O CORPO E A REPRODUÇÃO DA FEMINIDADE: UMA APROPRIAÇÃO FEMINISTA DE FOUCAULT


Susan R.  Bordo

 

RECONSTRUINDO O DISCURSO FEMINISTA SOBRE O CORPO

 

O corpo — o que comemos, como nos vestimos, os rituais diários através dos quais cuidamos dele — é um agente da cultura. Como defende a antro­póloga Mary Douglas, ele é uma poderosa forma simbólica, uma superfície na qual as normas centrais, as hierarquias e até os comprometimentos metafísicos de uma cultura são inscritos e assim reforçados através da lin­guagem corporal concreta. O corpo também pode funcionar como uma me­táfora da cultura. Em autores tão diversos como Platão, Hobbes ou a femi­nista francesa Luce Irigaray, uma imagem mental da morfologia corporal tem fornecido um esquema para o diagnóstico e/ou visão da vida social e política.

O corpo não é apenas um texto da cultura. É também, como sustentam o antropólogo Pierre Bourdieu e o filósofo Michel Foucault, entre outros, um lugar prático direto de controle social. De forma banal, através das maneiras à mesa e dos hábitos de higiene, de rotinas, normas e práticas aparentemente triviais, convertidas em atividades automáticas e habituais, a cultura "se faz corpo", como coloca Bourdieu. Assim, ela é colocada "além do alcance da consciência... [inatingível] por transformação volun­tária, deliberada" (1977:94). Nossos princípios políticos conscientes, nossos engajamentos sociais, nossos esforços de mudança podem ser solapa­dos e traídos pela vida de nossos corpos — não o corpo instintivo e desejante concebido por Platão, Santo Agostinho e Freud, mas o corpo dócil e regu­lado, colocado a serviço das normas da vida cultural e habituado às mes­mas.

Através de seus últimos trabalhos "genealógicos", Vigiar e Punir e História da Sexualidade, Foucault salienta constantemente a primazia da prática sobre a crença. Não essencialmente através da "ideologia", mas por meio da organização e da regulamentação do tempo, do espaço e dos movimentos de nossas vidas cotidianas, nossos corpos são treinados, mol­dados e marcados pelo cunho das formas históricas predominantes de in­dividualidade, desejo, masculinidade e feminidade. Essa ênfase lança uma sombra carregada e inquietante sobre o panorama contemporâneo. Pois, em comparação com qualquer outro período, nós, mulheres, estamos gas­tando muito mais tempo com o tratamento e a disciplina de nossos corpos, como demonstram inúmeros estudos. Numa época marcada pela reabertu­ra do âmbito público às mulheres, a intensificação de tais regimes parece diversionista e desmobilizadora. Através da busca de um ideal de feminidade evanescente, homogeneizante, sempre em mutação — uma busca sem fim e sem descanso, que exige das mulheres que sigam cons­tantemente mudanças insignificantes e muitas vezes extravagantes da moda — os corpos femininos tornam-se o que Foucault chama de "corpos dó­ceis": aqueles cujas forças e energias estão habituadas ao controle exter­no, à sujeição, à transformação e ao "aperfeiçoamento".' Por meio de dis­ciplinas rigorosas e reguladoras sobre a dieta, a maquiagem, e o vestuário— princípios organizadores centrais do tempo e do espaço nos dias de muitas mulheres — somos convertidas em pessoas menos orientadas para o social e mais centradas na automodificação. Induzidas por essas disci­plinas, continuamos a memorizar em nossos corpos o sentimento e a con­vicção de carência e insuficiência, a achar que nunca somos suficiente­mente boas. Nos casos extremos, as práticas da feminidade podem nos levar à absoluta desmoralização, à debilitação e à morte.

Vistos historicamente, o disciplinamento e a normatização do corpo fe­minino — talvez as únicas opressões de género que se exercem por si mes­mas, embora em graus e formas diferentes dependendo da idade, da raça, da classe e da orientação sexual — têm de ser reconhecidos como uma estraté­gia espantosamente durável e flexível de controle social. Em nossa própria época, é difícil evitar o reconhecimento de que a preocupação contemporâ­nea com a aparência, que ainda afeta as mulheres de maneira muito mais acentuada que os homens, mesmo em nossa cultura narcisista e visualmente orientada,2 isso pode ocorrer como um fenómeno de "recuo",* reafirmando as configurações de género existentes contra quaisquer tentativas de substi­tuir ou transformar relações de poder. Certamente, estamos lutando hoje com o sofrimento causado por esse retrocesso. Em jornais e revistas, encon­tramos diariamente matérias que promovem relações de género tradicionais e atacam os anseios por mudanças: histórias sobre crianças entregues a si mesmas na ausência dos pais,** abusos nas creches, problemas da "nova mulher" com os homens e suas poucas chances de se casar etc. Um tema visual dominante em revistas para adolescentes envolve mulheres que se escondem nas sombras dos homens, procurando conforto em seus braços, limitando voluntariamente o espaço que ocupam. Um outro tema é, natural­mente, o da descrição do ideal estético contemporâneo para mulheres, obje-tivo cuja busca obsessiva se tomou o tormento central das vidas de muitas delas.3 Numa época como esta, necessitamos desesperadamente de um dis­curso político eficaz sobre o corpo feminino, um discurso adequado a uma análise dos caminhos insidiosos e muitas vezes paradoxais do moderno con­trole social.

Desenvolver esse discurso exige a reconstrução do velho discurso femi­nista sobre o corpo do final dos anos 60 e início dos anos 70, com suas categorias políticas de opressores e oprimidos, vilões e vítimas. Creio que poderia ser útil nesse contexto uma apropriação feminista dos últimos con­ceitos de Foucault. Para segui-los, temos primeiro que abandonar a ideia de que o poder é algo possuído por um grupo e dirigido contra outro e pensar, em vez disso, na rede de práticas, instituições e tecnologias que sustentam posições de dominância e subordinação dentro de um âmbito particular. Em segundo lugar, necessitamos de uma análise adequada para descrever um poder cujos mecanismos centrais não são repressivos mas constitutivos: "um poder gerando forças, fazendo-as crescer e organizando-as, ao invés de um poder dedicado a impedi-las, subjugando-as ou destruindo-as" (Foucault 1978:136). Particularmente no reino da feminidade, onde tanta coisa depen­de da aparentemente voluntária aceitação de várias normas e práticas, ne­cessitamos de uma análise do poder "a partir de baixo", como Foucault o coloca (1978:94); por exemplo, os mecanismos que moldam e multiplicam os desejos, em vez de reprimi-los, que geram e direcionam nossas energias, que constróem nossas concepções de normalidade e desvio. Em terceiro lu­gar, precisamos de um discurso que nos possibilite detectar a "recuperação" da rebeldia potencial, um discurso que, enquanto insiste na necessidade da análise "objetiva" das relações de poder, da hierarquia social, do recuo polí­tico etc, nos permita, não obstante, confrontar os mecanismos pelos quais o sujeito se torna às vezes enredado, conivente com forças que sustentam sua própria opressão.

Este ensaio não é uma tentativa de produzir uma "teoria" dentro dessa orientação. Meu enfoque será apenas a análise de um terreno particular, onde a interação dessas dinâmicas é notável e talvez exemplar. É um campo limi­tado e incomum — um grupo de desordens ligadas ao gênero feminino e historicamente localizadas: histeria, agorafobia e anorexia nervosa.4 Reco­nheço também que essas desordens têm sido amplamente especfficas no que se refere à classe e à raça, ocorrendo esmagadoramente entre mulheres bran­cas de classes média e média-alta.5 Apesar disso, a anorexia, a histeria e a agorafobia podem fornecer um paradigma desse processo no qual a resistên­cia potencial não é meramente minada, mas utilizada na manutenção e re­produção das relações de poder existentes.6

O mecanismo central que descreverei envolve uma transformação (ou, se quiserem, uma dualidade) do significado, através da qual, condições que são "objetivamente" (e num certo nível, experimentalmente) coercitivas, escravizadoras e até mortíferas chegam a ser experimentadas como libertadoras, transformadoras e vivificantes. Ofereço essa análise, embora limitada a um domínio específico, como exemplo da maneira como vários discursos críticos contemporâneos podem ser reunidos para produzir uma compreensão do papel sutil e muitas vezes inconsciente, desempenhado por nossos corpos na simbolização e reprodução do género.

 

O CORPO COMO UM TEXTO DA FEMINIDADE

 

O continuum entre desordem feminina e prática feminina "normal" é reve­lado nitidamente através da interpretação acurada daquelas desordens, às quais as mulheres têm sido particularmente vulneráveis. Evidentemente, elas têm variado historicamente: neurastenia e histeria na segunda metade do século XIX; agorafobia e, de forma extremamente dramática, anorexia ner­vosa e bulimia, na segunda metade do século XX. Isso não quer dizer que a anorexia não existia no século XIX — muitos casos foram descritos, geral­mente dentro do contexto do diagnóstico de histeria (Showalter 1985:128-129) — ou que as mulheres não sofrem mais de sintomas histéricos clássi­cos no século XX. Mas lidar com desordens alimentares em grande escala é tão característico da cultura dos anos 80 como a epidemia de histeria o foi para a era vitoriana.7

A sintomatologia dessas desordens revela-se como textualidade. A per­da da mobilidade e da voz, a incapacidade de sair de casa, a tendência a alimentar outros enquanto se morre de fome, de ocupar espaço ou reduzir gradualmente aquele que o corpo ocupa — todas têm significado simbólico, todas têm significado poHtico dentro das normas variáveis que governam a construção histórica do género. Penetrando nessa estrutura, vemos que, olhan­do a histeria, a agorafobia ou a anorexia, encontramos o corpo de quem sofre profundamente marcado por uma construção ideológica da feminidade típica dos períodos em questão. Naturalmente, essa construção está sempre homogeneizando e normalizando, tentando suprimir as diferenças de raça, classe e outras, insistindo para que todas as mulheres aspirem a um ideal coercitivo, padronizado. Nessas desordens a construção da feminidade está notavelmente escrita em termos perturbadoramente concretos, hiperbólicos: representações exageradas, extremamente literais, às vezes praticamente caricaturadas da mística feminina corrente. Os corpos das mulheres pertur­badas apresentam-se como um texto agressivamente descritivo para quem o interpreta — um texto que insiste e exige mesmo ser lido como uma afirma­ção cultural, uma exposição sobre o género.

Tanto os médicos do século XIX, como as críticas feministas do século XX viram nos sintomas da neurastenia e da histeria (síndromes que se torna­vam crescentemente menos diferenciadas à medida que o século passava), uma intensificação dos traços estereotipadamente femininos. A "dama" do século XIX era idealizada em termos de delicadeza e encanto, passividade sexual e uma emocionalidade encantadoramente instável e caprichosa (Vicinus, 1972: x-xi). Essas noções eram formalizadas e incluídas na ciên­cia de teóricos homens, desde Acton e Kraft-Ebbing até Freud, que descre­veu a feminidade madura "normal" nesses termos.8 Em tal contexto, as dissociações da histeria, a oscilação e o obscurecimento da percepção, os tremores e desmaios nervosos, as anestesias e a extrema mutabilidade da sintomatologia associados às desordens femininas do século XK podem ser vistos como concretizações da mística feminina do período, produzidas de acordo com as normas que regiam a construção predominante da feminidade. Os médicos descreviam o que viria a ser conhecido como "personalidade histérica" assim: "impressionável, sugestionável e narcisista; altamente ins­tável, mudando de humor repentina e dramaticamente por razões aparente­mente irrelevantes... egocêntrica ao extremo... essencialmente assexuada e não raramente frígida" (Smith-Rosenberg 1985:203) — todas elas caracte­rísticas normativas da feminidade da época. Como salienta Elaine Showalter, o termo "histérica" tornou-se quase permutável com o termo "feminino" na literatura do período (1985:129).

No entanto, a personificação da mística feminina de sua época pela pes­soa histérica parece sutil e inefável comparada ao engenhoso literalismo da agorafobia e da anorexia. No contexto de nossa cultura, esse literalismo faz sentido. Com o advento do cinema e da televisão, as normas da feminidade passaram cada vez mais a ser transmitidas culturalmente através do desfile de imagens visuais padronizadas. Como resultado, a feminidade em si tor­nou-se largamente uma questão de interpretação, ou tal como colocou Erving Goffman, a representação exterior adequada do ser. Não nos dizem mais como é "uma dama" ou em que consiste a feminidade. Em vez disso, fica­mos sabendo das regras diretamente através do discurso do corpo: por meio de imagens que nos dizem que roupas, configuração do corpo, expressão facial, movimentos e comportamento são exigidos.

Na agorafobia e ainda mais dramaticamente na anorexia, a desordem, embora trágica, apresenta-se como virtual paródia das interpretações de feminidade do século XX. Os anos 50 e o início dos anos 60, quando a agorafobia começou a aumentar progressivamente entre as mulheres, reve­laram a reafirmação da domesticidade e da dependência como ideais femi­ninos. "Mulher que trabalha e faz carreira" tornou-se uma expressão insultosa, muito mais do que tinha sido durante a guerra, quando a sobrevivência da economia dependia da boa vontade das mulheres para executar o "trabalho de homens". A ideologia reinante da feminidade, tão bem descrita por Betty Friedan e perfeitamente captada no cinema e na televisão da época, era a de uma mulher infantil, insegura, indefesa sem um homem, "contente num mundo de quarto e cozinha, sexo, bebés e lar" (1962:36). A pessoa agorafóbica, confinada à casa, vive literalmente essa construção da feminidade. "Você quer dependência? Eu lhe darei dependência!" — pro­clama ela com seu corpo. "Você me quer no lar? Você me terá no lar — demasiado!" A questão, comentada por muitos terapeutas, dispensa maiores comentários. A agorafobia, como I.G. Fodor escreveu, parece a "extensão lógica — embora extrema — do estereótipo cultural do papel sexual das mulheres" nessa época.9

O corpo emaciado da pessoa com anorexia apresenta-se evidentemente como uma caricatura do ideal contemporâneo de esbeltez exagerada para as mulheres, um ideal que, apesar da resistência irónica das diferenças raciais e étnicas, tornou-se a norma para as mulheres de hoje. Mas a magreza é ape­nas a ponta do iceberg, pois ela exige por si mesma interpretação. Cest le sens quifait vendre (é o sentido que faz vender), disse Barthes, falando de estilos de roupa. Da mesma forma, também é o sentido que torna o corpo admirável. No mesmo grau em que a anorexia pode ser interpretada como algo sobre a esbeltez, essa interpretação será uma cidadela do sentido con­temporâneo e histórico e não um ideal vazio sobre "moda". Como tal, a interpretação da magreza produz leituras múltiplas, algumas relacionadas com o género e outras não. Para os propósitos deste ensaio, apresentarei uma leitura abreviada, com foco no género. Mas, é preciso ressaltar que essa interpretação só esclarece parcialmente e que muitos outros fatores não dis­cutidos aqui — dimensões económicas, psicossociais e históricas, assim como étnicas e de classe — salientam-se proeminentemente.10

Começamos com a inscrição dolorosamente literal no corpo da pessoa com anorexia das normas que regem a construção da feminidade contempo­rânea. Essa construção é um "impasse"* que impõe ideais e diretrizes con­traditórios. Por um lado, nossa cultura ainda apregoa amplamente concep­ções domésticas de feminidade, amarras ideológicas para uma divisão se­xual de trabalho rigorosamente dualista, com a mulher como principal nutridora emocional e física. As regras dessa construção de feminidade (e falo aqui numa linguagem tanto simbólica como literal) exigem que as mu­lheres aprendam como alimentar outras pessoas, não a si próprias, e que considerem como voraz e excessivo qualquer desejo de auto-alimentação e cuidado consigo mesmas. Assim, exige-se das mulheres que desenvolvam uma economia emocional totalmente voltada para os outros.

As mulheres jovens de hoje ainda se ensina essa construção do ser. Na televisão, os comerciais de Betty Crocker falam simbolicamente aos ho­mens de legitimidade de seus desejos mais desvairados e devassos: "Estou apaixonado por você; estou arrebatado, louco, descontrolado", sussurra o homem faminto ao bolo de chocolate sensualmente apresentado, amorosa­mente oferecido pela mulher (sempre presente). A fome feminina, no entan­to, é retratada como algo que precisa ser refreado e controlado e o comer feminino é visto como um ato furtivo, vergonhoso, ilícito, como nos comer­ciais de Andes Candies e Mon Chéri, onde um "minúsculo pedacinho" de chocolate, saboreado em particular, vem a ser a generosa recompensa por um dia de cuidados dedicados aos outros (Bordo, 1986). Obviamente, o ali­mento não é a questão em debate aqui; mais exatamente, o controle do ape­tite feminino é meramente a expressão mais concreta da norma geral que rege a construção da feminidade, de que a fome feminina — por poder pú­blico, independência, gratificação sexual — deve ser contida e o espaço público que se permite às mulheres deve ser circunscrito, limitado (Bordo, * 1989). No corpo da anoréxica, essas normas são impiedosa e profundamen­te gravadas como se o fossem com água-forte*.

Ao mesmo tempo que continuam sendo ensinadas às mulheres jovens "em ascensão", as virtudes tradicionalmente "femininas", na medida em que elas penetram em áreas profissionais, também precisam aprender a incorpo­rar a linguagem e os valores "masculinos" desse âmbito — autocontrole, determinação, calma, disciplina emocional, domínio etc. Os corpos femini­nos falam agora dessa necessidade em sua configuração corpórea reduzida, enxuta, e no uso de roupa mais próxima da masculina, em moda atualmente. Nossos corpos, quando nos arrastamos todos os dias para a ginástica e resis­timos ferozmente às nossas fomes e aos nossos desejos de gratificar e mimar a nós mesmas, também estão se tornando cada vez mais habituados com as virtudes "masculinas" de controle e autodomínio. As anoréxicas as perse­guem com dedicação ingénua, inabalável. "Energia, disciplina, meu próprio poder me manterá andando", diz a ex-anoréxica Aimée Liu, lembrando-se dos dias em que passava fome; "combustível psíquico, não preciso de nada e de mais ninguém... Serei pelo menos dona do meu próprio corpo, eu juro" (1979:123).

O ideal de esbeltez, junto com a dieta e os exercícios emagrecedores que se tornaram inseparáveis da mesma, oferece a ilusão de cumprir, através do corpo, as exigências contraditórias da ideologia contemporânea da feminidade. As imagens populares refletem essa exigência dual. Numa só edição de Complete Woman, aparecem dois artigos, um sobre "intuição fe­minina" e outro perguntando "Você é a nova mulher-macho?" Em Vision Quest, o jovem herói masculino apaixona-se pela heroína porque, como ele diz, "ela tem todas as melhores características que aprecio nas moças e to­das as melhores características que aprecio nas moças eto é, ela ­ firme, calma, calorosa e atraente. Em Aliens, filme que fez muito sucesso, a perso­nalidade da heroína foi deliberadamente construída, com um grau de explicitação comparável ao das histórias em quadrinhos, para incorporar a feminidade tradicional acalentadora, ao lado de empolgante e viril intrepi­dez e autocontrole; Sigourney Weaver, atriz que a interpreta, chamou a personagem de "Rambolina".**

Na busca pela esbeltez e na negação do apetite, a construção tradicional da feminidade cruza com a nova exigência para as mulheres de incorporar os valores "masculinos" da área publica. Como já indiquei, e anoréxica in­corpora esse cruzamento, esse modelo híbrido, de maneira particularmente dolorosa e vivida." Enfrenta um duplo elo ou dilema insolúvel. A "masculi­nidade" e a "feminidade", pelo menos desde o século XIX e talvez antes, foram construídas através de um processo de mútua exclusão. Não se pode simplesmente juntar as virtudes historicamente femininas àquelas historica­mente masculinas para produzir uma "nova mulher", um "novo homem", uma nova ética ou uma nova cultura. Mesmo no palco ou na televisão, corporificadas em personagens criadas, como a heroína de Aliens, o resulta­do é uma paródia. Infelizmente, nesta cultura deslumbrada por imagens, temos dificuldades crescentes em distinguir entre paródias e possibilidades do ser. Explorado como uma possibilidade, o ideal "andrógino" expõe, em última análise, sua contradição interna e transforma-se num conflito que dilacera o sujeito em dois—uma guerra tematizada explicitamente por muitas anoréxicas, como uma batalha entre os aspectos masculinos e femininos do ser (Bordo, 1985).

 

PROTESTO E RECUO NO MESMO GESTO

 

Na histeria, na agorafobia e na anorexia, o corpo da mulher pode ser visto como uma superfície na qual as construções convencionais da feminidade são expostas rigidamente ao exame, através de suas inscrições em forma extrema ou hiperliteral. Obviamente, também são escritas em linguagens de horrível sofrimento. É como se esses corpos nos falassem da patologia e da violência escondidas ali na esquina, espreitando no horizonte da "feminidade" normal. Não é de espantar, então, que um motivo constante na literatura feminista sobre desordem feminina seja o da patologia como protesto — inconsciente, incipiente e contraproducente, sem recorrer à linguagem, à voz ou à política — mas ainda assim protesto.

Feministas americanas e francesas têm igualmente captado uma lingua­gem de protesto expressada pela histérica, mesmo ou talvez especialmente quando permanece muda. Dianne Hunter interpreta a afasia de Arma O, manifestada pela incapacidade de falar o alemão materno, como uma rebe­lião contra as regras linguísticas e culturais do pai e uma volta à "linguagem primitiva": o semiótico balbucio da infância, a linguagem do corpo. Para Hunter e muitas outras feministas trabalhando com categorias lacanianas, a volta ao nível semiótico é tanto regressiva quanto uma comunicação "ex­pressiva" "endereçada ao pensamento patriarcal", uma forma auto-repudiante de discurso feminino, na qual o corpo exprime aquilo que as condições so­ciais tornam impossível dizer linguisticamente (1985: 114). "As histéricas estão acusando, estão apontando, elas zombam da cultura", escreve Catherine Clément em The Newly Bom Woman (A mulher nascida de novo)* (1986: 42). No mesmo livro, Hélène Cixous fala "daquelas mulheres histéricas maravilhosas que submeteram Freud a tantos momentos de volúpia, vergo­nhosos demais para serem mencionados, bombardeando seu estatuto mosai­co/lei de Moisés com sua linguagem corporal, carnal, apaixonada, acossan­do-o com suas inaudíveis denúncias fulminantes" (1986:95). Para Cixous, Dora, que tanto frustrou Freud, é "um exemplo essencial da força protestadora das mulheres".

A literatura de protesto inclui abordagens funcionais e simbólicas. Robert Seidenberg e Karen DeCrow, por exemplo, descrevem a agorafobia como uma "greve" contra "as renúncias habitualmente exigidas das mulheres" e contra as expectativas das funções de dona de casa, como fazer compras, levar as crianças de carro à escola, acompanhar seus maridos a eventos so­ciais e assim por diante (1983:31). Carroll Smith-Rosenberg apresenta uma análise similar da histeria, sustentando que, impedindo a mulher de desem­penhar seu papel de esposa abnegada, de "anjo servidor" do marido e dos filhos, a histeria "tornou-se um caminho através do qual as mulheres con­vencionais podiam expressar—na maior parte dos casos inconscientemen­te — a insatisfação com um ou vários aspectos de suas vidas" (1983:208). Muitas autoras feministas, entre as quais Susie Ohrbach é a mais eloquente e vigorosa, interpretaram a anorexia como uma espécie de protesto feminis­ta inconsciente. A anoréxica está engajada numa "greve de fome", como diz Ohrbach, realçando esse fato como um discurso político no qual a ação de recusar comida e a dramática transformação do tamanho do corpo "expri­mem corporalmente o que a pessoa é incapaz de nos dizer com palavras" — sua acusação a uma cultura que despreza e suprime a fome feminina, torna as mulheres envergonhadas de seus apetites e suas necessidades e exige delas um trabalho constante de transformação de seus corpos (1985:102).12

Naturalmente, a anoréxica não tem consciência de que está fazendo uma afirmação política. Pode mesmo ser hostil ao feminismo e a quaisquer ou­tras perspectivas críticas que vê como disputando sua própria autonomia e controle ou questionando os ideais culturais em torno dos quais sua vida está organizada. Através de demonstrações muito mais corporificadas do que discursivas, ela expõe e indicia aqueles ideais justamente ao persegui-los até o ponto em que seu potencial destrutivo é revelado de forma que todos possam vê-lo. O mesmo gesto que expressa protesto pode também significar recuo; isso realmente pode fazer parte da atração pelo sintoma.

Kim Chernin afirma, por exemplo (1985), que a debilitante fixação anoréxica, ao deter ou moderar o desenvolvimento pessoal, alivia a culpa e a ansiedade de separação dessa geração com a perspectiva de ultrapassar as mães, de viver de forma menos circunscrita e de ter vidas mais livres. Também a agorafobia, que muitas vezes se desenvolve pouco tempo depois do casa­mento, funciona claramente em muitos casos como um caminho para conso­lidar a dependência e a fixação face a incitamentos inaceitáveis de insatisfa­ção e inquietação.

Embora possamos falar significativamente sobre protesto, gostaria de enfatizar a natureza contraproducente, tragicamente autofrustrante (realmente autodesconstrutiva) desse protesto. Funcionalmente, os sintomas dessas de­sordens isolam, enfraquecem e minam as afetadas; ao mesmo tempo, trans­formam a vida do corpo num abrangente fetiche todo-poderoso, ao lado do qual todos os outros objetos de atenção parecem pálidos e irreais. No nível simbólico, a dimensão do protesto também desmorona para seu oposto e proclama a derrota e a capitulação absolutas do sujeito ao restrito mundo feminino. Como vimos, a mudez das mulheres histéricas e sua volta ao nível da pura, primária expressividade corporal, têm sido interpretadas como re­jeição da ordem simbólica do patriarcado e recuperação de um mundo per­dido de valor semiótico materno. Mas, ao mesmo tempo, a mudez é obvia­mente a condição da mulher silenciosa, que não se queixa — um ideal da cultura patriarcal. Afirmar a condição asfixiante da voz feminina através da própria falta de voz, isto é, usando a linguagem da feminidade para contes­tar as condições do mundo feminino, sempre envolverá ambiguidades desse tipo. Talvez por isso, os sintomas cristalizados a partir da linguagem da feminidade sejam tão perfeitamente adequados para expressar os dilemas das mulheres que vivem em épocas situadas à beira de mudanças de género: o final do século XIX, o período após a Segunda Guerra Mundial e o final do século XX. Nesses períodos, o género tornou-se uma questão a ser discutida e proliferou o discurso sobre "a questão da mulher", "a nova mulher", "o que as mulheres querem", "o que é a feminidade" e assim por diante.

Evidentemente, esses dilemas são vividos de forma diferente, depen­dendo da classe, da idade de outros aspectos da situação das mulheres. A agorafobia e a anorexia são, afinal, principalmente patologias de mulheres de classe média e média-alta, para as quais surgiu a ansiedade da possibili­dade; mulheres que têm os recursos sociais e materiais para levar a lingua­gem da feminidade até o excesso simbólico. Claramente, precisamos sepa­rar as análises dos diferentes modos de protesto empregados, dos efeitos das práticas femininas homogeneizantes em relação às classes e aos vários gru­pos raciais.

 

CONIVÊNCIA, RESISTÊNCIA E CORPO

 

As patologias de protesto feminino funcionam paradoxalmente como se es­tivessem em conluio com as condições culturais que as produzem, reprodu­zindo em vez de transformar justamente aquilo que provoca o protesto. Nes­se sentido, é significativo que a histeria e a anorexia chegaram ao ápice durante períodos históricos de reação cultural contra as tentativas de reorga­nizar e redefinir os papéis masculino e feminino. A patologia feminina reve­la-se, então, como uma formação cultural extremamente interessante, atra­vés da qual uma potencialidade para a resistência e a rebelião é manipulada para servir à manutenção da ordem estabelecida.

Como se estabelece esse conluio? Nesse ponto, constatamos que nos faltam explicações "objetivas" para relações de poder. Pois, sejam quais forem as condições sociais objetivas que "produzem" uma patologia, os sin­tomas em si têm de ser necessariamente produzidos (embora de modo in­consciente ou não intencional) pelo sujeito. Isso quer dizer que o corpo pre­cisa se tornar investido com significados de vários tipos. Somente exami­nando esse processo "produtivo" por parte do sujeito, podemos, como colo­cou Mark Póster, "iluminar os mecanismos de dominação nos processos através dos quais o significado é produzido na vida cotidiana" (1984:28); só então podemos ver como os desejos e sonhos do sujeito tornam-se intima­mente ligados à matriz das relações de poder.

Pode ser esclarecedor examinar aqui o contexto no qual a síndrome anoréxica é produzida. Ela surge tipicamente no decorrer do que começa como uma dieta bastante moderada, iniciada porque alguém, muitas vezes o pai, fez uma observação crítica casual. A anorexia começa emergindo de algo que, em nossa época, é uma prática feminina convencional. No seu decorrer, por uma série de razões individuais nas quais não posso me aprofundar, essa prática é expandida para além dos parâmetros de uma dieta moderada. A jovem mulher descobre como é ansiar, desejar e necessitar e, mesmo assim, através do exercício da sua própria vontade, triunfar sobre aquela necessidade. No processo, uma nova esfera de significados é desco­berta, uma escala de valores e possibilidades que a cultura ocidental tradici­onalmente codificou como "masculinos" e raramente tornou acessíveis às mulheres: uma ética e uma estética de autodomínio e autotranscendência, de perícia e de poder sobre outros através do exemplo de vontade e controle superiores. A experiência é inebriante, indutora. Aimée Liu escreve: "A sen­sação de realização me anima, me incita a continuar mais e mais... Serei especialista [em perder peso]... A constante tendência para baixo [da balança] me conforta de alguma forma, me dá a prova visível de que posso exer­cer controle" (1979:36).

Na escola, ela descobre que seu corpo, cada vez mais minguado, é ad­mirado, nem tanto como objeto estético ou sexual, mas pela força de vonta­de e autocontrole que projeta. Em casa, descobre, nas inevitáveis batalhas que seus pais travam para fazê-la comer, que seus atos têm um poder enor­me sobre as vidas daqueles que estão ao seu redor. Na medida em que seu corpo — seus seios, suas ancas e seu estômago arredondado — começa a perder suas tradicionais curvas femininas, começa também a se parecer mais com um corpo masculino, esguio e magro, e ela começa a se sentir intocável, fora do alcance da dor, "invulnerável, lisa e dura como os ossos delineados na minha silhueta", como descreve uma mulher. Despreza em particular to­das as partes do seu corpo que continuam a caracterizá-la como fêmea. "Se, pelo menos, eu pudesse eliminar [meus peitos]", diz Liu, "cortá-los fora, se necessário" (1979:99). Para ela, como para muitas mulheres anoxéricas, os seios representam uma parte estúpida, inconsciente, vulnerável do ser (Bor­do, 1985). O simbolismo corporal de Liu é perfeitamente congruente com as associações culturais dominantes. O estudo de Brett Silverstein sobre as "Possíveis Causas do Padrão Magro da Atratividade Física para Mulheres" testemunha empiricamente o que é óbvio em cada rotina irónica, envolven­do uma mulher dramaticamente construída: ou seja, nossa associação cultu­ral de um corpo feminino curvilíneo com incompetência. Obviamente a anoréxica é também bastante consciente da vulnerabilidade social e sexual envolvida em se ter um corpo de mulher; muitas, de fato, sofreram abusos sexuais quando crianças.

Através da anorexia, por outro lado, ela descobre inesperadamente uma entrada para o privilegiado mundo masculino, uma maneira de se tornar o que é valorizado em nossa cultura e, sobretudo, uma maneira de se colocar a salvo; para ela, são a mesma coisa. Paradoxalmente, descobre isso perse­guindo ao extremo um comportamento feminino convencional — nesse caso, a disciplina de aperfeiçoar o corpo como um objeto. Nesse ponto de exces­so, poderíamos dizer que o convencionalismo feminino "se desconstrói", transformando-se em seu oposto e encarnando valores que nossa cultura codificou como masculinos. Não surpreende que a anorexia seja sentida como libertadora: a anoréxica lutará com a família e os terapeutas, num esforço de se manter firme, combatendo até a morte, se necessário. Essa experiência de poder é, obviamente, profunda e perigosamente ilusória. Remodelar um corpo para torná-lo mais masculino não é ganhar poder e privilégios masculinos. Sentir-se autónoma e livre enquanto atrela corpo e alma a uma atividade obsessiva é servir a uma ordem social, que limita as possibilidades femininas, e não transformá-la. Nesse contexto, parece que basta, para uma mulher se tornar homem, que se situe no pólo contrário de uma desfigurante oposi­ção. O novo "ar de poder" na atividade feminina de modelagem do corpo, que leva as mulheres até a desenvolverem a forma triangular de um "Hulk" — que tem sido a norma para modeladores masculinos do corpo — não é menos determinado por uma construção ligada ao género, hierárquica e dualista, do que foi a norma convencionalmente "feminina" que tiranizou durante anos modeladoras femininas do corpo, como Bev Francis.

Embora as práticas e os significados culturais específicos sejam dife­rentes, suspeito que mecanismos similares estejam atuando na histeria e na agorafobia. Também nesses casos a linguagem da feminidade, quando pres­sionada em excesso — gritada e afirmada — se desconstrói para seu oposto e torna acessível para a mulher uma experiência ilusória de poder, antes proibida por causa do género. No caso da feminidade do século XK, a ex­periência proibida pode ter sido a fuga da coerção, a ruptura de grilhões — especialmente os de ordem moral e emocional. John Conolly, o reformador de manicômios, recomendava internação para as mulheres que "desejam essa restrição sobre as paixões, sem a qual o caráter feminino está perdido" (Showalter, 1985:48). As mulheres histéricas frequentemente enfureciam os médicos homens por não terem justamente essa qualidade. S. Weir Mitchell descreveu-as como "o desespero dos médicos". Seu "egoísmo despótico ar­ruina a constituição de enfermeiras e de parentes dedicados e, numa auto-indulgência inconsciente ou semiconsciente, destrói o bem-estar de todos ao seu redor" (Smith-Rosenberg, 1985:207).

Algum prazer ilícito deve ter sido sentido pelas pacientes vitorianas ao se perceberem capazes de tal perturbação do sólido lar do século XK. Creio que uma forma semelhante de poder faz parte da experiência da agorafobia.

Isso não significa que a realidade primária dessas desordens não seja de dor e encarceramento. Na anorexia também existe claramente uma dimen­são de dependência física em relação aos efeitos bioquímicos da dieta de fome. Mas seja qual for a fisiologia envolvida, as maneiras como o sujeito compreende e tematiza sua experiência não podem ser reduzidas a proces­sos mecânicos. A capacidade da anoréxica de viver com uma ingestão míni­ma de alimento permite-lhe sentir-se poderosa e digna de admiração num "mundo" — como descreve Susie Ohrbach — "do qual ela se sente excluída no mais profundo nível" e desvalorizada (1985:103). A literatura sobre anorexia e histeria está cheia de batalhas da vontade entre a paciente e aque­les que tentam "curá-la"; estes, como salienta Ohrbach, muito raramente compreendem que os valores psíquicos pelos quais ela luta são muitas vezes mais importantes para a mulher do que a própria vida.

 

TEXTUALIDADE, PRAXIS E CORPO

 

Sugeri que as "soluções" oferecidas pela anorexia, pela histeria e pela agorafobia surgem da própria prática da feminidade, cuja busca é ainda apre­sentada como o caminho mais importante de aceitação e sucesso para as mulheres em nossa cultura. Perseguida com demasiada agressividade, essa prática leva à sua própria ruína, num certo sentido. Se a feminidade, como disse Susan Brownmiller, é no seu mais profundo âmago "uma tradição de limitações impostas" (1984:14), então a relutância para limitar-se, mesmo na perseguição da feminidade, infringe as regras. Mas, em outro sentido, tudo permanece inteiramente no seu lugar. A paciente fica presa a uma prá­tica obsessiva, incapaz de realizar qualquer mudança efetiva em sua vida. Permanece, como coloca Toril Moi, "amordaçada e acorrentada ao papel feminino" (Bernheimer e Kahane, 1985:192), uma reprodutora do dócil cor­po da feminidade.

Essa tensão entre o significado psicológico da desordem, que pode co­mandar fantasias de rebelião e personificar uma linguagem de protesto, e a vida prática do corpo perturbado, que pode frustrar totalmente a rebelião e subverter o protesto, tende a ser obscurecida por um enfoque demasiada­mente exclusivo na dimensão simbólica e pela atenção insuficiente quanto à praxis. Como vimos no caso de algumas leituras de feministas lacanianas sobre a histeria, o resultado pode ser uma interpretação unilateral, que romantiza a subversão simbólica da ordem falocêntrica da histérica enquanto confinada à sua cama. Isso não quer dizer que o confinamento na cama te­nha um significado transparente, unívoco — incapacidade, enfraquecimen­to, dependência e assim por diante. O corpo "prático" não é uma entidade grosseiramente biológica ou material. É também uma forma culturalmente mediada; suas atividades são sujeitas a interpretação e descrição. O voltar-se para a dimensão prática não é um retorno à biologia ou à natureza, mas, como coloca Foucault (1979:136), a um outro "registro" do corpo cultural: o registro do "corpo útil" em vez do "corpo inteligível". Acredito que a distinção pode ser proveitosa para o discurso feminista.

O corpo inteligível abrange nossas representações científicas, filosófi­cas e estéticas sobre o corpo — nossa concepção cultural do corpo, que inclui normas de beleza, modelos de saúde e assim por diante. Mas as mes­mas representações podem também ser vistas como um conjunto de regras e regulamentos práticos, através dos quais o corpo vivo é "treinado, moldado, obedece, responde", tornando-se, em resumo, um "corpo útil", socialmente adaptado (Foucault, 1979:136). Considerem este exemplo particularmente claro e apropriado: a figura do tipo "ampulheta" do século XIX, realçando peitos e ancas em contraste a uma cintura de vespa, era uma forma simbóli­ca "inteligível", representando um ideal doméstico, sexualizado da femi-nidade. O contraste cultural bem definido entre a forma feminina e a mascu­lina, tornado possível pelo uso de espartilhos, anquinhas etc, refletiu, em termos simbólicos, a divisão dualista da vida social e económica em esferas masculinas e femininas claramente definidas. Ao mesmo tempo, para con­seguir a aparência especificada, exigia-se uma praxis feminina particular— usar espartilhos apertados, comer o mínimo, movimentar-se pouco — tendo como resultado um corpo feminino incapaz de executar atividades fora de sua esfera designada. Em termos foucauldianos, seria esse o "corpo útil" correspondente à norma estética.

O corpo inteligível e o corpo útil são dois aspectos do mesmo discurso e muitas vezes se espelham e se sustentam reciprocamente, como vimos atrás. Um outro exemplo é a concepção filosófica do século XVII, que via o corpo como uma máquina, reflexo de um equipamento produtivo de trabalho crescentemente automatizado. Mas dois aspectos também podem se contra­dizer e se repelir mutuamente. Uma escala de representações e de imagens contemporâneas, por exemplo, tem codificado a transcendência do apetite feminino e sua demonstração pública do ideal de esbeltez em termos de poder, vontade, domínio, possibilidade de sucesso na área profissional e assim por diante. Essas associações são conduzidas pelas supermulheres magras do horário nobre da televisão e dos filmes populares e explicitamen­te promovidas em anúncios de propaganda e artigos que aparecem habitual­mente em revistas femininas, livros de dieta e publicações sobre controle de peso. A equação de magreza e poder emerge mais dramaticamente quando as anoréxicas contemporâneas falam de si mesmas. "[Minha doença] era sobre poder", diz Kim Morgan, entrevistada no documentário The Waist Land (O país da cintura): "Isso era o máximo... algo que eu podia jogar na cara das pessoas e elas olhavam para mim e eu pesava pouco, mas era forte e tinha o controle e ah, você é um relaxado."13

Sabemos, porém, que a anoréxica é tudo menos "forte" e "detentora de controle". Não são apenas as pessoas adultas que vivem tais contradições da anorexia. Estatísticas recentes — por exemplo, o estudo amplamente divul­gado da Universidade da Califórnia sobre meninas da 4a série em São Fran­cisco — sugerem que, pelo menos em algumas subculturas americanas, meninas mais jovens e em maior número (talvez 80% das meninas pesquisadas de 9 anos) estão fazendo da dieta assídua o princípio organizador central de suas vidas. Essas meninas vivem com medo constante, reforçado pelas reações dos meninos nas suas classes, de ganhar um pouco de peso e assim deixarem de ser "sensuais", "atraentes" ou, mais explicitamente, "com­pletas". Praticam corrida diariamente, contam obsessivamente suas calorias e correm o risco de apresentar sérias deficiências vitamínicas (para não men­cionar distúrbios alimentares plenamente desenvolvidos, maturação sexual e reprodutiva retardada).14 Podemos estar produzindo uma geração de jo­vens mulheres com funcionamento menstrual, nutricional e intelectual se­veramente diminuído.

A revelação e a análise cultural dessas relações contraditórias e mis-tificadoras entre imagem e prática só é possível se a análise incluir a atenção e interpretação do corpo "útil", ou corpo prático, como prefiro chamá-lo. Essa atenção, embora muitas vezes rudimentar e em forma teoricamente não sofisticada, era central no início do movimento feminista contemporâneo. No final dos anos 60 e começo dos anos 70, a objetificação do corpo femini­no constituía uma séria questão política. Toda a parafernália cultural da feminidade, o aprendizado para agradar visual e sexualmente através das práticas do corpo — imagens da mídia, concursos de beleza, saltos altos, cintas, maquiagem, orgasmo simulado — eram vistos como cruciais na ma­nutenção da dominação de género.

De forma inquietante para os feminismos da década atual, esse enfoque nos princípios políticos da.práxis feminina, embora ainda mantido no traba­lho de feministas individuais,15 não é mais uma peça central da crítica cultu­ral feminista. No âmbito popular, encontramos revistas como Ms, que apre­sentam temas sobre adequação e "estilo", toda uma retórica reconstruída nos anos 80 para simbolizar "auto-expressão" e "poder". Embora certamen­te tenha os instrumentos, a teoria feminista não ofereceu um discurso crítico para desmantelar e desmistificar essa linguagem. O trabalho das feministas francesas forneceu uma estrutura poderosa para compreender a inscrição da cultura falocêntrica, dualista, em corpos marcados pelo género. Até agora, porém, o feminismo francês ofereceu muito pouco em termos de análises concretas, materiais, do corpo feminino como lugar de controle cultural prá­tico. Entre teóricas feministas deste país,* o estudo de "representações" cul­turais do corpo feminino tem florescido de forma muitas vezes brilhante, esclarecedora e adequada para uma releitura feminista da cultura.16 Mas só o estudo das representações culturais, isolado de considerações sobre sua re­lação com a vida prática dos corpos, pode obscurecer e induzir em erro.

O trabalho de Helena Michie, significativamente intitulado The Flesh Made Word (A carne feita palavra) é um exemplo notável. Examinando representações do século XIX sobre mulheres, apetite e alimentação, Michie estabelece relações metafóricas fascinantes e perspicazes entre o padrão fe­minino de comer e a sexualidade feminina. A fome feminina, sustenta ela (e eu concordo), "supõe desejos indizíveis de sexualidade e poder" (1987:13). O "tabu representacional" do romance vitoriano de não se referir a mulheres comendo (aparentemente, uma atividade que só "acontece nos bastidores", como diz Michie) funciona como um "código" para a supressão da sexuali­dade feminina, seguindo a norma cultural geral exibida em manuais de eti­queta e sexo, que prescrevem à mulher bem-educada comer pouco e delica­damente. A mesma codificação continua presente, afirma ela, nas "inver­sões" feministas contemporâneas de valores vitorianos, que celebram a se­xualidade e o poder femininos através de imagens que exaltam o ato de comer e a fome femininos, mostrando-os de forma explícita, exuberante e alegre.

Apesar de a análise de Michie enfocar questões referentes à alimentação e às práticas do comer, não menciona as graves desordens alimentares que vieram à tona no final do século XIX e que estão devastando as vidas de mulheres jovens hoje. De alguma forma, a "prática" de mulheres fazendo dieta, jejuando, usando espartilhos etc. está, até certo ponto, implícita em sua análise sobre a ideologia vitoriana e o género. Mas quando se volta, no final de seu estudo, para considerações sobre a recente literatura feminista celebrando o comer e a fome femininos, a ausência de pelo menos um olhar sobre como as mulheres estão realmente lidando com suas fomes hoje, dis­tancia sua análise de quaisquer amarras sociais concretas.

Michie focaliza apenas a inevitável falha da literatura feminista em es­capar aos "códigos fálicos da representação" (1987:149). Mas a celebração feminista do corpo feminino não se "desconstmiu" meramente na página escrita ou na tela. Amplamente localizada na contracultura feminista dos anos 70, foi culturalmente deslocada por uma realidade contemporânea muito diferente: a celebração da sensualidade feminina apresenta-se agora em for­te dissonância com o fato de que as mulheres, inclusive as feministas, estão se matando de fome em nossa cultura. A progressiva incidência de desor­dens alimentares, a crescente insatisfação e ansiedade entre meninas e mu­lheres em relação à sua aparência e os regimes compulsivos de "aperfeiçoa­mento" corporal, nos quais tantas de nós se engajam, sugerem que uma ba-talhapolítica está sendo travada sobre a energia e os recursos do corpo femi­nino, uma batalha na qual pelo menos algumas metas feministas, previstas para dar poderes às mulheres, estão sendo derrotadas.

Não nego os benefícios da dieta, do exercício e de outras formas de "administração" do corpo. Mas vejo nossos corpos como um local de luta, onde temos de trabalhar para manter nossas práticas diárias a serviço da resistência à dominação de género e não a serviço da "docilidade" e da normatização. Penso que isso exige uma atitude decididamente cética em relação às pretensas vias de liberação e prazer oferecidas por nossa cultura. Requer também a percepção das relações frequentemente contraditórias en­tre imagem e prática, entre retórica e realidade. Como vimos, as representa­ções populares podem utilizar convincentemente a retórica e o simbolismo, falando em alcançar poderes e liberdade pessoal, em "ter tudo". Entretanto, os corpos femininos, em busca desses ideais, podem se encontrar tão desa­lentados e fisicamente enfermos quanto os corpos femininos do século XIX, que perseguiam um ideal feminino de dependência, domesticidade e delica­deza. O reconhecimento e a análise dessas contradições e de todas as outras conivências, deturpações e engodos através dos quais a cultura impõe a co­laboração de nossos corpos para a reprodução do género exigem que volte­mos o foco para a praxis feminina, recolocando-a no lugar central que ocu­pou anteriormente na política feminista.

 

NOTAS

 

A análise apresentada neste ensaio é parte de um estudo mais amplo: Food Fashion and Power: The Body and the Reproduction ofGender (Comida, moda e poder: o corpo e a reprodução do género). University of Califórnia Press. Outras partes dessa análise más abrangente aparecem em diversos trabalhos: "Anorexia Nervosa: Psychopathology as the Crystailization of Culture (Anorexia nervosa: psicopatologia como cristalização da cultura) (Bordo, 1985, reimpresso em Diamond e Quinby, 1988); "Reading the Slender Body" (Len­do o corpo esbelto), incluído em Jacobus, Keller e Shuttleworth, 1989; e 'The Contest for the Meanings of Anorexia" (A discussão para os significados da anorexia), incluído em The Body in Medicai Thought and Practice (O corpo no pensamento e na prática médicos), ed. Drew Leder e Mary Rawlinson; Reidel, 1990). Ver também "How Television Teaches Women To Hate Their Hungers" (Como a televisão ensina as mulheres a odiar suas fomes), Mirror idel, 1990).

Desejo agradecer ao Douglass College pelo tempo e pelos recursos proporcionados na primavera de 1985 pela bolsa de membro-visitante a mim concedida na cátedra Laurie de Women's Studies. Minha permanência e minha participação nos seminários organizados por essa cadeira muito facilitaram boa parte da pesquisa inicial deste trabalho. Versões anteriores deste estudo foram distribuídas pelo departamento de filosofia da State University of New York, em Stony Brook, e apresentadas na conferência sobre "Histórias da Sexuali­dade", realizada na Universidade de Massachussetts, e na 21a Conferência Anual da Socie­dade de Fenomenologia e Filosofia Existencial da Universidade de Toronto. A todos os que fizeram comentários sobre essas versões expresso meu apreço pelas sugestões estimulantes e criticas proveitosas.

1. Sobre "docilidade", ver Foucault, 1979,135-169. Para uma análise foucaultiana da prática feminina, ver Bartky, 1988; ver também Brownmiller, 1984.

2.  No decorrer da última década, houve um inegável aumento da preocupação mascu­lina com a aparência. Estudo após estudo confirmam, no entanto, que ainda existe nessa área um grande hiato de género. Uma pesquisa efetuada em 1985 na Universidade de Pensilvânia revelou que os homens, de modo geral, estão satisfeitos com sua aparência, muitas vezes "distorcendo suas percepções de si mesmos de maneira positiva, autocongratulatória". Ver "Dislike of Ówn Bodies Found Common Among Women" (Insatis­fação com o próprio corpo encontrada comumente entre mulheres), New York Times, 19 de março de 1985. Entretanto, descobriu-se que as mulheres mostravam valores e distorções da percepção corporal extremamente negativos. Outros estudos sugeriram que as mulheres são julgadas com muito mais rigor que os homens, quando se desviam dos padrões sociais do­minantes de atratividade. Psychology Today (abril de 1986) reporta que enquanto a situação dos homens mudou recentemente, a das mulheres também piorou, mais do que proporcio­nalmente. Citando resultados de 30.000 respostas a um levantamento de 1985 sobre percep­ções da imagem do corpo e comparando respostas semelhantes a um questionário de 1972,

a revista revela que as pessoas que responderam em 1985 estavam consideravelmente mais insatisfeitas com seus corpos do que as que responderam em 1972 e nota uma marcante intensificação da preocupação entre homens. Entre os de 1985, o grupo mais insatisfeito com sua aparência, era, no entanto, o de mulheres adolescentes entre 12 e 19 anos. Hoje em dia, as mulheres são, de longe, as maiores consumidores de produtos dietéticos, frequentadoras de spas e centros de dieta e pacientes de cirurgias do tipo "desvio intestinal" e outras redu­tos de gordura.

3.  Sobre nossa obsessão cultural com a esbeltez, ver Chemin, 1981; Ohrbach, 1985; Bordo, 1985,1989. Para pesquisa recente sobre incidência e aumento da anorexia nervosa e bulimia, ver Greenfeid et alii, 1987; Rosenzweig e Spruill, 1987.

4.  Sobre a natureza histórica de género dessas patologias: a relação entre mulheres histéricas e homens histéricos tem sido estimada em algo entre duas para um e quatro para um, enquanto 80 porcento de todas as pessoas agorafóbicas são mulheres. (Brodsky e Hare-Mustin, 1980:116,122). Embora ultimamente tenham sido relatados mais casos de desor­dens alimentares masculinas, estima-se que perto de 90 por cento de todas as pessoas anoréxicas sejam mulheres (Garfinkel e Garner, 1982:112-113). Para uma consideração sócio-histórica sobre psicopatologia feminina, com foco particular nas enfermidades do sé­culo XIX, mas infelizmente com pouca menção à agorafobia e às desordens alimentares, ver Showalter, 1985. Para uma discussão de questões sociais e de género relacionadas com a agorafobia, ver Seidenberg e DeCrow, 1983. Sobre a história clínica da anorexia nervosa, ver Garfinkel e Garner; para perspectivas de género, culturais e históricas, ver Bordo, 1985, 1986; Ohrbach, 1985,1989.

5.  Há evidência de rápidas mudanças no caso de desordens alimentares. Anorexia e bulimia, originalmente quase exclusivamente limitadas às famílias brancas de classe alta e média-àlta, estão agora atingindo populações étnicas (e.g., negros, indianos), antes não afe-tadas, e em todos os níveis sócio-econômicos (Garfinkel e Garner, 1982:102-103). Embora haja razões culturais para essas mudanças, igualmente interessantes e importantes para a análise, são os fatores culturais que têm "protegido" certos grupos étnicos dessas desordens (ver, por exemplo, o estudo de Hsu sobre desordens alimentares entre negros).

6.  Ao construir esse paradigma, não pretendo fazer justiça a nenhuma dessas desor­dens na sua complexidade individual como "patologia" ou como formação cultural. Meu propósito é mostrar alguns pontos de intersecção, descrever alguns padrões semelhantes, à medida que emergem de uma interpretação particular do fenómeno — a interpretação "po­lítica", se assim desejarem.

7.  Para estudos sugestivos sobre o aumento notável da frequência de desordens ali­mentares ao longo dos últimos vinte anos, ver Garfinkel e Garner, 1982:100; Greenfeid et alii, 1987; e Rosenzweig e Spruill, 1987. Sobre a "epidemia" de histeria e neurastenia, ver Showalter, 1985; Smith-Rosenberg, 1985.

8.  Ver Nadelson e Notman, 1982:5; Vicinus, 1972:82. Para discussões mais generali­zadas, verGay, 1984, Showalter, 1985. A dama delicada, um ideal que tinha conotações de classe muito fortes (como a esbeltez hoje), não é a única concepção de feminidade das culturas vitorianas. Mas foi sem dúvida a representação ideológica de feminidade mais po­derosa naquela época, afetando mulheres de todas as classes, inclusive aquelas sem meios materiais para responder plenamente ao ideal. Ver Michie, 1987, para debates sobre o con­trole do apetite feminino e construções vitorianas de feminidade.

9.   VerFodor, 1974:119; ver também Brehony, 1983.

10.  Para outras perspectivas interpretativas sobre o ideal de esbeltez, ver Bordo, 1985, 1989; Chernin, 1981;Ohrbach, 1985.

11.  Notável, em relação a esse assunto, é o estudo de Catherine Steiner-Adair (1984) sobre mulheres universitárias, que revela uma associação dramática entre problemas com a alimentação, imagem do corpo e competição da supermulher fria, profissionalmente "integra­da" e deslumbrante. Com base numa série de entrevistas, as universitárias foram classificadas em dois grupos — um que expressava ceticismo quanto ao ideal da supermulher, outro que aspirava inteiramente ao mesmo. A administração posterior de testes de diagnóstico revelou que 94 por cento do grupo das supermulheres encaixaram-se na escala das desordens. No outro grupo, 100 por cento se colocaram na categoria das desordens do não comer. Apesar das imagens da mídia, as jovens mulheres parecem perceber hoje, conscientemente ou atra­vés de seus corpos, a impossibilidade de simultaneamente atender às demandas de duas esferas cujos valores têm sido historicamente definidos em franca oposição uns aos outros.

12.  Quando se toma conhecimento das muitas autobiografias e estudos de casos de pessoas histéricas, anoréxicas e agorafóbicas, impressiona o fato de que estas são realmente mulheres do tipo que se espera devam ficar frustradas pelas repressões de um papel femini­no específico. Freud e Breuer, em seus Estudos sobre a Histeria (e Freud no posterior Dora), fazem constantes comentários sobre a ambição, independência, capacidade intelectual e esforços criativos de pacientes. Sabemos, além disso, que muitas mulheres que se tornaram mais tarde ativistas e feministas sociais de destaque no século XIX estavam entre as que adoeceram com histeria ou neurastenia. Tornou-se um virtual cliché que a típica anoréxica é perfeccionista, procurando se superar em todas as áreas de sua vida. Embora de forma menos acentuada, um tema similar existe na literatura sobre agorafobia.

Deve-se ter em mente que, quando se analisam estudos de casos, está-se confiando nas percepções de outros indivíduos aculturados. Suspeita-se, por exemplo, que o retrato popu­lar da anoréxica como implacável possa ser influenciado pelo remanescente ou talvez ressurgente vitorianismo das atitudes de nossa cultura em relação a mulheres ambiciosas. Não se escapa desse problema hermenêutico voltando-se para a autobiografia. Mas, na au­tobiografia, pelo menos se está lidando com construções e atitudes sociais que vivificam a realidade psíquica do sujeito. Nesse sentido, a literatura autobiográfica sobre anorexia em particular está notavelmente plena de ansiedade sobre o mundo doméstico e outros temas que sugerem profunda rebelião contra noções tradicionais de feminidade; ver Bordo, 1985.

13.  'The Waist Land: Eating Disorders in America" (O país da cintura: desordens alimentares na América), 1985, Gannett Corporation, MTI Teleprograms.

14.   "Fat or Not, 4th-Grade Girls Diet Lest They be Teased or Unloved" (Gorda ou não, meninas da 4* série fazem dieta para evitar zombaria ou desamor), Wall Street Journal, 11 de fevereiro de 1986.

15.  Um enfoque nos princípios políticos da sexualização e da objetificação permanece central para o movimento antipornografia (e.g., nos trabalhos de Andrea Dworkin e Catherine MacKinnon). Feministas explorando princípios políticos da aparência incluem Sandra Bartky, Susan Brownmiller, Wendy Chapkis, Kim Chernin e Susie Ohrbach. Recentemente, um interesse feminista em desenvolvimento pela obra de Michel Foucault começou também a produzir um feminismo pós-estruturalista orientado para a prática; ver, por exemplo, Diamond eQuinby, 1988.

16.  Ver, por exemplo, Jardine, 1985; Suleiman, 1986; Michie, 1987.


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* No original, backlash, termo escolhido por Susan Faludi para título de seu livro, que analisa a reação conservadora ao feminismo nos Estados Unidos dos anos 80. (N. da T.).
** A autora usa a expressão latch-key children, ou seja, crianças que ficam com a chave da casa en­sUnid os dos   anos80. (N. da T.). * No original, double bind (duplo elo), expressão que designa, em psicologia, um dilema insolúvel porque implica comportamentos mutuamente contraditórios. (N. da T.)
 * Mistura de água e ácido azótico usada para desoxidar e gravar metais. (N. da T.) 
** Feminino de "Rambo", personagem masculino de outro filme de sucesso. (N. daT.) 
* • Em francês, La Jeune Née. (N. da T.). 
 * Estados Unidos. (N. da T.)
 
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Excerto do Livro: Gênero, Corpo e Conhecimento, Susan R. Bordo e Alison M. Jaggar.