CASTELO DE PÓ


Modernizei o milenar conto Castelo de Pó. Título que fora dado por um monge, décadas depois de escrito. Chandra, a autora, assim acredita-se.

“Ao entregar-me a caneta e a sua alva camisa para que nela redigisse esse documento, na minha alma, nada mais existia. Muitos dizem conhecer o inferno, estou convencida que sim. Logo os nossos peitos serão perfurados. Quando o último convidado da festa comparecera, acompanhado da esposa e dos dois filhos, houve uma conversa de que seguiríamos para um determinado lugar onde aconteceria uma grande surpresa. Embarcamos em dois confortáveis ônibus e seguimos; num zig-zag infernal, por entre a escuridão, e os altos arbustos da densa floresta. Ao desembarcamos, três verdugos organizaram uma fila. Em fila, adentramos e nos acomodamos em um espaço retangular. Havia duas portas, uma de aço, por onde adentramos e nos isolamos do mundo, e outra de madeira que viera a ser o sepulcro. No nível do solo e do teto, havia por todas as paredes pequenos orifícios por onde penetraria a friagem da noite. Uma hora depois da maçante espera, o pavor tomou conta de nós. Às sete horas da manhã, escutamos o soar de distantes sirenes, quando então resolvemos gritar por socorro numa única voz. Entretanto, que distância os gritos alcançariam, escapados através de pequenos orifícios que teriam como obstáculo os altos arbustos da densa floresta?... O que mais posso acrescentar? Que a senhora Yasmine experimentara o próprio veneno? Que o seu vestido, sempre um dos mais valorizados das festas, de tão fino que era, não serviu para aquecer o frio da noite? Que os adolescentes culpam os pais? Que as crianças choram desesperadas de fome? Que não passa de ilusão, sonhar à margem do rio Liberdade Celestial? Sinto-me feliz por não ser mãe... A perna do meu esposo o inferniza. Juntamente com os outros homens tentara por uma das paredes abaixo, com os pés. Os pais de Bahula, um casal de idosos, faleceu e foi sepultado por trás da porta de madeira: o banheiro coletivo, o sepulcro. Lá, já estava sepultado o bebê de Tarita. O ambiente, então, se tornou insuportável de vez... Votação triste e pensativa, Karan, cedera o canivete... Os pais se encarregariam dos seus filhos e, ao último sobrevivente, caberia partir com o canivete cravado no peito... Numa despedida final, sentir a mão do meu esposo acariciar os meus cabelos, os nossos dedos ainda se tocaram, seguiu... Momentos depois, me dirigir...”

Suicidaram-se.

Esse milenar conto, fora proibido por centenas de décadas sob os seguintes incoerentes argumentos: citação da felicidade por não ser mãe. A desilusão, da ilusão de sonhar à margem do rio Liberdade Celestial e o questionamento: que distância os gritos alcançariam escapados através de pequenos orifícios, que teriam como obstáculo densa floresta formada por altos arbustos?

Ora, se o conto censurado e proibido teve propósito de sensibilizar para uma mobilização, estou convencido de que não existe sensibilidade a ponto... Chandra morrera na fogueira... Então, de modo ingênuo e sonhador, assim penso: se cada um permitisse que os altos arbustos ruíssem, os gritos sofridos soprariam os castelos de pó.