General Celestino da Silva,  o "Rei de Timor"
 

Carta dirigida ao sobrinho do capi­tão Câmara, pelo General Celestino da Silva onde esclarece a causa da morte daquele herói:

«Dili, 7 de Outubro de 1806.

     III."10 e Ex.mo Senhor

Pelo   transporte   de   guerra   «África» que daqui partiu há
poucos dias mando a
V.  Ex.a um

fúnebre presente: é a cabeça de seu tio e meu, ,infeliz amigo, o valente capitão Câmara.
Se fiz bem ou mal, V. Exª avaliará; fiz o que desejava me fizessem.

Não mandei tão respeitáveis restos de um homem que muito prezei à viúva, porque, fran­camente, me pareceu não o dever fazer; V. Ex.* entregar-lhos-á, a ela ou ao filho, como quiser.
Seu tio foi bem vingado: o reino de Cova não existe já; correu sangue a jorros, porque só com muito sangue podia ser lavada a afronta.
Dois dos «valentões» que assassinaram o meu infeliz amigo foram mortos e a cabeça de um deles (sic) chamado Brau-Succa, em breve irá para o museu de Lisboa, a do outro não pôde .conseguir-se porque os seus sequazes puderam arrastar o cadáver e esconderam-se com ele em território holandês.
Onde existiram os reinos de Cotubaba, Lussis-sidy e Cova, há hoje apenas completa solidão.
Correu muito sangue, creia; só na povoação de Dato- Tolo, fortíssima posição que nos resistiu 5 dias, cortaram em uma só tarde, os nossos, 104 cabeças.
Os rebeldes tiveram em toda a campanha que foi, trabalhosa e durou 56 dias, mais de 400 mortos.
Confirmaram-se as crenças que eu tinha: seu tio foi assassinado em Cova .Paz à sua alma. Agora vou bater Fatumean e Forém, depois posso ir-me embora, está vingado o meu amigo e estão vingados os oficiais que o acompanhavam, está bem desafrontada a nossa bandeira; posso já retirar-me em glória de ter cumprido intei­ramente o meu dever.
A cabeça do meu infeliz amigo estava em Cová com outras na povoação capital do reino; conhe­ci-a entre todas à primeira vista.
Fiz o que pude e estou satisfeito comigo mes­mo; nada mais ambiciono. Fiz tudo sem auxílio de expedições, sem espalhafatos. Os meus oficiais foram uns heróis que, creio bem, ficarão esque­cidos, porque agora só há heróis na África.
Adeus, com muita consideração,
De V.Exa.

Mui Att.° V.° e obrigado
  a) José Celestino da Silva»

 

 

Obreiro da pacificação e do desenvolvimento daquela nossa antiga Província Ultramarina, o General José Celestino da Silva nascido em Vilar de Nantes (Chaves), em 1849, serviu no Regimento de Lanceiros n.º2, à época Regimento de Cavalaria n.º2, Lanceiros da Rainha.
Tirou o curso de Cavalaria na Escola do Exército, tendo sido o primeiro do curso em 1865. Serviu ainda no Regimento de Cavalaria n.º6 e comandou a Guarda Municipal de Lisboa. Como Capitão, em 1884, comandou, por indicação de D. Luís I, um esquadrão nos Lanceiros da Rainha tendo
como alferes o futuro Rei D. Carlos que o distinguiu com a sua amizade.
Como Tenente-Coronel foi nomeado Governador de Timor, em Maio de 1894, quando a ocupação portuguesa ainda era muito precária. Com a autoridade administrativa limitada a Dili e a uma pequena faixa litoral Norte, com quase todo o interior desocupado, com os povos entregues a si mesmos chefiados por régulos guerreando-se entre si, muitos deles desconhecendo o nosso domínio e bandeira.
Chegado a Dili, o novo governador, de cabelo rapado e longos bigodes (como era uso na época), cuja lenda veio a denominar por
"Rei de Timor", começou por organizar os serviços públicos, remodelar o Serviço Militar de primeira e segundas linhas e regulamentar o comércio exercido pelos chineses, comandando, no princípio, só cerca de 30 europeus e 12000 "carregadores", reforçados mais tarde por landins vindos de Moçambique.
Iniciou depois sucessivas campanhas militares em que se empenou pessoalmente no interior do território algumas delas particularmente duras, com corte de cabeças, onde foi morto e massacrado o Capitão Câmara e o Alferes Francisco Duarte. Face aos resultados obtidos destas acções conseguiu arrancar a ambicionada autonomia do Distrito de Timor que àquela data
dependia de Macau.
Para além de enfrentar com êxito inúmeras revoltas de reinos que pretendiam impor as suas leis com assaltos a povoações vizinhas, delimitou as fronteiras, em 1898, trabalho realizado pelo então capitão-tenente Gago Coutinho.
Além da pacificação foi também notável a sua acção social e de fomento: canalização de água, montagem de serviços de correio e telegrafo, generalização da cultura do café e do tabaco, introdução de árvores de fruto, drenagem de pântanos, construção de casas, escolas, hospital e estradas. E estabelecimento de carreiras marítimas para Macau e Austrália.
A
oposição política metropolitana chamava-lhe “o Rei de Timor” ao que D. Carlos, com muita estima, contrapunha com o epíteto jocoso de “o meu colega de Timor”.
Louvado directamente pelo Rei D. Carlos recebeu entre outras condecorações a Comenda da Torre e Espada, a Medalha de Ouro de serviços relevantes no Ultramar  e a Medalha de Ouro de Valor Militar.
Cinco meses depois do regicídio, em 1908, foi exonerado do cargo. Sem dinheiro, deixa Timor, ao fim de 14 anos, com a ajuda financeira de um malaio amigo que lhe paga a viagem de regresso a Portugal via Austrália. Não é louvado pelo trabalho levado a cabo e é nomeado Comandante do Regimento de Cavalaria 7 de Almeida com o posto de Coronel.
Como Brigadeiro Comandante da Brigada de Cavalaria Norte, organizou, no final de 1910, a primeira tentativa militar para derrubar a República, tendo sido reformado, a seu pedido, no posto de General.
Veio a falecer em 10 de Fevereiro de 1911 doente e desgostoso com a ingratidão dos seus contemporâneos.
JMSC