LINKS



====================

BEM VINDO(A) AO SITE DOS

INTERNAUTAS MISSIONÁRIOS

O QUE SÃO OS EVANGELHOS?

Pe. Henrique Soares da Costa

1 – Visão geral do Evangelho

a) O que são os evangelhos?

Para compreender bem os evangelhos é muito importante ter em mente que eles não são a história da vida de Jesus; não estão preocupados em contar fatos da vida humana de Jesus de Nazaré: não dizem qual o seu aspecto físico, como se vestia, o que comia, como foi educado... Os evangelhos têm somente uma intenção: mostrar que ele é o Cristo de Deus, o Messias de Israel que por nós morreu e ressuscitou, de modo que aquele que crer no seu nome, receber o Batismo por parte da Igreja e, fazendo parte da Comunidade de Jesus (que é a Igreja), alimentar-se da Eucaristia, tem a vida eterna em nome de Jesus.

Assim, os evangelhos não são a narração neutra, imparcial como um documento histórico, mas são relatos escritos por cristãos e para cristãos que acreditavam em Jesus e queriam que as pessoas, lendo esses relatos, tivessem fé no Senhor. Isto aparece muito claro no final do Evangelho de João: “Jesus fez, diante de seus discípulos, muitos outros sinais ainda, que não se acham escritos neste livro. Esses, porém, foram escritos para crerdes que Jesus é o Cristo (= o Messias), o Filho de Deus, e para que, crendo, tenhais a vida em seu nome” (Jo 20,30-31). Portanto é bobagem fazer algumas perguntas como: o que Jesus fez entre os doze e os trinta anos? Como era a sua vida de família? Qual era o seu aspecto físico? Como foi que Maria conheceu e casou com José? – os evangelhos nem de longe se preocupam com isso: eles somente estão interessados em nos fazer compreender uma coisa: Cristo morto e ressuscitado é o Senhor e nele nós temos a salvação se nele acreditarmos!

b) Como surgiram os evangelhos?

Hoje temos quatro evangelhos bem arrumadinhos na nossa Bíblia. Mas o seu nascimento não foi simples nem fácil. Jesus morreu no dia 7 e ressuscitou no dia 9 de abril do ano 30 da nossa era; pois bem, ele não mandou escrever nada: “Ide por todo o mundo e proclamai o Evangelho a toda a criatura. Aquele que crer e for batizado será salvo” (Mc 16,15-16). Então, a Igreja nascente proclamou o Evangelho, batizou, celebrou a Eucaristia (chamada no Novo Testamento de “fração do pão”)... e tudo isso sem existir ainda o Novo Testamento. A Igreja de Cristo, a Igreja católica, vem antes da Bíblia: os apóstolos não andavam com a Bíblia debaixo do braço... ainda não havia Novo Testamento.... e já havia Igreja católica!

Se não havia os quatro evangelhos, que Evangelho os Apóstolos pregavam? O Evangelho (= Boa Notícia) é um só: Cristo morreu e ressuscitou para nos salvar! O Pai ressuscitou Jesus e derramou sobre ele o Santo Espírito e quem crer no nome de Jesus recebe este Espírito para a remissão dos pecados e tem a vida eterna! Um bom resumo desse Evangelho está em 1Cor 15,1-8! O Evangelho não é um livro escrito, mas uma boa notícia, uma novidade alegre de salvação, que Cristo entregou à sua Igreja, chefiada por Pedro e os Doze!

Contudo, à medida que os Apóstolos iam pregando, as várias comunidades cristãs (no Novo Testamento tais comunidades são chamadas de “igrejas”) iam colocando por escrito alguma coisa sobre Jesus, de modo que foram aparecendo pequenas apostilas... umas com alguns milagres de Jesus, outras com algumas curas, outras com seus discursos ou pequenas frases soltas... Pois bem, o primeiro que reuniu uma parte deste material e arrumou tudo num “evangelho” escrito foi São Marcos, lá pelo ano 63 – portanto, 33 anos após a morte e ressurreição de Jesus! Depois surgiram os outros evangelhos. Estes evangelhos nem sempre foram escritos por um apóstolo. Quando trazem o nome do apóstolo é porque foram escritos com base na sua pregação, na pregação apostólica. Um exemplo disso está no final do evangelho de João: “Este é o discípulo que dá testemunho dessas coisas e foi quem as escreveu; e sabemos que seu testemunho é verdadeiro (Jo 21,24). Vejamos: quem é o discípulo que dá testemunho? É João, o Discípulo Amado; e quem são as pessoas que sabem (“sabemos”, diz o texto!) que o testemunho de João é verdadeiro? Sãos os cristãos das comunidades fundadas por João, que escreveram a sua pregação e a colocaram por escrito! São eles os autores do Quarto Evangelho!
Mais uma coisa interessante: não foram escritos somente quatro evangelhos, mas muito mais de dez.... Por exemplo: o Proto-Evangelho de Tiago, o Evangelho de Pedro, o Evangelho dos Doze Apóstolos, o Evangelho aos Hebreus.... e muitos outros! Diante desta confusão toda, como saber quais eram os escritos inspirados? Foi a Igreja – a Igreja católica! – quem decidiu, com a assistência do Santo Espírito (cf. Mt 28,20; Jo 14,25-26; At 15,28) quais daqueles livros e cartas eram inspirados!

Foi assim que surgiram nossos quatro evangelhos atuais. Naquele tempo eles não eram chamados de “evangelhos”, mas sim de “Memórias dos Apóstolos”, porque traziam por escrito não um relato jornalístico sobre a vida de Jesus, mas o miolo da pregação apostólica. São Justino, que viveu no século II, escreveu assim, lá pelo ano 150, contando como se celebrava a Missa: “No dia que se chama do sol (era o modo dos pagãos chamarem o domingo) celebra-se a reunião dos que moram nas cidades ou nos campos e ali se lêem, quanto o tempo permite, as Memórias dos apóstolos ou os escritos dos profetas (quer dizer, o Antigo Testamento)”. Somente no final do século II e início do século III, estes quatros escritos passaram a se chamar “evangelhos” (no plural). Então, pregar o Evangelho é muito mais do que ler e explicar os quatro evangelhos!

c) O Evangelho de Mateus

O Evangelho segundo Mateus não é o mais antigo: enquanto Marcos foi escrito em 63, Mateus somente foi escrito lá pelos anos 80 – quase vinte anos depois de Marcos! Não sabemos quem é seu autor. A Tradição da Igreja o atribui a Mateus, significando que este evangelho é um eco fiel da pregação apostólica. Sabemos com certeza que ele foi escrito para os cristãos que se converteram do judaísmo, cristãos de raça israelita. Isto é fácil de perceber pela quantidade de vezes que Mateus cita o Antigo Testamento. Muitas vezes ele vai dizer: “Isto aconteceu para que se cumprisse a Escritura”... Ora, somente os judeus conheciam a Escritura, quer dizer, o Antigo Testamento! Outra coisa: quando Mateus fala dos costumes dos judeus nunca precisa explicá-los... por que? Porque estava escrevendo para judeus que conheciam muito bem tais costumes.

Quando Mateus escreveu o seu evangelho, que imagem de Jesus ele quis mostrar? Para ele, Jesus é:

- o novo Moisés. Uma tal idéia aparece até mesmo no modo como Mateus arruma seu evangelho: ele o divide em cinco partes para recordar os cinco livros da Lei de Moisés. Muitas vezes Jesus vai ser apresentado sobre o monte, como Moisés no Monte Sinai. A narrativa da infância de Jesus, Mateus a escreve copiando muita coisa daquilo que os judeus contavam sobre a infância de Moisés (coisas que não estão na Bíblia!).

- ele é também o Filho de Deus, nascido por obra do próprio Deus. Ele é aquele que vem realizar as promessas a Abraão e a Israel. Por isso mesmo Mateus faz questão de afirmar que Jesus descende de Abraão: “Livro da origem de Jesus Cristo, filho de Davi, filho de Abraão” (Mt 1,1).

- ele é o novo Davi, o verdadeiro Davi prometido pelos profetas, o Messias (= o Ungido) verdadeiro, rei de Israel. Por isso mesmo Mateus faz questão de mostrar na sua genealogia (cf. Mt 1,1-17) que Jesus descende do rei Davi.

- finalmente, para Mateus Jesus é o Deus mesmo conosco. Ele não é um simples profeta, não é um simples mensageiro: ele é Deus mesmo que vem visitar e habitar com o seu povo. Isso aparece no início e no fim do evangelho (cf. Mt 1,23 e Mt 28,20).

Outra coisa importante: para Mateus, o tema central da pregação e missão de Jesus é o anúncio e instauração do Reino dos Céus. Em outras palavras: Jesus é aquele que anuncia e torna presente o Reino dos Céus, o Reino de Deus que o Antigo Testamento tanto tinha prometido!

d) O esquema do Evangelho de Mateus

A - Evangelho da Infância (Mt 1 – 2)

B – A promulgação do Reino dos Céus (Parte I) ( Mt 3 – 7) - A

C – A pregação do Reino dos Céus (Parte II) (Mt 8 – 10) - B

D – O mistério do Reino dos Céus (Parte III) (Mt 11 – 13,52) - C

E – A Igreja, primícias do Reino dos Céus (Parte IV) (Mt 13,53 – 18) – B1

F – O advento próximo do Reino dos Céus (Parte V) (Mt 19 – 25) – A1

G – A paixão e a ressurreição (Mt 26 – 28)

Algumas observações sobre o esquema:
Se olharmos com atenção o evangelho foi esquematizado em cinco partes, comparando com os cinco livros de Moisés. A parte mais importante das cinco é a do meio: assim: A, B, C, B1, A1.

Cada uma das cinco partes é composta de um bloco de narrativas e de um discurso. Assim, em Mateus, Jesus, novo Moisés, faz cinco discursos: o Discurso da Montanha, o Discurso da Missão, o Discurso das Parábolas, o Discurso sobre a Igreja e o Discurso Escatológico.

Além das cinco partes, Mateus coloca uma introdução (as narrativas da infância de Jesus) e uma conclusão (a Páscoa do Senhor), que é, sem dúvida, o ponto alto do evangelho. Em todos os quatro evangelhos tudo que se escreve é preparação para mostrar que o Senhor morto e ressuscitado é o nosso Salvador.

2 - O Evangelho da infância segundo Mateus (Mt 1 – 2)

Trata-se de um midraxe (um modo de contar uma história próprio dos judeus) no qual Jesus é apresentado como o novo Moisés. Para isso Mateus usa as histórias que os rabinos contavam sobre o pequeno Moisés: faraó soube que nasceria um menino judeu que iria libertar o povo e manda matar todas as crianças judias; os pais de Moisés eram santos e piedosos e um anjo anunciou-lhes que seu filho iria libertar Israel, etc.

Mateus deseja mostrar também que Jesus que é aquele que refaz o caminho de Israel, chamado do Egito (Mt 1 – 2). Ele é o fruto maduro e santo de Israel, que vai passar a limpo a história do seu povo. Portanto, a intenção do Evangelista é apresentar Jesus como aquele prometido pelas Escrituras de Israel, o Profeta, prometido desde os tempos de Moisés.

Mas ele é mais que Moisés: é o Filho de Deus, o Emanuel, Filho de Davi! Por isso Mateus narra a origem humana de Jesus: se por um lado ele vem de Abraão e de Davi, por outro, ele vem diretamente de Deus (daí Mateus contar a concepção virginal). Ele é o Emanuel, o próprio Deus no meio do seu povo!

3 - Estudo da parte III: O mistério do Reino dos Céus (Mt 11 – 13,51)

a) A parte narrativa (11,1 – 12,50)

Este é o tema central do Evangelho de Mateus: o Reino do céus que Jesus veio trazer. Mateus começa narrando várias cenas e palavras de Jesus: “Jesus partiu para pregar e ensinar nas cidades deles” (11,1):

Ele manda dizer ao Batista que é o Messias que traz o Reino (11,1-15)
Diante dele é preciso decidir-se e isto vai ser decisivo para o destino eterno de cada um (11,16-24)
Somente quem for simples pode acolher o Reino que ele traz e aceitá-lo como Messias (11,25-30)
Como Messias, ele é o Senhor do sábado (Mt 12,1-14)
Mas vai implantar o Reino como o Servo sofredor predito por Isaías (12,15-21)
Trazendo o Reino dos Céus, ele expulsa o reino de Satanás ((12,22-37)
Por tudo isso não se pode ficar indiferente diante de Jesus: é preciso fazer parte da nova família que ele vem fundar (a Igreja) (12,43-50)
O sinal definitivo da presença do Reino será a Ressurreição (12,38-42).

b) O Discurso das Parábolas (13,1–52)

Mas é sobretudo no Discurso das Parábolas que Jesus apresenta o mistério do Reino dos Céus. Mateus reúne sete parábolas (sete é o número da perfeição, da plenitude): Jesus se senta num barco (é a posição própria do mestre, de quem está na “cadeira de Moisés”) e aí apresenta o Reino:

É como o semeador que lança a semente (13,1-23)
É como um campo de trigo no qual cresce o joio (13,24-30)
É como um grão de mostarda (13,31-32)
É como o fermento que leveda a massa (13,33)
É como um tesouro de grande valor (13,44)
É como uma pérola preciosa (13,45-46)
É como uma rede jogada no mar (13,47-50)

4 – Estudo da parte I: A promulgação do Reino dos Céus (Mt 3 – 7)

Nesta primeira parte (A) do corpo do evangelho de Mateus, o evangelista que apresentar a promulgação, quer dizer, o decreto do Reino do Céus: quais são suas leis, seus valores, suas características.

a) A parte narrativa (3,1 – 4,25)

O Batista prepara a chegada do Messias que vai trazer o Reino (3,1-12)
Jesus aparece e é batizado e é ungido com o Espírito como Messias-Servo sofredor (3,13-17)
O Espírito leva Jesus para ser provado no deserto (4,1-11)
Jesus volta para sua terra e começa a anunciar o Reino, convidando à conversão (4,12-17)
Em vista do Reino e da Igreja, ele começa a escolher seus discípulos (4,18-22)
Jesus ensina e cura, como sinal da chegada do Reino que destrói o reino de Satanás (4,23-25)

b) O Discurso da Montanha (5,1 – 7,29)

Jesus senta-se (como Moisés na sua cátedra) no Monte (como Moisés no Sinai); aí ele vai promulgar a Lei do Reino dos Céus: é uma lei toda interior, feita de bondade, sinceridade, misericórdia, confiança em Deus e total abandono nas suas mãos. Quem aceitar o Reino que Jesus trouxe, constrói a casa de sua vida sobre a rocha. Neste discurso, que começa com as bem-aventuranças, Jesus quer ensinar:

O espírito que deve animar os filhos do Reino (5,3-48) = a benignidade
O espírito com o qual eles devem cumprir as leis religiosas (6,1-18) = a sinceridade interior
O desprendimento das riquezas (6,19-34)
As relações com o próximo (7,1-12) = a bondade
A necessidade de entrar no Reino por uma decisão que transforme a vida (7,13-27) = a radicalidade sincera

5 – Estudo da Parte V: O advento próximo do Reino dos Céus (Mt 19 - 25)

Esta parte (A1) está ligada à parte I (A): o Reino dos Céus que Jesus promulgou no início de sua pregação, ele agora vai realizá-lo efetivamente: com ele o Reino virá em plenitude!

a) Parte narrativa (19,1 – 23,39)

No primeiro bloco desta parte Mateus procura apresentar palavras e gestos de Jesus que mostram o quanto o Reino é exigente: a questão do divórcio (19,1-9), o celibato (19,10-12), a necessidade de ser como as crianças (19,13-15), a necessidade de deixar tudo pelo Reino (19,16-30), a necessidade de fazer tudo isso por amor de Deus e não por interesse mesquinho (20,1-16), a necessidade de estar com Jesus na sua provação, seguindo-o sempre (20,17-34). Outro tema importante é a polêmica de Jesus com Israel que, recusando Jesus recusa o Reino e se tornará estéril (21 – 22). Finalmente, Jesus censura os escribas e fariseus que se sentaram “na cátedra de Moisés” (23,2), cátedra que é de Jesus! Aí Jesus lança-lhes oito “ais”, em contraposição às oito bem-aventuranças: a mensagem é clara: diante do Reino, é necessário escolher entre a bênção e a maldição. Jesus faz o que Moisés fez com Israel (cf. Dt 28,1-46; 11,29; Js 8,32-35).

b) O Discurso Escatológico (24,1 – 25,46)

Neste belíssimo Discurso Mateus usa o estilo apocalíptico, isto é, fala do aparição final do Reino usando imagens fortes como num quadro pintado com tintas bem berrantes, para chamar atenção! Só entende bem este discurso quem entender sua linguagem simbólica, cheia de imagens muito usadas na época de Jesus. É importante observar que aqui Mateus mistura dois tipos de palavras de Jesus: um sobre a destruição de Jerusalém e outro sobre o fim dos tempos: a destruição de Jerusalém, que acontecerá logo [“esta geração não passará sem que tudo isso aconteça” (24,34)] é um sinal, um prenúncio do final dos tempos, que acontecerá “numa hora em que não pensais” (24,44), pois “daquele Dia e da Hora, ninguém sabe, nem os anjos dos céus, nem o Filho, mas só o Pai” (24,36).
Para compreender este discurso, eis algumas observações importantes:

• Quando Jesus fala em revoluções, dores (= fenômenos históricos) e sinais na natureza (fenômenos cósmicos) é para dizer que o Reino vai transformar e purificar a história humana e toda a criação: nada deixará de ser confrontado com o Reino dos Céus!
• O que realmente interessa a Jesus é o apelo à vigilância: contra os falsos profetas e falsos messias (24,4-5), contra a apostasia e o esfriamento da fé (24,9-14.37-44). Jesus previne que o caminho não é fácil, mas quem perseverar será salvo (24,13)! As quatro parábolas que Mateus coloca neste Discurso mostram bem isto:

A parábola da figueira (24,32-36): necessidade de estar atentos aos sinais do Reino
A parábola do mordomo (24,45-51): necessidade da fidelidade esperançosa
A parábola das virgens (25,1-12): necessidade de vigiar
A parábola dos talentos (25,14-30): necessidade de trabalhar pelo Reino

Tudo isto se completa no quadro impressionante do último julgamento: nossa atitude diante de Jesus e de seu Reino decidirão nossa sorte eterna. Mas nossa atitude diante de Jesus passa por nosso comportamento em relação aos irmãos (25,31-46)!

6 – Estudo da parte II: A pregação do Reino dos céus (Mt 8 – 10)

Nesta parte Mateus reúne muito de quanto Jesus fez e disse sobre a missão de anunciar o Reino.

a) Parte narrativa (8,1 – 9,38)

Aqui Mateus deseja mostrar o que deve fazer e como deve agir e sentir aquele que é ministro do Reino. O modelo de pregação é o próprio Jesus: ele é compassivo com o leproso e a hemorroíssa, aberto a todos, como foi ao centurião e ao pecador Mateus, ele tem pena de todos: não é frio, legalista, indiferente e distante! O evangelista apresenta uma série de dez milagres, apresentando-os, portanto, como sinais que acompanharão a pregação do Reino – é este o sentido dos milagres nos evangelhos: são sinais!

b) O Discurso sobe a Missão (10,1-42)

Jesus chama os Doze e os envia: deles nascerá a Igreja! O que Jesus diz aos Apóstolos vale para os seus sucessores em todos os tempos; vale até mesmo para cada cristão, discípulo de Jesus:

• eles devem pregar a todos e a todos levar a paz do Reino (aqui Jesus manda pregar somente a Israel (10,5-7); depois da ressurreição mandará a todo o mundo (28,19-20). Todos serão julgados pela atitude diante dos enviados de Jesus (10,5-16)
• os missionários serão sinal de contradição, como Jesus (10,17-25)
• não devem ser covardes nem medrosos (10,26-33)
• se Jesus é sinal de contradição, os discípulos também o serão e deverão segui-lo nisso (10,34-39)
• onde estiver um anunciador do Reino, aí estará o próprio Jesus (10,40-42)

7 – Estudo da parte IV: A Igreja, primícias dos Reino dos céus (Mt 13,53 – 18)

Mateus liga esta parte IV (B1) à parte II (B). A pregação dos Apóstolos dá origem à Igreja, início do Reino dos Céus: na Igreja o Reino já se faz presente como uma semente que um dia dará fruto!

a) Parte narrativa

Aqui Mateus reúne um material muito diverso, mas sempre em relação com a Igreja:

• Jesus é rejeitado em Nazaré: ele formará uma nova Pátria, um novo Povo, a Igreja (13,53-58)
• destino de João Batista já indica qual será o destino que o antigo Povo dará a Jesus (14,1-12)
• As multiplicações dos pães mostra Jesus, novo Moisés, que alimentará com o novo maná (a Eucaristia) o novo Israel (14,13-21; 32-39): os dois milagres mostram que a Igreja reunirá judeus e pagãos
• Aparece também o papel de Pedro: caminha sobre as águas e é feito pedra da Igreja (14,22-34;16,13-20; 17,24-27
• Jesus realiza cura para os pagãos prenunciando a missão da Igreja e a conversão dos pagãos, que serão o novo Israel (14,34-36; 15,21-28)
• Jesus reprova as tradições do antigo povo, incrédulo e cheio do velho fermento (15,1-20; 16,1-13).
• Jesus anuncia sua paixão e convida a segui-lo: a Igreja deverá sempre responder este convite (16,21-28; 17,22-23)
• Jesus convida seus discípulos à viver na fé (17,14-20)
• Jesus se transfigura: ele é aquele de quem o Antigo Testamento (Moisés e Elias) tinha falado: a Igreja deverá sempre ouvi-lo! Ele morrerá, mas venceu! (17,1-8)

b) O Discurso sobre a Igreja

Aqui Mateus reúne várias palavras de Jesus sobre a vida da Comunidade: a Igreja deve ser como Jesus sonhou para ser sinal do Reino dos Céus!

• Na Igreja, é maior quem serve mais (18,1-4)
• Deve-se evitar o escândalo, sobretudo por causa dos fracos na fé, que podem se desgarrar; os pastores devem preocupar-se com estes (18,5-14)
• Na comunidade deve haver a correção fraterna (18,15-180
• Deve-se rezar em comum e perdoar-se mutuamente (19-35)

8 – Conclusão do Evangelho: A paixão e ressurreição do Senhor

Cada evangelho tem seu ponto alto na Páscoa do Senhor. Por isso mesmo cada evangelista apresenta de modo orante e contemplativo aqueles acontecimentos que marcam a salvação que Deus nos deu por Jesus. Os evangelhos não narram um fato cru: eles interpretam, querem mostrar o que está por trás dos acontecimentos à primeira vista absurdos e sem sentido!

No seu relato da paixão, morte e ressurreição, Mateus deseja mostrar que as Escrituras judaicas são plenamente cumpridas e o Reino dos Céus instaurado (26,29)... tanto que os pecados são perdoados (26,28), a nova aliança é selada (26,27-28) a morte é vencida, os mortos saem dos túmulos e podem entrar com o Messias na Jerusalém Celeste (27,51-54). A Páscoa judaica vai ser cumprida na Páscoa de Jesus (26,1-2) e o templo de Jerusalém e o antigo culto da antiga aliança perde o seu sentido (27,51). Tudo culmina na Ressurreição, “após o Sábado, ao raiar do Primeiro Dia” (28,1), dia novo do novo Reino; dia da alegria (28,9). Mas somente pode participar da alegria de ver o Ressuscitado quem estiver disposto a caminhar, a ir para a Galiléia para começar a missão de anunciar o Reino (28,7).

Mateus encerra o seu evangelho de modo estupendo: o Novo Moisés, sobre à montanha, como no Monte Sinai, abençoa os seus e os envia definitivamente em missão... e promete: “Eu estudarei convosco até a consumação dos séculos!” (Mt 28,16-20).

 

 


============================

Deus é Grande!

 

A Escritura deste Domingo fala-nos de um Deus que é grande demais, misterioso demais, inesperado e surpreendente demais para que possamos enquadrá-lo na nossa lógica e no nosso modo de pensar. Eis, caríssimos! Uma grande tentação para o homem é achar que pode compreender o Senhor, enquadrar seu modo de agir e dirigir o mundo com a nossa pobre e limitada lógica... Mas, o Deus verdadeiro, o Deus que se revelou a Israel e mostrou plenamente o seu Rosto em Jesus Cristo, não é assim! Ele é Misterioso, é Santo, é livre como o vento do deserto!

Pensemos nesta misteriosa e encantadora primeira leitura, do Livro dos Reis. Elias, em crise, fugindo de Jezabel, caminha para o Horeb; ele quer encontrar suas origens, as fontes da fé de Israel. Recordem que o Horeb é o mesmo monte Sinai, a Montanha de Deus. Elias tem razão: nos momentos de dúvida, de crise, de escuridão, é indispensável voltar às origens, às raízes de nossa fé; é indispensável recordar o momento e a ocasião do nosso primeiro encontro com o Senhor e nele reencontrar as forças, a inspiração e a coragem para continuar. Pois bem, Elias volta ao Horeb procurando Deus. Lembrem que no caminho ele chegou a desanimar e pedir a morte: "Agora basta, Senhor! Retira-me a vida, pois não sou melhor que meus pais!" (1Rs 19,4). No entanto, o Senhor o forçou a continuar o caminho: "Levanta-te e come, pois tens ainda um longo caminho" (1Rs 19,7). Pois bem, Elias caminhou, teimou em procurar o seu Deus, mesmo com o coração cansado e em trevas; assim, chegou ao Monte de Deus! Mas, também aí, no seu Monte, Deus surpreende Elias – Deus sempre nos surpreende! O Profeta espera o Senhor e o Senhor se revela, vai passar... Mas, não como Elias o esperava: não no vento impetuoso que força tudo e destrói tudo quanto encontra pela frente, não no terremoto que coloca tudo abaixo, não no fogo que tudo devora... Eis: três fenômenos que significam força, que causam temor, que fazem o homem abater-se... E o Senhor não estava aí. Muito tempo antes, quando foi entregar a Moisés as tábuas da Lei, Deus se manifestara no fogo, no vento e no terremoto: "Houve trovões, relâmpagos e uma espessa nuvem sobre a montanha... E o povo estava com medo e pô-se a tremer... Toda a montanha do Sinai fumegava, porque o Senhor desceu sobre ela no fogo... e toda a montanha tremia violentamente" (Ex 19,16.18).Mas, agora, o Senhor não está no vento impetuoso nem no terremoto nem no fogo... Elias teve de reconhecê-lo, de descobrir sua Presença no murmúrio da brisa suave! – Ah, Senhor! Como teus caminhos são imprevisíveis! Quem pode te reconhecer senão quem a ti se converte? Quem pode continuar contigo se pensar em dobrar-te à própria lógica e à própria medida? Tu és livre demais, grande demais, surpreendente demais! Não há Deus além de ti; tu, que convertes e educas o nosso coração! Elias te reconheceu e cobriu o rosto com o manto, saiu ao teu encontro e te viu pelas costas... Pobres dos homens deste século XXI, que tão cheios de si mesmos, querem te enquadrar à própria medida e, por isso, não te vêem, não te reconhecem, não experimentam a alegria e a doçura da tua Presença!

E, no entanto, meus irmãos, as surpresas de Deus não param por aí! O mais surpreendente ainda estava por vir. Não havia chegado ainda a plenitude do tempo! Pois bem! Na plenitude do tempo, veio a plenitude da graça: Deus enviou o seu Filho ao mundo; ele veio pessoalmente! Não mais no vento, não mais no fogo, não mais no terremoto, não mais pelos profetas! Ele veio pessoalmente, ele, em Jesus: "Quem me vê, vê o Pai. Eu e o Pai somos uma coisa só" (Jo 14,9; 12,45). Por isso mesmo, São Paulo afirma hoje claramente que "Cristo, o qual está acima de todos, é Deus bendito para sempre!" É por essa fé que somos cristãos, meus irmãos! Jesus é Deus, o Deus Santo, o Deus Forte, o Deus Imortal, o Deus de nossos Pais! Nele o Pai criou todas as coisas, por Ele o Pai tirou Abraão de Ur dos Caldeus, por Ele o Pai abriu o Mar Vermelho, por Ele, deu o Maná ao seu povo, sobre Ele fez os profetas falarem e, na plenitude dos tempos no-lo enviou a nós! Surpreendente, o nosso Deus; surpreendente como vem a nós!

Lá vamos nós, lã vai a Igreja, no meio da noite deste mundo, navegando com dificuldade porque a barca da vida é agitada pelos ventos... e Jesus vem ao nosso encontro, caminhando sobre as águas! Em Jesus, Deus vem vindo ao nosso encontro, em Jesus, vem em nosso socorro... E, infelizmente, confundimo-lo com um fantasma, etéreo, irreal. E ele no diz mais uma vez: “Coragem! Sou eu! Não tenhais medo!” Atenção para esta frase do Senhor: “Coragem, EU SOU! Não tenhais medo!” EU SOU! É o nome do próprio Deus como se revelou no deserto! Deus de Moisés, de Elias, Deus feito pessoalmente presente para nós em Jesus Cristo!

Então, caríssimos, digamos como Pedro: “Senhor, manda-me ir ao teu encontro, caminhando sobre á água!” Ir ao encontro de Jesus, caminhando sobre as águas do mar da vida! Todos temos de pedir isso, de fazer isso! Peçamos sim, como Pedro, mas não façamos como Pedro que, desviando o olhar de Jesus, colocando a atenção mais na profundeza do mar e na força do vento que no poder amoroso e fiel do Senhor, começou a afundar! Assim acontecerá conosco, acontecerá com a Igreja, se medrosos, olharmos mais para o mar e a noite que para o Senhor que vem a nós com amor onipotente! E Deus é tão bom que, ainda que às vezes, façamos a tolice de Pedro, podemos ainda como Pedro gritar de todo o coração: “Senhor, salva-me!” Salva-nos, Senhor, porque somos de pouca fé! Salva tua Igreja, salva cada um de nós das imensas águas do mar da vida, do sombrio e escuro mar encrepado na noite opaca de nossa existência! Tu, que durante a noite oravas e vias o barco navegando com dificuldade, do teu céu, olha para nós e vem ao nosso encontro! E tu vens! Sabemos que vens na graça da Palavra, no dom da Eucaristia e de tantos outros modos discretos... Cristo-Deus, ajuda-nos a reconhecer-te, a caminhar ao teu encontro, vencendo as águas do mar da vida! Amém.

Dom Henrique Soares da Costa

======================

Mensagem do Papa para a XXIV Jornada Mundial da Juventude

“Pusemos a nossa esperança em Deus vivo” (1 Tm 4, 10)

Queridos amigos!

Celebraremos no próximo Domingo de Ramos, a nível diocesano, a XXIV Jornada Mundial da Juventude. Enquanto nos preparamos para esta celebração anual, penso de novo com profunda gratidão ao Senhor no encontro que se realizou em Sidney, em Julho do ano passado: encontro inesquecível, durante o qual o Espírito Santo renovou a vida de numerosíssimos jovens que se reuniram de todo o mundo. A alegria da festa e o entusiasmo espiritual, experimentados durante aqueles dias, foram um sinal eloqüente da presença do Espírito de Cristo. E agora estamos encaminhados para o encontro internacional em programa para Madrid em 2011, que terá como tema as palavras do Apóstolo Paulo: “Enraizados e edificados em Cristo, firmes na fé” (cf. Cl 2, 7). Em vista deste encontro mundial dos jovens, queremos realizar juntos um percurso formativo, refletindo em 2009 sobre a afirmação de São Paulo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo”(1 Tm 4, 10), e em 2010 sobre a pergunta do jovem rico a Jesus: “Bom Mestre, que devo fazer para alcançar a vida eterna?” (Mc 10, 17).

A juventude tempo da esperança

Em Sidney, a nossa atenção concentrou-se sobre o que o Espírito Santo diz hoje aos crentes, e em particular a vós, queridos jovens. Durante a Santa Missa conclusiva, exortei-vos a deixar-vos plasmar por Ele para serdes mensageiros do amor divino, capazes de construir um futuro de esperança para toda a humanidade. A questão da esperança está, na realidade, no centro da nossa vida de seres humanos e da nossa missão de cristãos, sobretudo na época contemporânea. Todos sentimos a necessidade da esperança, não de uma esperança qualquer, mas sim de uma esperança firme e de confiança, como eu quis ressaltar na Encíclica Spe Salvi. Em particular, a juventude é tempo de esperanças, porque olha para o futuro com várias expectativas. Quando se é jovem alimentam-se ideais, sonhos e projetos; a juventude é o tempo no qual amadurecem opções decisivas para o resto da vida. E talvez também por isto é a estação da existência na qual emergem com vigor as perguntas fundamentais: por que estou na terra? Qual é o sentido do viver? Que será da minha vida? E ainda: como alcançar a felicidade? Por que o sofrimento, a doença e a morte? O que existe depois da morte? Perguntas que se tornam insuportáveis quando nos devemos confrontar com obstáculos que por vezes parecem insuperáveis: dificuldades nos estudos, falta de trabalho, incompreensões na família, crises nas relações de amizade ou na construção de um entendimento conjugal, doenças ou deficiências, carência de recursos adequados como conseqüência da atual difundida crise econômica e social. Então perguntamos: de onde haurir e como manter viva no coração a chama da esperança?

Na raiz da “grande esperança”

A experiência demonstra que as qualidades pessoais e os bens materiais não são suficientes para garantir a esperança da qual o coração humano está em busca constante. Como escrevi na citada Encíclica Spe salvi, a política, a ciência, a técnica, a economia e qualquer outro recurso material sozinhos não são suficientes para oferecer a grande esperança que todos desejamos. Esta esperança “só pode ser Deus, que abraça o universo e nos pode propor e dar aquilo que, sozinhos, não podemos conseguir” (n. 31). Eis por que uma das conseqüências principais do esquecimento de Deus é a evidente desorientação que marca as nossas sociedades, com conseqüências de solidão e violência, de insatisfação e perda de confiança que não raro terminam no desespero. É clara e forte a chamada que nos vem da Palavra de Deus: “Maldito o homem que confia noutro, que da carne faz o seu apoio e cujo coração vive distante do Senhor. Assemelha-se ao cardo do deserto, que, mesmo que lhe venha algum bem, não o sente” (Jr 17, 5-6).

A crise de esperança atinge mais facilmente as novas gerações que, em contextos socioculturais privados de certezas, de valores e de sólidos pontos de referência, encontram-se a enfrentar dificuldades que são maiores do que as suas forças. Penso, queridos amigos, em tantos coetâneos vossos, feridos pela vida, condicionados por uma imaturidade pessoal que muitas vezes é conseqüência de um vazio familiar, de opções educativas permissivas e libertárias e de experiências negativas e traumáticas. Para alguns e infelizmente não são poucos a saída quase obrigatória é uma fuga alienante com comportamentos de risco e violentos, na dependência de drogas e álcool, e em muitas outras formas de mal-estar juvenil. Contudo, também em quem se vem a encontrar em condições difíceis por ter seguido conselhos de “maus mestres”, não se apaga o desejo de amor verdadeiro e de autêntica felicidade. Mas como anunciar a esperança a estes jovens? Nós sabemos que só em Deus o ser humano encontra a sua verdadeira realização. O compromisso primário que interpela todos é portanto o de uma nova evangelização, que ajude as novas gerações a redescobrir o rosto autêntico de Deus, que é Amor. A vós, queridos jovens, que estais em busca de uma esperança firme, dirijo as mesmas palavras que São Paulo dirigia aos cristãos perseguidos na Roma de então: “Que o Deus da esperança vos encha plenamente de alegria e de paz na vossa crença, para que abundeis na esperança pela virtude do Espírito Santo” (Rm 15, 13). Durante este ano jubilar dedicado ao Apóstolo das Nações, por ocasião do bimilénio do seu nascimento, aprendamos dele a tornar-nos testemunhas credíveis da esperança cristã.

São Paulo testemunha da esperança

Encontrando-se imerso em dificuldades e provações de vários tipos, Paulo escrevia ao seu fiel discípulo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo” (1Tm 4, 10). Como tinha nascido nele esta esperança? Para responder a esta pergunta devemos partir do seu encontro com Jesus ressuscitado no caminho de Damasco. Nessa época Saulo era um jovem como vós, com cerca de vinte ou vinte e cinco anos, seguidor da Lei de Moisés e decidido a combater com todos os meios quantos ele considerava inimigos de Deus (cf. Act 9, 1). Quando estava a caminho de Damasco para prender os seguidores de Cristo, foi envolvido por uma luz misteriosa e ouviu chamar pelo nome: “Saulo, Saulo, por que me persegues?”. Caindo por terra, perguntou: “Quem és Tu, Senhor?”. E aquela voz respondeu: “Eu sou Jesus, a quem tu persegues!” (cf. Act 9, 3-5). Depois daquele encontro, a vida de Paulo mudou radicalmente: recebeu o Batismo e tornou-se apóstolo do Evangelho. No caminho de Damasco, ele foi interiormente transformado pelo Amor divino que encontrou na pessoa de Jesus Cristo. Um dia escreverá: “A vida que agora vivo na carne, vivo-a na fé do Filho de Deus, que me amou e Se entregou a Si mesmo por mim” (Gl 2, 20). De perseguidor, tornou-se portanto testemunha e missionário: fundou comunidades cristãs na Ásia Menor e na Grécia, percorrendo milhares de quilómetros e enfrentando toda a espécie de peripécias, até ao martírio em Roma. Tudo por amor a Cristo.

A grande esperança está em Cristo

Para Paulo a esperança não é só um ideal ou um sentimento, mas uma pessoa viva: Jesus Cristo, Filho de Deus. Persuadido intimamente desta certeza, poderá escrever a Timóteo: “Pusemos a nossa esperança em Deus vivo” (1Tm 4, 10). O “Deus vivo” é Cristo ressuscitado e presente no mundo. É Ele a verdadeira esperança: Cristo que vive conosco e em nós e que nos chama a participar na sua própria vida eterna. Se não estamos sozinhos, se Ele está conosco, aliás, se é Ele o nosso presente e o nosso futuro, por que temer? A esperança do cristão é portanto desejar “o Reino dos céus e a vida eterna como nossa felicidade, pondo toda a confiança nas promessas de Cristo e apoiando-nos, não nas nossas forças, mas no socorro da graça do Espírito Santo”(Catecismo da Igreja Católica, 1817).

O caminho rumo à grande esperança

Assim como um dia encontrou o jovem Paulo, Jesus deseja encontrar também cada um de vós, queridos jovens. Sim, antes de ser um nosso desejo, este encontro é um desejo profundo de Cristo. Mas alguns de vós poderiam perguntar: como posso eu, hoje, encontrá-l’O? Ou também, de que modo Ele se aproxima de mim? A Igreja ensina que o desejo de encontrar o Senhor já é fruto da sua graça? Quando na oração expressamos a nossa fé, também na obscuridade já O encontramos porque Ele se oferece a nós. A oração perseverante abre o coração para O acolher, como explica Santo Agostinho: “O Senhor nosso Deus quer que nas orações se exercite o nosso desejo, de modo que nos tornemos capazes de receber o que Ele pretende dar-nos” (Cartas 130, 8, 17). A oração é dom do Espírito, que nos torna homens e mulheres de esperança, e rezar mantém o mundo aberto a Deus (cf. Enc. Spe salvi, 34).

Dai espaço à oração na vossa vida! Rezar sozinho é bom, mas ainda melhor e mais proveitoso é rezar juntos, porque o Senhor garantiu que está presente onde estiverem dois ou três reunidos no seu nome (cf. Mt 18, 20). Existem muitas formas de se familiarizar com Ele; existem experiências, grupos e movimentos, encontros e itinerários para aprender assim a rezar e a crescer na experiência da fé. Participai na liturgia nas vossas paróquias e alimentai-vos abundantemente da Palavra de Deus e da participação ativa nos Sacramentos. Como sabeis, ápice e centro da existência e da missão de cada crente e comunidade cristã é a Eucaristia, sacramento de salvação na qual Cristo se faz presente e doa como alimento espiritual o seu próprio Corpo e Sangue para a vida eterna. Mistério deveras inefável! Em volta da Eucaristia nasce e cresce a Igreja, a grande família dos cristãos, na qual se entra com o Batismo e nos renovamos constantemente graças ao sacramento da Reconciliação. Depois, os batizados, mediante a Crisma, são confirmados pelo Espírito Santo para viver como autênticos amigos e testemunhas de Cristo, enquanto os Sacramentos da Ordem e do Matrimônio os tornam preparados para realizar as suas tarefas apostólicas na Igreja e no mundo. A Unção dos enfermos, por fim, faz-nos experimentar o conforto divino na doença e no sofrimento.

Agir em sintonia com a esperança cristã

Queridos jovens, se vos alimentardes de Cristo e viverdes imersos n’Ele como o apóstolo Paulo, não podereis deixar de falar d’Ele, de O fazer conhecer e amar por tantos vossos amigos e coetâneos. Tendo-vos tornado seus fiéis discípulos, sereis assim capazes de contribuir para formar comunidades cristãs impregnadas de amor como aquelas das quais fala o livro dos Atos dos Apóstolos. A Igreja conta convosco para esta empenhativa missão: não vos desencorajem as dificuldades e as provas que encontrardes. Sede pacientes e perseverantes, vencendo a natural tendência dos jovens para a pressa, para querer tudo e já.

Queridos amigos, como Paulo, testemunhai o Ressuscitado! Fazei-O conhecer a quantos, vossos coetâneos ou adultos, estão em busca da “grande esperança” que dê sentido à sua existência. Se Jesus se tornou a vossa esperança, dizei-o também aos outros com a vossa alegria e com o vosso compromisso espiritual, apostólico e social. Habitados por Cristo, depois de ter posto n’Ele a vossa fé e de lhe ter dado toda a vossa confiança, difundi esta esperança ao vosso redor. Fazei escolhas que manifestem a vossa fé; mostrai que compreendestes as insídias da idolatria do dinheiro, dos bens materiais, da carreira e do sucesso, e não vos deixeis atrair por estas quimeras falsas. Não cedais à lógica do interesse egoísta, mas cultivai o amor ao próximo e esforçai-vos por colocar a vós mesmos e as vossas capacidades humanas e profissionais ao serviço do bem comum e da verdade, sempre prontos a responder “a quem vos perguntar a razão da vossa esperança!” (1 Pd 3, 15). O cristão autêntico nunca está triste, mesmo quando tem que enfrentar provas de vários tipos, porque a presença de Jesus é o segredo da sua alegria e da sua paz.

Maria Mãe da Esperança

Modelo deste itinerário de vida apostólica seja para vós São Paulo, que alimentou a sua vida de fé e esperança constantes seguindo o exemplo de Abraão, do qual escreve na Carta aos Romanos: “Ele mesmo, contra o que podia esperar, acreditou que havia de ser pai de muitas nações” (Rm 4, 18). Por estas mesmas pegadas do povo da esperança formado pelos profetas e pelos santos de todos os tempos nós prosseguimos rumo à realização do Reino, e no nosso caminho acompanhe-nos a Virgem Maria, Mãe da Esperança. Aquela que encarnou a esperança de Israel, que doou ao mundo o Salvador e permaneceu, firme na esperança, aos pés da Cruz, é para nós modelo e amparo. Sobretudo, Maria intercede por nós e guia-nos na escuridão das nossas dificuldades para o alvorecer radioso do encontro com o Ressuscitado. Gostaria de concluir esta mensagem, queridos jovens amigos, fazendo minha uma bela e conhecida exortação de São Bernardo inspirada no título de Maria Stella maris, Estrela do mar: “Tu que na instabilidade contínua da vida presente, te vês mais a flutuar entre as tempestades do que a caminhar na terra, mantém fixo o olhar no esplendor desta estrela, se não quiseres ser aniquilado pelos furacões. Se insurgem os ventos das tentações e te encalhas entre as rochas das tribulações, olha para a estrela, invoca Maria… Nos perigos, nas angústias, nas perplexidades, pensa em Maria, invoca Maria… Seguindo os seus exemplos não te perderás; invocando-a não perderás a esperança; pensando nela não cairás no erro. Amparado nela não escorregarás; sob a sua proteção nada recearás; com a sua guia não te cansarás; com a sua proteção alcançarás a meta” (Homilias em louvor da Virgem Mãe, 2, 17).
Maria, Estrela do mar, sê tu a guiar os jovens do mundo inteiro ao encontro com o teu Filho divino Jesus, e sê ainda tu a celeste guarda da sua fidelidade ao Evangelho e da sua esperança.

Ao garantir a minha recordação quotidiana na oração por todos vós, queridos jovens, abençôo de coração a vós e às pessoas que vos são queridas.

Vaticano, 22 de Fevereiro de 2009.

BENEDICTUS PP. XVI

 

===================================


 

 

A GRAÇA SANTIFICANTE E A GRAÇA ATUAL

 

A Graça, a redenção e o chamado de Deus.

A Graça é o poder de Deus que provem imerecidamente em face das ações humanas , para a purificação do pecado original, objetivando capacitar o homem a desejar e fazer a vontade divina  recebendo outras graças em ações específicas desejadas por Deus (Fp. 2,13; 1Co. 1,4,5; 2Tm. 1,9; Tg. 1,18; 2Co. 3,5; Hb. 13,21; Is. 26,12; Jr. 10,23; Pv. 16,9; 20,24; 1Co.15,10).

A Graça é transmitida através dos sacramentos , ou sem os sacramentos , mas sempre por iniciativa de Deus, através da Pessoa do Cristo e da Sua obra de redenção perfeita e eterna , confiada à Igreja; fonte original de todas as graças e santidade.

Os sacramentos são transmissores da graça; sinais sensíveis da graça divina que representam . Atos santificantes , estabelecidos pelo Cristo e confiados à autoridade da Igreja.

Todos os sete sacramentos foram instituídos por Jesus Cristo, durante sua vida terrena, como instrumentos para a comunicação e a perpetuação da graça original depositada em Sua Igreja, após a ascensão definitiva ao céu.Através deles , a vida divina torna-se presente em nossas almas e intensifica-se.

Quem opera nos sacramentos é o Espírito Santo através de Seus ministros.Como dito , todos os sacramentos foram instituídos por Deus , e todos transmitem a graça,perpetuando a missão salvífica e o sacerdócio do Cristo entre os homens.Santificando aspectos específicos da vida humana.

Os homens não necessitam da graça para conhecer a verdade natural , pois a razão natural é suficiente para tal , mesmo com as restrições decorrentes da queda original (1)

Sem a Graça, não há obra válida para a salvação , toda boa obra necessita da graça de Deus para ser considerada como critério em nosso julgamento e salvação (2)

A Graça atual é necessária , através da ação do Espírito Santo de Deus , para a obtenção da Graça habitual. E o livre-arbítrio do homem participa ativamente desse chamado (3)

O homem precisa da graça atual para fazer a obra espiritualmente boa. E o homem precisa das graças atuais dos sacramentos para viver sob as leis de Deus plenamente (4)

A Graça habitual é infundida na alma humana , criando uma nova natureza espiritual.

A Graça santificante pode ser aumentada, bem como a justiça e a caridade, mediante a realização das boas obras e com a obediência às leis de Deus e às leis da Igreja; vivendo o homem apartado e protegido do pecado e das tentações (5)

O homem deve crer no poder da misericórdia divina infinita e na sua condição de amizade e graça com Deus , e não duvidar dela .

Porém , deve , por outro lado , saber que só Deus tem a certeza da nossa eleição e da nossa presença nesse estado de graça. O homem não pode retirar a exclusividade de Deus no exercício desse atributo ,e considerar-se salvo antes do Juízo (6)

A vocação ou chamada é , por seu turno, o ato da graça , mediante o qual, Deus convida os homens, através de Sua Palavra, a aceitarem pela fé, a salvação proporcionada por Cristo , e , consequentemente , a viverem os dons que possuem na constituição do seu ser , para o bem de todos - tanto no âmbito propriamente da Igreja, quanto no âmbito da sociedade civil. (1Co. 1,9; 1Ts. 2,12; 1Pe. 5,10; Mt. 11,28; Lc. 5,32; Jo. 7,37; At. 2,39; Rm. 8,30; 1Co. 1,24-26; 7,15; Gl. 1,15; Ef.4,1; 4,4; 2Ts. 2:14; 2Tm.1,9; Ipe. 2,9; 5,10).

As boas obras que somos convidados a realizar e que contam como critério para o nosso julgamento são possibilitadas aos homens pelos méritos e pela satisfação vicária do Cristo , na redenção operada a nosso favor - redenção perfeita e eterna (1Pedro 1,17)

Viver a fé e viver sob a graça , é realizar , permanentemente , a obra de Deus.

Somos salvos pela graça de Deus e pela fé , fundamentalmente (Romanos 3,28 ; Gálatas 2,16; Romanos 10,9), não obstante , podemos crescer na justiça e na caridade mediante a realização das boas obras.Cristo opera em nós - batizados e vivos sob a graça - e permite que partilhemos os méritos sobrenaturais das boas obras.

Somos parte do Corpo de Cristo e devemos realizar as obras dignas do Filho de Deus (2 Pd. 1,4)

Nossas obras somente são boas porque realizadas em conformidade com a vontade de Deus - por quem vive sob a graça .

Uma boa obra de um ateu não é completamente boa ,porque falta-lhe a amizade com Deus.

E a boa obra natural, sem a graça , é igualmente insuficiente para a libertação do pecado.

A fé de um cristão que não se materializa em obras é débil , porque a fé necessariamente deve conduzir à realização das boas obras (Tg. 2,14; 2,22; 2,26 )

Os protestantes não aceitam que as obras tenham valor como mérito em nosso julgamento, nem as obras de reparação penitente da culpas pessoais.Para eles, a natureza humana é permanentemente culpada e só Deus pode nos resgatar , enquanto pecadores!

Os calvinistas afirmam que a graça é irrecusável para os eleitos , e os luteranos afirmam que a graça pode ser rejeitada - as boas obras não afetam a nossa justificação para ambos.

Existem graves divergências no âmbito protestante sobre a redenção.

Na concepção católica, a graça justificadora apaga completamente o pecado original , sendo que as nossas faltas posteriores podem matar a graça batismal em nossas almas.

Com o pecado mortal perdemos a graça habitual e não a fé

Portanto , no catolicismo , podemos contribuir para a nossa salvação e podemos impossibilitá-la definitivamente.

Recebemos uma nova alma e um novo coração transformados pela graça divina, que nos faz , portanto, agradáveis aos olhos de Deus e também eternamente gratos ao Cristo por ter derramado seu sangue redentor por nós.

A distribuição da Graça e da Justiça de Deus.

A graça e a justiça de Deus são iguais em salvar e apagar os nossos pecados - o pecado comum ao gênero humano e os pecados pessoais - não obstante , Deus é livre para distribuir desigualmente a Sua graça.

Deus oferece a graça necessária para cada dever e para cada obra de seus filhos. Ele não nos pode cobrar coisas impossíveis.

Ninguém pode merecer por si só a primeira Graça atual.

Deus distribui desigualmente sua graça e os nossos dons , e também corresponde à nossa fé, às nossas obras e à nossa cooperação , após a primeira graça recebida.

Assim diz o apóstolo Paulo: "Pois recebemos em nós a justiça, cada qual a sua, conforme a medida que o Espírito Santo distribui a cada um como ele quer "(1Cor. 12,11)

Diz o Concílio de Trento sobre a Graça da Justificação

Catecismo do Concílio de Trento

Sessão VI

Decreto sobre a justificação

Cânones sobre a justificação

Cânones sobre a justificação

811. Cân. 1. Se alguém disser que o homem pode ser justificado perante Deus pelas suas obras, feitas ou segundo as forças da natureza, ou segundo a doutrina da Lei, sem a graça divina [merecida] por Jesus Cristo - seja excomungado. [cf. n° 793 s].

812. Cân. 2. Se alguém disser que a graça divina [merecida] por Jesus Cristo é dada somente para que o homem possa viver mais facilmente justificado e para mais facilmente merecer a vida eterna, como se pelo livre arbítrio, sem a graça, pudesse conseguir uma e outra coisa, ainda que penosamente e com dificuldades - seja excomungado [cf. n° 795 e 809].

813. Cân. 3. Se alguém disser que sem a inspiração preveniente do Espírito Santo e sem o seu auxílio, pode o homem crer, esperar e amar ou arrepender-se como convém para lhe ser conferida a graça da Justificação - seja excomungado [cf. n° 797].

814. Cân. 4. Se alguém disser que o livre arbítrio do homem, movido e excitado por Deus, em nada coopera para se preparar e se dispor a receber a graça da justificação - posto que ele consinta em que Deus o excite e o chame - e que ele não pode discordar, mesmo se quiser, mas se porta como uma coisa inanimada, perfeitamente inativa e meramente passiva - seja excomungado [cfr. n° 797].

815. Cân. 5. Se alguém disser que o livre arbítrio do homem, depois do pecado de Adão, se perdeu, ou se extinguiu, ou que é coisa só de título, ou antes, titulo sem realidade, e enfim, uma ficção introduzida na Igreja por Satanás - seja excomungado [cfr. n° 793 e 797].

816. Cân. 6. Se alguém disser que não está no poder do homem tornar os seus caminhos maus, mas que Deus faz tanto as obras más como as boas, não só enquanto Deus as permite, mas [as faz] em sentido próprio e pleno, de sorte que não é menos obra sua a própria traição de Judas do que a vocação de Paulo - seja excomungado.

817. Cân. 7. Se alguém disser que todas as obras que são feitas antes da justificação, de qualquer modo que se façam, são verdadeiramente pecados ou merecera o ódio de Deus; ou que, com quanto maior veemência alguém se esforça em se dispor para a graça, tanto mais gravemente peca - seja excomungado [cf. n° 797].

827. Cân. 17. Se alguém disser que a graça da justificação só se dá aos predestinados para a vida, e que todos os outros que são chamados, são-no, sim, mas não recebem a graça, visto estarem pelo poder divino predestinados para o mal - seja excomungado.

828. Cân. 18. Se alguém disser que também ao homem justificado e constituído em graça é impossível observar os preceitos de Deus - seja excomungado [cf. n° 804].

829. Cân. 19. Se alguém disser que no Evangelho não há nada de preceito senão a fé, e que todas as demais coisas são indiferentes, nem mandadas nem proibidas, mas livres; ou que os dez mandamentos de modo algum pertencem aos cristãos - seja excomungado [cf. n° 800].

830. Cân. 20. Se alguém disser que o homem justificado, por mais perfeito que seja, não está obrigado à observância dos mandamentos de Deus e da Igreja, mas somente a crer, como se o Evangelho fosse uma simples e absoluta promessa de vida eterna, sem condição de observar os mandamentos - seja excomungado [cf. n° 804].

831. Cân. 21. Se alguém disser que Jesus Cristo foi dado por Deus aos homens [só] como Redentor em quem devem crer, e não também como Legislador a quem devem obedecer - seja excomungado.

832. Cân. 22. Se alguém disser que o justificado pode, sem especial auxílio de Deus, perseverar na justiça recebida; ou que ele não pode, com este auxílio, perseverar - seja excomungado [cfr. n° 804 e 806].

833. Cân. 23. Se alguém disser que o homem, uma vez justificado, não pode mais pecar nem perder a graça, e que por isso aquele que cai e peca nunca foi verdadeiramente justificado; ou, pelo contrário, que o homem pode, durante toda a vida, evitar todos os pecados, também os veniais, sem uma prerrogativa especial concedida por Deus, como a Igreja ensina a respeito da Bem-aventurada Virgem - seja excomungado [cf. n° 805 e 810].

834. Cân. 24. Se alguém disser que a justiça recebida não se conserva nem tão pouco se aumenta diante de Deus pelas boas obras, mas que as boas obras somente são frutos e sinais da justificação que se alcançou, e que não é causa do aumento da mesma - seja excomungado [cf. n° 803].

835. Cân. 25. Se alguém disser que o justo peca em qualquer obra boa, ao menos venialmente, ou (o que é mais intolerável ainda) mortalmente; e que por isso merece penas eternas, não se condenando [porém] somente porque Deus não imputa aquelas boas obras para a condenação - seja excomungado [cf. n° 804].

836. Cân. 26. Se alguém disser que os justos não devem esperar de Deus a retribuição eterna pelas boas obras feitas em Deus, pela misericórdia do mesmo Senhor e merecimentos de Jesus Cristo, se perseverarem até ao fim, obrando bem e observando os preceitos divinos - seja excomungado [cf. n° 809].

837. Cân. 27. Se alguém disser que não há pecado mortal algum, exceto o de infidelidade; ou que por nenhum outro pecado, embora grave e enorme, a não ser pelo de infidelidade, se perde a graça uma vez recebida - seja excomungado [cfr. n° 808].

838. Cân. 28. Se alguém disser que ao perder-se a graça pelo pecado, simultaneamente se perde também a fé; ou que a fé que permanece, embora não seja viva, não é verdadeira fé; ou que aquele que tem a fé sem a caridade não é cristão - seja excomungado [cf. n° 808].

839. Cân. 29. Se alguém disser que não pode levantar-se com o auxílio da graça de Deus aquele que caiu depois do Batismo; ou, que pode novamente levantar-se e recuperar a justiça perdida, mas só pela fé, sem o sacramento da Penitência, como a Santa Romana e Universal Igreja, instituída por Cristo Nosso Senhor e por seus Apóstolos, tem até o presente professado, observado e ensinado - seja excomungado [cf. n° 807].

840. Cân. 30. Se alguém disser que a todo pecador penitente, que recebeu a graça da justificação, é de tal modo perdoada a ofensa e desfeita e abolida a obrigação à pena eterna, que não lhe fica obrigação alguma de pena temporal a pagar, seja neste mundo ou no outro, no purgatório, antes que lhe possam ser abertas as portas para o reino dos céus - seja excomungado [cf. n° 807].

841. Cân. 31. Se alguém disser que o homem justificado peca quando faz boas obras em consideração ao prêmio eterno - seja excomungado [cf. n" 804].

842. Cân. 32. Se alguém disser que as boas obras do homem justificado de tal modo são dons de Deus, que não são também méritos do homem justificado; ou que este homem justificado, com as boas obras que faz com a graça de Deus e merecimento de Cristo (do qual é membro vivo) não merece verdadeiramente o aumento da graça, a vida eterna e (se morrer em graça) a consecução da mesma vida eterna bem como o aumento da glória - seja excomungado [cf. n" 803 e 809 s].

843. Cân. 33. Se alguém disser que com esta doutrina católica da justificação, expressa no presente decreto pelo santo Concílio, se derrogam de algum modo a glória de Deus, ou os merecimentos de Nosso Senhor Jesus Cristo, e não se esclarece a verdade da nossa fé e enfim a glória de Deus e de Jesus Cristo - seja excomungado [cf. n° 810].

Everton Jobim

 

(1) Concílio Vaticano I, Sessão III, capítulo 2, cânone I;

(2) II Concílio de Orange, cânone 7 (Denz., n. 180). Concílio de Trento, Sess. VI, cânone 2;

(3) II Concílio de Orange, cânones 3 e 6 (Denz., n. 176, 179). Concílio de Trento, Sess. VI,capítulo 5 (Denz., n. 797) e cânone 3 (Denz., n. 813);

(4) II Concílio de Orange, cânone 9 (Denz., n. 182). Concílio de Trento, Sess. VI, capítulo 16(Denz., n. 809). II Concílio de Orange, Cânone 10 (Denz., n. 183). Concílio de Trento, Sess. VI, cânones 16 e22 (Denz., n. 826, 832). Concílio de Vienna (contra errores Ioannes Olivi) (Denz., n. 483). Concílio de Trento, Sess.VI, cânone 11 (Denz., n. 821). V; (5) Concílio de Trento, Sess. VI, capítulo 7 e cânone 24 (Denz, n. 799, 834) (6)Concílio de Trento, Sess. VI, capítulo 9 e cânones 13, 14, 16 (Denz., n. 802, 823, 824, 826).

 

==========

NOSSA CULPA - COMPLEXO DE CULPA

 

Em síntese: Há quem acuse o Cristianismo de fomentar o complexo de culpa e a tristeza. Ora isto é falso. A alegria é um dos frutos do Espírito Santo; cf. Gl 5, 22. O pecador sente a dor de haver pecado, mas alegra-se por sentir tal dor, visto que ela é dom de Deus.

 

Marcos Tavares no JORNAL DA PARAÍBA, edição de 09/03/05, p. 3, faz-se porta-voz de uma concepção do Cristianismo erroneamente difundida: seria fonte de complexo de culpa e tristeza. Eis as palavras do escritor:

Citando: Nossa culpa

Somos tão culpados que, segundo a liturgia católicas já nascemos em pecado e só o batismo nos liberta. Essa tradição judaico/cristã da culpa é uma das responsáveis pelas inúmeras neuroses desse mundo onde respirar, sorrir, ser feliz é motivo de arrependimento, como se o nosso Deus nos tivesse posto no mundo apenas para deleitar-se com nosso sofrimento...

Não há culpa em amar, em sorrir, em desejar o belo, em querer ser melhor e maior. Nascemos para isso, para crescer e subir como gente. Para isso a natureza nos dotou de um cérebro eficiente e de uma capacidade de análise regular.

Fôssemos para ser infelizes, culpados, não precisaríamos de Deus nem de sua misericórdia, não precisaríamos da razão nem da sensibilidade, seríamos irracionais, vivendo para a reprodução e a alimentação. Nossa condição de pensantes nos leva e encaminha à felicidade, ao prazer, razão única de vida e de nossa passagem neste planeta. Por isso sexo é bom, amar é bom, sorrir é bom. Comer é bom e não ter culpa é ainda melhor.

 

QUE DIZER?

Proporemos quatro ponderações:

 

 

1. Alegria, fruto do Espírito

São Paulo escreve que um dos frutos da ação do Espírito Santo no cristão é a alegria; cf. GI 5, 22. O cristão é alegre porque sabe que, após as tribulações da vida presente, ele será herdeiro da bem-aventurança celeste. E que, aliás, esta não é meramente futura, mas já começa neste mundo pela habitação de Deus na alma do justo; cf. Jo 14, 23. Ciente do dom de Deus, São Paulo recomendava aos fiéis de Filipos: "Alegrai-vos sempre no Senhor; repito: alegrai-vos" (FI 4, 4).

 

 

2. O pecado original

Verdade é que a mensagem cristã começa professando um pecado na origem do gênero humano, do qual resultaram a morte e as desgraças que acometem o homem.

Ora é fato inegável que existem infortúnios na vida de cada ser humano; qualquer pensador o pode averiguar. O que a mensagem cristã tem de específico é a indicação da respectiva causa: um pecado ou a transgressão da ordem estabelecida por Deus. É de notar que esta explicação dos males existentes no mundo tem seus paralelos nas crenças de povos antigos.

Eis quatro testemunhos significativos:

Em New South Wales (África) várias tribos afirmam que os primeiros homens foram destinados a não morrer. Contudo era-lhes proibido aproximar-se de certa árvore oca, em que abelhas selvagens tinham feito a sua colméia. No decorrer do tempo, as mulheres cobiçaram o mel da árvore proibida, até que, belo dia, uma delas, desprezando as admoestações dos homens, tomou do seu machado e o arremessou contra o tronco; imediatamente saiu deste uma enorme coruja. Era a Morte, a qual de então por diante circula livremente sobre o mundo e reivindica para si tudo que ela possa tocar com as asas.

Os pigmeus referem que Deus (Mugasa) a princípio criou dois rapazes e uma jovem, com as quais vivia amigavelmente na floresta, como o pai com seus filhos, num lugar de toda bonança: nada faltava aos homens, nem tinham que recear por alguma perspectiva de morte. Mugasa apenas lhes proibira que procurassem ver a sua face. Habitava uma tenda, diante da qual diariamente a jovem tinha que depositar lenha para o fogo e um jarro de água. Um dia, porém, a moça, vencida pela curiosidade, escondeu-se atrás de uma árvore, ficando à espreita do "Pai", que havia de aparecer. De fato, ela o pôde ver, quando estendia o braço reluzente de ornamentos a fim de apanhar o jarro. A menina alegrou-se então profundamente e guardou o segredo do ocorrido. Mugasa, porém, percebera a desobediência. Chamou os três irmãos à sua presença e lhes censurou a falta, predizendo-lhes que havia de os deixar; para o futuro, a indigência e a morte pesariam sobre eles. Os prantos do grupinho humano não conseguiram deter a sentença; certa noite Mugasa partiu rio acima, e não foi mais visto. Quanto ao primeiro filho que nasceu à mulher, morreu após três dias de existência...

Graciosa é a história que contam os japoneses: o príncipe Ninighi se enamorou pela princesa "Florescente como as flores". O pai da jovem, que era o Deus da grande montanha, consentiu em seu casamento e deixou-a partir com sua irmã mais velha "Alta como as rochas". Esta, porém, era tremendamente feia, de sorte que o noivo a mandou voltar para casa. Em conseqüência, o velho Deus amaldiçoou o genro, e declarou que sua posteridade seria frágil e delicada como as flores!

Os "Bataks" de Palawan (ilhas Filipinas) contam que o seu deus costumava ressuscitar os mortos. Todavia certa vez os homens o quiseram enganar, apresentando-lhe um tubarão enfaixado como um cadáver. Quando a Divindade descobriu a astúcia, amaldiçoou os homens, condenando-os a ficar sujeitos ao sofrimento e à morte.

África Central, Japão, Ilhas Filipinas, ampla origem da mesma concepção.

Ouras lendas poderiam ser ainda citadas. Dão a impressão de que o gênero humano acredita (ou acreditou) tenha havido uma derrocada inicial, causa da desordem existente no mundo.

Derrocada inicial que foi superada pela "derrocada" final; o segundo Adão, Jesus Cristo, foi até a morte por amor, a fim de resgatar o primeiro Adão, que foi até a morte por desamor, constituindo assim a nova criatura (ver 2Cor 5, 17).

 

 

3. A alegria do arrependimento

Mesmo a consciência do pecado não impede a alegria do cristão. É S. Agostinho quem o diz: "Condoa-se o pecador pelo seu pecado, e alegre-se por se condoer".

Condoa-se o pecador por seu pecado... Se pecar é comum a todos os homens, arrepender-se ou condoer-se não é comum, mas é próprio dos Santos. Daí a exortação a que o pecador considere com sinceridade o seu pecado, o repudie, mas não se deixe absorver pela tristeza...

Alegre-se por condoer-se, pois tal dor é dom de Deus, é sinal da graça que trabalha no coração do homem. Por conseguinte a última palavra toca sempre à alegria, que se tornará plena na bem-aventurança celeste.

Pode haver fases de crise de fé na vida espiritual do cristão que sofre de aridez ou é acometido de acedia. São superáveis pela paciência e a perseverança do cristão fiel, que nem por isto perde a sua alegria. Só o ato de pecar tira a verdadeira alegria.

Quanto foi dito, se concretiza no axioma: "Um Santo triste é um triste Santo"; ainda que atribulado, o Santo alegra-se não por uma alegria vazia ou "festiva", mas por alegria profundamente arraigada, pois ele sabe que Deus ama a quem dá com alegria e não tristemente conformado.

 

 

4. Hedonismo

Chama-se "hedonismo" o sistema que faz do prazer o critério do comportamento humano. É condenável porque escraviza o homem. É impossível alguém auto-realizar-se sem praticar a renúncia ou o desapego. O prazer é algo moralmente neutro, mas não pode ser a finalidade do agir humano; serve de estímulo a certos atos bons.

Deus quis anexar o prazer a certos atos destinados à conservação do indivíduo (a alimentação) e à conservação da espécie (o ato sexual) a fim de estimular a pessoa à prática desses atos. Isto significa que tal prazer é lícito (pois Deus o propicia); é lícito, porém, não como finalidade em si, mas como meio associado a determinado fim; na medida em que o prazer serve à conservação do indivíduo ou à conservação da espécie, é válido e pode ser procurado. Notemos que a cópula conjugal é lícita também nos dias estéreis da mulher, pois é a própria natureza quem proporciona esses períodos de pausa. Em conseqüência, o homem não fere a natureza ou a lei de Deus quando realiza o ato sexual em tais condições. Não poderíamos todavia esquecer que a renúncia voluntária ao prazer ou a mortificação destinada a libertar o homem de paixões desregradas é também um valor - e valor indispensável - na vida cristã.

Deve-se notar ainda o seguinte:

O Papa Inocêncio XI (1676-1689) condenou a proposição seguinte, formulada por moralistas de sua época: "Não é pecado comer, beber ou fazer uso do matrimônio unicamente por prazer sensual" (ver Denzinger-Schönmetzer n° 2108s [1158]). Tal condenação não significa que ao cristão não seja lícito desejar o prazer sensual, mas quer dizer que o prazer sensual lícito (o de um bom prato para quem precisa de alimento, o da relação conjugal entre esposo e esposa...) deve ser regido e dimensionado pela razão; esta tem que saber colocar esses prazeres dentro da ordem harmoniosa da vida de alguém que mais e mais procura chegar a Deus; o prazer tem que estar em sintonia com a oração e o trabalho; não pode ser uma ilha ou um bloco independente, quase subtraído a Deus, mas há de ser a expressão de alguém que pertence ao Senhor tanto por sua alma como por sua constituição corpórea.
Em suma, o prazer de uma boa música ou o de uma bela excursão não são ilícitos se assumidos como valores úteis a uma finalidade ulterior como seria a restauração das forças físicas ou o enriquecimento cultural.

D Estevão Bettencourt, OSB In Pergunte e Responderemos, julho/2005, nº 517

================================


MANIFESTO CONTRA A UTILIZAÇÃO DE EMBRIÕES HUMANOS EM PESQUISA

 

Considerando que:

 

1) Os embriões são seres humanos vivos em constante desenvolvimento, sujeitos distintos da mãe e de seus progenitores, possuidores desde a sua concepção de identidade genética própria e permanente. E que, portanto, igualmente às pessoas nascidas, são dignos de um sincero respeito, independentemente de seu estágio de desenvolvimento, forma ou tamanho, e não merecem o destino de serem utilizados como matéria prima de processos industriais ou serem objetos de investigação científica (como “cobaias”).

2) Setores da indústria biotecnológica internacional e alguns pesquisadores brasileiros estão promovendo uma campanha de opinião a favor da utilização “terapêutica” de células embrionárias humanas a partir da destruição de embriões humanos que “sobram” na fertilização in vitro.

3) A terapia celular por auto-transplante de células-tronco adultas obtidas da medula óssea tem tido sucesso no Brasil no tratamento de pacientes com infartos do miocárdio e com doença de Chagas. E que esta terapia vem sendo realizada desde dezembro de 2001 pelo grupo do Instituto do Milênio de Bioengenharia Tecidual, coordenado pelo Prof. Dr. Ricardo Ribeiro dos Santos. E que o Prof. Dr. Ricardo Pasquini vem utilizando, com sucesso, o transplante de células-tronco do cordão umbilical no tratamento de doenças degenerativas, sem necessidade, portanto, de destruir embriões humanos. E que as células-tronco adultas constituem uma alternativa muito válida às células-tronco embrionárias humanas com vistas à medicina regenerativa e restauradora no século XXI.

Assim sendo, deve ser promovida:

1) A proteção dos embriões humanos que sobram nos processos de fecundação assistida. O erro cometido por ocasião da produção e do armazenamento dos embriões não justifica, agora, um outro erro: a utilização desse embriões em pesquisas, reduzindo-os ao status de coisas ou objetos e conseqüentemente negando seu significado ontológico, ainda mais quando essas mesmas pesquisas podem se realizar com o uso de células-tronco adultas.

2) A proibição da produção de embriões humanos para a pesquisa ou para a “terapia” tissular heteróloga. Consiste no maior desrespeito à espécie humana se desenvolver um biotério para gerar e conservar embriões humanos para a investigação científica ou um banco de embriões para utilizar suas células totipotententes para transplante heterólogo em doenças degenerativas. Neste último caso, existe a possibilidade de rejeição das células transplantadas. Por outro lado, o desrespeito ao ser humano chega a ponto de existir projetos de pesquisa que propõe misturar as células-tronco de embriões humanos com as provenientes de outros animais (de ratos, por exemplo).

3) A utilização de recursos públicos só na promoção de investigações e terapias que utilizem células-tronco humanas adultas. No Brasil, as agências de fomento à pesquisa utilizam o dinheiro público para financiar as investigações científicas e o contribuinte brasileiro não está sendo consultado sobre a utilização de recursos públicos para pesquisas que levam a destruição de embriões humanos.

A Prof.ª Dr.ª Alice Teixeira Ferreira é professora associada do Departamento de Biofísica da UNIFESP/EPM e coordenadora do Núcleo Interdisciplinar de Bioética – NIBio – da UNIFESP/EPM. O Prof. Dr. Dalton Luiz de Paula Ramos é professor associado da Universidade de São Paulo, coordenador do Projeto Ciências da Vida do Núcleo Fé e Cultura da PUC/SP e membro correspondente da Pontifícia Academia Pro Vita.

 

===================================

POR QUE DEUS PERMITIU A DOR?


DOR E LIBERDADE SOB O PONTO 
DE VISTA TEOLÓGICO MORAL

 

O presente artigo é uma tentativa de aprofundar o problema da dor

sob o ponto de vista da reflexão teológico-moral. A dor é um acontecimento natural inevitável. Por que Deus permitiu a dor? Qual é o comportamento próprio do cristão diante da dor? A moral cristã tem como objeto a convergência entre bondade moral e retidão. Sua função primordial não consiste em oferecer um prontuário de normas de comportamento para todas as situações particulares. Como sujeito moral, o cristão está habilitado a ponderar e interpretar as normas do seu agir. Nenhuma ação deve comprometer a dignidade da pessoa humana na fase mais frágil e caduca da vida. Todos os meios de que a medicina atual dispõe devem ser usados de modo justo e proporcional. Pertence, todavia, ao paciente a decisão sobre o prosseguimento ou a interrupção de uma determinada terapia. O pessoal médico, o sanitário e o religioso têm a missão de humanizar a dor. A medicina não é indústria de saúde,

nem se impõem atitudes heróicas nas situações de sofrimento.

A dor não possui existência própria. Não há a dor como ser. O que existe é a pessoa doente. Somente isso, nada mais.

A dor é uma realidade humana inevitável que todo o homem experimenta com o próprio corpo. Ela o apavora e impõe-lhe uma carga, podendo ser insuportável em situações específicas.

O homem se lhe reage ao primeiro encontro com a angústia de um vazio interior sem limites, que muitas vezes o conduz ao desespero e à revolta. A dor lhe aparece como cruel. Ela faz o homem sofrer e experimentar a inabsolutez de todos os apegos humanos. Nada mais apavorante e trágico para o homem do que ter que admitir como certeza a transitoriedade do próprio corpo e a posse inabsoluta de todos os bens materiais. Mais trágico ainda ter que fazer todos os planos contando com a possibilidade relativa de empreendê-los, pois a dor é imprevisível. Não escolhe situações, nem marca datas. Desmancha planos e obriga a repensar projetos.

A Sagrada Escritura narra com profundidade o mistério da dor e do sofrimento humanos. A história de Jó e a Paixão da Cruz do Filho Divino são duas cenas nas quais o homem penetra e não detém os limites da compreensão.

Jó era homem justo e rico, temente a Deus. A doença abate sua casa e ameaça destruí-lo. Diante da dor, Jó não se contém; lamenta dia e noite a sua sorte: "Todas as minhas dores me apavoram" (Jó 9,28); "Já ouvi discursos semelhantes, sois todos consoladores importunos. Não há um limite para discursos vazios? Também eu poderia falar como vós, se estivésseis em meu lugar. Se falo, não cessa a minha dor; se me calo, como ela desaparecerá?" (Jó 16,1-6). Jó não entende a sua sorte. Após ter escutado por longo tempo seus amigos e ter falado bastante sobre sua sorte, Jó percebe a presença de alguém que está ai para falar. É Deus. Ele toma a palavra e desafia o pobre Jó. Desse encontro, Jó não sai derrotado, mas compreendendo o lado incompreensível da dor. Jó, então, retira o que ele disse diante de seus amigos, reconhecendo que falava de coisas que ele não entendia bem (Jó 42, 1-6).

O presente estudo tenciona apenas mostrar que a relação entre "dor e liberdade" é um pressuposto importante para uma conversa sobre eutanásia e a vida terminal.

Delimitação do tema

A problemática central do nosso tema diz respeito ao comportamento moral diante da dor. A questão faz pensar na autonomia e liberdade do homem no confronto com a dor e todo o sofrimento que dela deriva. Com qual criteriologia o teólogo moralista compreende tudo isso? Eis a nossa questão.

O tema é endereçado a um ponto de vista bem determinado. Não se trata de uma reflexão filosófica sobre a dor, tampouco médica. Nossa questão tem como ângulo a visão do teológo moralista. Trata-se de interrogá-lo sobre a chave de leitura que o evento-Cristo aporta para o problema da dor.

Esse campo específico de compreensão da dor tem o dever de comunicar-se de modo universal. A comunicação moral não é um dado natural, mas uma tarefa e uma meta a alcançar (1). A plausibilidade da argumentação moral é uma tarefa árdua. A teologia moral, neste caso, deve cumprir as regras de um discurso genuinamente científico, fundado sobre uma metodologia rigorosa, proporcionada à particularidade da verdade moral e ao seu critério de validade objetiva (2).

A nossa problemática levanta duas questões: em primeiro lugar, deve-se perguntar qual é o comportamento moral próprio do cristão diante da dor e do sofrimento? Em segundo, quais são as contribuições que a reflexão teológico-moral pode oferecer para o aprofundamento e esclarecimento da questão sobre "dor e liberdade"? Este trabalho só é possível à luz de uma rigorosa metodologia científica, proporcionada ao seu objeto de pesquisa.

O problema humano da dor

O homem continuamente se interroga sobre se o sofrimento e a dor são necessidades da existência humana.

A imagem do sofrimento deu origem a interpretações pouco convincentes. Pensa-se, por exemplo, na idéia de que para entrar no céu era preciso passar pelo sofrimento. Por diversas vezes justificou-se a dor como reflexo do sofrimento de Cristo na cruz. Foi ensinado ao cristão resignar-se diante da dor e do sofrimento. Até se falou de sofrimento pelos outros e pelos pecados do mundo. Ainda hoje, essa idéia continua viva na mentalidade de determinadas pessoas.

A dor também foi concebida como provação mandada por Deus ou então um castigo. Estas idéias tentam ainda hoje se reafirmar com insistência. Não faltaram vozes para denunciar a AIDS como um castigo de Deus diante do pecado da promiscuidade humana. Que Deus é esse que castiga, pune, interfere na vida humana às escondidas e, para que entremos em sua morada eterna, exige o passaporte da dor e do sofrimento?

A dor não é uma necessidade absoluta; todavia poderá ser de grande utilidade para o homem. Ela compõe a natureza biológica. É uma marca da história de contingências humanas. Sob o aspecto biológico, ela é um elemento inevitável.

A dor desempenha um papel de grande relevância na história do indivíduo doente. Quando o homem descobre essa sua importância, ele certamente não concebe a dor como um elemento estranho, mas pode até mesmo admiti-la como irmã dor e irmão sofrimento. Bendita dor e bendito sofrimento, esses meus irmãos que me dão a oportunidade de me conhecer melhor e reorientar meu projeto de vida!

A pergunta humana sobre a origem da dor

O termo e o conceito dor abraçam realidades diversas de sofrimento. É preciso distinguir o sofrimento dado com e na culpa do homem, enquanto oriunda de um ato da liberdade humana, do sofrimento não reconduzível à liberdade culpável do homem.

Essa distinção é complexa e desde longo caminhar o homem se ocupa com tal reflexão. O homem quer saber precisamente sobre a origem da dor. Diferentes respostas foram dadas ao problema. As interpretações teológicas formuladas a esse respeito são também diversas.

O Antigo Testamento interpreta a dor como o resultado da desobediência de Adão a Deus. Deus reage à desobediência humana (pecado) com a sentença: "Multiplicarei as dores de tuas gravidezes, na dor darás à luz filhos (...) maldito é o solo por causa de ti! Com sofrimentos dele te nutrirás todos os dias de tua vida" (Gn 3,1-19). Evidentemente, tem-se ai uma descrição antropomórfica do convívio do homem com Deus no paraíso. Trata-se de uma narrativa simbólica (mítica). O texto de Gênesis é um símbolo religioso. Esse texto revela no seu significado mais profundo uma explicação religiosa da origem do mal e da condição do homem sobre a terra.

Diante do cego de nascença, os discípulos perguntaram a Jesus: "Rabi, quem pecou, ele ou seus pais, para que nascesse cego? " A pergunta dos discípulos de Jesus está condicionada pela mentalidade que concebia os defeitos físicos e doenças como conseqüências do pecado. O mestre lhes responde: "Nem ele nem seus pais. Tudo isso é para que nele se manifestassem as obras de Deus" (Jó 9, 2-3). A resposta de Jesus não se move no mesmo horizonte da preocupação dos discípulos. Os discípulos estão mais interessados com o problema da origem da dor e com as idéias míticas da época em que tentaram explicar essa realidade. Jesus deixa de lado esta preocupação e pensa o problema da doença num outro ângulo. Ele mostra que Deus não está distante do homem e se faz presente através da história de seu filho. Os milagres empreendidos por Jesus são para mostrar que Deus é o Senhor absoluto de todas as coisas e, para ele, o homem deve voltar-se com toda a sua história. Se o destino do homem fosse a permanência neste mundo, a própria natureza teria se encarregado de uma lógica tal qual. Dor e morte não existiriam.

Os oráculos dos profetas Jeremias e Ezequiel dão o outro lado da resposta de Jesus. Eles formulam uma crítica da corrente de pensamento que concebia o mal físico como herança dos pecados dos antepassados. Os dois profetas refutam o antigo provérbio religioso de Israel: "Os pais comeram uvas verdes e seus filhos nasceram com os dentes embotados". Ambos os profetas redimensionam a questão:"Todo homem que tenha comido uvas verdes terá seus dentes embotados" (Jer 31, 29-30). Ezequiel reage com determinação e diz: "Não repetireis jamais este provérbio em Israel" e acrescenta ao contexto de seu oráculo: "Aquele que pecar esse morrerá" (Ez 18, 1-4).

Na resposta de Jesus, palavra e ação estão intrinsecamente ligadas. Jesus sabe muito bem qual é o contexto da pergunta dos discípulos, bem como conhece em profundidade a realidade da dor. Por isso, a sua palavra abre na pergunta dos discípulos um sentido que eles até então não tinham percebido; e as suas ações diárias se voltam com compaixão para os doentes, não para mostrar o poder soberbo do Pai Celeste, mas a sua profunda sensibilidade diante da dor humana com toda a sua história de sofrimentos. Os que o procuram são curados e libertados de seus males e enfermidade. Veja o episódio na casa da sogra de Pedro e tantas outras curas realizadas durante suas andanças (Mt 8, 14; 17, 14-21).

O interesse primordial da resposta de Jesus não é enfocar a dor como tal. Ele não dá uma resposta ao problema da sua origem, nem se a sua existência é justificável. As suas ações têm um significado claro e objetivo. Não se deve, portanto, compreender a dor como um erro no plano da criação, diante do qual, Deus mesmo, através de seu filho, intervém como um curandeiro ou, então, delega aos seus santos milagreiros o reparo dos males provocados pela dor. Essa idéia de Deus e de criação parece inaplicável a um Deus que é, por natureza, onisciente e sumamente bom.

Se os discípulos de Jesus tivessem tido acesso às pesquisas da biologia molecular, certamente teriam compreendido quais são as causas que dão origem a um número significativo de doenças. No entanto, a pergunta dos discípulos e o provérbio de Israel não são sem sentido. Remontam a uma longa tradição de pensamento não desconhecida por Jesus. O Mestre conhece em profundidade a sombra de mistério que paira sobre a dor. Ele não abole a dor que atormenta o homem, muito menos dissolve essa problemática que o dilacera com perguntas sem respostas. Se o tivesse feito, teria simplesmente destruído o mistério do qual a vida humana na sua inteireza participa e o tem como as últimas possibilidades de um crescimento e aperfeiçoamento profícuos. A ação de Deus e, por conseguinte, a de Jesus não interfere na ação humana nem a substitui. Deus é Deus e o homem deve ser homem. O agir de Deus é um agir verdadeiramente divino, enquanto o agir do homem deve ser verdadeiramente humano.

A dor tem uma lógica biológica. Ela é inevitável. A biologia e a bioquímica a explicam como produto da natureza biológica. Se o homem é também constituído desta natureza, tem que haver lugar para a dor. Mas a dor por si mesma não se explica como tal. Por que a dor deve existir com todo o sofrimento que ela provoca?

À primeira vista a dor se nos parece apenas como um mal físico. Todavia, não exprime somente isso. Em muitas situações a dor não tem nada a ver com uma escolha particular do indivíduo empírico. Determinadas situações e condições são-lhe impostas. A explicação teológica formulou a hipótese de que a "dor resultou do pecado original". Neste sentido, muitos males do mundo são concausa e pressuposto daquele mal moral do mundo que, por sua vez, provoca uma história de efeito enquanto história de sofrimento humano, sob todos os aspectos. Mas aí emerge uma questão teológica e filosófica: a culpa da liberdade criatural não pode ser absoluta.

Não existe liberdade humana absoluta. A liberdade humana é sempre uma liberdade criada. Como pode então Deus deixar o homem sofrer? Por que Deus permitiu a culpa no seu mundo? Ele poderia respeitar a liberdade criatural sem contudo permitirr a culpa. A este ponto, colocamo-nos diante do mistério de Deus e do mistério do sofrimento culpável. O que vem a ser exatamente esse sofrimento culpável? A questão da dor e do sofrimento nos remete ao mistério do próprio homem enquanto criatura.

A dor e o sofrimento não são bilhetes de entrada para a vida eterna. Tampouco Deus quer a dor do homem. Para ter o homem junto de si, Deus não necessita da mediação da dor, tampouco do sofrimento. Enquanto o autor das lamentações clama, com razão, aos transeuntes do caminho se há dor como a sua dor (Lam 1,12), Deus restaura a esperança humana com a ressurreição de Jesus. O Apocalipse de São João abre um horizonte de esperanças: Deus enxugará toda lágrima; nunca mais haverá morte, nem luto, nem clamor, nem dor haverá mais (Ap 21,4).

Deus é amor (1Jó 4,8). Em Deus não há contradição. Deus age como Deus e deve ser pensado como Deus. Deus não se alegra com o sofrimento de ninguém. Não se pode, sem mais, atribuir a Deus a autoria do sofrimento humano. Neste sentido, não se pode atribuir a Deus o sofrimento; a Deus não interessa provar ninguém, pois Deus é onisciente, conhece os corações humanos. De mais a mais, Deus é bondade, misericórdia, gratuidade. Uma cultura de época assimilou que "Deus quer que a gente sofra". Isso não é coerente com a divindade. Querer e permitir o sofrimento humano na ordem da criação são duas questões completamente diferentes. Permitir não é o mesmo que querer. Deus não quis o sofrimento, embora o permitiu na ordem da criação. Deus não quer o sofrimento de ninguém, nem criaria tal realidade para tirar proveito para si. Se a dor vale para alguma coisa, ela só poderá servir ao próprio homem. Neste caso, ela pode ser uma necessidade humana e não divina. E uma pertença humana inevitável e, em certos casos, inextinguível. O homem pode aprender muito com essa sua pertença.

A versão biológica da dor não exaure o seu significado. A dor existe. Por que Deus permitiu esse sofrimento tão grande que onera o homem com tributos tão altos?

Crescimento e aperfeiçoamento humano através da dor

A dor e o sofrimento são fontes de aperfeiçoamento humano. Cabe ao homem saber beber destas fontes com a força de sua experiência e de sua própria liberdade.

A dor ajuda o homem a se autocompreender melhor. Como já foi dito acima, a dor não é uma necessidade. Para ser plenamente humano, o homem não precisa necessariamente passar pela dor. Todavia, ele pode aprender a ser mais humano após a experiência da dor. Isso significa apenas que para uns a doença faz aprender aquilo que deveriam saber, enquanto a outros, só aperfeiçoa, tomando-os mais humanos. Muitos se interrogam se a dor aperfeiçoa o paciente que se encontra em estado vegetativo de vida. Ora, como pode a dor aperfeiçoar o homem nessa situação, se a sua consciência está completamente inativa? A dor aperfeiçoa enquanto o sujeito doente goza do exercício pleno da sua consciência, isto é, enquanto ele preside o fato do seu próprio sofrimento.

A dor não é igual para ninguém. Ademais, é uma oportunidade sempre nova para se aprender. Por isso, a dor toma-se escola de vida. Ela ensina e educa para a vida. Torna o homem maduro. Possibilita ao homem experimentar a transitoriedade da vida biológica e a não definitividade do poder humano que se desdobra e particulariza nas diferentes mediações sociais da vida econômica, cultural, política, religiosa... A dor sempre intimida o homem, ainda que ele em seu orgulho não admita esta "derrota".

Com esta situação de extrema fragilidade, o homem experimenta algo de muito profundo. Ele é posto diante da sua própria liberdade e dos diferentes aspectos que ela assume na sua história. A dor propicia-lhe a oportunidade de uma auto-revisão de vida no confronto moral com os outros. Através dela, o indivíduo experimenta a consciência e o autoconhecimento dos próprios atos e decisões. As pessoas nunca são as mesmas após uma doença. Geralmente, propõem-se modificar suas vidas e suas atitudes. Inúmeras reviravoltas na vida dão-se através da dor.

Ainda no contexto da doença, a dor faz o homem experimentar a interdependência humana. Ela se apresenta, portanto, como uma verdadeira escola de solidariedade.

A dor, na sua experiência mais plena, é uma ocasião favorável para que o indivíduo pare para pensar sobre o sentido absoluto da sua existência e sobre o seu destino. Quantas pessoas refizeram suas relações com Deus após uma situação de sofrimento extremo.

Através da dor, o homem aperfeiçoa o domínio de si mesmo. Com sabedoria e prudência ele aprende a temperar sua capacidade de suportar. A dor, sob o controle da interioridade humana, ensina-o a respeitar a existência biológica para não tumultuar a própria consciência, que deve manter-se lúcida e serena nos momentos em que o homem experimenta sua extrema fragilidade e caducidade.

A doença, particularmente nas situações extremas, põe o homem nos confins com a própria morte, fazendo-o experimentar o desconhecido mundo para além da morte e a insegurança de suas verdadeiras posses que ele insiste em eternizar neste mundo. Talvez isso explique o medo humano diante da doença.

A incompreensibilidade do sofrimento humano

A dor não existe por acaso. É importante que se compreenda a dor em profundidade. A razão humana, todavia, não exaure o sentido da dor, porque se trata de um mistério humano e divino.

Uma pista para o aprofundamento desta questão é indicada na declaração da Igreja Católica sobre o sofrimento: "A dor é uma advertência de utilidade incontestável" (3).

Diante das situações de sofrimento extremo causadas pela dor o homem se interroga: por que Deus nos deixa (faz) sofrer? Por que Deus permite o sofrimento da criatura humana?

Essa pergunta não é absurda, visto que Deus é a realidade una, originária, que sustenta tudo. A formulação de tal pergunta não significa que o homem disponha, de per si, de um conceito exato de Deus. Ora, é justamente tentando responder a tal pergunta que o homem pode chegar de alguma maneira a um conceito justo de Deus. Não se alcança tal conceito se não se passa por tal pergunta. De mais a mais, este modo de colocar a pergunta a propósito do sofrimento (dor) abraça a questão do relacionamento complexo entre Deus e o sofrimento.

Foi visto anteriormente que a dor não se explica por si só. Segundo K. Rahner, a dor não pode ser efeito da liberdade criatural e culpável. Embora importante, essa proposição não é a última nem definitiva. Essa explicação não leva em consideração o aspecto da liberdade criada diante da liberdade soberana de Deus. A dor, enquanto efeito da liberdade criatural, é uma resposta correta, mas não definitiva, justamente porque a liberdade humana não pode responder à problemática da dor (4).

A pergunta que o homem coloca a propósito da permissão divina do sofrimento humano é uma pergunta fundamental de todo homem antes ou depois de ter sido visitado pela dor. É uma pergunta que fica gravada em todos e toca o núcleo mais inúmo da existência humana. Trata-se de uma pergunta sem resposta. Não há resposta humana que possa iluminar plenamente o mistério da dor, porque a dor, na sua última essência, é um fragmento da incompreensibilidade de Deus (4). Deus, conforme ensina a fé cristã, é o mistério, incompreensível. O esplendor tremendo do mistério incompreensível de Deus permanecerá velado por toda a eternidade mesmo quando o contemplarmos face a face.

Ora, esse mistério jamais abraçável e impenetrável pode ser a nossa beatitude eterna. O homem pode compreender a Deus e a si mesmo somente no ato de um amor desinteressado. Deus é mistério radicalmente transcendente. Um mistério de amor e de esperança que é pura gratuidade. Enquanto gratuito, só pode ser vivido na fé, na pura e total entrega de quem sabe em quem deposita sua confiança. A esse mistério indecifrável o homem se abandona desinteressadamente num profundo ato de confiança (4). O abandono absoluto ao mistério absoluto de Deus coincide com a incompreensibilidade da dor. No alto da cruz, mergulhado no ato extremo de doação e de sofrimento inexprimível, Jesus entrega confiante seu espírito a seu Pai Celeste e se abandona no conforto de seus braços.

Nesse sentido, compreendem-se as palavras de João Paulo Il: "O sofrimento deve ser aceito como um mistério que o homem não está em condições de entender totalmente com a sua inteligência" (João Paulo II, Salvifici Doloris 11).

No seu sofrimento, o homem permanece um mistério intangível (Ibid. 4). O sofrimento é verdadeiramente sobrenatural, porque se radica no "mistério divino da redenção" do mundo; e é também profundamente humano, porque nele o homem aceita a si mesmo, com a sua própria humanidade, com a própria dignidade e a própria missão (Ibid. 31).

Dai, compreende-se que a dor possui um significado intransponível. Torna-se realidade prenhe de significado que somente o sujeito doente pode experimentar em profundidade existencial e cristã. O fato da própria doença abre espaço para a celebração do sacramento dos enfermos, que a Igreja tão bem assimilou. A realidade da dor cria um ambiente interior propício à graça. Não existe dor extrema que não leve o homem ao encontro com Deus. A dor, particularmente na fase terminal, põe à disposição do homem sofrente a reserva escatológica da possibilidade de um vigoroso encontro com Deus. Dor e morte são verdadeiramente mistérios indecifráveis. O abismo da solidão da morte e da dor pode ser que seja a última "chance" que o homem tem para fazer em forma definitiva sua opção fundamental de fé, depois de longo caminhar errante e tempo desperdiçado vividos na ignorância ou pela desconhecida origem da liberdade má, chamada por P. Ricoeur de "falta-de-poder da minha liberdade"(5).

Pode-se dizer que a dor, sob o aspecto humano e cristão, é fonte de graça. Feliz o homem que sabe nesse momento administrar bem suas oportunidades de aperfeiçoamento, até o momento em que suportar sua situação e tiver lúcida.

O médico diante do moribundo

O sofrimento humano suscita compaixão e inspira respeito (Salvifici Dolores, 4). O médico deve ajudar o doente a suportar o sofrimento com dignidade (6).

Em sua declaração sobre a eutanásia, a Igreja solicita do pessoal médico e sanitário o dever de nada negligenciar e se colocar a serviço dos doentes e dos moribundos; sobretudo, deve-se prestar ao moribundo o conforto, muito mais necessário, de uma bondade imensa e de ardente caridade. "Um tal serviço aos homens é também um serviço prestado a Cristo Senhor" (Declaração sobre Eutanásia, 05/05/80).

Através da parábola do Bom Samaritano, o evangelho do sofrimento indica qual deve ser a relação de cada um de nós para com o próximo que sofre. Não nos é permitido passar adiante, com indiferença. Parar não significa curiosidade, mas disponibilidade. Bom samaritano é, afinal, "todo aquele que presta ajuda no sofrimento e nesta ajuda põe todo o seu coração, sem poupar nada" (Salvifici Doloris, 28).

Compete ao médico a função de humanizar a dor, de modo particular, na fase terminal. É fora de cogitação o uso de meios terapêuticos que têm como efeito colateral a supressão da consciência do indivíduo doente. Mas como se deve agir em circunstâncias particulares de dores insuportáveis em que não há outra alternativa senão lançar mão desses meios terapêuticos, mesmo conhecendo a priori os resultados colaterais inevitáveis? Como agir diante de tal situação? Eis o dilema penoso do médico assistente.

Mais complexa ainda é a situação do médico que é solicitado pelo moribundo a pôr fim na sua situação de sofrimento extremo.

Essa súplica deve ser interpretada como indicador de desespero extremo, de abandono e de uma silenciosa revolta contra o ambiente. Esse desejo pode ser suscitado pelo clima de indiferença que circunda o homem no seu leito de dor. Trata-se de uma indiferença não somente do médico, mas, às vezes, da própria família, bem como da sociedade. Nesse sentido, deve-se interrogar criticamente se as considerações que se fazem em público sobre a suportabilidade ou a insuportabilidade da dor na fase terminal não nascem de uma carência de compaixão. O problema não se resolve com o sucesso das conquistas recentes de terapias da dor e sua potencialidade de manter sob controle a dor física. O horizonte que se descortina na situação de dor não é redutível a um bem-estar biológico, mas engloba a inteira gama das relações inter-humanas.

Nesse momento mais frágil da existência humana, momento de uma solidão sem fundo e da experiência amarga da caducidade humana, pede-se ao médico, à família e à sociedade a manifestação de afeto, de solidariedade fraterna, de compaixão e de carinho. A falta dessa compaixão e carinho denuncia o sintoma de uma crise espiritual e moral profunda da nossa sociedade (7).

Ao médico, pede-se empenho máximo para que a fase terminal permaneça suportável.

Esse empenho consiste em não se tornar indiferente à situação do homem sofredor. O mesmo se pede à sociedade e à comunidade cristã: gestos concretos de solidariedade -"lugares" especializados que garantam assistência integral ao sujeito moribundo. Seria um nobre testemunho se a Igreja constituísse a vanguarda deste setor, visto que a fisionomia moral do cristão se distingue pela sua elevada sensibilidade aos que são débeis e sofrem tribulações. A tão falada dignidade da pessoa humana não se manifesta somente no saber sofrer e aceitar serenamente as tribulações deste mundo, esperando com convicção a ressurreição com Cristo. Características da dignidade da pessoa são também a disponibilidade e a generosidade no viver a compaixão para com aqueles que sofrem (7).

Nem a dor nem a morte devem ser vistas como fracasso e derrota da medicina. O médico não é um curandeiro. Não tem a obrigação de fazer o paciente viver a todo custo. Sua missão é de sujeito curante.

O papel da fé cristã diante da razão moral

A teologia moral é a ciência que tem por objeto a interpretação e a decifração da estrutura imanente do agir moral do cristão diante das situações específicas da vida. Vale dizer que a competência científica da teologia moral reside na decifração das implicações morais da mensagem evangélica. Sua problemática central consiste em refletir a história das conseqüências da fé cristã sobre a razão moral do sujeito agente (8,9,10).Cabe à teologia moral mostrar sua contribuição para o aprofundamento crítico do debate multidisciplinar sobre a dor e o sofrimento.

A Igreja ensinou em suas declarações do Concílio Vaticano II: "Os leigos não julguem serem seus pastores tão competentes que possam ter uma solução concreta e imediata para toda questão que surja, mesmo grave, ou que seja a missão deles. Os leigos, ao contrário, esclarecidos pela sabedoria cristã e prestando cuidadosamente atenção à doutrina do magistério, assumam suas próprias responsabilidades" (Gaudium Et Spes 43).

A fé não dita conteúdos exclusivamente acessíveis à razão moral do cristão, tampouco introduz uma mudança na natureza humana criada. Seria um contra-senso. A novidade da moral cristã transparece na experiência de fascinação suscitada pelo evento-Cristo. A fé não fornece elementos de antropologia filosófica, mas suscita o esforço especulativo para encontrar os meios filosóficos mais adequados. Não existe um mundo da fé e um mundo da razão. A fé não se confina com a razão. O papel da fé não é subsidiário, no sentido de colmar as lacunas da razão. A fé não se substitui ao raciocínio moral. Ela tem em vista seus riscos inerentes à complexidade dos problemas conflitivos que são próprios da condição humana enquanto histórica. A fé não exime do esforço intelectual e da plausibilidade do argumento. Ela apenas sensibiliza o discernimento moral do cristão; habilita-o, entre os sistemas das coordenadas antropológicas, a uma leitura crítica dos vigentes modelos de ponderação e à descoberta de novos modos de afrontar a permanente conflitualidade da história. A razão do cristão é uma razão humana iluminada e transfigurada pela fé. O evento-Cristo, enquanto lume, habilita a razão moral à procura e descoberta progressiva de crescente retidão que nasce da bondade moral do sujeito cristão, o qual tem sua liberdade libertada e elevada pela graça (1).

A razão moral humana e cristã é marcada pelo imanente critério de racionalidade. O homem mesmo é o sujeito responsável do seu agir. Ele é lei de si mesmo (Kant). Essa sua autonomia não vai entendida, porém, como auto-suficiência intramundana e como independência.

A questão da contribuição da teologia moral para o aprofundamento do debate sobre a dor e o sofrimento deixa entrever o feitio do comportamento moral do cristão diante da dor.

Autonomia moral do cristão diante da dor

A vida humana acontece em meio aos conflitos da História. Não existe decisão sem conflito. A de determinação dos valores morais se dá como preferência e concorrência de bens urgentes e elevados. O homem sempre se encontra diante do dilema crucial de uma consciência desejosa de uma ação que apreenda de modo justo o bem moral. Situações novas e sempre de modo diferenciado se apresentam ao homem, desafiando sua inteligência moral. Como o cristão católico se confronta com os novos e inúmeros problemas que o mundo moderno lhe vem colocando sempre de modo progressivo e mais complexo? Justamente aqui, a nossa análise atinge a sua problemática central: o cristão é livre para dispor da própria vida, em termos de automanipulação, diante do sofrimento insuportável?

O sofrimento causado pela dor, particularmente na fase terminal, pode conduzir o indivíduo ao desespero, com prejuízos para a sua própria existência. A doença sobrecarrega a pessoa do doente, causando-lhe desgastes que, por sua vez, podem repercutir também na família, nos amigos e até mesmo no pessoal médico, no sanitário e no religioso. Em determinadas situações não se pode fazer nada. Há quem consegue contê-la, padecendo no silêncio, enquanto outros não. No caso, por exemplo, de um estado de vida terminal vegetativo, pode o sofrimento aperfeiçoar a pessoa?

A dor faz-nos pensar na questão da liberdade do indivíduo. Qual é a autonomia do sujeito para libertar-se da dor? O indivíduo doente pode renunciar aos tratamentos diante de sofrimento extremo em sua fase terminal?

A retidão do agir moral intramundano remete o indivíduo à sua consciência, qual instância última de determinação do modo correto de agir neste mundo. O homem é sujeito moral. Isso significa que ele é dotado de autonomia moral para agir. Essa sua competência é a perfeição da criatura humana. O homem se distingue pela sua natureza não programada. Nisso consiste sua perfeição que o distingue como a criatura mais consistente na ordem da criação. São Paulo nos fala de uma lei que não foi escrita, mas gravada por Deus no coração do homem (Rom 2,15). A reflexão filosófica invocara a presença dessa lei não escrita (ágraphos nómos), através de Antígona, numa passagem de Sófocles. Se a lei do seu comportamento não foi escrita, cabe ao homem a responsabilidade de interpretá-la diante das situações específicas que colocam exigências profundas e completamente novas para o comportamento ético da pessoa.

A intensidade da dor não é igual para todos. Nem todos têm as mesmas disposições para suportar a dor. Justamente aqui surgem duas questões importantes para a nossa reflexão. Primeiramente, diante da realidade tão sofrida da dor, o homem se interroga sobre a sua necessidade e se a realidade biofisiológica teria que ser exatamente dessa forma. Os mais ousados interrogam a Deus e se propõem a ensinar-lhe: por que Deus quis assim? Não poderia ser de outro modo? Em segundo lugar, visto que cada um é uma história particular e que suportabilidade e intensidade da dor não são experiências iguais para todos os mortais, não se pode formular ingenuamente um juízo ético com a pretensão de validade universal para todo homem em sua fase terminal ou de dor extrema.

O pensamento moderno modificou a visão que o homem tinha da natureza e de si mesmo. Isso trouxe conseqüências para o seu comportamento. O homem de hoje compreende que uma situação desproporcional de sofrimento não pode ser-lhe imposta como norma moral e universal de comportamento.

A Igreja Católica em suas declarações mais recentes sobre a eutanásia reconhece a inevitabilidade da dor, o sofrimento por ela provocado e o desgaste que dela resulta para o homem, a ponto de, muitas vezes, tornar-se desproporcional à sua utilidade biológica. A dor assume, às vezes, dimensões tão desproporcionais a ponto de gerar o desejo de eliminá-la, custe o que custar.

A Igreja também admite que o comportamento do cristão diante da dor possui uma graduação diversa de indivíduo para indivíduo. Há mesmo quem deseja moderar o uso dos medicamentos analgésicos para se associar com plena consciência aos sofrimentos de Cristo crucificado. Dada a possibilidade desse comportamento cristão, a Igreja recomenda que isso não deve surpreender a ninguém, mas inspirar-lhe profundo respeito, e adverte sabiamente que não seria prudente impor essa atitude heróica como norma geral de comportamento. Pelo contrário, a prudência humana e cristã aconselhará para a maior parte dos doentes "o uso dos medicamentos capazes de suavizar ou suprimir a dor, mesmo que surjam efeitos secundários, como torpor ou menor lucidez" (Declaração sobre Eutanásia). João Paulo II, em seu discurso aos participantes do primeiro congresso internacional sobre o tema "Assistência ao morrente", também reconhece que a medicina dispõe hoje de meios que permitem o alívio da dor, porém mantendo o respeito pela pessoa do doente (11).

Com relação ao problema da autonomia do paciente e do médico para empreender ou recusar as terapias que a medicina do momento tem à disposição, o papa Pio XII respondeu que "é permitida pela religião e pela moral, ao médico e ao paciente, a supressão da dor, ainda que o uso de narcóticos venha a suprimir a consciência e a abreviar a vida". Evidentemente, a supressão da consciência não é intencional, mas uma conseqüência dos meios que a medicina atual tem à sua disposição. Por isso, o Papa acrescenta que tal procedimento se faz necessário "se não existem outros meios e se, naquelas circunstâncias, isso em nada impede o cumprimento de outros deveres religiosos e morais" (12). A recente Declaração sobre a Eutanásia assume essa mesma posição de Pio XII e a complementa com o seguinte esclarecimento: "Em tal caso a morte não é de nenhum modo querida ou procurada (...); a intenção é simplesmente acalmar eficazmente a dor, usando para isso os medicamentos analgésicos de que a medicina dispõe" (3). O papa Pio Xll adverte, todavia, que não é licito privar o moribundo da consciência, se não há motivo grave.

Na sua Declaração sobre Eutanásia, a Igreja admoesta que as decisões pertencem, em última análise, à consciência do doente ou das pessoas qualificadas para falar em nome dele, como também aos médicos, à luz das obrigações morais e dos diferentes aspectos do caso. "Os médicos têm o dever de administrar os remédios que julgarem necessários ou úteis" (3).

A questão da "autonomia moral e religiosa" do indivíduo e do médico em termos de intervenção numa situação extrema de dor (ou de sofrimento) não é simples. Não se trata de recorrer a todos os meios possíveis, custe o que custar. É justamente a propósito da complexidade do uso de tais meios técnicos que a discussão mais avançada de teologia moral achou por bem introduzir o conceito de "meios proporcionados" e "meios desproporcionados".

A ação moralmente boa se caracteriza pela capacidade de ponderação dos meios disponíveis e agir segundo o critério da "razão proporcionada". Deve-se "ponderar bem os meios, pondo o tipo de terapêutica a usar, o grau de dificuldade e de risco, o custo e as possibilidades de aplicação, em confronto com o resultado que se pode esperar, atendendo ao estudo do doente e às forças físicas e morais" (3). Para melhor compreensão dessa sua fala, a declaração da Igreja acrescenta: "Se não há outros remédios, é lícito, com o acordo do doente, recorrer aos meios de que dispõe a medicina mais avançada, mesmo que eles estejam ainda em fase experimental e a sua aplicação não seja isenta de alguns riscos. Aceitando-os, o doente poderá dar também provas de generosidade a serviço da humanidade"(3) .

Não se pode impor a ninguém a obrigação de recorrer a uma técnica que, embora já em uso, ainda não esteja isenta de perigos ou é demasiado onerosa. A recusa de tais técnicas não equivale a um suicídio; significa, antes, aceitação da condição humana ou preocupação de evitar dispositivos médicos desproporcionados com os resultados que deles se podem esperar. E mais. Na iminência de uma morte inevitável, apesar dos meios usados, é lícito, em consciência, tomar a decisão de renunciar a tratamentos que permitiriam somente um prolongamento precário e penoso da vida. Isso não significa, contudo, interromper os cuidados normais devidos ao doente em fase terminal. Nessas situações, familia e médico não têm motivos para se angustiar (3).

O criador situou o homem na condição de pessoa no quadro da criação em geral. O homem é portador de uma dignidade inalienável. Ele é pessoa. A encarnação de Deus no evento de Jesus de Nazaré fundou em modo absoluto uma fraternidade entre todos os homens e uma igualdade de direito, impedindo que ninguém disponha da vida dos inocentes arbitrariamente e de modo injusto, tampouco da própria vida. Com isso não se deve conceber a criação como algo intocável. Se o fosse, o homem não teria autorização nem mesmo para eliminar a dor. O mundo e a natureza não são realidades intocáveis (13). 0 homem deve ser intérprete e administrador fiel da sua natureza biológica (14). Não se deve olhar com medo essa sua autonomia humana. O homem não só deve, mas também tem o direito de evitar os sofrimentos insuportáveis que colocam em risco seu próprio equilíbrio emocional.

Qualquer decisão do sujeito no confronto com o sofrimento e com a dor não deve comprometer a intangível dignidade da pessoa humana na fase da sua mais extrema fragilidade e caducidade. Nesse sentido, a eutanásia ativa e o suicídio seriam uma perda do próprio domínio diante da dor e do sofrimento. Qual deve ser, então, a exata determinação dos confins da ação humana diante da dor extrema? A resposta a esta pergunta se situa no âmbito da liberdade e das condições humanas de suportabilidade da dor. Não se trata de promulgar normas de comportamento para tais situações. A liberdade humana não pode ser deduzida, nem antecipada em sua atuação real. Somente o indivíduo sabe ao certo aquilo que ele pode suportar. Suportabilidade é uma categoria que se apresenta qual critério existencial que condiciona a retidão da decisão do médico ou do sujeito morrente (14).

A intervenção, do homem na própria vida não se contrasta necessariamente com a soberania absoluta de Deus sobre a vida humana (7). 0 agir divino não é categorial. Por isso, não está em concorrência com o homem. Deus quer apenas que o agir humano seja responsável. O homem é responsável somente quando é criado como ser livre. Deus o quis assim. Essa é a sua condição de sujeito moral verdadeiramente humano e verdadeiramente filho de Deus. A autodisposição humana da própria vida deve ser criteriosa. Mesmo diante do sofrimento atroz, autodisposição humana não implica de modo algum, particulammente para o cristão, em eutanásia ativa ou suicídio.

À guisa de conclusão

O caminho traçado pela nossa reflexão deixa claro que a salvação cristã opera primordialmente em termos "da moral do profundo". Ao que parece, isso sugere que a função da teologia moral é refletir sobre as decisões do indivíduo nas suas dimensões humana e cristã mais profundas. Compete à razão moral do cristão, iluminada pela fé, construir um sistema de coordenadas antropológicas que forneça os elementos basilares para uma pré-compreensão, à qual depois ajude a discernir as normas concretas de comportamento para as específicas situações da vida humana (7).

Uma verdadeira antropologia teológica do sofrimento humano e da dor deve interrogar-se se as condições para que uma vida possa dizer-se humanamente digna se estendem também às condições que dizem respeito à fase terminal da vida. Isto pede uma visão profunda do homem e do seu bem-estar global. A questão sobre a situação de extremo sofrimento causado pela dor pede que se verifiquem situações de sofrimento destituídas de sentido e de dignidade. O morrente tem o direito de não sofrer inutilmente; isso, todavia, não exclui da parte do doente uma confiança na providência clemente de Deus sobre o andamento da própria história (7). 0 doente terminal, em estado de consciência, pode ser capaz de abraçar serenamente o sofrimento, conformando-se ao Cristo em um gesto de expiação e penitência cristã. Esse comportamento cristão deve, porém, manter-se distante de qualquer ideologia. O sofrimento purifica e amadurece (7). Não se trata de buscar o sofrimento, pois ele não é fim em si mesmo.

A encarnação de Deus no evento-Jesus comunica definitivamente o sentido do rumo da história, abrindo-lhe uma perspectiva que torna impensável uma situação histórica destituída de sentido e, portanto, ocasião de um ato desesperado. A história não é redutível a um mero acontecimento de atos inevitáveis, mas nasce de um empenho de interpretação da parte do homem enquanto seu protagonista. É o homem que imprime significado à sua própria existência, mesmo diante de qualquer situação extrema. O senhorio do homem sobre a sua própria história pertence-lhe e isto ninguém pode negar-lhe (7)..Para o cristão, a morte não mais reveste a conotação de enigma, não vai concebida como catástrofe definitiva (7), nem a dor como provação divina. O cristão abraça o sofrimento e nele vê uma prova de maturidade e uma nova oportunidade de crescimento e aprendizagem. Ele abraça a morte como o seu encontro definitivo com Cristo (Fil 1, 19-24). Para o cristão não há fuga da vida nem fuga da morte. Segundo São Paulo, viver é graça; morrer, apenas lucro.

Bibliografia

1.      Demmer K. II nuovo nell'attuale problematica intorno allo specifico dell'etica cristiana. In: Alvarez Verdes L'organizador. Il problema del nuovo nella teologia morale. Roma: Rogate, 1986:79-98.

2.      Demmer K. Gene technologies and man: the ethical implications of a contemporary challenge. In: Demmer K. Human life: its beginnings and development. Lovaina: CIACO, 1988: 315-31.

3.      Declaração sobre a Eutanásia, Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, em 05.05.80.

4.      Rahner K. Perché Dio ci lascia soffrire? In: Rahner K. Nuovi Saggi Vlll. Roma: Edizione Paoline, 1982: 543-62.

5.      Ricoeur P. Culpa, ética e religião. In: Concilium 6 1970: 677-92.

6.      Discurso de João Paulo II sobre a eutanásia, de 21 de outubro de 1985.

7.      Demmer K. Eutanasia. In: Nuovo Dizionario di teologia morale. Roma: Edizione Paoline, 1990: 394-406

8.      Demmer K. Deuten und handeln: Grundlagen und Grundfragen der Fundamentalmoral. Freiburg: Herder, 1985.

9.      Demmer K. Sein und Gebot: Die Bedeutsamkeit des transzendentalphilosophischen Denkansatzes in der Scholastik der Gengenwart fuer den formalen Aufriss der Fundamentalmoral. Paderborn: Ferdinand Schoeningh, 1971:190.

10. Demmer K. Moraltheologische Methodenlehre. Freiburg: Herder, 1989.

11. Discurso de João Paulo II, de 04 de abril de 1991. Revista Medicina e Morale 1992;3:419.

12. Discurso de Pio Xll de 12 de fevereiro de 1957. AAS 49, 1957: 147.

13. Rahner K. L'uomo come oggetto de esperimentazione. In: Rahner K. Nuovi Saggi III. Roma: Edizione Paoline, 1969: 305-37.

14. Demmer K. Man's appropriate stewardship of his biological nature. In: Demmer K. Human life: its beginnings and development. Lovania-la-Neuve: CIACO, 1988: 259-72.

Pe. José de Souza Fernandes

 

 

++++++++++++++++++++++++++

 

CAUSAS DA HOMOSSEXUALIDADE

 

 

Existe gente que acha que os homossexuais já nascem assim. Outros, ao contrário, dizem que a conjunção do ambiente social com a figura dominadora do genitor do sexo oposto é que são decisivos na expressão da homossexualidade masculina ou feminina.

Como separar o patrimônio genético herdado involuntariamente de nossos antepassados da influência do meio foi uma discussão que monopolizou o estudo do comportamento humano durante pelo menos dois terços do século XX.

Os defensores da origem genética da homossexualidade usam como argumento os trabalhos que encontraram concentração mais alta de homossexuais em determinadas famílias e os que mostraram maior prevalência de homossexualidade em irmãos gêmeos univitelinos criados por famílias diferentes sem nenhum contato pessoal.

Mais tarde, com os avanços dos métodos de neuro-imagem, alguns autores procuraram diferenças na morfologia do cérebro que explicassem o comportamento homossexual.

Os que defendem a influência do meio têm ojeriza aos argumentos genéticos. Para eles, o comportamento humano é de tal complexidade que fica ridículo limitá-lo à bioquímica da expressão de meia dúzia de genes. Como negar que a figura excessivamente protetora da mãe, aliada à do pai pusilânime, seja comum a muitos homens homossexuais? Ou que uma ligação forte com o pai tenha influência na definição da sexualidade da filha?

Sinceramente, acho essa discussão antiquada. Tão inútil insistirmos nela como discutir se a música que escutamos ao longe vem do piano ou do pianista.

A propriedade mais importante do sistema nervoso central é sua plasticidade. De nossos pais herdamos o formato da rede de neurônios que trouxemos ao mundo. No decorrer da vida, entretanto, os sucessivos impactos do ambiente provocaram tamanha alteração plástica na arquitetura dessa rede primitiva que ela se tornou absolutamente irreconhecível e original.

Cada indivíduo é um experimento único da natureza porque resulta da interação entre uma arquitetura de circuitos neuronais geneticamente herdada e a experiência de vida. Ainda que existam irmãos geneticamente iguais, jamais poderemos evitar as diferenças dos estímulos que moldarão a estrutura microscópica de seus sistemas nervosos. Da mesma forma, mesmo que o oposto fosse possível - garantirmos estímulos ambientais idênticos para dois recém-nascidos diferentes - nunca obteríamos duas pessoas iguais por causa das diferenças na constituição de sua circuitaria de neurônios. Por isso, é impossível existirem dois habitantes na Terra com a mesma forma de agir e de pensar.

Se taparmos o olho esquerdo de um recém-nascido por 30 dias, a visão daquele olho jamais se desenvolverá em sua plenitude. Estimulado pela luz, o olho direito enxergará normalmente, mas o esquerdo não. Ao nascer, os neurônios das duas retinas eram idênticos, porém os que permaneceram no escuro perderam a oportunidade de ser ativados no momento crucial. Tem sentido, nesse caso, perguntar o que é mais importante para a visão: os neurônios ou a incidência da luz na retina?

Em matéria de comportamento, o resultado do impacto da experiência pessoal sobre os eventos genéticos, embora seja mais complexo e imprevisível, é regido por interações semelhantes. No caso da sexualidade, para voltar ao tema, uma mulher com desejo sexual por outras pode muito bem se casar e até ser fiel a um homem, mas jamais deixará de se interessar por mulheres. Quantos homens casados vivem experiências homossexuais fora do casamento? Teoricamente, cada um de nós tem discernimento para escolher o comportamento pessoal mais adequado socialmente, mas não há quem consiga esconder de si próprio suas preferências sexuais.

Até onde a memória alcança, sempre existiram maiorias de mulheres e homens heterossexuais e uma minoria de homossexuais. O espectro da sexualidade humana é amplo e de alta complexidade, no entanto; vai dos heterossexuais empedernidos aos que não têm o mínimo interesse pelo sexo oposto. Entre os dois extremos, em gradações variadas entre a hetero e a homossexualidade, oscilam os menos ortodoxos.

Como o presente não nos faz crer que essa ordem natural vá se modificar, por que é tão difícil aceitarmos a riqueza da biodiversidade sexual de nossa espécie? Por que insistirmos no preconceito contra um fato biológico inerente à condição humana?

Em contraposição ao comportamento adotado em sociedade, a sexualidade humana não é questão de opção individual, como muitos gostariam que fosse, ela simplesmente se impõe a cada um de nós. Simplesmente, é!

Drauzio Varella

www.drauziovarella.com.br

 ==============================

A DOUTRINA DA PREDESTINAÇÃO

 

 

A Igreja católica, seguindo santo Agostinho (A graça e O livre arbítrio 1,1; Sermão 169, 11,13), santo Tomás e tantos outros teólogos aceita a predestinação dos eleitos ao paraíso, mas também afirma a liberdade da vontade humana, distinguindo-se dessa forma do calvinismo. Predestinação ao inferno, no catolicismo, sempre envolverá o livre arbítrio do homem e os pecados previstos, sendo ele mesmo responsável pela sua própria condenação, e não Deus (rejeição da dupla predestinação).

Deus é soberano, em nossa visão, tanto quanto para o protestantismo (em particular o calvinismo), e como será amplamente demonstrado a seguir. Tudo o que se discute é a complexidade da contradição entre a graça e o livre arbítrio, que é uma das mais difíceis e misteriosas questões tanto para a teologia cristã quanto para a filosofia teísta. É claro, a concessão do livre arbítrio também está presente nas igrejas luteranas, anglicanas, metodistas, a maioria dos carismáticos, teologia batista não-denominacional, etc.

A Igreja Católica afirma a predestinação como dogma de fide (o maior nível de certeza teológica), e ao mesmo tempo afirma o livre arbítrio e a possibilidade da queda pelo abandono da fé. O material a seguir foi retirado do livro do teólogo alemão Ludwing Ott Fundamentos do dogma católico (Rockford, IL: TAN Books, 1974 (orig. 1952), pp. 242 - 245) e serve para que os protestantes busquem conhecer o que os católicos crêem sobre esta sempre misteriosa, controversa, complexa, grandiosa e abstrata questão teológica:

 

1. DEUS, PELA SUA ETERNA DETERMINAÇÃO, TEM PREDETERMINADO CERTOS HOMENS À BEM-AVENTURANÇA ETERNA (De fide)

 

[De fide = "de fé" – dogma absolutamente aceito por todos os católicos]

Esta doutrina está proposta pelo ordinário e geral ensinamento da Igreja como verdade revelada. As definições doutrinárias do Concílio de Trento pressupõem... A realidade da predestinação está claramente atestada em Rm. 8,29 e seguintes: ... cf. Mt. 25,34; Jo 10,27 e seguintes; At. 13,48; Ef. 1,4 e seguintes... A predestinação faz parte do plano divino da Eterna Providência.

 

2. BASES DA PREDESTINAÇÃO

 

a) O Problema

A dificuldade principal reside na questão se a decisão eterna da Deus da predestinação tem sido tomada com ou sem os méritos do homem (antes ou depois do praevisa merita)

Somente a predestinação incompleta é independente de qualquer mérito (ante praevida merita), porque a primeira graça não pode ser merecida, e a graça conseqüente, bem como os méritos adquiridos com esta graça e suas recompensas, dependem como os elos de uma corrente, da primeira graça...

 

b) Tentativa de solução

Os tomistas, os agostinianos, a maioria dos escotistas e também molinistas (Suarez, São Belarmino) ensinam uma predestinação absoluta (ad gloriam tantaum), portanto uma ante praevisa merita. De acordo com eles, Deus livremente determina por toda a eternidade, independente dos méritos da graça do homem, a chamar certos homens à bem-aventurança e conseqüentemente concede a eles graça que os guiará infalivelmente à correta execução do Decreto Divino (ordo intentionis). Deus primeiramente concede aos predestinados graças efetivas e felicidade eterna como uma retribuição pelos méritos que fluem de suas livres cooperações com a graça (ordo executionis). O ordo intentionis e o ordo executionis estão em relação inversão um com o outro (glória – graça; graça – glória).

A maioria dos molinistas, e também São Francisco de Sales (+1622) ensinam uma predestinação condicionada (ad gloriam tantum), que é, postand popter praevisa merita. De acordo com eles, Deus, por sua scientia media, vê antecipadamente qual homem irá reagir livremente às várias disposições da graça. À luz desse conhecimento Ele escolhe, como Lhe agrada, uma fixa e definida disposição da graça. Agora, por Sua scientia visionis, Ele conhece por antecipação e infalivelmente qual o uso que cada homem fará com a graça concedida a ele. Então Ele elege à bem-aventurança eterna aqueles que por virtude de seus méritos previstos cooperam perseverantemente com a graça, enquanto Ele determina à punição eterna do inferno aqueles que, por causa de seus méritos previstos, negam essa cooperação. A ordo intentionis e a ordo executionis coincidem (graça – glória; glória – graça).

As duas tentativas de explicação são permitidas eclesiasticamente. As provas das Escrituras não decidem por qual das duas. Os tomistas citam acima de todas as passagens a carta aos Romanos, na qual o fator divino da salvação é fortemente demonstrado em primeiro plano (Rm. 8,29; 9,11 - 13; 9,20 ss.)... Os molinistas invocam as passagens que atestam a universalidade da vontade Divina da salvação, especialmente 1 Tm. 2,4, assim como as sentenças pronunciadas pelo julgamento do mundo (Mt. 25,34 - 36), em que as obras de misericórdia são dadas como base para a aceitação no Reino de Deus. Mas que estas também são bases para a "preparação" ao Reino, isto é, para uma decisão eterna da predestinação, não pode ser definitivamente provada por eles.

Enquanto a tradição pré-agostiniana fica a favor da explicação molinista, santo Agostinho, pelo menos em suas últimas cartas, é mais a favor da explicação tomista. Esta enfatiza a causalidade universal de Deus enquanto a outra visão enfatiza a universalidade da salvação divina, a liberdade do homem e sua cooperação na salvação. As dificuldades que permanecem dos dois lados provam que a Predestinação, mesmo com uma razão iluminada pela fé, ainda é um mistério insondável (Rm. 11,33 ss.).

 

3. PROPRIEDADES DA PREDESTINAÇÃO

 

a) Imutabilidade

A decisão da Predestinação, como um ato de vontade de conhecimento divino, é uma essência divina imutável em sua essência. O número daqueles que estão registrados no livro da vida (Fl. 4,3; Ap. 17,8; cf. Lc. 10,20) está formalmente e materialmente fixado, isto é, Deus sabe e determina com certeza infalível antecipadamente como e quais os homens que serão salvos.

 

b) Incerteza

O concílio de Trento declarou-se contra o calvinismo, que a certeza do conhecimento da predestinação de alguém somente pode ser obtida por revelação especial... a Sagrada Escritura ordena o homem a trabalhar por sua salvação com temor e tremor (Fl. 2,12). O que acha que está no alto cuide que não caia (1 Cor 10,12). Apesar da incerteza, existem alguns sinais da predestinação que indicam uma grande possibilidade da predestinação de alguém, que podem ser a prática perseverante das virtudes recomendadas nas oito beatitudes, recepção freqüente da sagrada comunhão, amor ao próximo, amor a Cristo e à Igreja...

(Para provas contra a certeza absoluta da salvação coloco algumas passagens: 1 Cor 9,27, 10,12, Gal. 5,1,4, Fl. 3,11 - 14, 1 Tm. 4,1; 5,15; Hb. 3,12 - 14; 6,4 - 6; 2 Pd. 2,15,20 - 21. Estas são as mais contundentes, mas existem outras: 1 Sm. 11,6; 18,11 - 12; Ez. 18,24; 33,12 - 13,18, Gal 4,9; Col 1,23; Hb. 6,11 - 12; 10,23.26.29.36.39; 12,15; Ap. 2,4 - 5).

(Muitos protestantes declaram ter uma absoluta "certeza", mas quando tudo é dito e feito, tanto bíblica quanto epistemologicamente, eles simplesmente não conseguem mais chegar a esta certeza, e não estarão mais "certos" do que um católico ou um ortodoxo. Tais declarações são simplesmente improváveis. Em outras palavras, a "segurança" protestante envolve o seguinte argumento em um círculo vicioso: para possuir uma segurança da salvação você deve acreditar que está salvo. Isto tem sido chamado de "fé de confiança" e é totalmente subjetiva, da mesma forma que a "chama no seio" dos mórmons. Martinho Lutero mesmo ilustra a incoerência desta inovação:

Devemos dia após dia nos empenhar para uma maior certeza... Todos devem, portanto se acostumarem firmemente com a idéia de que está em estado de graça... Se encontrar dúvida, então deixe exercitar a fé; deve derrubar suas dúvidas e adquirir certeza... O problema da justificação é difícil e delicada, não deveras por ela mesma, pois por ela mesma há grande certeza, mas em relação a nós; isto eu tenho freqüentemente experimentado (In Hartmann Grisar, Luther, London: 1917, v.4, pp.437-443)

 

4. CONCEITO E REALIDADE DA REPROVAÇÃO

 

Por Reprovação se entende a resolução eterna de Deus em excluir certas criaturas racionais do gozo eterno. Enquanto Deus, por Sua graça, positivamente coopera nos méritos sobrenaturais, que levam à beatificação, Ele meramente permite os pecados, que levam à condenação eterna.

Em relação ao assunto da decisão da reprovação, deve-se fazer uma distinção entre a reprovação positiva e a negativa, de acordo com a decisão divina de reprovação como uma condenação objetiva ao inferno ou punição, ou exclusão da visão beatífica. Em relação à razão da reprovação a distinção é entre condicional ou incondicional, à medida que a decisão divina de reprovação é dependente ou independente da previsão dos futuros deméritos.

 

5 - DEUS, POR DECISÃO DE SUA VONTADE, PREDESTINA CERTOS HOMENS, EM CONTA DE SEUS PECADOS PREVISTOS, À REJEIÇÃO ETERNA (De Fide).

 

A realidade da reprovação não está formalmente definida, mas é um ensinamento geral da Igreja.

 

6. A REPROVAÇÃO POSITIVA

 

A doutrina herética do predestinacionismo em suas várias formas (Lucidus no século 5, Gottschalk no século 9, Wycliff, Huss e especialmente João Calvino) ensina uma predeterminação positiva para o pecado, e uma incondicional predestinação à punição eterna, isto é, sem a consideração dos futuros deméritos. Isto foi rejeitado como falsa doutrina nos Sínodos particulares de Orange, Quiercy e Valência e pelo Concílio de Trento. Reprovação Positiva Incondicional leva a uma negação da universalidade do divino desejo de salvação, e da redenção, e contradiz a justiça e santidade de Deus assim como a liberdade do homem.

De acordo com o ensinamento da Igreja, existe uma Reprovação Positiva Condicional, isto é, ocorre levando em consideração os futuros deméritos (post et propter praevisa demerita). A natureza condicional da reprovação positiva foi demandada pela generalidade da decisão divina de Salvação. Isto exclui o desejo antecipado de Deus em condenar o homem (cf. 1 Tm. 2,4; Ez. 33,11; 1 Pd. 3,9).

 

7. A REPROVAÇÃO NEGATIVA

 

Sobre a questão da reprovação, a visão tomista favorece não uma absoluta, mas somente uma reprovação negativa. Isto é concebido pela maioria dos tomistas como uma não-eleição à felicidade eterna (non-electio), juntamente com a decisão divina em permitir que algumas criaturas racionais caiam no pecado, e por isso pelas suas próprias culpas percam a salvação eterna. Em contraste com a Reprovação Positiva absoluta da predestinação, os tomistas insistem na universalidade da vontade divina da salvação e redenção, na alocação das graças suficientes para o reprovado e na liberdade do livre-arbítrio do homem. Na prática, a reprovação negativa incondicional de alguns tomistas envolve o mesmo resultado da reprovação incondicional positiva dos predestinacionistas hereges, pois fora o céu e o inferno não há outro estado final.

Da mesma forma que a decisão da predestinação, a decisão da reprovação é imutável, mas, sem uma revelação especial, sua incidência é desconhecida do homem.

 

Ludwing Ott
Livro: Fundamentals of Catholic Dogma - tradução: Rondinelly Ribeiro

======================

ABORTO E TRAUMATISMOS PSICOLÓGICOS

 

INTERRUPÇÃO DA GRAVIDEZ E SEQÜELAS PSICOLÓGICAS

 

Às vezes, pretende-se justificar o aborto como a única saída para situações angustiantes que uma gravidez não desejada pode trazer. Há inclusive alguns países que admitem a angústia da mulher como indicação para abortar. No entanto, a pior angústia vem depois do aborto. Esta é a conclusão a que chegou a Dra. Mary Simon, psicóloga da Clínica Ginecológica Universitária de Würzburg (Alemanha), em uma pesquisa publicada na conceituada revista DEUTSCHE TAGEPOST (4-VII-92). É interessante constatar que os transtornos psicológicos causados pelo aborto são poucas vezes mencionados na literatura médica especializada. Daí a razão deste artigo que, sem se ater a considerações morais ou éticas e sem chutometrias, visa a mostrar a realidade crua dos fatos. Os dados que são apresentados a seguir, foram todos obtidos de países onde o aborto é legal há mais de trinta anos e realizado nas melhores condições de higiene e assepsia, como é o caso da Inglaterra, da  Checoslováquia, do Japão, da Alemanha e dos Estados Unidos. Além da referência supra citada, remetemos o leitor aos artigos relacionados na bibliografia.

TRANSTORNOS PSÍQUICOS

Basicamente, três tipos de fenômenos psíquicos ocorrem nas mulheres que fazer aborto:

 

1) Sentimentos de remorso e culpa (60% das mulheres);

 

2) Oscilações de ânimo e depressões (30 a 40%);

 

3) Choro imotivado, medos e pesadelos (35%).

 

Quanto ao sentimento de culpa, já tentaram atribuí-lo a crenças religiosas. Certamente, há sentimentos de culpabilidade originados por convicções religiosas, mas a maior parte destes sentimentos posteriores ao aborto têm muito pouco que ver com a crença religiosa. O aborto viola algo de muito profundo na natureza da mulher. Ela é naturalmente a origem da vida e é normal que a mulher grávida esteja consciente de que cresce uma criança dentro dela. A mulher que aborta voluntariamente, sabe que matou o seu filho. Não é, pois, de admirar o aparecimento de sentimentos de culpa, de autocensura e de estados depressivos. Um psiquiatra sensato disse uma vez que é mais fácil tirar a criança do útero da mãe, do que fazê-la desaparecer do seu pensamento. Inclusive em países de cultura não cristã, como o Japão (onde o aborto livre é legal há 42 anos), há estudos de grande amplitude, mostrando que 73% das mulheres que praticaram o aborto se sentiam "angustiadas" com o que tinham feito. Porém, voltando ao trabalho da Dra. M. Simon, o que mais chama a atenção, não são as seqüelas psíquicas que ocorrem pós-aborto, mas sim os mecanismos que as mulheres desenvolvem para se libertarem dos seus complexos de culpa. Novamente três tipos de mecanismos ocorrem: repressão, projeção e confrontação. Vejamos cada um deles em particular.

REPRESSÃO

A Dra. Simon explica que 61% das mulheres que entrevistou, evitam pensar no aborto e reprimem estes pensamentos, desenvolvendo então sintomas de origem psíquica (psicossomáticos): dores de cabeça, vertigens, tonturas e cólicas abdominais. Este fenômeno também é muito conhecido na medicina como somatização. É um dado significativo: em 70% das mulheres surgem pensamentos de como seriam as coisas se a criança abortada vivesse agora, e 52% delas se incomodam ao verem mulheres grávidas, porque lhes recordam seus próprios filhos abortados.

PROJEÇÃO

Aqui as mulheres projetam para outros a responsabilidade do próprio aborto. Em geral, são mulheres instáveis psiquicamente, mas, sobretudo, dependentes economicamente do pai da criança. Cedem à pressão do marido, do parceiro ou mesmo do ambiente, e abortam.

 

Posteriormente, quando culpam o marido pelo aborto, aparecem verdadeiras neuroses sexuais: sentimentos de ódio, frigidez e depressões caracterizam a convivência matrimonial-sexual de inúmeros casais que fizeram o aborto. Estatísticas recentes comprovam que, só nos Estados Unidos, 50% dos casais que fizeram aborto se separaram após o mesmo.

 

Muitas mulheres também acusam os médicos de não as ter informado o suficiente sobre as possíveis conseqüências psíquicas do aborto. Se soubessem, antes de abortar, dos riscos para sua saúde física e psíquica, não o teriam feito. No total, 45% das mulheres voltariam atrás se pudessem, pois consideraram sua anterior decisão de abortar prejudicial e equivocada.

 

Era freqüente, no questionário formulado pela Dra. Simon, ler respostas do tipo: "atribuo aos que me rodeavam uma grande parte de culpa na minha decisão de abortar" ou "o pai da criança não a queria"; uma das pacientes declarou entre lágrimas: "os médicos decidiram sem contar comigo; assustaram-me, dizendo que a criança poderia nascer malformada. Se eu tivesse outra vez na mesma situação, levaria adiante a gravidez, mesmo que meu filho fosse um débil mental. É carne da minha carne e sangue do meu sangue: eu o amaria".

CONFRONTAÇÃO

O terceiro e menor grupo de mulheres entrevistadas tenta recuperar seu equilíbrio psíquico, enfrentando conscientemente o fato do aborto, e conversam francamente com pessoas de sua confiança (abrem-se com uma amiga, a mãe, um psicólogo ou um médico), porém nunca com o médico que realizou o aborto. Em geral, tentam, primeiro, reconhecer sua culpa; não a reprimem nem a projetam sobre outros, e tampouco procuram justificar-se. Depois, arrependem-se do que fizeram sentindo dor e tristeza pelo filho morto.

CONCLUSÕES

Os fatos comprovam que o aborto não é uma solução para dificuldades psicossociais. Pelo contrário, após o aborto persiste a crise e se acrescenta o risco de novas e mais graves conseqüências psíquicas. Uma mulher que, em geral, reage emocionalmente de forma instável quando submetida a situações estressantes, 

responderá à tensão psicológica do aborto com anomalias psíquicas ainda mais fortes. Por isso, as adolescentes são mais propensas a desenvolverem seqüelas psicológicas após um aborto. A envergadura da ruína psíquica que sobrevém após o aborto, é muito maior do que se pensava antes. Portanto, pergunta-se: aqueles que defendem ou indicam o aborto, têm consciência do que realmente estão causando à mulher? Em todo o mundo, como conseqüência do grande número de abortos que se praticam, está aparecendo um exército de mulheres com graves neuroses pós-aborto.

 

Os países desenvolvidos começam a repensar suas leis abortistas. Para citar um exemplo, transcrevo a seguir parte de um manifesto assinado por 35 personalidades americanas (o governador da Pensilvânia, Robert Casey; o médico da Universidade de Chicago, Prof. Leon R. Kass e inúmeros políticos e líderes religiosos das mais distintas confissões), publicado na revista FIRST THINGS (New York, november/ 92):

 

"...Após vinte anos de aborto sem restrições na sociedade americana, constata-se que a mortalidade infantil continua sendo uma das mais altas dos países industrializados; continua a haver cada vez mais casos de maus tratos às crianças (e mais graves); continuam os abortos clandestinos... O aborto livre não satisfez a nenhuma verdadeira necessidade das mulheres, nem lhes devolveu a dignidade. De fato, produziu exatamente o contrário: estimulou a irresponsabilidade dos homens e dos jovens, que encontram no aborto uma escusa fácil para fugir de suas obrigações; aumentou enormemente a exploração das mulheres pela indústria do aborto... A licença para abortar não proporcionou liberdade nem segurança às mulheres..."

 

Como médico, sinto-me no dever de alertas as mulheres que pensam em abortar (principalmente às adolescentes) e também a todos os colegas que atendem a estas pacientes, lembrando umas palavras da Dra. M. Simon: "O aborto não somente aniquila uma vida humana ainda não nascida, mas também arruina a psiqué da mulher."

Referências bibliográficas

Relatório Wynn.: Margarett and Arthur Wynn. Some consequences of induced Abortion to Children Born Subsequently, Foundation of Education and Research in Child Bearing, London. 1975.

 

Klinger, A.: Demographic Consequences of the Legalization of Abortion in Eastern Europe. Internacional Journal of Gynecology and Obstetrics, 8: 680. 1970.

 

Kotasek, A.: Artificial Termination of Pregnancy in Czechoslovakia. Journal of Sex. Research, 7:240. 1971.

 

Meyerowitz, S.: Satloff, A.; Romano, J.: Induced Abortion for Psychiatric Reasons. American Journal of Psychiatry, 127: 1153. 1971.

 

Hendricks-Matthews, M.: Psychological Sequelae from Induced Abortion: a Follow-up Sudy of Women Who Seek Post Abortion Counseling. Doctoral Dissertation. Ann Arbor, Michigan, University Microfims International. 1983.

 

Roa - A.: El Embrión, lo Humano y lo Humanizado. Revista Médica de Chile, 120: 323. 1992.

====================

A TORTURA, O QUE É,

COMO EVOLUI NA HISTÓRIA

“A tortura deixou, para sempre, de existir”, dizia Victor Hugo, em 1874. Infelizmente, o século XX demonstra que o escritor francês se equivocou. Segundo dados da Anistia Internacional, a tortura física, moral e psicológica é hoje sistematicamente aplicada – ou pelo menos tolerada – por governos de 60 países.

A 10 de dezembro de 1948, A Assembléia Geral da Organização das Nações Unidas (ONU) aprovou a Declaração Universal dos Di­reitos Humanos, cujo artigo 5º reza:

Ninguém será submetido à tortura, nem a tratamento ou castigo cruel, desumano ou degradante.

Atualmente, em mais de um terço dos países signatários da Carta Magna dos Direitos Humanos, a tortura é parte substancial dos métodos interrogatórios da polícia e das forças militares, sendo praticada para se obter informações, humilhar, intimidar, aterrori­zar, punir ou assassinar prisioneiros políticos e comuns.

O que é a tortura

A tortura foi definida pela Associação Médica Mundial, em assembléia realizada em Tóquio, a 10 de outubro de 1975, como:

“a imposição deliberada, sistemática e desconsiderada de sofrimento físico ou mental por parte de uma ou mais pessoas, atuando por própria conta ou seguindo ordens de qualquer tipo de poder, com o fim de forçar uma outra pessoa a dar informações, confessar, ou por outra razão qualquer”.

O psicanalista Hélio Pellegrino observa que “a tortura busca, à custa do sofrimento corporal insuportável, introduzir uma cunha que leve à cisão entre o corpo e a mente. E, mais do que isto: ela procura, a todo preço, semear a discórdia e a guerra entre o corpo e a mente. Através da tortura, o corpo torna-se nosso inimigo e nos persegue. É este o modelo básico no qual se apóia a ação de qualquer torturador. (...) Na tortura, o corpo volta-se contra nós, exigindo que falemos. Da mais íntima espessura de nossa própria carne, se levanta uma voz que nos nega, na medida em que pre­tende arrancar de nós um discurso do qual temos horror, já que é a negação de nossa liberdade. O problema da alienação alcança, aqui, o seu ponto crucial. A tortura nos impõe a alienação total de nosso próprio corpo, tornando estrangeiro a nós, e nosso inimigo de morte. (...) O projeto da tortura implica numa negação total – e totalitária – da pessoa, enquanto ser encarnado. O centro da pessoa humana é a liberdade. Esta, por sua vez, é a invenção que o sujeito faz de si mesmo, através da palavra que o exprime. Na tortura, o discurso que o torturador busca extrair o torturado é a negação absoluta e radical de sua condição de sujeito livre. A tor­tura visa ao avesso da liberdade. Nesta medida, o discurso que ela busca, através da intimidação e da violência, é a palavra aviltada de um sujeito que, nas mãos do torturador, se transforma em objeto”.

Enfim, é tortura tudo aquilo que deliberadamente uma pessoa possa fazer a outra, produzindo dor, pânico, desgaste moral ou desequilíbrio psíquico, provocando lesão, contusão, funcionamento anormal do corpo ou das faculdades mentais, bem como prejuízo à moral.

No Brasil, no período compreendido por este estudo (1964-1979), a tortura foi sistematicamente aplicada aos acusados de atividades consideradas “subversivas”. Entretanto, a incidência retratada nos procedimentos judiciais é bem menor que a sua real extensão e intensidade. Isso porque os Conselhos de Justiça Militar, via de regra, evitavam que as denúncias de torturas fossem consignadas aos autos das ações penais. Quando toleravam incorporá-las, o faziam de forma superficial, simplificada, genérica, demonstrando, assim, conivência com o comportamento criminoso dos órgãos de segurança do Estado. Raros os juizes-auditores que fizeram consig­nar nos autos a descrição pormenorizada das sevícias sofridas pelos réus e os nomes de seus algozes.

Muitas vezes as vítimas da tortura, por sua própria vontade ou aconselhadas por familiares, agrupamentos políticos ou advogados de defesa, optaram por silenciar, em seus interrogatórios na Justiça, sobre as torturas que padeceram, temendo, como a muitos sucedeu, que a denúncia induzisse a uma condenação antecipada. Muitos não falaram de seus sofrimentos com medo de retornarem às sessões de tortura, como ocorreu inúmeras vezes. No entanto, os que ousaram descrever os suplícios de que foram vítimas, os modos e os instru­mentos de tortura, os locais, a assistência médica e os nomes dos torturadores, e tiveram suas palavras consignadas nos autos pro­cessuais pela própria voz autorizada do Tribunal Militar, permitiram constatar que, no Brasil de 1964 a 1979, a tortura foi regra, e não exceção, nos interrogatórios de pessoas suspeitas de atividades con­trárias aos interesses do Regime Militar. Tal prática generalizada encontra amparo e fundamento ideológico na Doutrina de Segurança Nacional.

Evolução histórica da tortura

Ao longo dos séculos, a tortura era um direito do senhor sobre os escravos, considerados coisas, ou foi aplicada como pena advinda de sentenças criminais, O apedrejamento, o chumbo derretido na pele, a decepção de órgãos, eram penas impostas a infratores ou supostos infratores das leis e visavam obediência ao princípio do Talião, resumido pelo célebre axioma “olho por olho, dente por dente”, e tinham como fundamento o ressarcimento do mal causado através da aplicação do mesmo mal a quem o causara. Já o Código de Hamurabi, ordenamento legal do século 18 antes de Cristo, ado­tado na Babilônia, previa para os criminosos a empalação, a fo­gueira, a amputação de órgãos e a quebra de ossos.

A lei mosaica, do Antigo Testamento, defendia os escravos das arbitrariedades: “Se alguém ferir o seu escravo ou a sua serva com uma vara, e o ferido morrer debaixo de sua mão, será punido” (Êxodo 21,20). Entretanto, o livro do Eclesiástico admite a tortura dos escravos (“Jugo e rédea dobram o pescoço, e ao escravo mau torturas e interrogatório”, 33,27), embora defenda a dignidade deles (“Tens um só escravo? Trata-o como a um irmão, pois necessitas dele como de ti mesmo”, 33,32).

No Novo Testamento, o açoite aparece como a sevícia mais comum aos acusados de delitos, O apóstolo Paulo chega a apelar à sua cidadania romana para livrar-se da tortura (Atos dos Apósto­los 22,24). O Direito romano admitia a tortura, pois o processo baseava-se na auto-acusação e na confissão dos suspeitos, e não nas provas e nas testemunhas.

Em fins do século II, Tertuliano, na obra De Coruna, exorta os soldados convertidos ã fé cristã a evitarem praticar torturas. Dois séculos depois, Lactâncio, em sua Divinae Institutiones, escreve elo­quentes páginas contra a tortura, “por ser contra o direito humano e contra qualquer bem”. Já Santo Agostinho, na De Civitate Dei, escrita entre os anos 412 e 416, não chega a condenar a inclusão da tortura no Direito Romano, mas repudia sua aplicação, por tratar-se de pena imposta a quem não se sabe ainda se é culpado.

Pouco antes de Agostinho, em 382, o Sínodo Romano, presidido pelo Papa Dâmaso, remete alguns cânones aos bispos da Gália, entre os quais se declara expressamente que não são livres de pecado os funcionários civis que “condenaram pessoas à morte, deram senten­ças injustas e exerceram a tortura judiciária”. Apenas vinte anos após aquele sínodo ocorre uma virada no pensamento do magistério pontifício da Igreja. O Papa Inocêncio I (401-417) escreve em sua Epístola VI: “Pediram-nos a opinião sobre aqueles que, após have­rem recebido o batismo, tiveram cargos públicos e exerceram a tortura, ou aplicaram sentenças capitais. A este respeito nada nos foi transmitido”. Iniciava-se, pois, o consentimento implícito às normas processuais romanas, apesar da suposta cristianização do Império. Entendia-se que a Igreja não podia reprovar o uso da espa­da no Direito penal, uma vez que isso decorria da própria “vontade de Deus”. E considerando que o Estado, após Constantino, contava com um número sempre maior de funcionários cristãos, exigir que se mantivesse frente a ele a mesma atitude critica de Tertuliano, de Lactâncio, de Agostinho e de todos que sentiram de perto a per­seguição, significava – aos olhos da nova teologia do poder – impedir a justiça penal de seguir o seu curso “normal”.

Com as invasões bárbaras, a tortura diminuiu e as fontes conhe­cidas só retomam o tema por ocasião da conversão dos búlgaros, em 866. A eles escreve o Papa Nicolau I, para esclarecê-los sobre questões dogmáticas e morais, entre as quais o costume que tinham, antes de abraçar a fé cristã, de torturar os criminosos. O Papa insiste na supressão da tortura, acentuando que a confissão deve ser espontânea, pois a tortura não é admitida “nem pela lei divina e nem pela lei humana”. Recomenda ainda que, em lugar de suplícios, apele-se às testemunhas e exija-se o juramento sobre os Evangelhos.

A reintrodução da tortura aos processos penais

No século XII, o Direito penal do Ocidente retoma princípios do Direito Romano imperial e reintroduz a tortura judiciária, apesar de, à mesma época, afirmar o Decretum Gratiani: “A confissão não deve ser obtida pela tortura, como escreve o Papa Alexandre”.

No século seguinte, a tortura passa a fazer parte dos códigos processuais, especialmente nos Estados centralizados, como Castella de Afonso X, a Sicília de Frederico II e a França de Luis IX. Simul­taneamente a Igreja passa a admitir o uso processual da tortura. Em 1244, o Papa Inocêncio IV aprova a legislação penal de Fre­derico II e, em 1252, em seu Ad Extirpanda, aceita que “os hereges, sem mutilação e sem perigo de vida podem ser- torturados a fim de revelar os próprios erros e acusar os outros, como se faz com os ladrões e salteadores”. fl o retomo oficial ao sistema penal ro­mano, fundado na auto-acusação e na confissão do réu. Essa trágica involução reflete-se na obra do maior pensador medieval, Tomás de Aquino. Em fins do século XIII, ao tratar das injúrias contra as pessoas, na parte moral da Suma Teológica (questão 64), ele se refere à mutilação, à flagelação dos filhos e dos servos e ao encar­ceramento. Mas não menciona a tortura, exceto em sua Expositio super Job: “Sucede às vezes que, quando um inocente é acusado falsamente perante um juiz, este, para descobrir a verdade, o sub­mete à tortura, agindo segundo a justiça; mas a causa disso é a falta de conhecimento humano”) São Tomás admite pois que, não havendo outro recurso para se apurar a verdade, é justa a aplica­ção da tortura, mesmo sobre um inocente. Tal posição inaugura, na Igreja, a adoção da tortura como prática sistemática de preser­vação da disciplina religiosa. Ela passa a ser oficialmente aceita nos processos de heresia, não obstante não se recomende sua apli­cação direta por religiosos, padres e bispos.

A Inquisição e a Doutrina de Segurança Nacional

A mais notória obra sobre o uso da tortura pela Igreja é O Manual dos Inquisidores, de Nicolau Emérico (1320-1399). No capítulo 3, “Sobre o interrogatório do Acusado”, o inquisidor reco­menda: “aplicar-se-lhe-á a tortura, a fim de lhe poder tirar da boca toda a verdade”. O capítulo 5 traz como título “Sobre a tortura”, e tem como frase introdutória: “Tortura-se o Acusado, com o fim de o fazer confessar os seus crimes”. Quem tortura, os eclesiás­ticos ou o braço secular? A esta indagação responde o frade ita­liano que comandou a Inquisição na região espanhola de Aragón:

“Quando começou a estabelecer-se a Inquisição, não eram os Inquisidores quem aplicavam a tortura aos Acusados, com medo de incorreram em irregularidades. Esse cuidado incum­bia aos juizes leigos, conforme a Bula Ad Extirpanda, do Papa Inocêncio IV, na qual esse Pontífice determina que devem os Magistrados obrigar com torturas os Hereges (esses assassi­nos das almas, esses ladrões da fé cristã e dos sacramentos de Deus) a confessar os seus crimes e a acusar outros hereges seus cúmplices. Isto no princípio; posteriormente, tendo-se verificado que o processo não era assaz secreto e que isso era inconveniente para a fé, achou-se que era mais cômodo e salutar atribuir aos Inquisidores o direito de serem eles mesmos a infligir a tortura, sem ser preciso recorrer aos juizes leigos, sendo-lhes ainda outorgado o poder de mutua­mente se relevarem de irregularidades em que às vezes, por acaso, incorressem.

“De ordinário utilizam os nossos Inquisidores cinco espécies de tormentos no decorrer da tortura. Como isso são coisas sabidas de toda a gente, não irei deter-me neste assunto. Podem consultar-se Paulo, Grilando, Locato, etc. Já que o Direito Canônico não prevê particularmente este ou aquele su­plicio, poderão os juizes servir-se daqueles que acharem mais aptos para conseguirem do acusado a confissão de seus cri­mes. Não se deve, porém, fazer uso de torturas inusitadas. Marcílio menciona catorze espécies de tormentos: acaba por afirmar que imaginou ainda outros, como seja a privação de sono, também referida e aprovada por Grilando e Locato. Mas, se me é permitido dizer a minha opinião, isso é mais trabalho de carrascos do que tratado de Teólogos.

“É por certo um costume louvável aplicar a tortura aos cri­minosos, mas reprovo veemente esses juizes sanguinários que, por quererem vangloriar-se, inventam tormentos de tal modo cruéis que os Acusados morrem durante a tortura ou acabam por perder alguns dos membros. Também Antônio Gomes condena violentamente esse procedimento”.

No Brasil, de 1964 a 1979, os métodos de interrogatórios e o sistema processual baseados na Doutrina de Segurança Nacional pa­recem advir da Inquisição medieval. Esta também instigava a dela­ção entre parentes (“em matéria de heresia, o irmão pode teste­munhar contra o irmão e o filho contra o pai”), reduzia o número de testemunhas (“bastam dois testemunhos para condenar definiti­vamente em matéria de heresia”), aceitava delações anônimas (“não deverão tornar-se públicos os nomes das testemunhas, nem dá-los a conhecer ao Acusado”). Compare-se ainda o modo de se proceder ao interrogatório de presos políticos às “principais manhas que o Inquisidor deve empregar contra as manhas dos hereges:

1. Através de repetidas interrogações, obrigá-los a responder claramente e de forma precisa às questões formuladas.

2. Se se vier a presumir que um Acusado, acabado de prender, tem intenção de esconder o seu crime (o que é fácil de desco­brir antes do interrogatório, seja por meio dos carcereiros, seja por pessoas mandadas para espiar o Acusado), será então necessário que o Inquisidor fale com muita doçura ao Herege, lhe dê a entender que já sabe de tudo.

3. Se um Herege, contra o qual não foram ainda fornecidas provas suficientes de culpa, mesmo que haja bastos indícios, continuar a negar, fará o Inquisidor com que ele compareça e far-lhe-á perguntas ao acaso. Logo que o Acusado haja ne­gado qualquer coisa, lançará mão da Ata em que se contêm os interrogatórios precedentes. Poderá folheá-los e dirá: “É muito claro que me estás a esconder a verdade, deixa de estar a dissimular”. Tudo de forma a que o Condenado julgue estar já reconhecido como culpado e que na Ata estão con­tidas provas contra ele. (...).

4. Se o Acusado teimar em negar o seu crime, deverá o In­quisidor dizer-lhe que vai partir brevemente para longe, que não sabe quando virá, que lhe desagrada o ter que se ver obrigado a deixá-lo apodrecer nas prisões, que bem desejava tirar a limpo toda a verdade de sua boca, a fim de o poder mandar embora e dar por findo o processo. Mas, já que ele se obstina em não querer confessar, que o vai deixar a ferros até o seu regresso, que tem pena dele por lhe parecer de saúde delicada, que possivelmente irá adoecer, etc.

5. Se o Acusado continuar a negar, multiplicará os interrogatórios e as interrogações. E desta forma, ou o Acusado há de confessar, ou há de dar respostas diversas. Se der várias res­postas diferentes, é o bastante para o conduzir à tortura.

6. Se o Acusado persistir na negação, pode o Inquisidor falar-lhe com doçura, tratá-lo com um pouco mais de atenções no respeitante à comida e à bebida, fazer também com que algu­mas pessoas de bem o vão visitar e conversem com ele, ins­pirando-lhe confiança, aconselhando-o a confessar, prometen­do-lhe que o Inquisidor lhe há de fazer mercês, fingindo-se (de) mediadores entre este e o Acusado. (...)

7. Uma outra artimanha do Inquisidor será chamar um cúm­plice do Acusado, ou pessoa a quem este estime e em quem acredite, a fim de a enviar repetidas vezes para falar com o Prisioneiro e conseguir o segredo. (...) Numa palavra, devem ser utilizadas todas as artimanhas que não tragam em si apa­rência de mentira”.

Os tribunais de Inquisição não seguiam ordem jurídica alguma os processos não obedeciam às formalidades do Direito. Estimu­lava-se a delação, que formalizava a peça acusatória. A denúncia oral fazia-se com as mãos sobre o Evangelho, como juramento e, a partir daí, o inquisidor tramitava o processo, mantendo oculta a identidade do denunciante. A obrigação de denunciar os hereges era permanente. Mesmo quando a acusação intentada era completamente desprovida de verdade, o inquisidor não era obrigado a apagar de seu livro de registros processuais os dados referentes aos supostos hereges. Isso porque, dizia-se, “aquilo que não se descobre em certa altura, pode vir a descobrir-se noutra”.

Os próprios inquisidores davam buscas gerais à procura de he­réticos. De tempos em tempos, nas paróquias escolhiam-se alguns padres e leigos, “pessoas de bem”, a quem se fazia prestar jura­mento, e que promoviam buscas frequentes “e escrupulosas em todas as casas, nos quartos, celeiros, subterrâneos, etc.”, a fim de se cer­tificarem se porventura não havia hereges escondidos por ali.

A progressiva rejeição da tortura

Com a evolução dos tempos, a Igreja, envolvida pelas idéias humanistas, procurou minorar tais procedimentos medievais, afas­tou-se dos centros de poder e estabeleceu a igualdade de todos perante a Justiça, restringindo sobremaneira a prática de torturas e de detenções preventivas. Foram suprimidos o uso da água fer­vente, do óleo quente e do ferro em brasa. Aboliu-se também o principio de que “em qualquer julgamento Deus estará presente para dar razão a quem tiver”. Pois o “poder divino” submetia o acusado a provas. Se saisse ileso, era inocente. Se a ferida não infeccionasse, se a pele não formasse bolhas, não era considerado culpado e sua inocência era proclamada. Caso contrário, se não resistisse à dor, era obrigado a confessar sua culpa e, portanto, incriminado.

Ainda que no século XVI se tenham publicado os ordenamentos criminais de Carlos V, favoráveis a todo tipo de crueldade, o huma­nista cristão João Vives, em seu comentário a De Civitate Dei, de Santo Agostinho, rejeita decididamente a tortura: “Como podem viver tantos povos, inclusive bárbaros, como dizem os gregos e lati­nos, que permitem torturar durissimamente um homem de cujos delitos se duvida? Nós, homens dotados de todo senso humanitário, torturamos homens para que não morram inocentes, embora tenha­mos deles mais piedade do que se morressem: muitas vezes os tor­mentos são, de longe, piores do que a morte... Não posso e não quero alongar-me aqui sobre a tortura... é um lugar comum, entre os retóricos, falar pró e contra ela. Enquanto o que dizem contra é fortíssimo, os argumentos a favor são fúteis e fracos”.

Em 1624, João Graefe ou Grevius, pastor armeniano holandês, publicou em Hamburgo o seu Tribunal Rejormatum, verdadeiro tra­tado de teologia moral a respeito da tortura. Segundo ele, esta não pode ser justificada pelas Escrituras, é contra a caridade cristã e o direito natural. A esta obra seguem-se outras de autores católicos, von Sppe (Cautio criminalis, 1631), I. Schaller (Paradoxon de tor­tura in christiana republica non exercenda, 1657), A. Nicolas (Si la torture est un moyen súr à vérijier les crimes secrets, 1682). A de maior importância, porém, foi a dissertação de C. Thomasius, De tortura ex joris christianorurn proscribenda, publicada em Halle, em 1705, na qual ele defende a exclusão da tortura dos processos penais, por ser uma pena desproporcional e contra a justiça em geral, bem como por ser contra o senso cristão de justiça e de proporção. Aconselha ao príncipe a considerar sua abolição pela ótica mera­mente política, uma vez que teologicamente e segundo o direito na­tural ela é insustentável.

A partir da famosa obra de C. Beccaria, Dei delitti e delle (Livorno, 1764), os iluministas retomam os argumentos de Thoma­sius e conseguem introduzir a proibição da tortura na legislação vigente, a começar pela Suécia e pela Prússia de Frederico II. No entanto, o mesmo não ocorre na Igreja Católica. A 3 de fevereiro de 1766, o Santo Ofício inclui no Index de livros proibidos a obra de Beccaria. E Santo Afonso de Ligório, na edição de 1785 de sua Teologia Moral, ainda se pergunta: “O que é lícito ao juiz em ques­tão de tortura?”. O único moralista que se coloca ao lado de Tho­masius é o capuchinho alemão R. Sasserath, em seu Cursus Theolo­giae Moralis, de 1787.

Também a Revolução Francesa, trouxe significativos avanços no tratamento da questão, impondo às autoridades o respeito à inte­gridade física dos detidos e, consequentemente, proibindo a tortura.

A partir do século XIX, nenhum manual de Teologia Moral recoloca a questão da tortura, pois, já no século XVII, fôra consi­derada prática “moralmente censurável” e, no século XVIII, erigida em crime. Contudo, no Brasil colônia, o Código Criminal estipulava para os escravos a pena de açoite e, por vezes, a sentença punha o escravo a ferros. A única atenuante era o impedimento legal de o negro receber mais de 50 chibatadas diárias... Para os delitos graves havia o emparedamento e a possibilidade de quebra dos dentes e de ossos do culpado.

É no século XX, após a Primeira Guerra Mundial, que a tortura volta como método privilegiado de interrogatório policial e militar em dezenas de países, embora excluída da legislação. Na Segunda Guerra, ela é usualmente aplicada aos prisioneiros de guerra, em especial nos campos de concentração nazistas, vitimas inocentes de um genocídio programado que, após o conflito mundial, fez emergir na consciência dos povos de todo o mundo a exigência de se ter um estatuto que objetive e defenda os valores essenciais da vida humana. Assim, os países membros da ONU assinaram, em 1948, a Declaração Universal dos Direitos Humanos, onde as torturas e os maus-tratos são definitivamente condenados.

Poucas normas jurídicas foram tão aceitas no mundo das nações civilizadas como aquelas proclamadas pela ONU.

Sua influência fez com que quase todos os países adotassem em seus ordenamentos jurídicos, regras de proibição terminantes com tais práticas.

Apesar disso, a humanidade assiste ao alastramento endêmico da tortura.

O Concílio Vaticano II (1963-1965), em sua Constituição Gau­dium et Spes, declara que “tudo o que viola a integridade da pessoa humana, como as mutilações, as torturas físicas ou morais e as ten­tativas de dominação psicológica.., são efetivamente dignas de cen­sura, (pois) contradizem sobremaneira a honra do Criador” (nº 284).

Em 1977, as Igrejas Protestantes e Ortodoxas, através do Con­selho Mundial de Igrejas (CMI) também reprovaram, em importante declaração, a prática ignominiosa da tortura:

“Dadas as trágicas dimensões da tortura em nosso mundo, ins­tamos as igrejas a usarem este ano do trigésimo aniversário da Declaração Universal dos Direitos Humanos como ocasião especial para tornarem públicas a prática, a cumplicidade, e a propensão à tortura existentes em nossas nações. A tortura é epidêmica, é gerada no escuro, no silêncio. Conclamamos as igrejas a desmascararem a sua existência abertamente, a que­brarem o silêncio, a revelarem as pessoas e as estruturas de nossas sociedades responsáveis por estas violações dos direi­tos humanos que são os mais desumanizantes”.

Nos últimos anos, a tortura foi prática disseminada especial­mente em países governados sob a égide da Doutrina de Segurança Nacional, prática que subverte o objeto essencial do Estado, que é o resguardo das liberdades individuais e a promoção do bem comum. À luz da Segurança Nacional, a tortura não decorre apenas do sadis­mo dos torturadores; ela é parte integrante do sistema repressivo montado pelo Estado, a fim de sufocar os direitos e as liberdades de seus opositores. É parte da estratégia de manutenção do poder. Acreditando em sua eficácia e rapidez, as investigações policiais e militares passaram a adotá-la como método exclusivo de apuração de fatos considerados crimes contra a segurança nacional. Para tanto, a tortura tornou-se matéria de estudo teórico e prático em academias militares e em centros de instrução policial.

+++++++++++++++++++++++++++

A  TEOLOGIA  MORAL

 

A Teologia Moral é a ciência que se ocupa do estudo sistemático dos princípios éticos da doutrina sobrenatural revelada.

A mensagem evangélica, essencialmente, está ligada a uma ética, ao lado das verdades factuais. A doutrina revelada, no seu conjunto, é uma ética, pois apresenta as normas exigidas para o relacionamento entre os homens e Deus - através das leis reveladas aos patriarcas e das leis reveladas por Cristo. São preceitos morais transmitidos aos homens em sucessivos pactos celebrados entre Deus e Seu Povo, como narrados no Antigo Testamento. As verdades, portanto, que devem ser praticadas no cotidiano como expressão da plena aceitação da mensagem evangélica pelos homens.

Os Mandamentos de Deus fazem parte da doutrina sobrenatural revelada; doutrina confirmada solenemente pelo magistério da Igreja. São, por conseguinte, dogmas morais. Constituem a base sólida, o fundamento seguro, da doutrina moral da Igreja Católica.

A moral é o conjunto das normas que têm como objetivo a perseverança dos homens na justiça. É a forma pela qual os homens se tornam crescentemente santos e justos pelas obras; ou seja, o progresso espiritual sob a graça - a cooperação do homem com a vontade e com a obra divina.

Sem a observância dos Mandamentos divinos não podemos agradar a Deus e persistir sob a graça.

Esta cooperação com a vontade de Deus se faz no âmbito religioso e no âmbito da sociedade temporal. Como ser social que é, o homem possui obrigações para com os demais e é, também , titular de direitos a serem respeitados pelas instituições públicas e pelos demais membros da sociedade.

Assim fala o Catecismo da Igreja sobre a Lei moral: ( §1951 )" A lei é uma regra de comportamento promulgada pela autoridade competente em vista do bem comum. A lei moral supõe a ordem racional estabelecida entre as criaturas, para seu bem e em vista de seu fim, pelo poder, pela sabedoria e pela bondade do Criador.

Toda lei encontra na lei eterna sua verdade primeira e última. A lei é revelada e estabelecida pela razão como una participação na providência do Deus vivo, Criador e Redentor de todos. "A esta ordenação da razão dá-se o nome de lei": Apenas o homem, entre todos os seres vivos, pode gloriar-se de ter sido digno de receber de Deus uma lei. Animal dotado de razão, capaz de entendimento e discernimento, regulará sua conduta dispondo de liberdade e de razão, na submissão àquele que tudo lhe confiou. "

Sobre a lei moral natural: "O homem participa da sabedoria e da bondade do Criador, que lhe confere o domínio de seus atos e a capacidade de se governar em vista da verdade e do bem. A lei natural exprime o sentido moral original , que permite ao homem discernir, pela razão, o que é o bem e o mal, a verdade e a mentira. A lei natural se acha escrita e gravada na alma de todos e de cada um dos homens, porque ela é a razão humana ordenando fazer o bem e proibindo pecar. (...) Mas esta prescrição da razão não poderia ter força de lei se não fosse a voz e o intérprete de uma razão mais alta, à qual nosso espírito e nossa liberdade devem submeter-se (§1954)"

"A lei "divina e natural" mostra ao homem o caminho a seguir para praticar o bem e atingir seu fim. A lei natural enuncia os preceitos primeiros e essenciais que regem a vida moral" (§1955 - Catecismo 1992)

A transgressão das leis de Deus implica na perda do estado de graça ou na sua forte debilitação.

Todos os aspectos da vida humana remetem para a ética cristã ; que tem como base a vontade de Deus para as nossas condutas e para os nossos pensamentos , a partir das leis eternas reveladas .

A Igreja com a autoridade e o poder a ela confiados por Cristo, aprofunda essa doutrina moral em diversos aspectos. Como, por exemplo , na questão da pobreza que atinge milhões de pessoas , nos problemas específicos da mulher , dos idosos, dos doentes , dos indígenas, dos jovens e assim sucessivamente.

Na própria ordem natural, Deus inscreveu a chamada lei moral natural que deve ser respeitada por todos, e , principalmente , por aqueles que não conheceram a mensagem evangélica, pois também são critérios a serem usados por Deus no julgamento dos homens.

Os católicos , portanto , devem rejeitar o relativismo moral e também a chamada ' moral da situação '; porque efetivamente a sua doutrina possui verdades morais absolutas, dogmáticas, que não estão ao sabor dos modismos que dominam as sociedades, em cada contexto histórico.

O aborto, a eutanásia, o uso de métodos contraceptivos, a clonagem humana, o genocídio, a guerra justa, a pena de morte, a união civil homossexual, são temas bastante atuais que ocupam posição central nas análises da teologia moral.

A Igreja afirma o seu direito perante o poder civil e o seu dever inalienável, de levar a Boa Nova a todos os homens, e o dever dos homens de perseguir a verdade e de abraçá-la quando a encontrarem.

A questão moral é o cerne da problemática soteriológica, pois a salvação depende da nossa conduta, após a justificação recebida com a graça do batismo. O objetivo da ciência moral é levar as virtudes cristãs à excelência.

Conhecer, portanto, a doutrina moral da Igreja é fundamental para que possamos viver uma vida cristã em plenitude , até o fim de nossas vidas.

"Pela lei vem o conhecimento do pecado", diz o apóstolo Paulo , e complementa: "Eu não conheci o pecado senão pela lei; porque eu não conheceria a concupiscência, se a lei não dissesse 'Não cobiçarás'" (Romanos 3,20; 7,7)

Everton Jobim

==============

A igreja foi durante séculos
favorável ao aborto?

 

A Igreja sempre foi contrária ao aborto, ou seja, ao morticínio de uma criança contida no seio materno. Já no século I se encontra um testemunho deste repúdio na Didaqué. Os Concílios regionais, desde o de Elvira (início do século IV), foram impondo penas severas aos réus de aborto. O Direito Canônico hoje vigente, fazendo eco às diretrizes do passado, prevê a excomunhão latae sententiae para quem provoque o aborto (seguindo-se o efeito). Todavia até época recente os cientistas hesitaram sobre o momento em que tem início a vida humana: seria imediatamente após a concepção ou após a fecundação do óvulo? Ou haveria, conforme pensava Aristóteles, um intervalo (de 40 ou 80 dias) entre a concepção e a animação do feto? A hesitação da ciência, bem compreensível, dada a falta de meios de pesquisa, fez que vários teólogos católicos julgassem com menos severidade a eliminação do feto antes do 40.º dia (no caso dos indivíduos masculinos) ou antes do 80.º dia (no caso dos indivíduos femininos). Note-se bem: sempre foi condenada a ocisão de uma criança; a hesitação versava apenas sobre a questão de saber se já existe verdadeiro ser humano desde o momento da concepção.

 

Nos recentes debates públicos sobre o aborto tem sido considerada a posição da Igreja em termos que deixam interrogações na mente da sociedade brasileira. Entre outras coisas, diz-se que a Igreja não tem autoridade para impugnar o aborto, pois que ela o permitiu desde o século IV até o século XIX. A afirmação é realmente surpreendente e exige esclarecimentos e retificações. Encararemos, a seguir, o assunto, tratando primeiramente dos pronunciamentos oficiais da Igreja sobre o aborto através dos séculos; após o quê voltar-nos-emos para a questão do início da vida humana, que deixou dúvidas em escritores de todos os séculos até época recente.

Os Pronunciamentos da Igreja

1. Desde o século I manifesta-se na Igreja a consciência de que o aborto é pecaminoso. Assim, por exemplo, reza a Didaqué, o primeiro Catecismo cristão, datado de 90-100:

 

"Não matarás, não cometerás adultério... Não matarás criança por aborto nem criança já nascida" (2,2).

 

"O caminho da morte é... dos assassinos de crianças" (5,2)

 

Na segunda metade do século III; o autor da Epístola a Diogneto observava:

 

"Os cristãos casam-se como todos os homens; como todos, procriam, mas não rejeitam os filhos" (V 6).

 

O autor da Epístola atribuída a S. Barnabé no século II e depois Tertuliano († 220 aproximadamente), S. Gregório de Nissa († após 394), São Basílio Magno († 379) fizeram eco aos escritores precedentes.

 

2. A legislação da Igreja oficializou esse modo de pensar, estipulando sanções para o crime do aborto.

 

Assim o Concílio de Ancira (hoje Ancara) na Ásia Menor em 314, cânon 20, menciona uma norma que os conciliares diziam ser antiga e segundo a qual as mulheres culpadas de aborto ficam excluídas das assembléias da Igreja até a morte; o Concílio atenuou o rigor dessa penalidade, reduzindo-a para dez anos:

 

"As mulheres que fornicam e depois matam os seus filhos ou que procedem de tal modo que eliminem o fruto de seu útero, segundo uma lei antiga são afastadas da Igreja até o fim da sua vida. Todavia num trato mais humano determinamos que lhes sejam impostos dez anos de penitência segundo as etapas habituais" (Hardouin, Acta Conciliorum; Paris 1715, t. I, col. 279)1

 

Outros Concílios repetiram a condenação do aborto: o de Elvira (Espanha) em 313 aproximadamente, cânon 63; o de Lerida, em 524, cânon 2; o de Trullos ou Constantinopla, em 629, cânon 91; o de Worms em 869 cânon 35...

 

Em 29/10/1588, o Papa Sixto V publicou a Bula Effraenatam: referindo-se aos Concílios antigos, especialmente aos de Lerida e Constantinopla, condenou peremptoriamente qualquer tipo de aborto e impôs severas penas a quem o cometesse, penas que só poderiam ser absolvidas pela Santa Sé. Além disto, a Bula não distingue entre feto não animado e feto animado por alma intelectiva, distinção esta de que falaremos às p. 454-456 deste artigo e que na época parecia muito importante.

 

Tal Bula era rigorosa demais para poder ser observada, principalmente pelo fato de reservar à Santa Sé a absolvição das penas infligidas aos réus de aborto. Por isto foi substituída poucos anos depois pela Bula Sedes Apostolica de Gregório XIV, datada de 31/05/1591; este documento distingue entre feto animado e feto não animado por alma humana: o aborto de feto animado ou verdadeiramente humano seria punido com a excomunhão para os culpados, mas sem reserva da absolvição à Santa Sé; quanto ao aborto de feto não animado ou não humano, ficaria a questão como estava antes da Bula de Sixto V (seria passivo de sanção menos severa do que o aborto de feto animado).

 

Como se vê, a questão da animação mediata ou imediata era ardente na época. Diante das posições extremadas que alguns autores professavam, o Papa Inocêncio XI condenou em 02/03/1679, como escandalosas e na prática perniciosas, as seguintes sentenças:

 

"34. É lícito efetuar o aborto antes da animação para impedir que uma jovem grávida seja morta ou desonrada.

 

35. Parece provável que todo feto carece de alma racional enquanto está no seio materno; só é dotado de tal alma quando é dado à luz. Em conseqüência, deve-se dizer que nenhum aborto implica homicídio" (Denzinger-Schönmetzer, Enquirídio de Símbolos e Definições n. 2134s.).

 

Como se vê, o Papa não quis abonar a tese do aborto sob pretexto de que não afeta um ser humano propriamente dito. Embora não se soubesse com certeza no século XVII quando começa a vida humana, Inocêncio XI não se prevaleceu desta incerteza para legitimar a eliminação do feto contido no seio materno.

 

No século XIX o Papa Pio IX renovou a condenação do aborto, sem distinguir animação mediata ou imediata:

 

"Declaramos estar sujeitos a excomunhão latae sententiae (anexa diretamente ao crime) reservada aos Bispos ou Ordinários, os que praticam aborto com a eliminação do concepto" (Bula Apostolicae Sedis de 12/10/1869).

 

Esta sentença categórica persistiu na Igreja até o Código de Direito Canônico atual, que prevê a excomunhão para o delito:

 

"Cânon 1398. Quem provoca o aborto, seguindo-se o efeito, incorre em excomunhão latae sententiae".

 

Vê-se, pois, que a Igreja desde os seus primórdios se manifestou contrária ao morticínio de uma criança contida no seio materno. Existia, porém, para os teólogos a grave questão de saber quando começa a vida humana; a falta de conhecimentos genéticos adequados levava alguns a crer que, em determinadas circunstâncias, não havia verdadeira vida humana no seio materno. É o que passamos a examinar mais detidamente.

Animação mediata ou imediata?

Os seres vivos são compostos de um corpo organizado e um princípio vital (chamado anima, em latim). Animação, portanto, é o ato de se unirem o princípio vital (anima) e o corpo organizado. No homem, animação ocorre quando a alma (anima) é criada por Deus e infundida nos elementos materiais orgânicos, aptos a exercerem as funções da vida humana (que é vegetativa, sensitiva e intelectiva). Pergunta-se, pois, quando se dá a animação: logo por ocasião da fecundação do óvulo pelo espermatozóide? Tem-se então a animação imediata... Ou a certo intervalo após a fecundação? Tem-se assim a animação mediata.

 

Vejamos como os pensadores responderam à questão.

 

Na antigüidade pré-cristã somente o filósofo grego Aristóteles († 322 a.C.) tratou do assunto. O seu raciocínio não é claro, mas parece defender a animação mediata: o embrião humano teria primeiramente um princípio vital meramente vegetativo; depois seria animado por um princípio vital vegetativo e sensitivo, e só posteriormente por um princípio (anima) vegetativo, sensitivo e intelectivo ou por uma alma humana propriamente dita.

 

Passemos agora aos pensadores cristãos, distinguindo gregos e latinos:

 

Os escritores gregos

 

A maioria destes era partidária da animação imediata.

 

Foi principalmente S. Gregório de Nissa († após 394) quem marcou a tradição grega. Rejeitava a teoria da preexistência seja da alma, seja do corpo, e afirmava a origem simultânea de um e de outro elemento; desde o primeiro instante da existência do embrião, a alma encontra-se nele com todas as suas potencialidades, que se vão manifestando à medida que o corpo se desenvolve.

 

São Basílio Magno († 379), irmão de S. Gregório de Nissa, adotou o pensamento deste. Por isto considerava assassinos os que provocam o aborto de um feto.

 

São Máximo Confessor († 662) abraçou a mesma tese, fundamentando-se do seguinte modo: se o corpo existe antes de ter uma alma, é um corpo morto, pois todo vivente possui uma alma. Se preexiste à alma racional, tendo uma alma meramente vegetativa ou sensitiva, segue-se que o ser humano gera uma planta ou um animal irracional — o que é impossível, pois toda planta provém de outra planta e todo animal irracional nasce de outro animal irracional, e não do homem.

 

Entre os defensores da animação mediata, está Teodoreto de Ciro († 466 aproximadamente). Apela para o livro do Gênesis, onde lhe parece que Moisés propõe a formação do corpo humano primeiramente e só depois a infusão da alma humana (cf. Gn 2,7).

 

É certo, porém, que entre os gregos prevaleceu a tese da animação imediata.  

 

Os escritores latinos

 

Entre estes destaca-se Tertuliano († 220 aproximadamente). Era favorável à animação imediata, argumentando, porém, a partir de um princípio que lhe valeu a réplica dos pósteros. Com efeito; Tertuliano defendia a animação imediata, julgando que as almas dos genitores desprendiam de si uma semente (tradux) da qual se originaria a alma da prole; por conseguinte, juntamente com os óvulos e os espermatozóides, os genitores transmitiram sementes de alma humana. Esta doutrina, chamada traducianismo, não preservava devidamente a espiritualidade da alma, mas reduzia a psyché humana à materialidade. Por isto os escritores latinos, desejosos de ressaltar a espiritualidade da alma, puseram-se a combater o traducianismo e, com este, a doutrina da animação imediata. Afirmavam: a concepção é obra dos genitores, mas a animação é obra direta de Deus, que cria e infunde a alma humana. Para bem distinguir uma da outra, distanciaram-nas também cronologicamente: a animação se daria tempos após a concepção da criança.

 

O autor do livro De spiritu et anima falsamente atribuído a S. Agostinho († 430) afirmava que o corpo vive a vida vegetativa e cresce no seio materno antes de receber a alma intelectiva ou humana. Outro autor anônimo, que foi confundido com S. Agostinho, comparava a formação de cada ser humano à formação de Adão: Deus só daria a alma intelectiva ao corpo humano depois que este estivesse formado, como aconteceu no caso de Adão (Quaestiones ex Vetere Testamento c. XXIII). Cassiodoro († 580) raciocinava do mesmo modo e acrescentava o testemunho dos médicos que estabeleciam a animação do corpo humano no quadragésimo dias após a concepção (De anima c. VIII). Cassiodoro, porém, observava que, em assuntos tão obscuros, seria melhor confessar a própria ignorância do que falar com temeridade arriscada.

 

Na Alta Idade Média a sentença da animação mediata foi reforçada pela difusão das obras de Aristóteles a partir do século XIII. S. Tomás de Aquino († 1274) a adotou com outros pensadores da época, estipulando a infusão da alma humana ou racional no 40.º dia para os indivíduos masculinos e no 80.º dia para os indivíduos femininos. Houve também aqueles que, seguindo uma insinuação do médico grego Hipócrates, estabeleciam o 30.º dia para o sexo masculino e o 40.º para o sexo feminino.

 

A partir do século XIII, algumas vozes, principalmente dentre os médicos, começaram a se fazer ouvir contra a hipótese dos pensadores medievais, de modo que aos poucos foi predominando a sentença da animação imediata. A Genética contemporânea, com seus apurados estudos, só contribui para confirmar definitivamente esta noção científica. Ver o testemunho do Dr. Jérôme Lejeune em PR 305/1987, p.457-461.

 

Os defensores da animação mediata apelaram para três textos bíblicos, cujo alcance nos compete agora considerar.

Três textos bíblicos

Vêm ao caso Êx 21,22s.; Lv 12,2-5 e Jó 10,9-12.

 

O texto de Êx 21,22s

 

Segundo a tradução grega dos LXX, este texto supõe que um homem imprudente dê um golpe numa mulher grávida e provoque o aborto. Se a mulher morre ou se o fruto de seu ventre estava formado, a punição para o delinqüente será a morte ("morte por morte"). Se porém, a mulher não morre e seu fruto não estava formado, o réu pagará apenas uma multa. Este texto parece supor que existe feto formado, plenamente humano, e feto não formado, não plenamente humano. S. Agostinho e outros autores latinos (que usavam a Bíblia traduzida do grego para o latim) e gregos se apoiaram em tais versículos bíblicos para propugnar a animação mediata; cf. S. Agostinho, In Heptateuchum, II c. LXXX.

 

Em resposta, deve-se observar que a tradução grega citada não corresponde ao texto original hebraico, nem às versões latina (da Vulgata), samaritana, síria, árabe. Eis o mais verossímil teor do texto segundo o original hebraico:

 

"Se homens brigarem e ferirem mulher grávida, e forem causa de aborto sem maior dano, o culpado será obrigado a indenizar o que lhe exigir o marido da mulher, e pagará o que os árbitros determinarem. Mas, se houver dano grave, então dará vida por vida".

 

Esta lei quer dizer o seguinte: se o delinqüente provocar expulsão do feto, mas sem morte nem da mãe nem da criança, a punição será uma multa. Se, porém, houver morte ou da mãe ou da criança, o réu será condenado à morte. Como se vê, não há aí distinção entre feto formado e feto não formado.

 

O próprio texto dos LXX, ao falar de "feto formado" e "feto não formado", não tem necessariamente em vista os períodos de pré-animação e de animação; pode apenas referir-se à fase em que o embrião ainda é quase indiferenciado e àquela em que já pode ser identificado como ser humano.

 

Como quer que seja, só pode ser utilizado, no caso, o texto hebraico como instrumento de argumentação, e não o texto grego.

 

Os dizeres de Lv 12,2-5

 

A Lei de Moisés prescreve quarenta dias de purificação às mulheres que tenham dado à luz um menino, e oitenta dias no caso de terem gerado uma menina. — Ora esta lei nada tem que ver com períodos de formação do feto no seio materno; mas foi por numerosos autores antigos considerada como símbolo de fases de animação. Esta consideração, porém, nada prova, pois um símbolo não é demonstração nem prova.

 

As palavras de Jó 10,9-12

 

Eis os dizeres de Jó:

 

"Lembra-te de que me fizeste de barro, e agora me farás voltar ao pó? Não me derramaste como leite e me coalhaste como queijo? De pele e carne me revestiste, de ossos e de nervos me teceste. Deste a vida e o amor, a tua solicitude me guardou".

 

Neste texto o autor sagrado menciona primeiramente a formação do corpo (pele, carne, ossos, nervos) e, depois, a entrega da vida como dom da misericórdia divina. Por conseguinte, a alma humana teria origem posterior ao corpo. Esta conclusão parece corroborada pelo paralelismo que o texto tece entre a formação do corpo de Jó e a do corpo de Adão, ambas partindo do barro, que só depois de plasmado recebeu a alma humana.

 

Em resposta, notamos que o autor sagrado quer apenas referir a ordem que vai do menos importante (corpo) ao mais importante (princípio vital); não há aí sucessão cronológica de fases de formação do ser humano. De resto, sabemos que o autor sagrado não tencionava oferecer uma descrição científica dos fenômenos que ocorrem na origem de uma criatura, de modo que é despropositado querer deduzir de tais dizeres uma sentença de Genética ou de Embriologia. Adão e Jacó são comparados entre si não sob o aspecto geneticista ou biológico, mas, sim, na medida em que ambos são objeto da Providência Divina.

 

Conclusão

Como se deduz das declarações dos Concílios e dos Papas atrás citados, a Igreja sempre foi contrária à ocisão de uma criança no seio materno. Acontece, porém, que não sabendo quando o feto se torna criança (ser humano) propriamente dita, os doutores antigos distinguiam a eliminação do feto antes do 40.º ou 80.º dia e o aborto propriamente dito. Não chegaram a legitimar ou aprovar aquela, mas julgaram que não podia ser considerada com tanto rigor como o aborto propriamente dito; veja-se a intervenção de Gregório XIV em 1591 (p. ??? ). Na verdade, a extração de um elemento não humano não pode ser tida como aborto.

 

Os antigos estavam, pois, condicionados pelo seu insuficiente conhecimento de Genética, mas por certo não toleravam o morticínio de uma criança, por mais incômoda que parecesse aos pais. Hoje em dia tal condicionamento desapareceu, de modo que se pode com mais nitidez e firmeza repudiar o aborto desde a concepção no seio materno, qualquer que seja a fase de evolução do feto.

BEUGNET, A., Avortement, em Dictionnaire de Théologie Catholique II/2, cols. 2644-2652.

 

CHOLLET, A., Animation, em Dictionnaire de Théologie Catholique I/2, cols. 1306-1320.

 

CONFERÊNCIAS EPISCOPAIS, A Igreja e o Aborto. Ed. Paulinas, 1972.

 

HÄRING, B., Ética Médica. Roma 1973. Medicina e Manipulação. Ed. Paulinas 1977.

 

VARGA, ANDREW, Problemas de Bioética. Unisinos, São Leopoldo 1982.

 

VIDAL, MARCIANO, Ética de Atitudes, vol. 2º, Ed. Santuário, Aparecida 1979.

 

"De mulieribus quae fornicantur et partus suos necant, vel quae agunt secum ut utero conceptos excutiant, antiqua quidem definitio usque ad exitum vitae eas ab Ecclesia removet. Humanius autem nunc definimus ut eis decem annorum tempus secundum praefixos gradus paenitentiae largiamur."

 

=================

+++++++++++++++

A  anticoncepção  é  pecado?

 

Atualmente mais de 80% dos casais casados nos Estados Unidos usam algum tipo de método de controle da natalidade. A maior parte dos casais que têm relações sexuais sem estarem casados também usam anticonceptivos. Trinta por cento de todas as mulheres casadas em idade fértil foram esterilizadas.

No entanto, nenhum anticonceptivo é totalmente seguro e essa é a razão pela qual nosso mundo hedonista pede a gritos o mal chamado "direito" ao aborto. O aborto é sensivelmente a conseqüência da falha dos anticonceptivos. Também sabemos que pelo seu efeito todas as pílulas anticonceptivas às vezes são abortivas. Portanto, não se pode negar a conexão entre a anticoncepção e o aborto.

Um casal casado que pratica a anticoncepção faz duas coisas:

1) decide conscientemente praticar a anticoncepção e;

2) utiliza métodos concretos para impedir a concepção, como por exemplo, as pílulas anticonceptivas e os preservativos. Podemos nos dar conta com clareza de que estes casais se rebelam com toda a intenção contra sua fertilidade, ao frustrar deliberadamente a dimensão procriadora do ato conjugal.

Há razões válidas para que um casal casado (e só dentro do casamento) decida que agora não é o momento oportuno para ter um bebê. Por exemplo, a saúde da mãe pode ser precária. Porém, o fim não justifica os meios. Há uma diferença enorme entre a anticoncepção e o planejamento natural da família (PNF). O PNF é aceitável moralmente, quando os esposos têm motivos graves para espaçar os nascimentos de seus filhos, porque respeita inteiramente a dignidade das pessoas e o caráter do ato conjugal. A propósito, os métodos modernos de PNF não custam nada ou muito pouco, são fáceis de aprender, são eficazes e não dependem, para sua realização, de que a esposa tenha ciclos regulares ou irregulares.

O que é o pecado?

O pecado tem haver com a faculdade humana de decidir e atuar. Pecar significa querer fazer o mal. Pecar é muito mais que cometer um simples erro, como somar mal uns números. O pecado não é "ser surpreendido cometendo um crime", mas é a vontade de cometer um ato perverso. O pecado implica em Deus. Se não existisse Deus não falaríamos de pecado, mas de erros, decisões desacertadas, falta de prudência e conveniência.

Quando pecamos, escolhemos deliberadamente ir de encontro à lei moral de Deus. A moralidade se aplica a todas as pessoas e a todas as esferas da atividade humana. Posto que a moralidade é objetiva e foi estabelecida por Deus, não temos o direito de recusá-la, trocá-la ou decidir seletivamente quais de seus princípios são válidos. O Papa Pio XII ensinou que o maior pecado do século XX foi a perda do sentido do pecado, o qual é uma afronta à bondade e à santidade de Deus.

Alguns pecados são óbvios porque se podem detectar facilmente suas desastrosas conseqüências na sociedade; por exemplo: o genocídio, a escravidão, os campos de concentração. Porém outros pecados são mais sutis, seus efeitos daninhos estão ocultos à primeira vista.

O que ensina a Igreja Católica com respeito à anticoncepção?

            A doutrina da Igreja Católica sobre a anticoncepção chegou a ser quase única entre os diferentes grupos religiosos. Esta situação não era assim até pouco tempo na História. Desde que surgiu o protestantismo, todas as correntes cristãs condenaram a anticoncepção.

A Igreja Católica o fez desde seu começo. Somente a Conferência Anglicana de Lambeth em 1930 rompeu a tradição cristã de vinte séculos, com a decisão de que os casais casados, por razões graves, podiam praticar a anticoncepção. Esta desastrosa posição, desde logo, foi piorando ainda mais de forma constante. Pio XI escreveu sua encíclica sobre o casamento e a castidade conjugal, Casti Connubi, imediatamente depois da Conferência de Lambeth. Na mencionada Encíclica o Papa reiterou a condenação da anticoncepção por parte da doutrina da Igreja Católica.

Vejamos agora a encíclica do Papa Paulo VI, Humanae Vitae (HV), publicada em 1968. Nela o Papa escreve que "todo ato conjugal deve permanecer aberto à transmissão da vida" (HV 11). Aqui o Papa ensina que o aborto está total e absolutamente excluído como método de controle da natalidade, assim como também a esterilização e todo tipo de anticonceptivos e usos antinaturais do ato conjugal.

"Igualmente fica excluída toda ação que torne impossível a procriação quer seja antes do ato conjugal, durante o ato ou no desenvolvimento de suas conseqüências naturais" (HV 14). Aqui o Papa nos ensina que os dois significados essenciais do ato conjugal são o unitivo (doador de amor) e o procriador (doador de vida). Deus é o Autor de toda vida e de todo amor. Se quisermos expressar nossa sexualidade autentica, honesta e humanamente, teremos que faze-lo de acordo com o plano de Deus.

A Igreja sabe que será "um sinal de contradição" num mundo que não tem fé. No entanto, a Igreja não cessa de proclamar com humilde firmeza, a lei moral em sua totalidade, tanto natural como evangélica. "A igreja não é a autora de tais leis; conseqüentemente, não pode ser seu árbitro, ela é somente sua depositária e interprete, sem poder nunca declarar que é lícito o que não é por sua oposição íntima e imutável ao verdadeiro bem do homem" (HV 18a.)

Em 12 de novembro de 1988 o Papa João Paulo II se dirigiu a uns 400 teólogos no II Congresso Internacional de Teologia Moral em Roma, reunidos para celebrar o XX Aniversário da publicação da Humanae Vitae. O Papa falou sobre a origem da norma moral da encíclica. "O ensinamento da Humanae Vitae não é, certamente, uma doutrina inventada pelo homem, pois que foi impressa na mesma natureza humana pela mão de Deus Criador e confirmada por Ele na Revelação. Portanto, colocá-la em dúvida, equivale a recusar ao próprio Deus a obediência da nossa inteligência".

O Papa explicou que não há exceção a esta norma. "Paulo VI quis ensinar, ao descrever o ato anticonceptivo como intrinsecamente ilícito, que a norma moral é tal que não admite exceções. Nenhuma circunstância pessoal ou social pôde, pode ou poderá jamais fazer que tal ato seja lícito. A existência de normas particulares, em relação à maneira de atuar dos homens no mundo, as quais estão dotadas com uma força obrigatória que exclui sempre e em qualquer situação a possibilidade de exceções, constitui um ensinamento do Magistério da Igreja e da Tradição, que não podem ser matéria de discussão dos teólogos católicos" (N.5).

João Paulo II também se dirigiu aos bispos em Los Angeles, Estado da Califórnia, Estados Unidos, em 16 de setembro de 1987. Referindo-se a informações de que um grande número de católicos não tinha aderido ao ensinamento moral da Igreja sobre a anticoncepção e que mesmo assim, parece, recebe os sacramentos, o Papa disse: "Algumas vezes se proclama que o recusar a adesão ao Magistério é totalmente compatível com ser um "bom católico" e que não representa nenhum obstáculo para receber os sacramentos. Este é um grave erro que põe à prova a função de professores dos bispos nos Estados Unidos e em qualquer lugar".

Em 14 de março de 1988 o Santo Padre voltou a tratar do tema, desta vez dirigiu a palavra aos participantes da IV Conferência Internacional sobre a família na Europa e África. O Papa se referiu ao problema dos sacerdotes que estão mal situados e que praticam uma falsa "compreensão pastoral". "Realmente não posso ficar calado ante o fato de que muitos, todavia hoje, não ajudam os casais casados nesta sua grave responsabilidade e, mais ainda, colocam grandes obstáculos em seu caminho... isto pode levar consigo conseqüências graves e destrutivas, quando se põe em dúvida a doutrina da Encíclica, como tem acontecido algumas vezes, até com teólogos e pastores de almas. Esta atitude, de fato, pode inspirar dúvidas com respeito a um ensinamento certo da Igreja e, desta maneira, se encobre a percepção da verdade que não admite discussão. Este não é um sinal de compreensão pastoral, mas de um equívoco com respeito ao verdadeiro bem das pessoas. A verdade não pode basear-se em uma maioria de opiniões".

Portanto, a pessoa que tenha usado anticonceptivos não pode receber a Eucaristia sem um verdadeiro arrependimento, confissão e firme propósito de corrigir-se. E se caímos no pecado, Deus sempre nos perdoará, se nos arrependermos com sinceridade, nos confessarmos e tratarmos de viver uma vida cristã. Não tem sentido receber o próprio Autor de toda a vida e de todo amor na Eucaristia e ao mesmo tempo, conscientemente, estar indo de encontro ao dom de Deus da fertilidade e correr o risco de abortar, nas primeiras etapas da gravidez, um dos filhos ou filhas de Deus.

O que a anticoncepção tem de mal?

            Nunca se pode determinar a moralidade com números nem com pesquisas de opinião. Porém, visto que hoje em dia existe uma grande confusão sobre o pecado, a sexualidade e o abuso da mesma, e porque vivemos numa cultura que aceita o aborto, a esterilização e a anticoncepção, devemos tratar de explicar o porquê da anticoncepção ser um mal grave. O Papa João Paulo II escreveu extensamente sobre este tema.

O verdadeiro amor requer o dom de si mesmo. Antes que alguém possa dar este presente para a pessoa amada, primeiro deve ser dono de si mesmo incluindo as paixões, desejos e emoções. A luxúria implica que estamos decididos a obter o que desejamos a todo custo. Porém, o amor significa que podemos expressar nossa paixão sexual no casamento (e somente dentro dele) buscando uma união com a pessoa amada, honrando-a e desejando seu bem até chegar a dar sua própria vida por ela, se necessário for.

A mentalidade anticonceptiva é pecaminosa por muitos motivos. É um grave mal com conseqüências desastrosas. Quebra a conexão intrínseca entre as dimensões unitiva e procriadora do ato conjugal. Considera erroneamente que o período de abstinência necessário ao planejamento natural da família danifica o casamento e que o ato sexual por puro instinto é virtuoso. Considera o auto-sacrifício uma moléstia e eleva a busca do prazer ao nível da principal finalidade do casamento, depreciando a autodisciplina e o sacrifício. Reduz a pessoa amada a um objeto, a uma fonte sempre disponível para o prazer e considera a fertilidade como uma espécie enfermidade.

Abusa da medicina e da profissão médica. Leva diretamente ao aborto; de fato, como temos notado, muitos anticonceptivos; como por exemplo, a pílula, o Norplant, o dispositivo intrauterino (DIU ou IUD) e a Depo-provera, causam abortos no início da gravidez.

A anticoncepção diz a Deus: "Não és o Senhor da Vida no nosso casamento nem colaboraremos Contigo para trazer novas vidas para Teu Reino". É um exemplo terrível para os jovens, os quais logicamente perguntam por que eles não podem gozar de uma vida sexual estéril, já que os adultos o fazem. Dá legitimidade para outros atos sexuais estéreis, como os atos homossexuais e outras perversões. A anticoncepção é na verdade um ataque ao casamento e à família que leva a toda uma sociedade à corrupção.

Como viver castamente?

É possível viver sem os anticoncepcionais? Sim! Nunca ninguém morreu por falta de relações sexuais. Se os solteiros, e há milhões deles no mundo, podem praticar a abstinência total, os casados certamente podem praticar a abstinência periódica.

Alguns argumentam que o planejamento natural da família é muito difícil de seguir e que destrói a espontaneidade. Isto não é certo. Usar anticoncepcionais não é, digamos, muito espontâneo. De todo modo, os seres humanos não são animais brutos, governados por instintos baixos. A razão, o amor, o raciocínio e o controle devem caracterizar a relação marido-mulher. É verdade que o planejamento natural da família não é fácil, porém o sacrifício e a disciplina que requerem são ganhos que valem a pena. Longe de destruir o amor e o prazer, a capacidade de se abster gera generosidade e certamente faz o casamento melhor. Sem auto-disciplina e controle de si mesmo, não pode haver doação de si mesmo. Ao contrário, a anticoncepção promove a falta de controle e as relações sexuais compulsivas. O ato sexual se torna uma rotina. A mulher se sente usada e o homem se aborrece.

A verdadeira liberdade cristã consiste na capacidade de controlar os impulsos e fazer o que de verdade é bom para si mesmo e para os demais. Jesus disse que se seguirmos seus mandamentos, conheceremos a verdade e que a verdade nos faria livres (cf. João 8, 31-32).

Algumas pessoas se queixam de que os jovens não podem ser castos e que é inútil dizer-lhes que se abstenham. Esta opinião equivocada não lhes faz justiça ao idealismo e à bondade básica da juventude. Quando têm experiências sexuais fora do casamento, os jovens (e outras pessoas também) sabem que estão usando a outros e que eles mesmos estão sendo usados. Além disso, Deus não nos dá um mandamento sem dar-nos ao mesmo tempo a força para cumpri-lo. "Seus mandamentos não são pesados, porque todo aquele que nasce de Deus conquista o mundo" (1Jo 5, 3-4).

O primeiro passo para viver uma vida cristã é aceitar Jesus como nosso Senhor e Salvador, entregando a Ele a soberania de todos os aspectos de nossas vidas. Necessitamos dar vida a nosso compromisso com Jesus. Necessitamos adotar meios práticos para assegurar nosso crescimento em Cristo. O primeiro é levar uma vida espiritual profunda e gozosa. Isto inclui a oração diária e os Sacramentos, especialmente a Confissão e a Eucaristia. Necessitamos chegar a conhecer o Senhor de uma maneira pessoal. Se não o fizermos, seremos demasiado fracos para resistir à tentação e às pressões do mundo. 

A segunda maneira de crescer em Cristo é por meio do conhecimento da Palavra de Deus. Como podemos decidir o que fazer se não conhecemos o que Deus nos disse?
 

            Necessitamos ler a Bíblia todos os dias, especialmente os Evangelhos. Também necessitamos ler, antes de tudo, os ensinamentos da Igreja, assim como bons livros católicos, as vidas dos santos, etc., para nos instruir e inspirar. Se formos ignorantes, o mundo nos confundirá com suas mentiras e enganos.

A terceira maneira é por meio da comunidade cristã. Não podemos viver uma vida cristã nós sozinhos. O mundo é muito grande para nós. Há muitas pressões de outras pessoas e muitas vozes equivocadas. Necessitamos do apoio e da orientação de nossos irmãos e irmãs. Necessitamos construir relações fortes, saudáveis, inocentes e autenticamente cristãs para contradizer a visão distorcida da sexualidade que tem a sociedade.
            Por último, a maneira para crescer em Cristo é precisamente por meio do serviço cristão, a escola de amor que nos converte em pessoas maduras que sabem como dar e receber.

A disciplina e o amor de Jesus nos darão as forças para viver castamente; não nos será muito difícil. Aprenderemos que a abstinência antes do casamento é de fato a única maneira real de construir um futuro feliz para nossa vida sexual no casamento.

padre Matthew Habiger OSB, Ph.D

-----------------------------------------

 

Maria e o dom do Espírito

 

1. Percorrendo o itinerário da vida da Virgem Maria, o concilio Vaticano II recorda sua presença na comunidade que espera Pentecostes: "Deus não quis manifestar solenemente o mistério da salvação humana antes de enviar o Espírito prometido por Cristo. Por isso vemos os Apóstolos, antes do dia de Pentecostes, "Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele." (Atos 1, 14). Maria  pedia com suas orações o dom do Espírito, que na Anunciação a tinha coberto com sua sombra" (Lumen gentium, 59).

A primeira comunidade constitui o prelúdio do nascimento da Igreja; a presença da Virgem contribui para delinear seu rosto definitivo, fruto do dom de Pentecostes.

2. Na atmosfera de espera que reinava no cenáculo após a Ascensão, qual era a posição de Maria  com respeito à vinda do Espírito Santo?

O Concilio sublinha expressamente sua presença, em oração, com vistas à efusão do Paráclito: 
Maria implora "com suas orações o dom do Espírito". Esta afirmação resulta muito significativa, pois na Anunciação o Espírito Santo já tinha vindo sobre ela, a cobrindo com sua sombra e dando origem à encarnação do Verbo.

Ao ter feito já uma experiência totalmente singular sobre a eficácia desse dom, a Virgem santíssima estava em condições de poder apreciar mais que qualquer outra pessoa. Efetivamente, à intervenção misteriosa do Espírito devia ela sua maternidade, que a converteu em porta de ingresso do Salvador no mundo.

A diferença dos que se achavam presentes no cenáculo em trepidante espera, ela, plenamente consciente da importância da promessa de seu Filho aos discípulos (cf. João 14, 16), ajudava a comunidade a preparar-se adequadamente para a vinda do Paráclito.

Por isso, sua singular experiência, ao mesmo tempo em que a impulsionava a desejar ardentemente a vinda do Espírito, a comprometia também em preparar a mente e o coração dos que estavam a seu lado.

3. Durante essa oração no cenáculo, em atitude de profunda comunhão com os Apóstolos, com algumas mulheres e com os irmãos de Jesus, a Mãe do Senhor invoca o dom do Espírito para si mesmo e para a comunidade.

Era oportuno que a primeira efusão do Espírito sobre ela, que teve lugar tendo olhares para sua maternidade divina, fora renovada e reforçada. 
Efetivamente, ao pé da cruz, Maria foi revestida com uma nova maternidade, com respeito aos discípulos de Jesus. Precisamente esta missão exigia um renovado dom do Espírito. Portanto, a Virgem desejava-o com vistas à fecundidade de sua maternidade espiritual.

Enquanto no momento da Encarnação o Espírito Santo tinha descido sobre ela, como pessoa chamada a participar dignamente no grande mistério, agora tudo se realiza em função da Igreja, para a qual Maria é chamada a ser exemplo, modelo e mãe.

Na Igreja e para a Igreja, ela, recordando a promessa de Jesus, espera Pentecostes e implora para todos abundantes dons, segundo a personalidade e a missão da cada um.

4. Na comunidade cristã a oração de Maria reveste um significado peculiar: favorece a vinda do Espírito, solicitando sua ação no coração dos discípulos e no mundo. Da mesma maneira que, na Encarnação, o Espírito tinha formado em seu seio virginal o corpo físico de Cristo, assim agora, no cenáculo, o mesmo Espírito vem para animar seu Corpo místico.

Por tanto, Pentecostes é fruto também da incessante oração da Virgem, que o Paráclito acolhe com favor singular, porque é expressão do amor materno dela para os discípulos do Senhor.

Contemplando a poderosa intercessão de Maria que espera o Espírito Santo, os cristãos de todos os tempos, em seu longo e árduo caminho para a salvação, recorrem com freqüência à sua intercessão para receber com maior abundância os dons do Paráclito.

5. Respondendo às preces da Virgem e da comunidade reunida no cenáculo no dia de Pentecostes, o Espírito Santo enche Maria e aos presentes com a plenitude de seus dons, fazendo neles uma profunda transformação com vistas à difusão da boa nova. À Mãe de Cristo e aos discípulos lhes concedem uma nova força e um novo dinamismo apostólico para o crescimento da Igreja. Em particular, a efusão do Espírito leva Maria a exercer sua maternidade espiritual de modo singular, mediante sua presença, sua caridade e seu depoimento de fé.

Na Igreja que nasce, ela entrega aos discípulos, como tesouro inestimável, suas lembranças sobre a Encarnação, sobre a infância, sobre a vida oculta e sobre a missão de seu Filho divino, contribuindo ao dar a conhecer e a fortalecer a fé dos crentes.

Não temos nenhuma informação sobre a atividade de Maria na Igreja primitiva, mas cabe supor que, inclusive após Pentecostes, ela seguiu levando uma vida oculta e discreta, vigilante e eficaz. Iluminada e guiada pelo Espírito, exerceu uma profunda influência na comunidade dos discípulos do Senhor.

por João Paulo II

Vem Espírito, Vida!

Quando pedimos a vinda do Espírito não queremos voar para o céu, nem ser transladados ao mundo que virá, só Implica em uma declaração de vida.

A melhor coisa que nos pode acontecer é sermos agraciados com o dom e a presença do Espírito Santo. Não é um espírito entre outros, bons ou maus; é o Espírito de Deus. Onde está o Espírito aí está Deus de um modo especial. O Espírito é muito mais que um dom de Deus. O Espírito é a presença de Deus sem qualquer tipo de restrição.

Onde está presente o Espírito se experimenta a vida em toda sua integridade, totalidade, força; como vida curada e redimida. Nossos sentidos são potencializados por sua presença. Sentimos, gostamos e vemos nossa vida em Deus e Deus em nossa vida. É a melhor experiência. Que estranho que chamemos de Espírito Consalador (Paráclito) ou Fonte da Vida?

Quando pedimos a vinda do Espírito (Veni Creator Spiritus) não queremos voar para o céu, nem ser transferidos para o mundo que vira, nos suplicamos que venha aqui, para a terra, para nossa história. O Veni Creator implica uma afirmação forte da vida, desta vida. E quando Deus escuta nossa prece, o Espírito se derrama sobre toda a carne (Joel 2,28; Atos 2,17ss). Se trata de uma metáfora surpreendente. Toda a carne é certamente o ser humano, mas também todos os seres vivos, como plantas, árvores e animais (cf. Genesis 9,10ss). Carne significa para o profeta o Joel "o fraco, as pessoas sem poder e sem esperança" (H.W. Wolff), o jovem e o ancião. Ninguém é demasiado jovem, nem demasiado velho para receber o Espírito.

Quando o Espírito Santo é enviado, vem como uma tempestade; derrama-se sobre todos os seres vivos, como águas de inundação, invadindo tudo. Se o Espírito realmente é o Espírito de Deus, a realidade inteira é invadida pelo Espírito, então tudo é divinizado. O Espírito chega a nós e assume formas diversas. É como a água que primeiro é fonte, então rio e finalmente lago. Tudo é água, mas as formas do seu fluxo são diferentes e graduais. O Espírito é por excelência a Graça; depois assume as formas dos carismas ou energia do Espírito. Os carismas são como fluxos ou emanações do Espírito.

Mas, donde vêm a nós o Espírito? Da semelhança esplendorosa de Deus! Quando Deus faz brilhar seu rosto sobre nós, nos concede sua graça, sua bênção, seu Espírito. O rosto de Deus, resplandecente de alegria, é a fonte luminosa do Espírito Sagrado (J. Moltmann).

Deus fez brilhar seu rosto sobre Jesus; por isso os acontecimentos de sua vida estavam envoltos no Espírito que o Pai transmitia. (concepção, batismo e ressurreição).

Ao deixar Jesus este mundo, rogou ao Pai que nos concedesse outro Consolador (Jn 14,16). Ir deste mundo, é o mesmo que morrer. Enquanto Jesus morre, o Espírito está junto ao Pai e Jesus lhe pede que não nos deixe órfãos, que nos envie o Consolador. Porém Jesus também se une. Ele mesmo o Consolador "desde o Pai", porque "é o Espírito da verdade que procede do Pai" (Jn 14,26). Jesus morre para interceder por nós, pedir ao Abbá que nos envie seu Espírito. Porém Jesus também morre para nos enviar Ele mesmo o Espírito que procede do Pai.

Como discernir onde se encontra o Espírito Santo? Onde pode ser pronunciado de coração o nome de Jesus, aí está o Espírito. Tudo o que pode ser contemplado através do rosto de Jesus crucificado é espírito de Deus. Não se pode pronunciar o nome de Jesus para justificar a violência, a indiferença, a inveja. Não ajusta com o rosto do Senhor crucificado a falta de amor, a vingança, o autojustificação, o autoritarismo.

A experiência do Espírito tem uma experiência extraordinária de si mesmo. O Espírito invade a vida de tal um modo que pode falar em morrer e renascer.

 José Cristo Rey

================

"Tu amas-Me?"

"Pedro tu amas-me?"

Também estas palavras ecoaram no meu coração nesta nova Peregrinação à Terra Santa. Porque na pergunta lançada por Jesus ao coração de Pedro está implícita a mim mesmo essa questão; ela é dirigida à Igreja, cada discípulo de cada tempo...

É uma pergunta inquietante, provocadora, que desinstá-la se procurarmos responder em espírito e em verdade. É uma questão vital pois que nela se «joga» toda a nossa existência, o mais profundo do nosso ser!

A resposta de Pedro é avassaladora: «Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te amo»!

Naquele lugar, bem junto ao mar da Galileia, pedi ajuda ao Mestre para que um dia possa e consiga responder da mesma forma; ali, na capela do «primado de Pedro», voltei a sentir-me pequenino e pobre, tão distante dessas palavras de Pedro, saídas de um coração profunda e verdadeiramente apaixonado!

«Senhor, Tu sabes tudo, bem sabes que Te quero amar» é o máximo que consigo dizer!

Porque amá-l'O é mais, imensamente mais do que aquilo que eu faço; é imensamente mais do que celebrar Eucaristia, do que orientar retiros ou recoleções, do que guiar uma Comunidade, do que construir igrejas e buscar respostas sociais aos mais desfavorecidos, do que peregrinar, do que pregar, do que...

Amá-l'O é dar-Lhe a vida, até ao sangue, até à Cruz.

Amá-l'O é ser todo de Deus.

Amá-l'O é ser santo.

Portanto, que longa estrada a percorrer...

Que longo caminho a abraçar...

Pedro, na pessoa de Bento XVI, vem aí, bem ao nosso coração, para nos ensinar a amá-l'O como ele deve ser amado...

Oxalá consigamos estar atentos, ser dóceis, disponíveis, ao acolhimento daquele que vem em nome do Senhor para nos repetir, na sua vida, no seu ministério, na sua presença «Senhor, Tu sabes tudo, Tu sabes que te amo».

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira

 =============================

Símbolos e Dons do Espírito Santo

Na bíblia, a obra do Espírito Santo é descrita através de símbolos. É por meio deles que se percebe sua presença.

A água
Tornada sacramental simboliza e significa a ação do mesmo Espírito, no batismo, Paulo confirma: “Fomos batizados num só Espírito”. E “Todos bebemos de um só Espírito”. (1Cor 12,13).

A unção
Trata-se da unção com óleo que passou a ser sinal eficaz do Espírito, Jesus é o messias, palavra hebraica que significa o ungido. A unção com o óleo, tanto no batismo como na crisma é sinal da presença do Espírito, é sinal da presença do Espírito em nós, também.

O fogo
O fogo simbolizou a energia transformadora da ação do Espírito nos apóstolos.
“Apareceram, então, umas línguas de fogo, que se espalharam e foram pousar sobre cada um deles. Todos ficaram repletos do Espírito Santo”(At 2,3).

A nuvem e a luz
As nuvens, ora escuras, ora cheias de luz, estão presentes nas diversas manifestações da divindade, narradas na bíblia. Na anunciação de Maria, o anjo afirma que "Enquanto ele ainda falava, veio uma nuvem que os cobriu; e se atemorizaram ao entrarem na nuvem. E da nuvem saiu uma voz que dizia: Este é o meu Filho, o meu eleito; a ele ouvi". (Lc 9,34-35).

O selo
Tem quase o mesmo significado da unção. Os batizados recebem pela unção a marca de Deus. Pertencem ao Senhor, por seu Espírito. É Cristo que “Deus marcou com seu selo” (Jô 6,27) e é no Espírito que também nós somos marcados com um selo (cf. 2 Cor. 1,22).

A mão
Era impondo as mãos que Jesus curava os doentes e abençoava as crianças. A igreja conserva esse gesto na liturgia dos sacramentos para a efusão do Espírito. As famílias piedosas repetem, a toda hora, o mesmo gesto para que Deus permaneça com seus filhos!

O dedo
No hino “Vem, Espírito criador”, o Espírito é invocado com o dedo da direita de DEUS! A lei de Deus foi escrita pelo Espírito, através do dedo de Deus, nas tábuas de pedra. (cf. Ex 31,18).

A pomba
Quando Jesus foi batizado, “viu o Espírito de Deus, descendo como uma pomba e pousando sobre ele” (Mt 3,16). O símbolo da pomba, para sugerir o Espírito Santo, é tradicional na Igreja.

O sopro
“Jesus disse de novo para eles: A paz esteja com vocês”. Tendo falado isso: soprou sobre os apóstolos, dizendo: “Recebam o Espírito Santo”(Jo 20,22). Quando chegou o dia de Pentecostes, o sopro de um forte vendaval precedeu a chegada do Espírito.

Dons do Espírito Santo

Dons são qualidades que Deus dá à nossa alma que nos permitem perceber e viver as graças dele na nossa vida e praticar sua vontade.Tornam-nos dóceis ao sopro do Espírito Santo, despertando-nos para ouvir a voz de Deus em nosso interior e nas coisas criadas por Ele. Sabedoria: é o dom de perceber o certo e o errado, o que favorece e o que prejudica o projeto de Deus, quem acredita na libertação e quem está interessado na opressão.

Sabedoria
É dada especialmente aos pobres (Mt 11, 25) e àqueles que são solidários a eles. Não tem nada a ver com cultura. Por este Dom buscamos, não as vantagens deste mundo, mas o Bem Supremo da Vida, que nos enche o coração de paz e nos faz felizes. Diz o Senhor: "Feliz o homem que encontrou a sabedoria... Ela é mais valiosa do que ás pérolas" (Cf. Pv 3,13-15). A Sabedoria que vem do Espírito Santo "é um reflexo da luz eterna" (Cf Sb 7,26).

Inteligência
É o dom de entender os sinais da presença de Deus nas situações humanas, nos conflitos sociais, nas lutas políticas.. É o Dom Divino que nos ilumina para aceitar as verdades reveladas por Deus. Mesmo não compreendendo o Mistério, entendemos que ali está a nossa salvação, porque procede de Deus, que é infalível. O Senhor disse: "Eu lhes darei um coração capaz de me conhecerem e de entenderem que Eu sou o Senhor" (Jr 24,7).

Conselho
É o dom de saber discernir caminhos e opções, de saber orientar e escutar, de animar a fé e a esperança da comunidade. Só assim orientamos bem a nossa vida e a de quem pede um conselho.

Fortaleza
É o dom de resistir às seduções da sociedade capitalista, de ser coerente com o Evangelho, de enfrentar riscos na luta por justiça, de não temer o martírio. É esse o Dom que faltou para o Apóstolo São Pedro quando negou o Mestre, e que lhe foi dado depois pelo Espírito Santo no dia de Pentecostes. São Paulo confiava no Dom da Fortaleza. Ele disse: "Se Deus está conosco, quem será contra nós?" (Rm 8,31).

Ciência
É o dom de saber interpretar a Palavra de Deus, de explicar o Evangelho e a doutrina da Igreja, de fazer avançar a teologia, de traduzir em palavras o que se vive na prática. Por este Dom o Espírito Santo nos revela interiormente o pensamento de Deus sobre nós, pois "os mistérios de Deus ninguém os conhece, a não ser o Espírito Santo" (Cor 2,10-15).

Piedade
É o dom de estar sempre aberto à vontade de Deus, procurando agir como Jesus agiria e identificando no próximo o rosto do Cristo. É o Dom pelo qual o Espírito Santo nos dá o gosto de amar e servir a Deus com alegria. Por ser o "amor do Pai e do Filho", o Espírito Santo nos dá o sabor das coisas de Deus. "O Reino de Deus não consiste em comida e bebida, mas é justiça, paz e alegria no Espírito Santo" (Rm 14,17).

Temor
É o dom da prudência e da humildade, de saber reconhecer os próprios limites, de não pedir ou esperar de Deus que ele faça a nossa vontade. Não quer dizer "medo de Deus", mas medo de ofender a Deus. Sendo Ele o nosso melhor amigo, temos o receio de não lhe estarmos retribuindo o amor que lhe é devido. Mais do que temor, é respeito e estima por Deus.

Textos Biblícos

2 Cor. 1,22
21 Mas aquele que nos confirma convosco em Cristo, e nos ungiu, é Deus,
22 o qual também nos selou e nos deu como penhor o Espírito em nossos corações.

Mc 6,5
5 E não podia fazer ali nenhum milagre, a não ser curar alguns poucos enfermos, impondo-lhes as mãos.

Mc 8,23
23 Jesus, pois, tomou o cego pela mão, e o levou para fora da aldeia; e cuspindo-lhe nos olhos, e impondo-lhe as mãos, perguntou-lhe: Vês alguma coisa?

Mc10,16
16 E, tomando-as nos seus braços, as abençoou, pondo as mãos sobre elas.

Ex 31,18
18 E deu a Moisés, quando acabou de falar com ele no monte Sinai, as duas tábuas do testemunho, tábuas de pedra, escritas pelo dedo de Deus.

Mt 11, 25
25 Naquele tempo falou Jesus, dizendo: Graças te dou, ó Pai, Senhor do céu e da terra, porque ocultaste estas coisas aos sábios e entendidos, e as revelaste aos pequeninos.

Cor 2,10-15
10 Porque Deus no-las revelou pelo seu Espírito; pois o Espírito esquadrinha todas as coisas, mesmos as profundezas de Deus.
11 Pois, qual dos homens entende as coisas do homem, senão o espírito do homem que nele está? assim também as coisas de Deus, ninguém as compreendeu, senão o Espírito de Deus.
12 Ora, nós não temos recebido o espírito do mundo, mas sim o Espírito que provém de Deus, a fim de compreendermos as coisas que nos foram dadas gratuitamente por Deus;
13 as quais também falamos, não com palavras ensinadas pela sabedoria humana, mas com palavras ensinadas pelo Espírito Santo, comparando coisas espirituais com espirituais.
14 Ora, o homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque para ele são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente.
15 Mas o que é espiritual discerne bem tudo, enquanto ele por ninguém é discernido.

 **********************

Há um Senhor no mundo...

Quando se aproxima a Solenidade da Ascensão do Senhor. No Credo professamos: “Subiu ao céu; está sentado à direita de Deus Pai todo-poderoso, donde há de vir a julgar os vivos e os mortos e o eu Reino não terá fim”. Que significa este mistério da nossa fé?

            Primeiramente, é muito importante observar que a Ascensão é celebrada no Tempo da Páscoa, aquele período que, no dizer de São Jerônimo, é todo ele como se fosse o dia da Páscoa. Então, a Ascensão é aspecto integrante do mistério pascal, é uma das facetas da Páscoa do Senhor. Mas, o que significa afirmar que o Senhor Jesus subiu ao céu e está sentado à direita do Pai? Ele não somente ressuscitou, mas, por sua cruz e ressurreição, foi glorificado e, na sua natureza humana, foi totalmente divinizado e constituído Senhor do céu e da terra, Senhor de todas as coisas: “Deus o constituiu Senhor e Cristo, este Jesus a quem vós crucificastes” (At 2,36). Afirmar que Jesus Cristo está na glória do Pai é afirmar que ele é Senhor de todo o universo, de toda a criação, da história humana e de nossas vidas. Ele, porque se fez homem, porque entrou no nosso mundo, porque entrou na história humana é, agora, glorificado, Cabeça e Juiz do nosso mundo e da nossa história. A Ascensão é a verdadeira festa de Cristo Rei!

            Há um belíssimo texto em Ap 4,1 – 5,10 que exprime de modo impressionante tudo isso. Vejamos alguns pontos dele: “Depois disso, tive uma visão: havia uma porta aberta no céu” (4,1). Depois da morte e ressurreição do Cristo, há no céu uma porta aberta e o homem pode agora contemplar na fé o mistério do desígnio de Deus: Cristo nos abriu o caminho, ele mesmo é o caminho para a Casa do Pai. “Havia um trono no céu, e no trono, Alguém sentado...” (4,2). Trata-se do Deus e Pai de nosso Senhor Jesus Cristo. O mundo - por mais maluco que pareça -, a nossa vida - por mais conflituosa que seja -, não caminham sem rumo: há Alguém no trono, há Alguém que tudo dirige e tudo conduz com sabedoria e suavidade: há um Deus no céu! “Diante do trono ardiam sete lâmpadas de fogo: são os sete Espíritos de Deus” (4,5). Os sete Espíritos podem ser interpretados como sendo o Espírito Santo: sete significa riqueza, plenitude, perfeição. Lâmpadas de fogo, fogo que ilumina, purifica e transfigura – eis a ação do Espírito Santo! Ele ilumina o nosso mundo, revelando e sustentando o bem e trazendo às claras o mal e o pecado, que serão queimados e destruídos. “Vi depois, na mão direita daquele que estava sentado no trono, um livro escrito por dentro e por fora e selado com sete selos” (5,1). Este livro selado contém o sentido da história humana e da nossa história pessoal: nossa vida está nas mãos de Deus. “Vi, então, um Anjo poderoso, proclamando em alta voz: ‘Quem é digno de abrir o livro, rompendo seus selos?’ Mas ninguém no céu, nem na terra ou sob a terra era capaz de abrir nem de ler o livro” (5,2-4). São palavras impressionantes: neste mundo, enquanto durar nossa história, há tantas sombras: injustiças, mortes, opressões, infidelidades... Qual o sentido de tudo isso? Qual o sentido da vida? Qual o sentido de história humana e da nossa história? Amor, ódio, vida, morte, alegria, miséria, tristeza, projetos... para onde vai tudo isso? Que é o homem? Qual o seu destino? Ninguém é capaz de desvendar cabalmente o mistério da existência... Quantas vezes somente podemos sentir o gosto amargo de perguntar pela dor do mundo e da vida sem encontrar a resposta: “Eu chorava muito, porque ninguém foi considerado digno de abrir nem de ler o livro” (5,4). “Um dos Anciãos, porém, consolou-me: ‘Não chores! Eis que o Leão da tribo de Judá, o Rebento de Davi, venceu para poder abrir o livro e seus sete selos’“ (5,5). Aqui Cristo é apresentado: ele é o Leão de Judá, o Rebento de Davi, que venceu o pecado e a morte e pode dar sentido à história humana, com suas lágrimas e alegrias. “Vi um Cordeiro de pé, como que imolado. Tinha sete chifres e sete olhos, que são os sete Espíritos de Deus... Ele veio então receber o livro da mão direita daquele que está sentado no trono” (5,6-7). A imagem é fantástica: o Cordeiro está imolado, foi imolado por nós, permanece num estado de contínua imolação; mas, ao mesmo tempo, de modo paradoxal, está de pé: é vencedor, é Aquele que triunfou sobre o pecado e a morte! Seus sete chifres representam a plenitude do poder e da força e os sete olhos representam a plenitude do Espírito, que tudo perscruta e julga todas as coisas. Ele recebe do Deus que está sentado no trono o poder de discernir a história humana, de julgar todas as coisas. “Digno és tu de receber o livro e de abrir seus selos, pois foste imolado e, por teu sangue,resgataste para Deus homens de toda tribo, língua, povo e nação” (5,9). Eis o motivo pelo qual ele é digno de nos julgar: porque se comprometeu conosco, conosco conviveu, experimentando a dureza de nossa existência e por nós morreu, amando-nos até o fim. Ele pode nos julgar: conhece-nos e ama-nos; seu juízo é juízo de amor!

            A Ascensão do Senhor coloca-nos diante dessa maravilhosa realidade! Quando olhamos em torno a nós um mundo secularizado, descrente e incerto entre o cinismo e o desespero, sentimo-nos, às vezes confusos e até desanimados na fé. Não temamos: nossa existência caminha para o Cristo, nosso mundo caminha para o Cristo: ele, imolado por nós, é aquele que tem em suas mãos a nossa vida! A ele, a Igreja se confia, nele espera e nele deposita a esperança de sua vida. A todos os seus discípulos e a cada um de nós, ele diz: “No mundo tereis tribulações, mas tende coragem: eu venci o mundo!” (Jo 16,33)

Con. Henrique Soares da Costa

===========================
“Livres”. De verdade."


“Nós, sacerdotes,
queremos ser pastores
que não se apascentam a si mesmos,

mas se oferecem a Deus pelos irmãos,

nisto mesmo encontrando a sua felicidade”.

“Somos livres para ser santos; livres para ser pobres, castos e obedientes; livres para todos, porque desapegados de tudo; livres de nós mesmos para que em cada um cresça Cristo, o verdadeiro consagrado do Pai e o Pastor ao qual os sacerdotes emprestam voz e gestos, de Quem são presença; livres para levar à sociedade actual Jesus Cristo morto e ressuscitado, que permanece connosco até ao fim dos séculos e a todos Se dá na Santíssima Eucaristia”.

Estas são apenas algumas das belíssimas palavras que o Papa deixou aos pastores que nós somos; palavras que são, simultaneamente, consolo e desafio, esperança e apelo, a fim de sublinharmos mais e mais em cada um de nós a beleza da graça que nos habita e nos consome, nos enleva e nos envia para servir e dar a vida pela Igreja presente em cada outro!

Como permanecer indiferente a esse caminho traçado pelo Sucessor de Pedro ao sublinhar que não podemos mais ser pastores de nós mesmos?! Não podemos mais ser anunciadores das nossas palavras em detrimento da Palavra que é Jesus Cristo! Não podemos mais propor a nossa pessoa, as nossas ideias, os nossos «devaneios», as nossas questões meramente humanas e terrenas de acordo com as nossas espiritualidades particulares! É de Cristo que somos voz; é a Cristo Quem temos de anunciar; é a Cristo a Quem devemos obedecer mais que aos homens e aos seus critérios e vontades!

Como não acreditar – bem cá no íntimo do nosso ministério, no mais fundo da nossa alma, que a nossa felicidade e a nossa paz advém apenas da nossa fidelidade a Cristo e ao Seu Evangelho, apascentando, até doer, se for preciso, todos – e nunca apenas uns quantos – que o Bom Pastor nos entrega para lhes ofertar o nosso único tesouro: a graça de Deus?!
Como passar do simples desejo desta paz e desta fecundidade da missão sacerdotal?
O próprio Papa nos esclarece e relembra: sendo livres! Verdadeira e profundamente livres!

Livres de todos e de tudo quanto nos desvia do essencial para podermos ser completamente de Deus. Livres das amarras económicas, sociais, particulares, financeiras, oportunistas, que intentam pastores para lhes abençoarem posturas, comportamentos, religiosidades! Livres de pensamentos, sistemas, doutrinas particulares, espiritualidades tribais ou elitistas, para que sejamos capazes de dar a mão e o coração a cada outra mão e a cada outro coração!

«Livres de nós mesmos» para não nos endeusarmos nem a nós nos anunciarmos! «Livres de nós mesmos» a fim de podermos espelhar a beleza de Cristo e a Sua Palavra. A fim de testemunharmos a radicalidade da Cruz e a salvação que dela brota mais, bem mais, que a suspeita suavidade da lógica dos tempos e a perigosa ligeireza de estilos de vida que não se adeqúem jamais à vida de quem crê de verdade na mensagem de Jesus de Nazaré!
Que bom que o Papa nos inquieta, nos provoca e nos «ressuscita» para o essencial. Que fantástico o Sucessor de Pedro nos relembrar a simplicidade e a urgência da nossa missão. Que única esta oportunidade de cada um de nós recomeçarmos, com renovada paixão, esta aventura decisiva de sermos fieis pastores da Igreja que Jesus sonhou santa e serva diante de toda a humanidade.
«Livres», «livres» verdadeiramente para apenas nos deixamos aprisionar pela paixão a Deus, num amor incondicional, permanente, jamais agendado ou dependente de gostos ou paixões particulares, a cada homem e mulher que vem a nós e a quem buscamos por amor à salvação.
«Livres» para não dependermos nunca de nada nem de ninguém senão somente da Graça que Cristo nos promete, do Seu Espírito Santo àqueles que a Ele se abrem profunda e humildemente.
«Livres» para podermos anunciar o Evangelho denunciando sempre tudo quanto a ele é ameaça, «nuvem» ou adulteração. «Livres», enfim, para sermos tudo para todos em nome d’Aquele “que permanece connosco até ao fim dos séculos e a todos Se dá na Santíssima Eucaristia”.

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira

======================

A MAÇONARIA E A IGREJA

Em síntese: O artigo percorre a história das relações da Igreja com a Maçonaria, pondo em evidência a razão principal da incompatibilidade entre aquela e esta: a Maçonaria, oriunda no século XVIII em Londres, apregoa o relativismo frente a Religião – o que redunda em detrimento da Verdade. Tal relativismo tornou-se hostilidade na França do século passado, quando a Grande Loja cancelou as suas referências ao Grande Arquiteto do Universo. Essa atitude avessa à Igreja provocou no Brasil a chamada “Questão Religiosa’ sob o Imperador D. Pedro II, tendo como vítimas encarceradas os Bispos D. Frei Vital, de Olinda (PE), e D. Macedo Costa, de Belém (PA). Aliás, em toda a América Latina a Maçonaria exerceu influência fortemente negativa sobre a Religião, cerceando-a de vários modos. É por isto que em 1983, por ocasião da promulgação do novo Código de Direito Canônico, a Igreja mais uma vez desde 1738, declarou a incompatibilidade, afirmando estar excluído dos sacramentos o católico que se filie à Maçonaria. As tentativas de diálogo e conciliação havidas nos últimos decênios apenas contribuíram para evidenciar a inconciliabilidade entre Igreja e Maçonaria. Acompanhando a Igreja Católica, outras confissões cristãs (até mesmo a Comunhão Anglicana, da Inglaterra, país onde a Maçonaria é forte) têm-se mostrado reservadas ou mesmo avessas às Lojas Maçônicas; o relativismo doutrinário e o caráter secreto das mesmas não se coadunam com a mensagem do Cristianismo.

Visto que a Maçonaria continua presente na vida da população brasileira, a nossa revista publica um artigo do Pe. Jesus Hortal S. J., eminente canonista, que evidencia o porquê da incompatibilidade entre Catolicismo e Maçonaria. – Ao Pe. Hortal seja aqui registrada a gratidão de PR pela autorização para publicar o seu valioso artigo, cujo texto se segue.

1. Uma condenação que passou para a História

No dia 28 de abril de 1738, o Papa Clemente XII promulgou a Bula In eminenti apostolatus specula. a primeira condenação pontifícia da Maçonaria. Apenas 21 anos separavam esse documento da data que se costuma indicar como o inicio da Maçonaria moderna: 1717. Que razões levaram a Santa Sé a condenar uma sociedade que, pelas suas próprias características, não podia ser suficientemente conhecida das autoridades romanas daquele tempo?

Alec Mellor, conhecido advogado católico francês, iniciado na Maçonaria no dia 29 de março de 1969, sustenta que “o motivo da condenação não era religioso… os motivos do Papa eram de ordem política e ligados ao destino da infeliz família real dos Stuart, destronada e refugiada em Roma, sob a proteção da Igreja”(1). Um historiador de tendências manifestamente favoráveis à Maçonaria inglesa, o Pe. Ferrer Benimeli, afirma que “esta hipótese é totalmente insustentável do ponto de vista histórico, à luz da documentação vaticana da época”.(2)

O próprio documento de Clemente XII é algo obscuro na sua redação. Compreende-se, porém, melhor no resumo dele feito na Bula Providas Romanorum Pontificum, promulgada pelo Papa Bento XIV aos 18 de maio de 1751. Neste segundo documento, seguindo o anterior, enumeram-se seis razões para a condenação:

“a primeira é que, nas tais sociedades e assembléias secretas, estão filiados indistintamente homens de todos os credos; daí ser evidente a resultante de um grande perigo para a pureza da religião católica;

“a segunda é a obrigação estrita do segredo indevassável, pelo qual se oculta tudo que se passa nas assembléias secretas;

“a terceira é o juramento pelo qual os maçons se comprometem a guardar inviolável segredo, como se fosse permitido a qualquer um apoiar-se numa promessa ou juramento com o fito de furtar-se a prestar declarações ao legitimo poder.. .;

“a quarta é que tais sociedades são reconhecidamente contrárias às sanções civis e canônicas…;

“a quinta é que em muitos países as ditas sociedades e agremiações foram proscritas e eliminadas por leis de príncipes seculares;

“a última enfim é que as tais sociedades e agremiações são reprovadas por homens prudentes e honestos..(3)

Numa leitura superficial, com a nossa mentalidade, tem-se a impressão de que, deixando de lado o problema do segredo, sobre cuja natureza e conteúdo nada se diz nas Bulas, nada há de verdadeiramente grave, capaz de justificar a pena, cominada, de excomunhão latae sen-tentiae.(3a) Um exame mais atento, porém, permite vislumbrar motivos doutrinários mais profundos. Com efeito, no parágrafo 4 da Bula In eminenti, Clemente XII manda aos Ordinários locais e aos Inquisidores que castigam os transgressores com pena proporcionadas, tamquam de haeresi vehementer suspectos (como pessoa veementemente suspeitas de heresia).(4) Ora, a única razão, dentre as aduzidas pela Bula papal, capaz de levantar essa suspeita é a primeira; nela, com efeito, se fala de “um grande perigo para a pureza da religião católica”. O problema mais profundo parece consistir, portanto, na reunião de pessoas de diversas religiões e credos, que poderia levar a considerar a religião católica apenas como um caminho possível entre outros muitos. O indiferentismo e o relativismo religioso não eram, no século XVIII, apenas hipóteses teóricas, mas atitudes bem freqüentes nos ambientes iluministas. Advirta-se, aliás, que Clemente XII não acusa os maçons de heresia, mas apenas de suspeita veemente dela. O próprio fato da reunião de homens de diversos credos não era nem é uma heresia, mas levantava a desconfiança dos guardiães da fé. Nem o segredo, nem o juramento, nem a condenação dos poderes civis, nem a má fama entre os homens “prudentes e honestos” poderiam justificar, por si sós, essa suspeita de heresia. Ela se baseava exclusivamente no perigo que poderia advir, para a fé, do contato com homens de outras religiões. Em 1738, resultava muito difícil, para não dizer impossível, distinguir entre o diálogo com homens de diversos credos, mas respeitosos para com a verdade católica, e o indiferentismo destruidor do verdadeiro conceito de religião.

Duzentos e cinquenta anos após aquela primeira condenação, a posição da Igreja Católica parece não ter mudado muito. Como veremos, a razão básica da última condenação (23/11/83) continua a ser a mesma: a inconciliabilidade entre a afirmação sincera e plena da fé católica e o relativismo que parece ocultar-se atrás do universo simbólico maçônico.

2. As condenações se repetem

Após as Constituições Apostólicas In eminenti, de Clemente XII (1738) e Providas, de Bento XIV (1751), durante o resto do século XVIII, não há outro documento pontifício de condenação solene da sociedade maçônica. Quando, porém, chega o século XIX, multiplicam-se os documentos neste sentido. É o “século das sociedades secretas” ou o “século das seitas”, e a Maçonaria passa a ser considerada, nos meios vaticanos, como uma a mais, a mais importante, entre elas. Assim, a Constituição Apostólica Ecclesiam a lesu Christo (13/09/1821), do Papa Pio VII, condenou especialmente a Carbonária, mas foi geralmente interpretada como uma condenação indireta da Maçonaria, dado que citava explicitamente as Bulas de Clemente XII e de Bento XIV. Também Leão XII, na Constituição Apostólica Quo graviora, de 13/05/1825, condenou genericamente todas as sociedades secretas. Precisamente nesse documento aparece, por primeira vez, a formulação que passará para o Código de Direito Canônico: a de considerar a Maçonaria como uma sociedade que tem como finalidade maquinar (ou seja, conspirar) contra a Igreja e os legítimos poderes do Estado.

De Pio IX a Leão XIII, ou seja, de 1846 a 1903, encontramos nada menos do que 350 intervenções pontifícias contra a Maçonaria. Praticamente todas elas vêem nas Lojas uma espécie de conspiração contra a Igreja e os regimes monárquicos. Não se esqueça que a “aliança entre o trono e o altar” não era, naqueles tempos, um mito, mas uma realidade muito concreta. Por outro lado, o chamado “liberalismo doutrinário” representa uma espécie de desenvolvimento lógico das teses iluministas, com as quais a Maçonaria se identificara no século anterior. Nos países latinos, onde a religião católica era a oficial do Estado, muitas das teses liberais vão chocar-se não apenas com uma situação de fato, mas com a própria concepção do Estado e da sociedade, defendida pela Filosofia e a Teologia neo-escolásticas. A separação entre a Igreja e o Estado, e a proclamação da liberdade de consciência, com a conseqüente secularização da vida social, propugnadas pelos liberais, aparecem, naquela época, aos olhos de muitos católicos como ações diretamente dirigidas contra a Igreja Católica e contra os legítimos poderes constituídos. Daí a repetição das condenações da Maçonaria, que se apresenta como impulsora dessa separação. Daí também a teoria conspiratória, que vemos tão claramente exposta na encíclica Humanum Genus,de Leão XIII.

Em 1917, foi promulgado o primeiro Código de Direito Canônico. Nele, mantém-se a proibição da filiação de católicos à Maçonaria, com a mesma motivação tradicional: “os que dão seu nome à seita maçônica ou a outras associações, que maquinam contra a Igreja ou contra os legítimos poderes civis, incorrem, pelo próprio fato, em excomunhão simplesmente reservada à Sé Apostólica” (cân. 1335; o sublinhado é nosso). Como se vê, o Código estabelecia uma presunção de direito: a ação conspiratória (machinatio) contra a Igreja e o Estado seria algo intrínseco à Maçonaria, que não precisaria de ser comprovado na prática.

Mas o Código de 1917 não se contentou com cominar a citada pena. Para os clérigos maçons, estabelece ainda uma série de suspensões e privações, além de impor a obrigação de denunciá-los ao Santo Ofício.

De acordo com o mesmo corpo legal, os fiéis que se inscreviam na Maçonaria não podiam ser admitidos validamente ao noviciado num Instituto Religioso, nem ser inscritos numa associação de fiéis, nem exercer o encargo de padrinho de Batismo ou de Crisma; ficavam, também, privados da sepultura eclesiástica e de qualquer missa exequial, assim como dos direitos de padroado que, eventualmente, possuíssem. Os demais fiéis eram exortados a não contrair matrimônio com maçons. Numa palavra, a legislação canônica de 1917 indicava muito claramente uma incompatibilidade absoluta entre Maçonaria e Igreja Católica.

3. Onde se situava a “machinatio” maçônica?

É freqüente escutar, entre católicos, vozes em defesa da Maçonaria, alegando que pessoas a ela filiadas, durante longos anos, nunca viram nem ouviram nas Lojas algo de semelhante a uma ação concertada contra a Igreja ou o Estado. Em outros ambientes, pelo contrário, espalhou-se a idéia da Maçonaria como um conjunto de criminosos, dedicados a tramar conspirações tenebrosas contra tudo o que de bom e santo possa existir. O Código de Direito Canônico de 1917 parece ir nessa última direção, quando fala de maquinação. Mas em que consistia essa maquinação, cujo protótipo eram as associações maçônicas?

De acordo com a interpretação comum dos comentaristas daquele corpo legal, a palavra latina machinatio não significava necessariamente o planejamento de ações concretas, destinadas a destruir, pela força, a Igreja ou o Estado. Podia tratar-se de uma machinatio ideológica, ou seja, da transmissão sistemática de idéias que entrassem em conflito com as verdades católicas, mesmo que isso não fosse dito abertamente. “Existe a machinatio, – escreve Regatillo, citando uma declaração do Santo Ofício, de 10/05/1884 – se (a sociedade) pretende violar a liberdade e os direitos da Igreja, afastar os fiéis dela, relaxar a disciplina, subverter, por meios ilícitos, tanto aberta quanto clandestinamente, a organização social, a forma legítima de governo ou a seguridade do Estado”.^ Não era necessário que a sociedade em questão pretendesse fazer tudo isso; bastava esse “pretender afastar os fiéis da Igreja”, para que pudesse ser enquadrada na condenação geral. O protótipo dessa maquinação eram, conforme o Código de 1917, as associações maçônicas.

Para compreender melhor o porquê de acusação tão grave, tenha-se presente que, nos países de maioria católica, onde essa religião era a oficial do Estado, não é estranho que as idéias de liberdade fossem interpretadas, por uns e por outros, como apelos a uma ação contra a Igreja Católica, considerada, pelos liberais, como um empecilho à própria liberdade. Atualmente após a Declaração Dignitatis Humanae do Concilio Vaticano II, podemos compreender que não é a mesma coisa, de um lado, reconhecer a autonomia da pessoa humana, em matéria religiosa, frente a todas as autoridade civis, e, de outro lado, reivindicar uma autonomia absoluta perante o próprio Deus. Ora, as declarações do Syllabus de Pio IX condenavam, pura e simplesmente, qualquer idéia de liberdade religiosa, como um mal em si, absolutamente intolerável. Daí o surgimento, nos países latinos, de fortes correntes libertárias, não só à margem, mas expressamente contra a Igreja Católica. A separação entre Igreja e Estado, que hoje nos parece um ponto pacífico, era encarada como uma meta que somente poderia ser atingida com a derrota da Igreja Católica. Por outro lado, junto com essa separação, propugnava-se a secularização dos cemitérios, do matrimônio e do ensino, a liberdade irrestrita de imprensa, a confiscação dos bens eclesiásticos e até a extinção de todas as Ordens e Congregações Religiosas. Todas essas foram bandeiras defendidas nas Lojas do Grande Oriente da França e das “obediências” maçônicas com ele relacionadas.

Em nenhum país a luta foi tão violenta como na França; e em nenhum país mais do que na França, as Lojas maçônicas reuniram, em seu seio, uma quantidade tão grande de “livre-pensadores”. Em 1877, o Grande Oriente da França riscou de seus estatutos e documentos o nome do Grande Arquiteto do Universo. Algo depois, suprimiu todas as referendas religiosas e tomou uma feição com claras inclinações ao ateísmo. “Idênticas alterações foram feitas nos Altos Graus, especialmente no 30? (Cavaleiro Kadosh), que fora no século XVIII, conforme nos relata Paulo Naudon, um grau cristão. Foram os ritualistas do século XX que o transformaram numa pantomima em que eram pisoteadas a Tiara e a Coroa” (6) A mesma tendência foi seguida pelos Grandes Orientes da Bélgica, da Espanha, da Itália e, em parte, dos países latino-americanos, embora nem todos tenham chegado aos extremos do ramo francês.

Alec Mellor descreve, do seguinte modo, o clímax da luta da Maçonaria francesa contra a Igreja Católica:

“Em 19 de novembro de 1899, durante a inauguração da estátua de Datou O triunfo da República, cerca de 4.000 franco-maçons, paramentados com seus ‘adornos’, haviam sido mobilizados peto Grande Oriente para desfiarem diante dela, bradando: Viva a República social! Abaixo os jesuítas!’

A Convenção de 1902 vota uma moção de congratulações a  Emile Combes, presidente do Conselho, e uma outra de 151 votos contra 141, propondo que o casamento religioso ou o Batismo dos filhos fosse considerado delito maçônico. Em julho de 1902, Combes manda fechar mais de 3.000 escolas cristãs, criadas antes mesmo da lei de 1o de julho de 1901 sobre associações. Em setembro, ele obtém do Conselho de Estado um parecer, declarando inútil o exame dos dossiês das Congregações, pedindo que fossem autorizadas… Durante o ministério Briand, que lhe sucedeu, a França vive sucessivamente a lei de Separação, a famosa circular sobre os inventários e os escândalos das verbas para Missas. A política procedente das Convenções do Grande Oriente havia atingido seus objetivos de guerra”. (7)

Apesar dos esforços para estabelecer uma paz, ou pelo menos uma coexistência pacífica, entre católicos e maçons, realizados por homens como Lantoine, o Pe. Berteloot, o Pe. Riquet e o citado Alec Mellor, ainda em 1968 o então Grão Mestre da França, Jacques Miterrand, comentando a frase de Garnier-Pages, sobre a relação entre a Maçonaria e a República, acrescentava:

“Isto não significa apenas aderir ao direito à auto-determinação, segundo o princípio por nós criado, mas significa também servir à República, e isto exige, no nosso mundo ocidental, também a rebelião contra as forças da reação encamadas pela Igreja Católica Romana. Não nos contentamos em ser, ao interno de nossos templos, a República secreta; somos, ao mesmo tempo, a anti-Igreja” (8).

Não generalizemos, porém, indevidamente. O Grande Oriente da França não é reconhecido, como Maçonaria regular, pela Grande Loja Unida da Inglaterra; a mesma coisa acontece com as potências maçônicas que seguem uma orientação claramente anti-religiosa. No Brasil, porém, permanece uma certa ambigüidade, porque o Grande Oriente do nosso país ê reconhecido simultaneamente e mantém relações com a Grande Loja Unida da Inglaterra e com o Grande Oriente da França. Por isso e por causa de atitudes bem concretas em tempos passados, como na chamada “Questão Religiosa”, somente um posicionamento claro, sem ambigüidades, das autoridades maçônicas brasileiras poderia dissipar as dúvidas a respeito do relacionamento entre Maçonaria e Igreja em nosso país.

4. As tentativas de alcançar uma paz

De modo semelhante ao que acontece no campo do ecumenismo em sentido estrito, também na questão maçónica houve algumas tentativas de abertura logo após a Segunda Guerra Mundial, ainda durante o pontificado de Pio XII. Algumas, de caráter estritamente local, como os encontros do Cardeal Innitzer com expoentes da Maçonaria austríaca, não tiveram maior repercussão. Mas houve também algum tímido passo dado pela Santa Sé. “A partir de 1948, Monsenhor Ronca (Reitor da Basílica Lateranense) manteve contatos com Raoul Venturini, que voltara recentemente a Roma depois de um período no exterior para fugir das perseguições fascistas. Ele era Grão-Mestre da Maçonaria de Rito Escocês Antigo e Aceito e dizia que queria esforçar-se para anular a censura imposta pela Igreja à Maçonaria”^. Esses primeiros contatos, realizados por ordem da Santa Sé, não levaram a nenhum resultado positivo, pois foram interrompidos bastante cedo, por iniciativa do Santo Ofício.

Durante o Concílio Vaticano II, alçaram-se vozes, ou, mais exatamente, uma voz, a de D. Sérgio Méndez Arceo, então Bispo de Cuernavaca, no México, pedindo uma revisão da postura da Igreja frente à Maçonaria. Em 6 de dezembro de 1962 e em 20 de novembro de 1963, o Bispo mexicano argumentou, na aula conciliar, em favor de uma aproximação entre Igreja e Maçonaria; mais especificamente, pediu uma nova atitude pastoral em face dos maçons, argumentando com a já citada distinção entre Maçonaria regular e irregular. Mas essas intervenções não tiveram repercussão prática nos documentos emanados do Concílio.

Mais importantes são as atitudes que, no imediato pós-concílio, adotaram alguns episcopados. Multiplicaram-se contatos e estudos e, em diversos lugares, sacerdotes e até Bispos participaram, sob convite, de “sessões brancas”. Entre nós, por exemplo, D. Luciano Cabral Duarte, então Bispo auxiliar de Aracaju, pronunciou uma conferência na Loja Contiguiba, da capital sergipana, no dia 29 de maio de 1969. Três anos mais tarde, o mesmo D. Luciano propõe e consegue um acordo de cooperação com a mesma Loja: Arquidiocese e Loja compraram conjuntamente uma fazenda, chamada “da reconciliação”, para o assentamento de camponeses sem terra. Essa iniciativa valeu para o Arcebispo sergipano a medalha de ouro do Grande Reconhecimento Maçônico. Por sua vez, D. Avelar Brandão Vilela chegou a celebrar uma Missa, no Natal de 1975, na Grande Loja Liberdade de Salvador (402), gesto bastante discutível, por causa do significado central da Eucaristia para o ser e a unidade da Igreja.

Talvez as ações mais interessantes, nessas tentativas de reconciliação, tenham sido as dos episcopados da Escandinávia e das Filipinas. Já em 1964, portanto, em pleno período conciliar, os Bispos da Noruega permitiram que um convertido ao catolicismo permanecesse, a título experimental, na Maçonaria, sob a condição de abandonar imediatamente a Ordem, logo que percebesse qualquer coisa de incompatível com a fé cristã. Na reunião de 21 a 23 de outubro de 1966, os Bispos de toda a Escandinávia (Suécia, Noruega, Dinamarca, Finlândia e Islândia) decidiram aplicar a mesma medida em seus respectivos territórios. Advirta-se, porém, que não se tratava de permitir que católicos se inscrevessem na Maçonaria, mas apenas de que convertidos do protestantismo ao catolicismo permanecessem numa Loja à qual pertenciam já antes da conversão. Ainda mais: isso seria feito caso por caso, mediante a aplicação do poder de dispensa dos Bispos. Estes, portanto, reconheciam que continuava em vigor a proibição geral do Código de Direito Canônico. Não obstante essas nuanças, as interpretações, sobretudo da imprensa leiga, espalharam a idéia de que não havia mais nenhuma restrição contra a Maçonaria, da parte da Santa Sé. A Rádio Vaticana reagiu mediante um comunicado difundido no dia 19 de março de 1968, que terminava secamente: “Pelo competente dicastério da Santa Sê, fomos autorizados a desmentir tais informações como carentes de fundamento”.

Nas Filipinas, encontros entre representantes da Igreja e da Maçonaria levaram a uma série de conclusões que pareciam mostrar a conciliabilidade entre o ser católico e a adscrição às Lojas. Essas conclusões, aprovadas pelo Episcopado, durante a reunião de 27 de janeiro a 10 de fevereiro de 1969, foram subscritas por ambas as partes, no dia 17 de fevereiro do mesmo ano.

Também é digna de ser notada a admissão do advogado Alec Mellor na Loja Esperança 35, filiada à Grande Loja Nacional da França, após consulta, por intermédio do Pe. Riquet, ao então Arcebispo de Paris, Cardeal Marty. O conhecido advogado maçonólogo declarou explicitamente, em carta a Sua Eminência, que desejava continuar a ser católico. Por sua vez, o Arcebispo respondeu que não devia formular nem autorização nem proibição alguma e que o interessado consultasse a sua consciência. Após a solicitação formal de ingresso na Maçonaria, prossegue Alec Mellor: “Informei ao Arcebispo, depois esperei que o raio caísse, eventualmente, sobre a minha cabeça… O raio não caiu”. (10)

Dentro desse quadro de diálogo incipiente, o Cardeal Kõnig, sucessor de Innitzer no Arcebispado de Viena, consegue formar uma comissão mista católico-maçônica, que acabou produzindo um documento conhecido como “Declaração de Lichtenau”, assinada por nove maçons e três teólogos católicos dos países de língua alemã. Destinado inicialmente apenas ao Papa Paulo VI e ao Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, Cardeal Seper, como uma contribuição para o estudo de ulteriores medidas, propugnava a abolição das condenações canônicas contra a

Maçonaria. Não possuía caráter autoritativo: era apenas um parecer respeitável de peritos de ambas as partes11.

Esses fatos e outros semelhantes levaram à constituição de um dossiê vaticano sobre a Maçonaria, confiado ao Secretariado (atualmente, Conselho Pontifício) para os Não-crentes e, sobretudo, ã Congregação para a Doutrina da Fé. Acumularam-se nele os pareceres de numerosos peritos e as respostas dadas por algumas Conferências Episcopais (não parece que todas tenham sido consultadas) a um questionário enviado em 26 de fevereiro de 1968, pela mesma Congregação romana.

5. A Carta de 1974 da Congregação para a Doutrina da Fé

Como os acontecimentos se precipitavam, tornava-se necessária uma tomada de posição das instâncias romanas. Contudo, ainda parecia que seria prematuro publicar uma decisão definitiva. Por isso, a Congregação para a Doutrina da Fé, aos 19 de julho de 1974, enviou a algumas Conferências Episcopais uma carta sobre a questão que nos ocupa. Após lembrar as consultas feitas por muitos Bispos acerca da interpretação do cân. 2.335 do Código de 1917, que impunha a pena de excomunhão aos católicos que se inscrevessem na Maçonaria, a carta prosseguia:

“Durante o longo exame da questão, a Santa Sé consultou diversas vezes as Conferencias Episcopais interessadas de modo particular pelo assunto, a fim de tomar conhecimento mais acurado tanto da natureza e da atuação da Maçonaria em nossos dias quanto do pensamento dos Bispos a respeito.

A grande divergência de respostas, pela qual transparecem as situações diferentes de cada nação, não permitiu à Santa Sé mudar a legislação vigente, a qual por isto continua em vigor, até que nova lei canônica seja publicada pela competente Comissão Pontifícia para a revisão do Direito Canônico.

No entanto, no exame dos casos particulares, é necessário levar em consideração que a lei penal está sujeita a interpretação estrita. Por conseguinte, pode-se ensinar e aplicar, com segurança, a opinião daqueles autores segundo os quais o cânon 2.335 se refere unicamente aos católicos que dão o nome às associações que de fato conspiram contra a Igreja.

Em qualquer situação, porém, continua firme a proibição, aos clérigos, aos Religiosos e aos membros dos Institutos Seculares, de darem o nome a qualquer associação maçônica”(12).

Como se vê facilmente, pela leitura do texto transcrito, a nota da Congregação para a Doutrina da Fé era de alcance muito limitado. Restringia-se à interpretação de um único canôn, o 2.335, sem tocar em nenhum dos outros que faziam alusões à Maçonaria. Ainda mais; nem sequer declarava abolida a pena de excomunhão para os que se inscrevessem na Ordem maçônica; unicamente afirmava que, de acordo com os princípios gerais da legislação canônica, essa pena nem sempre se aplicava. Isso era possível porque o citado canôn, contra o que é próprio da lei, dava a razão da sanção imposta. Ora, não se verificando essa razão (a conspiração de fato), a pena não deveria ser aplicada. Parece insinuar-se o desejo de uma mudança, mas também transparecia a insuficiência, para tanto, dos dados recolhidos até o momento. Por isso, de modo claro, a SCDF declarava que a legislação geral vigente, relativa à Maçonaria, continuava em vigor, e, para confirmar essa vigência, lembravam-se as proibições para os clérigos e os membros dos Institutos de vida consagrada.

6. De 1974 até a publicação do novo Código de Direito Canônico (1983)

Não faltaram os que viram, na Nota de 1974, uma porta aberta para que leigos católicos pudessem inscrever-se livremente na Maçonaria, pelo menos com licença do Bispo diocesano. Os poderes de dispensa contidos no Motu Próprio De Episcoporum Muneribus (15/06/1966) pareciam corroborar essa posição. Perante as dúvidas suscitadas, a CNBB, através de seu Presidente, pediu ulteriores esclarecimentos à SCDF. Eles foram dados em carta de 26 de fevereiro de 1975 (Prot 272/44), que é citada, na edição vaticana anotada do Código de 1983, juntamente com a Carta de 1974 e a Declaração de 1981, como fonte do atual cân. 1374. Nela, afirma-se que, para verificar se uma associação maçônica conspira contra a Igreja, “seria desejável (mas certamente não suficiente, nem de se esperar) uma declaração pública por parte da associação em questão, a qual afirmasse que não entra nos intentos dela combater a Igreja; parece, entretanto, que se possa dar fé àqueles que, inscritos há anos na Maçonaria, solicitam espontaneamente a admissão aos sacramentos, declarando – ‘onerata ipsorum cons-cientia’ – que a associação na qual estão inscritos, não persegue nem nunca exigiu deles compromissos contrários à sua reta consciência cristã. Doutra parte, não parece conveniente que os Bispos, ao menos no atual estado das coisas, façam declarações púbicas acerca desta ou daquela associação”. Além disso, “a expressão ‘conspirar contra a Igreja’ pode dizer, de modo geral, que se deve referir a ‘delitos’ contra a doutrina, as pessoas ou as instituições eclesiásticas; note-se que isso diz respeito à associação como tal e não a cada membro tomado singularmente” (13).

Havia aqui uma maior abertura em direção à Maçonaria? Esse parece ser o sentido óbvio. Contudo, mantinha-se uma atitude de reserva e se pedia aos Bispos que não fizessem declarações públicas a respeito.

Entretanto, prosseguiam os trabalhos para uma nova codificação canônica. Entre os princípios norteadores dela, o nono propugnava uma simplificação drástica do Direito Penal, contido no livro V do Código de 1917: “Com referência ao direito de coação, a que a Igreja não pode renunciar, como sociedade externa, visível e independente, as penas sejam geralmente ferendae sententiae e irrogadas e remetidas somente no foro externo. As penas latae sententiae reduzam-se a poucos casos, e somente sejam irrogadas contra crimes gravíssimos”14. Resultava, pois, muito claro que o novo Código não mais cominaria a excomunhão contra os maçons. Além disso, no seio da Comissão codificadora, ficou decidido que o novo corpo legal não deveria citar expressamente a Maçonaria. “Os consultores unanimemente opinavam que não se deveria estabelecer pena automática (latae sententiae), pois ou se tratava de incompatibilidade por heresia e, nesse caso, já se encontra incluída no cân. 1.364, ou não, e então não havia por que estabelecer pena tão grave”15. Como se vê, seguindo o raciocínio que já se esboçava nos documentos anteriores, os consultores não pretendiam entrar no mérito da possível ação subversiva da Maçonaria; o único que interessava era a heresia. Aqui pareciam ecoar as palavras da Bula In eminenti: “tamquam de haeresi vehe-menter suspectos”.

A insistência dos maçons alemães, após a declaração de Lichtenau, para que se chegasse a uma pacificação definitiva, num diálogo direto com o episcopado, acabou por gerar resultados contrários aos por eles desejados. Após seis anos de estudos, aos 12 de maio de 1980, os Bispos alemães publicaram uma Declaração sobre a questão da pertença de católicos à Maçonaria, concluindo pela inconciliabilidade, pelos seguintes motivos:

1) embora não exista uma cosmovisão maçônica determinada, “o relativismo pertence às convicções fundamentais da Maçonaria”;

2) a possibilidade do conhecimento objetivo da verdade é negada pela Maçonaria; a relatividade de qualquer verdade se encontra na base da Maçonaria;

3) a compreensão que os maçons têm da religião, é relativista: todas as religiões são tentativas concorrentes para exprimir a verdade última e inatingível de Deus. O próprio conceito maçônico de uma religião “em que todos os homens coincidem”, implica uma atitude religiosa relativista;

4) a Maçonaria não admite um conhecimento objetivo de Deus, no sentido do conceito pessoal do teísmo. 0 “Grande Arquiteto do Universo” é “algo” neutro, indefinido e aberto a qualquer interpretação;

5) a concepção que a Maçonaria tem de Deus, não deixa espaço para uma Revelação Divina, tal como é afirmada pela fé de todos os cristãos;

6) enquanto a tolerância católica é uma atitude de benevolência em face das pessoas, a tolerância maçónica diz respeito às idéias, por muito contraditórias que elas possam ser entre si; na realidade, é mais uma expressão do relativismo;

7) as ações rituais maçônicas manifestam, nas palavras e nos símbolos, um caráter semelhante ao dos sacramentos, como se objetivamente produzissem no homem uma certa transformação;

8) o aperfeiçoamento ético perseguido como meta última da Maçonaria é absolutizado e isolado da graça divina, não deixando espaço para a justificação do homem, no sentido cristão;

9) a Maçonaria apresenta aos seus membros uma exigência de totalidade, que reclama uma pertença a ela na vida e na morte, o que parece não deixar espaço para a Igreja. (16)

Sem dúvida, para muitas pessoas, o documento do Episcopado alemão representou uma ducha de água fria nos seus entusiasmos filo-maçônicos. O problema não se colocava mais na maquinação, enquanto ação dirigida contra a Igreja, mas nas concepções básicas da Maçonaria. Ações podem ter um caráter conjuntural; concepções básicas, pelo contrário, são intrínsecas e não podem ser abandonadas sem deturpar a própria natureza da instituição. Daí a conclusão dos Bispos alemães: a inconciliabilidade entre Igreja e Maçonaria aparecia, aos olhos deles, como algo muito claro. Poderia argumentar-se que o citado documento tinha um alcance limitado, pois somente se referiria aos grupos maçônicos existentes nos países de língua alemã. Além disso, deve-se aceitar que o magistério eclesiástico de um episcopado nacional não tem caráter vinculante para os católicos de todo o mundo. Contudo, dado o ensinamento tão claro e explícito, fundamentado nos princípios gerais de toda Maçonaria, não poderia ser desprezado como algo sem valor algum. Era, pelo menos, um forte toque de atenção contra uma conciliação apressada entre Igreja e Maçonaria.

É muito provável que essa Nota do Episcopado alemão tenha servido como fonte de inspiração para um documento pouco posterior, de âmbito superior e alcance universal: a Declaração da Congregação para a Doutrina da Fé, de 17 de fevereiro de 1981, “sobre a disciplina canônica que proíbe, sob pena de excomunhão, que os católicos se inscrevam na seita maçônica e em outras associações do mesmo gênero”. Dela selecionamos os seguintes parágrafos:

“Dado que a citada carta (de 19/07/1974), tornada de domínio público, deu margem a interpretações errôneas e tendenciosas, esta Congregação, sem querer prejudicar as eventuais disposições do novo Código, confirma e precisa quanto segue:

’1. não foi modificada de algum modo a disciplina canônica, que permanece em todo o seu vigor;

’2. não foi, portanto, ab-rogada a excomunhão nem as outras penas canônicas previstas;

’3. quanto na citada carta se refere à interpretação a ser dada ao cânon em questão, deve ser entendido, como intencionava a Congregação, só como um apelo aos princípios gerais da interpretação das leis penais para a solução dos casos de cada pessoa, que podem ser submetidos ao juízo dos Ordinários. Não era, pelo contrário, intenção da Congregação confiar às Conferências Episcopais o pronunciar-se publicamente com um juízo de caráter geral sobre a natureza das associações maçônicas que implique derrogação das mencionadas normas’ (17).

Encontramos nessa Declaração, assinada pelo mesmo Card. Seper, que enviou a Carta de 1974, uma desaprovação explicita de interpretações errôneas e tendenciosas. Quais fossem essas interpretações, deduz-se muito facilmente do próprio texto: 1) afirmar que a disciplina canônica (e, portanto, a proibição de católicos se inscreverem na Maçonaria) teria sido modificada; 2) afirmar que a excomunhão latae sententiae contra os maçons teria sido ab-rogada, 3) afirmar que as Conferências Episcopais poderiam dar normas contrárias às existentes em caráter geral. Pelo contrário, não eram reprovadas as Conferências Episcopais que, como a alemã, insistiam na incompatibilidade entre Igreja e Maçonaria. No fundo desse documento, havia o desejo de não tomar medida que pudesse parecer uma ingerência nas tarefas da Comissão Pontifícia para a revisão do Código de Direito Canônico. Por isso, evitou-se uma tomada de posição mais explicita.

7. O novo Código de Direito Canônico e a sua Interpretação oficial

No dia 25 de janeiro de 1983, exatamente vinte e quatro anos após o primeiro anúncio da reforma, foi promulgado o novo Código de Direito Canônico. Deveria entrar em vigor no primeiro domingo do Advento (27 de novembro) do mesmo ano. De acordo com as previsões e o espírito geral da reforma, já indicados, desapareciam dele a excomunhão latae sententiae contra os maçons, assim como as proibições de dar-lhes sepultura eclesiástica, admiti-los como padrinhos de batismo e crisma etc. Faltava inclusive qualquer referência explicita à Maçonaria. Em lugar do antigo cânon 2.335, aparecia o novo 1.374:

“Quem se inscreve em alguma associação que maquina contra a Igreja, seja punido com justa pena; e quem promove ou dirige uma dessas associações seja punido com interdito”.

A imposição da “justa pena” não era mais automática, mas ficava à discrição do juiz ou da autoridade administrativa competente, que, de acordo com o que se dizia na Carta da SCDF de 1974, deveria aplicá-la apenas se ficasse comprovado que uma determinada associação maquina de fato conta a Igreja. Quase é supérfluo dizer que os católicos mais inclinados à Maçonaria viram, nessa redação, como que uma confirmação de suas afirmações. “Se não está mais penada com excomunhão automática a inscrição na Maçonaria – argumentavam -, segue-se que é lícito ao católico inscrever-se nela”. O argumento era completamente falho: muitos atos ilícitos (a começar pelo homicídio) não estão penados com excomunhão automática; ainda mais, de acordo com os princípios norteadores da reforma do Direito canônico, o nosso Código não pretende, com as suas penas, enquadrar todos os atos imorais e reprováveis.

Como, de fato, essas interpretações apareceram um pouco por toda a parte, e como, segundo se dizia, havia muitos católicos esperando a entrada em vigor do novo Código para se inscreverem na Maçonaria, a Congregação para a Doutrina da Fé – agora sob direção do Cardeal Ratzinger – viu-se constrangida a intervir mais uma vez no assunto. A 26 de novembro de 1983, na véspera da entrada em vigor do novo corpo legal, publicou em L’Osservatore Romano uma “Declaração sobre as associações maçônicas”(18), com o seguinte teor:

“Foi perguntado se mudou o parecer da Igreja a respeito da Maçonaria, pelo fato de que no novo Código de Direito Canônico ela não vem expressamente mencionada como no Código anterior.

Esta Sagrada Congregação quer responder que tal circunstância é devida a um critério redacional, seguido também quanto às outras associações igualmente não mencionadas, uma vez que estão compreendidas em categorias mais amplas.

Permanece portanto imutável o parecer negativo da Igreja a respeito das associações maçônicas, pois os seus princípios foram sempre considerados inconciliáveis com a doutrina da Igreja e por isso permanece proibida a inscrição nelas. Os fiéis que pertencem às associações maçônicas, estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão.

Não compete às autoridades eclesiásticas locas pronunciar-se sobre a natureza das associações maçônicas com um juízo que implique derrogação de quanto acima estabelecido, e isto segundo a mente da Declaração, desta Sagrada Congregação, de 17 de fevereiro de 1981 (cf. AAS 73, 1981, p. 240-241).

O Sumo Pontífice João Paulo II, durante a audiência concedida ao subscrito Cardeal Prefeito, aprovou a presente Declaração, e ordenou a sua publicação”.

Esta declaração revestia-se de uma solenidade incomum. Contra o que seria lógico, tratando-se da interpretação de um texto legal, não foi emitida pela correspondente Comissão Pontifícia (o atual Conselho para a Interpretação dos Textos legislativos), mas pela mais alta autoridade em questões doutrinárias, a Congregação para a Doutrina da Fé, com a aprovação, em forma específica, do Santo Padre. Por isso, também a sua argumentação se situa no plano doutrinário, sem entrar no mérito da questão da machinatio, declarando a incompatibilidade entre os princípios da Maçonaria e a doutrina da Igreja Católica. Isso exclui qualquer dispensa, em casos particulares, pois não se trata de “leis disciplinares”, as únicas passíveis de dispensa, conforme o cân. 87. Pela mesma razão, as Conferências Episcopais ficavam proibidas de se pronunciar com um juízo que implique derrogação das normas dadas. Ficava também claro que não se poderia defender uma suposta compatibilidade entre Igreja Católica e Maçonaria, com base na omissão da pena de excomunhão no novo Código.

8. Dois esclarecimentos “oficiosos”

Pouco mais de um ano após a declaração anterior, a 23 de fevereiro de 1985, apareceram em L’Osservatore Romano”(19), umas “reflexões” em caracteres itálicos e assinadas apenas com três asteriscos, com o titulo “Fé Cristã e Maçonaria são inconciliáveis”. É sabido que L’Osservatore Romano é um jornal oficioso da Santa Sé, e que, como em toda publicação, os artigos publicados sem assinatura são da responsabilidade do próprio jornal. Para qualquer um que conheça a praxe romana, aliás, o tipo itálico e os asteriscos no fim do artigo indicavam claramente que fora escrito nos ambientes da Congregação para a Doutrina da Fé. Isso foi inclusive afirmado explicitamente no comunicado da Rádio Vaticano, ao colocar como titulo da noticia: “Reafirmada pela Congregação para a Doutrina da Fé a inconciliabilidade entre Fé Cristã e Maçonaria”. Após aludir aos estudos realizados, o artigo continuava: “Agora o estudo mais aprofundado levou a SCDF a manter-se na convicção da inconciliabilidade entre os princípios da Maçonaria e a fé cristã (sublinhado nosso). Prescindindo, portanto, da consideração da atitude prática das diversas Lojas, de hostilidade ou não para com a Igreja, a SCDF, com a sua Declaração de 26/11/83, pretendeu colocar-se no nível mais profundo e, por outro lado, essencial do problema: isto é, sobre o plano da inconciliabilidade dos princípios, o que significa: no plano da fé e das suas exigências morais”.

O artigo continuava mostrando que o relativismo, mesmo não afirmado como verdade dogmática, pertence às convicções fundamentais da Maçonaria e é veiculado através de um sistema simbólico extremamente absorvente. Daí a impossibilidade, para o católico, de uma dupla fidelidade, eclesial e maçônica, ou de uma dupla moralidade, humanista e cristã.

Saindo também ao passo de críticas levantadas contra a frase contida na Declaração de 1983, de que os que se inscrevem na Maçonaria “estão em estado de pecado grave e não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão”, o artigo acrescentava: “Com essa última expressão, a Sagrada Congregação indica aos fiéis que tal inscrição constitui objetivamente (sublinhado nosso) um pecado grave e, precisando que os aderentes a uma associação maçônica não podem aproximar-se da Sagrada Comunhão, ela quer iluminar a consciência dos fiéis sobre uma grave conseqüência que lhes advém da sua adesão a uma Loja maçônica”.

Finalmente, reafirmava a proibição de as Conferências Episcopais se manifestarem sobre a matéria, com juízo que implique derrogação das normas já dadas em caráter geral.

A continuidade, da parte de alguns poucos, dos esforços para demonstrar a compatibilidade entre Fé Cristã e Maçonaria acabou por forçar mais uma intervenção das instâncias romanas. É sabido que, desde as suas origens, no século passado, a revista La Civiltà Cattolica é considerada porta-voz oficioso da Santa Sé. De modo especial, os seus editoriais refletem um pensamento bem próximo da Secretaria de Estado. No dia 2 de novembro de 1991, um editorial da citada revista tocava mais uma vez no tema “A Igreja e a Maçonaria hoje” (20). A finalidade desse escrito era claramente expressa: “Pensamos… que na Maçonaria, enquanto tal, se realiza uma educação numa filosofia e numa ‘religiosidade’ que a Igreja considera, mesmo atualmente, incompatível com a reta fé cristã e com a adesão convicta de fé ao mistério do povo de Deus e ao magistério que vive no seu seio. Queremos apresentar esta inconciliabilidade essencial, que é, conseqüentemente, a chave para a compreensão das mais recentes intervenções eclesiásticas sobre a matéria”. A argumentação em favor de tal inconciliabilidade baseia-se, como já vimos, na ideologia iluminista, que se encontra no fundo de toda e qualquer Maçonaria: “Não é por acaso que na Maçonaria se encontram, em todas as latitudes, duas características do Iluminismo: a confiança absoluta nos poderes infalíveis da razão e da experiência, e o senso da imensidão da natureza, governada pelas leis férreas do mecanismo universal, nem sempre favorável ao homem”. O argumento é desenvolvido longamente, com ricas citações de autores tanto católicos quanto maçons. O editorial concluía com convicção: “Quem conheceu a riqueza da doutrina de Cristo e aderiu a ela, de acordo com o espírito da Tradição cristã, representado cada dia pelo Magistério vivo da Igreja; quem conhece e vive os esplendores da Liturgia católica e da espiritualidade cristã; quem, finalmente, concebe a sua vida como desejo de união com o Deus vivo do Evangelho e como testemunho apostólico para o próximo, dificilmente será seduzido pela Maçonaria, pela sua doutrina, pelos seus ritos, pelos seus fins”.

Toda a documentação que apresentamos até agora, leva logicamente a uma conclusão: Maçonaria e Igreja Católica são simplesmente inconciliáveis, com uma inconciliabilidade que não depende de conjunturas históricas nem de ações particulares, mas que é intrínseca à própria natureza de ambas instituições.

9. E as outras Comunidades cristãs?

Costuma-se argumentar que somente o Catolicismo, ou mais exatamente, o Papado, se mostra intransigente frente à Maçonaria. Essa afirmação não é correta. É certo que os pronunciamentos de outras Comunidades eclesiais a respeito do problema maçônico são muito menos numerosos do que os da Católica; mas isto é devido, em grande parte, ao fato de somente a Igreja Católica possuir um magistério central, válido pan o mundo inteiro. Contudo, cá e lá, surgiram vozes de diversas confissões não católicas afirmando a incompatibilidade entre pertença à Maçonaria e Fé Cristã. Apresentamos apenas alguns exemplos documentados.

Paralelamente às conversações da Maçonaria com a Igreja Católica alemã, desenvolveram-se outras com a Igreja Evangélica (luterana). A “Comissão Oficial de Diálogo” deixou abertas as portas para uma filiação dos evangélicos à Maçonaria; contudo, expressou claramente a sua perplexidade acerca do significado do ritual e das suas repercussões na vida interior. Da! a questão: “se a influência do ritual na vida interior e no trabalho do maçom não concorreria p<«ra diminuir, nos cristãos evangélicos, a justificação pela graça” (21).

A Igreja da Inglaterra (“Anglicanos”) é conhecida pelas suas estreitas relações com a Maçonaria. O antigo arcebispo de Cantuária, Fisher, era sabidamente maçom. Mesmo entre nós, no Brasil, vários dos ministros da Igreja Episcopal, incluindo bispos, são ou foram maçons. Apesar desses laços históricos, em 1986, uma comissão especial anglicana de sete membros, incluindo dois maçons, publicou um documento com o título “Franco-Maçonaria e Cristianismo são incompatíveis?” A conclusão era claramente afirmativa e baseava-se no caráter pelagiano da concepção maçônica de aperfeiçoamento e salvação do homem. O Sínodo Geral da Igreja da Inglaterra, realizado em York, em 1987, aprovou, por 394 votos contra 52 e 5 abstenções, a declaração de incompatibilidade entre Maçonaria e fé anglicana.

“Em 1985, a Igreja metodista (da Inglaterra) condenou o sincretismo anticristão da Maçonaria. As Igrejas evangélicas americanas do Missouri e do Wisconsin já haviam-se pronunciado na mesma linha em 1967. A Igreja Ortodoxa nunca retificou a declaração contra a Maçonaria, publicada em 1933″ (22). Também a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa Antioquena mantém, no Brasil, essa atitude.

Conforme um jornal católico da Holanda (23/05/89), em 20 de maio de 1989, o Sínodo Geral da Igreja Presbiteriana da Escócia aprovou, por grande maioria, o texto duma circular dirigida aos membros maçons da Igreja, convidando-os a abandonar a Maçonaria, por ser ela inconciliável com a fé cristã (23).

As três principais Igrejas luteranas dos Estados Unidos (American Lutheran Church, Lutheran Church Missouri Synod, Lutheran Church in America) proíbem que seus pastores pertençam à Maçonaria; no que respeita aos membros leigos, não há atitude unânime: a LCMS o proíbe, a ALC o desaconselha, a LCIA o permite (24).

No Brasil, também encontramos algumas posições antimaçônicas entre as Igrejas evangélicas. A IECLB (Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil) é tradicionalmente contrária à pertença de seus membros à Maçonaria; embora não tenha dado uma proibição formal nesse sentido, claramente desaconselha aos pastores a inscrição nas Lojas.

Num recente documento, aprovado pelo Conselho Diretor, em abril de 1991 (“A IECLB e a Maçonaria – uma palavra de orientação”. IECLEB n9 4799/91), embora tentando evitar qualquer atitude polêmica, afirma-se: “São flagrantes as diferenças (da maçonaria) com relação ao credo cristão. Dizem respeito tanto ao conceito de Deus quanto ao de Jesus Cristo e ao da salvação do ser humano. Sob a perspectiva luterana, a Maçonaria deve ser qualificada como ‘legalista’ por excluir a graça divina como o fator decisivo da salvação. Tanto o solus Christus, quanto o sola gratia não têm correspondência na concepção maçônica… Não há, pois, como negar as diferenças”.

Mas onde mais viva se apresentou a questão maçônica entre os protestantes brasileiros foi a formação da Igreja Presbiteriana Independente (IPI). Eduardo Carlos Pereira, que liderava um grupo de tendências nacionalistas dentro da Igreja Presbiteriana do Brasil (IPB), frente aos missionários norte-americanos, apresentou esse ponto como uma questão de consciência. O Sínodo da IPB, de 1900, negou-se a tomar qualquer atitude contra a Maçonaria. Pereira, que, por outros motivos, já se encontrava em conflito com alguns setores da IPB, preparou então, para o Sínodo de 1903, uma “Plataforma”, afirmando a incompatibilidade do ser evangélico com a Maçonaria (25). Após violentas discussões, o Sínodo se negou a endossar as posições de Pereira. Este reagiu retirando-se do Sínodo e declarando: “A Maçonaria cavou um abismo entre nós e vós”. Surgiu assim a IPI, que até o dia de hoje mantém uma atitude firmemente antimaçônica. Pouco tempo depois, “a Assembléia Geral da Igreja Presbiteriana (do Brasil, ou IPB), reunida em Valença (Rio de Janeiro), em 1916, declarou que esta Igreja jamais reconheceu e não reconhece a compatibilidade da Maçonaria e da profissão do Evangelho. Quanto ao passado, era uma questão de palavras: o Sínodo de 1903, na verdade, se havia recusado a decidir sobre essa incompatibilidade, muito embora os seus lideres se houvessem esforçado por prová-la. E, a partir de então até os nossos dias, toda a atenção da Igreja Presbiteriana (do Brasil) foi no sentido de que a questão maçônica não fosse novamente proposta.” (26)

Não tenho notícias em relação à posição das outras Igrejas evangélicas brasileiras na questão maçônica. Certamente, existem numerosos pastores maçons na Igreja metodista e na episcopal (Comunhão anglicana). Como também há alguns que sustentam posições claramente anti-maçônicas. Faltam, porém, pronunciamentos oficiais das Igrejas.

O Pe. Jesús Hortal S. J. é doutor em Direito Canônico, Vice-Reitor Acadêmico da Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro e Professor do Instituto de Direito Canônico da Arquidiocese do Rio de Janeiro. – O presente artigo foi publicado na revista “Direto e Pastorar, ano VI, nos. 23-24, janeiro-abril de 1992. pp. 58-81 (Caixa Postal 1362, 20001-970 Rio de Janeiro – RJ).

NOTAS

1)  MELLOR, Alec, Os Grandes Problemas da atual Franco-Maçonaria, São Paulo, 1976, Editora Pensamento, p. 44.

2)  BENIMELI, F. – CAPRILE, G. – ALBERTON, V^ Maçonaria e Igreja Católica. Ontem, Hoje e Amanhã, São Paulo 1983, Edições Paulinas, p. 28, nota. 9.

3)  Utilizo a tradução de Fr. BOAVENTURA KLOPPENBURG, em seu livro A Maçonaria no Brasil Petrópolis 1961, Editora Vozes, p. 319.

3a) Excomunhão latae sententiae é a pena que decorre da prática mesma do delito, não sendo necessário qualquer processo ou julgamento que lavre a sentença condenatória. A excomunhão proferida após julgamento é dita ferendae sententiae.

4)  Denzinger-Schònmetzer, Enchirídion Symbolorum. . . (Enquirídio de Símbolos e Definições de Fé) no2513.

5)  REGATILLO, E. F„ Institutiones luris Canonici, vol. II7. Santander, 1963, Sal Terrae, p. 590.

6)  MELLOR, Alec, Os Grandes problemas da atual Franco-Maçonaria. Os novos rumos da Franco-Maçonaria, São Paulo, s/a, Editora Pensamento, p. 162.

7)  Ibid.p. 10.

8)  Citado por Joseph STIMPFLE, na revista “30 Giomi” (ed. brasileira), nov. 1986, p. 50.

9)  Carta de Cláudio Righi, publicada em “30 Dias” (ed. brasileira), mar. 1992, p.6.

10) MELLOR, 4, a a, pp. 62-63.

11) Pode-se ver o texto completo em ALBERTON e outros, o.a, pp. 310-313.

12)  Utilizamos a tradução publicada pela CNBB no boletim semanal de Notícias, n, 230, de 23 de agosto de 1974, e no Comunicado Mensal A nota da SCDF não foi publicada em Acta ApostoScae Sedis, por estar dirigida “a algumas Conferências Episcopais” e não ter, por isso, caráter de lei geral.

13)  Em Comunicado Mensal da CNBB, ru 270, mar. 1975.

14)  Prefácio romano (sem nome do autor) ao Código de Direito Canônico; na ed. brasileira, p. XXIX.

15)  Cf. PINERO CARRION, J. M-„ La Ley de la Iglesia, voL II, Madri 1985, S.E. Atenas, p. 411, citando a ata do correspondente grupo de trabalho, publicada em Communicationes 16 (1984) 48-49.

16)  O texto alemão de Declaração pode ser visto no jornal Deutsche Ta-gespost, de 23-25/105/1980, e em Herder Korrespondenz de junho de 1980. Uma tradução portuguesa foi incluída no livro de BENIMELI, CAPRILE e ALBERTON repetidamente citado, pp. 140-150.

17)  AAS 73 (1981) 240-241; texto português em L’Osservatore Romano (ed. port.) de 08/03/1981; republicado em Comunicado Mensal da CNBB, 31 de março de 1985, p. 142.

18)  AAS 76 (1984) 300. O texto apareceu originalmente em L’Osservatore Romano do citado dia.

19)  A tradução portuguesa apareceu na correspondente edição semanal do dia 10 de março do mesmo ano, p. (115).

20)  ‘La Chiesa e la Massoneria oggí’, em La Civiltà Cattolica, 1991, vol. IV, pp. 217-227.

21)   STIMPFLE, Joseph, “A Impossível Coabitação”, em 30 Giorni, ed. bras., nov. 1986, p. 54.

22)   VALENTE, Gianni, “Assim é se eles querem”, em 30 dias, mar. 1992, p. 39.

(23)   Notícias fornecidas por Fr. Félix Neefjs, OFM, no VII encontro de reflexão sobre a Maçonaria (26/06/89).

(24)   Informação fornecida pelo Pr. Armindo Mueller, conforme carta do Pr. Jack L. Torgersen, no 4- Encontro de Reflexão sobre a Maçonaria (05/12/87).

(25)   O texto completo pode ver-se em: REILL Y, Duncan A., História Documental do Protestantismo no Brasil, São Paulo 1984, ASTE, p. 166-168.

(26)   LEONARD, Emile-G., O Protestantismo Brasileiro. Estudo de Eclesiologia e História Social, Rio de Janeiro 1963, JUERP-ASTE, p. 60-161.

+++++++++++++++

CORPUS CHRISTI, A DIVINA PRESENÇA

Com a festa de Corpus Christi a Igreja celebra não tanto a instituição da Eucaristia, mas a permanência  sacramental de Jesus entre os fiéis. A ênfase sobre a instituição é dada na Quinta-feira Santa. Passados os cinqüenta dias pascais, a solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue de Cristo vem recordar a perenidade da Ceia e do Sacrifício de Cristo, na  Igreja. Mistério central e básico, a Eucaristia é a vida da comunidade eclesial e de cada pessoa que crê. Sem Eucaristia não existe Igreja. Ela vive da Eucaristia, nos recordou o Papa João Paulo II na encíclica Ecclesia de Eucharistia.

A Eucaristia é o dom mais precioso dado por Cristo à sua Igreja, pois não permite que a Sua ação salvadora fique presa ao passado, mas faz verdadeira memória, no sentido de torná-la objetivamente presente e atual. Também não permite que sua recordação seja apenas uma obra da imaginação  sem se concretizar em gestos, pois o Senhor, ao instituí-la utilizou palavras, gestos e sinais sensíveis. Quando Jesus disse: “Tomai e comei, isto é o meu corpo, tomai e bebei, este é o cálice de meu sangue”, ele tinha em suas mãos o pão e cálice de vinho. Esta junção ‘palavra e gesto’ une matéria e vida e é repetida pela Igreja a cada vez que se reúne para celebração do mistério eucarístico. ‘Fazei isto em minha memória’,  ordena o Senhor aos seus discípulos.

Quando a comunidade se reúne para a Eucaristia, ela, na verdade, não participa de uma ‘nova celebração’, mas sim daquela única celebração de Cristo, recordada e tornada presente pela ação do sacerdote que por sua vez age na pessoa de Cristo. É como se estivéssemos presentes no cenáculo e ao pé da cruz, nos lembrou o Papa na citada encíclica.

A Eucaristia foi prenunciada no Antigo Testamento, por várias imagens. Como alimento ela foi simbolizada pelo maná do deserto, descrito no livro do Deuteronômio, 8. Como sacrifício ela era já indicada no altar levantado por Moisés, narrado pelo livro do Êxodo, 24. Como ação sacerdotal, tem referência em Melquisedec, que se encontra no Gêneses, 14.

O maná saciou a fome temporal do povo hebreu na caminhada da libertação, em busca da terra prometida. A Eucaristia é o verdadeiro maná, pão vindo do céu que alimenta o povo de Deus na busca da Jerusalém celeste. É o viático de todos os que enfrentam as intempéries deste mundo em busca da cidade eterna.

O altar erguido por Moisés ao sopé da montanha era destinado a sacrificar animais cuja metade do sangue era aspergida sobre o povo em sinal de purificação. No altar da cruz, Jesus se sacrifica a si mesmo, oferece como sacerdote sua vida ao Pai em benefício da salvação de todos, perdoando os pecados.

No sacerdócio de Melquisedec, cuja origem familiar e a morte são desconhecidas, está a figura do único e verdadeiro sacerdócio de Cristo, sacerdócio este não adquirido por genealogia humana, mas de origem divina. A oferta de pão e vinho de Melquisedec é imagem pálida da Eucaristia do Senhor Jesus.

Por fim, a festa de Corpus Christi recorda a partilha do pão material que deve se realizar entre os que crêem.  Sobre este aspecto, o capítulo 6 de João oferece ótima reflexão. Inicia-se com a narrativa da multiplicação dos pães, os quais Jesus manda sejam distribuídos pelos Apóstolos. O pão que mata a fome física é imagem do pão espiritual que sacia a alma. A fome dos empobrecidos, sejam eles membros da comunidade de fé ou não, cristãos ou não, é um desafio para quem se aproxima da mesa da Comunhão eucarística, pois se o Senhor foi capaz de dar sua vida por nós, como podemos estar em união com Ele se não somos capazes de ao menos partilhar o que temos com aqueles que pouco ou nada têm?

A solenidade do Santíssimo Corpo e Sangue do Senhor para os que crêem alimenta a fé, une no amor e prepara para a vida eterna, onde se dará o verdadeiro e definitivo banquete de Deus com os que foram salvos.

Corpus Christi: Ele está no meio de nós! Sinal de amor supremo! Lição de solidária partilha!

dom Gil Antônio Moreira

===========

M A R I A

Maria, mulher judia, mãe de Jesus, terá um lugar na nossa fé?
No nosso imaginário?
Será ela uma rainha de quem se esperam favores?
Um refúgio maternal na dureza da vida?
Uma presença feminina numa instituição masculina?
Uma luz no caminho?


E se, esquecendo por momentos o que vinte séculos de cristianismo fizeram de Maria, pegássemos simplesmente no Evangelho?

Na sobriedade da linguagem evangélica esconde-se uma grande densidade de vida. Nos primeiros capítulos de Lucas, portadores de um sentido muito para além daquilo que contam, Maria não é ofuscada pela promessa mirífica do anjo Gabriel. Não é uma mulher crédula, pede uma explicação:

"Como é que vai ser isso?". Depois parte ao encontro da sua prima Isabel. Quando se tem um segredo muito grande, muito pesado, tem-se necessidade de se confiar num amigo, alguém de quem se está seguro de que compreenderá; daí o longo trajeto de Nazaré a Eln-Karem. O encontro entre as duas mulheres é extraordinário de interioridade. Pelo sopro do Espírito, são transparentes uma com a outra. E Maria, a silenciosa, entoa o Magnificat que anuncia que Deus derruba os poderosos dos seus tronos e despede os ricos de mãos vazias.

Mais tarde, a vemos inquieta. Circulam rumores de que Jesus está fora de si. Um dia, estando a ensinar, vêm dizer-lhe: "Tua mãe e teus irmãos estão lá fora a perguntar por ti". Maria sentia subir a oposição à volta de Jesus. Conhecia o destino reservada aos profetas. Temia pela vida do seu filho. Certamente também estava um pouco perturbada com o seu ensinamento nem sempre coincidente com o dos sumos-sacerdotes. Opor-se àqueles que são considerados os depositários da verdade exige muita lucidez e coragem.

No Evangelho de João, encontramo-la em Caná. "Já não têm vinho", diz ela ao seu filho, que lhe responde: "Ainda não chegou a minha hora". É um pouco como se Maria desse Jesus à luz para o ministério. Ela diz aos criados, simplesmente: "Fazei o que ele vos disser".

Junto à cruz, está de pé. Assume até ao fim. Jesus dirige-se à sua mãe pela última vez. Solenemente chama-lhe "mulher" e acrescenta "eis aí o teu filho", designando João de pé ao lado dela. A este diz-lhe "eis a tua mãe!". Palavra terna e cruel. O seu filho, aquele que ela trouxe no ventre, deu à luz, criou, amou, horrivelmente morto, confia-lhe um outro filho a quem, ao mesmo tempo, a confia. Como se um filho pudesse substituir outro! A maternidade não pode dobrar-se sobre si mesma, deve continuar a dar vida.

Nada nos é dito de Maria e da Ressurreição, isso aconteceu no segredo do seu coração.

Voltamos a encontrá-la no cenáculo, o quarto do sótão onde, depois da partida de Jesus, os discípulos se encontravam "unânimes, dizem-nos os Atos dos Apóstolos, assíduos à oração, com algumas mulheres, entre as quais Maria, a mãe de Jesus, e os seus irmãos". É a primeira imagem, simples e bela, da Igreja nascente: os amigos de Jesus, homens e mulheres, seus irmãos, sua mãe, todos juntos na expectativa do Espírito.

===================================

Texto para reflexão - Controla teu pensamento

 

Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre,

tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável,

tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável,

eis o que deve ocupar vossos pensamentos.
(Filipenses 4, 8)

 

Nosso cérebro alimenta-se de nossos pensamentos. Nossos pensamentos dirigem nossa vida, daí que é importante saber discernir e permitir quais pensamentos devem se situar em nossa vida e quais não. Há pessoas que não controlam seu pensamento mais se deixam irracionalmente levar por ele. Seus pensamentos os  controlam.  

 

Há pensamentos obsessivos, delirantes, neuróticos, etc. Cada pessoa deve revisar sua maneira de pensar. Se teus pensamentos fazem-te ser mais humano, mais felizes… esses pensamentos vêm de Deus para renovar nossa vida. Se, ao contrario, os pensamentos são sempre tristes, absurdos, cheios de medo, incapazes de te fazer crescer como pessoa… esses pensamentos não vêm de Deus que sempre quer o melhor para nós.

 

Ter pensamentos agradáveis, ver o lado bom da vida, faz que as pessoas queiram manter a experiência de Deus. Pecamos com o pensamento quando este nos leva ao desânimo e ao desespero.

 

Em lugar de saber dirigir seu pensamento a uma meta, há pessoas que os instintos lhe afastam de onde para valer gostariam de estar. Têm vivido pensando não vivendo…

 

 Tarefa da semana

Faça uma lista com os 5 pensamentos que mais te perturbam.

Recorda desde quando estes pensamentos te perturbam e tenta entender porque apareceram em tua vida.

Quando lembrares de pensamentos que te entristecem, muda imediatamente de atitude e tenta pensar em coisas que realmente te realizem como pessoa.   

Queira Deus que esta tarefa que começas nesta semana a vivas a cada dia pelo resto de tua existência.

Fontes

Buzón Católica

Bíblia Católica Online

==========================

Uma ceia, um Sacramento: O Pão de Vida

Um grupo de amigos senta-se em torno da mesa. Estão muitas vezes juntos. Dialogam. Conversam. Riem. Às vezes também se aborrecem. Une-lhes um deles. É o líder. Mostrou-lhes um caminho diferente, uma forma diversa de ver o mundo. As pessoas têm um rosto novo. Fala-lhes de Deus e de seu Reino. É uma mensagem que rompe moldes. Propõe uma verdadeira revolução.

É o mundo de pernas para o ar. Os pobres terão um posto privilegiado na mesa comum e os ricos serão como um a mais. O posto de honra é o que ocupam habitualmente os criados. E os mais importantes nesse Reino fazem precisamente o que fazem os criados. Não há lugar para a vingança nem para a violência. Mas sim para o perdão sem limites e a reconciliação.

A ceia de hoje não é uma a mais. Todos sentem que tem algo de despedida. O mestre diz adeus. Não sabem, que algo vai suceder. Algo mau que vai romper esta comunhão em que têm vivido nos últimos anos. Sentem-se inquietos. O tempo vai passando. Os pratos sucedem-se. Os alimentos se consomem. Uma vez mais, o importante não é o que se come senão a convivência, a comunhão, a escuta. Esta noite deixam falar o mestre. Intuem que pode ser a última vez.

“Isto é meu corpo”

A surpresa vem quando o mestre toma o pão e o cálice de vinho e entrega a todos para que o compartilhem. É um sinal de comunhão. É um sinal de sua amizade, do muito que têm compartilhado e que é difícil de expressar. Mas o líder, o mestre, Jesus, acrescenta umas palavras misteriosas: “Isto é meu corpo”, “Esta é meu sangue”. Seu corpo e seu sangue entregam-se para a vida do mundo. Sua entrega, sua morte, é a condição para que o Reino se faça possível. Tudo o que têm sonhado juntos pelos caminhos da Galileia, tudo o que têm falado, o novo mundo feito de perdão e reconciliação, a nova família dos filhos e filhas de Deus, tudo isso, parece que passa necessariamente pela separação, pela morte de Jesus.

Não entendem muito, mas compartilham aquele pão e aquele vinho. Já tinham compartilhado muitas vezes a comida com Jesus. Com Jesus e com os pecadores. Com Jesus e com os pobres. Com Jesus e com os marginados. Mas hoje tem um sabor e uma cor diferente. O Reino está mais perto, mas tem de passar pela páscoa da dor e da morte. O futuro inquieta-lhes, mas a atitude de Jesus alenta sua esperança. Não entendem tudo o que passa, mas o rosto de Jesus lhes segue enchendo de paz.

Depois virá a crucificação, a morte. Depois experimentarão a ressurreição. E voltarão a comer com Jesus muitas vezes. Os de Emaús lhe reconhecerão ao partir o pão e sentirão seu coração arder ao escutar como lhes explicava as escrituras. Também à orla do lago compartilharão o pão e um peixe asado.

O melhor presente que nos podia deixar

E depois, cada vez que os discípulos se juntavam, gostavam de compartilhar o pão e o vinho e repetir aquelas palavras de Jesus. O pão e o vinho adquiriam uma nova dimensão e um novo significado. Jesus e seu Reino faziam-se presentes no meio deles. Fazer memória daquela última ceia dava-lhes forças e fazia-lhes se sentirem comprometidos para anunciar a boa nova do Reino a todos os homens e mulheres de seu mundo. Forçava-lhes a trabalhar por um mundo mais justo e mais humano, mais irmão e mais solidário. Davam obrigados juntos, compartilhavam sua fé, escutavam a Palavra, compartilhavam o pão e o vinho. Faziam-no na intimidade de suas casas, em pequenas reuniões de crentes. Era a celebração central de sua fé.

Hoje seguimos celebrando a Eucaristia. Escutamos a palavra, compartilhamos a fé, comungamos o pão e o vinho, fazemos memória de Jesus ressuscitado. E saímos à rua para seguir celebrando a Eucaristia com todos os homens e mulheres de nosso mundo. Compartilhar com eles o pão e o vinho da vida diária, da justiça, do perdão, da reconciliação, da fraternidade. Estender a mão ao irmão e fechar o círculo do Reino, dos Filhos e Filhas de Deus, onde ninguém está excluído e todos são acolhidos no amor e a misericórdia de Deus Pai.

Hoje a Eucaristia segue sendo promessa de vida, fonte de esperança, lugar de fraternidade, encontro com Jesus e tantas outras coisas mais, que nos fazem viver em plenitude e ser mais felizes.

Pe. Fernando Torres

O DÍZIMO NÃO É UMA PRÁTICA FILANTRÓPICA

O dízimo não deve ser uma prática filantrópica, mais um gesto religioso. Dizimar deve brotar de um coração misericordioso que quer levar um pouco de consolo ao que está passando necessidade, participar da manutenção da sua paróquia...

Como cristãos devemos acrescentar que nossas oferendas devem levar a nossa manifestação de gratidão pelo Sacrifício de Cristo, dom de Deus para a humanidade (Jo 3,16), ao mesmo tempo deve nos mostrar como pessoas que assimilamos os valores do Reino.

O dízimo aponta em seu propósito para quatro elementos, como se fossem os quatro pontos cardeais: Para Deus, para o próximo, para a criação e para nós mesmos.

Para DeusO dízimo nos leva a reconhecer seu soberano domínio e os benefícios que vêem de sua Mão. Deus é o proprietário do mundo e em particular daquilo que nos concedeu.

Para o próximo Move-nos à generosidade, à prática da caridade e, em muitos casos, a vivencia da justiça. Tem uma dimensão salvífica (Mt 25,31-46). É uma amostra de nossa generosidade que nos faz crescer por dentro, educa no amor e contribui para a verdadeira união entre os membros da comunidade.

Para a criação – Leva-nos a nós mostrar livres ante as coisas materiais, como tenentes de Deus na criação. Não se trata de condenar os bens materiais, mas é um convite para que caminhemos sem apegos e sem cair na escravidão do materialismo.

Para nós mesmosMove-nos a perceber os valores transcendentes e nossas expectativas de salvação, nos permite ver o irmão necessitado. Permite que nos afastemos do pecado insaciável da ganância.

Os membros da Igreja Católica devem observar cinco preceitos chamados de Mandamentos da Igreja; estes se relacionam diretamente com o Primeiro Mandamento da Lei de Deus, pois do amor a Deus se derivam o culto que lhe corresponde, as obras piedosas e a doação para com sua Igreja. Os Mandamentos da Igreja Católica são:

 

1

Participar da Missa todos os domingos e dias de preceito.

2

Confessar uma vez ao ano, e em perigo de morte, e receber a Eucaristia.

3

Receber a Eucaristia pelo menos uma vez ao ano, especialmente na Páscoa da Ressurreição.

4

Jejuar e abster-se de comer carne quando manda a Santa Mãe Igreja.

5

Ajudar a Igreja em suas necessidades, cada um segundo a sua capacidade.

 

Para cumprir com o quinto Mandamento da Igreja, devemos dar o dízimo, que deve ser entregue a Deus como reconhecimento de seu domínio supremo (Levítico 27, 30-33). O dízimo se oferece a Deus, porém se transfere a seus ministros.

A oferenda do dízimo não pode ser substituída por nenhum outro donativo dada por qualquer outro conceit

Textos Bíblicos

Jo 3,16
16 Porque Deus amou o mundo de tal maneira que deu o seu Filho unigênito, para que todo aquele que nele crê não pereça, mas tenha a vida eterna.

Mt 25,31-46
31 Quando, pois vier o Filho do homem na sua glória, e todos os anjos com ele, então se assentará no trono da sua glória;
32 e diante dele serão reunidas todas as nações; e ele separará uns dos outros, como o pastor separa as ovelhas dos cabritos;
33 e porá as ovelhas à sua direita, mas os cabritos à esquerda.
34 Então dirá o Rei aos que estiverem à sua direita: Vinde, benditos de meu Pai. Possuí por herança o reino que vos está preparado desde a fundação do mundo;
35 porque tive fome, e me destes de comer; tive sede, e me destes de beber; era forasteiro, e me acolhestes;
36 estava nu, e me vestistes; adoeci, e me visitastes; estava na prisão e fostes ver-me.
37 Então os justos lhe perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, e te demos de comer? ou com sede, e te demos de beber?
38 Quando te vimos forasteiro, e te acolhemos? ou nu, e te vestimos?
39 Quando te vimos enfermo, ou na prisão, e fomos visitar-te?
40 E responder-lhes-á o Rei: Em verdade vos digo que, sempre que o fizestes a um destes meus irmãos, mesmo dos mais pequeninos, a mim o fizestes.
41 Então dirá também aos que estiverem à sua esquerda: Apartai-vos de mim, malditos, para o fogo eterno, preparado para o Diabo e seus anjos;
42 porque tive fome, e não me destes de comer; tive sede, e não me destes de beber;
43 era forasteiro, e não me acolhestes; estava nu, e não me vestistes; enfermo, e na prisão, e não me visitastes.
44 Então também estes perguntarão: Senhor, quando te vimos com fome, ou com sede, ou forasteiro, ou nu, ou enfermo, ou na prisão, e não te servimos?
45 Ao que lhes responderá: Em verdade vos digo que, sempre que o deixaste de fazer a um destes mais pequeninos, deixastes de o fazer a mim.
46 E irão eles para o castigo eterno, mas os justos para a vida eterna.

Levítico 27, 30-33
31 Se alguém quiser remir uma parte dos seus dízimos, acrescentar-lhe-á a quinta parte.
32 Quanto a todo dízimo do gado e do rebanho, de tudo o que passar debaixo da vara, esse dízimo será santo ao Senhor.
33 Não se examinará se é bom ou mau, nem se trocará; mas se, com efeito, se trocar, tanto um como o outro será santo; não serão remidos.

Padre Claudio

================

"Vinde Jesus"


"Ó Sol nascente
Que vos ergueis por sobre nós mortais,
Iluminando os cegos de nascença
Na luz do vosso rosto:
Vinde, Jesus,

Estrela da manhã!

Cantamos vossa vinda gloriosa!

Pascal Cordeiro,

Que em vosso Sangue resgatais do exílio,

Reconduzindo as almas desgarradas

À Terra Prometida:

Vinde, Jesus,
Pastor das águas vivas!
Cantamos vossa Vinda gloriosa".

Verdadeiramente «cegos de nascença», como precisamos dessa vinda gloriosa de Cristo, que Se nos revela na simplicidade e na humildade; como deveremos ambicionar essa vinda esplendorosa manifestada no despojamento e no serviço vividos com intensidade até ao fim!

Como «almas desgarradas» do Coração de Deus, porque distraídos do essencial, busquemos, em espírito e verdade, aquela paz e suavidade que nos libertam de verdade das muralhas e prisões que nos agarram ao efêmero e ao instante!

Há uma estrada aberta diante de nós: a Terra Prometida. Que alcançaremos apenas na medida da nossa adesão apaixonada e decidida ao Evangelho do Reino que nos pede dedicação, abandono, confiança e abnegação.

Sedentos de eternidade, carentes de corações renovados, famintos de uma paz que o mundo jamais nos alcançará, havemos de nos prostrar diante d'Esse pastor das águas vivas que nos sacia e liberta bem por dentro!

«Na luz do vosso rosto», ó Senhor, ensinai-nos a todos nós a permanecer no vosso Lado aberto, nesse Coração trespassado por amor; reensinai-nos a beleza da cruz, a sabedoria do lava-pés, a glória de sermos os últimos e os escravos de todos...

Exilados nos «Egiptos» das nossas indiferenças e dos nossos egoísmos, exilados nas nossas verdades imutáveis e enganadoras, precisamos dessa vinda gloriosa de Deus à nossa inteligência e ao nosso coração fragmentado e dividido, confuso e baralhado entre os triunfos do mundo e a vitória da cruz!

«Ó Sol nascente que Vos ergueis por sobre nós, mortais», vinde iluminar as nossas cegueiras para sermos a Igreja que se sabe e crê «sal da terra e luz do mundo»!

Abençoa-nos, ó Pastor de todos os pastores, ó Sacerdote Único de Deus, cabeça e caminho, verdade e vida de todos os sacerdotes, peregrinos e, por vezes, errantes, nos caminhos do mundo.

Vem e seja a nossa paz; vem e seja a nossa força; vem e seja a nossa luz; vem e seja a razão do nosso sim, do nosso agir e viver.

E, quando abraçarmos as «terras do exílio», atrai-nos para aquela outra onde «jorra leite e mel», a Terra Prometida da entrega sem limites, da palavra feita vida em cada um de nós, da verdade explicitada em cada opção do nosso ministério.

Ó «estrela da manhã», vinde e iluminai as nossas escuridões, vinde e transfigurai as nossas «noites da existência».

«Pascal Cordeiro», vinde, vinde depressa aos nossos corações para que eles rejubilem apenas na medida em que somos vossos, todos vossos...

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira

======================

PEDIDOS DOS FILHOS

Os filhos pedem a seus pais e educadores vinte solicitações.

1. Não tenham medo de ser firmes comigo. Sua firmeza me dá segurança.
2. Não me tratem com excesso de mimo. Nem tudo o que eu peço me convém. 3. Não me corrijam na frente de outras pessoas. Isso me revolta.
4. Não permitam que eu forme maus hábitos. Dependo de vocês para saber o que é certo e o que é errado.
5. Não façam promessas apressadas. Sinto-me mal quando as promessas não são cumpridas.
6. Não me sufoquem com suas preocupações. Eu também preciso aprender com o sofrimento e com os erros.
7. Não sejam falsos comigo. A falsidade faz eu perder a fé em vocês.
8. Não me incomodem com ninharias. Irei fazer-me de surdo.
9. Não dêem a impressão de serem perfeitos, infalíveis. O choque será muito grande quando eu descobrir seus defeitos.

10. Não deixem sem respostas minhas perguntas. Do contrário, deixarei de fazê-las e buscarei informações em outros lugares.
11. Não se sintam humilhados ao ter que pedir desculpas. O perdão me aproxima de vocês.
12. Não digam que minhas preocupações e problemas são tolices. Tentem compreender-me. Ficarei mais sereno.
13. Não esqueçam que estou crescendo e mudando rapidamente. Tentem acertar o passo comigo.
14. Não me comprem presentes. O melhor presente é a presença de vocês. Com vocês sinto-me seguro, forte, amado.
15. Acolham-me desde a fecundação, alimentem-me com aleitamento materno, dêem-me colo, toquem-me porque preciso de tudo isto para crescer saudável e equilibrado.
16. Preciso de um pai forte e amigo, de uma mãe equilibrada e feliz. Seu jeito de ser é que fica marcado em mim. Poderei esquecer suas palavras, não esquecerei seus gestos.
17. Não imponham nem direcionem minha profissão e vocação. Podem aconselhar-me, mostrar-me suas razões, mas deixem-me a liberdade de escolher. 18. Se vocês se amam eu me sinto amado por vocês. Se vocês brigam, não dialogam, não se perdoam, eu me sinto um órfão de pais vivos.
19. Porque vocês foram fracos no bem, eu agora sou forte no mal. Se vocês são pais despreparados eu cresço desequilibrado.
20. Se vocês não me elogiarem, se me castigarem injustamente, se não me ensinarem a rezar, se satisfizerem todos os meus desejos, vocês estragam minha vida.

Os filhos aprendem imitando. Daí a necessidade do casal se querer bem e dar bom exemplo. Dizia um filho aos pais: “peço que vocês me amem quando eu não mereço, porque é aí que eu mais preciso ser amado.” Nada disso é fácil. O nascimento dos filhos traz grandes mudanças na família. Os cônjuges se esquecem de serem esposos, trocam os papeis, e começam a ser somente pais. Apegar-se aos filhos e esquecer o cônjuge é um perigo. O primeiro amor na família é sempre o amor conjugal, depois o amor filial.

Além disso, temos pais agressivos e pais permissivos, mas precisamos de pai e mãe participativos. Os pais apegados aos filhos sofrem demais quando eles devem deixar o lar. Os desequilíbrios dos filhos levam ao desajuste do casal e vice-versa. Os pais conscientes tratam os filhos conforme a idade que eles têm. É preciso saber mudar de marcha. Pais ajustados, filhos equilibrados.

Um filho escreveu para seus pais: “Eu sou forte no mal porque vocês foram fracos no bem. Por isso estou preso”. Os pais nunca podem abdicar do diálogo, devem estar abertos em buscar soluções e aceitar ajuda. Ninguém é infalível. Os pais aprendem com os filhos, mas devem sempre colocar limites e apresentar valores. Lares sem disciplina criam filhos folgados e onipotentes que se tornam delinqüentes. É a tirania dos filhos sobre os pais.

Temos hoje a “família filiarcal” que sucedeu à família matriarcal e depois à patriarcal. Filiarcalismo é fazer dos filhos pequenos deuses. Eles não ajudam em nada nos trabalhos da casa, deixam roupas sujas em cada canto, só comem o que querem, dominam os pais que se tornam seus escravos e reféns. Pais permissivos são mais prejudiciais que os autoritários.

Os filhos emitem sintomas que sinalizam a presença de problemas familiares. Quando os pais vão mal os filhos entram em ansiedade. Hoje a grande tentação é resolver as crises com o “divórcio fácil”. É preciso crer nas soluções, na reorganização da família. O filho problema pode tornar-se o melhor. A ovelha negra se torna uma benção, quando recorremos a Deus, ao perdão, ao diálogo, à disciplina. Quem olha as soluções não cai nas acomodações. Os heróis se forjam nas carências e crises.

A arte de ser bons pais começa já no útero materno. A preparação para a missão de ser pai e mãe é assunto do namoro e noivado. Pais despreparados, filhos desequilibrados; pais ausentes, filhos delinqüentes; pais permissivos, filhos onipotentes; pais omissos, filhos rebeldes. Carregamos dentro de nós a criança que fomos no passado. Vale a pena investir no casal para que os filhos cresçam sadios, seguros e amorosos. A família é a esperança da sociedade e o futuro do mundo

Dom Orlando Brandes

.....................................

O que é espiriualidade?

Viver a espiritualidade é viver segundo o espírito e não segundo a carne. Pelo menos tentar fazer isso. Aquele ou aquela que tenta viver a espiritualidade, atende as necessidades  do espírito em vez de atender os reclamos da carne ou a satisfazer os prazeres carnais. São aqueles que usam  a sexualidade de forma correta, abençoada, em vez de serem promíscuos, ou desregrados, adúlteros, etc. mas a espiritualidade não se restringem somente ao comportamento sexual adequado, mas sim em seguir os ensinamentos de Cristo, acima de tudo praticando a justiça e a caridade.   Não se trata de nenhuma doutrina criada por nenhum homem e que se baseia na reencarnação, mas sim, ter uma vida dedicada ao Plano de Deus, uma vida orientada pelo evangelho de Jesus Cristo.

++++++++++++++++++++++++++++++++++

EUCARISTIA

"O pão de Deus, é o que desce do céu e dá a vida ao mundo.

Desci do céu para fazer a vontade daquele

que me enviou. Ora, a vontade daquele que

me enviou é que eu nada perca daquilo

que me deu, mas que o ressuscite no último dia."

Viver para sempre libertados, graças ao "Filho do Homem que veio dar a sua vida em resgate por todos" (Mc 10, 45): é isso que festejamos em cada celebração eucarística. A partir do concílio Vaticano II, a missa reencontrou o seu sopro de libertação. Durante a oração eucarística, a assembléia cristã, de pé e já não ajoelhada, exprime que celebramos um Deus libertador, um Deus que salva do mal e da morte.

É, antes de mais, uma celebração efetuada por todo um povo, no quadro de uma reunião para a qual somos convocados; refeição festiva, onde os convidados tomam tempo para se olharem, para se escutarem mutuamente, para se libertarem do peso do seu quotidiano através da partilha com os outros.

Tempo de acolhimento e abertura, no qual se toma consciência de que em nós moram outras fomes: "Nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus." Libertação do coração para acolher essa palavra.

Através do primeiro e do segundo Testamentos, relemos a história e vemos como Deus intervém para reerguer os seres humanos, quaisquer que sejam, e mais particularmente os seus enviados, Abraão, Moisés e o povo de Israel, arrancado à servidão do Egito ou da Babilônia.

Um dos motes é: "Não receies! Levanta-te e vai!"

Jesus, na linha de numerosos profetas, pronuncia esta frase com uma força criadora, perante os doentes e enfermos (paralíticos, cegos, surdos), perante as vítimas de desastres e as pessoas fechadas no inferno de uma vida sem horizontes. "Vai, a tua fé te salvou!" Ele próprio se mostra completamente livre perante as limitações impostas por outra ordem, a ordem da Lei e do sábado. A sua única regra: "fazer o bem, salvar uma vida em vez de perdê-la" (Mc 3, 4).

Estes acontecimentos, comentados e meditados durante a missa, suscitam uma oração coletiva e pessoal, e desencadeiam a entrada num esforço de libertação que nos ergue, em atitude de louvor, dialogando a uma só voz, através dos cânticos, com a pessoa que preside à ação de graças: "A ti, Pai santo, o nosso louvor, por Jesus Cristo. Ele é o caminho que conduz a ti, ele é a verdade que liberta, ele é a vida que nos enche de júbilo.”

De pé também, no momento da comunhão, tal como os hebreus comiam a Páscoa, com os rins cingidos e as sandálias nos pés, prontos para a caminhada rumo ao desconhecido que era uma terra completamente livre.

Mas entre o momento da partida e o momento da chegada à terra prometida, há quarenta anos de deserto, a longa prova da libertação paciente e quotidiana. Libertados, sim, com todos os matizes do "já" e do "ainda não"! "Os nossos pais comeram o maná e morreram. Aquele que comer deste pão que desceu do céu não morrerá; viverá eternamente." (Jo 6, 49)

Viver esta dimensão libertadora no seio do mundo e no seio das nossas Igrejas, exprimindo a fé que nos habita com palavras impregnadas da nossa cultura do terceiro milênio; com a nossa maneira de conceber relações de parceria no interior das nossas comunidades, libertando-nos também nós das regras caducas que nos afastam do essencial, a exemplo do que fizeram os primeiros cristãos de Antioquia: disseram "não" à circuncisão e conseguiram que a sua posição fosse reconhecida pelas instâncias de Jerusalém, abrindo assim aos gentios as portas do Evangelho (ver Atos dos Apóstolos 15). São Paulo insiste: "Se Cristo vos libertou, é para que sejais verdadeiramente livres" (Gal 5, 1).

Pe. Claudio

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

OH DEUS MEU, EU TE AMO!

Se me perguntarem qual é a melhor oração e a mais curta que posso oferecer a Deus a qualquer momento e em qualquer lugar, falo sem titubear que a resposta são seis palavras: OH DEUS MEU, EU TE AMO!

E de forma entusiástica, convido você a repetir estas palavras ardentes durante todas as horas em que você está acordado. Nada pode ser mais grato a Deus, nem tão edificante tal ato, de freqüente amor e fervor.

No princípio estas palavras podem parecer mecânicas, ou soar artificialmente em seus lábios, mas por meio da repetição logo acabaram se tornando tão significante para você, como é a realidade.

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Não existe um pensamento, um sentimento ou uma aspiração, vindas de você, que estas palavras não possam comunicar a Deus. Em seus lábios e em seu coração elas podem se tornar a fórmula e a expressão de toda a virtude e de todo o desejo. Isto é a realidade, porque elas significam o que significam, podendo expressar um sem número de outros significados.

 

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Quer dizer, eu acredito em Você, eu O adoro, eu espero em Você... eu O amo na felicidade, na dor, na desilusão... Quero amar-Te e fazer que Te amem cada vez mais.

Por que esta curta oração é tão rica em significados e bênçãos de toda a natureza? Por que eu desejo que você siga repetindo esta oração?

Porque ela é a expressão perfeita da caridade, a maior das virtudes, e toda vez que você a repetir, estará cumprindo o maior dos Mandamentos. Você lembra daquele dia, em que um certo Doutor da Lei, querendo submeter à prova Jesus, se aproximou Dele e perguntou: Qual Mandamento da Lei de Deus é o maior?

Citando as Palavra escritas em Deuteronômio, um dos Livros do Antigo Testamento, Jesus deu a seguinte resposta: “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração e com toda a tua alma e com todas as tuas forças". Este é o maior dos Mandamentos e o primeiro.

Assim como as aves foram criadas para voar, os peixes para nadar e as estrelas para iluminar o céu, os nossos corações foram criados para amar a Deus. Para poder alcançar esta finalidade, recebemos no Batismo, junto com a graça santificante, as virtudes teológicas da Fé, esperança e caridade, assim como os demais dons e as virtudes necessárias para viver a vida sobrenatural.

As probabilidades de que todas estas virtudes infundidas em nós não se desenvolverão nem crescerão em nossas almas como desejamos, se nós não tomarmos o cuidado e a precaução de levar a cabo atos correspondentes. Daí a importância de multiplicar nossos atos de Fé, emoções e caridade. Um ato de amor pode incluir tudo.

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Todos os santos viveram e morreram com estas palavras nos corações e não somente nos lábios. Santo Agostinho nunca pode deixar de admirar-se de que Deus infinito nos tinha enviado, pobres pecadores, a mensagem para o amarmos. "Quem sou, Oh Deus meu!, para que Tu me mandes que te ame e me ameace com Tua ira se não Te amar?

São João da Cruz dizia que "o menor movimento de puro amor é de maior valor para a Igreja do que todas as obras juntas”. Ao enviar seus missionários para o Novo Mundo, Santa Magdalena Sofía Barat lhes falou: "Se somente chegassem onde pudessem estabelecer um único Tabernáculo, e atingir um pobre ser selvagem com um único ato de amor, não seria isto uma felicidade tão grande que perduraria para o resto das suas vidas e conseguiria para vocês um mérito abundante para toda a eternidade?".

Santa Teresa do Menino Jesus morreu com este mesmo ato de amor nos lábios: OH DEUS MEU, EU TE AMO!. Ela previamente havia afirmado: "somente existe uma coisa que nós devemos fazer durante este breve dia, ou melhor dizendo, esta breve noite de nossa existência: é amar, amar Jesus com toda a força de nosso coração e salvar almas para Ele, para que Ele seja amado".

Se você quer viver e morrer como os Santos no amor e desfrutando da amizade de Deus, também você deve adquirir e cultivar o hábito de fazer atos ferventes de amor a cada dia de sua vida, lembrando sempre que um só destes atos pode apagar não só seus pecados diários e suas imperfeições, mas todos de uma vida inteira, sempre e quando naturalmente tenhas a intenção de fazer uma boa confissão em quanto te seja possível. Lembra do bom ladrão na cruz, ele fez um ato de amor perfeito. Lá naquele momento o Cristo Moribundo o canonizou. "Este dia, Ele o assegurou, você estará comigo no Paraíso".

O que seria mais fácil e mais meritório do que dizer: OH DEUS MEU, EU TE AMO! quando você se levanta pela manhã ou quando você se recolhe à noite, em sua felicidade e em tua dor, na saúde e na doença, na Igreja ou em casa, no jogo ou no trabalho, na rua ou na loja, em todas suas atividades durante as idas e vindas do dia?.

Uma vez que você adquiriu o hábito de fazer atos freqüentes de amor, você pode implantar e encorajar este hábito entre seus amigos, parentes, conhecidos, e principalmente aos doentes e moribundos, entre as crianças... Se as crianças na escola e no lar forem ensinadas por meio da palavra, do exemplo e do encorajamento, no hábito freqüente de dizer com fervor estas seis palavras: OH DEUS MEU, EU TE AMO!, a educação delas será verdadeiramente coroada de sucesso duradouro e se multiplicarão as vocações.

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Pensa na glória que você pode dar a Deus, do bem que você pode fazer às almas na terra e no Purgatório, se constantemente você repetir este ato de amor por todo o tempo e em todo o lugar, encorajando a tantos como você para que possam também repetir este ato. Pensa nas bênçãos que cairão em sua paróquia e em sua pátria se centenas de fieis e milhares de cidadãos, continuamente se elevarem neste ato de amor para Deus.

Me permita ter certeza uma vez mais que se você continua freqüentemente dizendo e de coração estas seis palavras: OH DEUS MEU, EU TE AMO!, na verdade estas palavras te fará muito santo e feliz no tempo e na eternidade.

por Rev. Jules V. Simoneau, S.S.S.

++++++++++++++++++++++++++++++++++++

APRENDER A ESCUTAR

Existem muitas barreias que impedem os seres humanos de encadear uma comunicação adequada e um encontro mais profundo com seus semelhantes. Uma destas barreiras e não querer “escutar”.

Diz a Palavra de Deus que nossa Mãe, Maria Santíssima, escutava a voz de seu Senhor e guardava todas as coisas em seu coração.

Poucas pessoas em verdade se atrevem a guardar silêncio e paz em seu coração! Há pessoas que aprendem a escutar, meditar e aprofundar o que Deus lhe disse, crescem em seu interior, se convertem em gigantes em conhecimentos e podem chegar a ser sabias. Os discípulos de Jesus chegaram a ser grandes mestres e pregadores, porque primeiro foram seguidores de Cristo e souberam escuta-lo.

O que escuta ama em silêncio e se faz parte da outra pessoa, guarda em seu coração um recinto sagrado onde convida essa pessoa com quem quer comunicar-se a repousar com ele e ali, interiormente em sua alma, o atende. O que escuta se converte em um homem de paz. O que aprende a escutar aprende também a respeitar a presença da outra pessoa.

O que escuta no dialogo a seu próximo, seja seu irmão, seu esposo ou esposa, seus filhos ou seu amigos, se faz mais humano. Essa pessoa chega a amar mais, porque compreende e conhece melhor os demais. Quando fala, sabe bem o que diz; porque primeiro escuta, medita em seu coração e logo expressa seus pensamentos e sentimentos. Uma maneira de fazer amigos de verdade consiste simplesmente em saber escutar. Quando o amor matrimonial esta esmorecendo, muitas vezes a causa é que não se estão escutando mutuamente.

Uma coisa é ouvir outra muito distinta e escutar. O que escuta de verdade de alguma forma esta amando, colocando o outro em uma situação que corresponde como ser humano e filho de Deus. Escutar não significa ter que estar sempre de acordo com a outra pessoa, mas aceita-la em suas diferentes manifestações. Assim, o outro se sente acolhido, querido e importante e se realiza uma pequeno, porém grande milagre de amor, um renascimento interior.

Algumas das barreiras que não permitem escutar e impedem a comunicação são:

Não querer comprometer-se
– É muito mais cômodo viver só, tranqüilo e sem preocupações. Comunicando-se e escutando alguma pessoa, se compromete a ser amigo, o qual pode implicar em amar e servir a essa pessoa e preocupar-se com ela.

Ter outros interesses
– Existem pessoas que valorização seu negocio, seu dinheiro, sua roupa e muitas outras coisas materiais mais que as pessoas. Isso e muito triste quando se põem uma coisa ou um objeto material com um valor superior a de um ser humano.

Falta de paciência – A muitas pessoas lhes falta paciência e controle emocional para escutar. Existem pessoas que não tem um momento de paz e tranqüilidade para escutar, porque supostamente tem muitas outras coisas para fazer. No fundo é um mecanismo de defesa, uma forma de escapar da realidade.

Falta de compreensão
– É necessário compreender que a outra pessoa é um ser humano, podendo ser sua esposa, seu esposo, seu pai ou sua mãe, seu filho ou filha, seu chefe, seu subalterno ou seu amigo. O que na verdade escuta entende que cada pessoa é um ser humano único. Essa pessoa é ALGUEM que tem algo importante para lhe comunicar, porque Ele é importante. Como tal, tem um mensagem a transmitir.

Por isso, insistimos que tentem aprende o bom e saudável habito de escutar. Escute a Deus e também a você mesmo, pois seus idéias e pensamentos mais profundos são importantes. Não se desvalorize. Anote suas idéias mais luminosas e faça um diário.

Deus o escuta sempre. Ele é seu melhor amigo e o compreende. O Senhor tem todo o tempo que você necessita e sempre está disponível para atende-lo. Tenha plena confiança em Deus, aproxime-se mais do Senhor orando muito, exponha tudo com suas próprias palavras. Fale com amor e fé é Ele o escutará e com Ele, você será invencível.

Pe. Claudio

+++++++++++++++++++++++++++++++++

SUPERAR O MAL COM O BEM

Ouvistes que foi dito: Olho por olho, e dente por dente.
Eu, porém, vos digo que não resistais ao homem mau;
mas a qualquer que te bater na face direita, oferece-lhe também a outra; e ao que quiser pleitear contigo, e tirar-te a túnica, larga-lhe também a capa; e, se qualquer te obrigar a caminhar mil passos, vai com ele dois mil.
Dá a quem te pedir, e não voltes as

costas ao que quiser que lhe emprestes.
Ouvistes que foi dito: Amarás ao teu próximo,

e odiarás ao teu inimigo.
Eu, porém, vos digo: Amai aos vossos inimigos, e orai pelos que vos perseguem;
para que vos torneis filhos do vosso Pai que está nos céus;
porque ele faz nascer o seu sol sobre maus e bons, e faz chover sobre justos e injustos.
Pois, se amardes aos que vos amam, que recompensa tereis?
não fazem os publicanos também o mesmo?
E, se saudardes somente os vossos irmãos, que fazeis demais?
não fazem os gentios também o mesmo?
Sede vós, pois, perfeitos, como é perfeito o vosso Pai celestial.
(Mateus 5, 38-48)

 

As palavras de Jesus são surpreendentes. Exprimem o desmedido. Enquanto vivemos habitualmente num sistema dar-dar: "olho por olho, dente por dente", Jesus convida-nos a passar para uma outra lógica: não a da passividade, mas, pelo contrário, de aceitação de um risco que restabelece uma relação feliz para ambas as partes. "Eu digo-vos: não oponhais resistência ao mau". Dá sem esperares nada em troca e sem desesperares de ninguém. Supera o mal com o bem. E sairás do gueto do medo.

"Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra".

Estas palavras estranhas adquirem sentido nesta lógica de ultrapassagem do abuso: rompe com a agressão e a vingança.

Não respondas à violência com violência. Quebra a lógica da rivalidade. Tenta fazer com que o teu agressor tome consciência da violência que tem em si. Mostra ao teu agressor a força de quem não tem medo. Se o teu rosto estiver desarmado, podes conseguir desarmar aquele que te confronta.

Nesse aspecto, esta atitude segue os mecanismos de inibição, bem conhecidos nas relações humanas, tal como no comportamento animal.

Num combate entre lobos, aquele que sente que vai perder oferece a garganta ao animal dominante, inibindo assim a sua agressividade. Trata-se de um método de regulação. Nas relações humanas, aquele ou aquela que assume uma atitude não-violenta confunde o agressor, aquele que dá mais do que aquilo que lhe é pedido desconcerta e corta a escalada da violência.

"Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pede..."

Jesus faz-nos compreender que aquele que dá nunca perde. Aquele que dá, transforma os outros e a si mesmo.

No célebre romance "Os Miseráveis", de Victor Hugo, a polícia prende o antigo forçado que é suspeito de ter roubado os talheres de prata do bispo. Levam-no ao paço episcopal. O bispo não acusa o homem que lhe é apresentado pela polícia. Pelo contrário, declara que os talheres são dele e dá-lhe mais dois candelabros de prata!

Quer que o outro viva. E, graças a esse dom, o antigo forçado retoma o seu estatuto de homem livre.

"Amai os vossos inimigos"

Não amar apenas aqueles que nos amam, na lógica do dar-dar.

Na vida vulgar, convido para minha casa aqueles que me convidam para a sua, ofereço presentes àqueles que mos oferecem a mim, faço favores a quem mos faz... Temos de imitar a generosidade do Pai, que faz com que o sol nasça para os bons e para os maus. O seu amor engloba toda a família humana, sem excepção. Ninguém é excluído.

Podemos pensar que estas palavras, "Amai os vossos inimigos", não se dirigem a nós, pois estamos "bem" com toda a gente. Não temos inimigos. Mas os inimigos não são apenas exteriores. Há também inimigos interiores, que nem por isso são menos temíveis: reacções de poder, de violência, de medo, bem como desejos que nunca tiveram o direito de viver em nós, porque os reprimimos, muitas vezes desde a infância.

Esta lógica de superação já não visa o interesse imediato. Entramos no longo prazo, na dinâmica da amizade em que se dá e se recebe.

Estas relações humanas, que nos ligam aos outros, são da mesma ordem que aquelas que Deus quer tecer com todos e cada um de nós.

 Pe. Claudio

++++++++++++++++++++++++++++++++++++

POR QUE SE CONFESSAR?

“A reconciliação é a beleza de Deus”

Carta pastoral do arcebispo de Chieti-Vasto, Dom Bruno Forte


1. Por que se confessar?

Entre as perguntas que meu coração de bispo se faz, escolho uma que me fazem sempre: por que há que se confessar? É uma pergunta que sempre é feita de muitas formas: por que ir a um sacerdote para dizer os próprio pecados e não se pode fazer diretamente a Deus, que nos conhece e compreende muito melhor que qualquer interlocutor humano? E, de maneira mais radical: por que falar de minhas coisas, especialmente daquelas das quais me envergonho até comigo mesmo, a alguém que é pecador como eu, e que talvez valorize de modo completamente diferente ao meu minha experiência, ou não a compreende totalmente? O que ele sabe do que é pecado para mim? Alguém acrescenta: e além disso, existe verdadeiramente o pecado, ou é só uma invenção dos sacerdotes para que nos comportemos bem?

A esta última pergunta creio que possa responder em seguida e sem temor que me desmintam: o pecado existe, e não só é mal, como faz mal. Basta ver a cena cotidiana do mundo, onde se dissipa a violência, guerras, injustiças, abusos, egoísmos, ciúmes e vinganças (exemplo deste «boletim de guerra» nos é dado hoje pelas notícias nos jornais, rádio, televisão e internet). Quem acredita no amor de Deus, além disso, percebe que o pecado é amor isolado sobre si mesmo («amor curvus», «amor fechado», diziam os medievais), ingratidão de quem responde ao amor com a indiferença e a rejeição. Esta rejeição tem consequências não só em quem o vive, mas também em toda a sociedade, até produzir condicionamentos e entrelaçamentos de egoísmos e de violências que se constituem em autênticas «estruturas de pecado» (pensemos nas injustiças sociais, na desigualdade entre países ricos e pobres, no escândalo da fome no mundo…). Justamente por isto não se deve duvidar em sublinhar quão grande é a tragédia do pecado e como a perda de sentido do pecado – muito diferente dessa enfermidade da alma que chamados «sentimento de culpa»– debilita o coração diante do espetáculo do mal e das seduções de Satanás, o adversário que tenta nos separar de Deus.

2. A experiência do perdão

Apesar de tudo, no entanto, não creio em poder afirmar que o mundo é mau e que fazer o bem é inútil. Pelo contrário, estou convencido de que o bem existe e é muito maior que o mal, que a vida é bela e que viver retamente, por amor e com amor, vale verdadeiramente a pena. A razão profunda que me leva a pensar assim é a experiência da misericórdia de Deus que faço em mim mesmo e que vejo resplandecer em tantas pessoas humildes: é uma experiência que vivi muitas vezes, tanto dando o perdão como ministro da Igreja, como o recebendo. Há anos que me confesso com regularidade, várias vezes ao mês e com alegria de fazê-lo. A alegria nasce do sentir-me amado de modo novo por Deus, cada vez que seu perdão me alcança através do sacerdote que me dá em seu nome. É a alegria que vi sempre no rosto de quem vinha confessar-se: não o fútil sentido de alívio de quem «esvaziou o saco» (a confissão não é um desabafo psicológico nem um encontro consolador, ou não o é principalmente), mas a paz de sentir-se bem «dentro», tocados no coração por um amor que cura, que vem de cima e nos transforma. Pedir com convicção o perdão, recebê-lo com gratidão e dá-lo com generosidade é fonte de uma paz impagável: por isso, é justo e é bonito confessar-se. Queria partilhar as razões desta alegria a todos aqueles aos quais consiga chegar com esta carta.

O fiel me perguntas então: por que há que se confessar a um sacerdote os próprios pecados e não se pode fazer diretamente a Deus? Certamente, a pessoa se dirige sempre a Deus quando confessa os próprios pecados. Que seja, contudo, necessário fazê-lo também diante de um sacerdote o próprio Deus nos faz compreender: ao enviar seu Filho com nossa carne, demonstra querer encontrar-se conosco mediante um contato direto, que passa por meio dos sinais e das linguagens de nossa condição humana. Assim como Ele saiu de si mesmo por nosso amor e veio a «nos tocar» com sua carne, também nós somos chamados a sair de nós mesmos por seu amor e ir com humildade e fé a quem pode nos dar o perdão em seu nome com a palavra e com o gesto. Só a absolvição dos pecados que o sacerdote te dá no sacramento pode comunicar-te a certeza interior de ter sido verdadeiramente perdoado e acolhido pelo Pai que está nos céus, porque Cristo confiou ao ministério da Igreja o poder de atar e desatar, de excluir e de admitir na comunidade da aliança (cf. Mt 18,17). É Ele que, ressuscitado da morte, disse aos Apóstolos: «Recebei o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, serão perdoados; a quem os reterdes, serão retidos» (Jo 20,22-23). Portanto, confessar-se com um sacerdote é muito diferente de fazê-lo no segredo do coração, exposto a tantas inseguranças e ambigüidades que enchem a vida e a história. Tu sozinho não saberás nunca verdadeiramente se quem te tocou foi a graça de Deus ou tua emoção, se quem te perdoou foi tu mesmo ou foi Ele pela via que Ele escolheu. Absolvido por quem o Senhor elegeu e enviou como ministro do perdão, poderás experimentar a liberdade que só Deus dá e compreenderás porque se confessar é fonte de paz.

4. Um Deus próximo à nossa fraqueza

A confissão é, portanto, o encontro com o perdão divino, que nos é oferecido em Jesus e que nos é transmitido mediante o ministério da Igreja. Neste sinal eficaz da graça, encontro com a misericórdia sem fim, é-nos oferecido o rosto de um Deus que conhece como ninguém nossa condição humana e se faz próximo com terno amor. Os inumeráveis episódios da vida de Jesus nos demonstram, desde o encontro com a Samaritana à cura do paralítico, desde o perdão à adúltera às lágrimas diante da morte do amigo Lázaro... Desta proximidade terna e compassiva de Deus temos imensa necessidade, como demonstra também um simples olhar para nossa existência: cada um de nós convive com a própria fraqueza, atravessa a enfermidade, assoma à morte, adverte o desafio das perguntas que tudo isto cria no coração. Por muito que logo possamos desejar fazer o bem, a fragilidade que nos caracteriza a todos nos expõe continuamente ao risco de cair na tentação. O Apóstolo Paulo descreveu com precisão esta experiência: «Há em mim o desejo do bem, mas não a capacidade de realizá-lo; com efeito, eu não faço o bem que quero, mas o mal que não quero» (Rm 7,18s). É o conflito interior do qual nasce a invocação: «Quem me libertará deste corpo que me leva à morte?» (Rm 7,24). A ela responde de modo especial o sacramento do perdão, que vem a nos socorrer sempre de novo em nossa condição de pecado, alcançando-nos com a força curadora da graça divina e transformando nosso coração e nossos comportamentos. Por isso, a Igreja não se cansa de nos propor a graça deste sacramento durante todo o caminho de nossa vida: através dela, Jesus, verdadeiro médico celestial, toma nossos pecados e nos acompanha, continuando sua obra de cura e de salvação. Como acontece em cada história de amor, também a aliança com o Senhor há que ser renovada sem descanso: a fidelidade e o empenho sempre novo do coração que se entrega e acolhe o amor que lhe é oferecido, até o dia em que Deus será tudo em todos.

5. Etapas do encontro com o perdão

Precisamente porque foi desejado por um Deus profundamente «humano», o encontro com a misericórdia que nos é oferecido por Jesus se produz em várias etapas, que respeitam os tempos da vida e do coração. No início, está a escuta da boa notícia, na qual te alcança o chamado do Amado: «O tempo se cumpriu e o Reino de Deus está próximo; convertei-vos e crede na Boa Nova» (Mc 1,15). Por meio dessa voz o Espírito Santo atua em ti, dando-te doçura para consentir e crer na Verdade. Quando te tornas dócil a esta voz e decides responder com todo o coração a Quem te chama, empreendes o caminho que te leva ao presente maior, um dom tão valioso que leva Paulo a dizer: «Em nome de Cristo vos suplicamos: reconciliai-vos com Deus!» (2Cor 5,20).

A reconciliação é precisamente o sacramento do encontro com Cristo que, mediante o ministério da Igreja, vem socorrer a debilidade de quem traiu ou rejeitou a aliança com Deus, reconcilia-o com o Pai e com a Igreja, recria-o como criatura nova na força do Espírito Santo. Este sacramento é chamado também de penitência, porque nele se expressa a conversão do homem, o caminho do coração que se arrepende e vem a invocar o perdão de Deus. O termo confissão –usado normalmente– refere-se, em contrapartida, ao ato de confessar as próprias culpas diante do sacerdote, mas recorda também a tripla confissão que há que se fazer para viver em plenitude a celebração da reconciliação: a confissão de louvor («confessio laudis»), com a qual fazemos memória do amor divino que nos precede e nos acompanha, reconhecendo seus sinais em nossa vida e compreendendo melhor assim a gravidade de nossa culpa; a confissão do pecado, com a qual apresentamos ao Pai nosso coração humilde e arrependido, reconhecendo nossos pecados («confessio peccati»); a confissão de fé, por último, com a qual nos abrimos ao perdão que livra e salva, que nos é oferecido com a absolvição («confessio fidei»). Por sua vez, os gestos e as palavras nas quais expressamos o dom que recebemos confessarão na vida as maravilhas realizadas em nós pela misericórdia de Deus.


6. A festa do encontro

Na história da Igreja, a penitência foi vivida em uma grande variedade de formas, comunitárias e individuais, que contudo todas mantiveram a estrutura fundamental do encontro pessoal entre o pecador arrependido e o Deus vivo, por meio da meditação do ministério do bispo ou do sacerdote. Por meio das palavras da absolvição, pronunciadas por um homem pecador que, contudo, foi eleito e consagrado para o ministério, é Cristo mesmo aquele que acolhe o pecador arrependido e o reconcilia com o Pai e no dom do Espírito Santo o renova como membro vivo da Igreja. Reconciliados com Deus, somos acolhidos na comunhão vivificante da Trindade e recebemos em nós a vida nova da graça, o amor que só Deus pode infundir em nossos corações: o sacramento do perdão renova, assim, nossa relação com o Pai, com o Filho e com o Espírito Santo, em cujo nome se nos dá a absolvição das culpas. Como mostra a parábola do Pai e os dois filhos, o encontro da reconciliação culmina em um banquete de pratos saborosos, no qual se participa com o traje novo, o anel e os pés calçados (cf. Lc 15,22s): imagens que expressam a alegria e a beleza do presente oferecido e recebido. Verdadeiramente, para usar as palavras do pai na parábola, «comamos e celebremos uma festa, porque este meu filho estava morto e voltou à vida; estava perdido e foi encontrado» (Lc 15,24). Que bonito pensar que aquele filho pode ser cada um de nós!


7. A volta à casa do Pai

Em relação a Deus Pai, a penitência apresenta-se como uma «volta para casa» (este é propriamente o sentido da palavra «teshuvá», que o hebraico usa para dizer «conversão»). Mediante a tomada de consciência de tuas culpas, tu te dás conta de estar no exílio, longe da pátria do amor: tu sentes mal-estar, dor, porque compreendes que a culpa é uma ruptura da aliança com o Senhor, uma rejeição de seu amor, é «amor não amado», e por isso é também fonte de alienação, porque o pecado tira-nos de nossa verdadeira morada, o coração do Pai. É então quando faz falta recordar a casa na qual nos esperam: sem esta memória do amor não poderíamos nunca ter a confiança e a esperança necessárias para tomar a decisão de voltar a Deus. Com a humildade de quem sabe que não é digno de ser chamado «filho», podemos decidir a ir bater à porta da casa do Pai: que surpresa descobrir que está na janela olhando o horizonte porque espera há muito tempo nosso retorno! A nossas mãos abertas, ao coração humilde e arrependido, responde o oferecimento gratuito do perdão com o qual o Pai nos reconcilia consigo, «convertendo-nos» de alguma maneira a nós mesmos: «Estando ele ainda longe, seu pai o viu e, comovido, correu, lançou-se ao pescoço e o beijou efusivamente» (Lc 15,20). Com extraordinária ternura, Deus introduz-nos de modo renovado na condição de filhos, oferecida pela aliança estabelecida em Jesus.


8. O encontro com Cristo, morto e ressuscitado por nós

Em relação ao Filho, o sacramento da reconciliação nos oferece a alegria do encontro com Ele, o Senhor crucificado e ressuscitado, que, através de sua Páscoa nos dá a vida nova, infundindo seu Espírito em nossos corações. Este encontro se realiza mediante o itinerário que leva a cada um de nós a confessar nossas culpas com humildade e dor pelos pecados e a receber com gratidão plena de estupor o perdão. Unidos a Jesus em sua morte de Cruz, morremos ao pecado e ao homem velho que nele triunfou. Seu sangue, derramado por nós nos reconcilia com Deus e com os demais, derrubando o muro da inimizade que nos mantinha prisioneiros de nossa solidão sem esperança e sem amor. A força de sua ressurreição nos alcança e transforma: o ressuscitado nos toca o coração, o faz arder com uma fé nova que nos abre os olhos e nos torna capazes de reconhecer-lhe junto a nós e reconhecer sua voz em quem tem necessidade de nós. Toda nossa existência de pecadores, unida a Cristo crucificado e ressuscitado, se oferece à misericórdia de Deus para ser curada da angústia, liberada do peso da culpa, confirmada nos dons de Deus e renovada no poder de seu Amor vitorioso. Libertos pelo Senhor Jesus, somos chamados a viver como Ele livres do medo, da culpa e das seduções do mal, para realizar obras de verdade, de justiça e de paz.


9. A vida nova do Espírito

Graças ao dom do Espírito que infunde em nós o amor de Deus (cf. Rm 5,5), o sacramento da reconciliação é fonte de vida nova, comunhão renovada com Deus e com a Igreja, da qual precisamente o Espírito é a alma e a força de coesão. O Espírito impulsiona ao pecador perdoado a expressar na vida a paz recebida, aceitando sobretudo as conseqüências da culpa cometida, a chamada «pena», que é como o efeito da enfermidade representada pelo pecado, e que há que ser considerada como uma ferida para ser curada com o óleo da graça e a paciência do amor que temos que ter a nós mesmos. O Espírito, além disso, nos ajuda a amadurecer o firme propósito de viver um caminho de conversão feito de empenhos concretos de caridade e de oração: o sinal penitencial requerido pelo confessor serve justamente para expressar esta eleição. A vida nova, à que assim renascemos, pode demonstrar mais que qualquer outra coisa a beleza e a força do perdão invocado e recebido sempre de novo («perdão» quer dizer justamente dom renovado: perdoar é dar infinitamente!) Pergunto-te então: por que prescindir de um presente tão grande? Aproxima-te da confissão com coração humilde e contrito e vive-a com fé: mudar-te-á a vida e dera paz a teu coração. Então, teus olhos se abrirão para reconhecer os sinais da beleza de Deus presentes na criação e na história e te surgirá da alma o canto de louvor.

E também a ti, sacerdote que me lês e que, como eu, és ministro do perdão, queria dirigir um convite que me nasce do coração: estejas sempre pronto –a tempo e contratempo–, a anunciar a todos a misericórdia e a dar a quem te pede o perdão que necessita para viver e morrer. Para aquela pessoa, poderia se tratar da hora de Deus em sua vida!


10. Deixemo-nos reconciliar com Deus!

O convite do apóstolo Paulo se converte, assim, também no meu: expresso-o servindo-me de duas vozes distintas. A primeira, é a de Friedrich Nietzsche, que, em sua juventude, escreveu palavras apaixonadas, sinal da necessidade de misericórdia divina que todos levamos dentro: «Uma vez mais, antes de partir e dirigir meu olhar até o alto, ao ficar só, elevo minhas mãos a Ti, em quem me refugio, a quem desde o profundo do coração consagrei alteras, para que cada hora tua voz me volte a chamar...

Quero conhecer-te, a Ti, o Desconhecido, que penetres até o fundo da alma e como tempestade sacudas minha vida, tu que és incansável e, contudo, semelhante a mim! Quero conhecer-te e também servir-te» («Scritti giovanili», «Escritos Juvenis» I, 1, Milão 1998, 388). A outra voz é a que se atribui a S. Francisco de Assis, que expressa a verdade de uma vida renovada pela graça do perdão: «Senhor, fazei de mim um instrumento de vossa paz. Que onde haja ódio, eu leve o amor. Que onde haja ofensa, eu leve o perdão. Que onde haja discórdia, eu leve a união. Que onde haja erro, eu leve a verdade. Que onde haja dúvida, eu leve a Fé. Que lá onde haja desespero, eu leve a esperança. Que onde haja trevas, eu leve a luz. Que onde haja tristeza, leve alegria. Ó Senhor, que eu não busque tanto ser consolado, mas consolar, ser compreendido, mas compreender, ser amado, mas amar». São estes os frutos da reconciliação, invocada e acolhida por Deus, que desejo a todos vós que me ledes. Com este desejo, que se faz oração, vos abraço e abençôo um a um.

 Bruno Forte

++++++++++++++++++++++++++++++++++

PRENDER A ESCUTAR

Existem muitas barreias que impedem os seres humanos de encadear uma comunicação adequada e um encontro mais profundo com seus semelhantes. Uma destas barreiras e não querer “escutar”.

Diz a Palavra de Deus que nossa Mãe, Maria Santíssima, escutava a voz de seu Senhor e guardava todas as coisas em seu coração.

Poucas pessoas em verdade se atrevem a guardar silêncio e paz em seu coração! Há pessoas que aprendem a escutar, meditar e aprofundar o que Deus lhe disse, crescem em seu interior, se convertem em gigantes em conhecimentos e podem chegar a ser sabias. Os discípulos de Jesus chegaram a ser grandes mestres e pregadores, porque primeiro foram seguidores de Cristo e souberam escutá-lo.

O que escuta ama em silêncio e se faz parte da outra pessoa, guarda em seu coração um recinto sagrado onde convida essa pessoa com quem quer comunicar-se a repousar com ele e ali, interiormente em sua alma, o atende. O que escuta se converte em um homem de paz. O que aprende a escutar aprende também a respeitar a presença da outra pessoa.

O que escuta no dialogo a seu próximo, seja seu irmão, seu esposo ou esposa, seus filhos ou seu amigos, se faz mais humano. Essa pessoa chega a amar mais, porque compreende e conhece melhor os demais. Quando fala, sabe bem o que diz; porque primeiro escuta, medita em seu coração e logo expressa seus pensamentos e sentimentos. Uma maneira de fazer amigos de verdade consiste simplesmente em saber escutar. Quando o amor matrimonial esta esmorecendo, muitas vezes a causa é que não se estão escutando mutuamente.

Uma coisa é ouvir outra muito distinta e escutar. O que escuta de verdade de alguma forma esta amando, colocando o outro em uma situação que corresponde como ser humano e filho de Deus. Escutar não significa ter que estar sempre de acordo com a outra pessoa, mas aceita-la em suas diferentes manifestações. Assim, o outro se sente acolhido, querido e importante e se realiza uma pequeno, porém grande milagre de amor, um renascimento interior.

Algumas das barreiras que não permitem escutar e impedem a comunicação são:

Não querer comprometer-se
– É muito mais cômodo viver só, tranqüilo e sem preocupações. Comunicando-se e escutando alguma pessoa, se compromete a ser amigo, o qual pode implicar em amar e servir a essa pessoa e preocupar-se com ela.

Ter outros interesses
– Existem pessoas que valorização seu negocio, seu dinheiro, sua roupa e muitas outras coisas materiais mais que as pessoas. Isso e muito triste quando se põem uma coisa ou um objeto material com um valor superior a de um ser humano.

Falta de paciência – A muitas pessoas lhes falta paciência e controle emocional para escutar. Existem pessoas que não tem um momento de paz e tranqüilidade para escutar, porque supostamente tem muitas outras coisas para fazer. No fundo é um mecanismo de defesa, uma forma de escapar da realidade.

Falta de compreensão
– É necessário compreender que a outra pessoa é um ser humano, podendo ser sua esposa, seu esposo, seu pai ou sua mãe, seu filho ou filha, seu chefe, seu subalterno ou seu amigo. O que na verdade escuta entende que cada pessoa é um ser humano único. Essa pessoa é ALGUEM que tem algo importante para lhe comunicar, porque Ele é importante. Como tal, tem um mensagem a transmitir.

Por isso, insistimos que tentem aprende o bom e saudável habito de escutar. Escute a Deus e também a você mesmo, pois seus idéias e pensamentos mais profundos são importantes. Não se desvalorize. Anote suas idéias mais luminosas e faça um diário.

Deus o escuta sempre. Ele é seu melhor amigo e o compreende. O Senhor tem todo o tempo que você necessita e sempre está disponível para atende-lo. Tenha plena confiança em Deus, aproxime-se mais do Senhor orando muito, exponha tudo com suas próprias palavras. Fale com amor e fé é Ele o escutará e com Ele, você será invencível.




por Mons. Rómulo Emiliani, c.m.f.

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

MELHORAR SEMANA A SEMANA VII

Texto para reflexão - Entende tua fragilidade

 

De fato, não entendo o que faço, pois não faço o que quero,

mas o que detesto.  Ora, se faço o que não quero,

estou concordando que a Lei é boa.

No caso, já não sou eu que estou agindo,

mas sim o pecado que habita em mim.

(Carta aos Romanos 7, 15-18)

 

Em cada ser humano há uma luta interior que não cessa. Cada pessoa tem dois mundos em que vive. Pode ser o mundo das idéias e o da realidade. Pode ser  o mundo dos desejos e do que realmente podemos conseguir...

A vida do cristão é um olhar-se interiormente com serenidade, dando-se a cada dia o benefício do auto-perdão. Se Cristo deu sua vida por mim como não me vou perdoar?

Pode ser que sejas como não gostes e te custe muito fazer o que realmente queres. Há sempre essa luta interna para entender. Deus sabe quais são nossa realidade e limitações, nossos anseios e as grandes batalhas que existem em nosso interior. O Senhor compreende nossa fragilidade, por isso tem vindo para nos dar as “chaves” pre

cisas para que não nos assustemos ante nossas próprias tragédias.

Tarefa da semana

Queira Deus que esta tarefa que começas nesta semana a vivas a cada dia pelo resto de tua existência.

Fontes

Buzón Católica

Bíblia Católica Online

+++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++

OH DEUS MEU, EU TE AMO!

Se me perguntarem qual é a melhor oração e a mais curta que posso oferecer a Deus a qualquer momento e em qualquer lugar, falo sem titubear que a resposta são seis palavras: OH DEUS MEU, EU TE AMO!

E de forma entusiástica, convido você a repetir estas palavras ardentes durante todas as horas em que você está acordado. Nada pode ser mais grato a Deus, nem tão edificante tal ato, de freqüente amor e fervor.

No princípio estas palavras podem parecer mecânicas, ou soar artificialmente em seus lábios, mas por meio da repetição logo acabaram se tornando tão significante para você, como é a realidade.

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Não existe um pensamento, um sentimento ou uma aspiração, vindas de você, que estas palavras não possam comunicar a Deus. Em seus lábios e em seu coração elas podem se tornar a fórmula e a expressão de toda a virtude e de todo o desejo. Isto é a realidade, porque elas significam o que significam, podendo expressar um sem número de outros significados.

 

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Quer dizer, eu acredito em Você, eu O adoro, eu espero em Você... eu O amo na felicidade, na dor, na desilusão... Quero amar-Te e fazer que Te amem cada vez mais.

Por que esta curta oração é tão rica em significados e bênçãos de toda a natureza? Por que eu desejo que você siga repetindo esta oração?

Porque ela é a expressão perfeita da caridade, a maior das virtudes, e toda vez que você a repetir, estará cumprindo o maior dos Mandamentos. Você lembra daquele dia, em que um certo Doutor da Lei, querendo submeter à prova Jesus, se aproximou Dele e perguntou: Qual Mandamento da Lei de Deus é o maior?

Citando as Palavra escritas em Deuteronômio, um dos Livros do Antigo Testamento, Jesus deu a seguinte resposta: “Amarás o Senhor teu Deus com todo teu coração e com toda a tua alma e com todas as tuas forças". Este é o maior dos Mandamentos e o primeiro.

Assim como as aves foram criadas para voar, os peixes para nadar e as estrelas para iluminar o céu, os nossos corações foram criados para amar a Deus. Para poder alcançar esta finalidade, recebemos no Batismo, junto com a graça santificante, as virtudes teológicas da Fé, esperança e caridade, assim como os demais dons e as virtudes necessárias para viver a vida sobrenatural.

As probabilidades de que todas estas virtudes infundidas em nós não se desenvolverão nem crescerão em nossas almas como desejamos, se nós não tomarmos o cuidado e a precaução de levar a cabo atos correspondentes. Daí a importância de multiplicar nossos atos de Fé, emoções e caridade. Um ato de amor pode incluir tudo.

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Todos os santos viveram e morreram com estas palavras nos corações e não somente nos lábios. Santo Agostinho nunca pode deixar de admirar-se de que Deus infinito nos tinha enviado, pobres pecadores, a mensagem para o amarmos. "Quem sou, Oh Deus meu!, para que Tu me mandes que te ame e me ameace com Tua ira se não Te amar?

São João da Cruz dizia que "o menor movimento de puro amor é de maior valor para a Igreja do que todas as obras juntas”. Ao enviar seus missionários para o Novo Mundo, Santa Magdalena Sofía Barat lhes falou: "Se somente chegassem onde pudessem estabelecer um único Tabernáculo, e atingir um pobre ser selvagem com um único ato de amor, não seria isto uma felicidade tão grande que perduraria para o resto das suas vidas e conseguiria para vocês um mérito abundante para toda a eternidade?".

Santa Teresa do Menino Jesus morreu com este mesmo ato de amor nos lábios: OH DEUS MEU, EU TE AMO!. Ela previamente havia afirmado: "somente existe uma coisa que nós devemos fazer durante este breve dia, ou melhor dizendo, esta breve noite de nossa existência: é amar, amar Jesus com toda a força de nosso coração e salvar almas para Ele, para que Ele seja amado".

Se você quer viver e morrer como os Santos no amor e desfrutando da amizade de Deus, também você deve adquirir e cultivar o hábito de fazer atos ferventes de amor a cada dia de sua vida, lembrando sempre que um só destes atos pode apagar não só seus pecados diários e suas imperfeições, mas todos de uma vida inteira, sempre e quando naturalmente tenhas a intenção de fazer uma boa confissão em quanto te seja possível. Lembra do bom ladrão na cruz, ele fez um ato de amor perfeito. Lá naquele momento o Cristo Moribundo o canonizou. "Este dia, Ele o assegurou, você estará comigo no Paraíso".

O que seria mais fácil e mais meritório do que dizer: OH DEUS MEU, EU TE AMO! quando você se levanta pela manhã ou quando você se recolhe à noite, em sua felicidade e em tua dor, na saúde e na doença, na Igreja ou em casa, no jogo ou no trabalho, na rua ou na loja, em todas suas atividades durante as idas e vindas do dia?.

Uma vez que você adquiriu o hábito de fazer atos freqüentes de amor, você pode implantar e encorajar este hábito entre seus amigos, parentes, conhecidos, e principalmente aos doentes e moribundos, entre as crianças... Se as crianças na escola e no lar forem ensinadas por meio da palavra, do exemplo e do encorajamento, no hábito freqüente de dizer com fervor estas seis palavras: OH DEUS MEU, EU TE AMO!, a educação delas será verdadeiramente coroada de sucesso duradouro e se multiplicarão as vocações.

OH DEUS MEU, EU TE AMO! Pensa na glória que você pode dar a Deus, do bem que você pode fazer às almas na terra e no Purgatório, se constantemente você repetir este ato de amor por todo o tempo e em todo o lugar, encorajando a tantos como você para que possam também repetir este ato. Pensa nas bênçãos que cairão em sua paróquia e em sua pátria se centenas de fieis e milhares de cidadãos, continuamente se elevarem neste ato de amor para Deus.

Me permita ter certeza uma vez mais que se você continua freqüentemente dizendo e de coração estas seis palavras: OH DEUS MEU, EU TE AMO!, na verdade estas palavras te fará muito santo e feliz no tempo e na eternidade.

por Rev. Jules V. Simoneau, S.S.S.

=====================================

 VIVER NA PRESENÇA DE DEUS

Hoje, quando eu saí do trabalho me sentia um pouco agoniado, tudo porque vivemos em um mundo violento onde é difícil de alcançar a santidade. As tentações são abundantes, os maus exemplos são muitos. Parece que perdemos a fé. Geralmente, quando eu me sinto deste modo, procuro um sacerdote para me confessar e pedir seu conselho. Estava pensando nisto, a caminho da Igreja.

Como entrar no Paraíso? Como alcançar a santidade? Como agradar a Deus? Liguei o rádio do carro e sintonizei uma estação católica na qual rezavam este salmo:

 "Senhor, quem entrará em tua casa
e habitará na montanha sagrada?
O que é irreparável e age com justiça,
o que diz a verdade de coração
e não forja calunias;
o que não prejudica seu irmão
nem o próximo molesta com ofensas... "


Deus estava me falando, como fala a todos na Bíblia. Mas eu sentia que desta vez falava para mim. Me mostrava o caminho. Respondia às minha inquietudes.

O que nos diz Deus? Diz que devemos agir com justiça, que é necessário dizer a verdade de coração e não desejar o mal aos outros. Os santos descobriram isto muitos séculos atrás. Por isso Santo Agostinho repetia: "Ama, ama bem, e então faça o que você quer, porque quem ama verdadeiramente a Deus, não será capaz de fazer o que a Ele desagrada e por outro lado se dedicará a fazer tudo aquilo que a Ele agrade.".

Viver na presença de Deus é amá-lo com todo o coração, é o que nos conduzirá à perfeição e a santidade. Ter a presença de Deus em sua vida. Mas nós somos tão fracos... Quem poderá alcançar isto? Como eu vou reconciliar-me com meu irmão? Não te desanimes. Deus te ama, e não te abandonará na metade do caminho. A verdade é que Ele é enlouquecido de Amor por nós.

A vida de pecados, te afasta de Deus. Então você deve mudar e iniciar uma nova caminhada. Como? Reconciliando-se com o Pai, fazendo uma boa confissão sacramental.

Como vou superar as minhas fraquezas e me fortalecer? Através da Eucaristia que é a fonte da qual recebemos os dons necessários do céu para nos fortalecer e agirmos com justiça.

Por isso a comunhão diária é tão importante em nosso tempo. E então? Se assim agirmos caminharemos pelo caminho do bem. Aprenderemos a confiar. A participa em nossa paróquia. A encoraja nossos sacerdotes. A levar a boa Nova ao mundo cansado e triste. Você é o filho de um Rei. Sua Misericórdia e sua graça nunca te faltará.

Pe. Claudio

===============================

PADRE EM TEMPO DE MUDANÇA

Um amigo, morador do interior gaúcho, tinha tudo para ser feliz: terra, casa boa, gado, porcos, galinhas, dinheiro. Só faltava uma causa maior a que se dedicar: uma esposa, filhos, alguma pessoa que dependesse de sua ajuda, um projeto de comunidade. Certo dia, após uma boa venda de porcos, ele se enforcou! Ninguém ousou indagar a razão do desespero!

Hoje de manhã, rádio ligado, escutei a frase de um mestre: “Quando eu era jovem, eu suspeitava que o dinheiro fosse a coisa mais importante da vida. Hoje tenho certeza”!

Se isto fosse verdade, o amigo não teria desesperado, pois dinheiro ele tinha. Existe algo mais profundo no ser humano: a necessidade de amor e da dedicação a alguém. Parafraseando o mestre: Quando eu era jovem, eu achava que o amor e o espírito de serviço fossem a coisa mais importante para ser feliz. Hoje tenho certeza! Minha mãe, caminhando para os 99 anos, é muito feliz com seus dez filhos. Um belo sorriso ilumina seu rosto sempre que um deles aparece!

Aliás, foi Jesus quem priorizou o amor como condição de vida feliz e agradável a Deus. É dele também a frase: “Não vim para ser servido, mas para servir”. A pessoa se dedica a alguém ou a algo, nem que seja dinheiro. Oferecer o coração e a vida ao metal e aos “dragões da sociedade” é causa pobre. Que Onassis, tão rico em dinheiro e navios, o diga! Mas dedicar a vida à felicidade das pessoas plenifica uma vida, dá sentido ao viver.

É oportuno fazer estas reflexões por ocasião do “mês vocacional” (agosto), cujo primeiro domingo é dedicado à vocação e à missão do padre. Um bom sacerdote confessou: “Nós padres estamos sobrando na sociedade atual. Somos bichos estranhos e não temos o que dizer”.

É claro, não temos o que dizer sobre como aumentar o lucro, exercer o poder a favor dos interesses de dominação e gozar a vida sem referência ao Evangelho. O ancião de 84 anos, residente sobre a colina do Vaticano, acha que devemos até gritar os valores da cultura do amor, da solidariedade globalizada, da defesa da vida, da promoção da paz.

As pessoas precisam muito de “padres-pastores” desapegados dos bens que passam, disponíveis para todos, especialmente aos pobres e sofredores, solidamente vinculados a Deus, interessados em crescer como pessoas e em competência pastoral, irmanados aos demais presbíteros na missão comum, na co-responsabilidade com o laicato.

Temos no Brasil um clero com boa auto-estima, de bem com o povo, com iniciativas elogiosas de ajuda mútua, inclusive de encontros nacionais, regionais e diocesanos.

Mas o povo das comunidades é chamado a fazer a sua parte: prestar o apoio da oração, da solidariedade nas crises, da amizade sem fingimento. O povo gosta de seus padres. Jesus também ama os padres, quais discípulos seus e apóstolos por Ele enviados ao coração do povo.

===============================================

As palavras de Jesus são surpreendentes. Exprimem o desmedido. Enquanto vivemos habitualmente num sistema dar-dar: "olho por olho, dente por dente", Jesus convida-nos a passar para uma outra lógica: não a da passividade, mas, pelo contrário, de aceitação de um risco que restabelece uma relação feliz para ambas as partes. "Eu digo-vos: não oponhais resistência ao mau". Dá sem esperares nada em troca e sem desesperares de ninguém. Supera o mal com o bem. E sairás do gueto do medo.

"Se alguém te bater na face direita, oferece-lhe também a outra".

Estas palavras estranhas adquirem sentido nesta lógica de ultrapassagem do abuso: rompe com a agressão e a vingança.

Não respondas à violência com violência. Quebra a lógica da rivalidade. Tenta fazer com que o teu agressor tome consciência da violência que tem em si. Mostra ao teu agressor a força de quem não tem medo. Se o teu rosto estiver desarmado, podes conseguir desarmar aquele que te confronta.

Nesse aspecto, esta atitude segue os mecanismos de inibição, bem conhecidos nas relações humanas, tal como no comportamento animal.

Num combate entre lobos, aquele que sente que vai perder oferece a garganta ao animal dominante, inibindo assim a sua agressividade. Trata-se de um método de regulação. Nas relações humanas, aquele ou aquela que assume uma atitude não-violenta confunde o agressor, aquele que dá mais do que aquilo que lhe é pedido desconcerta e corta a escalada da violência.

"Se alguém te obrigar a acompanhá-lo durante uma milha, acompanha-o durante duas. Dá a quem te pede..."

Jesus faz-nos compreender que aquele que dá nunca perde. Aquele que dá, transforma os outros e a si mesmo.

No célebre romance "Os Miseráveis", de Victor Hugo, a polícia prende o antigo forçado que é suspeito de ter roubado os talheres de prata do bispo. Levam-no ao paço episcopal. O bispo não acusa o homem que lhe é apresentado pela polícia. Pelo contrário, declara que os talheres são dele e dá-lhe mais dois candelabros de prata!

Quer que o outro viva. E, graças a esse dom, o antigo forçado retoma o seu estatuto de homem livre.

"Amai os vossos inimigos"

Não amar apenas aqueles que nos amam, na lógica do dar-dar.

Na vida vulgar, convido para minha casa aqueles que me convidam para a sua, ofereço presentes àqueles que mos oferecem a mim, faço favores a quem mos faz... Temos de imitar a generosidade do Pai, que faz com que o sol nasça para os bons e para os maus. O seu amor engloba toda a família humana, sem excepção. Ninguém é excluído.

Podemos pensar que estas palavras, "Amai os vossos inimigos", não se dirigem a nós, pois estamos "bem" com toda a gente. Não temos inimigos. Mas os inimigos não são apenas exteriores. Há também inimigos interiores, que nem por isso são menos temíveis: reacções de poder, de violência, de medo, bem como desejos que nunca tiveram o direito de viver em nós, porque os reprimimos, muitas vezes desde a infância.

Esta lógica de superação já não visa o interesse imediato. Entramos no longo prazo, na dinâmica da amizade em que se dá e se recebe.

Estas relações humanas, que nos ligam aos outros, são da mesma ordem que aquelas que Deus quer tecer com todos e cada um de nós.

 ==============================

- Amai os vossos inimigos e orai por eles

Mt 5,43-48

          Hoje, mais uma vez Jesus nos pede uma das coisas mais difíceis de se praticar.  Amai os vossos inimigos e orai por aqueles que vos perseguem!” .   Rezar, até que é muito fácil, aliás, nós sempre rezamos pelos nossos inimigos e todos os que representam ameaças para nós, pedindo a Deus que nos proteja das suas maldades. Quando na verdade, deveríamos primeiro pedir pela suas conversões, e depois para que eles não nos façam nenhum mal.

            Mas Jesus é exigente e duro conosco no que se refere ao trato com os nossos irmãos.  E nos diz que somente agindo assim, é que  nos tornaremos dignos de sermos chamados filhos do nosso Pai que está nos céus. E acrescenta que  Deus manda o sol e a chuva para os bons e os maus.  Do mesmo modo, nós devemos fazer o bem sem olhar a quem.

Jesus nos lembra que se amarmos, se formos simpáticos, somente com aqueles que   nos amam, não teremos nenhuma  recompensa . Porque no dia a dia, os malvados fazem a mesma coisa. Eles só são gentis com os que podem lhes oferecer algo em troca, ou que por sua vez lhes são também agradáveis.  Será que não temos a tendência de fazer a mesma coisa?  Temos muita má vontade em ajudar aquela  velhinha a atravessar a rua. No entanto, somos muito gentis com aquela moça muito bonita que está carregando apenas umas sacolas...  Agimos sempre por interesse. Sempre tendo em mira o que vamos receber em troça.  Quando não falamos, pensamos:  O que vou ganhar com isso? O que receberei em toca?

  Sede, portanto, perfeitos como o vosso Pai celeste é perfeito. “  Esta é mais uma daquelas recomendações que Jesus nos faz e que jamais conseguiremos atingir. Como? Primeiro, a perfeição infelizmente é inatingível!  Segundo, ser perfeito como Deus, é impossível. O que Jesus quer nos dizer é que devemos sempre buscar a santidade e a perfeição, sem cessar. As duas virtudes formam um estado ideal do cristão.  Ele sabe que nunca as alcançaremos em sua totalidade, mas espera e conta com a nossa boa vontade, com o nosso esforço  em sermos cada dia melhor, cada dia menos indignos.  

Coragem! Vamos lutar contra o mal que ainda existe dentro de nós: nossos vícios, a preguiça, a inveja, os sentimentos de vingança, etc,  e buscar a cada dia a aproximação com Deus através de Jesus, e também com o próximo.

Sal.

===========

Você já rezou hoje?

 Irmãos. Paulo em sua Carta aos Colossenses (2,6-15) nos recomenda a aceitar a Cristo Jesus como Senhor, de nossas vidas, aquele que nos guia durante 24 horas, e que devemos nos deixar  ser conduzidos por sua luz. Apoiados  na fé que recebemos de presente pelo Pai, vamos conduzir os nossos passos na presença de Jesus, dando-lhe muitas graças todos os dias, por sermos escolhidos para levar ao irmão a sua mensagem salvadora.
E nesta caminhada, devemos estar alertas, para que ninguém nos desvie do caminho da verdade pregada por Jesus e nos leve para outra filosofia de doutrina falsa, baseada  em tradição e argumentos humanos, as quais se orientam pelas forças elementares do mundo,
sem se fundamentar em Cristo, aquele que provou ser o próprio Deus.
Este Cristo no qual habita toda a plenitude da divindade, dele devemos estar repletos, plenos, embebidos de sua presença como uma esponja se embebe de água, pois ele, sendo Deus, é a Cabeça de todas as forças e de todos os poderes, e por isso somos dependentes.
Com Cristo fomos sepultados no batismo; com ele também fomos ressuscitados
por meio da fé no poder de Deus, que ressuscitou a Cristo dentre os mortos. Dessa forma, Paulo nos aconselha a permanecermos  mortos para o pecado, pois Deus nos trouxe para a vida, junto com Cristo, e a todos nós perdoa os pecados, quantas vezes cairmos, na pessoa do sacerdote.
            No Evangelho, (
Lc 6,12-19),  Jesus  nos dá o exemplo de contemplação e diálogo com o Pai, passando a noite toda em oração a Deus. Isto, porque Ele tinha uma decisão muito importante ao amanhecer: a escolha dos doze discípulos.
Também nós nos encontramos às vezes diante de decisões difíceis, para as quais não temos poder de escolha, e ficamos sem saber o que fazer, com receio de tomarmos o caminho errado. E é nessa hora, que devemos fazer o que Cristo fez.  Rezar. Mas não é simplesmente rezar um pai nosso e uma Ava Maria e pronto. Pelo certo, deveríamos passar a noite inteira em sintonia com Deus, mais isso nem sempre é possível, pelos nossos compromissos no dia seguinte, para não acordar o restante da família, em fim, são muitas as nossas desculpas, as quais são até mesmo aceitáveis.  Porém, de qualquer forma, rezemos. Rezemos com fé, e pedimos ao Espírito Santo que nos dê o poder do discernimento entre uma coisa e outra.   
            Quando alguém se desgarra do caminho de Deus, se afasta de Jesus, quando pára de rezar, de viver de acordo com os ensinamentos do Mestre, tudo na vida fica mais complicado, exatamente, porque tomamos decisões por nossa própria conta. Nesta situação, o indivíduo não recorre mais à força divina, pedindo sua ajuda, seu auxílio, em outras palavras, ele rompe com Deus, e fica a mercê de satanás, o qual se aproveitando dessa oportunidade, se apróxima do pobre coitado, e o engana com promessas mentirosas, e quando a pessoa percebe, está em um beco totalmente sem saída. Essa é a pior coisa que pode acontecer ao ser humano.  Para que isso não nos aconteça, vamos seguir o conselho de Jesus. "Vigiai e orai sem cessar"!
Sal.





VOCÊ QUER NOS AJUDAR NESTE TRABALHO DE EVANGELIZAÇÃO PELA INTERNET? ENTÃO FAÇA UM DEPÓSITO NO...

BANCO DO BRASIL
AGÊNCIA: 6502-1
CONTA 57.104-0


++++++++++++++++++++++++++++++++++++

A FÉ E OS SEUS OBSTÁCULOSA EXISTÊNCIA DO DIABOEUTANÁSIAEXPLORAÇÃO SEXUAL DE CRIANÇAS
====================================

Mulheres sacerdotisas, celibato e poder de Roma

Entrevista com o prefeito da Congregação para o Clero, cardeal Piacenza

O cardeal Mauro Piacenza, prefeito da Congregação para o Clero, raramente intervém no debate público. Ele evita, de fato, toda demagogia e presencialismo e é conhecido como homem de incansável e silencioso trabalho e como eficaz observador de todos os fenômenos que afetam a cultura contemporânea.

Extraordinariamente, ele nos concedeu esta entrevista sobre temas “candentes”, em um clima de cordialidade, mostrando essa criatividade pastoral que sempre aparece em um autêntico e fiel pastor da Igreja.

Eminência, com surpreendente periodicidade, há várias décadas, voltam a aparecer no debate público algumas questões eclesiais, sempre as mesmas. A que se deve este fenômeno?

Cardeal Piacenza: Sempre, na história da Igreja, houve movimentos “centrífugos”, que tendem a “normalizar” a excepcionalidade do evento de Cristo e do seu Corpo vivente na história, que é a Igreja. Uma “Igreja normalizada” perderia toda a sua força profética, não diria mais nada ao homem e ao mundo e, de fato, trairia o seu Senhor.

A grande diferença da época contemporânea é doutrinal e midiática. Doutrinalmente, pretende-se justificar o pecado, não confiando na misericórdia, mas deixando-se levar por uma perigosa autonomia que tem o sabor do ateísmo prático; do ponto de vista midiático, nas últimas décadas, as fisiológicas “forças centrífugas” recebem a atenção e a inoportuna amplificação dos meios de comunicação que vivem, de certa maneira, de contrastes.

Deve-se considerar a ordenação sacerdotal das mulheres como uma “questão doutrinal”?

Cardeal Piacenza: Certamente, como todos sabem, a questão já foi tratada por Paulo VI e o Beato João Paulo II, e este, com a carta apostólica Ordinatio Sacerdotalis, de 1994, fechou definitivamente a questão.

De fato, afirmou: “Com o fim de afastar toda dúvida sobre uma questão de grande importância, que diz respeito à própria constituição divina da Igreja, em virtude do meu ministério de confirmar na fé aos irmãos, declaro que a Igreja não tem, de forma alguma, a faculdade de conferir a ordenação sacerdotal às mulheres, e que este ditame deve ser considerado como definitivo por todos os fiéis da Igreja”. Alguns, justificando o injustificável, falaram de uma “definitividade relativa” da doutrina até esse momento, mas, francamente, esta tese é tão inusual que carece de qualquer fundamento.

Então, não há lugar para as mulheres na Igreja?

Cardeal Piacenza: Todo o contrário: as mulheres têm um papel importantíssimo no corpo eclesial e poderiam ter outro mais evidente ainda. A Igreja foi fundada por Cristo e não podemos determinar, nós, os homens, o seu perfil; portanto, a constituição hierárquica está ligada ao sacerdócio ministerial, que está reservado aos homens. Mas absolutamente nada impede de valorizar o gênio feminino em papéis que não estão ligados estreitamente ao exercício da ordem sagrada. Quem impediria, por exemplo, que uma grande economista fosse chefe da Administração da Sé Apostólica, ou que uma jornalista competente se tornasse porta-voz da Sala de Imprensa da Santa Sé?

Os exemplos podem se multiplicar em todos os desempenhos não vinculados à ordem sagrada. Há infinidade de tarefas nas quais o gênero feminino poderia realizar uma grande contribuição! Outra coisa é conceber o serviço como um poder e procurar, como o mundo faz, as “cotas” de tal poder. Considero, além disso, que o menosprezo do grande mistério da maternidade, que está sendo realizado nesta cultura dominante, tenha um papel muito importante na desorientação geral que existe com relação à mulher. A ideologia do lucro reduziu e instrumentalizou as mulheres, não reconhecendo a maior contribuição que estas, indiscutivelmente, podem dar à sociedade e ao mundo.

A Igreja, além disso, não é um governo político no qual é justo reivindicar uma representação adequada. A Igreja é outra coisa, a Igreja é o Corpo de Cristo e, nela, cada um é membro segundo o que Cristo estabeleceu. Por outro lado, a Igreja não é uma questão de papéis masculinos ou femininos, mas de papéis que implicam, por vontade divina, a ordenação ou não. Tudo o que um fiel leigo pode fazer, uma fiel leiga também pode fazer. O importante é ter a preparação específica e a idoneidade; ser homem ou mulher não é relevante.

Mas pode existir uma participação real na vida da Igreja, sem atribuições de poder efetivo e de responsabilidade?

Cardeal Piacenza: Quem disse que a participação na Igreja é uma questão de poder? Se fosse assim, cometeriam o grande erro de conceber a própria Igreja não como é, divino-humana, mas simplesmente como uma das muitas associações humanas, talvez a maior e mais nobre, por sua história; e deveria ser “administrada” distribuindo-se o poder.

Nada mais longe da realidade! A hierarquia da Igreja, além de ser de direta instituição divina, deve ser entendida sempre como um serviço à comunhão. Somente um erro, derivado historicamente da experiência das ditaduras, poderia conceber a hierarquia eclesiástica como o exercício de um ‘poder absoluto”. Que perguntem isso a quem está chamado a colaborar com a responsabilidade pessoal do Papa pela Igreja universal! São tais e tantas as mediações, consultas, expressões de colegialidade real, que praticamente nenhum ato de governo é fruto de uma vontade única, mas sempre o resultado de um longo caminho, em escuta do Espírito Santo e da preciosa contribuição de muitos.

A colegialidade não é um conceito sociopolítico, mas deriva da comum Eucaristia, do affectus que nasce do alimentar-se do único Pão e do viver da única fé, do estar unidos a Cristo, Caminho, Verdade e Vida. E Cristo é o mesmo ontem, hoje e sempre!

Não é muito o poder que Roma ostenta?

Cardeal Piacenza: Dizer “Roma” significa simplesmente dizer “catolicidade” e “colegialidade”. Roma é a cidade que a providência escolheu como lugar do martírio dos apóstolos Pedro e Paulo e o que a comunhão com esta Igreja significou sempre na história: comunhão com a Igreja universal, unidade, missão e certeza doutrinal. Roma está ao serviço de todas as Igrejas e muitas vezes protege as Igrejas que estão em dificuldade pelos poderes do mundo e por governos que nem sempre são plenamente respeitosos com o imprescindível direito humano e natural que é a liberdade religiosa.

A Igreja deve ser considerada a partir da constituição dogmática Lumen Gentium, do Concílio Vaticano II, incluída, obviamente, a nota prévia ao documento. Lá, está descrita a Igreja das origens, a Igreja dos Padres, a Igreja de todos os séculos, que é a nossa Igreja de hoje, sem descontinuidade, a Igreja de Cristo. Roma está chamada a presidir na caridade e na verdade, únicas fontes reais da autêntica paz cristã. A unidade da Igreja não é o compromisso com o mundo e sua mentalidade, mas o resultado, dado por Cristo, da nossa fidelidade à verdade e da caridade que seremos capazes de viver.

Parece-me significativo, a este respeito, o fato de que hoje só a Igreja, como ninguém, defende o homem e sua razão, sua capacidade de conhecer a realidade e entrar em relação com isso; em resumo, o homem em sua integridade. Roma está a pleno serviço da Igreja de Deus que está no mundo e que é uma “janela aberta” ao mundo, janela que dá voz a todos os que não a têm, que convida todos a uma contínua conversão e, por isso, contribui – muitas vezes no silêncio e com o sofrimento, pagando às vezes com sua impopularidade – para a construção de um mundo melhor, para a civilização do amor.

Este papel de Roma não obstaculiza a unidade e o ecumenismo?

Cardeal Piacenza: O ecumenismo é uma prioridade na vida da Igreja e uma exigência absoluta que provém da própria oração do Senhor: “Ut unum sint”, que se converte, para todo cristão, em um “mandamento da unidade”. Na oração sincera e no espírito de contínua conversão interior, na fidelidade à própria identidade e na comum tensão da perfeita caridade dada por Deus, é necessário comprometer-se com convicção para que não haja contratempos no caminho do movimento ecumênico.

O mundo precisa da nossa unidade; portanto, é urgente continuar comprometendo-nos no diálogo da fé com todos os irmãos cristãos, para que Cristo seja o fermento da nossa sociedade. E também é urgente comprometer-se com os não-cristãos, isto é, no diálogo intercultural, para contribuir unidos para construir um mundo melhor, colaborando nas obras de bem e para que uma sociedade nova e mais humana seja possível. Roma, também nesta terra, tem um papel de propulsão único. Não há tempo para nos dividirmos: o tempo e as energias devem ser empregados para unir-nos.

Nesta Igreja, quem são e que papel têm os sacerdotes de hoje?

Cardeal Piacenza: Não são nem assistentes sociais nem funcionários de Deus! A crise de identidade é especialmente aguda nos contextos mais secularizados, nos quais parece que não existe lugar para Deus. Os sacerdotes, no entanto, são os de sempre: são o que Cristo quis que fossem! A identidade sacerdotal é cristocêntrica e, portanto, eucarística.

Cristocêntrica porque, como o Santo Padre recordou tantas vezes, no sacerdócio ministerial, “Cristo nos atrai dentro de Si”, envolvendo-se conosco e envolvendo-nos na sua própria existência. Tal atração “real” acontece sacramentalmente – portanto, de maneira objetiva e insuperável –, na Eucaristia, da qual os sacerdotes são ministros, isto é, servos e instrumentos eficazes.

É tão insuperável a lei sobre o celibato? Realmente não pode ser mudada?

Cardeal Piacenza: Não se trata de uma simples lei! A lei é consequência de uma realidade muito alta, que acontece somente na relação vital com Cristo. Jesus diz: “Quem tiver ouvidos, que ouça”. O sagrado celibato não se supera nunca, é sempre novo, no sentido de que, através disso, a vida dos sacerdotes se “renova”, porque se dá sempre em uma fidelidade que tem em Deus sua raiz e no florescer da liberdade humana, o próprio fruto.

O verdadeiro drama está na incapacidade contemporânea de realizar as escolhas definitivas, na dramática redução da liberdade humana, que se converteu em algo tão frágil, que não busca o bem nem sequer quando este é reconhecido e intuído como possibilidade para a própria existência. O celibato não é o problema; e as infidelidades e fraqueza dos sacerdotes não podem constituir um critério de juízo.

No demais, as estatísticas nos dizem que mais de 40% dos casamentos fracassam. Entre os sacerdotes, estamos em menos de 2%. Portanto, a solução não está, de forma alguma, na opcionalidade do sagrado celibato. Não será talvez questão de deixar de interpretar a liberdade como “ausência de vínculos” e de definitividade, e começar a redescobrir que, na definitividade do dom ao outro e a Deus consiste a verdadeira realização e felicidade humanas?

E as vocações? Não aumentariam, se abolissem o celibato?

Cardeal Piacenza: Não! As confissões cristãs nas quais, não existindo o sacerdócio ordenado, não existe a doutrina e a disciplina do celibato, encontram-se em um estado de profunda crise com relação às “vocações” de guia da comunidade – da mesma maneira que existem crises do sacramento do matrimônio uno e indissolúvel.

A crise da qual, na verdade, se está saindo lentamente, está ligada, fundamentalmente, à crise da fé no Ocidente. O que é preciso é comprometer-se a fazer a fé crescer. Este é o ponto. Nos mesmos ambientes, está em crise a santificação das festas, está em crise a confissão, está em crise o casamento etc. O secularismo e a conseguinte perda do sentido do sagrado, da fé e da sua prática, determinaram e determinam também uma importante diminuição do número dos candidatos ao sacerdócio.

A estas razões teológicas e eclesiais acrescentam-se algumas de caráter sociológico: a primeira de todas é a notável diminuição da natalidade, com a conseguinte diminuição dos jovens e das jovens vocações. Também este é um fator que não pode ser ignorado. Tudo está relacionado. Às vezes, estabelecem-se premissas e depois não se quer aceitar as consequências, mas estas são inevitáveis.

O primeiro e irrenunciável remédio para a diminuição das vocações foi sugerido pelo próprio Jesus: “Orai, portanto, ao dono da messe, para que envie operários para a sua messe” (Mt 9, 38). Este é o realismo da pastoral das vocações. A oração pelas vocações – uma intensa, universal, dilatada rede de oração e de adoração eucarística, que envolva todo mundo – é a verdadeira e única resposta possível para a crise da resposta às vocações. Onde esse comportamento orante é vivido de forma estabelecida, pode-se afirmar que se leva a cabo uma recuperação real.

É fundamental, além disso, prestar atenção à identidade e especificidade na vida eclesial, de sacerdotes, religiosos – estes na peculiaridade dos carismas fundacionais dos próprios institutos de pertença – e fiéis leigos, para que cada um possa, na verdade e na liberdade, compreender e acolher a vocação que Deus pensou para ele. Mas cada um deve ser autêntico e cada dia deve se comprometer em tornar-se o que é.

Eminência, neste momento histórico, se o senhor tivesse que resumir a situação geral, o que diria?

Cardeal Piacenza: Nosso programa não pode ser influenciado por querer estar por cima a todo custo, de querer sentir-nos aplaudidos pela opinião pública: nós devemos somente servir, por amor e com amor, o nosso Deus no nosso próximo, seja ele quem for, conscientes de que o Salvador é somente Jesus. Nós devemos deixá-lo passar, deixá-lo agir através das nossas pobres pessoas e do nosso compromisso cotidiano. Devemos colocar o que é “nosso”, mas também o que é “seu”. Nós, diante das situações aparentemente mais desastrosas, não devemos nos assustar. O Senhor, na barca de Pedro, parecia dormir, parecia! Devemos agir com energia, como se tudo dependesse de nós, mas com a paz de quem sabe que tudo depende do Senhor.

Portanto, devemos recordar que o nome do amor, no tempo, é “fidelidade”! O crente sabe que Ele é o Caminho, a Verdade e a Vida, e não é “um” caminho, “uma” verdade, “uma” vida. Portanto, a coragem da verdade, pagando o preço de receber insultos e desprezo, é a chave da missão na nossa sociedade; é essa coragem que se une ao amor, à caridade pastoral, que deve ser recuperada e que torna fascinante, hoje mais do que nunca, a vocação cristã. Eu gostaria de citar o programa formulado sinteticamente em Stuttgart pelo Conselho da Igreja Evangélica em 1945: “Anunciar com mais coragem, rezar com mais confiança, crer com mais alegria, amar com mais paixão”.

Por Antonio Gaspari

Fonte: Zenit

 

===============

A oração contemplativa

 

1. Na cozinha de nosso mosteiro, assim como eu imagino na de vocês, há uma caixa em cima do balcão com saquinhos de chá mate. E lê-se no rótulo: "Use e abuse". Isto somente para indicar que mesmo as melhores coisas podem nos trazer problemas, fato este já conhecido nos tempos de Aristóteles que afirmava: "Corruptio optimi pessima".

2. No livro de Thomas Merton "A oração contemplativa", um de seus últimos trabalhos, ele trata dos "use" e "abuse" de uma das mais preciosas de todas as realidades: a vida espiritual, e mais particularmente, a oração. Por ela ser tão preciosa como um modo de nos unir a Deus e porquê seu abuso é potencialmente tão desastroso, como um modo de nos separar de Deus, Merton se dirige a seu público - tanto monges como leigos - com a combinação de zelo profético e intuição poética característica de seus melhores escritos.

3. Ele se baseia grandemente em suas citações de são João da Cruz, como ele faz freqüentemente, mas também faz numerosas referências à tradição mística do séc. XIV, tanto da Renânia (Tauler, Ruysbroeck) quanto da Inglaterra (Walter Hilton).

4. O que seria precisamente o abuso da vida espiritual? Reflexões sobre este tema nos círculos monásticos cristãos tiveram início já com Cassiano, no séc. V. No último livro de suas Instituições, Cassiano aborda a "paixão" do orgulho espiritual. Ela é - afirma ele - a principal e a raiz de todas as paixões/vícios, mas ela só é percebida claramente uma vez que o homem espiritual tenha travado batalha com bom êxito contra todos os outros vícios.

5. Orgulho espiritual, diz Cassiano, é a perversão da realidade espiritual por fins egoístas. Há em todos nós, seres humanos, um profundo desejo de instrumentalizar tudo - até mesmo Deus - a fim de glorificarmos a nós mesmos, a fim de afirmar nossa importância última. Desejamos instrumentalizar a Deus em nossas buscas espirituais, possuí-Lo, a fim de que possamos ser - ser eternos, ser independentes, não mais ser criaturas contingentes, mas como seres auto-evidentes, necessários.

6. Talvez pareça estranho e até mesmo incrível que o monge - obediente, silencioso, humilde - possa estar nutrindo estes desejos luciferianos em seu coração, mas eles estão, de acordo com a tradição monástica (desde Cassiano até Merton) no centro penúltimo de cada pessoa. Penúltimo porquê a única realidade mais profunda no coração humano é o próprio Deus.

7. A maioria das pessoas não experimentará o orgulho espiritual conscientemente, ao menos não com plena força. Elas o experimentarão em sua forma oculta de "orgulho carnal" - como individualismo, falta de cooperatividade, ambição - e talvez elas não se dêem conta sequer disto. Mas se elas decidirem se lançar na batalha espiritual e se perseverarem nela, elas chegarão a esta última e pior batalha antes da puritas cordis - a batalha contra a tentação de sujeitar a Deus aos seus próprios propósitos.

8. Na própria tradição cisterciense de Merton, este orgulho espiritual é descrito como um desejo de ingerir a Deus através do conhecimento - fazer de Deus o objeto final, mais fascinante e deleitável de nossa quase infinita capacidade de compreender a verdade. Evidentemente, o problema não é o desejo de conhecer a Deus (que o próprio Deus coloca no coração e na mente humana), mas o desejo de governá-Lo - tê-Lo, controlá-Lo - através do conhecimento. Este modo medieval de descrever o orgulho espiritual iria assumir sua forma mais dramática na história de Fausto - o desejo de vender a própria alma a fim de conhecer tudo, de conhecer o Tudo. Para os cistercienses, o atrativo, o risco e a punição de tal orgulho estavam todos expressos no versículo muitas vezes citados dos Provérbios: "Scrutatormaiestatis opprimatur a gloria" ("Aquele que busca penetrar os segredos da divina majestade será esmagado pela glória divina").

9. Aonde entra Merton em tudo isto? Como um descendente de toda a tradição monástica ocidental, obviamente, mas também como um herdeiro do existencialismo cristão (Kierkegaard, Marcel). Merton descreve a situação espiritual do homem interior como uma de temor ("dread"). Temor, para Merton, é uma realidade multifacetada. É, antes de tudo, nossa criaturidade e contingência, o fato de virmos "de Deus". Isto, obviamente, não é em si mesmo pecaminoso ou terrível - teoricamente deveria ser maravilhoso e regozijante. Mas o homem colocou no cimo de sua criaturidade uma recusa de sua criaturidade, um desejo tenaz de afirmar-se como livre de Deus (tanto ontologicamente quanto em termos de obrigação moral, ambos perfazendo aquilo que Merton se refere como sendo a obedientia fidei). Como esta recusa é uma mentira, a situação é de um contínuo desconforto, para dizer em termos leves (cf. o solilóquio de Lúcifer no primeiro livro de "Paradise Lost"). Na tentativa de solucionar este desconforto, o homem, ao invés de se arrepender e converter-se, cria toda uma cultura e mitologia para proclamar sua autocriada realidade inveraz. Ele vive - diz Merton - em contínua inautenticidade, recusando-se em devolver a Deus e aos outros, em amor e serviço, a superabundância que ele recebeu ao ser criado. Toda esta falta de integridade, toda esta construção de sua existência interior na inverdade, produz o estado de temor; uma mistura de teimosia, náusea, sentido de perda, medo e mágoa.

10. Aqui vem a parte mais estranha, diz Merton. O homem espiritual moderno - seja ele monge ou leigo, cristão ou não-cristão - ao invés de usar proeza ascética ou conhecimento intelectual como a base para seu orgulho espiritual, tende a usar a oração para este fim. Oração, que por sua natureza é uma total auto-entrega nas mãos de Deus, pode ser a arma mais potente no arsenal que empregamos para rechaçar a Deus e persistir em nossa inautenticidade. A oração pode ser desenvolvida, ano após ano, década após década, como um modo de engrossar a casca de nosso individualismo até que finalmente nos tornamos quase inteiramente inacessíveis a Deus. A oração pode ser a mais potente arma a nos manter a salvo da vivência da realidade.

11. Para Merton, monge trapista por quase três décadas, tal auto-ilusão era um perigo profissional. Aqueles que estão familiarizados com suas cartas e diários sabem como ele sofreu encontrando este tipo de artificialidade espiritual (ele adorava usar a gíria "bogus" para descrevê-la) em sua própria comunidade monástica e sofreu ainda mais ao ver esta tendência em si mesmo. Por esta razão, Merton, como muitos autores espirituais, fala do risco da vida contemplativa "oficial". Muito mais segura a vida de tarefas simples e oração no contexto de família, trabalho, vizinhança; muito menor, no contexto das pressões das responsabilidades interpessoais no "mundo real", a tentação de construir e decorar-se como um santo monge, um santo esperando com segurança a data de sua ascensão à glória.

12. Não devemos rezar, então? Para Merton, vida sem oração é impensável, mas a fim de rezar genuinamente, nossa noção de oração e o nosso modo de rezar em si deve ser virado do avesso, assim como estes, por sua vez, devem nos virar do avesso, tornar-nos radicalmente diferentes e alterocentrados. Devemos vir a compreender que oração genuína não diz respeito a amar e conhecer a Deus (nós muito facilmente transformamos isto numa tentativa de dominá-Lo), nem a capturá-Lo como um objeto, ainda que como o supremo Objeto, mas diz antes respeito a experimentar a si mesmo e experimentar a si mesmo como se é realmente - como criado, sustentado, conhecido e amado por Deus. O caminho da experiência contemplativa de Deus, diz Merton provocativamente, se dá através da jornada da experiência cada vez mais profunda e autêntica de nós mesmos - àquele centro aonde nós descobrimos a nós mesmos como apoiados por Ele. Nós jamais O alcançaremos, exceto se permitirmos que Seu conhecimento acerca de nós se torne o nosso conhecimento acerca de nós mesmos.

13. Se a oração é uma jornada ao centro do coração e ao Deus que lá habita, nós podemos esperar que a jornada seja dura. Como já foi dito, nós fugimos com toda a intensidade de nosso medo e rebelião do nosso centro de dependência criada que nós experimentamos como desgraça e miséria. E de fato, em grande parte, o que há em nós é desgraça e miséria, não porque Deus assim nos criou, mas porque falsificamos o nosso ser. Quanto a isto, a oração será um verdadeiro purgatório no qual passo a passo nós precisaremos deixar que o conhecimento e o amor de Deus, na medida em que eles tomam conta de nós, desfaçam as múltiplas e enodadas mentiras que havíamos tramado. Como Mestre Eckhart diz: "Uma vez que nos damos conta que tomamos uma direção errada e afastamo-nos da estrada, a volta à estrada certa será tão longa quanto o desvio feito".

14. Como devemos rezar? Merton constantemente fala neste texto da oração como meditatio: a repetição interior de um versículo das Escrituras que é ao mesmo tempo a expressão de nossa verdadeira condição espiritual e um chamado à libertação. Como sabemos, na tradição cristã oriental, o versículo mais comumente usado é aquele que chamamos de "a oração de Jesus": "Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tende pena de mim, pecador", enquanto que no Ocidente, a invocação vem do Salmo 69 (como foi transmitida pela tradição do deserto e por Cassiano): "Ó Deus, vinde em meu auxílio". Um tal versículo deve tornar-se a própria vida de alguém - ele se torna uma única coisa com a realidade de minha identidade. Eu reconheço a mim mesmo radical e continuamente como aquele que necessita o auxílio de Deus, como o pecador à beira da estrada à espera da passagem do Senhor Jesus Cristo e de sua misericórdia. Este processo de compenetração entre o texto das Escrituras e a pessoa do orante é a "oração do coração" e o anseio de uma tal pessoa é que a oração em questão "desça da mente até o coração", tome posse da pessoa, a fim de que a pessoa se torne aquela oração.

15. Deus nos livre, diz Merton, que uma tal oração se transforme num "hobby", ou em algo chique, ou simplesmente numa maneira de alguém acalmar as próprias emoções perturbadas. Lidar com a oração deste modo seria análogo a uma recepção profana da Eucaristia (a comparação é minha, não de Merton). A imensa alegria, paz e paciência experimentadas pelo peregrino russo no texto bem conhecido do século XIX não vêm como resultado do aperfeiçoamento de sua técnica (Merton tem algumas palavras muito ríspidas a dizer a este respeito), mas porque o Senhor vivo Jesus Cristo penetrou no coração do peregrino através da prática perseverante da oração e o peregrino se regozija imensamente nesta inabitação. Assim, uma tal jaculatória, ao invés de ter seu valor em seu efeito calmante ou em sua capacidade de nos "preparar" para a contemplação, é a expressão lingüística da verdade de nosso ser: nossa necessidade de Deus, nosso desejo de Deus e de Sua vinda misericordiosa.

16. Toda oração, de acordo com Merton, deveria ser, neste sentido, meditatio. Que utilidade, diz ele, tem a salmodia, toda a grande construção que nós conhecemos como Opus Dei, senão ser uma meditação atenta da Palavra de Deus, sendo penetrados por ela, uma compunctio? Aqui, mais uma vez, se a oração não for a honesta busca angustiante (ou o alegre encontro) de Deus e de Sua misericórdia, ela será um sedativo, uma maneira esteticamente agradável de preencher as longas horas de lazer no dia monástico. Ele aponta para a tradição do deserto, onde o Saltério, acima de todos os outros livros da Bíblia, era aquele que dava expressão aos medos e combates mais profundos do monge e oferecia a ele um vocabulário através do qual ele podia vocalizar sua fome e sede do Deus vivo.

17. Conforme continuamos em oração, é natural que ela se torne mais simples, mais obscura, com menos qualidades (Eigenschaften). Todos nós estamos familiarizados com vários termos para este período da experiência - deserto, noite, vazio, nada. Estes termos buscam refletir um número de realidades interconexas, diz Merton. Primeiramente, uma maior aceitação experimental da pobreza de nosso ser. Em segundo lugar, o silencioso porém ininterrupto trabalho de Deus na oração, purificando-nos cada vez mais e mais daquela resistência essencial a Ele e à Sua graça (impossível superestimar como, em última análise, a oração é mais a atividade de Deus do que nossa). Em terceiro lugar, a simplificação de nossa complexidade. Na noite da oração, aprendemos a não pedir nada em particular a Deus, porque chegamos a intuir que Deus não é algo em particular. É a maneira do espírito imperfeito, diz João da Cruz, de buscar na oração paz, conhecimento, consolação, luz. Nenhuma destas coisas são Deus, mas somente as conseqüências de Sua graça e quando as buscamos, podemos saber que estamos mais uma vez recaindo temporariamente em orgulho espiritual. O contemplativo, por desejar somente a Deus, não buscará nada destas coisas. De fato, diz Merton, a genuína oração contemplativa pode ser definida como uma "preferência pelo deserto", o "desejo de não saber mais do que o de saber". Então a oração se torna (ainda que sofridamente) mais e mais semelhante a Deus: sua falta de imagens, conceitos ou sentimentos, embora dolorosa para nós, nos traz mais próximos ao Deus verdadeiro, transcendente.

18. Em toda grande tradição contemplativa, chega finalmente (realmente no final) o feliz choque. O trabalho divino de purificação está essencialmente feito, a resistência foi ultrapassada e Deus faz por nós, à nossa vista, o que Ele sempre tem feito - ama-nos, salva-nos, vive em nós, age em nós. Na Regra de são Bento, à qual Merton se refere neste contexto, há o salto do décimo segundo grau da humildade, onde o monge, todo curvado pelo conhecimento de sua pequenez, é de repente exaltado a um êxtase produtivo-silencioso-estável dentro da caridade de Deus. Em João da Cruz (São Bento, perdoe a minha traição!), a realidade é descrita de modo ainda mais belo: a alma experimenta em seu próprio centro o banquete da Santíssima Trindade - as três Pessoas Divinas, fonte transcendente e fim de toda a realidade, são descobertas dentro de si, vivendo sua vida eterna de ser, conhecimento e amor e superabundantemente comunicando esta vida à pessoa. Somente a pessoa que passa através do abismo do "eu" conhecerá isto experimentalmente, a pessoa que toma com absoluta seriedade o mistério pascal: que a existência cristã é morte ao velho homem em suas ilusões e desejos e renascimento no Cristo Ressuscitado, na filiação divina. Esta compreensão da total importância da centralidade do mistério pascal é a única justificativa da oração.

19. Poderíamos, com Merton, afirmar que é aqui que a vida humana realmente começa, vida "impávida". Agora em contato com as águas vivas da vida de Deus, a pessoa de oração possui interiormente o que Merton chama uma "participação na caridade universal de Deus". Agora se torna possível - natural - para ele viver de acordo com o Sermão da Montanha, perfeitamente como seu Pai celeste é perfeito, perfeito no sentido que seu amor flui para todos os seres humanos, para todos os seres sensíveis. Tal pessoa experimenta agora que este amor evangélico, se ele pudesse porventura ser descrito como um dever, era um dever impossível antes que a morte e ressurreição de Cristo se realizassem em sua vida, em sua oração. Como poderia o homem que se definiu em oposição e contradição a Deus, que rejeitou sua identidade de criatura, sempre sentir brotando de dentro de si o amor indistinto do próximo (observe mais uma vez a ausência de limites particulares)? É somente agora que a vida divina flui desimpedida em sua consciência e liberdade de que ele é capaz de amar a todos, abraçar a todos, no poder do Espírito Santo. Aonde este amor ativo - ativo ao servir em qualquer vocação que Deus nos tenha colocado - não é um desejo fundamental, que gradualmente se transforma em toda a nossa orientação, a oração - diz Merton - é deveras um ópio.

20. Nós encontramos neste livro da maturidade de Merton a constelação de seus temas centrais: oração e identidade existencial, oração e ação, oração e maturidade espiritual, oração e amor universal, oração e o encontro com o fundamento do ser. Ao invés de aparecer disparatado em algum modo, estes temas estão vitalmente unidos, todos expressando o desejo ardente de Merton de ser "virado do avesso" pelo Deus vivo. Embora quase não haja referências a autores não-cristãos e muito poucas a escritores protestantes (Jacob Boehme), o livro é ecumênico naquilo em que se ocupa predominantemente: como, através da oração, a humanidade teimosa e de cabeça dura pode tocar, no sentido mais profundo da palavra, o Deus Infinito que está sempre ocupado em amá-la e salvá-la. Por este motivo, não é de se surpreender que o prefácio do livro foi escrito por um budista e a introdução, por um Quaker.

Bernardo Bonowitz, OCSO

========

 

Semana Santa: Memória de Jesus no Hoje da História

 


A Semana Santa celebra-se na comunidade. A Semana Santa para os cristãos se reveste de um sentido todo especial e é um marco importante no seguimento de Jesus Cristo. Neste tempo, muitos procuram sair das cidades e abandonar as suas comunidades para fazer alguns dias de descanso na praia ou no campo.

Essa é uma prática imprópria e que em nada condiz com o sentido espiritual da pastoral e da liturgia que se celebra. Isso acarreta uma perda para a formação cristã e priva as pessoas da oportunidade de crescerem espiritualmente e se integrarem mais profundamente na vivência do Mistério Pascal de Cristo. O lugar para passar a Semana Santa é a comunidade, participando de suas celebrações.

Tempo de Retiro. A Semana Santa é tempo privilegiado para a comunidade e os cristãos, no silêncio e na oração, fazerem o encontro com o Senhor, conviverem mais intensamente com Ele, avaliarem as suas práticas em busca da vida plena. É um tempo propício para acolher a misericórdia de Deus Pai, revelada na vida de Jesus, o Filho amado. Tempo para ler e escutar a Palavra de Deus e colocar a vida em dia diante do Senhor e dos irmãos. Tempo de ação de graças para bendizer o Senhor pela salvação que nos oferece.

Tempo de Renovação. Nos dias da Semana Santa a graça e a bênção de Deus são mais palpáveis e mais intensamente sentidas na comunidade. A força pascal do Cristo invade o tempo, atinge o coração, ilumina as mentes, questiona as contradições humanas e provoca o novo. Transforma o ser humano e o introduz numa nova vida, despertando o gosto pelas coisas de Deus, alimentando o prazer de estar com Deus, a serviço do seu Reino. Participar das celebrações na Semana Santa significa entrar na força da Páscoa do Cristo que tudo renova e plenifica com seu Espírito.

Tempo de Cultivar o Novo. Durante oito dias, celebrando o mistério da morte e ressurreição do Senhor, aprendemos em que consiste a liturgia do Filho de Deus que disse: Eu vim para servir e não para ser servido (Mt 20,28) e que afirmou: ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos (Jo 15,13). Esse jeito de Jesus entender a vida como serviço, nós lembramos e celebramos na liturgia. E pela liturgia, o Espírito Santo imprime em nossas vidas esse jeito de Deus amar e servir. Fazer memória de Jesus na liturgia nada mais é do que permitir que a novidade do evangelho, essa liturgia de Jesus, a sua solidariedade humano-divina se instaurem em nossas vidas e nos façam pessoas novas e santas, provocadoras do Projeto de vida em abundância para todos (cf. Jo 10,10). Nas celebrações da Semana Santa se descobre e se cultiva a novidade do Reino de Deus.

Domingo de Ramos e da Paixão do Senhor: lembra o projeto de Jesus

Na liturgia do Ddomingo de Ramos, revivemos a entrada de Jesus na cidade de Jerusalém para celebrar a sua Páscoa. Unidos aos seus sentimentos, mergulhamos no seu projeto de obediência ao Pai e de serviço à humanidade. Lembrando Jesus reafirmamos nossa obediência e assumimos a solidariedade com os excluídos e marginalizados.

Três símbolos estão presentes na liturgia: os ramos, a procissão com ramos e a proclamação do Evangelho da Paixão.

Fazemos parte de um povo que sai às ruas, agitando ramos, cantando hinos ao Cristo, nosso Rei e Redentor. Aclamamos Jesus como Messias, o esperado das nações.

Cremos que Ele vem realizar as promessas antigas e instaurar o Reino: Justiça para os pobres, participação na construção da sociedade solidária, convivência fraterna, paz entre os povos; diálogo entre as religiões e culturas e vida em abundância para todos.

Em cada celebração, o Senhor está presente para realizar as promessas e nós o acolhemos através da prece e da participação e nos unimos à sua missão de trazer a paz. No Domingo de Ramos isso acontece de modo especial. A liturgia dos ramos não é uma repetição apenas da cena evangélica, mas sacramento da nossa fé na vitória do Cristo na história, marcada por tantos conflitos e desigualdades.

É o Domingo da Paixão de Jesus, do seu sofrimento assumido como expressão de compaixão pela multidão de famintos e da nossa compaixão com todos os sofridos em sua busca de libertação.

A entrada triunfal em Jerusalém é o convite para que os cristãos entrem hoje nas cidades e proclamem o Projeto de vida e promovam o mutirão contra a fome e a corrupção. Em procissão, aclamando que Ele vem em nome de Deus, aderimos ao seu projeto e abraçamos a sua atitude de servidor fiel até a extrema entrega na cruz.

Quinta Feira-Santa: Festa do Serviço e da Partilha

Na Eucaristia Jesus deixa o seu testamento com este seu pedido: Façam isto em minha memória. A eucaristia, a nova Páscoa, é memória da entrega do Senhor, de sua morte e ressurreição. Jesus que celebra a última ceia é o mesmo que dá o seu corpo e derrama o seu sangue por nós.

Hoje, em todas as comunidades do mundo, se faz memória da última ceia de Jesus, da sua doação sem limites na cruz. Celebra-se a inauguração da nova aliança no sangue derramado para a salvação da humanidade. É o início do Tríduo Pascal que terá o seu término na tarde do domingo. Realiza-se para as comunidades o Mistério Pascal de Cristo, a sua passagem deste mundo para o Pai. O evangelho do lava-pés (Jo 13, 1-17) nos dá o sentido da vida de Jesus e revela o significado na participação da eucaristia: solidariedade e serviço.

Com este Evangelho entramos na liturgia e comungamos com os sentimentos de Jesus que tinha consciência que seria traído e entregue. Assume a missão até o fim em fidelidade ao Pai e por amor à humanidade e aos seus. Dois gestos marcam a liturgia e falam da entrega de Jesus: o lava-pés e, na eucaristia, o pão e o vinho partilhados.

Na celebração lembramos as palavras de Jesus: 
“Desejei ardentemente comer convosco esta ceia pascal antes de sofrer” (Lc 22,15).

Celebrar a eucaristia significa participar na Páscoa de Cristo, na sua morte e ressurreição. Participando da celebração entregamos com Jesus nossa vida ao Pai, na certeza de que um dia o Reino acontecerá - não haverá mais lágrimas nem sofrimento e não existirá mais fome nem dominação.

Sexta Feira Santa: Memória da Solidariedade de Jesus até a Morte na Cruz

No centro da liturgia de hoje está a cruz, erguida como sinal e prova do amor de Jesus, condenado injustamente, torturado até a morte, que colocou sua vida nas mãos do Pai, confiando na justiça e na misericórdia do Pai.

No Domingo de Ramos, Jesus, entrando em Jerusalém, apresenta o seu projeto político e religioso, capaz de revolucionar o modo de organizar a cidade, estabelecer relações entre as pessoas e firmar um culto em espírito e verdade.

Na última ceia, ao redor de uma mesa, partilhando o pão e rendendo graças, ensina, em que consiste o milagre da partilha e a força revolucionária do serviço e da solidariedade.

Logo depois, sofre a rejeição e a condenação por causa do projeto em favor da vida e dos pobres. Enfrenta a morte violenta na cruz para proclamar que o Reino, a liberdade e o pão com fartura só virão de dentro do coração de pessoas solidárias, abnegadas e consagradas para viver e ensinar que o pão só tem sentido quando partilhado.

Na Vigília Pascal, celebramos o começo de uma nova história: o Pai ressuscita o seu Filho para mostrar que pelo caminho da cruz chega a vida para o mundo e pela doação de Jesus, Ele intervém para fazer novas todas as coisas. Ressuscita o seu Filho para indicar que a salvação tem a sua fonte no amor e só se participa da salvação, assumindo o caminho da cruz. Na celebração sempre lembramos a cruz e o testemunho de Jesus. E ao fazer a celebração, entramos de corpo e alma no seu caminho e ressuscitamos com Ele.

Na liturgia da morte do Senhor, o nosso coração contempla a cruz que acompanha, no dia a dia, tantos irmãos que sofrem a dor da fome, experimentam o ódio e a rejeição e são marcados pela violência e a discriminação.

A cruz de Jesus e a cruz dos irmãos nos conduzem à liturgia onde se celebra o amor e a misericórdia do Pai que acolhe o sofrimento do seu Filho e abraça a dor dos seus filhos e não os esquece nem os abandona.

Na Sexta feira Santa, reunidos em assembléia, tendo a cruz no centro, em silêncio e em oração, nos ajoelhamos, expressando a nossa solidariedade com todos os que sofrem e manifestamos o nosso protesto contra a injustiça, a guerra, a violência e a opressão. Rezamos com os crucificados do mundo, confiantes na força pascal da Cruz de Jesus que nos libertará de todo o sofrimento.

A cruz nos lembra o amor e a entrega radical de Jesus para fazer a vontade do Pai e realizar a experiência do Reino de fraternidade e justiça. Dessa entrega de Jesus nasce a Igreja. Desse seu amor, simbolizado no coração aberto pela lança, brotam os sacramentos do batismo (água) e da eucaristia (sangue).

È significativo o rito da entrada da cruz na assembléia litúrgica como sinal da páscoa de Jesus, de sua vitória sobre a morte e a injustiça. Pela força da cruz estamos reunidos. Cristo, em todas as celebrações, reúne na unidade os filhos dispersos e os constitui o novo povo eleito, profético e sacerdotal.

Sábado santo: Dia de Silêncio e Espera

No Sábado Santo não há nenhuma liturgia oficial. As igrejas estão vazias. Os altares desnudos. Os tabernáculos abertos e vazios. As velas apagadas. O silêncio pervade todos os ambientes. É uma experiência de tristeza e atitude de espera.

Tudo para lembrar que Cristo desce à mansão dos mortos e assume o destino e a limitação do ser humano. Ele é solidário até o fim e faz a descida da morte, entra no seu mistério, para sair vitorioso e abrir para todos um caminho de luz e esperança.

Uma homilia, do século IV, fala bem alto: 
Que está acontecendo hoje? Um grande silêncio reina sobre a terra. Um grande silêncio e uma grande solidão. Um grande silêncio, porque o Rei está dormindo; a terra estremeceu e ficou silenciosa, porque o Deus feito homem adormeceu e acordou os que dormiam há séculos. Deus morreu na carne e despertou a mansão dos mortos. (...) O Senhor entrou onde eles estavam, levando em suas mãos a arma da cruz vitoriosa. Quando Adão, nosso primeiro pai, o viu, exclamou para todos os demais, batendo no peito e cheio de admiração: ”O meu Senhor está no meio de nós”. E Cristo respondeu a Adão: ”E com teu espírito”. E tomando-o pela mão, disse: “Acorda, tu que dormes, levante-te dentre os mortos, e Cristo te iluminará".

No silêncio, somos convidados a fazer uma viagem até o nosso interior e meditar sobre o sentido da nossa vida e avaliar a qualidade da nossa relação com o Senhor. Silêncio que nos leva perceber o mistério que envolve a nossa vida e nos fala da necessidade de estarmos com Deus.

Sábado Santo é dia de recolhimento, de encontro com o Ressuscitado, na oração e na contemplação. É preparação para liturgia da Vigília Pascal, a grande festa, a mãe de todas as vigílias e a fonte de todas as liturgias. Aí encontramos um sentido para a vida e ressuscitamos com Cristo para uma vida nova.

Vigília Pascal: Cristo Ressurgiu da Morte.

É a grande festa. A liturgia mais solene e importante da Igreja. A celebração mais bonita e marcada pela emoção e pelo louvor.

Era o primeiro dia da semana. As mulheres foram de madrugada ao sepulcro, levando perfumes, e encontraram a pedra removida. Ficaram com medo. Lembraram as palavras de Jesus e voltaram, anunciando a ressurreição aos onze e a todos os outros.

A vigília pascal é o acontecimento marcante porque a comunidade se reúne para celebrar a ressurreição do Senhor – acontecimento histórico que a constitui e identifica.

Vigília Pascal celebra Cristo, o novo Adão. É a nova criação do mundo. Cristo é o nosso Moisés que liberta o povo de todas as escravidões. Em Cristo o povo livre e peregrino, fundamentado na nova Aliança com Deus, vive a plenitude da promessa e faz a experiência da fraternidade e partilha.

O Círio Pascal é o símbolo de Cristo Ressuscitado que vence toda escravidão. Acendemos as nossas velas no Círio e saímos pelas ruas cantando a nossa ressurreição e vitória no Ressuscitado.

A Vigília Pascal lembra e renova o nosso batismo. Pelo batismo morremos e ressuscitamos com Cristo. Mergulharmos nas águas para enterrar todo pecado. Saímos da água para simbolizar que em Cristo iniciamos uma nova vida, renovada e vivida no Espírito Santo.

O momento alto desta noite é a celebração da eucaristia. Bendizemos ao Pai que ressuscitou seu Filho e nos faz participantes da sua vitória sobre a morte. Reunidos ao redor da mesa, comemos o pão partilhado e bebemos o vinho, sangue derramado, como convivas, na esperança de um dia participar para sempre na festa do Reino, que um dia será plena e nunca se acabará.

Nesta celebração pascal, acolhamos a palavra da ressurreição e deixemo-nos abençoar por esta palavra. Passando pelas águas batismais, mergulhemos na imensidão da compaixão do Pai que nos recria para um novo jeito de viver.

A Vigília Pascal nos liga e nos introduz na celebração do Domingo da ressurreição e nos move para a festa dos cinqüenta dias de festa: 
“Este é o dia que o Senhor fez para nós. Alegremo-nos e Nele exultemos” (Gl 118). Mas a missa da Vigília é a verdadeira missa da Domingo de Páscoa. As outras missas durante o domingo são prolongamento da Vigília e mantém o clima pascal festivo.

Tempo Pascal: a Festa da Vitória de Jesus.

O tempo pascal é celebrado como um só e grande dia de festa desde o Domingo da Ressurreição até o Domingo de Pentecostes. E celebrar o tempo pascal é festejar, aqui e agora, a ressurreição de Jesus como nova vida para as pessoas, comunidades e a humanidade. É vibrar intensamente com a ressurreição de Jesus, revestidos de sua vitória sobre a morte, lembrando todos os dias, na liturgia e na oração: 
“Ele não está aqui, ressuscitou” (Mc 16,6), e alegrando-nos com a sua saudação: ”A paz esteja convosco! Não tenhais medo, sou eu!” (Lc 24, 36-37) e como os discípulos de Emaús, reconhecendo o Ressuscitado presente na caminhada, nos pequenos e simples gestos, na escuta da palavra da Escritura, no repartir os alimentos e nas celebrações da comunidade (cf. Lc 24, 13-35).

Na festa da Ascensão, celebramos a subida de Jesus aos céus. Ele, rejeitado pela justiça dos homens, Deus o faz sentar à sua direita, dando-lhe o poder de julgar e governar o mundo inteiro, tornado-o Senhor da história. Subindo aos céus, Ele nos envia a proclamar por toda a terra o seu Reino de vida e liberdade.

No dia de Pentecostes termina o tempo pascal e o Mistério da Páscoa de Jesus atinge a sua plenitude no dom do Espírito derramado sobre a Igreja.

Pe. Marcelino Sivinski

++++++++++++++++++++

Por que Cristo é o Cordeiro?

 

Na Quinta-feira Santa, Jesus Cristo nos deixou instituído o "sacramento admirável": de seu Corpo e de seu Sangue (Corpus Christi). É o maior presente que Jesus nos deixou: sua presença viva entre nós, todo seu ser de Homem e todo seu ser de Deus, para ser alimento de nossa vida espiritual, para nos unir a Ele.

Esse maravilhoso presente nos deu o Senhor horas antes de morrer, durante a Última Ceia. Os eventos daquela noite e da Sexta-feira Santa entristecem a alegria deste Presente que nos deixou o Senhor.

Vejamos que relação há entre o que sucedeu na Quinta-feira Santa e na Sexta-feira Santa, e por que da Festa de Corpus Christi na qual a Igreja recorda e celebra o Sacramento do Corpo de Cristo.

No Antigo Testamento são descritos diferentes tipos de sacrifícios, entre estes, o sacrifício de reparação dos pecados do povo, nos quais se sacrificavam um cordeiro.

Aconteceu, então, que quando Deus decidiu liberar seu povo cativo dos egípcios, ordenou aos Hebreus imolar pela família um cordeiro 
“O cordeiro, ou cabrito, será sem mácula, um macho de um ano, o qual tomareis das ovelhas ou das cabras” (Ex. 12,5), indicando-lhes que marcasse com o sangue do cordeiro sacrificado o umbral da porta de suas casas para que quando o Anjo exterminador passa-se naquela noite para ferir os primogênitos egípcios não os ferisse. Desde este momento, o sangue do cordeiro tem para os israelitas um valor redentor.

É assim como, essa primeira Quinta-feira Santa da história celebrava com seus Apóstolos a Páscoa judia, isto é, a comemoração da libertação do Egito. Nessa Cena Pascal se comia, igual àquela noite antes de sair do Egito, um cordeiro sacrificado. Porém, ocorreu algo imprevisto: Jesus, depois de comer a ceia pascal, substitui o cordeiro pascal por Si mesmo. Ele se entrega como 
“verdadeiro Cordeiro Pascal”, para ser sacrificado na Cruz no dia seguinte.

Isso é o que significam as palavras do Sacerdote quando, apresentando a Hóstia Consagrada diz: 
“Este é o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo”. Essa palavra as disse antes São João Batista, ao identificar Jesus como o Messias às margens do Jordão: “João viu a Jesus, que vinha para ele, e disse: Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo” (cf. João 1, 29).  

Porém há mais: no Antigo Testamento havia outro tipo de sacrifício: os sacrifícios da aliança. A Aliança entre Yavé e seu povo, pela qual este se comprometia cumprir o pedido de Deus, selada mediante um rito de sangue. Assim disse Moises aos israelitas, uma vez feita a Aliança: “Eis aqui o sangue do pacto que o Senhor tem feito convosco no tocante a todas estas coisas" (Ex. 24, 8).    

Essa era a "Antiga Aliança". Porém, na Última Ceia, ao apresentar o cálice de vinho, Jesus disse: 
"Este é o cálice da Nova Aliança, a qual se sela com meu Sangue”. (Já não era sangue de animais, mas o Sangue do Filho de Deus que sela a Nova Aliança).

Estava anunciando o Senhor sua morte no dia seguinte, o verdadeiro Cordeiro sacrificado na Cruz e seu Sangue derramado, com o qual selaria a Nova Aliança.

O Corpo entregue e seu Sangue derramado faz da morte de Cristo um sacrifício singular: sacrifício de aliança que substitui a Antiga Aliança do Sinai por esta Nova Aliança, na qual o Cordeiro é Cristo, e na qual não se derrama sangue de animais, mas nada menos que o Sangue do Filho de Deus.

E todo esse sacrifício de Jesus, para nossa redenção: tudo isto por mim e para mim. E esta Aliança Nova é perfeita, posto que Jesus nos redime de nossos pecados e nos assegura para sempre o acesso a Deus e a possibilidade de viver unidos a Ele, mediante ao recebimento de seu Corpo e de seu Sangue na Comunhão, Sacramento de salvação que nos deixou instituído na primeira Quinta-feira Santa da história e que com razão a Igreja celebra novamente na Festa de Corpus Christi.

O significado deste "Mistério de Fé" que é a presença real de Jesus Cristo na Hóstia Consagrada é o sentido do sacrifício de Cristo na Cruz.

Tal como anunciou ao apresentar o Cálice na Última Ceia: seu Sangue, derramado por nos para perdoar nossos pecados; Seu Corpo entregue por nos. E esse Corpo e esse Sangue, os mesmos da Cruz, estão presentes no Pão e no Vinho consagrados, cada vez que o Sacerdote diz: 
façam isto em minha memória”, pronuncia as mesma palavras de Cristo na Última Ceia.

Oh infalível mistério! Oh mistério de nossa fé!

O minsterio do Corpo e do Sangue de Cristo é um mistério de Amor. É o Presente maior que nos foi dado: Deus Pai nos entrega seu Filho para nos redimir do pecado, para pagar nosso resgate. Que preço para nos resgatar! A Vida de Jesus Cristo, o Cordeiro de Deus, entregue na Cruz.

E essa entrega do Filho de Deus pos nos os seres humanos, se remova em cada Eucaristia. Assim, em cada Santa Missa celebrada em qualquer parte do mundo temos sua Presença Real e Viva no meio de nós, para que o reconhecer e adorar na Hóstia Consagrada, e para ser alimento de nossa vida espiritual quando o recebemos na Sagrada Comunhão.

Oh Presente infinito! Oh Presente de Amor.


Padre Claudio.

==============

 

A CRUZ

Por que é que um instrumento de morte se tornou o símbolo do cristianismo?


A morte é o maior enigma da condição humana. Tudo o que construímos durante longos anos, tudo o que é belo na existência humana, parece desvanecer-se em fumaça no espaço em um instante. E eis que no coração da fé cristã encontramos o símbolo de uma morte violenta.

Na realidade, desde o começo, a morte não está justamente no centro do Evangelho. A fé começa pelo anúncio de uma Vida mais poderosa do que a morte:
 Ressuscitou! É à luz da ressurreição que a morte toma o seu lugar na proclamação cristã.

Contemplada sob esta luz, a morte muda de sentido. Sem a confiança numa Vida além da morte, os seres humanos ficam paralisados pelo medo, aterrorizados à beira dum abismo para o qual não ousam olhar de frente. Mas ao consentir dar a sua vida por amor, porque levado pela certeza de uma comunhão inabalável com o Pai, Cristo retira à morte o seu
 
"aguilhão" (1 Coríntios 15,55), o medo do vazio: "pela sua morte ele libertou aqueles que, pelo temor da morte, estavam toda a vida sujeitos à escravidão" (Hebreus 2,14-15). Na companhia de Cristo, então, morrer pode tornar-se uma linguagem capaz de exprimir o dom total de si mesmo. Pela sua existência, Jesus ensina-nos "a lei do grão de trigo: se o grão de trigo, caindo na terra, não morrer, fica ele só; mas, se morrer, dá muito fruto" (João 12,24). Esta "lei" não se aplica apenas à morte física. Indica antes que o caminho para a Vida passa inevitavelmente por soltar amarras, renunciar a agarrarmo-nos a todo o custo às nossas posses, a fim de irmos com Deus em direção ao inesperado que se encontra à nossa frente. Em nós, está essa semente portadora de vida que subsiste e que floresce apesar de tudo.

Neste sentido, a primeira "morte" que conhecemos é o nosso nascimento, onde abandonamos o abrigo do seio materno para enfrentar os rigores da existência. Depois, na história santa, temos o exemplo de Abraão, chamado a deixar para trás um mundo conhecido para embarcar numa aventura com o Senhor (Gênesis 12,1-4). Mais tarde, encontramos o exemplo do povo de Israel, que tem de atravessar as provações do deserto para chegar à Terra prometida. A cruz é assim a revelação plena do verdadeiro movimento da vida:
 
"Quem procurar salvaguardar a sua vida, perdê-la-á, e quem a perder, conservá-la-á" (Lucas 17,33).

Paradoxalmente, então, a verdadeira morte, no sentido negativo do termo, é a recusa de assumir um risco com Deus. Aquele que quer "poupar" ou "salvar" a vida a todo o custo, aquele que fica agarrado ao que já possui, arrisca-se a não compreender nada da vida autêntica. A cruz de Cristo revela-nos uma maneira de morrer que não contradiz a lógica da vida. A partir daí compreendemos que a cruz e a ressurreição são as duas faces, a face sombria e a face luminosa, de um só e mesmo Amor, de uma só e mesma Vida.


Poderão os sofrimentos de um inocente salvar-nos ?

Sabemos que Jesus sofreu uma morte atroz. A crucificação era um dos maiores suplícios do mundo antigo e, para os Judeus, um sinal de rejeição por parte de Deus (Deuteronômio 21,23; Gálatas 3,13). Ora, o Novo Testamento faz-nos compreender que, longe de ser um fracasso ou uma condenação, a cruz é o instrumento da nossa salvação (por exemplo, Gálatas 6,14; Colossenses 1,20). Não admira que sempre tenhamos tido dificuldade em perceber como um tal horror podia ter conseqüências tão felizes.

De fato, uma incompreensão dessas assenta num equívoco que vale a pena tirar a limpo. Desde há séculos que este equívoco exerce devastações e afasta multidões da fé em Cristo. Consiste na idéia de que o sofrimento de Jesus enquanto tal teria um valor salvífico. Dito de outro modo, Deus Pai teria precisado disso, portanto teria havido nele uma certa cumplicidade para com a violência exercida contra o seu Filho único.


Quase que basta formular claramente esta tese para nos apercebermos de que ela não só é falsa como também blasfematória. Se Deus nem sequer deseja o sofrimento e a morte dos maus (Ezequiel 33,11), como poderia ter prazer no sofrimento e na morte do seu Filho muito amado, o Inocente por excelência? Muito pelo contrário, é preciso ousar dizer incessantemente que o sofrimento em si mesmo não tem qualquer preço aos olhos de Deus. Mais ainda, na medida em que ela estraga o que está vivo, a dor está em contradição absoluta com um Deus bom que quer para todos a vida em plenitude (João 10,10).

De onde vem então este equívoco? Entre outras coisas, de uma leitura superficial dos textos bíblicos que são na realidade abreviados. Numa leitura dessas, o meio-termo é esquecido. Esse meio-termo é precisamente o amor. Pois o que pode dar a vida, o que nos salva, é apenas o amor. Se o sofrimento não tem nenhum valor só por si, sendo mesmo a maior parte das vezes destruidor, há momentos em que, para permanecermos fiéis a um amor, somos levados a suportar um sofrimento incompreensível. Ora, os textos do Novo Testamento que parecem exaltar o sofrimento celebram na realidade o amor de Deus que vai até ao dom total de si mesmo em favor do ser amado. São João lembra-no-lo com todas as letras: "Ninguém tem maior amor do que aquele que dá a vida pelos seus amigos" (João 15,13).

Na frase "Cristo também sofreu por vós" (1 Pedro 2,21), por exemplo, é "por vós" que exprime o meio termo, a presença do amor. No seu Filho, Deus desposou a condição humana ao ponto de tomar o último lugar por amor; a cruz é assim a expressão de uma solidariedade absoluta (Filipenses 2,6-8). E quando São Paulo escreve que partilha os sofrimentos de Cristo (por exemplo 2 Coríntios 1,5; Filipenses 3,10; Colossenses 1,24), exprime na realidade o seu desejo, no seguimento de Jesus, de se gastar pelos outros sem medida. Porque Cristo tomou sobre ele os sofrimentos da nossa condição por amor, esses sofrimentos podem ser vividos não já como um castigo merecido ou um destino cego e absurdo, mas como um encontro com o Amor e um caminho em direção à Vida.

Textos Bíblicos

1 Coríntios 15,55
55 Onde está, ó morte, a tua vitória? Onde está, ó morte, o teu aguilhão?

Gênesis 12,1-4
1 Ora, o Senhor disse a Abrão: Sai-te da tua terra, da tua parentela, e da casa de teu pai, para a terra que eu te mostrarei.
2 Eu farei de ti uma grande nação; abençoar-te-ei, e engrandecerei o teu nome; e tu, sê uma bênção.
3 Abençoarei aos que te abençoarem, e amaldiçoarei àquele que te amaldiçoar; e em ti serão benditas todas as famílias da terra.
4 Partiu, pois Abrão, como o Senhor lhe ordenara, e Ló foi com ele. Tinha Abrão setenta e cinco anos quando saiu de Harã.

Deuteronômio 21,23
23 o seu cadáver não permanecerá toda a noite no madeiro, mas certamente o enterrarás no mesmo dia; porquanto aquele que é pendurado é maldito de Deus. Assim não contaminarás a tua terra, que o Senhor teu Deus te dá em herança.


Gálatas 3,13
13 Cristo nos resgatou da maldição da lei, fazendo-se maldição por nós; porque está escrito: Maldito todo aquele que for pendurado no madeiro;

Gálatas 6,14
14 Mas longe esteja de mim gloriar-me, a não ser na cruz de nosso Senhor Jesus Cristo, pela qual o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo.


Colossenses 1,20
20 e que, havendo por ele feito a paz pelo sangue da sua cruz, por meio dele reconciliasse consigo mesmo todas as coisas, tanto as que estão na terra como as que estão nos céus.


Ezequiel 33,11
11 Dize-lhes: Vivo eu, diz o Senhor Deus, que não tenho prazer na morte do ímpio, mas sim em que o ímpio se converta do seu caminho, e viva. Convertei-vos, convertei-vos dos vossos maus caminhos; pois, por que morrereis, ó casa de Israel?

João 10,10

10 O ladrão não vem senão para roubar, matar e destruir; eu vim para que tenham vida e a tenham em abundância.

1 Pedro 2,21
21 Porque para isso fostes chamados, porquanto também Cristo padeceu por vós, deixando-vos exemplo, para que sigais as suas pisadas.

Filipenses 2,6-8
6 o qual, subsistindo em forma de Deus, não considerou o ser igual a Deus coisa a que se devia aferrar,
7 mas esvaziou-se a si mesmo, tomando a forma de servo, tornando-se semelhante aos homens;
8 e, achado na forma de homem, humilhou-se a si mesmo, tornando-se obediente até a morte, e morte de cruz.

2 Coríntios 1,5
5 Porque, como as aflições de Cristo transbordam para conosco, assim também por meio de Cristo transborda a nossa consolação.

Filipenses 3,10
10 para conhecê-lo, e o poder da sua ressurreição e a e a participação dos seus sofrimentos, conformando-me a ele na sua morte,

Colossenses 1,24
24 Agora me regozijo no meio dos meus sofrimentos por vós, e cumpro na minha carne o que resta das aflições de Cristo, por amor do seu corpo, que é a igreja;

Taizé

===========================================

Domingo da Divina Misericórdia

 

O Papa João Paulo II, atingido pelos tiros certeiros de Ali Agka, assim que deixou o hospital, foi ao presídio de Roma para levar seu perdão ao turco. O mundo em geral edificou-se com o gesto de misericórdia do papa polonês. Lembrou o exemplo de Cristo, pregado na cruz entre dois ladrões: “Pai, perdoa-lhes, pois não sabem o que fazem” (Lc 23, 34).

Cabe ainda lembrar que entre as bem-aventuranças, o Mestre colocou a misericórdia: 
“Bem-aventurados os misericordiosos, porque alcançarão misericórdia” (Mt 5, 7). E aos fariseus, escandalizados porque o Senhor permitiu que publicanos e pecadores sentassem com ele à mesa, ensinou: “Não são os que têm saúde que precisam de médico, mas sim os doentes. Ide, pois, e aprendei o que significa: Misericórdia é que eu quero, e não sacrifício. Com efeito, eu não vim chamar os justos, mas os pecadores” (Mt 9, 13).

Para celebrar o amor misericordioso de Deus para com a humanidade, por decisão de João Paulo II, a Santa Sé instituiu o primeiro domingo após a Páscoa como o Domingo da Divina Misericórdia.

Para quem, tendo confessado seus pecados, comungar nesta festa, é concedido uma indulgência plenária. Isto é, o perdão das culpas e das penas. A confissão não precisa ser neste dia.

A imagem de Jesus da Divina Misericórdia foi feita a partir de uma revelação particular de Jesus a Santa Faustina: raios de graças se derramam a partir do coração misericordioso de Jesus. E recomenda-se a repetição da jaculatória, tradicional na Igreja: “Jesus, eu confio em vós”. No meu tempo de seminário, aprendi assim: 
“Jesus, eu confio e espero em vós”.

Aos sacerdotes solicita-se a pregação sobre o amor misericordioso do Salvador para com a humanidade. A partir do exemplo de Jesus Cristo, vai o convite à imitação, discípulos que somos do Divino Mestre.

Entre os exemplos modernos, temos a Madre Teresa de Calcutá. Conta-se que Santa Rosa de Lima, quando a mãe a repreendeu por manter em casa pobres e doentes, respondeu: 
“Quando servimos os pobres e doentes, servimos a Jesus”.

Num mundo de ódio, de tristeza, de violência, de guerra, de cólera e de rancor, a misericórdia desperta a alegria, fruto do amor e do perdão. A cultura moderna gosta de exaltar a felicidade. Um coração rancoroso é triste e infeliz. Ao contrário, a pessoa misericordiosa elimina a tristeza e fica invadida de alegria. O amor é alegria. Deus é amor.

Dom Sinésio Bohn

==========================

Maria e a Ressurreição de Cristo


1. Depois que Jesus é colocado no sepulcro, Maria "é a única que mantém viva a chama da fé, se preparando para acolher o anúncio alegre e surpreendente da Ressurreição". A espera que vive a Mãe do Senhor no Sábado santo constitui um dos momentos mais altos de sua fé: na escuridão que envolve o universo, ela confia plenamente no Deus da vida e, recordando as palavras de seu Filho, espera a realização plena das promessas divinas.

Os evangelhos citam vários aparecimentos do Ressuscitado, mas não falam do encontro de Jesus com sua mãe. Este silêncio não deve nos levar a concluir que, após sua Ressurreição, Cristo não apareceu a Maria; ao invés, convida-nos a tratar de descobrir os motivos pelos quais os evangelistas não o referem.

Supondo que se trata de uma "omissão", se poderia atribuir ao fato de que tudo o que é necessário para nosso conhecimento salvífico se encomendou à palavra de testemunhas "escolhidas por Deus" (Atos dos Apóstolos 10, 41), isto é, aos Apóstolos, os quais "com grande poder" (Atos dos Apóstolos 4, 33) deram depoimento da Ressurreição do Senhor Jesus. Antes que a eles o Ressuscitado apareceu a algumas mulheres fiéis, por sua função eclesial:"Ide dizer aos meus irmãos que se dirijam à Galiléia, pois é lá que eles me verão" (Mateus 28, 10).

Se os autores do Novo Testamento não falam do encontro de Jesus ressuscitado com sua mãe, talvez se deva atribuir ao fato de que os que negavam a Ressurreição do Senhor poderiam ter considerado esse depoimento demasiado interessado e, portanto, não digno de fé.

2. Os evangelhos, ademais, referem só a poucos aparecimentos de Jesus ressuscitado, e certamente não pretendem fazer uma crônica completa de todo o que sucedeu durante os quarenta dias após a Páscoa. São Paulo recorda um aparecimento "a mais de quinhentos irmãos ao mesmo tempo" (I Coríntios 15, 6). Como justificar que um fato conhecido por muitos não seja referido pelos evangelistas, apesar de seu caráter excepcional? É sinal evidente de que outros aparecimentos do Ressuscitado, ainda sendo consideradas fatos reais e notórios, não foram recolhidos.

Como poderia a Virgem, presente à primeira comunidade dos discípulos (Atos dos Apóstolos 1, 14), ter sido excluída do número dos que se encontraram com seu divino Filho ressuscitado dentre os mortos?

3. Mais ainda, é legítimo pensar que verossimilmente Jesus ressuscitado apareceu a sua mãe em primeiro lugar. A ausência de Maria do grupo das mulheres que na aurora se dirigiram ao sepulcro (Marcos 16, 1; Mateus 28, 1), não poderia constituir um indício do fato de que ela já tinha se encontrado com Jesus? Esta dedução ficaria confirmada também pelo dado de que as primeiras testemunhas da Ressurreição, por vontade de Jesus, foram as mulheres, as quais permaneceram fiéis ao pé da cruz e, por tanto, mais firmes na fé.

Efetivamente, a uma delas, Maria Madalena, o Ressuscitado lhe encomenda a mensagem que devia transmitir aos Apóstolos (João 20, 17-18). Talvez, também este dado permita pensar que Jesus apareceu primeiro a sua mãe, pois ela foi a mais fiel e na prova conservou íntegra sua fé.

Por último, o caráter único e especial da presença da Virgem no Calvário e sua perfeita união com seu Filho no sofrimento da cruz, parecem postular sua participação particularíssima no mistério da Ressurreição.

Um autor do século V, Sedulio, sustenta que Cristo se manifestou no esplendor da vida ressuscitada antes de mais nada para sua mãe. Efetivamente, ela, que na Anunciação foi o caminho de seu rendimento no mundo, estava chamada a difundir a maravilhosa notícia da Ressurreição, para anunciar sua gloriosa vinda. Assim inundada pela glória do Ressuscitado, ela antecipa o "resplendor" da Igreja (corforne Sedulio, Carmen pascale, 5, 357-364: CSEL 10, 140 s).

4. Por ser imagem e modelo da Igreja, que espera o Ressuscitado e que no grupo dos discípulos se encontra com ele durante os aparecimentos da páscoa, parece razoável pensar que Maria manteve um contato pessoal com seu Filho ressuscitado, para gozar também ela da plenitude da alegria pascal.

A Virgem santíssima, presente no Calvário durante a Sexta-feira santa (João 19, 25) e no cenáculo em Pentecostes (Atos dos Apóstolos  1, 14), foi provavelmente testemunha privilegiada também da Ressurreição de Cristo, completando assim sua participação em todos os momentos essenciais do mistério pascal. Maria, ao acolher o Cristo ressuscitado, é também sinal e antecipação da humanidade, que espera conseguir sua plena realização mediante a Ressurreição dos mortos.

No Tempo Pascal a comunidade cristã, dirigindo-se à Mãe do Senhor, convida-a a alegrar-se:
 
"Regina coeli, laetare. Alleluia". “Rainha do céu, alegra-te. Aleluia!". Assim recorda a alegria de Maria pela Ressurreição de Jesus, prolongando no tempo o "Alégrate!” que lhe dirigiu o anjo na Anunciação, para que se convertesse em causa "de alegria" para a humanidade inteira.

Textos bíblicos

Atos dos Apóstolos 10, 41 - não a todo o povo, mas às testemunhas que Deus havia predestinado, a nós que comemos e bebemos com ele, depois que ressuscitou.

Atos dos Apóstolos 4, 33 - Com grande coragem os apóstolos davam testemunho da ressurreição do Senhor Jesus. Em todos eles era grande a graça.

I Coríntios 15, 6 - Depois apareceu a mais de quinhentos irmãos de uma vez, dos quais a maior parte ainda vive (e alguns já são mortos);

Atos dos Apóstolos 1, 14 - Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele.

Marcos 16, 1 - Passado o sábado, Maria Madalena, Maria, mãe de Tiago, e Salomé compraram aromas para ungir Jesus.

Mateus 28, 1 - Depois do sábado, quando amanhecia o primeiro dia da semana, Maria Madalena e a outra Maria foram ver o túmulo.

João 20, 17-18 - 17 Disse-lhe Jesus: Não me retenhas, porque ainda não subi a meu Pai, mas vai a meus irmãos e dize-lhes: Subo para meu Pai e vosso Pai, meu Deus e vosso Deus. 18 Maria Madalena correu para anunciar aos discípulos que ela tinha visto o Senhor e contou o que ele lhe tinha falado.

João 19, 25 - Junto à cruz de Jesus estavam de pé sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria, mulher de Cléofas, e Maria Madalena.

Atos dos Apóstolos  1, 14 - Todos eles perseveravam unanimemente na oração, juntamente com as mulheres, entre elas Maria, mãe de Jesus, e os irmãos dele.

por João Paulo II

============================

AMAR DE VERDADE


Muitas vezes no caminho da vida concluímos que a teoria que nos ensinaram parece que tem uma verdadeira coerência, mas depois, a realidade da vida vai por outro lado. É necessário exercitar a teoria. Não é suficiente saber que temos que ser bons e felizes, mais aprender a ser e a aplicar gradualmente estes ensinamentos em nossa vida diária.

Os artigos propostos a cada semana tem um aspecto a ser melhorado, um exercício vital que tenta ser reflexão e prática. Convidamos-te que a cada semana que faças tua cada uma dessas propostas. Verás como em pouco tempo tua vida começará a mudar...

Texto para reflexão - Ama os que te rodeiam


Não amemos com palavras nem com
a língua, mas por atos.
(I São João 3,18)

Vivemos na sociedade das palavras. Alguns dizem que padecemos de uma inflação da palavra... Acostumamos-nos a usar palavras ao vento, por isso há tanta palavra vazia que não nos enche…


Com a palavra podemos dizer “te quero bem” a alguém e alegrar-lhe o dia, porém também podemos a manter calada e deixar os outros desconcertados.

Temos medo das palavras porque são uma arma que nos pode ajudar ou atacar, depende de como se use. A melhor palavra é a que se diz para iniciar ou respaldar o que fazemos. Não é bastante dizer aos demais "te quero bem", devemos o demonstrar com a vida.

Quem mais alegrias e problemas causam-nos são precisamente os que nos rodeiam, os que temos perto. Um desconhecido nos deixa indiferente. As alegrias e as penas são produzidas pelos que temos a nosso redor. Não devemos estranhar em momentos concretos que sejam eles os que produzem nossas feridas mais internas e nossas alegrias mais profundas.

O amor não é só para o dizer, deve ser demonstrado, inclusive, ainda que pareça estranho com os mais próximos. Não vale aquilo que dizem muitos: "já ele/ela, sabe que a quero…" A melhor maneira é dizer… e o demonstrar com fatos…

Há pessoas que estão tão preocupadas em querer e ajudar aos demais, que se esquece de querer e ajudar aos que têm mais perto…

==========================

Porque Maio é o mês de Maria

 

Algo que distingue os católicos é o amor que sentimos pela Virgem Maria; este amor, nasce da admiração que temos por ela ser "a cheia de graça"; este título foi dado a Maria na "Anunciação", (cf. Lc 1,26-38). Sua vida de obediência, de fé e de fidelidade nos impele a querer imitá-la, também nos encoraja, pois sendo ela humana, alcançou a meta que todos perseguimos: por Jesus Cristo, com o Espírito Santo, voltar à casa do Pai Celestial. 

 

 Na Sagrada Escritura, Lucas põem as palavras de Maria, Mãe de Jesus, no anúncio da forma com que nos, os homens, a veríamos:

 

"Disse então Maria: A minha alma engrandece ao Senhor, e o meu espírito exulta em Deus meu Salvador; porque atentou na condição humilde de sua serva. Desde agora, pois, todas as gerações me chamarão bem-aventurada, porque o Poderoso me fez grandes coisas; e santo é o seu nome.” (Lc 1,46-49)

 

Vemos neste texto como é importante a figura de Maria para “todas as gerações”. É o motivo pelo qual nos, os cristãos, lhe rendemos um culto especial que se chama de Veneração. O cuidado e a proteção de Maria se faz sentir na Igreja desde seu começo, quando no dia de Pentecostes, ela se encontrava no meio dos apóstolos temerosos, rezando com eles e os animando na espera do Espírito Santo. Desde então os homens se sentem queridos e protegidos por uma Mãe amorosa que intercede ante Deus e que nós guia com seu exemplo de vida para seguir Jesus Cristo seu Filho até nosso destino eterno.

 

A alegria da Virgem

Que Maria seja a causa de nossa alegria.
Que cada um de nós, sejamos Jesus para ela.
Ninguém aprendeu a humildade como Maria.
Ela foi a escrava.

Ser escravos significa ser útil para todos, com alegria...
A alegria era a força da Virgem.
Somente a alegria lhe deu forças para caminhar sem cansar-se
até as colinas da Judéia para realizar o trabalho de serva.
também nós temos que marchar, sem nos deter,
para além das colinas das dificuldades.

Madre Teresa de Calcuta

 

 Lc 1,26-38
26 Ora, no sexto mês, foi o anjo Gabriel enviado por Deus a uma cidade da Galiléia, chamada Nazaré,
27 a uma virgem desposada com um varão cujo nome era José, da casa de Davi; e o nome da virgem era Maria.
28 E, entrando o anjo onde ela estava disse: Salve, agraciada; o Senhor é contigo.
29 Ela, porém, ao ouvir estas palavras, turbou-se muito e pôs-se a pensar que saudação seria essa.
30 Disse-lhe então o anjo: Não temas, Maria; pois achaste graça diante de Deus.
31 Eis que conceberás e darás à luz um filho, ao qual porás o nome de Jesus.
32 Este será grande e será chamado filho do Altíssimo; o Senhor Deus lhe dará o trono de Davi seu pai;
33 e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.
34 Então Maria perguntou ao anjo: Como se fará isso, uma vez que não conheço varão?
35 Respondeu-lhe o anjo: Virá sobre ti o Espírito Santo, e o poder do Altíssimo te cobrirá com a sua sombra; por isso o que há de nascer será chamado santo, Filho de Deus.
36 Eis que também Isabel, tua parenta concebeu um filho em sua velhice; e é este o sexto mês para aquela que era chamada estéril;
37 porque para Deus nada será impossível.
38 Disse então Maria. Eis aqui a serva do Senhor; cumpra-se em mim segundo a tua palavr


===============================

A moral cristã segundo

São Tomás de Aquino

A Igreja é «casa de Deus» (Domus Dei). O professor Iceta, autor de «A moral cristã habita na Igreja», comenta com Zenit esta imagem de Igreja como casa tomada de São Tomás de Aquino e a define como «a comunicação do homem na bem-aventurança».

 Mario Iceta é sacerdote e doutor em medicina e cirurgia pela Universidade de Navarra.

Em sua obra «A moral cristã habita na Igreja. Perspectiva eclesiológica da moral em São Tomás de Aquino», de EUNSA, explora a moral de São Tomás, que, segundo ele, é a da bem-aventurança e da primazia do amor.

Doutor em teologia moral pelo Pontifício Instituto João Paulo II para o estudo sobre o matrimônio e a família, Iceta é fundador da Sociedade Andaluza de Bioética e da revista especializada em Bioética e Ciências da Saúde.

Que quer dizer: a moral cristã habita na Igreja?

Parece-me que na atualidade se tem uma visão muito reduzida da identidade do cristão. Um cristão não é simplesmente um homem que tenta ser algo melhor que os demais porque recebeu como uma espécie de código moral que o obriga a isso. É esta uma visão um tanto caricaturada do ser cristão.

O cristão é um ser que renasceu quando se deixou surpreender pelo amor de Cristo; é um ser que nasceu do alto por meio do batismo, como afirma o Senhor em seu diálogo comNicodemos. Este nascer do alto comporta um novo modo de obrar, próprio de quem foi transformado por Cristo.

A vida do cristão converte-se em um seguimento de Cristo, em um seguimento de Cristo («sequela Christi»). O nascer do alto e o conseguinte seguimento só podem dar-se de modo real se Cristo se faz contemporâneo a todo homem; e esta contemporaneidade de Cristo com o homem acontece na Igreja.

O novo modo de obrar só pode gerar-se no seio da comunidade eclesial. Nela o ser humano é gerado de novo, vai progressivamente adquirindo a forma de Cristo também com vistas à ação.

No seio da comunidade eclesial dão-se as condições para que o cristão possa aprender a realizar ações excelentes e santas e é capacitado para isso por meio da graça, recebida na celebração dos sacramentos.

Como se relacionam moral e eclesiologia concretamente?

As relações são múltiplas. Como já apontava anteriormente, a Igreja é o lugar que reúne as condições necessárias para a gênese da subjetividade cristã.

Em meu trabalho considero uma dupla perspectiva.

A primeira faz referência à edificação da Igreja por meio das ações excelentes do cristão. Efetivamente, a edificação da Igreja tem lugar por meio da ação meritória de Cristo e as ações santas dos cristãos que têm em Cristo seu princípio de operação que possibilita o acesso à bem-aventurança. Por meio de suas ações, sustentadas pela graça e participando do mérito de Cristo, o cristão vai edificando a Igreja como Corpo místico até que chegue a sua plenitude e perfeição em estado escatológico.

A segunda perspectiva é recíproca à anterior. Faz referência à geração do cristão no seio da Igreja. Na aquisição da forma cristã, o cristão precisa de um elemento interior que é fundamentalmente o sacramento do batismo, pelo qual é gerado a uma vida nova e capacitado para começar a forma cristã própria do «homo spiritualis».

Mas esta regeneração precisa por sua vez de fatores externos que vão modelando e configurando a perfeição cristã.

Estes fatores são: a imitação de Cristo (daí a necessidade da Sagrada Escritura e da pregação, pelas quais o cristão aprende a conhecer e imitar Cristo); a função pedagógica da lei moral, que atua como pedagogo até que o cristão adquira o «instinctus Spiritus Sancti» que o capacita para reconhecer e realiza ações excelentes e meritórias; o testemunho e a companhia dos cristãos virtuosos no contexto da amizade, por meio do qual o cristão aprende como por co-naturalidade a formar-se virtuosamente e a atuar excelente e meritoriamente e, por último, o ministério pastoral em sua função de engendrar e nutrir a vida cristã do homem, em dependência da paternidade de Deus com cada um de nós.

Qual é a perspectiva da Igreja que subjaz na moral de são Tomas de Aquino, que o senhor estudou?

São Tomas não se circunscreve a uma perspectiva unívoca da igreja. Em seus Comentários à Escritura, objeto de meu trabalho, utiliza diversas imagens eclesiológica, entre as quais predominam principalmente duas: a Igreja como «Corpus mysticum», própria da teologia paulina, e a Igreja considerada como «Domus» ou «Templum Dei», que é mais própria da teologia de São João e foi muito menos estudada.

Parece-me que uma contribuição interessante ao pensamento teológico atual é a recuperação desta visão da Igreja como «Domus» que tem riquíssimas implicações na perspectivaeclesiológica da moral.

São Tomas considera que habitar na «Domus Dei» consiste em permanecer estavelmente nas boas ações. Daí que os filhos, permanecendo operativamente no amor de Deus, permanecem na «Domus», que é a Igreja.

A «Domus» é considerada como a posse do fim último, quer dizer, a comunicação do homem na bem-aventurança. Cristo se converte no paradigma da edificação da «Domus», associando os cristãos a sua própria obra de glorificação.

Ademais desta concepção da Igreja como Corpus «mysticum», como «Domus» e «Templum», São Tomas emprega também outras imagens que estão diretamente relacionadas com estas duas.

As imagens de «societas ut civitas sanctorum», «Regnum» e «communio» dependem da concepção da Igreja como «Domus». E as imagens da Igreja como Esposa de Cristo, rebanho do bom Pastor e a imagem da vida e dos ramos vêm relacionadas com a consideração somática da Igreja. São Tomas sabe empregar os diversos registros que cada imagem representa para aprofundar as diversas dimensões eclesiológicas da ação do cristão.

O senhor defende que a moral de Tomas de Aquino é uma moral da bem-aventurança. Como seria?

A idéia que muitos têm na atualidade acerca da moral é uma idéia distorcida da moral própria de uma leitura atropelada da manualística.

Bem sabemos que a encíclica «Veritatis Splendor», seguindo a indicação do Decreto «Optatamtotius», n. 16, do Concílio Vaticano II, urgia à moral mostrar ao cristão sua altíssima vocação em Cristo. Para esta renovação, é necessário, como indica o mesmo Concílio, um retorno às fontes, uma escuta atenta da Palavra de Deus e da rica fonte da Tradição, especialmente dos Santos Padres.

A este respeito, a releitura de São Tomas à luz dos problemas que atualmente se estabelecem na Teologia moral pode dar lugar a uma fecundidade assombrosa.

O esquema próprio da manualística (lei-consciência) era desconhecido para o Aquinate. Esse esquema, fruto da manualística, funde suas raízes no nominalismo, onde começa de modo inexorável a deterioração da estrutura fundamental da Teologia moral.

Na moral de São Tomas, Cristo e a caridade adquirem o status de pedra angular da estrutura moral enquanto que no contexto da amizade com Cristo, que é a caridade, o homem caminha para a bem-aventurança. A moral, portanto, consiste principalmente nessa «seqüela Christi», no caminho de retorno para o Pai por Cristo e o Espírito Santo onde o cristão alcança a bem-aventurança plena em que consiste sua própria perfeição e o objeto da moral.

No retorno das criaturas racionais a Deus, encontraria a Teologia moral seu lugar teológico adequado, enquanto ciência que trata sobre o fim último que é a comunhão com Deus. Não em vão, o primeiro tratado da parte moral da «Summa Theologiae» corresponde à bem-aventurança como fim último.

O homem progride para esta bem-aventurança no contexto da amizade com Cristo, apresentado como «máxime sapiens et amicus». Neste lugar, no encontro com Cristo, na resposta a seu Amor que provoca o homem a responder, o cristão por meio de suas ações sustentadas e movidas pela graça de Cristo vai caminhando e progredindo para a bem-aventurança.

Daí que a moral em são Tomas seja principalmente uma moral da bem-aventurança.

Por isso, o estudo atento do Aquinate pode ajudar a moral a sair do empobrecimento e, em certo modo, do impasse que a conduziu à manualística e retornar a seu contexto próprio que é o seguimento amoroso de Cristo no contexto de sua amizade oferecida de forma permanente na Igreja.

 

++++++++++++++++++++++++++++++++++++++++


QUE É MORAL?

 

Moral ou ética é o conjunto de normas, regras e princípios historicamente variáveis que regulam o comportamento de um indivíduo para com outro e de ambos para com a sociedade. Diferencia-se das normas do direito, o qual também regula as relações entre os homens, mas tem poder coercitivo emanado do Estado. A diferença está no fato de que suas normas se apóiam no peso da opinião social, na convicção interior de cada um e na força dos costumes. Os conceitos do bem e do mal, do dever e honestidade, da consciência e honra, funcionam como categorias morais.

O fator determinante e decisivo que orienta a conduta dos homens, é, em última análise, o interesse social, e, numa sociedade de classes, os interesses de classes. A opinião social de determinada classe ou povo sanciona alguns atos como sendo bons e morais, condenando outros como maus e imorais.

A consciência moral, o sentido da responsabilidade, o sentimento do dever diante da sociedade, da pátria, da classe ou mesmo do povo, é, às vezes, tão grande que resulta numa força mais poderosa que o próprio instinto de conservação.

As normas morais não são perenes nem invariáveis As doutrinas religiosas e idealistas que falam dos princípios "eternos e irremovíveis" da moral são inexatas. Nunca existiu nem existirá uma moral extra-humana, divina ou superior às classes. A concepção da moral como algo emanado dos preceitos divinos ou de acordo com qualquer outra definição idealista não é senão uma tentativa consciente ou inconsciente de encobrir as raízes terrenas, sociais, da moral.

A moral - uma das formas de consciência social - é o reflexo das condições da vida material da sociedade sob determinadas normas de conduta dos homens. É um fenômeno de caráter superestrutural. Ao mudar a infra-estrutura da sociedade, e como resultado disso, mudam também as formas e o conteúdo da moral. "As idéias do bem e do mal - dizia Engels - diferem de povo para povo, de geração para geração, e, não poucas vezes, chegam a se contradizer abertamente".

Na sociedade primitiva, as relações entre homens se regiam pela sucessão dos usos e costumes, modelados histórica e espontaneamente como um conjunto de tradições, que consagravam as idéias e as normas de conduta sustentadas ao longo de vários séculos. Essas regras e costumes transmitidos de geração a geração acabaram por converter-se em normas morais. Eram consideradas como mandatos dos antepassados. Ao surgir a religião, começaram tais normas a serem apresentadas como preceitos divinos.

Nas primeiras fases do desenvolvimento da sociedade primitiva, em que o nível das forças produtivas era ainda muito baixo, a fome crônica obrigava o homem a matar, e, às vezes, a devorar os velhos e as crianças.

Nada disso era imoral, na época. Com o desenvolvimento da produtividade do trabalho, extinguiu-se essa prática; mudaram também os costumes e as normas da moral. Os anciãos passaram a ser considerados depositários da experiência e da tradição, recebendo dos mais novos estima e respeito. As velhas tradições continuavam somente como ritos religiosos relacionados com os sacrifícios sagrados. Isso veio para a religião cristã sob forma simbólica, como o revelam, entre outras coisas, o mito de Cristo - o Homem-Deus que se imola na cruz; e o rito da comunhão - em que os participantes ingerem o corpo e o sangue de Cristo.

Nos primórdios da sociedade primitiva imperavam a poligamia e a poliandria. Os costumes consagravam es­sas relações familiares-conjugais, e nenhuma delas era considerada imoral. No decurso do progresso social, surgiu a família monogâmica, trazendo consigo uma mudança radical nas idéias dos povos no que tange ao matrimônio. Começaram a ser considerados como fenômenos imorais, contrários à moral, a poligamia e a poliandria. Nas fases escravista, feudal e capitalista, ao lado da instituição do matrimônio monogâmico, há sempre leis que sancionam a prostituição. Na sociedade capitalista, onde se tornou mercadoria, a mulher aparece como objeto de compra e venda. O casamento burguês é tão-somente uma transação. O matrimônio de conveniências é sancionado pela moral burguesa, já que o dinheiro e o lucro constituem os critérios fundamentais do modo de vida da sociedade capitalista.

Na sociedade sem classes surge uma sólida família monogâmica e impera a moral socialista, autenticamente humana, que regula as relações familiares-conjugais. A sociedade socialista considera imoral e desonroso o matrimônio fundado no lucro e não no amor.

Na época da escravidão e do feudalismo, a vida de orgias, o parasitismo e a ociosidade das classes dominantes eram considerados pela moral em vigor como coisas perfeitamente lícitas. A burguesia adventícia dos séculos XVI, XVII e XVIII, que só se preocupava com a acumulação de riqueza, imbuída do espírito empreendedor, olhava com desprezo os vícios feudais, exibidos no esbanja­mento, na indolência, na vida regalada e ociosa, e pregava a moral puritana, a parcimônia e a laboriosidade. Mais tarde, porém, a mesma burguesia, ao converter-se num poder reacionário, degenerou-se numa classe parasitária, como eram anteriormente a dos senhores escravistas e feudais. Em conseqüência disso obviamente, mudaram também os seus princípios morais. O ócio e o parasitismo já não são considerados vícios. Pelo contrário, a sociedade burguesa cerca de honrarias os magnatas exploradores, cheios de riquezas, e que levam uma vida parasitária e dissipadora.

O curso do desenvolvimento social, que vai desde o regime social primitivo até o capitalismo, representa um progresso na trajetória do desenvolvimento das forças produtivas e das relações sociais, na marcha da ciência, da arte e da literatura. No entanto, esse desenvolvi­mento progressivo apresenta um cunho contraditório, e vem acompanhado da degradação moral das classes exploradoras. Engels dizia que a passagem da sociedade primitiva, do regime gentílico, à sociedade de classes manifesta-se como uma caída do nível moral do homem. "Os interesses mais vis - a baixa cobiça, a brutal avidez pelos gozos, a avareza sórdida, o roubo da propriedade comum - inauguram a nova sociedade civilizada, a sociedade de classes; os meios mais vergonhosos - o roubo, a violência, a traição - minam a antiga sociedade das gens - sociedade sem classes - e a conduzem à perdição".

As mudanças que afetam a base econômica são, por­tanto, a causa determinante das que se operam na moral. No desenvolvimento da moral influem também as relações políticas, o direito, a religião, a ciência, a filosofia e a arte. Assim, por exemplo, uma política reacionária, fascista, estimula e fortalece os traços mais bestiais da moral dominante na sociedade capitalista, apóia o amoralismo como norma de conduta e ainda dá ensejo a que se implante o ódio e a traição.

Antes do advento do socialismo, a religião e o clero influíam poderosamente no desenvolvimento da moral; já na sociedade primitiva a moral recebia uma sanção religiosa. Na sociedade de classes, para obrigar as mas­sas populares a reconhecer e acatar as normas da moral estabelecida pelas classes exploradoras, a religião e o clero a apresentam como obra de mandado divino.

A religião proclama como altas virtudes a humildade, a resignação, o perdão das ofensas, o amor aos opressores. "O escravo deve obedecer a seu senhor", "se te baterem na face direita, oferece a esquerda", "amai a vossos inimigos": é o que prega a moral religiosa.

A arte também influi consideravelmente na modelação das normas morais. Assim, por exemplo, a cons­ciência moral das camadas avançadas da sociedade é educada sob a ação emancipadora das grandes obras de arte, que refletem e põem a descoberto os caracteres e costumes da sociedade escravista, feudal e capitalista. Shakespeare e Dickens, Molière e Balzac, Tolstoi e Gorki, marcaram com fogo em suas imortais obras o estigma do mundo da exploração.

A influência da filosofia sobre a moral transparecia no fato de que, desde a sociedade antiga, consagrara ela uma atenção toda especial aos problemas da ética, que procura oferecer uma fundamentação teórica à moral social ou de impor-se criticamente a ela.

Consciente ou inconscientemente, os homens sempre são o fruto das condições da vida material de uma sociedade, isto é, dos seus conceitos do justo e do injusto, da honra e do dever, do bem e do mal. Daí se concluir que, numa sociedade dividida em classes, os princípios da moral tenham sustentado e ainda sustentem, um caráter de classe. Numa sociedade desse tipo não pode haver uma moral única para todos. Ao caracterizar a moral da sociedade capitalista, dizia Engels: "Que moral se prega hoje? Em primeiro lugar a moral cristã-feudal, que nos têm legado os velhos tempos da fé, a qual se divide substancialmente em católica e protestante, com diversas variantes e subdivisões que vão desde a moral católica jesuítica, a ortodoxa dos protestantes, até à mais ou menos liberal. Por que somente nos países mais cultos da Europa o passado, o presente e o futuro nos brindam com três grupos de teorias morais que pretendem reger os três simultaneamente? Qual a verdadeira? No sentido absoluto e definitivo, nenhuma. É evidente que a moral que expresse, no presente, a comoção do presente, oferece mais garantias de permanência do que as demais."

A força fundamental que impulsiona as ações da burguesia, sua conduta, idéias e princípios, é a ganância, o lucro. Marx cita em O Capital as seguintes palavras de um economista sobre os motivos que inspiram os atos da classe capitalista: "O capital tem horror à ausência do lucro ou mesmo ao lucro pequeno, como a natureza ao vazio. À medida que o lucro aumenta, o capital toma vulto; se lhe for assegurado um lucro de 10%, sairá de onde estiver; uns 20%, e se sentirá mais animado; com 50%, positivamente temerário; com 100%, será capaz de saltar por cima de todas as leis humanas; e com 300%, já não há crime a que não se arrisque, ainda que o leve ao patíbulo".

"O homem é o lobo do homem"; "muito tens, muito vales"; "o talento está no bolso"; "cada um por si e Deus por todos". Nesses ditos e noutros de igual teor se expressam as normas da moral capitalista, nascidas do antagonismo de classes, da propriedade privada e da competição geral.

A sociedade burguesa repousa seus alicerces nos princípios: "ou despojas a outro ou te despojam a ti"; "ou trabalhas para outro ou o outro trabalha em teu proveito";; ou "es escravista ou escravo". Como é natural, as pessoas educadas nessa sociedade assimilam as idiossincrasias do seu meio, isto é, a psicologia, os costumes, as idéias - do escravista ou do escravo, do pequeno proprietário, do pequeno empregado, do pequeno funcionário, do intelectual, numa palavra, do homem preocupado somente em possuir cada vez mais, sem deter sua atenção nas demais coisas

O detentor de grandes reservas de trigo, na sociedade capitalista, está interessado em que sobrevenha uma seca, em que haja má colheita, fome, pois tudo isso pode fazer subir o preço de sua mercadoria; ao médico interessa que abundem os enfermos; ao advogado, que se cometam muitos delitos; ao arquiteto, que haja muitos incêndios na cidade; ao papa-defuntos que aumente o número de mortos. A desgraça de uns é fonte de lucro e até meio de vida para outros.

A maior desgraça que se pode abater sobre os povos são as guerras imperialistas. No entanto, são fonte de fabulosos lucros para os magnatas do capital, para o fabricante de armamentos. Não é outra a causa por que os ideólogos e políticos burgueses justifiquem a guerra e digam que ela é natural e eterna. Não é em vão que os monopólios temem a paz como a peste. Na sociedade capitalista tudo se converte em mercadoria, em valor de troca; tudo se compra, tudo se vende - a mão-de-obra, a consciência, a honra, a dignidade do homem, suas virtudes, o amor, a beleza, o talento do artista e a inspiração do poeta, o gênio do sábio e os sermões do sacerdote. A circulação das mercadorias, dizia Marx "é como uma grande retorta social, à qual se lança tudo para sair cristalizado em dinheiro. Dessa alquimia não escapam nem mesmo os ossos dos santos. Com o dinheiro desaparecem todas as diferenças qualitativas das mercadorias, e há um nivelamento pela base, que anula todas as diferenças. Além disso, o dinheiro é uma mercadoria, um objeto material que pode converter-se em propriedade privada de qualquer um. Quem o possui tem tudo. Quem carece dele está condenado à miséria, está perdido. Aos olhos do burguês, o dinheiro é a medida da dignidade do homem. Sua posição social é determinada pela quantidade de dinheiro que possui. O burguês, o possuidor de dinheiro, pode dizer, como acentuou Marx: "Sou feio, no entanto posso comprar a mulher mais formosa que desejar, o que quer dizer que não tenho feiúra, pois o que nela possa ser repelente é destruído pelo dinheiro. Pode ser que fisicamente alguém seja coxo, mas como o dinheiro lhe dá uma dúzia de pernas, desaparece o seu defeito. Pode-se ser idiota, desonesto, carente de gênio, néscio, mas como o dinheiro é tido em alta conta, quem o possui também o é. O dinheiro é o maior de todos os bens, e quem o possui pode considerar-se, também, excelente. O dinheiro exime até de se ser desonesto, e o seu detentor pode ser facilmente probo."

Nos Estados Unidos circula este ditado: "Se roubas um pão, metem-te na cadeia; mas se roubas um trem, fazem-te senador". Os moralistas, políticos e propagandistas burgueses falam e escrevem bastante da livre personalidade, da igualdade de direitos da mulher, das altas virtudes, etc.,. mas isso não é obstáculo para que, em todos os países capitalistas, existam, sob a égide da lei, casas de tolerância e se mantenha legalmente consagrada a desigualdade entre os sexos. No Estado de Alabama há uma lei segundo a qual o marido tem o direito de castigar sua esposa com um pau "cuja grossura não exceda a duas polegadas". Leis parecidas são também vigentes até na "de­mocrática" Inglaterra. Vejamos como escrevia, não faz muito tempo, o periódico liberal News Cronicle: "O ma­rido tem o direito de castigar fisicamente sua mulher se, para isso empregar uma vara que não exceda a grossura de sua munheca - foi essa a sentença proferida pelo juiz Taylor Tys, num processo do condado de Brentford".

Somente na sociedade capitalista podem ser publicados anúncios tão ridículos como este que, em 1948, apareceu no periódico americano New Day: "Vende-se: mulher divorciada, pele cor-de-rosa, atraente, busca um homem para se casar, que sustente a ela e a seus dois filhos. O candidato deverá firmar contrato e estar em condições de desembolsar, de imediato, 10 mil dólares". Daí se concluir que a moral capitalista é, na sua essência, amoral. A decomposição moral, o amoralismo, é um dos traços característicos da decadência das classes exploradoras. A nobreza da França, às vésperas da revolução burguesa de 1789, adotava o seguinte lema: "Aprés nous, le dêluge" (depois de nós, o dilúvio) . Esse lema não mudou muito com relação à burguesia de nossos dias. O escritor norte-americano F. Landberg traça um quadro do parasitismo e da vida de desperdício da plutocracia norte-americana, e, numa de suas obras, assinala: "A burguesia norte-americana, enriquecida com a exploração do seu próprio povo e o despojo de outros países, não sabe como empregar o fruto dessa exploração. A glutonaria, a perversão, o luxo demencial - colares de brilhantes para cachorros no valor de 15.000 dólares, banquetes em homenagem a cães e cavalos favoritos, etc. - já são coisas triviais na atual sociedade americana".

A fisionomia moral da burguesia norte-americana contemporânea acha-se muito bem sintetizada nas palavras proferidas pelo Dr. Nenson, Reitor da Universidade de Tampa (Estado da Flórida) : "Parece-me que deve­mos nos preparar para a lei das selvas. Cada um que cuide de se aprimorar na arte de matar. Não acho que a guerra deva limitar-se aos exércitos e às forças arma­das de ar e mar, nem tampouco que devam existir restrições quanto aos métodos e armas de destruição. Não seria tampouco contra a guerra bacteriológica nem contra o emprego de gases, bomba atômica e de hidrogênio, e nem mesmo do foguete intercontinental. Não seria também partidário de que se pedisse tratamento especial para os hospitais, igrejas, instituições científicas ou qualquer grupo especial de população. Seria hipocrisia querer mostrar clemência diante de tais grupos, fossem quais fossem". A degradação moral da burguesia de nosso tempo se reflete na literatura e na arte. Autores decadentes como Henry Miller e Faulkner exaltam o crime como sendo a expressão do "livre arbítrio". Os heróis da literatura norte-americana são os gangsters e bandoleiros. Henry Miller define o homem como canalha e acha que a existência do ser humano não passa de um grande erro.

(Teoria Materialista da História – F. V. Konstantinov – Editora Equipe)

 

++++++++++++++++++++++++++++++++++++

CONVERTEI-VOS

Jesus chamou os pescadores – Sal

            Deus nos chama diariamente, Ele bate à nossa porta para que O deixemos governar a nossa vida. Porém, Ele respeita o nosso livre arbítrio, respeita a nossa liberdade de aceitar ou não o seu convite. Os pescadores aceitaram, e foram transformados em pescadores de homens e mulheres.

            Neste momento Deus está chamando você através desta palestra (leitura). O palestrante que vos fala não é Deus, mas está canalizando o seu chamado até você.

            Caríssimo(a). A partir do instante em que você aceitar o chamado de Deus e der o primeiro passo em direção a Ele, a sua vida começa a se transfigurar, a mudar. Tudo vai ser mais fácil quando é Deus que está na direção dos nossos passos, dos nossos pensamentos, das nossas decisões.  Você não fica livre de ter problemas, mas terá a imensa AJUDA de Deus para a solução dos mesmos. Experimente. Você passará a se sentir como se estivesse no centro de um furacão sem ser atingido pela força destruidora do vento, o qual está arrebentando tudo em sua volta, enquanto você permanece tranqüilo e na paz de Deus. Você passará a ver pessoas em sua volta com muitos problemas, pessoas que choram, que resmungam, que se descabelam, e às vezes o máximo que você pode fazer por elas é rezar. Pois quando se trata de parentes, santo de casa não faz milagres. Por mais que você fala dos ensinamentos de Jesus a elas, você nem é ouvido(a).

            Você deve estar pensando: Então serei plenamente feliz?

Não. Deus não nos dá a felicidade plena, para que não nos acomodemos nesta vida. Para que cuidemos de nos preparar para merecer a outra fase da nossa vida, na qual Ele vai nos dar a FELICIDADE  ETERNA.

            Mas como Deus nos chama?

            Ele nos chama de várias maneiras: Como uma brisa, ou  como um furação. É como seus pais. Eles primeiro o adverte das coisas certas e errada. Depois com mais energia, chama-lhe atenção quando você faz alguma coisa errada. Deixou a torneira aberta ou a luz acesa. Você insiste no erro, e seus pais aumentam o tom da voz, para lhe corrigir. Amanhã você de novo comete os mesmos erros. Então está na hora de um safanão, ou de uns gritos.Você concorda, ou sem corda?...

Deus age de forma semelhante aos seus pais, digamos semelhante, pois Deus é misericórdia infinita, e não guarda as os nossos pecados, quando nos perdoa, como fazem os humanos. Ele pode nos corrigir suavemente ou nos chamar também com braço forte, através de uma desventura, de uma morte, de um desemprego, da perda do amor, ou daquilo que mais nos apegamos na Terra, etc.

            Primeiro Deus, como uma brisa nos enviou o se Filho para nos ensinar o que devemos, e o que não devemos fazer para sermos quase felizes nesta vida e alcançar um dia a felicidade plena e eterna.  Será que você prestou atenção no que Ele disse? Então se liga agora, meu caro, minha cara! Este é o momento da verdade, o momento do chamado de Deus a você.

            Aí você pergunta: Mas onde Deus está?    Deus está toda parte. Ele sendo invisível, está aí do seu lado, não O vemos ou sentimos com os nossos órgãos dos sentidos, porém o percebemos com os olhos da fé. Podemos ter experiências maravilhosas da presença de Deus.

            Então, se Deus está bem aí do seu lado, o que você está esperando? Fale com Ele. Pode ser apenas com seu pensamento. Diga a Ele que você aceita o seu chamado, e que quer mudar de vida. Pergunta o que tem de fazer para mudar a sua vida. É claro que você não vai ouvir Deus falando como Abraão, mas no momento certo Ele vai lhe mostrar tudo o que terá de fazer, a cada passo. Aliás, o seu segundo passo pode ser ir a uma igreja e procurar um sacerdote. Faça uma santa confissão. Mude a direção da sua vida, isto é, converta-se.

            Tem gente que mergulhou tão fundo na vida de pecado e crimes que para mudar de vida terá de mudar de lugar, de cidade, pois se continuar na mesma rotina, com os mesmos “amigos” que o levou àquela vida errante, fica complicado demais a sua conversão, mesmo com a ajuda de Deus.

            Já sei. Você deve estar pensando. Já entendi.  Deus me chamou, eu disse sim, não terei felicidade plena, mais terei uma vida com muito mais qualidade, com ajuda na solução dos meus problemas... e a força especial de Deus para esganar aquela “fulaninha” que tomou meu namorado, ou para dar um jeito naquele vizinho que me torra a paciência com tanto barulho...  Não! Não, e não. Deus vai dar a você forças suficientes para combater um de seus maiores inimigos, e que está bem aí dentro de você. Isso mesmo. É  O SEU EGOÍSMO!

            O egoísmo que é o causador de tanta injustiça, de tantas brigas, separações, e muita infelicidade. Se todos combatessem esse grande e terrível inimigo, o mundo seria maravilhoso!

            Então, parece que agora só depende de você! Não deixe para amanhã, nem conte a ninguém antes da hora a sua decisão de mudar sua vida, de aceitar que Deus administre, governe, gerencie, decide o rumo do seu caminhar por esta vida terrena, rumo a casa do Pai. Que assim seja. Amém.

.................................................

Testemunho:

Esta palestra me foi inspirada pelo Espírito de Deus na manhã do dia 24 de Agosto de 20011, logo ao acordar e quando me dirigia para uma das escolas onde faço um trabalho de Ensino Religioso ecumênico.  Chegando na escola, tive uma experiência extasiante! Foi a melhor palestra proferida até aquele dia. Não por  mim, mais pelo Espírito Santo agindo e falando através da minha pessoa. Os alunos do primeiro colegial nem piscavam, prestaram toda atenção, a professora participou, e depois fez elogio sincero. Quando encerrei, os alunos não queriam que eu parasse, e manifestaram isso não para ficar sem fazer a lição ou copiar matéria, mas foi de forma forma sincera. Não digo que foi emocionante, pois não vivo buscando novas emoções, mas digo que foi gratificante, que foi mais uma experiência da força de Deus no meu trabalho de evangelização.

Sal.

=============================

A homossexualidade numa
perspectiva cristã

 

Subsídios para Avaliação do Projeto de Lei nº 1151 de 1995

1 - Introdução

É uma honra e uma grande responsabilidade ser convidado a comparecer diante desta Comissão, encarregada de apreciar o projeto de lei nº 1.151, cuja finalidade é disciplinar a união civil entre pessoas do mesmo sexo. A honra deixa-me sensibilizado, mas a responsabilidade leva-me a explicitar os objetivos desta colocação e as limitações que o tempo e o foro impõem.  O objetivo que proponho é o de oferecer aos legisladores subsídios, a partir da tradição cristã, para avaliar se é oportuno, nesta conjuntura, legislar sobre a união civil entre pessoas do mesmo sexo e se as provisões propostas são justas.

Na perseguição deste objetivo, gostaria de esclarecer o papel do teólogo neste contexto como alguém cuja função não é impor aos legisladores tomadas de posição, mas, sim oferecer subsídios para que eles possam, diante da complexidade da problemática apresentada, tomar a melhor decisão possível, levando em consideração a verdade, a liberdade responsável, a justiça e o amor solidário com os que precisam da proteção da lei. Na elaboração destes subsídios é importante mostrar que não se pode reduzir a grande tradição cristã a algumas proibições duras e descontextualizadas. Pelo contrário, a tradição cristã em nossos dias, como grande proposta de vida radicada na fé, mas trabalhada pela razão, pode oferecer pistas valiosas para os legisladores (mesmo os de outras religiões ou de nenhuma) na sua busca de leis humanizantes, protetoras do bem-estar de todos. Esta tradição se desenvolve na vivência eclesial, refletida de modo especial nos documentos oficiais da Igreja e nas obras dos teólogos.

Alguns dos subsídios oferecidos aqui talvez levem os membros da Comissão a julgar que neste momento da nossa história não é nem oportuno nem necessário legislar sobre este assunto. Outros talvez tenham o efeito contrário, levando-os a aprovar o projeto de lei como está ou com emendas inspiradas por estas ou outras colocações feitas durante os trabalhos da Comissão. O importante é que a decisão seja consciente e justa.

A grande limitação que precisamos levar em conta é o pouco tempo disponível para aprofundarmos um assunto tão vasto. Isso talvez nos ajude, porém, a ser sucinto e objetivo na apresentação desta reflexão, mesmo correndo o risco de não tratar aspectos em si merecedores de atenção. 

 

2 - As grandes preocupações dos documentos oficiais da Igreja em relação à homossexualidade

Um dos serviços que posso prestar a esta Comissão é demonstrar que o pensamento sobre a problemática da homossexualidade, nos documentos oficiais da Igreja Católica, é um pouco mais sofisticado e complexo de que, às vezes, se dá a impressão. Para isso, escolhi para atenção especial três textos romanos, dois da Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé: Declaração sobre alguns Pontos da Ética Sexual1, de dezembro de 1975 e Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais2 de outubro de 1986 e um outro breve texto tirado do Catecismo da Igreja Católica3 de 1992/1993.  Uma chave importante para interpretar corretamente estes textos é lembrar que eles se inserem no contexto de um debate amplo sobre uma nova cultura de homossexualidade emergente na sociedade ocidental e com grande repercussão dentro da própria Igreja. Outra chave é notar a tensão nestes textos entre a preocupação em defender um certo rigor doutrinal, onde o grande valor salvaguardado é o "esplendor da verdade"4 e uma forte solicitude pastoral, onde o grande valor promovido é o esplendor do amor5. Se se quebrar o equilíbrio gerado por esta tensão, citando um ou outro elemento fora do seu contexto, corre-se o risco de distorcer gravemente o sentido global do texto.

 

3 - A declaração sobre alguns pontos da ética sexual (1975)

Conscientes desta advertência, que acabamos de fazer, podemos começar com algumas considerações sobre a Declaração sobre alguns Pontos da Ética Sexual6. Não há dúvida que, em relação à homossexualidade, predominam a preocupação com o rigor doutrinal, e desconfiança diante de certas conclusões éticas baseadas em dados da psicologia moderna. O documento, por exemplo, encara com consternação, como sendo contra "o ensino constante do magistério" e "o sentir moral do povo cristão", a tendência de "julgar com indulgência, e até mesmo a desculpar completamente, as relações homossexuais em determinadas pessoas". Prossegue afirmando que "Segundo a ordem moral objetiva, as relações homossexuais são atos destituídos da sua regra essencial e indispensável". Afirma, também, que elas são condenadas na Sagrada Escritura como graves depravações e apresentadas como conseqüência triste de uma rejeição de Deus7. "Este juízo exarado na Escritura Sagrada ... atesta que os atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados e que eles não podem, em hipótese nenhuma, receber qualquer aprovação".  É precisamente neste momento que é necessário relembrar o que foi falado sobre a segunda chave de interpretação destes textos apontada acima: a importância de não quebrar o equilíbrio gerado pela tensão entre o rigor doutrinal e a solicitude pastoral, citando um ou outro elemento fora do seu contexto.

À primeira vista, estamos diante de uma rejeição tão forte da homossexualidade e de atos homossexuais, que parece não haver nenhum espaço para diálogo sobre o assunto. Parece que o Documento está muito mais preocupado em afirmar que, objetivamente, atos homossexuais são graves depravações e intrinsecamente desordenados, que em ajudar pastoralmente as pessoas que praticam tais atos ou que são, de fato, homossexuais. Quando olhamos o texto mais de perto, porém, descobrimos uma postura mais flexível e mais solícita diante do sofrimento humano vivenciado por pessoas para quem sua orientação sexual é um problema.

Há um reconhecimento, por exemplo, da contribuição da psicologia à compreensão do fenômeno da homossexualidade e que estes novos conhecimentos podem influir na avaliação moral de atos e relacionamentos. Isto representa uma abertura à mudança de percepção.

A percepção pré-moderna, com a teologia e o direito como seus grandes mediadores quando se interessa pela questão, tende a considerar atos homossexuais fundamentalmente como pecado ou crime perturbador da ordem natural. No linguajar popular, que também tem suas raízes na mentalidade pré-moderna, estes atos são considerados simplesmente como "sem vergonhice".

A percepção que se abre para a modernidade, porém, valorizando a subjetividade e a autonomia das ciências psicossociais e bio-médicas, tende a medicalizar a homossexualidade, tratando-a como anomalia cerceadora da liberdade do seu portador. O Documento deixa muito claro, por exemplo, que a mesma Bíblia a que se apela para afirmar que atos de homossexualidade são intrinsecamente desordenados "não permite ... concluir que todos aqueles que sofrem de tal anomalia são por isso pessoalmente responsáveis".

É precisamente nesta escuta às ciências humanas que o Documento chama atenção para algumas distinções que têm relevância especial para as duas mediações que nos interessam aqui hoje, de maneira especial, a mediação teológica e a mediação jurídica.

A primeira distinção que pode ser de grande utilidade para nós na apreciação do projeto de lei sob consideração, é a distinção entre a homossexualidade como tendência transitória e a homossexualidade como condição definitiva8. Esta distinção implica que pode haver não apenas uma diferença de avaliação moral e pastoral para as duas categorias de pessoas, mas, também, uma diferença de estratégia jurídica.

Pela sua própria natureza, a homossexualidade como tendência transitória é, em princípio, reversível, pelos fatores que a provocam: uma educação falseada, uma falta de evolução sexual normal, um hábito contraído, maus exemplos ou outras causas análogas. Uma boa pedagogia ou uma boa terapia pode ajudar estas pessoas, que de fato não são homossexuais, a superar esta fase de sua vida e desenvolver a plenitude das suas potencialidades de relacionamento humano.

Não se deve confundir esta situação com a de pessoas que vivem sua homossexualidade como condição definitiva, "aqueles outros homossexuais que são tais definitivamente, por força de uma espécie de instinto inato ou de uma constituição patológica considerada incurável".

A solicitude pelo bem-estar destas pessoas, leva o Documento a trabalhar com mais duas distinções: a distinção entre tendências e atos e a distinção entre atos e pessoas que praticam os atos.

Podemos entender melhor o uso que o Documento faz destas distinções se as analisarmos um pouco mais. Pode-se entender melhor a distinção entre tendências e atos apelando para os dois exemplos seguintes. Um rapaz, que nunca na sua vida teve tendências homossexuais, é preso e, na cadeia, os colegas de cela obrigam-no a praticar atos homossexuais. O outro exemplo é um homem que, desde a sua juventude, sempre se sentia atraído por pessoas do mesmo sexo mas que nunca, por um motivo ou outro passou a praticar atos homossexuais. Explicitando melhor, é possível praticar atos homossexuais, como de fato praticam alguns jovens na fase experimental da sua evolução psico-afetiva ou certos michês9, sem ter nenhuma tendência homossexual, como é possível ter fortes tendências homossexuais sem nunca ter praticado os atos correspondentes, seja por opção conscientemente assumida, seja por falta de coragem ou de oportunidade.

O alcance desta distinção entre tendências e atos se percebe quando o Documento se coloca diante da homossexualidade como condição definitiva e procura entender esta situação propondo pistas doutrinárias e pastorais ao mesmo tempo. Nesta tentativa, o texto esboça um ponto de vista em relação a esta categoria de pessoas no qual "alguns concluem que a sua tendência é de tal maneira natural que deve ser considerada como justificante, para eles, das relações homossexuais numa sincera comunhão de vida e de amor análoga ao matrimônio, na medida em que eles se sintam incapazes de suportar uma vida solitária".

As dificuldades formuladas em relação a esta posição têm a ver com a compreensão das relações homossexuais, não tanto como relacionamentos humanos, mas como atos homogenitais. Na perspectiva da moral objetiva, estes atos não podem ser justificados nem aprovados, no sentido de declará-los bons, por serem "atos destituídos da sua regra essencial e indispensável" e por serem "intrinsecamente desordenados". Isso não significa que as pessoas que as praticam tem que ser rejeitadas e condenadas. Pelo contrário, o Documento faz questão de frisar que devem ser "acolhidos com compreensão e apoiados na esperança de superar as próprias dificuldades pessoais e a sua inadaptação social". É justamente aqui que se vê a importância prática da terceira distinção, a distinção entre atos e pessoas que praticam os atos. Os atos em si podem ser gravemente desordenados, mas da pessoa autor dos atos "sua culpabilidade há de ser julgada com prudência". Se for caso de patologia, a responsabilidade está obviamente comprometida. Caso contrário, para se configurar uma situação de pecado sério, além de matéria grave (o elemento objetivo), é necessário também constatar a presença de conhecimento pleno desta gravidade e pleno consentimento (o elemento subjetivo: a consciência da pessoa e o grau de liberdade que tem)10. Mesmo juntando todos estes elementos e se configurando uma situação de atos pecaminosos, a palavra de ordem continua sendo misericórdia: acolher com compreensão e apoiar a pessoa, abrindo para ela portas de esperança. A figura do pai que veio correndo para abraçar o filho pródigo, devolvendo-lhe a dignidade perdida nas suas aventuras,11 não aparece neste Documento, mas às vezes se detecta sua sombra, como num retrato quando o sol está atrás do fotógrafo.

 

4 - Carta aos bispos da Igreja Católica sobre o atendimento pastoral das pessoas homossexuais (1986)

Onze anos depois da publicação da sua Declaração, a Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, se manifesta novamente sobre nosso assunto na sua Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais12. Neste intervalo o debate sobre a questão não diminuiu. Pelo contrário, o "pecado que não ousava pronunciar o seu nome" se transforma numa cultura que se orgulha de ser "gay" e contesta não apenas as percepções pré-modernas do comportamento homossexual, mas, também, a medicalização da questão pela percepção moderna. Muitos Bispos dos Estados Unidos contribuem suas diretrizes, reiterando a doutrina tradicional da Igreja sobre o ideal matrimonial da sexualidade humana mas, também, insistindo sobre a dignidade fundamental da pessoa homossexual e sobre a necessidade de defender seus direitos humanos básicos e de protegê-la contra o preconceito e a violência13. É uma época de inovação e de contestação. Esta nova situação se reflete na Carta aos Bispos.  Os autores14 deixam claro que "não se pretende elaborar neste texto um tratado exaustivo sobre um problema tão complexo"(§2). Querem focalizar apenas alguns aspectos ficando dentro do contexto específico da perspectiva moral católica.

Uma das limitações da Carta não pretender ser "um tratado exaustiva" é que não tem condições de examinar todos os aspectos da problemática e acaba favorecendo certos elementos e excluindo outros da sua consideração. Inclui-se da Declaração (1975), por exemplo, referência ao "dever de procurar compreender a condição homossexual" e ao fato que "a culpabilidade dos atos homossexuais deve ser julgada com prudência". Aproveita a distinção, a que já temos chamado atenção, "entre a condição ou tendência homossexual, de um lado, e, do outro, os atos homossexuais", relembrando, porém, que tais atos "eram descritos como atos que, privados da sua finalidade essencial e indispensável, são 'intrinsecamente desordenados' e, como tais, não podem ser aprovados em nenhum caso"(Carta §3). Deixa de aproveitar, porém, a distinção entre a homossexualidade como tendência transitória e a homossexualidade como condição definitiva, que podia ter ajudado a trabalhar com mais tranqüilidade as questões jurídicas e pastorais.

Mais uma vez, a grande tensão entre o rigor doutrinal e a solicitude pastoral é a chave de interpretação que precisa ser usada. A própria Carta chama a atenção para isso nas suas considerações conclusivas quando trabalha a relação entre verdade, libertação, amor e misericórdia15. O clima de contestação, porém, dificulta o diálogo. Isso tem como efeito o fato de que a novidade da Carta se manifesta num rigor doutrinal mais rigoroso ainda em relação aos atos homossexuais, enquanto a solicitude pastoral procura talhar um rosto humanizante nos diamantes brilhantes, mas frios, da pura doutrina.

 

5 - Um rigor doutrinal reforçado

A forte preocupação dos autores desta Carta com um rigor doutrinal reforçado se manifesta, de modo especial, nos seguintes pontos: na sua caracterização dos atos homossexuais, na sua interpretação dos textos bíblicos, na sua reação aos contestadores e na sua reação à pressão e manipulação política.

Rigor renovado na caracterização dos atos homossexuais se deve, em grande parte, à divulgação após a Declaração (1975) de "interpretações excessivamente benévolas da condição homossexual" (§3). A Carta não admite que esta condição seja considerada indiferente e, menos ainda, que seja considerada boa e no seu zelo para defender a sua causa faz seus acréscimos à Declaração anterior. Enquanto a Declaração se satisfez, na distinção entre atos e tendências, em afirmar que os atos são desordenados, a Carta quer que "a própria inclinação" seja "considerada como objetivamente desordenada", embora reconhecendo que ela "não seja em si mesma um pecado", e que o comportamento homossexual seja considerado como "intrinsecamente mau do ponto de vista moral". Tudo isso é para tentar convencer as pessoas a não aceitar "que a realização concreta de tal tendência nas relações homossexuais seja uma opção moralmente aceitável". De novo, parece ser o aspecto físico mais que o aspecto relacional das relações homossexuais que se focaliza.

Sentindo a pobreza de uma abordagem tão claramente fisicista, um pouco mais adiante, a Carta (§7) procura oferecer um sentido mais global da sexualidade e situar suas razões pela rejeição do comportamento homossexual numa perspectiva mais positiva e esperançosa. Propõe o sacramento do matrimônio como o ideal, como a grande encarnação do "desígnio divino da união do homem e da mulher, união de amor e capaz de dar a vida". A dimensão unitiva e a dimensão gerativa ou procriativa são focalizadas como elementos que precisam ser integrados num comportamento sexual adequado. É precisamente por que os atos homossexuais não conseguem combinar estas duas dimensões que são reprovados. "Somente na relação conjugal o uso da faculdade sexual pode ser moralmente reto. Portanto, uma pessoa que se comporta de modo homossexual, age imoralmente".

Não seria esta última conclusão excessivamente dura? A Carta, no seu zelo para defender a clareza de doutrina sobre a ordem moral objetiva, esquece de dar o devido peso ao elemento subjetivo que, também, precisa ser levado em consideração, antes de declarar que uma pessoa, num determinado contexto, está agindo imoralmente.

Continuando seu esforço para apresentar uma visão mais global da sexualidade, os autores apelam para uma combinação de argumentos jusnaturalistas e personalistas, afirmando que "a atividade homossexual impede a auto-realização e a felicidade", precisamente por ser uma atividade desordenada e por isso "contrária à sabedoria criadora de Deus". Rejeitam a acusação de que estão querendo tirar a liberdade dos homossexuais. Muito pelo contrário. "Refutando as doutrinas errôneas acerca do homossexualismo, a Igreja não limita, ... defende a liberdade e a dignidade da pessoa, compreendidas de um modo realista e autêntico".

Outra área em que o rigor doutrinal reforçado se manifesta na Carta é na sua interpretação dos textos bíblicos. O texto se mostra preocupado com uma exegese "segundo a qual a Bíblia ou não teria nada a dizer acerca do problema do homossexualismo, ou até mesmo tacitamente o aprovaria, ou então ofereceria prescrições morais tão condicionadas cultural e historicamente, que afinal não mais poderia ser aplicadas à vida contemporânea". Procurando refutar estas posições, os autores apontam para "uma evidente coerência no interior das mesmas Escrituras no que diz respeito ao comportamento homossexual" (§5).

Começando com o livro do Gênesis, a Carta traça uma teologia da criação pela qual o ser humano, criado à imagem e semelhança de Deus como varão e mulher, reflete esta imagem de um Deus criador precisamente na complementaridade dos sexos expressa mediante a recíproca doação esponsal e na cooperação com Deus na transmissão da vida (§6). Esta imagem, porém, fica escurecida pelo pecado, uma situação que "continua a desenvolver-se na história dos homens de Sodoma (cf. Gn 19,1-11)".

Não há dúvida que seja no livro do Gênesis, seja em Levítico 18:22 e 20:13, há forte repúdio de atos homossexuais e São Paulo, não negando suas raízes judaicas, também repudia tais atos (cf. 1Cor 6:9e 1Tm I:10), atribuindo-os, basicamente, à cegueira em que caiu a humanidade por causa da idolatria e do abandono do verdadeiro Deus (cf. Rm I:18-32).

Neste momento é importante recordar o princípio hermenêutico que está nos guiando, a tensão entre o rigor doutrinal e a solicitude pastoral. É verdade que há textos na Bíblia que rejeitam firmemente atos homossexuais, por um motivo ou outro. Na estória de Sodoma, por exemplo, a condenação também é da violência e da falta de hospitalidade que os pretendidos atos homossexuais representam. É igualmente verdade que a proposta evangélica para pessoas de orientação homossexual, principalmente quando esta tendência é definitiva, não se reduz à condenação de determinados atos. Pelo contrário, há todo um evangelho de compaixão, de misericórdia, de resgato da dignidade do marginalizado que precisa ser lido e proclamado também.

A falta de paciência com as pessoas que parecem contestar a autoridade da Igreja para ensinar sobre questões da ética sexual é outro fator que leva os autores da Carta a um reforçado rigor na formulação não somente de doutrina, mas, também, de disciplina.

Há uma grande desconfiança que as pessoas dentro e fora da Igreja que pressionam a Igreja "a aceitar a condição homossexual como se não fosse desordenada e a legitimar os atos homossexuais" (§8) estejam, talvez inconscientemente, marcados por "uma ideologia materialista, que nega a natureza transcendente da pessoa humana bem como a vocação sobrenatural de cada indivíduo". A Carta vai mais longe e sugere que pessoas de má fé estão agindo, aproveitando a confusão reinante para subverter o ensinamento da Igreja e assim prejudicar as pessoas com doutrina errônea sobre a homossexualidade.

Esta desconfiança explica o rigor de algumas medidas disciplinares propostas que partem para uma política de exclusão. "Nenhum programa pastoral autêntico poderá incluir organizações em que pessoas homossexuais se associem entre si, sem que fique claramente estabelecido que a atividade homossexual é imoral" (§15). Da mesma forma, a Cart exige que se retire "todo apoio a qualquer organização que procure subverter o ensinamento da Igreja, que seja ambígua quanto a ele ou que o transcure completamente" (§17). Também, nega-se apoio a celebrações religiosas e o "uso, por parte desses grupos, de edifícios de propriedade da Igreja, inclusive a possibilidade de dispor das escolas e dos institutos católicos de estudos superiores". A impressão que se dá é que os autores estão mais preocupados em quebrar o poder dos contestadores de que em entender os motivos da sua dissensão.

Neste mesmo espírito de desconfiança, há grande resistência a mudanças na legislação civil em relação a esta matéria. Na leitura destas restrições, é importante verificar se a situação descrita na Carta se assemelha ou não à situação atual no Brasil.

A Carta, por exemplo, fala de "algumas nações" (§9) onde há "uma tentativa de pura e simples manipulação da Igreja, conquistando-se o apoio dos pastores, freqüentemente em boa fé, no esforço que visa mudar as normas da legislação civil", querendo dar a impressão que "o homossexualismo é ... uma realidade perfeitamente inócua, quando não totalmente boa". É preciso ver se isto corresponde àquilo que está acontecendo atualmente no Brasil. Claro que se a Igreja e os seus pastores estão sendo manipulados, é lamentável. Se as mudanças propostas na lei civil visam dar a impressão que o homossexualismo é inócuo ou totalmente bom, isto também precisa ser questionado. Preocupante, também, seria uma lei "segundo a qual a atividade homossexual seria equivalente à expressão sexual do amor conjugal ou, pelo menos, igualmente aceitável", já que tal noção pode incidir "diretamente sobre a concepção que a sociedade tem da natureza e dos direitos da família, pondo-os seriamente em perigo".

A necessidade de proteger pessoas homossexuais contra injustiças é reconhecida mas isto não justifica uma legislação "para tutelar um comportamento ao qual ninguém pode reivindicar direito algum" (§10) ou que considera a atividade homossexual boa.

Estes todos são fatores a serem pesados, como, também, a recomendação da Carta que "Ao avaliar eventuais projetos legislativos, dever-se-á pôr em primeiro plano o empenho na defesa e promoção da vida da família" (§17).  

 

6 - A solicitude pastoral continua se manifestando

Para ser fiel ao sentido pleno do texto que estamos examinando, não basta apresentar seu reforçado rigor doutrinal e disciplinar. É necessário, também, analisar os índices de uma solicitude pastoral continuada. Esta solicitude se manifesta na escuta às ciências humanas, na condenação de discriminação e violência contra as pessoas homossexuais, na afirmação da dignidade e da liberdade do homossexual e no apontar um caminho para o homossexual que quer seguir a Cristo.

Assumindo como seu o dever de procurar compreender a condição homossexual, já enunciado na Declaração (1975), a Carta se apóia "nos resultados seguros das ciências humanas" e reconhece que "possuem objeto e método que lhes são próprios e gozam de legítima autonomia" (§2). A Igreja, na elaboração da sua posição, porém, não se restringe a estes dados, mas dialoga com eles e assim procura desenvolver uma posição baseando-se "na razão humana iluminada pela fé". Neste diálogo entre a ciência e a fé "a Igreja está em condições não somente de poder aprender das descobertas científicas, mas também de transcender-lhes o horizonte", abrindo perspectivas mais holísticas que abrangem a pessoa em todas as suas dimensões.

É nesta escuta às ciências iluminada pela fé que se pode compreender com clareza o fenômeno da homossexualidade, em suas múltiplas dimensões e com seus efeitos sobre a sociedade e sobre a vida eclesial. É um problema que requer do cristão "atento estudo, empenho concreto e reflexão honesta, teologicamente equilibrada".

A sensibilidade pastoral que reconhece a necessidade de diálogo com as ciências se toca mais ainda diante de situações de discriminação e violência contra pessoas homossexuais. Uma das declarações mais fortes desta Carta está nesta linha de pensamento: "É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam. Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil" (§10). Logo em seguida, o texto tira algumas conclusões práticas da sua condenação: "A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações".

Esta conclusão é importante para nossa discussão porque parece cogitar, se for necessário, legislação para proteger pessoas homossexuais contra "expressões malévolas e de ações violentas".

A esta forte condenação da discriminação e da violência, se acrescenta uma afirmação da dignidade e da liberdade do homossexual. Esta afirmação se torna possível, em grande parte, por causa da distinção entre atos e pessoas que praticam os atos.

Na afirmação da dignidade e da liberdade do homossexual, a Carta parece ir ao encontro da tendência da psiquiatria americana de desmedicalizar a condição homossexual16. A homossexualidade é vista como uma condição objetivamente desordenada, mas não como uma patologia que compromete radicalmente a liberdade da pessoa e a responsabilidade pelos seus atos.

O texto chama atenção para a sabedoria da tradição moral da Igreja que evita "generalizações no julgamento dos casos individuais" (§11). Reconhece que pode haver casos onde circunstâncias passadas ou atuais podem comprometer tanto a liberdade e responsabilidade da pessoa que reduzem ou até mesmo eliminam a culpa do indivíduo. Também reconhece, que tais circunstâncias podem reforçar a liberdade e responsabilidade e assim aumentar a culpa. De qualquer forma, é importante distinguir entre reprovar objetivamente um determinado ato e rejeitar e despersonalizar a pessoa responsável pelo ato.

A discussão desta problemática poderia ter sido ajudada mais ainda se neste contexto a Carta tivesse aproveitado a distinção da Declaração (1975) entre tendências homossexuais transitórias e tendências homossexuais definitivas. O leque de opções e a qualidade da liberdade experimentada podem depender da situação de cada caso.

De qualquer forma, o importante nesta colocação é o resgate do reconhecimento da liberdade e da dignidade da pessoa homossexual quando se diz que "deve-se evitar a presunção infundada e humilhante de que o comportamento homossexual das pessoas homossexuais esteja sempre e totalmente submetido à coação e, portanto, seja sem culpa". Uma das grandes críticas que se faz à estratégia de tentar tirar o estigma da homossexualidade medicalizando o problema é que, tirando a responsabilidade das pessoas, acaba-se tirando-lhes, também, a sua dignidade.

É por isso que a Carta afirma: "Na realidade, também às pessoas com tendência homossexual deve ser reconhecida aquela liberdade fundamental que caracteriza a pessoa humana e lhe confere a sua particular dignidade". Nos casos onde há uma verdadeira liberdade de opção, "como em cada conversão do mal, graças a tal liberdade, o esforço humano, iluminado e sustentado pela graça de Deus, poderá permitir-lhes evitar a atividade homossexual".

Notamos bem que, como sempre nestes documentos, o que está sendo condenado são os atos homossexuais e não as pessoas. Há uma rejeição de qualquer reducionismo pelo qual a pessoa é tratada como se fosse apenas uma orientação sexual. O texto que estamos considerando está muito claro neste ponto: "A pessoa humana, criada à imagem e semelhança de Deus, não pode definir-se cabalmente por uma simples e redutiva referência à sua orientação sexual. Toda e qualquer pessoa que vive sobre a face da terra conhece problemas e dificuldades pessoais, mas possui também oportunidades de crescimento, recursos, talentos e dons próprios" (§16). É justamente por isso que a Igreja se propõe, no seu atendimento às pessoas, a recusar "considerar a pessoa meramente como um 'heterossexual' ou um 'homossexual', sublinhando que todos têm uma mesma identidade fundamental: ser criatura e, pela graça, filho de Deus, herdeiro da vida eterna".

Às vezes, o rigor doutrinal e disciplinar dá a impressão que não há lugar para pessoas homossexuais na Igreja ou no Reino de Deus. A solicitude pastoral da Carta que estamos discutindo procura corrigir esta impressão.

Todas as pessoas, independentes da sua orientação sexual, são chamadas a seguir a Cristo, "unindo ao sacrifício da cruz do Senhor todo sofrimento e dificuldade que possam experimentar por causa da sua condição" (§12). Neste seguimento a Cristo, "o Espírito produz na vida do fiel 'a caridade, alegria, paz, paciência, benevolência, bondade, fidelidade, mansidão e autodomínio' e, mais adiante: 'Não podeis pertencer a Cristo sem crucificar a carne com as suas paixões e os seus desejos' (Gl 5,22.24)". Não apenas os homossexuais, mas todas as pessoas precisam aprender a se controlar e a se relacionar adequadamente com os outros para se realizarem como adultos integrados e felizes.

A espiritualidade da cruz pode ser mal entendida como uma inútil renegação de si mesmo. É melhor entendida como forma de autodisciplina que leva à prática da virtude em lugar do vício.

É nesta discussão do seguimento de Cristo que a distinção entre a homossexualidade como tendência transitória e a homossexualidade como tendência definitiva pode ajudar muito. No primeiro caso, conformar-se à vontade de Deus pode significar não somente abandonar a prática de atos homossexuais, como, também, trabalhar para abandonar a própria condição. Quando se trata de pessoas cuja condição de homossexual é definitiva, o seguimento de Cristo pode levá-las a desistir de práticas homogenitais mas não a deixar de ser as pessoas que são.

Todas as pessoas são chamadas a viver a sua sexualidade de uma maneira integrada e responsável, de viver a castidade, cada um segundo a sua personalidade e sua condição de vida. As pessoas homossexuais também precisam descobrir seu caminho, crescendo constantemente no amor a Deus e ao próximo: "Dedicando-se com assiduidade a compreender a natureza do chamado pessoal que Deus lhes dirige, serão aptas a celebrar mais fielmente o sacramento da Penitência e a receber a graça do Senhor ... para generosamente poderem converter-se mais plenamente ao seu seguimento". 

 

7 - A homossexualidade no catecismo da Igreja Católica

O terceiro e último texto que precisamos levar em consideração é tirado do Catecismo da Igreja Católica. (1992)17. A brevidade e a tranqüilidade com que o tema é tratado são notáveis. Acolhendo os dados das ciências bio-médicas e psico-sociais, a homossexualidade é definida como "relações entre homens e mulheres que sentem atração sexual, exclusiva ou predominante, por pessoas do mesmo sexo". Reconhece-se que "sua gênese psíquica continua amplamente inexplicada" e que a "homossexualidade se reveste de formas muito variáveis ao longo dos séculos e das culturas".  Mais uma vez, se distingue entre atos e pessoas. Continua-se considerando os atos homossexuais intrinsecamente desordenados, contra a lei natural, fechados ao dom da vida e desprovidos de uma complementaridade afetiva e sexual verdadeira. "Em caso algum podem ser aprovados". Os seres humanos, como pessoas, porém, "devem ser acolhidos com respeito, compaixão e delicadeza".

Deixando de lado os casos onde a pessoa pode optar por não comportar-se como homossexual, o Catecismo reconhece que "um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais inatas". Não escolheram sua condição e, para muitos, esta constitui uma provação. Retomando a postura da Carta (1986), afirma que se deve evitar para com eles todo sinal de discriminação injusta e insiste sobre sua dignidade fundamental: "Estas pessoas são chamadas a realizar a vontade de Deus na sua vida e, se forem cristãs, a unir ao sacrifício da cruz do Senhor as dificuldades que podem encontrar por causa da sua condição".

A novidade que o Catecismo introduz é o princípio de gradualidade em relação à caminhada da pessoa homossexual. As pessoas homossexuais são chamadas à castidade, mas para poder chegar à plenitude da vivência desta virtude há todo um processo. Para chegar lá, é necessário uma estrutura de formação e de apoio: uma prática das "virtudes de autodomínio, educadoras da liberdade interior", uma amizade desinteressada, a graça dos sacramentos. Apoiadas e formadas desta maneira, "podem e devem se aproximar, gradual e resolutamente, da perfeição cristã". 
Na casa do Pai, há lugar para muita gente18.

 

8 - Implicações para a legislação civil

Numa sociedade pluralista e democrática as leis existem, em primeiro lugar, para promover a dignidade do ser humano e para proteger os interesses dos fracos e dos indefesos. Elas degeneram em tirania quando são impostas autoritariamente para promover os interesses de um determinado grupo em detrimento dos outros ou quando são apenas as preferências emotivas de uma maioria que passam por cima de direitos humanos fundamentais. Leis para serem boas, precisam ser racionalmente fundamentadas. O fator decisivo em avaliá-las não é se elas refletem um determinado ethos secular ou religioso. O fator decisivo a avaliar é se elas são justas, promotoras do bem-estar de todos, respeitosas da dignidade fundamental de cada um e construtoras de uma sociedade livre e solidária.  Como já observamos, os documentos magisteriais, que acabamos de apreciar, se inserem no contexto de um debate internacional e bastante amplo na Igreja e na sociedade civil. Os teólogos da moral tem um papel importante neste debate, fato claramente reconhecido na Carta aos Bispos.19 Seria outro estudo proveitoso examinar a produção teológica sobre a homossexualidade, com referência especial a textos em português, mas pelas limitações do tempo, vamos nos restringir a algumas indicações bibliográficas nas notas20 e a nos inspirar nos resultados destes trabalhos na explicitação de algumas implicações para o processo legislativo dos elementos da tradição cristã que aqui expusemos.

9 - Elementos da perspectiva cristã favoráveis ao projeto de lei nº 1.151.

Há uma série de elementos na perspectiva cristã que pode levar o legislador a acolher as propostas do Projeto de Lei que estamos considerando: o reconhecimento da existência de pessoas definitivamente homossexuais, e da sua dignidade e liberdade; a rejeição da violência e a afirmação do direito à proteção jurídica contra "atitudes malévolas"; a necessidade de estruturas de apoio para evitar isolamento, abandono na doença e na velhice e promiscuidade nos relacionamentos, com o resultante perigo de AIDS, e o esforço no texto de evitar usar a terminologia de casamento para falar da união civil entre pessoas do mesmo sexo.

 

10 - Existem pessoas definitivamente homossexuais

O próprio Catecismo da Igreja Católica reconhece que "um número não negligenciável de homens e de mulheres apresenta tendências homossexuais inatas". A sociedade civil também está tomando cada vez mais conhecimento deste fato e da necessidade de regulamentar aspectos da convivência destas pessoas dentro da sociedade. Se se salvaguardar a exortação da Carta aos Bispos que "Ao avaliar eventuais projetos legislativos, dever-se-á pôr em primeiro plano o empenho na defesa e promoção da vida da família" (§17), parece ser também possível legislar para garantir respeito à dignidade fundamental da pessoa homossexual e a direitos que a própria Igreja reivindica.

A distinção entre atos e pessoas permite que não somente a Igreja, mas a própria sociedade também, possa acolher com compreensão e apoiar as pessoas homossexuais, sem necessariamente aprovar aspectos do seu comportamento. É bom recordar aqui a forte rejeição por parte da Igreja de qualquer reducionismo que trata a pessoa como se fosse apenas uma orientação sexual, desmerecendo sua autonomia como pessoa. Não há motivo para se opor à legislação civil quando esta assimilar a recusa cristã de considerar a pessoa meramente como um "heterossexual" ou um "homossexual" e acolhe a insistência sobre a identidade fundamental dela como criatura humana, filho ou filha de Deus. 

 

11 - A rejeição da violência e da discriminação

Uma das condenações mais fortes no ensinamento oficial da Igreja sobre a homossexualidade se reserva não para o comportamento homossexual mas, sim, para aquelas pessoas que perseguem e praticam violência contra as pessoas homossexuais. "É de se deplorar firmemente que as pessoas homossexuais tenham sido e sejam ainda hoje objeto de expressões malévolas e de ações violentas. Semelhantes comportamentos merecem a condenação dos pastores da Igreja, onde quer que aconteçam . Eles revelam uma falta de respeito pelos outros que fere os princípios elementares sobre os quais se alicerça uma sadia convivência civil" (Carta §10).

A conclusão que se tira desta afirmação é que "A dignidade própria de cada pessoa deve ser respeitada sempre, nas palavras, nas ações e nas legislações". Baseando-nos nisso, podemos sugerir que, na medida em que o Projeto de Lei, que está sendo examinado, vai ao encontro desta necessidade de proteger pessoas contra violência e discriminações injustas, estaria em consonância com a perspectiva cristã aprová-lo.

 

13 - A necessidade de estruturas de apoio

A grande justificativa deste Projeto de Lei é que oferece às pessoas homossexuais estruturas de apoio e de proteção que a atual legislação não pode garantir. Por causa das atitudes e preconceitos sociais atualmente vigentes, muitas pessoas de orientação homossexual firmada vivem uma experiência de exílio dentro do seu próprio país. A marginalização e a discriminação, não raras vezes, levam-nas ao isolamento, ao abandono na doença e na velhice e à promiscuidade nos relacionamentos com outras pessoas. Na medida em que o Projeto de Lei está procurando pistas para humanizar esta situação comunga com as preocupações da perspectiva cristã.

Para certas pessoas, que reduzem os homossexuais à sua orientação sexual e que se preocupam quase que exclusivamente com a moralidade de atos homogenitais, uma união estável entre pessoas do mesmo sexo é vista como uma ocasião de pecado tão grave que preclui qualquer outra consideração.

O ensinamento oficial da Igreja, como demonstramos a cima, é bem mais complexo do que isso. É verdade que uma amizade profunda e uma união estável entre pessoas do mesmo sexo possam levar à prática de atos "intrinsecamente desordenados", como também é verdade que tal união e amizade possam levar ao abandono de um estilo de vida promíscua e à desistência de atos não apenas desordenados, mas perigosos também por causa dos riscos de contrair AIDS.

O teólogo Jaime Snoek oferece três princípios que talvez nos ajudem a entender melhor como se pode proceder cristãmente em relação à questão da união estável entre pessoas do mesmo sexo. 
1) Existe, para todos, uma obrigação geral de crescer para a maturidade afetivo-sexual, em abertura e reciprocidade21.

O que se deve avaliar em relação à união estável entre pessoas do mesmo sexo é se isso vai ajudar ou prejudicar seu crescer para a maturidade afetivo-sexual, em abertura e reciprocidade.

2) O ato sexual encontra na situação conjugal, e somente nela, condições ideais para sua realização22.

 Obviamente, a união entre pessoas do mesmo sexo se encontra fora da situação conjugal e está longe do ideal sublime proposto pela teologia do matrimônio na Bíblia e na tradição da Igreja.

3) Se bem que a situação conjugal representa o ideal ético, isto não quer dizer que formas imperfeitas de linguagem sexual não possam ser humanizantes, desde que tentem expressar o melhor que o sujeito aqui e agora consegue alcançar, por causa dos seus condicionamentos e limitações23

Este conceito de formas imperfeitas de linguagem sexual, abertas ao aperfeiçoamento, abre perspectivas de humanização nos relacionamentos. No fundo, Jaime Snoek está apelando para o princípio de gradualidade resgatado pelo Catecismo, quando fala de estruturas de apoio como amizade desinteressada e a graça dos sacramentos. Quando se deixa de olhar apenas para atos homogenitais e se começa a focalizar a pessoa toda, abrem-se horizontes para as pessoas homossexuais de crescimento não somente na virtude de castidade, mas, também, nas virtudes de fé, esperança e amor, permitindo que se aproximem "gradual e resolutamente, da perfeição cristã"24.

Entendida neste último sentido, a união civil de pessoas do mesmo sexo pode ser tolerada, se não aprovada, por legisladores procurando ser fiéis à perspectiva cristã.

 

14 - O contrato não é casamento

Um fator importante para o legislador que quer respeitar sensibilidades cristãs na sua apreciação deste Projeto de Lei, é a clara distinção que se faz entre o contrato de união civil entre pessoas do mesmo sexo e o matrimônio ou casamento heterossexual. É importante que esta distinção seja mantida e, se for possível, reforçada.

O casamento é o caminho que a Igreja e a sociedade propõem para a grande maioria que quer uma vida sexual ativa e completa, integrando saudavelmente as dimensões unitivas, procriativas e recreativas da sexualidade.

O contrato de união civil entre pessoas do mesmo sexo é uma opção que se propõe para uma minoria na sociedade para quem o casamento não é uma opção por causa da sua condição de homossexual. De fato, na legislação em estudo, em nenhum momento se procura regulamentar o uso da sexualidade pelos contratantes, a não ser no sentido que o Artigo 2º, Parágrafo 2º proíbe a alteração do estado civil dos parceiros na vigência do contrato.

Na hora de decidir se convém ou se é justo legislar neste sentido, é importante relembrar a diferença entre aprovar uma situação e tolerar esta mesma situação. Esta distinção é importante para entender a relação entre a mediação teológica e a mediação jurídica numa sociedade pluralista. Às vezes, é necessário tolerar o que não se aprova para conseguir um bem maior. Mesmo não aprovada a união civil de pessoas do mesmo sexo como estilo de vida adequado para todos, é possível pensar em tolerar uma união desta natureza para uma categoria de pessoas bem delimitada e por motivos proporcionados.

O fato de tolerar algo, não quer dizer que é bom, nem certo, mas muitas vezes a tolerância abre portas para humanizar situações que de outra forma seriam bem mais desumanizantes.

 

15- Emendas desejáveis à luz da tradição cristã

Se os senhores legisladores decidirem aprovar em princípio o Projeto que estamos discutindo, há ainda algumas emendas que poderiam ser apreciadas levando em consideração a perspectiva cristã.

 

16 - Idade mínima

Uma primeira emenda que nos parece importante considerar, seria no sentido de estabelecer uma idade mínima para celebrar este contrato de união civil de pessoas do mesmo sexo. Há dois motivos que nos levam a fazer esta proposta.

O primeiro motivo que nos leva a propor este enriquecimento do texto é a distinção entre a homossexualidade transitória, como fase evolutiva na adolescência e na juventude, e a homossexualidade como personalidade firmada, permanente e irreversível.

Mesmo se conseguirmos criar um clima mais acolhedor e uma sociedade que oferece mais estruturas de apoio, vai ser quase sempre um processo difícil e penoso para a pessoa que se descobre definitivamente homossexual assumir este fato e conviver com sua identidade de minoria, sujeita freqüentemente a desprezo e desconfiança.

Levar um jovem a passar por isso desnecessariamente por engano, seria triste. É importante deixar claro que nem todos que passam por experiências ou por uma fase homossexual na sua infância ou adolescência são fadados a serem homossexuais definitivamente. Uma tendência homossexual provocada por uma educação falseada, uma falta de evolução sexual normal, um hábito contraído, maus exemplos ou abuso sexual enquanto menor por pessoas mais velhas pode, em certos casos, ser revertido. Uma boa pedagogia ou uma boa terapia pode ajudar estas pessoas, que de fato não são homossexuais, a superar esta fase de sua vida e desenvolver a plenitude das suas potencialidades de relacionamento humano.

Em momento nenhum, queremos com isso desrespeitar os direitos e a dignidade das pessoas que vivem sua homossexualidade como condição definitiva. Queremos apenas servir os interesses de todos e ajudar a criar uma estrutura de amadurecimento de decisões que possam repercutir durante uma vida toda.

O segundo motivo que nos leva a propor esta emenda está ligado à proposta, em si louvável, de facilitar a nacionalização do(a) parceiro(a) estrangeiro(a). O estabelecimento de uma idade mínima desincentivará o abuso deste contrato para facilitar o tráfico internacional de menores em vista de exploração sexual.

À luz destas observações propomos uma idade mínima de vinte e cinco (25) anos e que esta idade, em hipótese nenhuma, deve ser inferior a vinte e um anos (21).

 

17 - Deixar claro que a união civil de pessoas do mesmo sexo não é casamento

Na justificação do Projeto de Lei em pauta, a Deputada Marta Suplicy diz claramente que não se propõe dar a parcerias homossexuais um status igual ao casamento. Há, porém, algumas passagens no próprio texto da lei que talvez possam dar esta impressão. O que custa, por exemplo, ter um livro específico para o registro destes contratos, evitando a provisão do Art. 9º que manda registrar estes contratos no mesmo livro que "o casamento religioso para efeitos civis"?

Talvez crie um certo mal-estar, não os efeitos jurídico pretendidos, mas a forma de palavras usadas no Art. 12, Parágrafo único, que equipara ao cônjuge a companheira ou companheiro, que comprove união civil com pessoa do mesmo sexo, nos termos da lei.

 

18 - A questão da adoção

Em relação à adoção de crianças e adolescentes, não é propriamente uma emenda que propomos, mas, sim, um questionamento que levantamos. Sem negar a grande capacidade para dar carinho e viver o amor-doação por parte de pessoas homossexuais, pergunta-se se um lar homossexual é um ambiente adequado para a criação de crianças e adolescentes, por falta de modelos padrão de referência ou "role models" adequados.

 

19 - Elementos da perspectiva cristã contrários ao projeto de lei nº 1.151

Da mesma forma que há argumentos de inspiração cristã que pesam a favor da aprovação do Projeto de Lei nº 1.151, há argumentos de inspiração cristã que pesam contra.  Um argumento de grande peso, pelo menos para os Católicos, é que a Conferência Nacional dos Bispos do Brasil está contra.25.

A preocupação fundamental dos Bispos é com o estado da família brasileira. No seu pronunciamento, dirigem uma palavra de esperança às famílias e fazem um apelo específico aos Parlamentares do nosso País. Expressam sua admiração pelo esforço heróico de muitas famílias e expressam sua vontade de "sempre apoiá-las e defendê-las, sobretudo neste tempo em que a instituição familiar é gravemente ameaçada, prejudicada ou esquecida pela legislação civil"(§3).

Mostram-se preocupados com "uma legislação civil adversa aos ideais e direitos da família. Não bastasse a lei do divórcio, com grande freqüência aparecem novos projetos de lei no Congresso Nacional, novos decretos do Poder Executivo e outros expedientes legais que desfiguram ou enfraquecem a instituição familiar em seus valores básicos e permanentes" (§7).

Citando o ditado de Rui Barbosa, que "a Pátria é a família amplificada", os bispos apelam aos senhores parlamentares que "se oponham e votem contra os projetos de lei, em tramitação no Congresso Nacional, prejudiciais à instituição familiar, como os que ampliam os casos de despenalização do aborto, o que legaliza a união civil de pessoas do mesmo sexo e os que permitem a esterilização humana como método de planejamento familiar" (§9).

A este argumento fundamental dos Bispos, que esta legislação proposta representa uma ameaça à família, pode-se acrescentar o perigo percebido de incentivar comportamento homossexual nos jovens se a união civil de pessoas do mesmo sexo recebe amparo legal.

Na medida em que este Projeto de Lei dá a impressão que está aprovando, e não apenas tolerando, atos homogenitais e na medida em que dá a impressão que está legitimando o "casamento" de homossexuais, uma votação no Congresso favorável à sua aprovação fragiliza mais ainda a estrutura familiar brasileira e contribui para desnortear mais ainda uma juventude à deriva numa cultura profundamente marcada pelo hedonismo.

Há um argumento, ou mais exatamente um apelo, final dos que, por motivos cristãos se opõem a este Projeto específico, mas que se sensibilizam diante da violência e da discriminação sofridas por pessoas de orientação homossexual. É possível garantir os benefícios pleiteados neste projeto usando a legislação vigente ou modificando-a de tal forma que se evite a impressão de aprovar o chamado "casamento" de homossexuais?

 

20 - Conclusão

Nosso objetivo era oferecer aos senhores legisladores, numa perspectiva cristã, alguns subsídios para ajudá-los a apreciar o Projeto de Lei nº 1.151. Esperamos ter demonstrado que a postura cristã diante da homossexualidade é bem mais complexa que a caricatura que, às vezes, se apresenta. Há uma grande preocupação em como defender e apoiar a família, como, também, há uma solicitude enorme em propor uma vivência humanizante e santificante da sexualidade. Este é o contexto em que há uma reprovação de atos homogenitais como "gravemente desordenados" ao lado de um esforço muito grande de acolher com compreensão e apoiar as pessoas homossexuais, defendendo-as contra violências e formas de discriminação desumanizantes.  A minha função era oferecer alguns parâmetros para discussão. A função dos senhores, numa sociedade pluralista e democrática, é avaliar os dados e tomar a decisão que melhor pode promover a dignidade do ser humano e proteger os interesses dos fracos e dos indefesos. O fator decisivo, em relação a este projeto, é avaliar se suas provisões são justas, promotoras do bem-estar de todos, respeitosas da dignidade fundamental de cada um e construtoras de uma sociedade livre e solidária.

NOTAS

1- Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre alguns Pontos da Ética Sexual, dia 29 de dezembro de 1975 [Edições Paulinas, São Paulo 1976], também conhecida pelo título latim: Persona Humana. As assinaturas no fim do texto são de Franjo Cardeal Seper, Prefeito, e do Arcebispo Jerônimo Hamer, Secretário.

 

2- Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais. In SEDOC - Serviço de Documentação - Volume 19, 199 - março de 1987, col. 795-806).

 

3-Catecismo da Igreja Católica [Vozes/Paulinas/Loyola/Ave Maria, Petrópolis/São Paulo 1993].

 

4-João Paulo II Veritatis Splendor [Edições Paulinas, São Paulo 1993].

 

5-"Pois Deus amou de tal forma o mundo, que entregou o seu Filho único, para que todo o que nele acredita não morra, mas tenha a vida eterna" Jo. 3:16.

 

6-Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Declaração sobre alguns Pontos da Ética Sexual, dia 29 de dezembro de 1975 [Edições Paulinas, São Paulo 1976], §8.

 

7-Rm 1,24-27; l Cor 6,10 e lTm 1,10.

 

8-O Documento reconhece que alguns "fazem uma distinção - ao que parece não sem fundamento - entre os homossexuais cuja tendência provém de uma educação falseada, de uma falta de evolução sexual normal, de um hábito contraído, de maus exemplos ou de outras causas análogas: tratar-se-ia de uma tendência que é transitória, ou pelo menos não incurável; e aqueles outros homossexuais que são tais definitivamente, por força de uma espécie de instinto inato ou de uma constituição patológica considerada incurável" Declaração sobre alguns Pontos da Ética Sexual, §8.

 

9-Cf. Néstor Perlongher O Negócio do Michê - A Prostituição Viril [Brasiliense, São Paulo 1987], p.24.

 

10-Cf. Catecismo da Igreja Católica [Vozes/Paulinas/Loyola/Ave Maria, Petrópolis/São Paulo 1993], nº 1854-1864, com referência especial a nº 1859.

 

11-Lc. 15:11-32, esp. vv. 20-24.

 

12-Sagrada Congregação para a Doutrina da Fé, Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais. In SEDOC - Serviço de Documentação - Volume 19, 199 - março de 1987, col. 795-806). Para ter uma noção da recepção desta Carta nos Estados Unidos, cf. Jeannine Gramick & Pat Furey (eds.) The Vatican and Homosexuality: Reactions to the "Letter to the Bishops of the Catholic Church on the Pastoral Care of Homosexual Persons" [Crossroads, New York 1988].

 

13-Cf. John Gallagher (ed.) Homosexuality and the Magisterium - Documents from the Vatican and the U.S. Bishops, 1975-1985 [New Ways Ministry, Mt. Rainier, Maryland 1988].

 

14-O texto é assinado por Joseph Cardeal Ratzinger, Prefeito da Congregação para a Doutrina da Fé, e pelo Arcebispo Alberto Bovone, Secretário.

 

15-"O Senhor Jesus disse: 'Conhecereis a verdade e a verdade, vos libertará' (Jo 8,32). A Sagrada Escritura manda-nos realizar a verdade na caridade (cf. Ef 4,15). Deus, que é ao mesmo tempo verdade e amor, chama a Igreja a pôr-se ao serviço de cada homem, mulher e criança, com a solicitude pastoral do nosso Senhor misericordioso".

 

16-Cf. Eli Coleman "Homosexuality: Clinical and Behavioral Aspects" in Warren Thomas Reich (ed.) Encyclopedia of Bioethics - Revised Edition [Macmillan/ Simon & Schuster/ Prentice Hall, New York / London 1995], Vol 2, p.1143-1147.

 

17-Catecismo da Igreja Católica [Vozes/Paulinas/Loyola/Ave Maria, Petrópolis/São Paulo 1993], nº 2357-2359.

 

18-Jo. 14:2.

 

19-Carta aos Bispos da Igreja Católica sobre o Atendimento Pastoral das Pessoas Homossexuais §17.

 

20-Os principais manuais de teologia moral, disponíveis em português, que podem servir de base para um estudo da moral sexual católica, são: Bernhard Häring, C.Ss.R. A Lei de Cristo: Teologia Moral para Sacerdotes e Leigos 3 tomos [Editora Herder, São Paulo 1960-1961] e Livres e Fiéis em Cristo: Teologia Moral para Sacerdotes e Leigos 3 tomos [Paulinas, São Paulo 1979-1984]; Marciano Vidal Moral de Atitudes, 3 tomos [Editora Santuário, Aparecida-SP 1986]; E. López Azpitarte, F.J. Elizari Basterra & R. Rincón Orduña Práxis Cristã 3 tomos [Paulinas, São Paulo 1984].

Um artigo que dá uma rápida visão panorâmica de algumas das publicações sobre o tema da homossexualidade divulgadas em portugês é Leonard M. Martin, C.Ss.R. "Exílio, Sodoma e o deserto: uma ética teológica a partir das culturas dos submundos" in Márcio Fabri dos Anjos (coord.) Teologia Moral e Cultura [Afonsianum/Editora Santuário, Aparecida-SP 1992], p.89-113. Vale a pena destacar para atenção especial as obras de Jaime Snoek nesta área: "Eles também são da nossa Estirpe: considerações sobre a homofilia", publicado na revisa Vozes, ano 61, setembro de 1967, p.792-803 e republicado nas Comunicações do ISER, ano 7, nº 31, 1988, -.52-64, acompanhado de uma entrevista com Dudu Teixeira, "Morte e Vida na Teologia: o Homossexualismo e a AIDS na reflexão do teólogo Jaime Snoek", p.65-71 e Ensaio de Ética Sexual: a Sexualidade Humana [Paulinas, São Paulo 1981), com referência especial às páginas 271-285. Bernardino Leers, O.F.M. "Homossexuais e Ética da Libertação: uma caminhada" in Perspectiva Teológica, nº 20, 1988, p.293-316 merece atenção, como também merece Raphael Gallagher, C.Ss.R. Compreender o Homossexual [Editora Santuário, Aparecida-SP 1990], um livrinho de grande valor por causa da sua clareza e sensibilidade pastoral.

 

21-Jaime Snoek Ensaio de Ética Sexual: a Sexualidade Humana [Paulinas, São Paulo 1981), p.145.

 

22-ibid., p.145.

 

23-ibid., p.146.

 

 

24-Catecismo, nº 2359.

 

25-Conferência Nacional dos Bispos do Brasil, "Pronunciamento sobre a Família" Comunicado Mensal, Abril de 1996, ano 45 - Nº 500, p.703-705

Prof. Dr. Pe. Leonard M. Martin, C.Ss.R.

Diretor do Instituto Teológico-Pastoral do Ceará

 Doutor em Teologia Moral

 ======================================= 

A  ANTROPOLOGIA  CRISTÃ,
fundamento histórico dos direitos humanos

 

A antropologia cristã constitui a base histórica que inspirou e fundamentou os direitos humanos. Explica isso o teólogo Juan Luis Lorda em «Antropologia cristã. Do Concílio Vaticano II a João Paulo II» (Edições Palavra). Lorda (Pamplona, 1955) é engenheiro industrial e doutor em teologia. Ensina desde 1983 na Universidade de Navarra e é autor de «Para ser cristão» ou «A arte de viver», traduzidos a diversas línguas.

Nesta entrevista concedida a Zenit, expõe a contribuição de João Paulo II a uma maior

compreensão da antropologia cristã.

Como se renovou a antropologia cristã desde o Concílio Vaticano até agora?

O mais importante foi a interpretação e desenvolvimento que João Paulo II fez do Concílio e, sobretudo, de «Gaudium et Spes». Esta constituição é um dos pilares do Concílio e João Paulo II colaborou diretamente em sua redação. Depois, fez-lhe um profundo comentário ao longo de todo seu pontificado.

Hoje, a todo o mundo soa o famoso número 22 de «Gaudium et Spes»: «Cristo revela o que é o homem ao próprio homem». Mas, antes de João Paulo II, não era famoso. Pode-se comprovar em muitos comentários da época, que nem sequer o mencionam.

Há outros filósofos e teólogos que influíram muito na antropologia cristã, porque foi uma época muito rica. Mas a síntese doutrinal dos princípios se deve a João Paulo II.

 

Também Edith Stein, a carmelita assassinada pelos nazistas e canonizada por João Paulo II, ofereceu uma contribuição importante à antropologia. Que intuiu a patrona da Europa?

A figura de Edith Stein é interessantíssima e creio que ocupará um lugar cada vez maior no pensamento cristão. Por sua origem, é uma intelectual judaica. Por sua formação, pertence à primeira escola da fenomenologia, com importantes estudos.

Após sua conversão, tenta estabelecer relações entre esta corrente filosófica e São Tomás de Aquino. Morre sendo carmelita em um campo de concentração, em meio à tremenda tragédia do holocausto.

É difícil encontrar personagens de tanta densidade humana. A fenomenologia, sobretudo a praticada pelo grupo de Edith Stein (Von Reinach, Max Scheler, Conrad-Martius, VonHildebrand) é uma das correntes mais fecundas e claras da filosofia, especialmente para entender a interioridade humana. Em Edith Stein, como depois em João Paulo II, entronca com a tradição cristã. E isto é muito importante.

Não há que esquecer que, para aqueles co-discípulos e para ela mesma, o encontro com essa corrente filosófica a liberou de discriminações e a pôs à escuta da verdade. Foi o primeiro passo de sua conversão.

É o gênero de filosofia e de antropologia de que hoje necessitamos: que abra à verdade, descubra a interioridade humana e conecte com a fé cristã. Também é o gênero de filosofia de que necessitamos em nossas faculdades.

 

Qual é a contribuição de Karol Wojtyla à antropologia cristã?

Ainda é difícil julgar a influência de Karol Wojtyla na teologia católica, porque nos falta perspectiva. De todas as formas, minha impressão, depois de havê-lo estudado durante anos, é que se trata de uma influência gigantesca, especialmente na fundamentação antropológica da moral: a doutrina sobre a sexualidade, o amor conjugal, a procriação e a dignidade da vida humana.

Creio que se pode dizer honradamente que melhorou sensivelmente o ensinamento teológico em todos estes temas. E se reflete claramente no Catecismo da Igreja Católica. Há um antes e um depois.

 

Por que a antropologia cristã é um dos pontos fortes da evangelização?

Porque descobre como é o homem e quais são suas aspirações mais profundas. O centro da evangelização cristã é Deus: levar o homem moderno a descobrir que Deus nos ama porque é Pai nosso. Esse é o centro da mensagem de Jesus Cristo.

Mas esse caminho se facilita quando uma pessoa descobre como é e que suas aspirações mais profundas se dirigem a Deus. A Igreja tem uma sabedoria sobre o homem, um humanismo cristão, que é um tesouro cultural de primeira ordem: porque dá sentido à vida, leva a viver dignamente e faz os homens felizes. É uma luz maravilhosa no mundo.

Muitos de nossos contemporâneos, quando pensam em si mesmos, crêem que são o fruto cego das forças materiais, um protozoário evoluído por casualidade. Nós sabemos que somos filhos de Deus, que temos um Pai que nos quer, que somos irmãos e nos espera um destino de amor, do qual já podemos viver.

Entendemos o sentido da inteligência e da liberdade, do amor e da família. Isto é beleza. O outro é escuridão e degradação. Dizia Dostoievsky: «só a beleza salvará o mundo».

 

A antropologia cristã é um bom fundamento para os direitos humanos, como assinala dom Fernando Sebastián, arcebispo de Pamplona, no prólogo de seu livro?

Poder-se-ia dizer inclusive que a antropologia cristã é o fundamento histórico dos direitos humanos.

Porque os que contribuíram para formar essa doutrina, ainda que em algum caso haviam perdido a fé, tinham a matriz cultural cristã. Acreditavam que nós, homens, somos livres e responsáveis por nossos atos; que somos iguais; que somos pessoas e que temos uma dignidade inalienável. Tudo isto vem da fé cristã.

Se se pensa que o homem é fruto cego da evolução da matéria, um protozoário evoluído por casualidade, como dizia antes, não lhe sai este resultado: não pode deduzir que somos livres e responsáveis; não pode deduzir que somos iguais; e não pode deduzir que somos pessoas nem que temos uma dignidade inalienável.

De fato, o materialismo científico está destruindo a cultura jurídica e moral da Modernidade. Estamos em pleno ataque à vida humana, nas questões bioéticas.

Estão-se fazendo embriões para usos terapêuticos, porque pensam que o embrião --que é um ser humano-- é só um pacote de células sem dignidade, como um cultivo celular qualquer.

------------------------------------------

 

Eu sou o Bom Pastor

 

Chama-se o IV domingo do tempo pascal de domingo do Bom Pastor. Para compreender a importância que tem na Bíblia o tema do pastor, há que se remontar à história. Os beduínos do deserto dão-nos hoje uma idéia da que foi, em um tempo passado, a vida das tribos de Israel. Nesta sociedade, a relação entre pastor e rebanho não é só de tipo econômico, baseada no interesse. Desenvolve-se uma relação quase pessoal entre o pastor e o rebanho. Passam dias e dias juntos em lugares solitários, sem ninguém mais ao redor. O pastor acaba conhecendo tudo de cada ovelha; a ovelha reconhece e distingue entre todas as vozes a voz do pastor, que freqüentemente fala com as ovelhas.

Isto explica por que Deus serviu-se deste símbolo para expressar sua relação com a humanidade. Um dos salmos mais belos do saltério descreve a segurança do crente em ter Deus como pastor:
"O Senhor é meu pastor, nada me faltará...".

Posteriormente, dá-se o título de pastor, por extensão, também aos que fazem as vezes de Deus na terra: os reis, os sacerdotes, os chefes em geral. Mas, neste caso, o símbolo divide-se: já não evoca somente imagens de proteção, de segurança, mas também as de exploração e opressão. Junto à imagem do bom pastor faz sua aparição a do mau pastor, a do mercenário. No profeta Ezequiel encontramos uma terrível acusação contra os maus pastores, que apascentam só a si mesmos, e em seguida a promessa de Deus de ocupar-se Ele mesmo de seu rebanho (Ez 34, 1ss).

Jesus no Evangelho retoma este esquema do bom e mau pastor, mas com uma novidade, Ele diz: 
"Eu sou o Bom Pastor!". A promessa de Deus fez-se realidade, superando qualquer expectativa. Cristo faz o que nenhum pastor, por bom que seja, estará disposto a fazer: "Eu dou minha vida pelas ovelhas".

O homem de hoje rejeita com desdém o papel de ovelha e a idéia de rebanho, mas não nota que está completamente dentro. Um dos fenômenos mais evidentes de nossa sociedade é a massificação. Deixamo-nos guiar de maneira indiferente por todo tipo de manipulação e de persuasão oculta. Outros criam modelos de bem-estar e de comportamento, ideais e objetivos de progresso, e nós os seguimos; vamos detrás, temerosos de perder o passo, condicionados e seqüestrados pela publicidade. Comemos o que nos dizem, vestimos como nos ensinam, falamos como ouvimos falar, por slogan. O critério pelo que a maioria se deixa guiar nas próprias opções é o "Così fan tutti" (Todos são assim. Ndr) de mozartiana memória.

Olhai como se desenvolve a vida da multidão em uma grande cidade moderna: é a triste imagem de um rebanho que sai junto, agita-se e se amontoa em hora fixa nos vagões do trem e do metrô, e depois, pela tarde, regressa, junto ao redil, vazio de si e de liberdade. Sorrimos divertidos quando vemos uma filmagem em câmera rápida com as pessoas que se movem aos saltos, velozmente, como marionetes, mas é a imagem que teríamos de nós mesmos se nos olhássemos com olhos menos superficiais.

O Bom Pastor que é Cristo propõe-nos fazer com Ele uma experiência de libertação. Pertencer a seu rebanho não é cair na massificação, mas ser preservados dela. 
"Onde está o Espírito do Senhor, ali está a liberdade" (2 Coríntios 3, 17), diz São Paulo. Ali surge a pessoa com sua irrepetível riqueza e com seu verdadeiro destino. Surge o filho de Deus ainda escondido, do que fala a segunda carta deste domingo: "Queridos, agora somos filhos de Deus e ainda não se manifestou o que seremos"

CNBB

=========

Maria no Apocalipse

Quem é esta mulher?

Um sinal grandioso apareceu no céu: uma mulher vestida com o sol, tendo a lua sob os pés e sobre a cabeça uma coroa de doze estrelas; estava grávida e gritava, entre as dores do parto, atormentada para dar à luz (Ap 12,1-2).

Segundo um bom número de teólogos e exegetas, essa mulher simboliza em primeiro lugar e diretamente a Igreja do povo de Deus, tanto do Antigo Testamento como do Novo; porém, indiretamente, sim,boliza também a Virgem Maria.

Quem é este dragão?

Apareceu outro sinal no céu: um grande Dragão, cor de fogo, com sete cabeças e dez chifres... O Dragão colocou-se diante da Mulher que estava para dar à luz, a fim de lhe devorar o Filho, tão logo nascesse (Ap 12,3-4).

O próprio autor do Apocalipse se encarregou de identificar o dragão: o grande dragão é a antiga serpente, o chamado diabo ou satanás? sedutor de toda a terra habitada; foi expulso para a terra, e seus anjos foram expulsos com ele (Ap 12,9). Está em aberta hostilidade com a mulher. Primeiro, quer devorar-lhe o Filho, apenas nascido.

Falhando essa primeira tentativa, persegue a mulher vomitando atrás dela um rio de água (Ap 12,13-15); enraivece contra ela e, por fim, move guerra contra o resto da sua descendência, contra os que observam os mandamentos de Deus e mantém o testemunho de Jesus (Ap 12,17).

Todavia, pergunta Frei Carlos Mesters: ”Concretamente, quem é este dragão?... Naquele tempo, o povo de Deus estava sendo perseguido pelo governo do Império Romano. Assim como Herodes tinha perseguido o menino Jesus, assim o imperador romano perseguia os cristãos. O Império Romano queria destruir a Igreja que estava nascendo no meio do povo pobre.

Mas os cristãos não desanimavam. Sofriam muito, mas achavam que o sofrimento era dor de parto, começo de nova vida. Sabiam que Deus estava com eles, do jeito que ele tinha estado com Maria, quando esta teve de fugir de Herodes. Para eles, a situação estava clara: o bicho feroz que tinha recebido o seu poder do dragão da maldade (Ap 13,1-3) era o imperador romano“.

Aliás, a identificação do dragão com o Império Romano é feita, de maneira elegante, pelo próprio texto apocalíptico: Aqui é necessário a inteligência que tem discernimento: as sete cabeças do dragão são as sete colinas sobre as quais a mulher (= a cidade de Roma) está sentada (Ap 17,9). Evidentemente, há séculos que Roma é conhecida como a cidade das sete colinas!

A - a mulher entre as dores do parto é Maria junto à cruz, dando à luz a Igreja no meio dos sofrimentos da paixão: Mulher? eis aí o teu filho! Filho, eis aí a tua mãe (Jo 19,26-27);

B - a mulher coroada de doze estrelas é Maria, rainha dos Patriarcas e Profetas (= as doze tribos de Israel), e também rainha dos doze Apóstolos, representados, no Calvário, pelo discípulo João;

C - a mulher vestida com o sol é Maria cheia de graça, envolvida pela complacência e favor misericordioso de Deus por causa da missão única e excelsa a que foi chamada;

D - a mulher grávida para dar à luz é Maria dando à luz, em Belém, o Filho do Altíssimo, que reinará na casa de Jacó para sempre, e o seu reinado não terá fim (Lc 1,33; Ap 12, 5);

E - a mulher atormentada, levada por Deus para o deserto por causa da perseguição do dragão (Ap 12,4-6), é Maria, membro e mãe de uma Igreja perseguida pelo mundo e socorrida por Deus; é Maria, co-participante do mistério de morte e ressurreição vivido pela Igreja apostólica;

F - a mulher, vestida de sol, coroada de estrelas, tendo a lua sob os pés, é Maria assunta à glória celeste; nela redimida na integridade de sua pessoa, a Igreja saúda as primícias e o penhor da glória perfeita, que será comunicada a toda criatura como fruto da salvação universal realizada por Cristo, o Emanuel - Deus conosco (Ap 21,3-4).

 

Textos bíblicos

 

Ap 12,1-2
1E viu-se um grande sinal no céu: uma mulher vestida do sol, tendo a lua debaixo dos seus pés, e uma coroa de doze estrelas sobre a sua cabeça. 2E estando grávida, gritava com as dores do parto, sofrendo tormentos para dar à luz.

Ap 12,3-4
3Viu-se também outro sinal no céu: eis um grande dragão vermelho que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre as suas cabeças sete diademas; 4a sua cauda levava após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe devorasse o filho.

Ap 12,9
9E foi precipitado o grande dragão, a antiga serpente, que se chama o Diabo e Satanás, que engana todo o mundo; foi precipitado na terra, e os seus anjos foram precipitados com ele.

Ap 12,13-15
13Quando o dragão se viu precipitado na terra, perseguiu a mulher que dera à luz o filho varão. 15E a serpente lançou da sua boca, atrás da mulher, água como um rio, para fazer que ela fosse arrebatada pela corrente.

Ap 12,17
17E o dragão irou-se contra a mulher, e foi fazer guerra aos demais filhos dela, os que guardam os mandamentos de Deus, e mantêm o testemunho de Jesus.

Ap 13,1-3
1Então vi subir do mar uma besta que tinha dez chifres e sete cabeças, e sobre os seus chifres dez diademas, e sobre as suas cabeças nomes de blasfêmia. 2E a besta que vi era semelhante ao leopardo, e os seus pés como os de urso, e a sua boca como a de leão; e o dragão deu-lhe o seu poder e o seu trono e grande autoridade. 3Também vi uma de suas cabeças como se fora ferida de morte, mas a sua ferida mortal foi curada. Toda a terra se maravilhou, seguindo a besta.

Ap 17,9
9Aqui está a mente que tem sabedoria. As sete cabeças são sete montes, sobre os quais a mulher está assentada.

Jo 19,26-27
26Ora, Jesus, vendo ali sua mãe, e ao lado dela o discípulo a quem ele amava, disse a sua mãe: Mulher, eis aí o teu filho. 27Então disse ao discípulo: Eis aí tua mãe. E desde aquela hora o discípulo a recebeu em sua casa.

Lc 1,33
33e reinará eternamente sobre a casa de Jacó, e o seu reino não terá fim.

Ap 12, 5
5E deu à luz um filho, um varão que há de reger todas as nações com vara de ferro; e o seu filho foi arrebatado para Deus e para o seu trono.

Ap 12,4-6
4a sua cauda levava após si a terça parte das estrelas do céu, e lançou-as sobre a terra; e o dragão parou diante da mulher que estava para dar à luz, para que, dando ela à luz, lhe devorasse o filho. 6E a mulher fugiu para o deserto, onde já tinha lugar preparado por Deus, para que ali fosse alimentada durante mil duzentos e sessenta dias.

Ap 21,3-4
3E ouvi uma grande voz, vinda do trono, que dizia: Eis que o tabernáculo de Deus está com os homens, pois com eles habitará, e eles serão o seu povo, e Deus mesmo estará com eles. 4Ele enxugará de seus olhos toda lágrima; e não haverá mais morte, nem haverá mais pranto, nem lamento, nem dor; porque já as primeiras coisas são passadas.

por Geraldo Araújo Lima



================

"Medos"!

"Precisamos de homens que mantenham o olhar voltado para Deus e aí aprendam a verdadeira humanidade. (...) Só através de homens tocados por Deus, Deus pode voltar para junto dos homens".

"Só o Amor pode salvar o mundo".

São afirmações categóricas, urgentes, determinadas, veementes, estas de Bento XVI.

 

Palavras que iluminam e desbravam os caminhos que havemos de percorrer enquanto pessoas crentes, enquanto discípulos do Ressuscitado, enquanto membros vivos de uma Igreja que tem por missão «falar» d'Aquele que é Caminho, Verdade e Vida.

Se «só o amor pode salvar o mundo» então apenas o amor pode salvar a Igreja; então somente a fidelidade à Cruz pode salvar o Homem que somos que queremos ser. Só o amor, sempre ao jeito de Jesus, nos conseguirá transformar em «homens que mantenham o olhar voltado para Deus», em «homens tocados por Deus» para que Ele possa, verdadeiramente «voltar para junto dos homens».

«O medo mata antes antes de se morrer»!

O medo, o medo da Cruz, o medo do que significa sepulcro vazio (vitória da verdade e da vida, vitória da humildade e do despojamento, vitória da simplicidade e da entrega) consegue simplesmente anestesiar a grandiosidade a que somos chamados!

O medo de se ser verdadeira e totalmente de Deus atrasa a redenção, asfixia a liberdade, oprime a justiça, atordoa a força do Espírito em nós!

O Papa vem até nós! Quer confirmar e abençoar a nossa fé. Predispõe-se a fazer caminho nos nossos caminhos! Ousa a desinstalação para abraçar o serviço e a disponibilidade. E qual a nossa resposta?

Medo das «confusões», das multidões, dos «apertos»!!!

De facto, o medo, o comodismo, o «light» em que deixámos cair a nossa fé e a nossa adesão ao Evangelho não consegue trazer Deus para junto dos homens!

Quando se perde a dimensão do encanto e do espanto, da gratidão e da surpresa, estamos, simplesmente, condenados à banalidade, ao «sono», ao epidérmico, ao acessório, deixando fugir a beleza do essencial, do profundo, do «novo», do definitivo, do eterno...

Mas haverá sempre alguém a «gritar» aos nossos «sonos»: «Só o Amor pode salvar o mundo»!

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira

++++++++++++++++

Texto para reflexão 

Controla teu pensamento

Além disso, irmãos, tudo o que é verdadeiro, tudo o que é nobre,

tudo o que é justo, tudo o que é puro, tudo o que é amável,

tudo o que é de boa fama, tudo o que é virtuoso e louvável,

eis o que deve ocupar vossos pensamentos.
(Filipenses 4, 8)

 

Nosso cérebro alimenta-se de nossos pensamentos. Nossos pensamentos dirigem nossa vida, daí que é importante saber discernir e permitir quais pensamentos devem se situar em nossa vida e quais não. Há pessoas que não controlam seu pensamento mais se deixam irracionalmente levar por ele. Seus pensamentos os  controlam.

 

Há pensamentos obsessivos, delirantes, neuróticos, etc. Cada pessoa deve revisar sua maneira de pensar. Se teus pensamentos fazem-te ser mais humano, mais felizes… esses pensamentos vêm de Deus para renovar nossa vida. Se, ao contrario, os pensamentos são sempre tristes, absurdos, cheios de medo, incapazes de te fazer crescer como pessoa… esses pensamentos não vêm de Deus que sempre quer o melhor para nós.

Ter pensamentos agradáveis, ver o lado bom da vida, faz que as pessoas queiram manter a experiência de Deus. Pecamos com o pensamento quando este nos leva ao desânimo e ao desespero.

Em lugar de saber dirigir seu pensamento a uma meta, há pessoas que os instintos lhe afastam de onde para valer gostariam de estar. Têm vivido pensando não vivendo…

Tarefa da semana

Faça uma lista com os 5 pensamentos que mais te perturbam.

Recorda desde quando estes pensamentos te perturbam e tenta entender porque apareceram em tua vida.

Quando lembrares de pensamentos que te entristecem, muda imediatamente de atitude e tenta pensar em coisas que realmente te realizem como pessoa.

Queira Deus que esta tarefa que começas nesta semana a vivas a cada dia pelo resto de tua existência.

Fontes

Buzón Católica

Bíblia Católica Online

 ===========================

SANTO ANTÔNIO

Santo Antônio de Lisboa e de Pádua, confunde-se com o milagre. Não há canto ou recanto da vida humana que Santo Antônio não tenha visitado e nem necessidades a que não tenha atendido. A confiança do povo em Santo Antônio é ilimitada e suas súplicas parecem ser sempre atendidas, mesmo em situações humanamente desesperadoras.

Quem foi Santo Antônio? Nasceu em Lisboa, sendo português de nascimento, pelo fim do século XII. Morreu em Pádua, Itália, no dia 13 de junho de 1231.

Seu nome está em todo o mundo, sendo o santo mais popular da Igreja Católica em todo o Ocidente. Foi frade franciscano. Pela exumação de seus restos mortais, Santo Antônio teria tido um físico excepcional para um homem da Idade Média: 1,70m de altura, ombros largos e pernas fortes, rosto comprido e estreito, nariz fino, cabelos pretos, feições másculas. Mais importante, no entanto, do que seus traços físicos, foram o espírito e o coração deste homem incansável, que pregou o caminho do Evangelho, lutou pelo bem dos pobres e, corajosamente, investiu contra tiranos e exploradores do povo. Seus escritos deixam a impressão de uma pessoa forte e decidida, com feições iluminadas e olhar aceso. Ao mesmo tempo, deixam transparecer uma enorme ternura pelos pobres.

Santo Antônio é, sem dúvida, graças à força irradiante de sua pessoa e aos milagres sem conta que são atribuídos, o santo mais querido do povo cristão.

Hoje, ele parece mais vivo do que nunca, pregando os ideais de Cristo e abençoando seus fiéis devotos.


Santo Antônio desconhecido

Santo Antônio, no seu tempo, foi um cristão revolucionário porque, vendo a miséria das famílias, pensou em libertá-las desses males. Tratou de ajudá-las, soergue-las da condição desumana em que viviam, - auxiliar o homem elevando-o à sua dignidade de filho feito a imagem de Deus. Ainda hoje em dia este Santo é pouco conhecido. Hoje, mais do que nunca, a valorização certa de Santo Antônio precisa ser incorporada ao patrimônio da devoção ao Santo.

Mas quem foi Santo Antônio de Lisboa e de Pádua? Um cristão privilegiado em dons de Deus, desde a infância era feliz na graça de Deus, amado pelos seus familiares, crescendo dia a dia como amigo de Cristo. Santo Antônio sempre teve grande devoção pelos sacramentos, Sagradas Escrituras e ensinamentos da Igreja.

A fé entra pelos ouvidos, por isso deve ser pregada, tornar-se prática no modo de viver, e foi o que fez Santo Antônio, sem esperar a retribuição e sem transacionar os termos comerciais. Viveu para o próximo, para o sacrifício, para a fé no poder de Deus.

Morreu moço, tendo sido canonizado onze meses após. O culto dedicado ao Santo por milhares de fervorosos adeptos foi rapidamente se estendendo. Não só os católicos homenageavam Santo Antônio, mas também os índios da América do Norte, os pagãos da China, os ortodoxos e os cismáticos.

O dilui-se da imagem do Santo que buscava reduzir as penas daqueles que sofriam, fez ganhar cores vivas a figura de um Santo Antônio desligado, quase, de problemas superiores do homem, para preocupar-se com a procura de objetos que desapareceram e com os casamentos. Esquecem-se os que invocam Santo Antônio apenas para atender a estes dois aspectos, que o culto deve partir de uma força ligada ao Ser Supremo que tudo pode, que é Amor e afasta o desespero.

Falham aqueles que só vêem esta realidade: Santo Antônio como elemento de propaganda de casas comerciais, que obtém lucros sobre a lenda de casamenteiro imposta pela crendice, e que nada fazem no sentido de modificar a situação.

Falham também, os que misturando o nome do milagroso Antônio com os mais estranhos e curiosos rituais, contribuem para que a imagem verdadeira do Santo seja substituída por aquela mais conveniente aos ingênuos e àqueles que dela querem tirar benefícios.

O melhor momento para honrar-se Santo Antônio é no seu dia, e a forma correta de cultuá-lo será a imitação de sua vida: pregar a fé, realizá-la através de atos de benefício ao próximo, isentos de crendice, e sem o objetivo único de lucro material.

A figura de Santo Antônio deverá ser um apelo a um trabalho melhor, a um comportamento mais humano e menos egoísta. Esse é o culto que deve ser dedicado ao Santo, esse foi seu modo de viver.

=====================

O Espírito Santo, um ilustre desconhecido

Durante cinqüenta dias, de um modo intenso e rico em símbolos, palavras e emoções, os católicos celebramos a ressurreição do Senhor. Agora, este tempo finda com a Solenidade de Pentecostes, que faz memorial do dom do Espírito Santo feito pelo Cristo ressuscitado à sua Igreja.

Nós, católicos, cremos com firme certeza que Cristo ressuscitou, isto é, atravessou o mar da Morte e entrou na glória e na plenitude de Deus, seu Pai. Cremos que ele está totalmente transfigurado, plenificado, glorificado, da própria vida divina, tanto no seu corpo quanto na sua alma humana. Ele, feito totalmente humano como nós, agora se encontra totalmente divinizado na sua humanidade. Com toda convicção, cremos que essa ressurreição e transfiguração do nosso Jesus foram realizadas pelo Pai, que derramou sobre ele o Espírito Santo, Deus como o Pai, Deus como o Filho. Esse Espírito Santo é principio de vida divina, de divina energia e de dinamismo do próprio Deus. Assim, como o fogo pode impregnar e transfigurar uma barra de ferro, deixando-a totalmente reluzente, também o Santo Espírito impregnou a transfigurou a humanidade de Jesus, de modo que ela agora é plena, totalmente desabrochada, plenamente glorificada! Aquilo que, para nós, ainda é desejo e sonho - vida eterna, felicidade sem limites, vigor pleno, vitória sobre nossas mazelas, realização do nosso coração carente – para o Senhor Jesus é uma eterna e resplendente realidade. Tudo isso o Pai realizou nele ao ressuscitá-lo no Espírito Santo.

Cheio desse Espírito, o Senhor Jesus o derramou sobre nós. Os apóstolos experimentaram a ação potente e transformadora desse Espírito de Jesus já na mesma tarde da Páscoa, quando o Ressuscitado soprou sobre eles e lhes disse: “Recebei o Espírito Santo!” Depois, em Pentecostes, novamente experimentaram a ação do Espírito, como força do Ressuscitado que os impelia para a missão de anunciar Jesus. Nós também, confiados na promessa de Cristo, acreditamos e sabemos e experimentamos que tal ação do Espírito não se restringiu aos Apóstolos ou aos primeiros cristãos. O dom do Espírito é feito a todos os discípulos do Cristo através de sete sacramentos que o Senhor entregou à sua Igreja. Em cada um deles, o cristão faz uma experiência viva e real do Espírito do Senhor, que nos une ao Cristo, vai nos transfigurando nele e nos dá acesso a Deus, nosso Pai. Assim, a vida cristã é um misterioso dinamismo de união real com Cristo no Espírito, até sermos totalmente impregnados da vida daquele que por nós morreu e ressuscitou. Um sucinto exemplo: no Batismo, o Espírito nos é dado como vida nova do Cristo ressuscitado; na Crisma, como força para testemunhar o Senhor; na Eucaristia, o Espírito impregna o pão e o vinho a ponto de fazer deles Corpo e Sangue do Senhor morto e ressuscitado; na Confissão, ele é dado como Espírito de remissão dos pecados; na Ordem, ele é Espírito de unção para gerar aqueles que, em nome de Cristo, apascentarão o rebanho; no Matrimônio, ele unge o amor humano para que seja imagem e sinal do próprio amor de aliança entre Cristo e a Igreja; na Unção dos Enfermos, ele é Espírito de consolo e força para unir nossas dores às de Cristo. Note-se a centralidade da experiência do Espírito Santo para a vida dos cristãos! Estes são homens e mulheres que devem ser impregnados e conduzidos pelo Espírito. Não somos simples admiradores de Jesus ou seus “seguidores”. Somos aqueles impregnados realmente pela Vida que faz Jesus viver, isto é, pelo Espírito de Jesus. Ou isso, ou não somos cristãos de modo algum! A relação entre o Senhor Jesus e os cristãos não é simplesmente de um sentimento, mas há algo de concreto, misterioso, sacramental: nós nele e ele em nós, nós membros de seu corpo e ele nossa Cabeça, nós somos os ramos, ele é a Videira verdadeira!

Nós cremos, conforme as promessas do Senhor, que o seu Espírito impregna toda a vida da Igreja, de um modo profundo, visceral, tantas e tantas vezes imperceptível... É pelo Espírito do Ressuscitado que a Igreja é Santa, porque santificada por ele; por ele ela permanecerá viva até o fim dos tempos, por ele não trairá nunca a fé apostólica recebida uma vez para sempre, por ele também essa doutrina não fica presa de modo esclerosado a um passado, mas vai sempre progredindo e aprofundando a compreensão do mistério de Cristo nas várias mudanças dos tempos. Também por obra e presença desse Espírito, os cristãos experimentam Jesus como alguém vivo, os cristãos “vêem” Jesus na sua Palavra, nos sacramentos, na vida da Comunidade dos discípulos, nos acontecimentos e circunstâncias da vida e do mundo. Essa experiência faz com que os cristãos interpretem as realidades do mundo de modo diferente dos não-cristãos. Jesus afirmou claramente que nós haveríamos de vê-lo novamente e o mundo não mais o veria. Isso não é brincadeira! Nós fazemos sim essa experiência incrível: fazemos a experiência real e profunda do Senhor Jesus vivo e a nós presente na potência do seu Espírito Santo. Eis a inspiração para o nosso modo de pensar e agir... Claro que o mundo não poderá nos compreender, porque não tem essa experiência fundamental que condiciona o nosso modo de ser e viver...

Daqui derivam as diferenças de opções – às vezes clamorosas – entre a Igreja e o mundo. E quanto mais o mundo fechar-se numa razão auto-suficiente e imanentista, tanto mais essas diferenças vão aparecer de modo exasperado, até, às vezes, à contraposição e ao conflito. Jamais poderemos impor a ninguém nossa experiência e devemos sempre respeitar as convicções dos outros, que não crêem como nós, mas, doutra parte, jamais poderemos negar ou esconder aquilo que para sempre transfigurou nosso coração e mudou nossa vida. É que a ação desse Espírito, além de nos fazer testemunhar Jesus sem medo, enche-nos de um vigor e um consolo tais, que espantam toda dúvida e infundem em nós a mais doce e profunda e suave certeza. Na força do Espírito é que os mártires de ontem e de hoje deram a vida para testemunhar seu Senhor! Eis, alguns dos frutos do Espírito do Ressuscitado... Eis o Espírito Santo, Vida da nossa vida, esse ilustre Desconhecido...

Côn. Henrique Soares da Costa


++++++++++++++++++++++

Exame de Consciência para Sacerdotes

1. «Santifico-me por eles para que também eles sejam santifi cados pela verdade» (Jo. 17,19)

Proponho-me seriamente à santidade em meu ministério? Estou convencido de que a fecundidade do meu ministério sacerdotal vem de Deus e que, com a graça do Espírito Santo, devo identificar-me com Cristo e dar a minha vida pela salvação do mundo?

2. «Isto é o meu Corpo» (Mt. 26,26)

O Santo Sacrifício da Missa é o centro da minha vida interior? Preparo-me bem, celebro devotamente e, depois, me recolho em ação de graças? A Missa constitui o ponto de referência habitual em minha jornada para louvar a Deus, agradecê-lo pelos seus benefícios, recorrer à sua benevolência e reparar pelos meus pecados e pelos de todos os homens?

3. «O zelo pela tua casa me devora» (Jo. 2,17)

Celebro a Missa segundo os ritos e as normas estabelecidas, com autêntica motivação, com os livros litúrgicos aprovados? Estou atento às sagradas espécies conservadas no Sacrário, renovando-as periodicamente? Conservo os vasos sagrados com atenção? Uso dignamente todas as vestes sagradas previstas pela Igreja, tendo presente que atuo in persona Christi Capitis?

4. «Permanecei em meu amor» (Jo. 15,9)

Causa-me alegria permanecer diante de Jesus Cristo presente no Santíssimo Sacramento, em minha meditação e silenciosa adoração? Sou fiel à visita diária ao Santíssimo Sacramento? O meu tesouro é o Sacrário?

5. «Explica-nos a parábola» (Mt. 13,36)

Faço diariamente a minha meditação, com atenção e procurando superar qualquer tipo de distração que me separe de Deus, buscando a luz do Senhor, a quem sirvo? Medito assiduamente a Sagrada Escritura? Recito atentamente as minhas orações habituais?

6. É necessário «orar sempre, sem desfalecer» (Lc. 18,1)

Celebro quotidianamente a Liturgia das Horas integralmente, dignamente, atentamente e devotamente? Sou fi el ao meu compromisso com Cristo nesta dimensão importante do meu ministério, orando em nome de toda a Igreja?

7. «Vem e segue-me» (Mt. 19,21)

Nosso Senhor Jesus Cristo é o verdadeiro amor da minha vida? Observo com alegria meu compromisso de amor a Deus na continência celibatária? Detive-me conscientemente em pensamentos, desejos ou atos impuros; tive conversas inconvenientes? Coloquei-me em ocasião próxima de pecado contra a castidade? Procuro guardar a vista? Fui imprudente ao tratar as diversas categorias de pessoas? A minha vida representa, para os fiéis, um testemunho do fato de que a pureza é possível, fecunda e alegre?

8. «Quem tu és?» (Jo. 1,20)

Encontro elementos de fraqueza, preguiça e fragilidade em minha conduta habitual? As minhas conversas estão de acordo com o sentido humano e sobrenatural que um sacerdote deve ter? Estou atento para que não se introduzam em minha vida elementos superfi ciais ou frívolos? Sou coerente, em todas as minhas ações, com a minha condição de sacerdote?

9. «O Filho do homem não há onde repousar a cabeça» (Mt. 8,20)

Amo a pobreza cristã? Coloco meu coração em Deus e sou desapegado, interiormente, de todo o resto? Estou disposto a renunciar, para melhor servir a Deus, às minhas comodidades atuais, aos meus projetos pessoais, aos meus afetos legítimos? Possuo coisas supérfl uas, fiz gastos desnecessários ou me deixo levar pela ânsia do comodismo? Faço o possível para viver os momentos de repouso e de férias na presença de Deus, recordando que sou sacerdote sempre e em todo lugar, também nestes momentos?

10. «Escondeste estas coisas aos sábios e entendidos e as revelaste aos pequenos» (Mt. 11,25)

Existem em minha vida pecados de soberba: dificuldades interiores, suscetibilidade, irritação, resistência a perdoar, tendência ao desencorajamento, etc.? Peço a Deus a virtude da humildade?

11. «Imediatamente, saiu sangue e água» (Jo. 19, 34)

Tenho a convicção de que, ao agir « na pessoa de Cristo », sou diretamente envolvido no próprio Corpo de Cristo, a Igreja? Posso dizer sinceramente que amo a Igreja e que sirvo com alegria ao seu crescimento, as suas causas, cada um de seus membros e toda a humanidade?

12. «Tu és Pedro» (Mt. 16,18)

Nihil sine episcopo – nada sem o bispo – dizia Santo Inácio de Antioquia: estas palavras são a base do meu ministério sacerdotal? Recebi docilmente as indicações, conselhos ou correções do meu Ordinário? Rezo especialmente pelo Santo Padre, em plena união com os seus ensinamentos e intenções?

13. «Amai-vos uns aos outros» (Jo. 13,34)

Tenho vivido com diligência a caridade ao tratar com os meus irmãos sacerdotes ou, ao contrário, desinteresso-me deles por egoísmo, apatia ou frieza? Tenho criticado os meus irmãos no sacerdócio? Tenho estado junto daqueles que sofrem pela enfermidade física ou pelas dores morais? Vivo a fraternidade afi m de que ninguém esteja só? Trato todos os meus irmãos sacerdotes e também aos fi éis leigos com a mesma caridade e paciência de Cristo?

14. «Eu sou o caminho, a verdade e a vida» (Jo. 14,6)

Conheço profundamente os ensinamentos da Igreja? Os assimilo e transmito fielmente? Sou consciente de que ensinar o que não corresponde ao Magistério, solene ou ordinário, é um grave abuso, que causa dano às almas?

15. «Vai e não tornes a pecar» (Jo. 8,11)

O anúncio da Palavra de Deus leva os fi éis aos sacramentos. Confessome com regularidade e com freqüência, de acordo com o meu estado e com as coisas santas que trato? Celebro generosamente o sacramento da reconciliação? Sou amplamente disponível à direção espiritual dos fiéis, dedicando a isto um tempo específi co? Preparo com desvelo a minha pregação e a minha catequese? Prego com zelo e com amor de Deus?

16. «Chamou os que ele quis. E foram a ele.» (Mc. 3,13)

Estou atento a descobrir os sinais das vocações ao sacerdócio e à vida consagrada? Preocupo-me em difundir entre todos os fi éis uma maior consciência da chamada universal à santidade? Peço aos fi éis para que rezem pelas vocações e pela santificação do clero?

17. «O Filho do homem não veio para ser servido, mas para servir» (Mt. 20,28)

Tenho procurado doar-me aos outros na vida de cada dia, servindo evangelicamente? Manifesto a caridade do Senhor através de minhas obras? Na Cruz , vejo a presença de Jesus Cristo e o triunfo do amor? Dou ao meu dia-a-dia a marca do espírito de serviço? Considero o exercício da autoridade ligada ao ofício uma forma imprescindível de serviço?

18. «Tenho sede» (Jo. 19,28)

Tenho efetivamente rezado e me sacrifi cado com generosidade pelas almas que Deus me confiou? Cumpro os meus deveres pastorais? Tenho solicitude pelas almas dos fiéis defuntos?

19. «Eis o teu filho. Eis a tua mãe» (Jo. 19,26-27)

Acudo cheio de esperança à Santíssima Virgem Maria, Mãe dos sacerdotes, para amar e fazer com que amem mais ao seu Filho Jesus? Cultivo a piedade mariana? Reservo um espaço a cada dia para o Santo Rosário? Recorro à sua materna intercessão na luta contra o demônio, a concupiscência e o mundanismo?

20. «Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito» (Lc. 23,44)

Sou solícito em assistir e administrar os sacramentos aos moribundos? Considero a doutrina da Igreja sobre os Novíssimos em minha meditação pessoal, na catequese e na pregação ordinária? Peço a graça da perseverança final e convido os fiéis a fazerem o mesmo? Sufrago freqüente e devotamente as almas dos fiéis defuntos?


=======================

"Sentir de Pastor"

 

Hoje  quero partilhar convosco que o meu «sentir de pastor» é de uma alegria imensa, uma enorme comoção, um orgulho que peço a Deus não seja ofensa e muito menos pecado!

Assisti hoje à estreia do Musical «Wojtyla»; assisti hoje a um dos mais fortes e marcantes momentos da minha vida pastoral. Jovens que partilharam com toda aquela assembleia o dom da fé, da confiança, da gratidão, do reconhcimento, da amizade, da saudade, da esperança...

Jovens muitos deles desta paróquia que ensinaram, mais uma vez, ao seu pastor, a alegria de se ser de Cristo, de se amar e servir a Igreja, de se saberem e sentirem discípulos.

Sim, chorei! De saudade. De alegria. De orgulho. De emoção. De espanto. De felicidade. Com uma gratidão a cada um desses jovens que não saberei nunca exprimir nem expressar. Porque me recordaram momentos únicos da minha vida; porque me fizeram olhar e amar o passado desafiando-me ao futuro nesta «hora» presente. Porque me fascinaram e sublinharam a minha paixão pelos jovens. Porque me encheram o coração desta alegria de sermos e querermos ser sempre mais e mais de Deus.

Se pudesse, se soubesse, como segredar a cada um desses corações jovens um «bem-haja» do tamanho do mundo não o regatearia por nada. Porque só isso agora gostaria de fazer... Agradecer. Agradecer a Deus por ter postos estes jovens no meu caminho e bem dentro deste meu coração de pastor.

Verdadeiramente, «bendito seja Deus que nos reuniu no amor de Cristo»!

Que o saudoso Papa João Paulo II, no coração do Pai, que sorri, nos obtenha de Deus o dom da fidelidade a cada um de nós; que nos alcance esse seu desejo de permanecer sempre na intimidade com Cristo e no serviço desmedido à Sua Igreja.

Jovens, prometo-vos que o meu «obrigado» se traduz em oração por cada um desses vossos corações, não grandes mas, enormes, imensos, únicos, fantásticos...

Obrigado por este meu «sentir de pastor» nesta noite memorável, inesquecível...

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira às


===================

"Eu só queria agradecer"


"Eu só queria conhecer
o homem que se deu

de alma e coração

eu só queria agradecer

e dar-lhe a conhecer

a minha gratidão.

 Do seu rosto que fitei

jamais esquecerei

a paz que ele irradia

a minh' alma estremeceu

sentindo o amor de Deus
com que ele nos contagia".

Sem receios de nada nem de ninguém, no silêncio da noite, entrego ao meu Senhor como oração de louvor e de ação de graças as palavras acima citadas; ofereço ao meu Deus a alegria que experimento, a paz que me arrebata, a saudade que já sinto, ao regressar desse «pedaço de Céu» que me foi dado viver...

E uso essas mesmas palavras, e coloco-as no plural, e transformo algumas, e entrego-as Àquele que é o Caminho, a Verdade e a Vida:

«Só queria conhecer, (para mais poder amar)

o homem (os jovens) que se deram

de alma e coração

e dar-lhes a conhecer

a minha gratidão.

 

Dos seus rostos que fitei (que admirei)

jamais esquecerei

a paz que eles irradiam

a minh' alma estremeceu

sentindo o amor de Deus

com que eles nos contagiam!

 

E agora, com mais clareza e assertividade,

"eu percebi

que tudo o que senti

na luz daquele(s) sorriso(s)

era novo para mim

e deve ser assim

a paz do paraíso...".

 

A cada um daqueles corações, como gostaria de lhes sussurrar:

"de alma e coração

eu só queria agradecer

e dar-lhes a conhecer

a minha gratidão"...

Porque o não consigo fazer sobejamente, porque o não sei fazer como merecem, porque trairia sempre o meu sentir, entrego-os, de novo, Àquele Deus que "sabe mesmo arrebatar"...

E na paz da noite, quero adormecer soletrando os nomes daqueles corações que também me deram a conhecer, de alma e coração, que "Deus é assim"...

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira

===============================


"Deus é assim"


"Deus é assim...
Às vezes parece tardar
Mas não falta
E como fez com Zaqueu
Chamou por mim
E foste tu que mo mostrou
Deus é assim...
Sabe mesmo arrebatar!

Inquieta a alma e entra assim, sem avisar

E eu senti todo esse amor

Naquele teu olhar"

Estas são algumas palavras solenemente cantadas no musical «Wojtyla».

Algumas de todas elas tão certeiras quanto profundas, tão verdadeiras quão belas e decisivas.

Deus é assim...

Chama, provoca, inquieta, arrebata, provoca, seduz...

Através de um olhar, de uma palavra, de um acontecimento, de uma melodia, de uma lágrima ou de uma conversa, de um silêncio ou de um coração...

Deus é assim...

Sabe mesmo arrebatar...

Basta que nos atrevamos a escancarar o coração; que ousemos abrir a alma... e Ele entra, e Ele conquista, e Ele apaixona...

Deus é assim...

Sussurra, fala, desafia, vence e convence, fazendo-nos renascer e tornar a acreditar.

Na alegria daqueles jovens, na fé daqueles corações, na entrega daquelas vidas, no esforço daqueles valentes, como não escutar Deus que nos atrai mais e mais, e sempre mais?!

Deus é assim...

Sarça ardente, voz que chama, que inquieta a alma e entra assim, sem avisar...

Estas noites têm sido esse «entrar sem avisar»; têm sido essa «sarça ardente» que não se consome, não se cansa, não desiste, de me provocar, para reaprender a agradecer!

E soubera eu cantar que «gritaria» com cada um deles e com toda a convicção: "Hoje sei, que renasci ao conhece-te, pois ao encontrar-te, ao encontrar-te, eu descobri Jesus"!

E isso eu nunca agradecerei suficientemente.

Karol Wojtyla, obrigado!

Jovens, orgulho e paixão do meu ser, obrigado por esse vosso renovado olhar que me fazem descobrir Jesus!

Que nunca me esqueça: «Deus é assim»!

Publicada por Pe. António Fernando Teixeira



=================================

"Teus olhos, tua vida"


"Tu foste o renascer da esperança

Em que o teu olhar o meu encontrou

Foi esse o momento
Em que o meu viver sentido ganhou
Bastou um segundo
Para todo o meu ser em mim renascer
Pois no teu olhar
O Amor se revelou"

Às vezes basta mesmo apenas um segundo.

Num segundo se edifica e num outro se destrói!

Num segundo se nasce e num segundo se morre!
Num segundo se acredita e num segundo se perde a fé!
Um segundo consegue arrebatar e um outro pode fazer desmoronar!
Um segundo pode apaixonar e num segundo tudo pode desabar!
Um segundo apenas...
Um segundo que pode atrair para Deus e um outro que nos pode d'Ele afastar!

Num segundo os nossos olhos podem dar luz ao mundo;
num segundo o nosso coração consegue incendiar uma nação;
um segundo pode alcançar a paz e um outro é capaz de produzir uma guerra!
Basta um momento de verdade;
Basta um segundo de eternidade;
Basta um pulsar de autêntica caridade;
Para pegar fogo a uma cidade!

Mas importa sempre a presença de Deus!
Mas tudo subsiste na medida em que tudo d'Ele depende!
Mas só enobrece quando sabemos e cremos que só n'Ele descansamos!

"Teus olhos deram luz ao (meu) mundo
E o (meu) mundo quis amar-te a ti.
Teus olhos foram mensageiros
Que eu segui! Que eu segui!".

Agora, deixa-me pedir-te: continua a ser luz! Não me desapontes, não me desvies do caminho "Que eu segui, que eu segui"!

Guia-me, de segundo em segundo, de momento em momento, para o coração de Deus!

Um segundo, um momento, um evento, um olhar, um sentir, um estar... podem revelar o Amor.

Um segundo, um momento, um evento, um olhar, um sentir, um estar... podem desacreditar d'Esse Amor!

Os teus olhos, o teu coração, a tua presença, a tua força, a tua entrega, sejam de Amor e nunca, mas nunca, por favor, do cruel desamor!

 Dá, segundo após segundo, momento após momento, luz ao mundo; não o prives dessa mesma luz! Não nos prives dessa esperança nem desse fogo cujo rastilho aqui deixaste...

 Pe. António Fernando Teixeira  

+++++++++++++++++++++++++++++++++

Encontre  a sua tão sonhada paz interior.

Lendo este lindo texto enviado por Vera Lúcia.

 A pior coisa que um ser humano pode fazer é aceitar derrotas.

Uma pessoa que aceita as derrotas sem ao menos tentar entender o porquê da situação, sem lutar, sem reagir, está tornando-se uma marionete nas mãos do "destino" e nem reclamar pode.

Mas, é justamente isso o que o derrotado faz: ele reclama.

Reclama do governo, dos parentes, dos pais, da empresa, da escola, do professor, do colega, da amiga, do tempo, da temperatura e de tudo que puder torná-lo vítima de alguma coisa.

O derrotado é a própria expressão dos que se conformam com a dor, com a miséria, com as injustiças. Se você fala em terapias, ele desacredita.

Se você fala em religião, ele te ofende.

Se você fala em amor, ele quer te bater.

Se você pergunta se ele crê em Deus, ele responde aquele sim, mais murcho que tomate em final de feira.

O derrotado, até percebe que alguma coisa está acontecendo de errado em sua vida.

 O que antes era bom, ficou ruim.

O que antes dava certo, já não dá mais. 

 que antes era amor, virou ódio.

Tudo começou a mudar de repente, assim, sem mais nem menos, e ao invés de lutar, de buscar ajuda, de ser humilde e pedir socorro, ele começa a colocar culpa nos outros e nas situações diversas.

Puro orgulho!

 Passar fome não é natural.

Passar humilhações não é natural.

Sentir desejo de morrer, não é natural.

Ter medo até da própria sombra não é natural.

Não conseguir dormir com calma e serenidade, não é normal.

Ter mil relacionamentos que não dão certo, não é normal.

Ter cansaço, desânimo exagerado e doenças que surgem do nada, não é natural.

Tudo isso, é um claro sinal de distância de Deus.

Tudo isso é indicação de que na sua vida o mais importante é ganhar dinheiro, é estudar para aquele concurso, é arrumar uma pessoa para relacionar-se, é arrumar um emprego, é fazer qualquer coisa em primeiro lugar, menos buscar á Deus.

Quando Deus está em segundo plano na vida de uma pessoa, pode apostar que ela é infeliz. Pode até ter muito dinheiro, pode ter carrões e iates de luxo. Pode ter milhares de "amigos", uma família super legal, esposa ou marido, filhos, pais vivos e maravilhosos.

Pode ter um belo emprego, passar naquele vestibular disputado ou no concurso público mais desejado. Pode ter todo o tesouro da Terra, mas sem Deus, sem ter Deus como prioridade na sua vida, a infelicidade, aquele buraco, aquele vazio no peito não passa, não sai nem com Lexotan, nem com Valiun, nem com cocaína, muito menos com a maconha.

Somente uma ligação, um encontro definitivo com Deus, sem fanatismo, sem rituais malucos, ou ervas diferentes, apenas com a sua simplicidade e humildade, poderá trazer a tão sonhada paz interior, a verdadeira felicidade.

 Humildade! Eis a palavra chave para esse encontro com Deus.

É preciso reconhecer que somos um nada, uma titica de gente diante da grandeza do Universo, diante do poder Dele.

Um breve terremoto e todos os grandes poderosos da Terra vão para o buraco.

Um erguer de alguns centímetros no nível do mar e o país que se julga mais poderoso no planeta some em minutos, engolido pelas águas, e lá se vai todo o orgulho, a empáfia, a falta de sentidos de pessoas que cada vez buscam mais e mais o ouro da Terra, o amor da Terra, o sal na Terra.

Coloque esse encontro com Deus como prioridade na sua vida.

Antes de mais nada, busque Deus, que o resto te será acrescentado.

(Palavras de Jesus: "Buscai antes o reino de Deus, e todas estas coisas vos serão acrescentadas.(LC 12:31)". 


Paulo Roberto Gaefke 

Enviado por Vera Lúcia


+++++++++++++++++++++++++++++++++++

UM AMOR ANGELICAL!

 

O amor da menina por Jesus começou bem cedo!

Ainda no colo da mãe, ela já O reconhecia numa cruz e pra Ele já sorria!

Aprendeu desde novinha, a chamá-Lo pelo nome e a buscá-Lo com o olhar! Quando via uma cruz vazia, logo perguntava: Cadê Jesus?

Dos pais, ela sempre tinha as respostas que buscava! Respostas, que ela guardava no seu coração tão pequenino e já tão cheio de amor!

O domingo pra menina, era dia de alegria! Levantar de manhãzinha, pra ir à missa com os pais e os irmãozinhos! Escolhia o vestido mais bonito, pro seu encontro com Jesus!

A caminhada era longa, mas cheia de alegria!

Com risos e brincadeiras, caminhavam todos juntos, rumo à igrejinha que ficava bem distante! Grande era a sua alegria, quando de longe avistava as primeiras casas da cidadezinha ao pé da serra!

Com seus passos bem curtinhos a menina, radiante de alegria, não via a hora de entrar na igrejinha!

De cumprimentar Jesus no sacrário, ela nunca esquecia, porém, prestar atenção na missa como seu pai recomendava, ela nunca conseguia, pois além da ansiedade pra que chegasse o momento de colocar as moedinhas no cestinho das ofertas, ela sempre distraia viajando nas suas imaginações! Imaginava ela morando pertinho da igrejinha, colhendo flores no jardim toda manhã, pra colocar lá no altar! E o quanto a faria feliz, se pudesse todo dia, fazer companhia pra Jesus! Na sua doce imaginação, Jesus ficava triste toda vez que a missa terminava e  todos iam embora, deixando Ele sozinho!

Um desejo muito grande crescia no coração da menina, desejo que se realizou quando ela tinha 8 anos! Junto com outras crianças, ela fez a experiência mais bonita de um cristão: a primeira comunhão!

No seu lindo vestido branco, a menina deixava transparecer pelo brilho do olhar, a alegria de participar daquela festa tão bonita!

E assim, ela ia crescendo sempre amiga de Jesus, aprendendo com seus pais a amá-Lo sempre mais e a confiar no seu amor por todos nós!

Plantar a semente do amor, no coração de uma criança, é a certeza de um eterno florescer!

Olívia Coutinho


............................

Pai, começa o começo!

 

Quando eu era criança e pegava uma tangerina para descascar, corria para meu pai e pedia: - “pai, começa o começo!”.

O que eu queria era que ele fizesse o primeiro rasgo na casca, o mais difícil e resistente para as minhas pequenas mãos.

Depois, sorridente, ele sempre acabava descascando toda a fruta para mim. Mas, outras vezes, eu mesmo tirava o restante da casca a partir daquele primeiro rasgo providencial que ele havia feito.

Meu pai faleceu há muito tempo (e há anos, muitos, aliás) não sou mais criança. Mesmo assim, sinto grande desejo de tê-lo ainda ao meu lado para, pelo menos, “começar o começo” de tanta