ABUTRES, ENDEMONIADOS OU DESCONTROLADA GUERRA ESPIRITUAL?

Anjos e feras

Era sempre assim. Enquanto tia e sobrinha preparavam doces e salgados do sustento diário, ambas conversavam.

− Hein, tia? Abutres, endemoniados ou descontrolada guerra espiritual?

− Qual o motivo da curiosidade, Milena?

− Conflitos e conflitos, tia. Entre as nações, nas nações, no ambiente público, no ambiente de trabalho. Na vizinhança, na família. Enfim. Certo título, cujo nome agora não me recordo, o autor, no prefácio, teoriza dizendo que vivemos a própria vida, porém controlada por espíritos de vidas passadas e presentes os quais vigiam e manobram conforme heranças tenham ficado e conforme atitudes praticadas no dia a dia. No entanto, questiona: quando a perseguição teria iniciado? Respondendo, diz que, nos primórdios tempos, assim que a primeira injustiça foi cometida e o primeiro crime praticado. Respeitoso e temente, aponta para Gênesis 4:3, 4.

Gênesis 4:3, 4...

− Isso mesmo, tia. Segundo ele, sido o início de tudo.

−...!

− Então, ainda segundo o autor, se desde os primórdios tempos houvesse una árvore genealógica cuidadosamente escrita e a cada milésimo de segundo atualizada, muitas coisas seriam evitadas. O turista, por exemplo, teria certeza onde pisaria. Certos trastes não estariam no poder. Nem muito menos certos trates não seriam considerados sumidades. Casamentos e ou relacionamentos que culminam em tragédia seriam evitados.

− Bastante interessante, Milena. Mas a árvore genealógica que serviria de alerta de possível vingança não existe.

− Não só serviria para observação de incompatibilidade, tia. Também serviria para construção de bonança. Porém, o autor do mencionado trabalho o direciona apenas para explicar a origem do caos.

− Explicado, Milena.

− Mas também, tia, a causa da instalação do caos pode ser vista através dessa ótica que, por sinal, foi por mim desenvolvida.

−...

− Não ria, tia. Porque não sou bocó.

−... Continue, Milena.

− Escute. A jovem X, após ter deixado o cafundó onde residia, na esperança de ser modelo, fora na primeira tentativa rejeitada. Pois tinha feia mancha sobre o peito direito. No entanto, a desilusão não a estimulou de retornar para o cafundó de onde viera. Como não estava desprevenida, alugou um quarto de pensão com propósito de procurar emprego e assim tocar a vida pra frente. Então, tia, ela, ao colocar as roupas no armário, leu o difícil poema que estava gravado em uma das prateleiras. Assim dizia:

“VOCÊ É VOCÊ!

O SOL!

O RIO!

O MAR!

A FLOR!

A PUJANÇA!

VOCÊ É VOCÊ: TAL QUAL A DANÇA!

O ESCURO DA NOITE!

O AÇOITE DA FOICE!

A PONTA DA LANÇA!”

− Que poema é esse, Milena?!

− Ouça. Leu e releu e nada entendeu. Porém ficou fascinada. Quando a companheira de quarto chegou, indagou-lhe se sabia decifrar aquele poema, pois havia controvérsia nas estofes. A companheira disse que se tratava de um poema demoníaco feminino, uma vez que, pacto firmado, a ascensão estaria garantida. Ela, que não se atrevesse em firmar o pacto. Residia naquela pensão há mais de vinte anos e conhecia muitos que galgaram o sucesso através daquele incentivo. Como também conhecia histórias desagradáveis que envolviam não só quem praticara o pacto.

− Que seria herança.

− Perfeitamente, tia. O pacto era único, atendia gêneros e exigia obstinação. Mirava−se no espelho por longo tempo e convencido de ser aquilo o que realmente almejava, socava−o. Sangue fatalmente fluiria, ocorrendo, o pacto estaria firmado. Quando a prenda havia opção ou fazia sexo com um cachorro...

− Por favor, Milena.

−... entre as dez horas ao meio−dia, na movimentada Avenida Universo. Ou caminharia os quinhentos metros da mencionada avenida completamente despida. Sapatos vermelhos, salto alto, jarro de flores vermelhas na cabeça e um espanador enfiado no... anu.

−... Chega, Milena...

− Resumindo, tia. A senhorita X comprou um espelho bem como os apetrechos. Portanto, tia, acho eu que, quem possui feia mancha no peito direito, está habilitado para aceitar e a praticar todo tipo de sugestão gangrenosa. Está habilitado para servir ao absurdo o que fatalmente resulta em discórdia e conflitos. Entre as nações, nas nações, no ambiente público, no ambiente de trabalho. Na vizinhança, na família, enfim. Ato funesto, tia. Estopim para desavenças afloradas por abutres, endemoninhados ou pelo próprio flagelo de uma descontrolada guerra espiritual?