Poesia Experimental

-Introdução

    Após estudar as mudanças ocorridas na poesia ainda no século XIX e que foram a base para a poesia que temos hoje, é possível compreender a poesia  experimental. Iniciada a partir das mudanças descritas na página anterior, a poesia experimental é muito utilizada por poetas contemporâneos. Nossa aula terá como a teoria de Carlos Reis.

- Objetivos
    
    Fazer com que o leitor se interesse pela poesia experimental
    Fazer com que o leitor conheça os diversos tipos de poesia experimental
    Ensinar o leitor a interpretar a poesia experimental

- Conteúdo

Carlos Antônio Alves dos Reis, segundo o Centro de documentação de autores Portugueses da Associação Acadêmica da Universidade Aberta, é açoriano de nascimento e reside em Coimbra desde 1968, quando ingressou na Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra , onde se licenciou em filologia Românica. Desde cedo se dedicou a carreira acadêmica, lecionando: Literatura Portuguesa, Literatura Espanhola e Teoria da Literatura. Publicou o seu primeiro livro em 1975, Estatuto e perspectivas do narrador na ficção de Eça de Queirós, dando início a uma série de estudos sobre a obra queirosiana, a que se consagrou. Com uma tese sobre O discurso ideológico do neo-realismo português, doutorou-se em 1983. Publicou mais de uma dezena de livros em Portugal, na Alemanha, na França e no Brasil. Em 1996, recebeu o prêmio Jacinto Coelho da Associação Internacional de Críticos Literários.

Em sua Introdução aos Estudos Literários, Carlos Reis aponta para a questão do ritmo na poesia ter sido “libertado” com a instituição dos versos livres, o que começou a acontecer na segunda metade do século XIX, com a revolução na linguagem poética. O ritmo passou a ser mais adequado à fluidez dos sentidos representados, fugindo não apenas aos métodos convencionais de metrificação, mas também aderindo ao propósito de motivar “o discurso poético de forma imprevisível e inteiramente livre” (REIS, 1999, p.331). Motivação esta que também pode acontecer por meio da elaboração da imagem gráfica do texto.

 Foi em meio a essa libertação rítmica, iniciada por poetas simbolistas como Mallarmé, juntamente com o impacto das correntes artísticas de vanguarda, que a poesia experimental foi impulsionada. Porém, desde a antiguidade há tentativas que apontam para esse rumo, ”relacionadas quer com uma concepção lúdica e dessacralizadora da criação poética, quer com a influência do cabalismo e do hermetismo” (REIS,1999,p.332).

A poesia experimental não utiliza apenas sintagmas e vocábulos apresentados em versos, mas apresenta desenhos e manchas traçados pelos próprios caracteres utilizados em sua composição. Carlos Reis cita como exemplo de poesia experimental os Calligrammes de Apollinaire, que coloca em seu texto a representação gráfica da fonte que chora e da pomba em atitude contemplativa.


Apollinaire buscou uma nova linguagem em seus Calligrammes, segundo Hugo Friedrich em sua Estruturas da Lírica Moderna, uma linguagem brutalizada, dissonante e, em seguida, por outro lado, uma linguagem divina: ‘ Consoantes sem vogais, consoantes que soem apagadas, sons como um pião, como o estalar da língua, como o ruído de uma expectoração’” (FRIEDRICH, 1978, p.151).  

            Seguindo as novas idéias a poesia experimental abriu espaço para outras culturas, como explica Carlos Reis: “... a poesia experimental dos nossos dias se abre a diversas influências culturais, cruzando-se ainda com outras linguagens e materiais artísticos: as escritas ideográficas, a pintura, a publicidade, a televisão, etc.” (REIS, 1999, p.334).

            Um autor contemporâneo que compõe poesia experimental e que podemos citar de exemplo é o poeta Waly Salomão (também mensionado na aula anterior). É essa poesia que foge aos padrões convencionais de métrica e de rima e que apresenta outros meios culturais em sua composição que o poeta Waly Salomão constrói. Ele as definiu como “babilaques”. São peças de expressão híbrida ou polissêmica, como o autor as define; são cadernos manuscritos, que após serem abertos em páginas determinadas eram fotografados em ambientes inusitados, como: grama, asfalto, garrafas, outros cadernos, roupas entre outros ambientes selecionados por Salomão.

 O termo babilaque significa, segundo o dicionário informal: “grupo de pertences de uma pessoa, coisas soltas” no mundo policial, era uma gíria que ganhou o sentido de “documentos” e é com esse sentido que Waly utilizava a gíria para denominar suas poesias. Quando o poeta começou a utilizar esse termo, ele ainda não estava dicionarizado, o que foi mais um estímulo para seu uso, pois como disse Waly, a palavra não dicionarizada está aberta a possibilidades infinitas.

            Os babilaques são compostos de: textos, desenhos, colagens, planos, texturas, cores, luzes, ângulos, cortes, imagens impressas e objetos do cotidiano. Segundo Salomão eles são a fusão da escrita com a plasticidade e devido ao grande número de linguagens interrelacionadas, ele não os quis chamar de poesia visual e os definiu como babilaques.

            Carlos Reis coloca em seu texto uma definição de poesia experimental segundo Melo e Castro: “Forma específica da actividade criadora do Homem com o objectivo de fazer experiências sobre esse fenômeno ou acto estudando o resultado dessas experiências” (Reis, 1999, p. 334). Mais a frente, Reis explica que de acordo com essa definição o texto verbal não seria suporte material para a poesia experimental, contudo para alguns tipos de poesia, como: poesia visual, poesia auditiva, poesia linguística ou poesia espacial.

Assim são os babilaques de Waly Salomão, onde ele utiliza outros materiais junto com a linguagem verbal para criar suas performances poético-visuais, conceito que o poeta usa para definir essas obras:



            Além da poesia visual, Carlos Reis cita outros tipos de poesia experimental em seu texto. Um desses tipos é a poesia auditiva e um exemplo dessa poesia são os Testes Sonoros, também de Waly Salomão. Os Testes Sonoros estão presentes no livro Gigolô de Bibelôs, livro separado por partes no qual os Testes Sonoros estão presentes nas Percussões da Pedra que Ronca. Na folha anterior há um anúncio dos Testes, que virão a partir da folha seguinte:

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

 

RELEVO ZERO

 

RELEVO UM

RELEVO DOIS

RELEVO TRÊS

RELEVO QUATRO

RELEVO CINCO

 

OPERAÇÃO ABAFA BANCA

 

PARA JORGE TOTAL SALOMÃO

 

E X P L O R A Ç Õ E SSSSSSSSSSSSSS

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA

PERCUSSÕES DA PEDRA Q RONCA (SALOMÃO, 2008,p.130)

 

 Os Testes Sonoros são divididos em: RELEVO ZERO, RELEVO 1, RELEVO 2, RELEVO 3, RELEVO 4 e RELEVO 5. Na página que antecede o TESTE SONORO RELEVO ZERO, há o seguinte aviso:

Para ser lido alto. Para ser lido

Bem alta voz para ser lido para

Dentro. Para ser um incêndio

LUZ FOGO CALOR

q se acenda através de todos os órgãos

         ALASTRAR

         Ou não quer?????

         Ou não quer?????

         Ou não quer?????

PARA SER LIDO ALTO. AFà (SALOMÂO,2008,p.130)

 Anuncia-se a forma como os poemas devem ser lidos, São poemas que, assim como os babilaques, fogem aos métodos convencionais. Em Teste Sonoro Relevo Zero, Waly Salomão repete frases e acrescenta a elas palavras novas, depois vai reduzindo essas frases e repetindo palavras e acrescentando outras: ”eu nasci num canto eu nasci num canto qualquer duma cidade pequena fui pequeno qualquer duma cidade pequena fui pequeno depois nasci de novo numa cidade maior...” (SALOMÃO, 2008, p.131)

Em TESTE SONORO seguinte: RELEVO 1, o autor da mesma forma repete palavras acrescentando palavras novas e sempre utilizando uma destas ou mais para dar continuidade ao poema, pode-se também estabelecer uma relação entre esses dois TESTES SONOROS: em RELEVO ZERO o poeta diz que não é sempre o mesmo, mas que nasce várias vezes, em cidades maiores e variando seu local de nascimento, no TESTE SONORO RELEVO 1, Waly começa com a conjunção pois e após esta vem a conjunção por isso, ambas conjunções coordenativas e conclusivas e a frente o poeta diz:

sou sempre sou sem mestre não há mestre não há nenhum mestre de dentro de si o mestre um mestre sabe que não há o mestre um mestre pra dentro de si sabe uma cabeça tonta que não se apressa em concluir um mestre de dentro de si sabe uma energia tonta os sentidos tontos a idéia tonta o juíza tonto a tesão tonta uma cabeça de lanceira um sangue quente (SALOMÃO,2008, p.132).

 É como se Waly escrevesse nesse segundo TESTE SONORO, a conclusão do primeiro: o fato de não nascer num lugar só, mas sempre nascer de novo em lugares maiores e ser sem mestre, ser seu próprio mestre, como coloca no trecho citado acima.

Em RELEVO 2 Salomão continua falando sobre mestre e agora altera o uso de artigos, ora usa o artigo definido o, ora o artigo indefinido um :

o mestre um mestre           o o o o o UM

um mestre o mestre            um um um um um O

quem tem um tem um

quem tem um tem o um

quem tem um tem um o um

quem tem o tem o

quem tem o tem um o

quem tem o tem o um o (SALOMÃO,2008, p.133)

            O artigo definido: o, deixa a impressão de que é um mestre determinado, um mestre conhecido, já o artigo indefinido: um mostra que é alguém indeterminado, apenas um mestre e é com a alteração no uso desses artigos em RELEVO 2, que Salomão meche com suas definições.

            Já em RELEVO 3 o poeta usa a música: Peixe Vivo e brinca com sua letra de forma que lembra um trava línguas:

 ... sem a tua sem a tua sem a tua com

há uma hora que deus falta igual falha o ar aos pulmões dos vivos e neste mei tempo falta faz falha falta e quem tem tem de ter tem de ter tem de ter um tem um tanque de reserva de oxigênio qual que for pra varar o breu sobresi condição semelhante ao peixe enquanto nada na água fria...  (SALOMÃO, 2008, p.134).

            Também parecendo um trava línguas, o RELEVO 4 continua repetindo palavras e acrescentando outras na continuação do poema:

Sinal é um sinal são sinais é um primeiro sinal é um depois do primeiro é um buquê de sinais é um sinal é uma sinaleira é um taliqual e coisa e fim que cedo somente tarde começou a cla mais cla mais clarear de vez em vez de vez em quando de quando em quando em quando de quando em vez de vez em vez de vez de quando de vez sem talvez nem talvez nenhum talvez acendendo de vez  o lue do lume ela cai tão que não há tempo de formular um pedido se tem pedido de desejo me ensina rápido que não sei um desenhado já em 3 menos segundos desejo estalado que se real na luz mesma da mesma cadência caden cain d’estrela eu quero ter o desejo nesta hora que eu desejo sem imaginar a vida total...(SALOMÃO,2008, p.135).  

Como Apollinaire, Waly cria uma nova linguagem: ele repete palavras, usa consoantes sem vogais, utiliza palavras que possuam o mesmo sufixo ou prefixo, explorando a sonoridade das palavras e das letras, como em TESTE SONORO RELEVO 5 :

palh palh palh palh palh palha palha palha palha palha atrapalhar atrapalhar atrapalhar atrapalhar atrapalhar me atrapalhar me afastar da palha que atrapalha a alegria de chegar me afastar da palha q atrapalha chegar me afastar da palha q atrapalha me afastar da palha q empalha palh palha atrapalhar... (SALOMÃO, 2008, p.136).

            As inovações de Waly Salomão, em especial os babilaques, são vistas por alguns críticos como únicas na poesia brasileira, como para o artista plástico Luciano Figueiredo (curador da exposição dos babilaques no Rio de Janeiro em agosto de 2007 e em São Paulo em julho de 2008), que vê essa inovação criativa de Salomão, para a arte brasileira, como os Calligrammes de Apollinaire. Após a exposição Waly Salomão: Babilaques - Alguns Cristais Clivados, que aconteceu no Rio de Janeiro no ano de 2007, foi lançado um catálogo com as 90 fotos expostas e com textos de artistas falando sobre os babilaques, em um desses textos, Arnaldo Antunes descreve as obras da seguinte maneira:
...babilaques são poemas e não são poemas, são fotos e não são fotos, são colagens e não são colagens, objetos e não objetos. Reivindicam lugar único, como uma nova modalidade artística. Por isso Waly criou esse nome-conceito, palavra inventada que já parece familiar ao nascer.
Carlos Reis termina seu texto falando da videopoesia, que “apóia-se nos recursos conjugados do vídeo e da informática, cultivando então infindáveis técnicas de animação e de textualização eletrônica” (Reis, 1999, p.335). Ele afirma que dessa forma o texto poético não aceita ser estático. Os babilaques de Waly Salomão, embora não possuam a animação das videopoesias, nas quais as palavras podem mover-se, são peças autônomas, libertas das obras artísticas e literárias fixas.

- Proposta
Após a leitura da aula, tente analisar as poesias experimentais abaixo: 1º classifique-as em poesia visual, ou auditiva, ou sonora, dentre as poesias experimentais citadas acima.2º tente interpretá-las. Para os meus alunos a atividade terá o valor de 50 pontos, totalizando 100 pontos com a atividade anterior, e deverá ser entregue até dia 02 de dezembro de 2011. A atividade deverá ser enviada para o email: sirleyrojas@hotmail.com. Qualquer dúvida entre em contato pelo mesmo.




O primeiro poema Pêndulo de E. M. de Mello e Castro de Portugal.
O segundo poema  Ego foi feito pelo poeta Marcelo Sahea.

Para quem quiser ler mais sobre poesia experimental estes são links de acesso deste e de demais poemas experimentais, além da explicação de outros autores a cerca da poesia experimental :
http://arteonline.arq.br/museu/ensaios/ensaiosantigos/jlantonio.htm
http://www.antoniomiranda.com.br/ensaios/poesia_visual_brasileira.html


Referências Bibliográficas
 
Cícero, Antônio. Babilaques de Waly Salomão.Acontecimentos. Blog de Antônio Cícero: Poesia, Arte, Filosofia, Literatura Política, 2007. Disponível em< http://antoniocicero.blogspot.com/2007/09/os-babilaques-de-waly-salomo.html Acessado em 23 nov.2008>Acessado em: 23 nov.2008.
 
Folha Online. São Paulo: Folha de São Paulo, 07 de agosto de 2008. Disponível em <http://www1.folha.uol.com.br/folha/ilustrada/ult90u427621.shtml> Acessado em: 23 nov.2008
 

FRIEDRICH, Hugo. Estrutura da lírica moderna. São Paulo: Duas Cidades, 1978.

 

HALABI, Mexi.Babilaques.Disponível em: <http://walysalomao.com.br/?page_id=14>Acessado em: 23 nov. 2008 .

 

REIS, Carlos. Capítulo V – A poesia lírica. In:_______. O conhecimento da literatura. Introdução aos estudos literários. 2. ed. Coimbra: Almedina,1999.

 

SALOMÃO, Waly. Gigolô de Bibelôs. Rio de Janeiro: Rocco, 2008.

 

 

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