MOEMA CASTRO

Anjos e feras

Era sempre assim. Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.

− Being, tia, tem gente que sonha tanto, almeja tanto que termina acreditando em conversa de fantasma. Mas, graças a Deus, tia, fora um conselho às avessas sugerido por “uma fantasma”. Certamente protetora das mulheres carentes. Afinal, tia, homem interesseiro não é coisa que preste.

− Qual a história dessa vez, Milena?

− Sobre o Rod, louco por uma sorte. Havia ido ao enterro de um amigo. Então, durante a cerimônia fúnebre, encantou-se com a foto da mulher que julgava ser a da moradora daquele pomposo jazigo, que seria a multimilionária Moema Castro. Naquele momento de admiração, sentiu Moema Castro lhe dizer que, no stand onde ele dava plantão, apareceria uma coroa fogosa que, além de se interessar por uma das unidades do empreendimento, revelaria o encanto que nutria por ele. Mas a esnobasse. Porque não passava de uma golpista e seria atraso na vida dele. Assim, quando a senhora Mirlande Bosfera adentrou o stand de vendas do Edifício Mansão dos Sonhos, vestida em trajes de praia, protegida por uma canga de renda, o alerta da suposta defunta Moema Castro logo pinicou na mente...

− Seria a golpista.

− A “golpista”, tia, que sempre passava à porta do stand e que gostava dele. Recepcionou a perigosa cliente com desdém. Mas, Mirlande Bosfera não percebeu. Disse que estava interessada em uma das unidades do prédio. Ele, obedecendo ao conselho da defunta, remanchou tagarelando no celular. Minutos depois, foram visitar o apartamento decorado que ficava no quinto andar. Dois mil e quinhentos metros quadrados, tia. Um por andar. Percorrendo as dependências, ela, eufórica, escutou dele que um carro elétrico fazia falta, pois facilitaria o desgaste do apresentador.

− Que grosseria!

− Depois de terem percorrido as dependências, ela revelou desinteresse e explicou o motivo: a vista dos cômodos dava para telhados e prédios. Ele replicou algo do tipo “Procure outro”. Apaixonada por ele fez ouvido de mercador e sugeriu visitarem o duplex. Cheio de má vontade. Retornaram ao térreo e adentraram o elevador exclusivo do duplex que parou por fim na cobertura. Trinta andares, tia. O céu parecia tocar na cabeça. Vista espetacular de toda a cidade. Mirlande Bosfera, admirando a paisagem, ensaiou romantismo e disse que, à noite, tomaria banho de lua. Mas, como parecia que estava sozinha, se voltou e olhou para a piscina de dimensões avantajadas. Disse que ficaria com o duplex. Iria aproveitar os trajes e inaugurar a piscina. Ele, protestando...

− Ela era de se jogar fora, Milena?

− Não, tia. Dava para consumo por muitos anos. Mas, a mente do caçador de fortuna havia sido, graças a Deus, cozinhada.

− Continue.

− Ela se desfez da canga e se atirou nas águas. Ele, doido para se livrar da errônea maldição, lembrou−lhe que o motorista a aguardava. Replicou que se danasse. Convidou−o a entrar na piscina. Que se despisse. Acima deles não havia ninguém os bisbilhotando. Ele, no entanto, balançou a cabeça, sentou−se em uma das espreguiçadeiras e passou a manusear o celular. Ela, continuando a investir na conquista, perguntou se não tinha algo para beber... Voltando a nadar, sem ter obtido resposta, confessou que pretendia viajar mundo afora, estava o convidando. Casariam e partiriam para a lua de mel. Era casado. Tinha seis filhos. Ouviu.

− Quanto desprezo, meu Deus.

− Pois é, tia. Enganadamente, Mirlande Bosfera era sem eira nem beira. Frustrada, saiu da piscina, vestiu a canga e disse que havia desistido da compra. Ótimo. Balbuciou ele. Então, de volta à stand, ela, antes de ocupar o automóvel que a aguardava, ficou o olhando.

− Coitada!

− Então, no primeiro dia de folga, o caçador de fortuna se dirigiu ao cemitério na esperança de obter um bom direcionamento para a vida dele. Comprou viçoso buquê de flores e adentrou o cemitério. Diante do pomposo jazigo, supostamente pertencente a Moema Castro, se concentrou. Porém, em dado momento, algo lhe chamou atenção. Foi quando percebeu que a foto exposta da defunta que havia lhe aconselhado não era a de Moema Castro e sim de certa indigente que Moema Castro, num ato de solidariedade, havia sepultado. Rod logo entendeu que o desastroso conselho partiu daquela maldita fulana...

− Perversa fulana.

−... Perversa o quê, tia? Protetora das mulheres carentes. Quem sabe o que teria acontecido com ela?

− É verdade, Milena.

− Meditou furioso. Pois, por causa dela, havia atirado a sorte fora e sabia que outra igual jamais aconteceria. Olhou lado e outro e, sem ter como destroçá−la, aproximou-se da foto e cochichou: desgraçada de merda. Descanse nas profundezas do inferno.