Bil Uil - A história


Dialogando com o amigo Dam


Bil Uil, dezesseis anos depois, estava de volta à cidade natal − a pequena Tylide. Trajava roupas pretas, e, pendente na cintura, um calibre 76, fabricado especialmente para ele. Ocultado no estábulo do amigo e ferreiro, Dam, distraindo−se com o fino chapéu de feltro, descarregava projetos e amarguras.

−Entende, Dam?

−Procuro entender, Uil.

–Sinto−me feliz por estarem vivos. Foram dezesseis anos traçando cada momento desse dia. Imaginei que esse momento nunca pudesse chegar.

Dam, vestido surrado, avental de couro, estava contente em revê−lo, fundia novas ferraduras. Já havia, com jeito, tentado plantar flor naquele machucado jardim, porém como parecia ideia fixa... Entretanto, não desistiria. Afinal cada palavra, frase, parágrafo e oração, sombras formadas não escapavam da visão. Olhou para o amigo envolvido em sombrios pensamentos e perguntou:

−Quantas milhas percorreram, Uil?

−... Uma milha e pouco, Dam, mas houve paradas para descanso.

−Belo animal! Deve ter custado uma nota.

−Tudo continua como antes, não é, Dam? – insistiu.

−Tudo como antes, Uil. Quem foi continua sendo, só que mais velho.

−Ajuizados?

−Se não são, é porque não querem. Recorda-se das terras dos Evans?

−Escutava os meus pais falarem.

−Tentaram estupidamente desviar as águas do Rio Voraz. Você sabe no que resultou.

−Fui covarde, Dam?

−Por favor, Uil. Você só tinha nove anos de idade.

−Ainda os escuto implorando para não serem massacrados. A vaca da Manarry, com piadinhas, gargalhava. O porco do Dylan se contorcia de riso. Poderia olhar através da fresta, mas tremia de medo e suava tapando os ouvidos.

−Pavor imobiliza, Uil, não é covardia.

−Sinto−me um covarde, Dam, já sabia atirar e sabia onde os rifles se encontravam.

Dam, para amenizar o tormento, perguntou onde ele se encontrava.

−... – escondido numa peça da sala onde a barbárie acontecia.

−Como você poderia sair e se apoderar de uma arma, Uil?

−...

−A meu ver o seu involuntário comportamento abrandou corações, mesmo enfrentando o insuportável. Porque sabiam que você estava em segurança. Portanto, aposto que as boas almas, Clinton e Barbra, estão felizes onde se encontram. Afinal você carrega na cintura status de um homem bem sucedido.

Bil Uil comentou que fora uma encomenda remanchada e massacrada durante dois intermináveis longos anos. Mas o resultado foi gratificante, haviam produzido um canhão portátil.

−Um canhão, Dam. Você precisa conhecer o poder de fogo.

Dam operou o fole e, puxando a isca que tinha lançado mais enfático, disse que estava lendo a bíblia. Vingança não era boa coisa, só gerava vingança.

−Eu sei, Dam. Juro que sei. Mas só assim para poder acabar com a sinfonia que atormenta os meus dias. Mas o meu tormento, Dam, assemelha-se a de um sentenciado à morte, aguardando, porém, por uma sentença às avessas.

−Por favor, Uil.

−É a verdade, Dam... O Xerife e James os massacravam, a vaca da Manarry com piadinhas gargalhava, o porco do Dylan se contorcia de riso.

Dam disse que a amiguinha dele, de infância, Estefânia, havia se transformado numa bela jovem: cabelos loiros e longos. Sorriso cativante. Vez por outra o visitava e, tímida, perguntava: tem notícias de Bil? Sentia dó de não poder nada dizer−lhe. Sentia dó de não poder acalentar aquele coração angustiado. Lecionava. “Sabendo de notícias me avise, senhor Dam.” “Com o maior prazer senhorita!” Assim respondendo, partia triste e cabisbaixa com livros no peito.

−...

−Visite−a com um buquê de flores. Flores do campo, Uil. São belas. Aposto que se sentirá feliz e você feliz também ficará. É assim que funciona: a felicidade maior é ver alguém feliz. Resulta num ato de afeto mútuo e recíproco.

−...

−O amor constrói, Uil. A cegueira destrói. Um mal que deve ser combatido, eliminado, desprezado e esquecido. Porque, por razões, não desconhecidas, associa e procria. Uma semente desprendida que não trataram de exterminar.

Bil Uil, que não desprezava uma única palavra do amigo, ficou observando o companheiro. Havia longas histórias sobre a vida daquele estrangeiro... Confessou que, quando garoto, antes de se entrosarem, queria distância dele. Ouvia dizer que era desertor de guerra.

−Os seus pais diziam isso, Uil?

−Não, Dam. Os meus pais apenas citavam uma ‘resmunga’ sua da qual não me recordo.

Dam sorriu e, reflexivo, repetiu:

−Guerra, senhor Clinton e senhora Barbra, deveria ser igual a espetáculo circense. Só participa quem compra bilhete.

−... Era isso, Dam... Era isso...

Trotes alucinados, poeira em suspensão e flechas velozes passando no rastro do fugitivo.

Dam, após acompanhar a cena imóvel, balançou a cabeça e comentou:

−O aloprado do Roy passa o dia inteiro provocando os Carambolas... – antiga, pacífica e numerosa tribo indígena que habitava as montanhas em volta da pequena cidade.

−... Roy... – balbuciou Bil Uil meditando.

−São praticamente da mesma idade não é, Uil?

−Somos praticamente da mesma idade, Dam.

−Recordo-me que, quando garotos, brincavam de bang−bang.

−Mas brigávamos, Dam. O papel do mocinho era sempre dele.

−Do mocinho perturbado?

Bil Uil sorriu.

−... Do mocinho perturbado, Dam.

O ferreiro, pensativo, interceptou os movimentos.


Preparando-se para seguir

Puxando pelas rédeas, Bil Uil dava voltas com o cavalo. Testava as novas ferraduras confeccionadas por Dam que lhe ordenara que montasse.

−... Muito bem! Acelere...

No entanto, pediu para que se aproximasse. Havia um pino saliente que estava fazendo-o mancar. Obedecido, o ferreiro ergueu a pata afetada do animal, aplicou alguns golpes de martelo no pino rebelde e mandou que repetisse o teste.

−... Excelente!

Com o animal, pisando firme, Bil Uil o estancou junto do amigo e, dando sinais de que partiria, Dam perguntou se não iria acatar as ocultas, mas compreendidas palavras.

−Compreendia que eu entendia, Dam?

−Compreendia, Uil.

−Mas lamento, Dam! Presentearam−me com um “bilhete”.

Dam tornou−se pensativo.

−Estamos quites, amigo? – perguntou Bil Uil com um sorriso.

−Estamos, Uil. Pagou mais do que o devido.

Partindo, Dam, ainda pensativo, adentrou o estábulo, se desfez do avental, guardou as ferramentas, apagou o fogo, colocou feno nos coxos, fechou o estabelecimento e montou no cavalo, com endereço certo, em mente, do lugar onde se abrigaria. Sabia que, na primeira detonação ecoada, viriam atrás dele e eles não eram nada piedosos.


Ainda não havia escurecido. Bil Uil, a poucos metros da cidade, sentava−se sob uma árvore aguardando a noite chegar. Recordava-se do dia da forçada partida, ocorrida há dezesseis anos, órfão e abandonado na rua.

“–Suba, garoto! – dissera afável a mulher forasteira.

−Suba, rapaz! Brevemente teremos um lar. – dissera o esposo também afável.

−Não quero.

−Então, só partiremos quando você aceitar. – dissera a mulher encostando−se na carruagem.

−Podem ir.

−Sem você?

−Sem mim, sim.

−Negativo!”

Curiosos, observavam. Estefânia, que ali se encontrava, tinha o braço seguro, firme pelo punho da mãe. Assustado, amedrontado e envergonhando, olhando em direção do Escritório do Xerife, lá estavam eles: o Xerife. Dylan. Isaac. James e Manarry, à porta do prédio, conversando e fumando, acompanhavam a cena. Figuras sinistras que pousam de heróis numa história mentirosa contada por eles mesmos de que haviam aconselhado e lutado para impedir que seus pais se suicidassem. Olhava−os.

“−O que há, garoto, parece sorrir? – perguntara a mulher forasteira em dado momento.

−‘Voltarei e ai das cabeças de vocês’. – meditava.

−Está vendo querubins, garoto?”

Pensamento fortalecido, olhou para as feições alegres e joviais do casal de forasteiros resolvendo subir.

“−Palmas!” – festejara a mulher.

Sentado, sob a árvore, impressionado com a generosidade do tempo, sorrio. E, com um simpático sorriso, recordou-se da loucura daquele casal de dignos malucos, cujo tear adquirido seria a salvação da vida deles: “Ficaremos ricos com isso, mulher!” “Que Deus o ouça, meu bom homem!”. “Terá que aprender, garoto, será o nosso ganha- pão.”... Uma loucura para se estabelecerem num ponto definitivo.

Envolvido com as amargas e doces recordações, esquecerá a barba. Mas ainda havia um pouco de luz natural. Ergueu−se e, de uma das mochilas acomodadas no lombo do animal, apanhou apetrechos. Pendurou o pequeno espelho num dos galhos da árvore e, num córrego próximo de águas límpidas, ensaboou o rosto... A navalha estava afiada, conferiu.

Tendo a noite caído, montou no animal e seguiu em lentos trotes de encontro à cidade. O Salão Manarry, destino previamente estudado, situava-se na avenida principal que, àquela hora da noite, era rescaldo de um dia. Muitas vezes afogado num dos salões da vida, que no caso era o Salão Manarry, o mais requisitado. Desmontou, amarrou o animal, subiu degraus e empurrou o vaivém adentrando-se.

−Quer casar comigo, bonitão? – ouviu.

Não diferenciava dos muitos sofisticados salões que conhecia: lustres importados, homens às mesas jogando arriscado carteado, caubóis ao longo do balcão embriagando−se, oportunistas dançarinas namorando, enquanto o espetáculo não se iniciava, com fazendeiros “oitentões” endinheirados, e ultrapassadas dançarinas embriagadas e abandonadas nas mesas vazias, implorando por uma aventura.

Apesar de dezesseis anos terem se passado, a sádica e ambiciosa Manarry continuava imbatível. Vestida num longo verde, maquiada e cabelos arrumados, curvava−se diante das mesas dos abastados clientes envolvidos no carteado.

−Linda como sempre, Manarry!

−A sorte certamente o contempla, querido!

−Acompanha−me, Manarry?

−Depois da vigésima quinta hora, amor!

−Hoje estou a toda lindeza!

−Reside tão próximo, fofinho!

Assim, num deboche recíproco, ia passando de mesa em mesa distribuindo simpatia. Bil Uil, junto ao balcão, havia solicitado uísque e tragava. Cigarrilha acesa indo aos lábios. Voltado para o salão, acompanhava discretamente os passos da vadia, meditando: “Voltarei e ai das cabeças de vocês” “... o meu tormento, Dam, assemelha-se à de um sentenciado à morte aguardando, porém, por uma sentença às avessas.” Estava ansioso para enviá−la para o inferno. No entanto, para que a ânsia aumentasse, fora Manarry requisitada por um senhor que parecia especial. Sentava−se a uma isolada mesa. Ouvindo−o, fechava os olhos e balançava a cabeça afirmativamente.

−Entendi.

−Previsão de seis meses.

−Entendi. – disse, afastando−se.

−O seu já está garantido.

−... Eu sei.

Então, por trás do balcão, Bil Uil, na primeira oportunidade, ergueu o chapéu e estendeu−lhe a mão esquerda. Manarry, com feição interrogativa, ao segurá−la. Ele, com um sorriso nos lábios, apresentou−se: Bil Uil! Desenhando, imediatamente no rosto de Manarry, feia figura de uma carranca assustada.

−...!

−Adeus, Manarry! – anunciou mansamente, mantendo o sorriso e disparando.

−... Com mil diabos! – gritou alguém.

Salão estremecido, crânio esfacelado voara em todas as direções. Restando de Manarry, em frações de segundos, um corpo sem cabeça tombado no chão.

Perplexos, todos de pé, limpavam−se.

−Santo Deus!

Enojados dos fragmentos salpicados com fios de cabelo, Indagavam−se atônitos.

−O que foi isso?!

Dançarinas que haviam corrido para espiar acercavam chorosas o corpo da madrinha morta no chão, sem a cabeça.

−Oh, senhor!

Não demorando para que o salão fosse invadido por três velhas autoridades, algozes de Bil Uil: o Xerife, Dylan e James.

−Quem fez isso com você, madrinha? – implorava em prantos uma dançarina.

−Venha comigo, Tina. – tentava afastá−la uma embriagada e ultrapassada colega.

−Não! – protestou.

−Vamos, querida.

−Não!

−A madrinha perdeu a cabeça.

−Deixe−nos em paz!

A “afilhada”, profundamente sentida, irredutível, socando o chão, insistia em perguntar:

−Quem fez isso com você, amada madrinha?

Soprando imediatamente o Xerife para os dois companheiros, a resposta que ela procurava:

−Bil Uil.

Nome de imediato agrado:

−... Viera em mente... – confessou Dylan. Alto e gordo.

−Não existe outro nome... – replicou o senhor James.

Uma vez, o estábulo de Dam então cogitado, pois era ponto obrigatório de todo e qualquer cavaleiro forasteiro. James pediu para que aguardassem por Isaac. Logo surgiu. Depois de espiar o estado da amiga, juntou−se a eles perguntando:

−Suspeitam de alguém?

−Bil Uil. – balbuciou o Xerife.

−Nome que pensei.

O Xerife passou instruções para Barney, o não oficial auxiliar, e deixaram o salão. Montaram nos animais e, com a mesma ânsia de dezesseis anos atrás, cavalgaram no mesmo escuro da noite, dirigindo-se, no entanto, para o estábulo do ferreiro Dam. Chegado ao local, o Xerife, com o cavalo ainda em movimento, desmontou e passou a vistoriar o estábulo.

−... Está trancado, não há ninguém! – anunciou.

−Ausência suspeita, Xerife! Isso nunca acontece, é residência fixa do mal amado. – replicou Isaac de cima do cavalo.

O Xerife correu o estábulo mais uma vez.

−... Não se encontra...

−Toca fogo nessa merda, Xerife!

No entanto, montou e ficaram olhando em volta.

−... Só pode ter sido Bil Uil.

−Garanto−lhes: será prato cheio para os famintos porcos do Elton.


Comoção e medo

Aguardando por decisão dos familiares, o corpo de Manarry, coberto com um lençol, permanecia no mesmo lugar. Dançarinas, jogadores e beberrões, tragando uísque na garrafa, lhe faziam companhia, velavam.

−... Miserável...

E, quando quatro identificáveis detonações romperam o silêncio da madrugada, alguém, com uma garrafa de uísque erguida gritou:

−Morte a Bil Uil!

Já havia convicção de ter sido Bil Uil, o autor.

−Apareça aqui, seu desgraçado!


A esposa do prefeito ao retornar para a cama depois de ter acordado com os estampidos e espiado, através da janela, a movimentação da rua, confessou:

−Estou temerosa.

−Se tivesse acontecido alguma execução, já teriam batido à porta. – retrucou o esposo.

−Acordou com as detonações? – perguntou ela.

−Fora Bil Uil, certamente anunciando execuções por fazer. Recordo-me do dia que partiu, foi deprimente. Não deveriam ter feito aquilo com os senhores Clinton e Barbra.

−Ia falar uma asneira.

−Fale. – concordou o esposo.

−Ouvi dizer que o casal de forasteiros são hoje proprietários de uma grande tecelagem. Portanto, deveria agradecer pela sorte.

−Por favor, Alyssa.

−Avisei que seria asneira.

−...

−Cultua vingança? – perguntou ela.

−Claro que não.

−Então?

−...

−Viu o corpo da fulana sem a cabeça?

−É horrível. – respondeu ele.

Alyssa puxou o cobertor, cobriu−se completamente e, apavorada, ficou olhando o escuro do quarto.


O dia nascia

Poeira em suspensão, cavalos, charretes e carruagens. Carambolas rebeldes em trajes típicos perambulando e forasteiros misturados aos nativos tylidenses indo e vindo.

Contrariando a rotina de duas décadas, o Salão Manarry amanhecera como se fosse uma caixa selada. Na faixa negra estendida na fachada uma mensagem prestava−lhe a última homenagem: “Descanse em paz, Manarry.” Ao pé do vaivém, cuja porta de verdade encontrava−se cerrada, impedindo acesso ao estabelecimento, havia coroas de flores, cartas e velas acesas.

−Dama... Uma desqualificada vadia essa é a verdade – comentou a elegante senhora para a amiga ao passar à porta do em luto salão.

A amiga pediu para que respeitasse a alma da falecida.

−Vadia em vida e na eternidade, é fato, querida... Andou se jogando para o seu marido, não foi?

−Por favor, amiga.

−Não estou esquecida como seus pais vieram parar aqui. Uma ambiciosa que levou a sério o sonho da pouco recomendável Anelise de que nas terras dos pobres Clinton e Barbra havia ouro.

–Fora sonho?

–Estamos convencidos de ter sido “sonho” da romena.

Não distante dali, Roy, filho do primeiro relacionamento de James, por detrás da mesa instalada na porta do escritório do Xerife, contratava homens para protegê−los.

−Como está, Roy? –saudou-o o senhor Dylan.

−... Bem...

Adentrou o escritório.

−Forcas batizadas com sugestivos nomes, senhor Xerife: “Bil Uil” “Amigo”. Gostei! – elogiou.

−... Agradecido... – replicou o representante da lei atento ao que fazia: desmontando uma arma travada.

–E o senhor Roy contratando homens para nos proteger.

−O estrume não pode escapar.

Orientou como retirar a mola emperrada da arma e quis saber em que pé estava o corpo da francesa.

−Parentes estão decidindo.

−Incômoda à situação criada por ela mesma. – comentou.

−... Como assim?

−Pediu para que o garoto fosse poupado.

James, que também estava presente, não gostando da conversa, reagiu:

−Pediu a você, senhor Xerife?

−A mim, não.

−A quem pediu?

−...

−Conversa da vadia nos meteu na enrascada e quis esnobar de boa samaritana. Numa de nossas noites, com choro fingindo, contou que havia pedido que o pequeno Bil Uil fosse poupado. Perguntei a quem tinha pedido e ela desconversou. Uma vadia de marca maior. Que Deus a tenha no fogo do inferno é o que desejo.

−... Prato ruim, senhor James? – quis saber o Xerife.

Houve risos. Dizendo, levantando−se Isaac:

−Foram quatro disparos que o desgraçado efetuou durante a madrugada.

−Toda a cidade escutou. – entoou o Xerife.

−O órfão está tentando nos intimidar, senhor Xerife. – pronunciou o senhor Dylan.

−... Apenas tentando...

−Sei que, tão logo coloque as mãos no desgraçado, entregarei aos famintos porcos do Elton. – enfatizou o senhor Isaac, apanhando a bíblia e o chapéu que estavam sobre a mesa e se retirando.


Aflição

O nome do amigo de infância exposto na forca inquietava Estefânia que tivera uma tarde de aula agitada. Deixando o prédio escolar, seguida pelos cinco alunos, ao adentrar a Praça da Forca, trajeto forçado, estancou os passos e ficou olhando para a cena que a deprimia: “Bil Uil”. – exposto na forca.

−“Deus!”

Meditando, convicta, onde estaria escondido, a pequena Sara, de seis anos de idade, filha do James com a segunda jovem esposa, disse que Bil Uil iria matar todo mundo.

−... Não vai nada... – replicou Estefânia pensativa.

−Vai sim. Carrega um canhão na cintura.

O filho do Isaac, Leon, de quinze anos de idade, disse que a culpa era do pai dela.

−E do seu também... – replicou imediatamente Sara.

−O meu pai não é assassino.

−É sim. Foi ele que matou os pais de Bil Uil.

−Mentira, foi o seu.

−Chega! – gritou Estefânia.

Obedecida, ainda meditou. Olhou mais uma vez para o nome “Bil Uil” e os convocou a voltarem a segui−la. Então, caminhando, a sobrinha do prefeito Emily deixou a fila e, ao lado dela, perguntou:

−A senhora ama Bil Uil não é, professora?

−Por favor, Emily.

−Estou amando o Leon.

−...

−Não é bonito?

−Um belo rapaz, mas retorne para a fila.

Obedecendo-lhe, Sara a chutou.

−Macaca. – disse.

Estefânia, que havia pescado o lance pelo canto das vistas, maneou a cabeça e segurou-se na mão da traquina garota.

−A senhora é bonita, professora.

−Obrigada, Sara.

−Quando eu crescer, serei igual à senhora?

−Muito mais.

−Não contarei que a senhora ama Bil Uil.

−Quem disse que eu amo Bil Uil, Sara?

−Emily.

−“Meu Deus!”

−Ela não parece com uma macaca polaca, professora?

−Não acho não, Sara.

−Eu acho.


Minutos contados

O algoz Dylan estava com os minutos de vida contados. O feixe de luz que escapava da janela aberta clareava o tronco da árvore em que Bil Uil encontrava−se omisso. A propriedade estava guarnecida por quatro protetores recentemente contratados: dois na frente da residência e dois na lateral. Bil Uil, omisso, aguardava que a esposa do gorducho estivesse mais distante. Ela havia ido à igreja do pastor Isaac. Tinha em mente aplicar o banal, mas eficiente truque do arremesso de pedras. Voltou a olhar para a lateral da casa. As duas janelas permaneciam fechadas e a terceira, por onde escapava o feixe de luz, permanecia aberta. O vento daquele início de noite balançando a fina e transparente cortina azul proporcionava agradável cena. Entretanto, a contragosto, havia perigo de nela se enroscar no momento da invasão. No interior daquele recinto, Dylan se encontrava sentado por detrás da carteira fazendo anotações nos livros contábeis. Bil Uil desejou fumar, mas desistiu. O aroma do fumo poderia despertar curiosidade. Ansioso, contemplou a lua e ficou meditando durante um tempo. Chegado o momento de agir tempo considerado seguro para um não possível retorno da senhora Pink, esposa do gorducho. Lançou mão de uma pedra, mas logo a abandonou, já que a mesma estava infestada de formigas. Com mais atenção, lançou mão de outra pedra livre e a atirou na mata, no lado esquerdo. Os protetores, que eram os Carambolas, olharam-se e seguraram o rifle com maior afinco. Atirou a segunda pedra. Um deles foi espiar. Atirou a terceira um pouco mais distante. O curioso protetor chamou o companheiro. Eles, então entretidos, mirou a distância a qual teria de vencer em três saltos, ganhou coragem e, como um gato, se lançou. A cortina bem que atrapalhou, porém, a salvo, estava diante do gigante Dylan, calibre 76 em punho e indicador nos lábios.

−... ! – O gigante senhor Dylan, boca aberta, olhos arregalados, pálido e petrificado por detrás da carteira.

Ainda com indicador nos lábios, ajeitou o chapéu que fora importunado pela cortina, ordenou que fosse à janela, cumprimentasse os dois homens com afável sorriso e, em seguida, a fechasse. No entanto, ao observar notável habilidade do gorducho, advertiu:

−Poderei morrer, no entanto você morrerá primeiro. Portanto, obedeça como ordenei, até porque, a depender de nossa conversa, poderei mudar de intenção.

O robusto homem lhe obedeceu.

−Agora, sente-se. – ordenou quando retornou.

−... Por favor, senhor Bil Uil.

Como se fosse um cão pronto para lançar−se contra o inimigo, Bil Uil o olhava.

−Por favor, senhor Bil Uil.

−Tal súplica, senhor Dylan, não é estranha, recorda-se? – fustigou.

−Fora Manarry que nos envenenou.

−Entenda, senhor Dylan, os seus pais. Os pais dos seus pais, os pais dos pais dos seus pais, sabiam que não havia ouro nas terras dos meus pais.

−Manarry estava consciente da convicção da Aneline.

−Convencida do sonho da Aneline. – questionou Bil Uil.

−Não, não, não.

−Fale baixo.

−Leviana, essa história de sonho, é mentirosa, senhor Bil Uil. O primo da Aneline era minerador. Através de estudos, concluiu que havia ouro nas terras.

−Está mentindo, senhor Dylan.

−Não, não estou... Juro que não estou, senhor Bil Uil.

−Muito bem! Mas porque não aceitaram a proposta dos pobres inocentes? Queriam apenas dez por cento do que fosse extraído. Era o que eu escutava.

−Manarry era uma peste.

−Onde se encontra o documento da “venda” das terras por eles assinado?

−Ficou em poder de Manarry.

−E o que havia de tão engraçado naquela noite para você se borrar de rir?

−Manarry era palhaça.

−Manarry era tudo, senhor Dylan.

−Por favor, senhor Bil Uil.

Bil Uil, com fisionomia fechada, olhando-o, parecia ouvir as gargalhadas daquele sujeito diante das respostas às cínicas perguntas do Xerife, ora revezada por Isaac: “Eles, Dylan, não querem assinar o documento da venda das terras”. Entretanto, o gorducho dissera uma verdade.

−Há um ponto em que você não mente, senhor Dylan. – reconheceu Bil Uil.

−Viu o senhor?

−Manarry dizia alguma coisa e vocês gargalhavam.

−Então, senhor Bil Uil, está entendendo?

−O que ela dizia?

−...

−O que ela dizia? Repita.

−Por favor, senhor Bil Uil.

−Repita o que ela dizia. Estou ordenando.

−...

O cão feroz estava prestes para atacar. Seus olhos estavam vidrados.

−Repita! – pediu Bil Uil mais uma vez.

−Por favor, senhor Bil Uil! – com o rosto encharcado de suor.

Um estrondo se ouviu.

Ecoado na casa de pedras. Na ampla sala, aquecida pelo brando fogo da lareira, a família Lewis jantava.

−Escutou, papai? – perguntou Roy.

−Escutei, Roy.

−Você vai morrer.

−Por favor, Roy. – pediu a madrasta.

−É verdade, papai vai morrer.

A pequena Sara disse que estava com medo.

−Com medo de que, pirralha? – indagou Roy.

−De morrer.

−Quem mataria você?

−Bil Uil.

−Não confia nas palavras da vaquinha?

James quis saber quem era vaquinha.

−A professora Estefânia, papai.

−Por favor, Roy.

−Conte a papai o que você me disse, irmãzinha. Fale com ele o que foi que a vaquinha da sua professora lhe falou.

−Ela não é vaquinha.

−É sim. O que foi que ela disse?

−Que Bil Uil não vai matar ninguém.

−Deixe de intriga, Roy. – pediu o senhor James.

Roy insistiu:

−Viu, você, papai, o que é ingratidão? Não foi você que conseguiu oportunidade para que a vaquinha da Estefânia lecionasse?

−Vamos continuar jantando, Roy.

−O apetite passou, papai. O mundo ardendo em chamas, você no corredor da morte e diz: “vamos continuar jantando, Roy.” Deveríamos tomar conhecimento da situação e não ficar olhando para a cara patética da Sara.

−O que é patética, mamãe?

−É uma coisa que você não é, meu anjo.

−Não sou feia. – afirmou Sara.

−É sim. – afirmou Roy.

−Sou feia, mamãe?

−Não, minha linda boneca.

−É sim. – insistiu Roy.

A jovem madrasta, irritada, largou os talheres sobre o prato.

−Por favor, Roy! Hoje você está insuportável.

James socou a mesa, passou o guardanapo na boca, levantou−se, apanhou o rifle e saiu. Roy o imitou. Não escutando a musiqueta cantarolada por Sara: “Vaquinha que não gosta de vocêêêê”.

−Que conversa é essa, Sara? – quis saber a mãe.

−Nada, mamãe.

–Que conversa é essa?

–Jura que não conta?

– Juro.

Ainda na porta da casa, um dos protetores informou aos patrões o nome do executado.

−Viu, você, papai, e ainda queria permanecer à mesa enchendo o bucho. – disse Roy montando.

Ao chegaram ao local, de pouca luminosidade, o Xerife já se encontrava. Havia muitos curiosos. Alguns, ao deixar a residência, se dirigiam para um canto qualquer e vomitavam, provocando a reação de Roy:

−Olhando para a cena, papai, o que se imagina que havia na cachola do Dylan?

O Xerife balançou a cabeça e disse que se encontravam no exato lugar onde a peste tinha ficado. Os protetores eram Carambolas ...

−Não tenho culpa pela contratação. – esclareceu Roy.

−... Contaram o ocorrido e estão presos.

−O truque das pedras, senhor Xerife? – perguntou Roy.

−Certamente, senhor Roy.

−Negligenciaram.

Isaac, que havia deixado a residência, atravessou o pequeno portão, então aberto, uniu−se a eles e disse que o quadro era mais deplorável do que o de Manarry.

−Morrera sentado. Há crânio espalhado por todo canto.

James perguntou como Bil Uil havia escapado. Roy intrometidamente respondeu:

−De fácil conclusão, papai: com a explosão, os protetores adentram. O órfão aproveitou e escapou.

−Parece que foi isso, Roy. – concordou o representante da lei.

−Sempre acerto, senhor Xerife.

Disse o Xerife que o juiz havia intimado o prefeito. James quis saber o motivo, o Xerife ergueu o chapéu e coçou a cabeça, Isaac o acudiu.

−Provavelmente serão enforcados, senhor James.

−Isso é péssimo. – protestou o senhor James.

−Sabemos que sim.

−Devemos orar para que o juiz mude de ideia. – desejou o Xerife.

O prefeito, em poder de um envelope, havia estancado os passos e os observava. Ao perceber que haviam silenciado, aproximou−se com a sentença batendo nos dedos. Saudou-os e a entregou ao Xerife. Abriu o envelope, leu a mensagem, meditou e disse:

−Manteve o entendimento. Serão enforcados ainda hoje. – pediu licença e se afastou.

A corriola o seguiu. O prefeito, propositadamente, perguntando quem ficaria à frente da situação da residência obteve a resposta que seria Barney.

Abandonado, observando-os, a esposa aproximou−se e comentou:

−Gente bizarra.

−Estão desesperados.

−O que está havendo?

−Os “responsáveis” pela morte do Dylan serão enforcados... Estão enriquecendo assustadoramente, Alyssa. Protegendo e negociando a madeira extraída ilegalmente da zona dos Maus Espíritos, terras pertencentes aos Carambolas. Os Carambolas, por sua vez, andam atrás de um motivo mais aguçado para invadir a cidade. Uma invasão acontecendo, a boa vida deles acaba.

−O juiz não observou isso?

O prefeito sorriu.

−O juiz tratou de defender seu lado, Alyssa.

−Como assim?

−Como explicaria à federação o assassinato de um coletor de impostos sem criar conflito com a autoridade envolvida na patifaria? O casal Blake e Luanda conhecem muito bem as manobras covardes do juiz.

−Assistiremos a mais um enforcamento.

−A mais dois assassinatos que teremos de assistir. – corrigiu o prefeito.


Início das proféticas palavras de Dam

Às 23h00min horas, o Xerife, irado, observava Barney cumprir o único preparativo para os enforcamentos: cobria com um pano as inscrições existentes nas tabuletas das forcas “Bil Uil”, “Amigo”.

−Está bom, Barney! – gritou ele.

Os Carambolas rebeldes eram inexpressivos por vida. Havia pouco público. O prefeito, acompanhado pela esposa, se fazia presente. Os sentenciados, com cordas nos pescoços, aguardavam que um tiro fosse disparado. Tylide mantinha tal tradição. Teria que haver um disparo efetuado por alguém visível ou omisso para que a execução acontecesse.

−Um tormento isso. – comentou alguém do público.

−Remancha muitas vezes proposital.

−Acredita nisso?

−O mundo é marcado por crueldade.

Houve um disparado. Barney acionou a manivela, os pisos falsos abriram−se e os corpos ficaram pendurados nas cordas.

−Que Deus os tenha! – desejou uma senhora.

Execução encerrada, trataram de abandonar a praça deixando para trás Barney que, juntamente com outros homens, providenciavam a remoção dos corpos dos executados.

O prefeito e a esposa seguiam a pé para casa. Em dado momento, o prefeito pediu para que ela olhasse para o céu.

−... Estou vendo... Indelicadas mensagens em fumaças emitidas pelos Carambolas.

−Que há muito tempo não se via. Revelam acúmulo de ódio. Pasme.

−Qual a novidade?

−A curiosa plantação de algodão existente na saída da cidade pertence a eles. Ou melhor, pertence agora ao Xerife, a Isaac e a James.

−... Que destino será dado a Manarry?

−Encontra−se embalada e será enviada de volta ao país de origem.

−É verdade que encontram maços de dinheiro no colchão?

−Sempre cavou riqueza, contaminou, assim digamos, dirigentes que não são maus. O senhor James, por exemplo, pertence a uma família exemplar. A família do Xerife também é um bom exemplo.

−Continuará enumerando ou para por aí?

−Por quê?

−Não mencionou o nome Isaac nem muito menos do recém-falecido.

−Esquecimento.

Ela sorriu e disse que a verdadeira história sobre a existência de ouro nas terras dos pais de Bil Uil continuava mistério.

−Nunca houve mistério, Alyssa. Imaginação da vidente Aneline. Manarry levou adiante como se fosse verdade. Como disse, sempre cavou riqueza.

−Estou sentida com a senhora Pink.

−Robson era apaixonado por ela. – um coveiro.

A esposa voltou a sorrir.

−São escolhas, querida. Agora se amargue com a trágica viuvez. – disse o prefeito.


Surpresa

Estefânia, ao retornar do armazém e avistar os três conhecidos cavaleiros trajados com roupas medonhas à porta da sua casa dialogando com a criada, desacelerou a charrete e, sob a frondosa árvore, ficou os observando.

−O que o estrume está dizendo? – perguntou o senhor Isaac, não entendendo os gestos da Carambola muda.

−Que a senhorita Estefânia não se encontra. – respondeu o Xerife.

−Parece uma maluca gesticulando. Pergunte sobre seu paradeiro.

Obedecida à ordem, a Carambola serva abriu as mãos a dizer que não sabia.

−Engraçado! Escuta mas não fala. – comentou o senhor James.

−Muda de araque. – disse o senhor Isaac.

−É possível. – afirmou o Xerife.

−... Não é de se jogar fora. – observou um deles.

Estefânia, através das rédeas, ordenou que o animal se movimentasse. Aproximando−se os conhecidos cavaleiros, que já estavam de partida, retiveram−se e ergueram chapéus a cumprimentado.

−Bom dia, senhores. – retribuiu Estefânia com um sorriso.

−Bom dia, senhorita. – responderam.

−O que desejam?

O Xerife meditou e disse:

−Desculpe-me importuná−la, senhorita, está havendo uma caçada. Desejo, então, saber qual o seu relacionamento com o gângster Bil Uil?

−Não estou entendendo, senhor Xerife.

−Qual a certeza da senhorita que Bil Uil não vai matar ninguém?

Estefânia meditou e perguntou:

−Quem lhe contou isso, senhor Xerife?

−Não importa, senhorita.

−Preciso saber, senhor Xerife, porque, nesse diálogo, poderia ter havido desentendimentos que resultaram na compreensão de que foram os senhores James e Isaac que assassinaram os pais de Bil Uil. Fato em que jamais acreditaria. Manteria fiel convicção do convencimento da população da cidade de que os senhores lutaram desesperadamente para que eles não se suicidassem.

−... É a verdade, senhorita.

−Estou convencida, senhor Xerife.

−As pessoas falavam demais, senhorita. – justificou o senhor James.

−Eu sei... Quanto à possível afirmação de que Bil Uil iria matar todo o mundo faria sentido uma reprovação: uma única pessoa matar todo mundo é impossível, não concorda?

−... Faz sentido... – concordou o senhor James.

−Mas é o real propósito da visita, senhorita Estefânia – disse o Xerife. – É para saber se faz ideia onde o foragido poderia estar escondido.

−Arrisco dizer, senhor Xerife, que, na casa da antiga propriedade dos pais, que, mesmo em ruína, continua de pé. Entretanto, acho que seria falta de inteligência por parte dele.

−Não tinha pensado nisso, senhorita.

−Basta raciocinar, senhor Xerife.

−Agradecido.

−Uma honra ter me colado ao lado da lei, senhor Xerife.

Ergueram chapéus e partiram.

−Uma graça essa garota.

−Criança não sabe manter o diabo da língua dentro da boca.

Estefânia ficou olhando−os... Com ajuda da criada esvaziou a charrete, colocou comida no prato, enrolou com pano e pediu à Carambola que se mantivesse muda. Montou no cavalo e partiu. Eles poderiam até ter se dirigido para a ex-propriedade dos pais de Bil Uil, porém, atingir a Caverna do Lobo, jamais. Além de ser uma mera caverna, estava situada dentro da imensa ex-propriedade que era cortada por uma rota de uso dos Carambolas fiéis. Trajeto vencido, o desagradável era subir até atingir a toca.

−Vamos, bendito sun. – pediu ao preguiçoso animal chamando−o pelo nome.

Venceu e alcançou a pequena clareira... A caverna estava adiante.

−Bil? – chamou.

−...

−Apareça. Sou eu, Estefânia. Sei que está aí.

Bil Uil surgiu e ambos ficaram se olhando.

−Está faminto, não é? Há garfo e faca. Leitão assado ao molho de pimenta mexicana. Não tão ardiloso. – entregou-lhe a comida.

Bil Uil, faminto que estava, agradeceu, dirigiu−se para uma pedra. Sentou−se, desatou os nós e passou a comer... Estefânia, esfregando os braços, limitou−se a contemplar a nostálgica paisagem. Quando garotos, acompanhados dos pais que eram amigos, passavam finais de tardes ali... Caminhando lado a outro, olhava-o e contemplava a montanhosa paisagem. Desejava iniciar uma conversa, mas não sabia o que dizer. Dezesseis anos haviam se passado e as fantasias de criança não se ajustariam naquele momento.

−Saboroso. – disse Bil Uil quando ela o olhou.

Iria arriscar alguma coisa. Decidiu. O pior que poderia acontecer seria sua expulsão.

−Por que isso, Bil? – perguntou.

−Como estão seus pais?

Corou e respondeu:

−Bem. Encontram−se no estrangeiro a negócio. A plantação de milho vai de vento em popa. O comércio está expandindo.

−Soube que leciona.

−Dam?

−Ele mesmo. Contou−me inclusive coisas gratificantes que me deixaram feliz.

Delicioso abraço. Porém, não mais entraria na privacidade, já tinha demonstrado que o assunto era dele.

−Gostando do assado? – perguntou esquecida de que ele já havia dito que estava.

−Excelente. Você que preparou?

−Preparei a embrulhar... Brincadeira. Fiz com ajuda de Anis.

−Anis?

−Uma criada Carambola. É muda, porém escuta.

−Bem servida.

−Temperamental.

Bil Uil mastigou, olhou-a e perguntou:

−Resta alguma lembrança de Talisco?

−Talisco?

−Esquecida?

Expressando encabulada: “Talisco...?”. Bil Uil disse:

−Esquecida de tudo, então.

−Não! Mas Talisco? Um cão? É isso?

Bil Uil abriu os braços.

−Talisco? – intrigada e pensativa.

Bil Uil, saciado, elogiou a refeição. Embrulhou os pratos como recebera, levantou-se, colocou sobre a pedra e adentrou a caverna. Ao retornar bebendo água no cantil, após matar a sede, disse que nada o impediria de fazer o que era para ser feito. Sabia que amanhã iria se arrepender, porém, entre fazer e não fazer, optou por fazer ciente de que seria um arrependimento menor.

−Concorda? – perguntou ele.

−Com a franqueza. – replicou Estefânia.

−Estamos conversados?

−Claro que sim.

−Agradeço pela presença e pela refeição. – disse ele.

−Já estou de partida.

Bil Uil, no entanto, ratificou a ênfase:

−Não pedi para que fosse Estefa.

“Estefa...” Olharam−se penetrantes.

−Pretende ficar até quando? – perguntou ela.

−Até completar o serviço.

Desapontada, apanhou os pratos e se dirigiu para a montaria. Em cima do cavalo ficou observando-o.

−Sobre Talisco, você nada respondeu. – lembrou ele.

−Que Talisco, Bil?

Ele sorriu.

−Testou−me? – perguntou ela.

−...

−De nada me esqueci, Bil... Até!

−Espere! – pediu ele.

−O que há?

−Dam em nada mentiu. – formosa.

−... Até...

−Até! – retribuiu ele acompanhando−a com um olhar.

Não foi um reencontro ruim. No entanto, deixou o local angustiada.


Aviso

O telegrama ainda estava na mão do Xerife cuja recomendação era: não deveriam e nem poderiam ser abatidos. Parte do pagamento já tinha sido efetuado. Havia um grande escoamento de madeira com duração estipulada para seis meses. Para que não ficassem expostos, estavam enviando uma dama que ficaria com o salão que pertencera a Manarry.

−Não podemos ser abatidos... Recomendar é fácil. – replicou o senhor Isaac.

Sugeriu o Xerife organizarem um pequeno exército composto de cento e cinquenta homens. Circularia pela cidade em grupo de três bem como ficaria posicionado estrategicamente.

−Bil Uil carrega na testa o nome escrito, senhor Xerife? – perguntou o senhor James.

O Xerife disse que dificultaria a fuga. Uma vez dificultada, não haveria ação... Meditaram e deram razão.

−Por onde anda Roy? – quis saber o Xerife levantando−se.

−Certamente entretido com alguma bobagem. – respondeu o pai.

Ao deixar a sala, Isaac disse que a conversinha da Estefânia não tinha o convencido. Deveriam apertá−la.

−Não ouse cair na asneira. A bisneta do juiz é apaixonada pela professora Estefânia. – advertiu o senhor James.

−Apenas uma sugestão, nervosinho.

Vez por outra se estranhavam. O Xerife balançou a cabeça, colocou o chapéu e saiu à procura de Roy para organizar a contratação de soldados.

−Nada de Carambolas! – advertiu um deles.


Barril de pólvora

Na avenida principal da cidade, onde a vida acontecia com maior intensidade: sede do Banco Lewis. Escritório do Xerife. Salões. Armazéns. Hotéis e pontos de carruagens. A senhora Luanda à janela do pavimento superior da residência, um sobrado, datado de um mil oitocentos e pouco, distraia-se olhando a movimentação da respectiva avenida. Ao avistar em dado momento homens em marcha trajados com uniformes esquisitos, chamou o esposo. Então, ao seu lado, perguntou-lhe quem eram eles.

−São soldados. – respondeu o senhor Blake.

−Soldados do Forte Lion?

−Por favor, Luanda! São soldados dessa gente.

−Desde quando é permitido a essa gente ter soldados?

−Desde quando queiram.

A senhora Luanda, após meditar, disse que, se um dia fosse necessário grito de guerra partir de seus lábios, não hesitaria.

−Vamos entrar, Lu. Estou lendo algo interessante. – convidou o esposo.

−Para o inferno você com sua leitura. O meu mundo é de guerra e não de paz. Não fomos nós que iniciamos.

−Sofre−se menos, Luanda.

Abandonou a janela, retirou do baú um cocar da tribo Carambolas, ofertado pelo cacique Águia Verde, e o substituiu pela bandeira da pátria hasteada no pequeno mastro da residência.

−Retire isso, Luanda. Poderá nos causar problemas. – pediu o esposo.

−Ficará aí. Pressinto que algo está para acontecer.

−Estão brigando com Bil Uil.

−No dia do enforcamento dos protetores, os Carambolas emitiram mensagens.

Comportamento não insólito da senhora. Brandon, filho deles que era oficialmente Auxiliar de Xerife, um dia fora encontrado morto. A culpa recaiu sobre os Carambolas fieis. O juiz para não confrontar com os prováveis assassinos remeteu o vago processo para a cidade grande onde permanecia inerte.


Descuido

O pastor Isaac, ao adentrar o templo, levou imenso susto. Sentado na primeira fileira de cadeiras estava Bil Uil.

−...

Era habilidoso. Receoso retroceder meditando na criação de um argumento, dirigiu-se para trás do porta-bíblia e nele descansou o livro sagrado.

−... O que deseja de mim, senhor Bil Uil? Caso seja a minha alma, estou disposto a servi−lo. – disse ele.

−...

−Leve−a que Deus resgatará... Como um pai não deve acobertar traquinice do filho, o filho deve desprezar traquinice do pai. A pergunta terá que ser feita: sua genitora era filha de nossa pátria? Prefere viver uma vida livre ou ser prisioneiro? O que aconteceria caso as vastas terras pertencentes a seus pais caíssem nas mãos do inimigo? Portanto, senhor Bil Uil, o que um ingênuo garoto de nove anos de idade sabe sobre o real propósito dos pais? O nosso país detesta traidores. Então, antes de o senhor ter saído por aí vingando−se, deveria conhecer fatos motivos e razões.

−Você é palhaço. – afirmou Bil Uil.

Uma coruja ensaiava deixar a toca. Isaac, a qual havia observado, ficou na expectativa de que levantasse voo.

−... Não sou palhaço, senhor Bil Uil.

A coruja voou. Cruzando o templo, batendo as asas, Bil Uil a olhou. Isaac aproveitou o descuido, atirou a bíblia sobre ele e correu. Bil Uil sacou e disparou, porém, o único estrago causado pelo arrogante projétil foi destruir a porta que o pastor havia escapulido e fechado.

−Ele está aqui dentro! O desgraçado está aqui dentro! – gritava o pastor.

Bil Uil, acuado, se viu atônito:

−Pastor do inferno!

Pensou em escapar pela porta principal do templo que estava fechada, porém, logo entendeu que já deveria está apinhada de curiosos, soldados e protetores.

−Que merda! – balbuciou tenso.

Soldados e protetores ficaram receosos de invadir. Havia uma conversa de que o tambor de sua potente arma acomodava doze cartuchos.

Arma em punho, Bil Uil suava. Estava convencido de que seria abatido, porém levaria um bom número consigo.

−Adentrem! – intimava−os, meditando no que fazer.

À direita, havia uma porta que estava fechada. Analisando para onde daria, escutou, vindo através dela, um ruído de vidro espatifando. Empunhando firme o calibre 76, fabricado especialmente para ele, ficou atento ao que resultaria. A porta foi aberta por Estefânia que disse:

−Venha, Bil! Há dois cavalos roubados.

Imediatamente ele obedeceu. Saltaram a janela e montaram.

−Os desgraçados estão fugindo! – alardeou alguém.

Uma intensa perseguição iniciou−se. Ganharam a empoeirada avenida principal. A senhora Luana e o esposo, que haviam escutado a gritaria, saíram à janela. Avistaram o casal passar num desabalado galope. O senhor Blake disse que era Estefânia e, certamente, Bil Uil. À senhora Luanda aplaudindo entusiasticamente gritou:

−Viva Estefânia e Bil Uil!

Passou, no ínterim, um mundo de perseguidores.

Estefânia, montada num cavalo mais veloz, ia à frente decidida a conter os perseguidores que disparavam. Apanhou o rifle no lombo do cavalo, voltou−se e disparou escutando imediatamente o cocheiro gritar:

−Matou uma dama, sua desgraçada!

Bil Uil a alcançou e, ao lado dela, ordenou que fosse para a Toca do Lobo e que iria retornar.

−Retornar para quê, Bil?

−O porco do Isaac tentou me iludir.

−Esqueça isso, Bil.

−Não. Siga para a toca e me encontrarei com você.

−Teria eu assassinado, Bil?

−Não sei Estefa.

O nostálgico tratamento carinhoso fez com que ele ficasse o olhando, e seguiu. Bil Uil, que muito bem conhecia as ruas da cidade, retornou. Ao avistar Isaac narrando para um grupo de pessoas os momentos difíceis vividos, entendeu que a estatura do ludibriador pouco importava, estava no alto. Então, ao passar pelo grupo num ligeiro galope, disparou explodindo o crânio de Isaac.

−Deus! – lamentou alguém.

Houve desmaios.

Tiros e mais tiros foram disparados contra ele, mas conseguiu escapar.

Ao chegar à gruta, encontrou Estefânia desolada sentada numa pedra.

−Assassinei uma pessoa. – disse ela chorosa.

Nada comentou. Levou os cavalos para o interior da toca e, ao retornar, sentou−se num canto qualquer e ficou olhando a mulher.

−Soube de alguma coisa, Bil?

−...

−Assassinei?

−...

A falta de resposta confirmava o que não queria escutar. O cocheiro não havia mentindo. Por ironia, a mulher fora alvejada na cabeça. Entretanto, o impacto teria sido desprovido de extravagância.

−Assassinei, não foi?

−...

−Responda, Bil?

−Sim.

−Meu Deus, como a vida de uma pessoa pode mudar assim? – questionou.

−Deixa−me constrangido. – retrucou Bil Uil quieto e pensativo.

As aulas haviam sido suspensas. Os parcos alunos deixavam a escola acompanhados dos responsáveis.

−A professora vai ser presa, bi?

−Não sei, minha bis. – respondeu o juiz.

−Estou triste, bi.

−Eu também.

A vitima, que havia sido alvejada e morta ao desembarcar da carruagem, resultado do crime cometido acidentalmente por Estefânia, era não mais que a “dama” que havia sido enviada para ocupar o Salão Manarry. O idoso, doutor Klaus, vestido no surrado casaco, ali se encontrava apenas para constar. E o Xerife, ao lado do James, os únicos restantes algozes de Bil Uil, conversavam:

−Com que cara ficaremos?

−Desacerto dos infernos.

Roy, por sua vez, encontrava−se no jornal da cidade, numa pequena tipografia, preparando uma publicidade.

O dia tornou−se noite. Favorecidos pelo silêncio, pela certeza de que não seriam importunados, pelo abatimento e pela baixa temperatura, Bil Uil e Estefânia dormiram. No entanto, quando acordados, permaneciam mudos, reflexivos. Bil Uil havia providenciado galhos secos de árvores e acendido uma fogueira na entrada da toca.

−Meu Deus! – resmungou Estefânia olhando em volta.

Escuridão. Milhões de estrelas e tímida lua. Piados de pássaros disputando melhor abrigo e cânticos de grilos... Uma coruja acomodada numa pedra elevada olhava para eles.

−O que faremos? – perguntou Estefânia com voz entristecida.

−Fugiremos.

–Fugiremos?!

–Só depende de você. – respondeu Bil Uil ascendendo a cigarrilha com a brasa de um galho.

−Serei uma fugitiva?

−Demos sorte, Estefa. Escapamos por pouco. Em contrário, a essa hora, já teríamos sido enforcados.

Estefânia, mantendo o desconforto que sentia, compreendeu. Conhecia a região. Meditou e disse que, através do telégrafo, se comunicava todas as noites com os pais.

−Ficaram preocupados por hoje. – complementou.

−Sofrerão um baque quando souberem. – replicou Bil Uil.

−... Eu, uma assassina...

−Sinto por tudo. É o que posso dizer.

Ficou o olhando e, perdendo a timidez, perguntou se havia alguém na vida dele.

−Os meus pais adotivos.

−Viveu para esse momento?

−Creio que sim.

Silenciaram. Estefânia, angustiada, balbuciou:

−... Meu Deus...

Bil Uil a olhou. Mas logo levou o indicador aos lábios. Levantou−se e empunhou o robusto calibre 76, mirando para o acesso à clareira.

−Alguém se aproxima. –avisou.

Estefânia correu para o fundo da caverna. No entanto, para a surpresa dele, retornou em poder do rifle e posicionou−se ao seu lado.

−Bil Uil? – escutaram.

−Sam? – perguntou Bil Uil.

−O próprio.

−Quem está como você?

−Quem está comigo, Uil?

−Falo sério, Dam.

−Não estou brincando, Uil.

−Apareça, Dam. – ordenou Bil Uil sem se descuidar.

Dam, trajado de Carambola, surgiu arrastando o cavalo pela rédea. Havia no lombo do animal volumoso fardo. Bil Uil perguntou se era um corpo. Dam respondeu que eram mantimentos.

−Irão precisar. – explicou livrando o animal do peso.

−Mantimentos, Dam?!

−Mantimentos, Uil.

−Como soube que nos encontrávamos aqui?

Dam respondeu dizendo que não queria reviver o passado, mas a caverna situada abaixo era velha amiga de longa data.

−... Boa noite, senhorita Estefânia!

−Boa noite, senhor Dam. – respondeu Estefânia desajeitada.

Disse ainda Dam que se o perguntasse por que não tinha o visitado responderia que, às vezes, se incompatibilizava com Deus. Então a bebida e a solidão eram as melhores companheiras. E, se o perguntasse por que estava trajado de Carambola, responderia que era para poder caminhar tranquilo pela cidade, embora ciente de que a aparência dele por si já era de um Carambola rebelde. Visitava-os para supri−los com comida e, infelizmente, para dar uma de mensageiro do cão.

−Como assim? – quis saber Bil Uil.

Retirou do bolso um cartaz, desdobrou e o entregou. Bil Uil dirigiu−se para a luz da fogueira e Estefânia o seguiu.

−Não é possível! – reagiu ela ao ler.

Sob o desenho dos rostos deles havia escrito:

“Procurados vivos ou mortos”. “Desertora do cumprimento do dever. Ladra de cavalo e assassina. Amante do fora da lei Bil Uil. Procurado por três estados por assassinato e roubo a banco.”

−Roy distribuía. Há cartazes por toda cidade. – esclareceu Dam.

Estefânia levou a mão à cabeça.

−Meu Deus!

Dam disse que falava com amigo e não como foguista. A situação deles era a pior possível.

−Parece−me que a sua também, Dam. – replicou o amigo Bil Uil.

−Parece não, Uil. Roy é um demônio, ateou fogo no estábulo com animais e tudo.

Abandonar Tylide era a melhor das ideias. Só não aconselharia partirem naquele momento por causa do volume de água e da correnteza do Rio Voraz. Estavam aproveitando para escoar madeira roubada das terras dos Carambolas. Havia trabalhadores forasteiros os quais não representavam perigo, porém eram auxiliados por Carambolas rebeldes, muitos mercenários.

−Até então, Uil, – continuou – aqui é o local mais seguro. Ficarei de olho no escoamento da madeira assim que acalmar, coisa prevista para daqui a dois ou três dias, quando deveremos partir. Sairemos em Guelupe. Lá ficarei eu, e vocês embarcam no trem e seguem para onde desejarem. Para o seu atual habitat, Uil. Lá há advogado. Aqui só resta a vocês e, a mim, também a forca. Roy já adicionou uma terceira.

−Meu Deus! – não cansava Estefânia de recorrer.

Dam disse que havia trazido bons suprimentos. Retornaria para o “lar”, ficaria de olho nas palavras Dele – lendo a bíblia – e na ação do inimigo.

−Cuidem-se. – desejou.

−Você também, Dam. – retribuiu Estefânia.

Dam, ao partir, Bil Uil recebeu novo apelo de Estefânia:

−Meu Deus que situação desagradável. Converso todas as noites com meus pais... A minha vida emborcou de um momento para outro. Assassinei acidentalmente uma pessoa, estou condenada à forca, mas, para que não seja enforcada, terei de tornar−me uma foragida.

−Deixa−me constrangido. – repetiu Bil Uil.

−... Para onde vai? – perguntou ela. Estava apavorada.

Bil Uil fora bisbilhotar as mochilas trazidas por Dam. Retirou duas maçãs, entregou−lhe uma e sentaram−se junto à fogueira.

−Nunca nos desentendemos, Bil. Convivemos três anos juntos sem uma única rusga sequer.

−Recordo-me de você naquele dia. – disse ele.

−Da partida?

−Sim.

−Mamãe apertava o meu braço. Sentia vontade de voar na garganta dos cínicos e arrancar-lhe o gogó com os dentes. Rodopiaria a dama Manarry pelos cabelos e atiraria longe...

−Como soube da minha aflição na igreja?

−Emily, uma aluna, disse−me: “Bil Uil está encurralado na igreja, professora.” Como poderia deixá−lo naquela situação? Sinto−me ávida pela minha atitude, mas angustiada. Afinal sou uma assassina.

−Fico agradecido por ter me salvado.

Ela olhava-o pensativa e ele lhe perguntou:

−Acredita que eu seja assaltante de banco?

− Não.

Olhando as estrelas e a tímida lua, comeram a maçã.

−... Dam falou em dois ou três dias. – conversou Bil Uil.

−Dois ou três dias. Em Guelupe, tentarei manter contato com os meus pais.


Dia seguinte

Fora na manhã do dia seguinte Bil Uil e Estefânia haviam se declarado casados. Estefânia, ao sair da caverna, avistou na linha do horizonte grossas fumaças subindo ao céu.

−Chegue aqui, Bil? – convidou ela preocupada.

Bil Uil, ao sair e olhar, perguntou o que significava aquilo.

−Estou convencida de que atearam fogo na plantação de milho de meus pais.

Bil Uil acendeu a cigarrilha e, em silêncio, ficou observando. Pensativo, foi sentar−se sobre a pedra.

No início da tarde escutaram Dam anunciar que estava subindo. Precavidamente preparam−se para recebê−lo. Dam surgiu acompanhado da serva Anis que, ao avistar a sua senhora, correu de encontro e a abraçou. Estefânia retribuindo o afeto à Carambola, na sua linguagem, contou que homens sob o comando de Roy haviam não só ateado na plantação de milho.

−Não só, Anis? Em que mais? – quis saber Estefânia.

Em gestos, disse que fora na residência.

−Encontrei-a perdida. – disse Dam.

−Filho de cadela leprosa! – reagiu Estefânia passando a chorar.

Dam disse:

−Parece que Roy assumiu o comando.


Roy, empolgado, dizendo que sabia onde Bil Uil, Estefânia e Dam se encontravam escondidos. O Xerife o criticou dizendo−lhe que havia dado uma de “cavalo do cão”.

−Como assim, senhor Xerife? – quis saber.

−Ateou fogo na plantação de milho e na residência dos Davies.

−Para que Estefânia aprenda e saiba com quem anda, senhor Xerife.

O pai interveio.

− Seria você a companhia certa, rapaz?

− Por que a pergunta, papai?

− Por nada. Não ficou subentendido, senhor Xerife?

−Ficou, senhor James. Daria um belo casal.

Roy desviou as vistas. James, por sua vez, depositou pensamento num certo convite que lhe foi feito pela esposa: “Venha ver isso, James.” Acompanhando−a, adentraram o aposento de Roy. Abriu o armário, apanhou um maço de papéis e o entregou pedindo para que lesse. Eram cartas escritas por Roy, dirigidas a Estefânia, porém nunca enviadas. Após examiná-las, perguntou como ela sabia “Sara que me contou. O seu filho ama Estefânia e acho que ela o ignora. Perdoe−me, James, o seu filho é doente. Ele a ama? Incendiou a plantação de milho, como não bastasse, ateou fogo na residência.”.

Recolhendo o pensamento, expressou concordar com o Xerife:

−De fato, Roy, você deu uma de “cavalo do cão”.

−Até você, papai?

−Deseja saber? Sabemos onde se encontram escondidos: na ex-propriedade dos pais de Bil Uil.

−Que imensa propriedade, papai! Sabem do exato local?

−Você sabe?

−Claro que sim.

−Como sabe?

−Pouco importa. Não devemos permitir que erros do passado se repitam. Bil Uil não poderá escapar com vida. Caso, mais uma vez aconteça, um dia retornará. Não pretendo viver sobressaltado, papai. A não ser que vocês queiram viver sob a expectativa de um dia ele retornar.

O Xerife olhou para James para dizer que Roy tinha razão.

−Viveríamos assustados, senhor James. – pronunciou.

−Agradecido pelo apoio, senhor Xerife. No final da tarde, irei buscá−los. – enfatizou Roy.


Mensagens em fumaças emitidas pelos Carambolas cruzavam o céu de modo preocupante. Anunciavam que a cidade, a qualquer momento, seria impiedosamente massacrada. Os moradores temerosos protegiam−se, pregavam madeira nas portas, janelas, em tudo que fosse acesso.

−Estou com medo, papai. – disse Sara, assim que o senhor James adentrou a casa.

−O que está havendo? – perguntou a esposa.

James olhou para a filha que tinha voltado a distrair−se com a boneca e disse:

−Cinco Carambolas foram torturados e mortos. Estou convencido de que foi Roy para obter a confissão do lugar onde Bil Uil estaria escondido.

−O seu filho é louco. Por onde anda?

−Não sei. Disse−nos que iria buscá−los.

−Buscá−los?

−Bil Uil, Dam e Estefânia.

−Serão enforcados. – afirmou ela estarrecida.

−Não há como negar.

−É assim que o seu filho ama a Estefânia como declara nas cartas? O seu filho é doente, James.

−Amava a mãe que nos abandonou. – justificou desfeito o senhor James.

Houve silêncio. Vencido. James disse que só não iriam deixar a poeira assentar em Raso porque Carambolas estavam promovendo provocações.

−Trouxe homens. Colocaram madeira nos acessos da casa.

−Será um massacre, James. Estou com medo. – confessou a esposa.

−Eu também, mamãe.

Olharam para a pequena Sara que se distraía com a boneca.


Tranquilidade momentânea

Até parecia um lar. Bil Uil havia encontrado um poço d’água e, juntamente com a “esposa”, lavaram algumas peças de roupas e colocaram−nas para secar...

−São disparos! – alertou Bil Uil em dado momento.

Estefânia, após colocar seus ouvidos sob escuta, confirmou:

−Bem próximo daqui.

−Bil Uil? – escutaram.

−É, Dam.

−Bil Uil, senhorita Estefânia. – insistia.

−Voz de pavor. – reconheceu Bil Uil.

Dam, montado com Anis na garupa, surgiu.

−Rápido. Acho que os Carambolas fiéis estão impedindo alguém de avançar. – disse ele.

Anis desceu da montaria e se posicionou de sentinela.

−Rápido. – ordenou Dam.

−Estamos nos apressando, Dam.

Estefânia recolhia as roupas enquanto Bil Uil preparava os cavalos. Anis, em dado momento, correu, montou na garupa e, em gesto, disse que muitos estavam subindo.

−Andem logo. – pediu Dam avexado.

Montaram. Então, partindo, Bil Uil, mais por ódio do que necessidade, sacou e disparou. Roy, que vinha à frente, não foi atingindo por pouco, porém o avantajado projétil saído do “canhão”, destroçou o peito de um comandado e abriu um imenso buraco na testa de outro.

−Com mil mosquitos! – gritou alguém pasmado.

Assustado, Roy estancou. Fora imenso susto. Estancado e assustado, levou a mão ao ouvido direito por onde, a centímetros, passara o nervoso projétil.

−... Deixemos aí... – disse por dizer: desfeito, referindo−se aos dois comandados que haviam sido mortos pelo projétil. Por pouco, não o dilacerara.

Aclive de difícil acesso: rochoso. A vantagem do perseguido era ter o perseguidor visão obstruída por arbustos frondosos bem como ressecados.

−Para onde vamos? – perguntou Bil Uil.

−Dobraremos a primeira à direita, Uil. Roy acreditará que seguimos para o Rio Voraz.

Observou Bil Uil que por aquele caminho entrariam nas terras dos Carambolas.

−Não há outra saída, Uil. Atravessaremos a zona dos Maus Espíritos... Sairemos na cabeceira do rio, atravessaremos, retornaremos pela outra margem e seguiremos para Guelupe.

−Ir para retornar?

−Isso, Uil. Retornaremos pela outra margem.

Estefânia olhou para Anis e perguntou:

−Por que está com os olhos fechados, Anis?

A Carambola muda respondeu em gestos que temia a zona dos Maus Espíritos. – uma área supersticiosa, desprotegida. Local onde acontecia o roubo de madeira. – Estefânia sorriu.

Roy, vencido o aclive com minutos de atraso, seguido por mais de cem homens, rumou em direção ao Rio Voraz.


−Perdi-os. – confessou Ele uma hora depois. Bebeu água e contou. – Um canhão, papai. Senti o calor do chumbo passar rente ao meu ouvido, atravessou o corpo de um desgraçado e arruinou a cabeça de outro.

O Xerife, não se contendo, esboçou um sorriso e perguntou se não tinham seguido para o rio Voraz.

−Não, senhor Xerife.

−Esconderam−se, Roy.

James disse que a gravidade era preocupante. Sugeriu que o Forte Lion fosse acionado.

−Precisará da aprovação do prefeito e do juiz, senhor James. – lembrou o Xerife.

Roy, com a mão no ouvido, indagou qual o motivo da medida. O pai mandou que projetasse o binóculo para as montanhas. Observaria estranha movimentação. Alguém, com esterco de vaca no lugar do cérebro, tivera a petulância de invadir as terras dos Carambolas, torturar e matar cinco irmãos a fim de arrancar alguma confissão.

−Não fui eu, papai.

−Fora alguém, Roy, covarde, infantil, ordinário e desavisado. É de conhecimento de todos que os Carambolas suportam tudo menos irmão assassinado por cara pálida dentro de suas terras.

−Dê−me o nome do cretino que acertarei as contas com ele, papai.

James, então em pé, pensou em apontar para ele, porém, se assim o fizesse, teria sérios problemas em casa.

−Com licença! – pediu, retirando.


Avisou Dam, referindo-se à zona dos Maus Espíritos:

−Estamos nos aproximando.

Anis tinha os olhos mais que apertados.

−Tensa, Anis? – perguntou Estefânia.

Estava.

Havia três Carambolas em trajes de guerra interceptando o caminho que pretendiam seguir.

−O que será? – quis saber Bil Uil.

−Se fosse para nos hostilizar, já teriam feito. – replicou Dam.

Interceptados, um dos Carambolas disse:

−Bil Uil, Estefânia, Dam, irmã Anis. Seguir. – apontando para a direita.

−Seguir? – perguntou em gestos Anis.

−Seguir.

−Seguir para onde, Anis? – quis saber Estefânia.

−Seguir de encontro ao cacique Águia Verde. – explicou Anis.

Dam, obedecendo à instrução, esporou o cavalo. Bil Uil, seguindo, perguntou se tinha ideia do que estava acontecendo.

−Águia Verde deseja nos receber.

−Para quê?

−Logo saberemos... Acho que nunca estivemos sós. – confessou.

−Por que diz isso?

−“Bil Uil, Estefânia, Dam, irmã Anis.”

Estavam, na verdade, retornando para a cidade, só que, pelas montanhas, terras dos Carambolas. Na medida em que iam avançando iam ficando impressionados com o que iam avistando: caixotes de armas e de munições sendo transportados e abertos. Carambolas alegres pintando−se. Ensaiando ataques. Cavalos sendo preparados.

−A cidade será invadida. – reconheceu Estefânia.

Anis balançou a cabeça afirmativamente.

−Alguma coisa grave aconteceu, senhorita. – conversou Dam.

O cenário não mudava. O sol já havia, há bom tempo, se recolhido. Sob a ordem de um Carambola, estacaram diante de um circulo grande, formado por tochas. No centro do círculo, havia algo que não conseguiam visualizar.

−É a cabana do cacique? – perguntou Estefânia.

Anis negou. O Carambola ordenou que descessem da montaria e os seguisse.

−Estou com medo. – confessou Estefânia.

Anis expressou dizendo que não era para temer a cerimônia. Ela era de paz.

−Paz?! – indagou Estefânia.

O cacique Águia Verde, trajado a rigor, sentava−se no chão com pernas cruzadas. Ao serem apresentados, determinou que examinassem o que havia no centro do círculo. Obedeceram.

−... Meu Deus! – reagiu Estefânia sem ter muito se aproximado.

No centro do circulo, havia cinco irmãos Carambolas completamente desfigurados... Retornaram e, obedecendo à linha do circulo, dividiram−se em casal e sentaram ao lado do cacique.

−... Estefânia amiga! – disse o cacique – Bil Uil amigo. Dam amigo. Anis rebelde, mas amiga. Eles – cospe – não amigos. Cãozinho – Roy – inimigo do sol, do vento, da lua, das estrelas. Matou cinco irmãos para informar vocês. – assim dizendo, ficou olhando para os corpos irreconhecíveis no centro do circulo.

Em solidariedade, os prestigiados convidados ficaram também olhando.

Estefânia levou imenso susto com o repentino gesto do cacique. Puxara com raiva os cabelos laterais da cabeça dizendo que estava de “saco cheio”. Trocava madeira por mercadorias. Mas eles não queriam comercializar, queriam roubar. Portanto, a resposta viria de onde eles extraíam ilegalmente. Estava de “saco cheio” – repetiu o gesto – cinco irmãos haviam sido mortos dentro das terras deles, não dava mais para suportar. Caso não houvesse “um basta”, os abusos evoluiriam de tal maneira que um dia seriam expulsos das terras. Havia uma cabana para passarem a noite. Assim que cara amarela surgisse no horizonte mostrando a graça do sorriso, despertassem, estavam intimados para combater os irmãos.

−Permite−me fazer−lhe uma pergunta cacique Águia Verde? – inquiriu Estefânia com modos.

−...

Anis balançou a cabeça dizendo que podia.

−Lutaremos contra nossos irmãos?

Águia Verde sorriu e replicou:

−Toda dia, cara pálida luta feroz com irmão.

−Não pode poupar a população da cidade?

−Sempre e sempre, nós mais rejeitados do que os imprestáveis. – assim dizendo voltou o rosto para o lado.

Anis levantou e transmitiu a Dam e aos demais que o irmão cacique Águia Verde não queria mais conversa.

Levantaram−se. Um Carambola aproximou−se e os conduziu para a cabana onde passariam a noite. Ao adentrar, Estefânia voltou−se. Águia Verde, desolado, olhava para os irmãos massacrados expostos no centro do círculo.


O grande dia

Assim que cara amarela despontou no horizonte, mostrando a graça do sorriso, Roy abriu a porta do aposento do pai, abruptamente, e anunciou:

−Despertem, porque a cidade está cercada.

Com olhos abertos, porém desnorteado, James quis saber o que estava acontecendo.

−Chegue à janela que verá. O grande dia chegou.

Pulou da cama, afastou a pesada cortina, olhou para as montanhas e avistou Carambolas e mais Carambolas, em traje de guerra, aguardando, ao que parecia, por alguma ordem.

−O Xerife já está ciente? – perguntou gaguejando.

−Certamente, papai.

A pequena Sara havia acordado e, ainda sonolenta, juntou−se a eles dizendo que estava com medo. A mãe tomou−a nos braços. James, que já havia trocado−se, apanhou o rifle e, seguido pelo filho, deixaram a residência e se dirigiram para o escritório do Xerife.


−Quais as providências, senhor Xerife? – quis saber o senhor James.

O prefeito e o juiz, menos dorminhocos, assessoravam o Xerife. O juiz, ao vê−los adentrar, evitou olhar para Roy.

O Xerife havia respondido que já tinham tomado todas as providências.

−Contatou com o Forte Lion? – telefonado. O único acesso que o telefone com “batedor” dispunha.

−Já senhor, James.

−E? – quis saber Roy.

−Aguardar.

Roy, no entanto, retrucou.

−Por no mínimo duas horas. Tempo hábil para o deslocamento da infantaria.

−Perfeitamente.

James perguntou se já havia sido providenciado o pedido à população no sentido de que permanecesse em absoluto silêncio no interior das casas, que não saísse e que não disparasse nenhuma arma de fogo. O Xerife respondeu que os solados estavam encarregados disso.

−Apenas por fazer, senhor James. A população sabe como se comportar. –complementou.

Referiam−se à retidão da tribo Carambola que, uma vez em vantagem, só atacaria se fosse hostilizada.

−Sinto−me humilhado. Permanecer quieto e calado é o mesmo que ter escrito na testa: “maricas”. – resmungou Roy.

−O mundo pertence aos humildes, garoto. – poetizou o idoso juiz.

−Não sou garoto. – protestou Roy.

−É sim! – tinham esse costume.

O Xerife, a fim de estancar possível evolução do desentendimento, disse que não tinha certeza se os Carambolas sabiam que o telefone ainda funcionava. Caso contrário, era para ficarem tranquilos, pois seu olheiro iria correr para avisá−los de que a infantaria estava a caminho, quando já estivessem bem próximos.

Roy, que se sentia humilhado e ofendido, abriu a porta e saiu.

−... Para onde vai, Roy?! – quis saber o pai abrindo a porta.

Ao adentrar, sem obter êxito, o juiz disse que o filho dele era maluco.

−O que posso fazer, senhor juiz?

O juiz, que ainda fumava, acendeu a cigarrilha sem nada dizer.

Minutos depois, Roy retornou e contou que, na extremidade, à esquerda da avenida, a linha de frente estava posicionada: Bil Uil, Estefânia, Águia Verde, Dam e Anis.

−Enfezados!... – zombou Roy.

−Traidores. – replicou o Xerife.

−Basta! – gritou o juiz.

Com o ato, o prefeito olhou para o Xerife e, em seguida, para James. Roy, por sua vez, disse que iria entretê−los.

−... Volte aqui, Roy! – gritou o senhor James mais uma vez à porta.


Tylide estava submersa em silêncio.

−Que silêncio é esse, Blake? Nenhum chiado de charrete? – queixou a senhora Luanda, levantando−se.

−É verdade. – concordou o esposo acompanhando−a.

Então, à janela, sem grandes esforços de visão, assustaram−se com a cena.

−... A cidade será invadida, Lu. – reagiu o esposo.

Roy, com gestos palhaços e obscenos, hostilizava a “linha de frente.”

−Roy é realmente maluco, Blake. Provoca feições carregadas de noites mal dormidas, sede e fome. – sérios.

−Repare os arremessadores de lança Lu, estão ciscando. – em trajes de guerra. Montados, ladeavam a “linha de frente”.

Como se fosse um amuleto, a senhora Luanda correu a mão no cocar hasteado e abandonou a janela. O esposo, momentos depois, ao voltar-se, viu a mulher em poder do rifle.

−O que foi que eu disse? – perguntou ela.

−... Lu...

−Saia da frente. A cidade é cúmplice. Estão aguardando a infantaria do Forte Lion chegar para massacrá-los e eu não vou permitir.

−... Lu...

Preparou o rifle e apontando para ele ordenou:

−Saia da frente.

−Fala sério, Lu?

−Falo... Saia da frente.

−Lu...

−Saia da frente!

O esposo cedeu... Ela chegou à janela, gritou pelo nome do filho, apontou para o alto e disparou.

−... Quem foi o louco?! – perguntou em desesperado eco o Xerife.

Nesse ínterim, uma lança arremessada por um dos treinados Carambolas passou em alta velocidade e atravessou o peito de Roy. Caído com a lança atravessada no peito ficou se debatendo.

−Viu o que você fez, Lu?

−Para aprender a deixar de ser palhaço.

Liderados por Águia Verde, avançaram. Das montanhas, Carambolas e mais Carambolas desciam. Passaram a atear fogo nas casas. Na medida em que os moradores iam saindo eram alvejados. Longe de ser uma batalha: um massacre era o que acontecia. Bil Uil estourou os miolos do Xerife junto à parede. Estefânia, em luta com James, se apoderou de uma machadinha e o decapitou. O prefeito, que era amigo, protegido por Carambolas, conseguiu escapar. Dam e Anis mantiveram−se escondidos. O juiz não tivera sorte. Tentando se escapar, montado num cavalo, foi alvejado com um certeiro tiro desferido pela senhora Luanda.

−Matou-o, Lu! – observou o esposo.

−Covarde. Com medo de retaliações, remeteu o processo de nosso filho para a cidade grande.

Quando a infantaria do Forte Lion adentrou a cidade, cerca de duas horas depois, tudo que encontrou foram sobrados em chamas e um rio de corpos sem vida espalhados pelas ruas.

−... Com mil demônios... – balbuciou o comandante à frente da infantaria, procurando caminho menos dificultoso para poder passar.

−Para cada Carambola morto há quarenta tylidenses. – observou o subcomandante.

Havia muito para ser feito: apagar focos de incêndio. Cavar covas e enterrar os corpos.


Bil Uil e Estefânia encontravam−se hospedados na casa do prefeito. Vestidos com roupas impecáveis, aguardavam na imensa cozinha que o comandante da infantaria se retirasse. Retirando−se, apresentaram-se na sala.

–O que poderia contar ao comandante de infantaria? – perguntou o prefeito.

–...

–Os Carambolas estavam insatisfeitas com o roubo de madeira, ficou esclarecido.

Após breve silencio Estefânia deu de ombros falou algo sobre seu pais e disse que viajariam na manhã do dia seguinte.

−A cavalo? – perguntou a esposa do prefeito.

−É uma viagem desgastante. – observou Bil Uil.

−Não pretende ser empossado como Xerife, senhor Bil Uil? – quis saber o prefeito.

−Não levo jeito.

−Retornara para detrás dos maquinários?– inquiriu à senhora Alyssa.

−Não só. – respondeu Bil Uil com modéstia.

−Tenho curiosidade de saber como os fios de algodão se entrelaçam nos maquinários: são fios virgens entrelaçando−se ou são tingidos depois de entrelaçados?

No entanto, o prefeito a interceptando, matou a curiosa pergunta. Lembrou o prefeito que a melhor carruagem da cidade pertencera ao juiz, cujos familiares haviam também sido mortos, caso a desejasse.

−É uma boa carruagem. – sustentou Estefânia.

Bil Uil, perguntando se fazia ideia do número de sobreviventes, teve a resposta do prefeito de que fora em torno de três mil pessoas.

−Dá para recomeçar. – garantiu o prefeito.


Final

Quando cara amarela despontou no horizonte exibindo mais uma vez a graça do sorriso, Bil Uil e Estefânia já estavam prontos para partir. Dam e Anis despediram−se na véspera. Haviam conseguido um cantinho para morar juntos. A senhora Alyssa, em razão do óbvio, relutou com o humor, porém, preparou um doce de amora para que fossem consumindo durante a viagem... Deixando a residência, acompanhados pelos anfitriões, Águia Verde, montado num cavalo, os aguardava. A carruagem que pertencera ao juiz fora de agrado de Bil Uil. Seria o cocheiro, e Estefânia, a auxiliar. Iriam se revezando. Despediram−se e subiram na carruagem.

−Até! – disse o casal.

−Até! – respondeu Bil Uil e Estefânia.

Bil Uil açoitou os animais. Águia Verde, como prova de gratidão, os acompanhou. Evitaram a avenida principal já que ainda havia muitos corpos espalhados. Seguindo por uma avenida paralela, as vistas de uma garota que perambulava chorosa cruzaram com as de Bil Uil, perguntando quem era. Estefânia, preocupada como o doce, olhou ligeiramente e disse que era Sara. Dobram uma rua. A pequena, então órfã Sara, para não perdê−los correu por uma travessa. Numa estrada descampada, ladeada por plantações de algodão, Sara, com os olhos vermelhos, continuava olhando−os. Águia Verde, em dado momento, dobrou a direita rumando a caminho das montanhas. Acompanhando a pequena órfã Sara, a carruagem seguiu até desaparecer na linha do horizonte.




“A cegueira destrói. Um mal que deve ser combatido, eliminado, desprezado e esquecido. Porque, por razões não desconhecidas, associa e procria. Uma semente desprendida que não trataram de exterminar.”

Dam,


Revisão textual: Prof. Luiz Gonzaga P. Souza.