A FORMULA DA FELICIDADE


O LADO SOMBRIO DO PRAZER

 

Stefan Klein

O "Principio Las Vegas"

 

Dependendo da disposição genética, o prazer com a comida pode se transformar em gula desenfreada; o gosto pela prática de esportes, em um castigo obsessivo com corridas ou pesos; e a alegria com o ato de jogar ocasionalmente, em uma prática constante. Todos esses comportamentos compulsivos surgem da mesma maneira.

No caso do jogo, é a esperança de urna recompensa financeira o que desencadeia o prazer preliminar em sua variante doentia. A dopamina dispara no cérebro da pessoa quando ela ouve o ruído das fichas no salão de jogos ou quando vê o jogador da mesa ao lado levantar-se com o prêmio. Começa "um formigamento como fogo, que percorre o corpo dos pés à cabeça", descreveu o romancista russo Dostoiévski, que perdeu seus bens em decorrência de jogos em cassinos de toda a Europa. O tilintar de algumas moedas é suficiente para atrair hordas de pessoas, normalmente prudentes e sensatas, para a frente de uma grande caixa de lata provida de uma alavanca que elas acionam duas a três vezes por minuto na esperança de ganhar. Não é por acaso que essas cenas nos salões de jogos lembram os ratos de laboratório que também se auto-estimulavam puxando uma alavanca. Os processos no cérebro são exatamente os mesmos.

Sempre que a máquina de jogos soa, mais dopamina é liberada. A cada vez que isso acontece intensifica-se no cérebro a conexão entre "alavanca" e "sentimento agradável". Com isso, aumenta igualmente a necessidade de continuar acionando esse dispositivo. O circuito de recompensa no cérebro dos jogadores permanece alheio ao fato de que essas máquinas nunca devolvem todo o dinheiro que as pessoas depositaram nelas antes.

O psiquiatra Hans Breiter, de Harvard, demonstrou que nos cérebros dos jogadores que têm a expectativa de ganhar se ativam os mesmos circuitos neuronais que entram em ação nos cérebros de dependentes de drogas. Isso acontece mesmo quando os voluntários que participam do experimento não pessoas que têm necessidade de jogar constantemente. O jogador eventual se diferencia do apostador compulsivo pelo fato de dominar os exageros de seu circuito de expectativa.

 

 

A ânsia descontrolada pelo prazer

 

Uma das conclusões mais irritantes dos estudos fisiológicos sobre o sentimento de gratificação é que as dependências químicas, não importa de que natureza, usam os mesmos mecanismos que no dia-a-dia são responsáveis pelo aprendizado e pela fruição normal do prazer, sendo, portanto, necessários a sobrevivência. Precisamente por isso, o estudo das dependências também mostra revelações importantes quanto à atividade psíquica de pessoas saudáveis. A dependência é um acidente na busca de todos nós por felicidade.

A evolução não programou nada para evitar que nos prejudicássemos dessa maneira, pois não podia prever essa circunstância que só ocorreria em um futuro distante. Há uma centena de milhões de anos, quando a maior parte dos nossos padrões de comportamento atuais foi estabelecida nos genes, não se podia imaginar que os humanos um belo dia consumiriam bebidas alcoólicas, construiriam cassinos e sintetizariam cocaína. Há apenas dez gerações, na época em que a fome era um flagelo freqüente em muitos países, não se tinha idéia de que a agricultura altamente mecanizada viria a ampliar a oferta de alimentos de tal forma que a obesidade se tornaria um grave problema de saúde pública.

A dependência, portanto, pode ser compreendida como um desejo que escapou do controle. Podemos relacionar até mesmo os sete pecados capitais a um excesso da nossa aspiração natural pela felicidade. Orgulho é amor-próprio em altas doses, avareza é parcimônia excessiva e inveja é um exagero da nossa tendência natural de buscar nas outras pessoas um ponto de comparação. A gula surge sempre que o organismo não responde à ingestão de alimentos com a sensação de saciedade. A luxúria nos domina quando não encontramos no sexo uma satisfação plena, o que nos faz querer sempre mais. A ira e a agressividade descontrolada, não submetida à razão. A preguiça é o estado em que ficamos quando, depois de um relaxamento saudável, não conseguimos recuperar o ritmo e a motivação naturais. As drogas funcionam exatamente como as fatídicas alavancas nos salões de jogos e nas gaiolas dos ratos, aumentando a quantidade de dopamina no cérebro. Sob efeito do álcool, o nível dessa substância praticamente dobra; e com nicotina e cocaína, até mesmo triplica, como constatou o toxicólogo italiano Gaetano Di Chiara. Como a dopamina desperta e intensifica a atenção, depois de fumarmos um cigarro nos sentimos agradavelmente estimulados para o trabalho. Duas taças de vinho nos enchem de otimismo.

Todas as dependências químicas, portanto, estão baseadas no mesmo mecanismo, e as drogas apenas se diferenciam pela maneira como o ativam. A nicotina libera dopamina de forma mais direta, com a ativação dos neurônios correspondentes. O álcool, a heroína e a morfina aumentam o nível desse neurotransmissor por via indireta, pois inibem os neurônios que normalmente contrapõem ao circuito de expectativa. A cocaína, por sua vez, evita a reabsorção normal da dopamina pelas membranas celulares, conseguindo assim que essa substância circule por mais tempo no cérebro. Quem consome o "pó branco" vivencia um estado parecido com aquele em que se encontrava Leonard, o paciente de Oliver Sacks, sob o efeito do medicamento L-Dopa, que o fazia sentir-se todo-poderoso.

Em última análise, o que importa é saber o caminho pelo qual um nível mais alto de dopamina será obtido. É necessário que essa situação aconteça, pois ela estabelece no cérebro uma associação quase indissolúvel entre a droga e a ânsia de consumi-la. Ao reconhecer um cigarro, o cérebro de um fumante aciona imediatamente o comando "acender". O estímulo "garrafa", por sua vez, desencadeia o desejo de beber. Basta a visão de uma seringa para que o aviso do desejo surja no cérebro de um dependente de heroína, como mostraram análises com o tomógrafo de emissão de pósitrons. É dessa maneira que a nicotina, o álcool e a cocaína penetram nas estruturas cerebrais responsáveis pelas sensações de prazer: como os guerreiros gregos escondidos no cavalo de Tróia. Em outras palavras, o cérebro de quem tem uma dependência é como uma cidade conquistada.

 

Como somos seduzidos

 

Você ainda se lembra do primeiro cigarro? A recordação da maioria das pessoas é de uma experiência bastante desagradável: a garganta ardendo, a vontade de tossir, a tontura - reações que só com muito esforço puderam ser dissimuladas na frente dos amigos adolescentes. Algo parecido aconteceu nas primeiras vezes em que tomamos cerveja. Sejamos sinceros: somente a determinação em não dar vexame poderia nos obrigar a achar gostoso esse sabor amargo e a continuar bebendo.

Quando adultos, porém, aprendemos a gostar de cerveja e cigarro, e há quem passe a apreciar até o gosto ardente da pimenta. Mas na primeira vez certamente ninguém sentiu prazer ao experimentar essas coisas. Não foi por causa do sabor que muitas pessoas se tornaram dependentes do álcool e cigarro. Nem mesmo um rato de laboratório prova álcool espontaneamente embora essa substância produza efeitos idênticos nesses animais e nos seres humanos. Quando os cientistas querem realizar pesquisas nesse campo, eles levam tempos para fazer com que os ratos se acostumem à droga. O mesmo acontece com as pessoas: o hábito é aprendido. Quase sempre, o motivo é o desejo de resolver uma situação difícil.

O álcool ameniza e dissolve as angústias. A cocaína age temporariamente um turbocompressor que acelera o fluxo das idéias e das habilidades, dando uma ajuda aos que se consideram pouco inteligentes ou desinteressantes diiante dos amigos. A nicotina torna mais fácil suportar o tédio e o estresse, estimula e tranqüiliza ao mesmo tempo. Mais do que isso: um cigarro faz com que o adolescente se enturme mais facilmente no grupo. Muitos estudos provam que não é a busca pelo prazer que causa a dependência química, e sim o desejo de encontrar uma saída para determinadas dificuldades cotidianas. O consumo de drogas "por diversão" aumenta quase automaticamente em situações desagradáveis. Por isso, o alcoolismo é muito comum entre os desempregados, assim como o consumo da heroína se difundiu entre os soldados americanos que lutaram no Vietnã. Quarenta por cento desses jovens tentaram pelo menos uma vez amenizar os horrores da guerra com a ajuda da seringa, e pelo menos metade deles usava a droga com tanta freqüência que os seus organismos reagiram mal à abstinência quando eles quiseram parar.

As vezes, uma pequena contrariedade pode causar um aumento do consumo de drogas. Em um experimento, cientistas americanos pediram a voluntários que não tinham nenhum tipo de dependência que resolvessem um problema difícil, dizendo-lhes que se tratava de um teste de inteligência. Em seguida, o suposto monitor que conduzia a prova criticou os resultados de alguns deles de forma dura e humilhante. Depois disso, os pesquisadores solicitaram a essas pessoas que tomassem parte de outro experimento, descrito como um teste de diversos tipos de bebidas alcoólicas. Elas deveriam compará-las e avaliá-las. Os voluntários que haviam sido maltratados beberam significativamente mais do que os que tinham sido tratados com educação. Um terceiro grupo que também sofrera a humilhação, mas que depois teve a oportunidade de se vingar de seus críticos, ingeriu quantidades normais de álcool, indicando que a desforra reduziu a necessidade de beber para esquecer a experiência desagradável.

 

 

Quem fica dependente?

 

Drogas ajudam a esquecer. Mas nem todas as pessoas que têm problemas as tornem, assim como nem todo usuário dessas substâncias se torna um dependente químico. Há quem beba vinho ou use cocaína eventualmente sem cair na dependência. O número dos que se viciam é mais alto entre os fumantes. O cigarro é a droga mais sedutora não apenas porque é muito fácil consegui-lo, mas porque a nicotina estimula diretamente os circuitos da dopamina.

Mas como é que a maioria das pessoas pode consumir drogas sem se viciar? A dependência é, em parte, determinada pelas circunstâncias da vida e, em parte, pelos genes. Todos os tipos de estresse aumentam a probabilidade de que os indivíduos que buscam relaxamento no álcool, no tabaco ou na heroína se tornem usuários constantes dessas substâncias. Quanto aos genes, algumas de suas influências sobre o risco da dependência são bastante simples: quem suporta bem o consumo de uma droga é mais suscetível. Por outro lado, a pessoa cujo organismo se vinga com uma ressaca terrível por causa de poucos copos de chope dificilmente se tornará alcoólatra.

Outro fator herdado é o grau de curiosidade. De fato, existe uma relação entre o prazer com o novo e o risco de se tornar dependente de uma substância. Essas duas reações estão ligadas à dopamina, e quem responde bem a novidades, aventuras e situações perigosas também corre um certo risco de desenvolver esse problema. Os pesquisadores que trabalham nesse campo estão familiarizados com essa questão: os ratos que se revelam mais curiosos tornam-se dependentes químicos com mais facilidade.

O já mencionado receptor D2 parece desempenhar um papel importante nesses processos por sua afinidade com a dopamina. Cientistas do Brookhaven National Laboratory, de Nova York, conseguiram até mesmo fazer com que ratos que haviam sido induzidos ao alcoolismo parassem de beber submetendo-os a uma terapia de genes que aumentou o número de receptores de dopamina em seu cérebro.

Será que no futuro a ciência conseguirá curar dependentes químicos por meio de uma intervenção em seus genes? Atualmente não existe essa possibilidade - os complexos mecanismos através dos quais os genes influenciam o consumo de drogas ainda não foram totalmente estudados. Assim, o interesse dos geneticistas está mais focado em prever a tendência de uma pessoa a esse problema para que ela possa se precaver. A pesquisadora Nora Volkow, do Brookhaven National Laboratory, afirma que o risco é maior entre indivíduos com poucos receptores D2. Descendente do revolucionário russo Trotski, Nora Volkow ficou famosa por suas pesquisas com cérebros de dependentes químicos. Ela descobriu que um longo período de uso dessas substâncias reduz ainda mais o número já pequeno de receptores D2 e que esse efeito mantém por anos.

Por isso, quem é ou já foi dependente químico corre um risco maior de desenvolver outra dependência. Experimentos em laboratórios mostram que dependentes de morfina acabam aceitando o álcool quando aquela droga é retirada. Quase todo usuário de heroína é também fumante ou alcoólatra risco aumenta para quem começou a fumar ou beber na puberdade, pois o cérebro mais jovem apresenta uma plasticidade maior, ou seja, é moldado a mais facilidade. Por isso, não há prevenção mais eficaz contra esse problema do que se manter longe do consumo dessas substâncias desde a infância até início da idade adulta.

 

A prisão no círculo vicioso

 

Estabelecida a dependência, muitas vezes resta somente a ansiedade cega obter a droga; o desejo de sentir prazer com seu consumo continua existindo, mas deixa de ser o mais importante. Isso ocorre porque o cérebro acabou sendo programado para recebê-la - é esse fato que faz o hábito se perpetuar, e não o sabor da bebida ou do tabaco, por exemplo.

O que não quer dizer que as drogas parem de proporcionar prazer. É claro que cigarro, cerveja e substâncias mais pesadas podem gerar sensações agradáveis. Isso ocorre de forma mais evidente no consumo de tóxicos como a heroína, que se assemelham quimicamente aos opióides e, por isso, também geram euforia. A nicotina e o álcool produzem efeitos semelhantes, embora por caminhos diferentes. O uso ocasional desses tipos de substância não deixa seqüelas necessariamente.

Mas quem usa drogas regularmente precisará de quantidades cada maiores, pois o cérebro vai se tornando resistente aos seus efeitos. Com o tempo, "o grande barato" nem acontece mais, e a pessoa precisa continuar continuar consumindo simplesmente para se manter no nível da normalidade. Cada dia sem drogas parece monótono e cinzento. Uma dose restabelece o velho entusiasmo pela vida durante algumas horas, mas o cérebro continua perdendo a sensibilidade à substância. O usuário começa a cair no estado da dependência. Com o tempo, a sensação de bem-estar não surge mesmo que ele já esteja fumando três maços de cigarro por dia ou tomando vodca no café da manhã. O

prazer deixou de existir, mas a pessoa persiste, pois já se transformou em um dependente químico.

O cantor alemão Konstantin Wecker, que foi dependente de cocaína, descreveu esse estado com uma notável precisão: "Que desespero eu sentia ao ver que só me restavam alguns gramas em casa! Eu quebrava as paredes procurando esconderijos em que pudesse haver droga, destruía móveis na esperança de encontrar papelotes esquecidos. Que coisa indigna, que vergonha sentia de mim mesmo. Por outro lado, tinha muita afeição pelo meu fornecedor, que sempre me cobrou um preço justo. Por isso, quando tive que depor no tribunal, o que declarei a seu favor veio do fundo do meu coração."

Quando falta a droga, o organismo reage com tremores e frio. Mas os sintomas físicos da abstinência parecem relativamente suportáveis quando comparados ao que vem depois. As tremedeiras causadas pelo frio, os enjôos e os delírios podem ser aliviados com a ajuda de medicamentos e desaparecem depois de algumas semanas. Muito mais difícil é lutar pelo resto da vida contra o desejo pela droga, marcado no cérebro como uma cicatriz deixada por um ferro em brasa.

Muita gente supõe que um usuário necessita da droga sobretudo para evitar os desagradáveis sintomas físicos causados pela privação do consumo. Mas isso não é suficiente para explicar as recaídas que às vezes ocorrem após anos de abstinência. A tolerância do cérebro à droga desaparece depois de pouco tempo, em geral no mesmo período em que o dependente se submete ao penoso processo de se abster dela. Mesmo assim, é extremamente grande o número de pessoas que sofrem uma recaída - por exemplo, voltando a fumar após terem passado anos sem fazer isso.

Para compreender essas reincidências, precisamos ter em mente que os movimentos de desejar e gostar são produzidos no cérebro por dois caminhos diferentes. A dependência desvirtua esses dois mecanismos. Quando a vida sem drogas parece entediante, significa que a substância habitualmente consumida prejudicou a capacidade de sentir prazer. Ao mesmo tempo, a droga já terá se infiltrado nos circuitos cerebrais que controlam o desejo e os reprogramado - e é isso que desperta a irresistível vontade de consumir mais. A insensibilidade em relação ao prazer é reversível, mas o circuito de recompensa, ou o circuito de expectativa, como o chamamos, fica perturbado para sempre.

Quando os poderosos mecanismos do desejo se tornam viciados, a dependência persiste, favorecendo as recaídas. Os cientistas chamam esse fenômeno de craving ("ânsia"). Quem já foi dependente costuma passar o resto da vida submetido a esse condicionamento. Como se fosse a língua materna, que não conseguimos esquecer, a dependência química altera para sempre o funcionamento dos neurônios. Ela modifica o modo como a informação genética é lida para a produção de polipeptídios cerebrais. Assim, as células produzirão preferencialmente substâncias que tornam o cérebro mais receptivo a todos os estímulos que têm a ver com a droga. Como cabos de alta-tensão instalados nos circuitos cerebrais, as conexões dos neurônios fazem com que esses estímulos desencadeiem a ânsia imediata pela droga. Essas conexões dificilmente se reorganizam de outra maneira. Em experimentos com animais, os pesquisadores conseguem identificar, pelo comportamento de determinadas células do cérebro, os ratos que foram previamente induzidos ao alcoolismo.

Mas isso não significa que um dependente não possa se livrar das drogas. É possível superar a dependência, mas essa é uma luta para a vida inteira. A pessoa tem que se manter alerta para evitar recaídas, da mesma forma que a vítima de um infarto precisa mudar seu estilo de vida se não quiser sofrer outro ataque cardíaco.

Um dependente químico pode tentar escapar à sedução da droga ou passar a controlar a ânsia que o induz a ceder à tentação. Ambos são caminhos difíceis, pois o cérebro associa a droga não apenas à substância intoxicante como também a todos os outros estímulos ligados a ela, estejam eles próximos ou distantes: a fumaça no bar, a imagem de velhos amigos, o aroma de gotas de rum na torta.

A mente de um ex-dependente químico é capaz de se fixar nos detalhes mais absurdos para atormentá-lo. Elton John, uma das celebridades do mundo pop que passaram por um tratamento bem-sucedido, disse: "Às vezes quando sobrevoamos os Alpes suíços cobertos de neve, penso: Ali embaixo está todo o pó que já cheirei na minha vida".

 

 

Extraído de: Klein, Stefan, A Fórmula da Felicidade. Ed. Sextante, Rio de Janeiro, 2005.