DESFECHO

Ainda era cedo, e os meios de comunicação divulgavam a morte de Danúbia, procuradora do estado, assassinada pelo delegado de polícia Feijó. Residiam no mesmo condomínio e a pergunta que imperava não só entre os despertos praticantes de caminhada era: o que estariam fazendo juntos durante a madrugada?

Já havia significativo número de jornalistas na porta da delegacia onde se encontrava o cidadão detido. Na sala, onde os depoimentos aconteceriam, estavam presentes o escrivão, o advogado do delegado Feijó, o promotor público, dois investigadores e o primeiro depoente. O delegado titular interino, titularidade inclusive pertencente ao implicado, pretendia ser sucinto. Conduziria os trabalhos, baseado na versão apresentada por Feijó, ao delegado plantonista. A bem da imparcialidade, deixaria a cargo da polícia técnica a tarefa a qual já vinha trabalhando e apresentando as particularidades reveladas pelo implicado. Dada a palavra ao depoente, contou que, ao adentrar a mata, por volta da cinco horas da manhã daquele dia, para cortar madeira, tarefa diária que realizava, avistou o corpo de uma mulher. Próximo, havia uma carteira. Esmiuçou-a. De nada se apoderou e deixou a mata para avisar à polícia. Sem mais. O segundo depoente convocado contou que trabalhava de vigia em uma oficina mecânica situada à beira da rodovia, no sentido acesso à cidade. A visão para a “boca da mata”, localizada do outro lado da pista, não era plena: havia árvores lado a lado. Mas, nas noites de quinta-feira, entrando nas primeiras horas do dia seguinte, avistava por entre as árvores faróis de automóveis. Na noite anterior, cujo horário não sabia precisar, tinha escutado um disparo. Distante, mas havia escutado. Chegada a vez de o delegado Feijó depor, disse que manteria a versão apresentada ao delegado plantonista e, posteriormente, ao seu advogado. Cursava espanhol à noite e, sempre que chegava ao condomínio onde residia, entre as vinte e duas e trinta e vinte e três horas, avistava a senhora Danúbia saindo. Na noite do dia anterior, por alguma razão, que até aquele presente momento desconhecia o motivo, resolveu segui-la. Dirigiu-se para a saída da cidade. No quilômetro dois, saindo da cidade, sinalizou e estacionou onde havia cerca de vinte a trinta automóveis. Curiosidade aguçada, ficou observando. Ela desceu do veículo e adentrou a mata. Seguiu os passos quando avistou uma espécie de ritual. A iluminação era improvisada. Havia homens e mulheres. Jovens e senhores. Caminhavam lado a outro como se fossem “zumbis”. Achou tudo muito esquisito. Havia um tonel, Serviam-se nele. Não pôde identificar o que comiam. Querendo entender o que acontecia, ficou observando a esquisitice. A senhora Danúbia entrou na “dança”. O grupo a que ela aderiu circulava como se fossem zumbis em estágio terminal. Foi traiçoeiramente imobilizado. Os “zumbis” caminharam de encontro a ele, Foi derrubado e acreditou que seria devorado. Sacou a arma que disparou contra a sua vontade. Correram. Ele também correu Muitos entraram nos automóveis e partiram. Fizera o mesmo. Às cinco e trinta da manhã, policiais conhecidos batiam à porta de sua residência. Não havia dormido. Ao recebê-los, perguntaram, por perguntar, se a carteira de documentos era sua. Não tinha dado conta da perda da carteira e ignorava que o disparo acidental tivesse produzido vítima. Um dos policiais, revelando o nome, sentiu a cabeça rodopiar.

Encerrado o interrogatório, os ansiosos jornalistas tiveram acesso ao delegado implicado, Ele repetiu a versão. As emissoras de rádio e televisão, por sua vez, divulgaram os depoimentos na íntegra. E nas redes sociais a indignação despontava: uma procuradora do estado fazer parte de uma desconhecida seita de doentes lunáticos?

Dois dias depois, as redes sociais insistiram em massacrar os doentes lunáticos com todo tipo de julgamento e condenação. Shirley. Puta da vida com a hipocrisia, anunciou que estaria à disposição da imprensa para falar sobre a confissão do delegado Feijó. Assim, a imensa área disponível do jardim de sua residência ficou acanhada com o número de jornalistas presentes. Após apagar o cigarro no cinzeiro, disse que não iria entrar nos méritos, era opção, prática, ideologia e crença. Estava horrorizada com a indignação do público das redes sociais. Público formado por diversos segmentos da sociedade Havia lido mais de seis mil postagens e nenhuma mencionava uma curiosidade. Os participantes do “zumbismo” estavam sendo julgados, condenados e qualificados de doentes, como se o anormal fosse sadio. Mas qual seria o sentido exato de sadio em uma sociedade chamuscada? Anômalos eram os pedófilos, os ladrões, os estupradores, os corruptos, a falsidade: o açúcar do bolo. E tudo que envolvesse atentado contra a vida do semelhante. Garantia que o “zumbismo” era um prazer igual a todos os prazeres não anômalos, condenado e vivido ao mesmo tempo pela sociedade. Assim, não havia motivo para indignação. Das mais de seis mil postagens que havia lido, em nenhuma constava menção de invasão de privacidade. O que dava a entender que, para os doentes lunáticos, valia. Portanto, havia muita hipocrisia. Seria o caso do “macaco que não olha para o próprio rabo”. Comiam carne assada durante as reuniões. O delegado Feijó não seria devorado. Testemunharia a morte do “zumbi”, cujo nome seria desnecessário mencionar. Morta pela arma que estava em poder do delegado curioso. Com orgulho, e não por gabolice, era escultora de prestígio internacional e, em primeira mão, para seus pais, filhos, parentes, amigos e admiradores do seu trabalho, amante do “zumbismo”.