NAÇÃO TUTINIBU

Konte fora um dos estados pertencente a Kalanidu. Este país, saturado com as constantes aporrinhações de Konte, concedeu-lhe independência. Konte, ressentido por entender que as suas reivindicações nunca foram vazias, então independentes, enfrentou o desafio. Organizou a fronteira, hasteou a bandeira Nação Tutinibu! E, com propósito de manter o povo do país inimigo longe do seu território, estabeleceu um idioma diabólico. Criaram palavras infernais. Pejorativo tornou-se substantivo e trocaram nomes de substantivos que despertassem maldade. Mas, como continuavam sendo um povo tupiniquim, essa gente de Kalanidu respondia à suposta vingança com comentários desprezíveis: “Deixem viver a vidinha deles.” Os anos foram se passando, e os “tupiniquins” da Nação Tutinibu, vivendo o dia a dia da “vidinha deles”, foram se desenvolvendo. Desenvolveram-se de tal maneira que, no avanço do que fosse, estava com eles, com os tutibunenses... – a ira dos dirigentes de Kalanidu era em razão da rebeldia do povinho de Konte que cuspia nas ideologias e filosofias mentirosas. Então, ao se tornar nação, não navegou no mar de sujeira. Colocou pingo nos is em tudo. E assim, de forma praticamente inversa, foi como dito, se desenvolvendo. A ponto de passar muitas nações para trás. Muitas nações, inclusive Kalanidu. Para não ficar para trás estavam tentando se adequar à nova realidade do continente.

Portanto, surgiu a necessidade de viagens comerciais a Tutinibu. E, assim, o povo de Kalanidu, tendo como indubitável realidade a de se expor a constrangimento, sofria. O episódio do casal Kalanidu: Kineia e Kinaldo. A empresa em que ambos trabalhavam havia oferecido-lhes curso de aperfeiçoamento na cidade de Patifes, capital de Kalanidu. Kineia, advogada, se aperfeiçoaria em ‘lealdade’. Kinaldo, médico, se aperfeiçoaria em ‘higiene’. O curso não era obrigatório, mas, caso não participassem... Ou enfrentariam o tormento, ou poderiam perder o emprego. No entanto, o curso viera em péssima hora. Os pais de Kineia viajam a turismo; os pais de Kinaldo encontravam-se hospitalizados; a colaboradora havia se acidentado. Sendo assim, com quem deixariam os dois filhos? Questionou Kineia. Kinaldo disse que os levaria, cinco dias passavam rápido. São pré-adolescentes, Kinaldo! Kitia está uma mocinha. Porta no idioma Tutinibu é perna! Se imaginasse a pobre coitada envolvida numa situação constrangedora? Kinaldo, procurando amenizar a situação, replicou que fariam de conta que estariam na China. Na China? Ai, ai! Quero ver como você reagirá em Tutinibu à mercê de um garçom de uma churrascaria da vida. Não entendeu? O garçom perguntará se deseja... calabresa no ponto ou tostada. Quero ver como reagirá ao ser tratado por chifrudo e eu, a seu lado, por piranha... Chifrudo no idioma Tutinibu era esposo. Esposa, piranha.

Ora, tal rusga entre essas nações não existiria caso Kalanidu tivesse agido como Nação, caso não fosse, ‘Abraço de urso.’

Então, sem opção no domingo à noite, o avião em que viajavam aterrissava em Tutinibu. Desembarcaram, caminharam pelo túnel e, ao acessaram as instalações do aeroporto, avistaram “Bem-vindo a Enxame de Patifes”. Recolheram as mochilas na esteira e se dirigiram para a fila de Transportajegue. Colocaram as bagagens no rabo – porta-malas −, acomodaram-se no interior do veículo. Kinaldo disse o destino e o Transportajegue partiu. Durante o trajeto, o garoto, em dado momento, observou: “O Presidente de Tutinibu!”. No imenso cartaz via-se o cão São Bernardo. Ou seria daquele porte ou daquele porte seria. Os tutibunenses não admitiam vira-lata pulguento. Minutos depois, o Transportajegue estacionava a perna do Puteiro Covil. “Santo Deus!”, murmurou Kineia. Naquilo de pagar a corrida e de retirar as bagagens do porta-malas, o motorista estendeu o cartão comercial que constava, obviamente, o seu nome e o número do telefone. Kineia retirou o cartão dos dedos dele e o colocou no bolso da blusa. Acomodaram as mochilas nas costas e, caminhando de encontro ao hotel, ouviram: Boa noite, otários! Fora o motorista ávido da vida. Porém, o estrangeiro na China, o senhor Kinaldo, corou e cerrou os punhos, mas o filho o abraçou e seguiram... Senhor, no idioma Tutinibu, era Otário...

O recepcionista, antes de entregar as chaves dos estábulos, disse que, caso desejassem, havia camelo para conduzir as porcarias. O amásio: o casal. Ocuparia o estábulo 616 e os purgantes ficariam ao lado, no 617. Disse ainda que a criminalidade em Tutinibu era praticamente zero: no zoológico sempre havia um bom aposento. Além do mais, o puteiro contava com eficiente sistema de corujamento. Mas havia uma recomendação: a de se manter a perna fechada.

“Idiota!”, disse Kineia à porta do elevador, oportunidade em que leram escrito na parede a sincera amabilidade: “O Puteiro Covil saúda os fariseus.”... O Hotel cumprimenta os hóspedes... O garoto quis saber o que significava fariseu. Kineia disse que depois explicaria. Mas eles não eram fariseus. No sexto andar, à porta do quarto 617, o casal recomendou modos aos filhos e os deixou. Ao adentrarem o quarto 616, reservado para eles, Kineia, furiosa, atirou a mochila sobre a cama e disse que não era porcaria, era de grife. Acomodava roupas finas e caras. Desfazendo-se da blusa, de modo brutal, os botões voavam longe. Voando juntamente com os botões o cartão comercial ofertado pelo motorista do Transportajeque. Ao apanhá-lo e ler, rubra, rasgou-o miudinho dizendo: “O da mãe, indecente...” Muitos tutibunenses tinham nome de batismo esquisito...

Acuados, deixaram de apreciar belezas noturnas de Kalanidu a Enxame das... Voadoras, por exemplo, um espetáculo.

Então, do hotel para a sede da empresa que oferecia o curso. Da sede da empresa que oferecia o curso para o hotel. Os filhos os acompanhavam. Almoçavam no refeitório da companhia mantendo os garotos longe da bela e farta bancada: ENGULA! Para que não lessem os nomes das viçosas refeições expostos nas etiquetas, caso lessem, não almoçariam. À noite, quando não levavam sobra do almoço, comiam pizza de franquia estrangeira. O serviço era neutro. Na sexta-feira, à noite, quando o avião que os levaria de volta a Kalanidu decolou, extravasando o sangue kalaniduense que corria nas veias, deram banana para a Nação Tutinibu.

Kalanidu significava abraço. Tutinibu? Desnecessário dizer.