e falarei, senhor Neri.

O senhor Neri olha para a esposa e diz:

−Necessito disso, senhora.

−Só os tolos que ignoram, senhor.

Juciana desliga o telefone. Arruma a mesa para o jantar. Ricardo adentra, saúdam−se e, momentos depois, Ricardo após ter tomado um banho, e com novas vestes, senta−se à mesa.

−Como está a situação lá fora? − pergunta ela.

−Com o Vicente desaparecido, apenas conversas nas esquinas. Em que está pensando? A cara revela.

Juciana aborda a ideia que tivera de realizar o ato fora dos limites da cidade. E conta que o senhor Neri telefonou, agoniado, implorando pela realização do ato.

−... Verdade?!

−Absoluta. Inclusive sinalizou.

−Você estipulou?

−Ainda não.

−Então não é paralítico.

−Ora.

Juciana diz que, tão logo jantassem, telefonaria para Vivaldo e Juciana contando−lhes sobre a acertada novidade.

−O senhor Neri já sabe que o ato será realizado fora dos limites da cidade? − pergunta Ricardo.

−Óbvio que não. Para todos os efeitos estou em negociação com os senhorios. Logo mais direi que foram irredutíveis. Porém, o ato será realizado fora dos limites da cidade com palanque e público, como assim deseja.

Ricardo engole e pergunta como seria a reintrodução do Vicente.

−Ainda não sei. Pedirei ao senhor Neri para que amanhã, pela manhã, conceda entrevista à Radio Jasmim e diga que, a partir das 21 horas, estará sobre o palanque aguardando a vinda dele para libertá−lo da cadeira de rodas.

−Criará suspeita.

−Conforme seja reintroduzido, creio que não... É o que venho tentando idealizar.

Juciana cumpre o prometido, informa a Vivaldo e a Persuinha as novidades. Assim feito, eis que o telefone toca.

−Senhora Juciana? − escuta.

−Sim...

O desconhecido se identifica como Rubem Contrin, herdeiro proprietário do antigo e abandonado espaço denominado Jasmim Clube. Estava acompanhando a história. Então, como havia surgido impedimento para a realização do ato, colocaria o Jasmim Clube à disposição. Caso não o conhecesse, garantia que atendia às expectativas, pois havia um campo de futebol. Tratava−se de uma área particular, portanto eles não teriam como impedir, já que a proposta era a realização de um ato curioso. Não havia observado venda de ingresso e nem muito menos cogitação do nome do Supremo. Colocaria o número do telefone à disposição para qualquer eventualidade. A palavra estava firmada. A partir daquele momento o Jasmim Clube estaria à disposição dela pra a realização do ato.

−Anotei o número senhor Rubem Contrin. Por demais agradecida.

−Não há de que, senhora.

Dirige−se ao esposo. Ricardo conversava na varanda com vizinhos. O assunto não poderia ser outro. Esquiva−se. Porém, momentos depois, Ricardo a procura. Conta do recente telefonema.

−Persuinha deve saber de quem se trata. É nativa de Jasmim. − orienta ele.

Juciana lhe obedece.

−Contrin?! − reage Persuinha ao ouvir o sobrenome.

−Qual o motivo do espanto? − pergunta Juciana.

−Emoção. Vieram em mente histórias narradas pelos meus pais vividas na infância.

−Remoto assim, Persuinha?

Foram os Contrins prósperos agricultores. A cidade vivia em torno deles. A orla do Rio Jasmim, então abandonada. Infraestrutura de um parque embebido pela flora, com trilhas e acomodações que encantavam turistas e os nativos da cidade, então abandonada. Serviços básicos e essenciais, também abandonados. O Jasmim Clube, desassistido por completo. E festas populares, muitas perdidas no tempo. Eram mantidos e custeados por eles. Porém, com o surgimento de uma nova dinâmica de vida, somada a maldosas conversas, desfizeram-se da plantação e, com diferente comportamento, foram se instalar em outro estado.

−Emocionada, Persuinha?

−Revivo felizes recordações de meus pais... Segundo eles, os Contrins eram pessoas maravilhosas. São os donos do projeto da ponte sobre o Rio Jasmim.

--Projeto estagnado.

--Sim.

−Bem, Persuinha. O senhor Rubem Contrin colocou à disposição o Jasmim Clube para a realização do ato.

−O ‘campo raiz’ que cedera.

−Desconheço o que seja.

Persuinha explica que o Jasmim Clube fora construído no ‘campo raiz’, uma imensa área de propriedade dos Contrins. No ‘campo raiz’ é que os jogos de futebol eram realizados. Posteriormente, construíram o Jasmim Clube, em ruínas. Mas o campo de futebol em si, de metragens oficiais, permanecia vivo.

−Então, Persuinha, é no ‘campo raiz’ que o ato será realizado. Trata−se de uma área particular. Não haverá atentado ao pudor e nem muito menos menção ao Santíssimo, portanto não haverá retaliações.

Persuinha disse que estava ansiosa para que tudo logo terminasse. A todo o momento havia alguém à porta indagando coisas e era desgastante.

−O que, por exemplo, Persuinha?

−Se Alex havia contado coisas além das narrativas dos senhores Antunes e Murilo. Nego para não envolver o santo nome em vão.

−Faz bem, Persuinha.

−Quanto à família Contrin, imaginei que tivesse sido extinta. Era composta de poucos membros.

Finalizado o diálogo, Juciana telefona para o senhor Neri.

−Senhor Neri − diz ela − caso o senhor Vicente seja encontrado, o ato acontecerá no ‘campo raiz’.

−Caso o senhor Neri seja encontrado?

−Sim.

−O que falta para que o senhor Neri seja encontrado, senhora Juciana?

−...

−Quanto, senhora?

−Um milhão de dólares, senhor.

−... Disponibilizarei.

−Antecipadamente o disponibilizará.

−Como queira, senhora.

−Bem, senhor Neri, solicito que conceda entrevista à Rádio Jasmim. Amanhã, pela manhã, ao conceder a entrevista, diga que, partir das 21 horas, estará no palanque instalado no ‘campo raiz’. Aguardando pelo senhor Vicente. Mas isso, senhor Neri, dosado de criatividade.

−Tudo bem, senhora.

O senhor Neri, ao colocar o fone no gancho, tem uma pergunta da esposa:

−Quanto?

−Um milhão de dólares.

−Temos tal importância no cofre?

−Temos.

−Irei à capital buscá−lo. − prontifica−se a esposa.

−Poderíamos...

−Não, não. Nem mesmo. − ela descarta.

A entrevista concedida pelo senhor Neri à Rádio Jasmim obedecia às instruções de Juciana. O capelão, que se encontrava reunido com o prefeito, em que Pitágoras se fazia presente, diminui o volume do rádio sintonizado na respectiva emissora e diz:

−O ato acontecerá. Há um caminhão no ‘campo raiz’ descarregando madeira. Há também profissionais para erguerem o palanque.

−Telefonei para Baio Contrin. Ele confirmou que não se tratava de invasão. Cederam de fato o ‘campo raiz’. − conversa o prefeito.

−O que apoiam? − pergunta Pitágoras.

−Charlatanismo também faz parte da especialidade deles. − responde o capelão.

O prefeito o olha reprovando a acusação e diz:

−O que me deixa intrigado é que, em nenhum momento, escutei afirmação ou insinuação de o Vicente ser o Redentor. Se fosse picaretagem nata, é evidente que seria apresentado como sendo o Redentor.

Pitágoras diz:

−O que o Alex teria contado à mãe? Não se sabe. Unindo as peças do quebra−cabeça, obtive apenas fatos que se encaixavam. A reportagem sobre o senhor Neri, publicada na revista Momento, é antiga e antecede ao suicídio do rapaz. O delegado Vivaldo e seu auxiliar só vieram transferidos em razão do falecimento do delegado Castro. O senhor Vicente só conseguiu arrendar o Box em razão de o filho do proprietário ter ganhado volumosa quantia na loteria. Para completar, os senhores Ricardo, Vicente e a garota estiveram realmente no Pronto Socorro da capital. Pormenorizei cada detalhe, porém não obtive nada que levantasse suspeita.

−Especulou a vida do senhor Neri?

−É aquilo... Como aparição de visagem.

−Conversou com Cristina?

−Não disse coisa com coisa. O que ela sabe fazer é dançar e imitar apresentações. Difícil conversar com a garota.

−Mas o doutor Gerson é peça duvidosa. − aborda o prefeito.

−Assim que tudo for consumado, farei aprofundada investigação, pois sempre deixam rastro. Então escreverei uma matéria relatando tudo, do início ao fim.

−Cuidado para não ser surpreendido. − adverte o prefeito.

−Com quê?

−Não sei.

O ajudante de ordens pede licença, adentra e diz que as rádios dos municípios vizinhos começam a divulgar o evento.

−Logo mais me reunirei com auxiliares, recomendarei que confeccionem placas apontando para o ‘campo raiz’.

O mensageiro indo o prefeito diz:

−Será um inferno.

−Não tem como impedir? − indaga Pitágoras.

−Impediria caso mantivessem o desejo de realizarem o ato numa das praças da cidade. Não é o que acontece. Além do mais o que nós temos? Acusação de um homem implicado em dois fenômenos sobrenaturais: num indiretamente e supostamente envolvido, o caso do jovem Alex. Porque a história é contada pelos senhores Antunes e Murilo, e noutro também indiretamente envolvido, o caso da história da senhora Juciana.

O capelão balança a cabeça dando−lhe razão.

Juciana, ao telefone, dizia:

−Persuinha, o palanque terá um metro e noventa de altura e 4 X 4 metros de piso. Ao fundo, voltado para a mata, haverá uma rampa em dois lances. Quando o senhor Neri se erguer da cadeira de rodas, ordenado pelo senhor Vivente, fogos de artifícios acondicionados à frente do palanque pipocarão. Uma cortina de fumaça se erguerá. O Vicente então escapará pela rampa a qual servirá para o senhor Neri acessar o piso. Porém, Persuinha, o grande dilema é como reintroduzir o Vicente. Penso nas seguintes hipóteses: de o Vicente visitar a construção do palanque e, num tom superior, dizer que às 22 horas estará sobre ele mostrando o seu poder. E a segunda hipótese será eu, disfarçada, contar a Janjão que o Vicente se encontra na delegacia. Você sabe: Janjão, tomando conhecimento de algo, o mundo inteiro logo estará informado.

−Ambas deixarão margem de suspeita, Juciana. Até mesmo de o ato terminar em massacre.

−Assusta−me.

−Já que o senhor Neri estará o aguardando no palanque, por que o Vicente não surgir...

−Bem iluminado, Persuinha... Bem iluminado... Surge no palanque, através da rampa, que, ao fundo, só há vegetações.

−Perfeitamente.

−Agradecida, amiga. Por demais agradecida.

Persuinha então diz que Vivaldo lhe havia contado que, desde que Vicente fora recolhido, não dissera uma única palavra.

−Mudo ainda continua.

−Redigindo?

−Tal fase já passou. Agora decora o que redigiu. Assim aparenta: “pra” lá e “pra” cá, balbuciando.

−O que será que redigiu?

−Quem sabe. Mas tanto o Ricardo quanto o Vivaldo o advertirá para não falar asneira.

−Vivaldo também me contou que não se opôs a nada quando vocês falaram da missão.

−Vivaldo conversa bastante com ele. Em nada se opõe, fica nos olhando pensativo.

−Quem seria ele, Juciana?

−Quem sabe. Certamente algum perdido procurando um caminho para seguir.

Persuinha pergunta se era sua amiga.

−Claro que sim, Persuinha.

−Seja sincera e me responda. O Vicente nunca mencionou de ter sido ele que retirou o Alex da via férrea?

−... Não, amiga.

−Corroí−me.

Juciana diz que Vicente ainda não tinha se posicionado sobre o recebimento daquilo. Do montante, seria dez por cento dele e dez por cento do doutor Gerson. O restante seria deles. A esposa do senhor Neri logo repassaria. Seria numa embalagem de geladeira da qual estavam carentes, entregue por certa loja.

−O Vicente será estúpido de não aceitar. Acredito que carrega derrotas.

−Pode ser. Numa peleja incrível para instalar uma “biboca”. – enfatiza Juciana.

Vivaldo concedia entrevista à Radio Jasmim.

−De quantos policiais dispomos? O nosso quadro efetivo é composto de seis policiais. O policial Ricardo e eu, fixos no horário administrativo, e os quatro policiais restantes revezando−se em horários diurno e noturno. Porém, todos estão avisados, inclusive o próprio policial Ricardo que, havendo conhecimento da presença do senhor Vicente na cidade, que me comuniquem imediatamente. Entretanto, comunicar−me para quê? Não existe acusação formal ou informal contra o cidadão, senhor Vicente. Todavia, caso a população esteja harmoniosamente de acordo, podemos, arbitrariamente, expulsá−lo da cidade.

−Que não esse o desejo da população.

−Perfeito.

−Como o senhor observa a promessa do ato?

−Na reportagem exposta na Gazeta Jasmim, o senhor Neri diz que viera atraído pela fé. Isso por conta de uma correspondência que lhe foi enviada pela senhora Juciana.

−O que o senhor pensa em relação ao aguardado ato?

−Do mundo se dividir em dois distintos e semelhantes comportamentos.

−Como assim?

−Crê, como verdadeiro, seja no que for, agrega campos ou charcos.

−Convencido disso?

Vivaldo entende o grau da pergunta.

−... Absolutamente. − responde.

Juciana já havia recebido a encomenda. A cada momento, o ‘campo raiz’ tornava−se menor. O senhor Neri arrumava−se para dirigir−se a ele. E Persuinha estava ansiosa.

−Será que vai dar certo, amiga?

−Vai. Já se aprontou?

−Já.

O palanque fora instalado na cabeceira norte do campo. Eram 21horas e 40 minutos. Sobre o iluminado palanque estava o senhor Neri, acomodado na cadeira de rodas, e a esposa ao lado. Já havia mais de cinquenta mil pessoas presentes ocupando o campo de futebol em si e as precárias arquibancadas. Pitágoras, o prefeito e o quarteto, faziam parte da multidão. Vicente havia prometido ser solícito. O ato seria breve. Aliás, não tinha como se estender.

−Já deveria ter surgido. − cochicha Persuinha.

Vicente surge, o silêncio torna-se assustador. Milhares de olhares são depositados sobre ele. Olha para o casal e se dirige ao microfone. Medita. Procura encarar o público.

−...!

Introduz:

Havia um campo de orquídeas. Certo dia, o campo fora separado por um rio de águas turvas. As orquídeas de um dos lados, por alguma razão, mantiveram−se como antes. Mas as orquídeas, do outro lado, também por alguma razão, não. Eram irmãs e eram felizes, algo teria que ser feito. Até porque nem mesmo os ratos são indiferentes. Então as orquídeas do lado não abalado, ao compreenderem o que acontecia, reuniram−se e decidiram sugar toda a água do rio e assim o campo voltou a ser como antes.

-...!

Também ouvia dizer que os mil habitantes de certa cidade eram servidos por mil cavalos dispostos no pasto. Porém, um dia, homens reuniram−se e questionaram sobre a necessidade de aumentar o número de cavalos para atender os seus interesses. Estabeleceu−se então, que, a partir daquele momento, os animais não mais serviriam a todos, e quem infringisse a nova regra seria punido pelo Senhor que habitava nas montanhas...

−...

−Então assim é a vida... Em verdade vos digo: sob a cruz, importante tesouro se esconde. De dia, vigiada por expressivos números de turistas e, à noite, por cães.

−Meu Deus, Juciana! − espanta-se Persuinha.

Dirige−se ao senhor Neri e ordena:

−Erga−se homem, mostre a sua fé!

O senhor Neri enfeita dificuldade.

Volta a ordenar:

−Erga−se! Mostre no que você acredita!

O senhor Neri se ergue. Reação de espanto ecoa. Fogos de artifícios pipocam e, como Juciana previra, o palco se enche de fumaça... Fumaça dissipada. Espantados, procuram por Vicente. Mas o que avistam é o senhor Neri, livre da cadeira de rodas, abraçado pela esposa.

−Aleluia! − festeja Juciana momentos depois, quando nada mais representava perigo.

Crê, como verdadeiro seja, no que for, agrega campos ou charcos.

Kátia,

Moradora da Cidade de Roseada.

Fim

Revisão textual: Prof. Luiz Gonzaga P Souza