Terceira Parte: DELGADO EM ARGEL

 Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio


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Terceira Parte

DELGADO EM  ARGEL

 

6. QUESTÕES DE SAÚDE


Quando o general Delgado chegou à Argélia nesse fim de Junho de 1964, vinha directamente de um hospital, em Praga, onde esteve internado cinco meses. Quem o mandou vir foram os dissidentes e não os dirigentes da Frente Patriótica1. Ao fim de umas escassas três semanas já o general se achava incompatibilizado com todos esses dirigentes. Daí em diante começou uma guerra entre eles e Delgado, descrita em pormenor nos documentos emitidos pelo próprio general2.Os elementos dirigentes da FPLN foram acusados por Delgado de mentiras, fraude, ameaças e chantagem. O representante do PCP foi acusado de, pelo menos, cometer um gravíssimo abuso de confiança3. Em Setembro de 1964 - menos de três meses depois da sua chegada a Argel - o general rompia definitivamente com a FPLN e com o PCP. Pouco mais de quatro meses depois dessa desavença, desapareceu. A FPLN, ao mesmo tempo que recusava a solidariedade com Delgado, considerando como provocadores e agentes da PIDE os que lhe eram fiéis, tratava de apropriar-se  dos bens e dos papéis do homem que, mal havia um ano, pelo menos, bajulava em público. Apenas oito meses após a sua chegada a Argel, Delgado e a sua secretária aparecem mortos perto de Badajoz.

É com esta trajectória claramente presente no espírito que devemos tentar analisar o mistério do estado de saúde do general.

Entre a instalação da FPLN em Argel e a vinda de Delgado decorreram dezoito meses. O que ainda não se explicou foi por que motivo o general deixou passar tanto tempo até vir para a Argélia, depois da adesão do seu movimento (o MNI) à FPLN, logo na primeira conferência deste organismo, realizada em Dezembro de 1962. É de recordar que o general não assistiu pessoalmente a esta primeira conferência, nomeando como seu representante Manuel Sertório Marques da Silva, igualmente exilado no Brasil.

Sabemos que o general fora operado no Brasil, em Março de 1963. Em Maio, munido de um salvo conduto, fez uma viagem secreta para a Europa onde se encontrou com Álvaro Cunhal. Segundo Manuel Sertório esse encontro teve lugar em Praga4. O encontro resultou num acordo entre o general e o líder do PCP. Projectaram uma segunda conferência da FPLN  que tomaria decisões mais claramente revolucionárias do que a primeira. Não se sabe se estiveram presentes mais elementos da oposição. De regresso ao Brasil Delgado passou por Paris e Marrocos mas não visitou então Argel, pois se tivesse feito, talvez ficasse prevenido e o futuro teria sido outro. Mas não foi assim. 

O Delgado voltou ao Brasil e ali esperou, irreequieto, queixando-se da ineficácia dos seus novos aliado em lhe arranjar passaporte e meios financeiros5.  Esperou até Dezembro de 1963, cada vez mais impaciente.

Em Argel, também impacientes estavam os portugueses descontentes da JAPPA. Finalmente,em Outubro de 1963, quatro dissidentes mandaram um apelo urgente ao general para que ele viesse para Argélia  o mais rápido possível6

Delgado saiu definitivamente do Rio para assistir à segunda conferência da FPLN, em Praga em Dezembro de 1963. Mas em vez de partir imediatamente para Argel, onde os dissidentes da FPLN o esperavam, o general deixou-se convencer por Cunhal a sujeitar-se a novo tratamento em Praga que o poria fisicamente em forma e o capacitaria a participar numa próxima luta armada.

Porquê a demora de Delgado em Praga?

Delgado entrou no Statní Sanatorium em Praga, em Janeiro de 1964, e lá permaneceu cinco meses!   Foi submetido a duas intervenções cirúrgicas, nos dias 21 de Janeiro e 3 de Fevereiro, que ele próprio categorizou como «fora dos cânones».  Recebeu no leito de doente a visita de Ben Bella que o tratou como chefe do Estado português e lhe prometeu acolhimento na Argélia.  Esta visita do presidente argelino não parece ter ficado a dever-se a qualquer intervenção dos membros da Comissão Delegada, mas sim à própria iniciativa do general que, meses antes, tinha escrito directamente a Ben Bella. Outra visita ao general acamado foi a de Mário Soares7.

 Nunca ficou bem claro se Delgado dispunha ou não de meios financeiros para sair da Checoslováquia. Na Argélia foi-me afirmado por um dos dissidentes que assinou o apelo ao general,  terem sido eles a cotizar-se para pagar a sua viagem. 

De qualquer forma, o general saiu da cama e do sanatório, ainda com pensos numa ferida de 25 centímetros no abdómen, e meteu-se no avião rumo a Argel. Quando os dissidentes souberam que ele ia chegar, ficaram delirantes e os adversários visivelmente perturbados. Mas estes recompuseram-se e tentaram fazer entender que acolhiam o general com agrado. Emitiram-se comunicados na imprensa argelina. Formou-se uma comitiva para receber o general no aeroporto. Combinou-se com as autoridades argelinas uma recepção condigna e o general pisou solo argelino com as honras de quase um chefe de Estado. Conduzido aos aposentos do palácio presidencial, passou a ter automóvel e motorista à sua disposição.

Passado pouco tempo, o general consultou o dr. Marcelo Fernandes. Os exames acabariam por se revelar muito pouco lisonjeiros8.

Os comunistas e a ética hipocrática

O PCP, como já vimos, foi o último componente da FPLN a mandar um representante para Argel: o Pedro Soares9.  Este ficou pouco tempo e não participou nos acontecimentos que se seguiram à chegada de Delgado. Foi substituído por Pedro Ramos de Almeida, figura que, em breve, iria desempenhar um papel de relevo nos acontecimentos.

Pedro Soares deixou várias recordações desagradáveis na colónia portuguesa. Uma delas teve a ver com a curiosa atitude dos comunistas para com a ética médica, e que viria depois a ser muito citada quando os médicos amigos de Delgado se deram conta do lamentável estado físico deste último.

Pedro Soares foi-se embora da Argélia doente. Porém, antes de partir, o dr. Marcelo Fernandes, cirurgião altamente cotado pelos colegas e o mais indicado para o seu caso específico, ofereceu-se para o tratar. Pedro Soares recusou terminantemente a oferta por este médico ser dissidente do partido. Preferiu ser tratado por médicos do PCP, não especializados no assunto. Marcelo Fernandes, homem cândido, ficou abalado com esta experiência. Pela primeira vez, se questionou: «se eles pensam que um médico, politicamente adversário, possa prejudicar um doente por motivos políticos, qual será então a seriedade deles próprios nesta matéria?». Pouco tempo depois, ao ver o papel que Delgado trazia do hospital checo, faria de novo esta mesma pergunta sinistra.

A Checoslováquia regia-se por duas línguas oficiais: o checo e o eslovaco, ambas escritas no alfabeto latino. Não se tratava de um país subdesenvolvido. Tinha uma medicina e hospitais avançados herdados da época pré-comunista.  Por que motivo o documento foi passado em russo? Teriam sido médicos russos a operar Delgado? Ou será que o domínio soviético da Checoslováquia exigia que as certidões médicas fossem escritas em russo?  Estas perguntas nunca encontraram resposta.

Em 1964, em Argel, o dr. Marcelo Fernandes não escondeu de ninguém a sua estranheza e indignação pelo estado clínico do general, pela descrição pouco ortodoxa do documento e pelas intervenções a que fora sujeito. Não eram, de maneira alguma, o que ele esperava. Mais tarde, afirmou que o estado do general era tal que se sentia tolhido para poder intervir. E isso, depois da sua triste experiência com Pedro Soares. Disse que, ao examinar o abdómen de Delgado, lhe veio insistentemente ao espírito o medo expresso por Soares.

Sabe-se, finalmente, que Delgado foi operado mais do que uma vez, em Outubro de 1964 em Itália, pelo famoso médico dr. Pietro Valdoni (que operou Paulo VI e o secretário do PCI, Palmiro Togliatti). Parece que os serviços deste médico foram conseguidos através do dr. Ernesto Maria Bisogno e de Mário Alexandre de Carvalho, ambos qualificados pelo PCP e seus aliados como agentes da PIDE10

O que desde já se pode perguntar é se alguém, até hoje, se deu ao trabalho de inquirir junto das autoridades hospitalares, em Itália, sobre o dossier do paciente Delgado? O dr. Valdoni já morreu,11 mas não haverá fichas no hospital descrevendo o estado de Delgado quando lá entrou?  Até para anular suspeitas inevitáveis que surgem, quanto à estadia do general no sanatório checo, um inquérito na Itália deveria ser a primeira iniciativa de um investigador sério.

7.  OS PROBLEMAS POLÍTICOS DE CUNHAL
 

Evidentemente que os factos atrás narrados, por si só, teriam um significado reduzido. Podiam explicar-se de várias maneiras «inocentes», por exemplo, pela incapacidade organizativa dos «patrióticos» em Argel, ou do PCP, de arranjarem os meios para o general se deslocar do Brasil; e, também, pela inferior qualidade da cirurgia dos países comunistas.

Com este aviso é necessário, contudo, tentar localizar o «puzzle» das demoras de Delgado no panorama das dificuldades políticas que o PCP enfrentava entre 1962 e 1965. A tentativa é justificada porque todos os intervenientes no caso Delgado, inclusive os juristas, têm insistindo na hipótese de uma conspiração. O problema parece ser, pois: quem foram os conspiradores?  E quantas foram as conspirações? E de que natureza?

Conspiração houve certamente em Rabat quando Piteira, Pablo e certos nacionalistas da CONCP projectaram o que veio a ser a FPLN.  A pergunta que fica é se não houve, a seguir, uma contra-conspiração por parte de Cunhal, desta vez em Praga, para anular qualquer possibilidade de Piteira e seus amigos virem a tomar a liderança da oposição anti-salazarista. Já vimos que a incompetência e a própria personalidade de Piteira, em poucos meses em Argel, levaram virtualmente à extinção das suas esperanças de ali construir uma praça forte independente do PCP. Vimos também como o PCP muitos meses antes hesitou em enviar um representante seu para Argel. O PCP teria preferido Roma como sede da FPLN e dizia-se que foram Piteira e Tito de Morais que, sem o acordo prévio do PCP como componente da Frente, precipitaram as coisas, indo independentes para a Argélia e pondo assim o PCP perante um facto consumado. Também parece evidente que uma vez introduzidos na Argélia já não precisavam da presença física de Delgado.  Piteira e os seus amigos estavam bem cientes que a proximidade e a convivência diária com  ele seriam sempre factores incómodos. Conheciam a sua personalidade; do Brasil já tinham vindo bastantes notícias das suas desavenças com outros sectores da oposição anti-salazarista. Mantê-lo longe e desactivado na Checoslováquia - mas sempre como bandeira honorária - seria para a direcção da Frente bastante mais conveniente. Neste sentido, os interesses de Piteira e Cunhal pareciam convergentes.

No fundo, Piteira Santos, Tito de Morais e Ruy Cabeçadas - todos de medíocre capacidade executiva - dependiam da ajuda do PCP. Sozinhos mostravam-se incapazes, até de fazer propaganda, quanto mais acções revolucionárias. Através de Pablo, a FPLN arranjara uma sede com tipografia que, depois, por desleixo, perdera.  Não conseguiram sequer editar um boletim e ainda menos iniciar as famosas emissões de rádio, utilizando as facilidades concedidas pela Rádio Televisão Argelina. Estas só começaram a sério depois da chegada  de Pedro Soares. 

Táctica soviética para a ocasião

Com a vinda do representante do PCP em meados de 1963, a FPLN passou a dispor do apoio do Partido Comunista Argelino, banido oficialmente, embora de novo muito activo a partir desse Verão. Apesar deste partido não existir legalmente, o seu jornal diário, Alger Républicain, continuava a publicar-se e gozava agora do influxo de jornalistas do Partido Comunista Francês. A União Soviética, depois de reticências iniciais, logo após a independência, estava plenamente empenhada em conquistar as simpatias do regime de Ben Bella. E este bem precisava de todos os amigos disponíveis. Sabia que andava permanentemente numa corda bamba e que os seus adversários argelinos não cessavam de planear a sua queda. Uma indicação segura da crescente influência soviética foi o afastamento súbito de Jacques Vergès, 'maoista' da direcção da Révolution Africaine e a sua substituição por um jovem argelino, Mohamed Harbi, tido como próximo dos trotskistas. Vergès foi também corrido do seu lugar como conselheiro de Bel Bella e saiu apressadamente da Argélia com destino incerto.

É interessante notar que os soviéticos não tiveram qualquer problema em aceitar a existência do trotskista bem conhecido, Michel Raptis-Pablo, no gabinete do presidente Ben Bella. Do mesmo modo que Cunhal fez as pazes com Piteira, também os patrões soviéticos (na época de Khrushtchev) estavam prontos a aproveitar Pablo. Uma delegação oficial da Embaixada da URSS visitou a bonita moradia do Pablo em El Biar (bairro residencial chique de Argel) e entregou-lhe uma placa com o busto de Lenine em reconhecimento da luta de Pablo a favor dos argelinos. O dirigente trotskista aceitou, todo baboso, a oferta dos representantes do regime que, anos atrás, assassinara Leon Trotsky.

Esta colagem soviética ao regime de Ben Bella suscitava vivas críticas nos meios anti-marxistas argelinos - especialmente no meio militar. Não lhes passava despercebido que os principais apoios da FPLN dimanavam de meios marxisantes, que eles sabiam, por experiência própria, opôr-se à luta armada.

Se  Piteira, depois de se servir do nome de Delgado para se introduzir na Argélia, tencionava realmente levá-lo para a África do Norte, só ele o sabia. Certamente não o quereria lá numa altura em que as bases da FPLN em Argel estivessem em revolta aberta. De qualquer forma, o facto é que Delgado, ainda no Brasil, se queixava amargamente nas suas cartas da inactividade forçada e perguntava constantemente por que seria que a FPLN, com os vastos recursos do PCP e da Argélia, não lhe conseguia os meios necessários para se deslocar12

Quando finalmente o general, como vimos, saiu do Brasil, não foi para ir ter com Piteira Santos, mas com Álvaro Cunhal.  

A viragem do PCP

Parece evidente que até meados de 1963 o PCP não se empenhou a fundo na aventura de Argel, todavia, a partir desta data, fez uma viragem.  Com a sua velha táctica de apoderar-se do que não conseguia destruir, decidiu então tomar conta da FPLN e da sua bandeira: Humberto Delgado.
Vários factores condicionaram a decisão do PCP.  A Comissão Delegada da FPLN começava a ser criticada não só pelos portugueses, mas também por alguns argelinos,  pelo menos em círculos políticos não afectos a Pablo e a outros conselheiros estrangeiros. A ausência comunista da FPLN em Argel prejudicava as relações de Cunhal com os dirigentes de certos movimentos nacionalistas das colónias portuguesas. Não convinha ao PCP que Piteira e os amigos socialistas monopolizassem a bandeira do anti-colonialismo, ainda que fosse demagogicamente. Também a dissidência ia crescendo dentro do próprio partido. Lembremo-nos de que, precisamente em Dezembro de 1963, quando a FPLN consagrou a sua viragem a favor da luta armada, já havia a primeira cisão pró-chinesa dentro do PCP; a formação do Comité Marxista-Leninista; a expulsão de um importante dirigente e membro do secretariado do PCP, Francisco Martins Rodrigues13, e a formação da FAP. 

No campo internacional, as críticas chinesas à política de coexistência pacífica amontoavam-se. Tanto a URSS como Cunhal estavam a mostrar-se muito sensíveis às acusações de terem atraiçoado os povos em luta, a favor da política externa soviética de compromissos com os EUA.

Tornava-se imprescindível fazer qualquer coisa para abafar as críticas. Mas como?  O PCP, como ficou provado ao longo dos anos que antecederam o 25 de Abril de 1974, não estava de maneira nenhuma interessado em precipitar uma mudança súbita em Portugal que escapasse ao seu controlo e que não fosse do agrado da União Soviética. Tinha um plano, a longo prazo, de penetração nas estruturas do Estado Novo e nas forças armadas. Este plano estava a ser ameaçado em quatro frentes: pelo imprevisível e impetuoso general, com o seu  prestígio no interior de Portugal; por Piteira em Argel onde poderia ganhar o prestígio de dirigente anti-salazarista;  pelos jovens activistas, agora liderados por Martins Rodrigues, exilado em França;  e, sobretudo, pelo facto de  o mais influente dos movimentos nacionalistas (a UPA de Holden Roberto) ser profundamente anti-marxista. O perigo terrível para o PCP  seria o do primeiro aliar-se aos dois últimos. 

 Foi então que Cunhal jogou a sua cartada.  Chamando a si o general, Cunhal podia mostrar-se o homem forte da FPLN e anular a influência de Piteira. Quanto aos dissidentes e à FAP, Cunhal tinha para eles outros projectos. Através do Avante, órgão clandestino do PCP, denunciou-os abertamente à PIDE14. E podia fazê-lo impunemente: eram indivíduos desconhecidos no plano internacional e mesmo nacional15 .  Com esses, o PCP podia arriscar-se, utilizando métodos brutalmente abertos.

Mas que iria Cunhal fazer com essa figura impetuosa e imprevisível que era o general Humberto Delgado? Deixando-o ir para a Argélia, mesmo sendo um aliado do partido? Como o controlar nesse ambiente confuso? Ou o manteria inactivo, mas útil como fachada, num país de leste? Como?

Em primeiro lugar, como foi que Cunhal conseguiu convencer Delgado a aliar-se ao PCP?

Para Delgado ver!

Para responder a esta última pergunta, teremos que analisar a diferença entre as resoluções das três conferências da FPLN, em 1962, 1963 e 1964.  Na primeira, impulsionada por Piteira, falava-se na preparação do levantamento nacional popular. Na segunda, impulsionada por Cunhal, depois da sua reunião com Delgado em Maio do mesmo ano, foi-se mais longe - longe suficiente para convencer o general de que o PCP abandonara realmente o seu «pacifismo». Na terceira, em 1964, depois da ruptura irremediável com Delgado, o PCP já voltara à sua linha tradicional, embora com ajustes demagógicos. Como a posição tomada nessa terceira conferência correspondia exactamente à linha adoptada pelo PCP durante anos, divulgada na sua imprensa clandestina e até em entrevistas públicas de Cunhal, só podemos concluir que as posições radicais subscritas pelo PCP, na segunda conferência, foram-no apenas 'para Delgado ver'.

Quando o general voltou ao Brasil, após o seu encontro com Cunhal, ia convencido que tinha obtido do PCP o acordo para um trabalho em conjunto, com vista à preparação, a curto prazo, de uma acção revolucionária. Delgado nunca se converteu ao marxismo - aceitou a aliança com o PCP porque até ao Verão de 1964, quando começou a abrir os olhos, era vítima da propaganda salazarista que pintava o PCP como o pior inimigo do regime.

E assim, convencido das 'boas intenções' de Cunhal e dos comunistas (isto é, intenções de preparar uma revolução a curto prazo) deixou-se induzir a entrar num hospital checo e a submeter-se ali a longo e doloroso tratamento cirúrgico.

Pelos documentos publicados por Delgado, depois da ruptura com a FPLN, ficamos cientes de que ele foi enganado pelo PCP. Mas a pergunta fica: o PCP enganou-o conscientemente?  Ou foi o PCP que se enganou na sua avaliação incorrecta do general? Teria Cunhal pensado que, reconhecendo Delgado como chefe da oposição e fazendo uns gestos demagógicos em favor de uma acção armada, ele ficaria domesticado para uso do partido? Como hoje conhecemos melhor Cunhal, do que em 1963, somos forçados a levantar fortes reservas à possibilidade de Cunhal ter sido, nessa altura, enganado, quanto às intenções e ao feitio do «General sem medo». Apenas dois anos antes, em 1961, o partido estava em plena campanha para denegrir Delgado: o general putschista, que era necessário eliminar politicamente! Se nos lembrarmos dessa campanha e das tentativas de aliciar Galvão, temos que alvitrar a hipótese de o encontro com Cunhal e a segunda conferência da FPLN terem sido montados de propósito para ludibriar Delgado.

Enquanto não houver prova em contrário, fica-se com a impressão que Cunhal descobrira uma maneira segura de inutilizar o general, não fosse a visita de Ben Bella ao hospital checo e a iniciativa dos dissidentes - esses dissidentes de esquerda dos quais Cunhal nunca mais conseguiria livrar-se e que vieram sempre estragar os seus projectos. Tinham apelado ao general de deixar o Brasil e ajudaram a custear a sua deslocação até a Europa.

Depois ajudaram  Delgado a sair da Checoslováquia, e trouxeram-no até Argel.  Ali esses portugueses rebeldes começaram a contar-lhe as suas queixas: da tirania de Piteira, do nepotismo de Tito de Morais, do pacifismo inerente do PCP - enfim, da total ausência dos tão pregados projectos de uma acção revolucionária.  Delgado percebeu então que tinha sido enganado.

8. A CHEGADA DE DELGADO

Quando o general Delgado chegou a Argel em Junho de 1964, vinha na qualidade de presidente da Junta Revolucionária Portuguesa e também do «Comando Operacional», o órgão militar da JRP.  Sobretudo estava convencido que vinha como presidente eleito pelos portugueses e, portanto, com indiscutível autoridade sobre quaisquer outras personalidades políticas que se encontravam em Argel16

A FPLN tinha, desde a primeira conferência, prestado homenagem ao «valoroso dirigente da Oposição».  Na segunda conferência o próprio Delgado propôs a designação da Junta Revolucionária Portuguesa como organismo máximo da FPLN e a conferência elegeu-o presidente desse organismo.  A criação do 'Comando Operacional' tinha sido votada por maioria, com Piteira Santos contra.

Delgado sabia muito bem que, com excepção do representante do PCP, os restantes membros da direcção da Frente eram personagens que, no fundo, só se representavam a si próprias. Todo o comportamento público do PCP, e dos outros, parecia confirmar a sua convicção de que era aceite como chefe incontestável. O Presidente Ben Bella não o tinha visitado no hospital de Praga, em Maio de 1964?  Não fora a Moscovo a convite dos russos na altura da segunda conferência? E agora na Argélia, não era recebido como Chefe de Estado e alojado no palácio do presidente argelino? 

O grupo de Piteira, enquanto Delgado estava longe, cantava-lhe louvores constantemente. Para vencerem a sua própria condição de ilustres desconhecidos, invocavam o nome de Delgado, dando a impressão de que não eram mais do que seus fieis  representantes. Já vimos, aliás, que foi através dessa invocação que conseguiram a entrada da FPLN na Argélia. 

Assim, Delgado, acima de tudo um militar, tinha todos os motivos para se considerar o chefe hierárquico da oposição, escolhido pelo povo como presidente da República Portuguesa e consagrado como principal lutador pela sua participação na acção de Beja. Toda a sua actuação no ano de 1964, na Argélia, tem de ser entendida  nesta óptica. Se a Junta a que ele presidia existisse realmente para organizar uma revolução, então era evidente que esse organismo não podia funcionar em moldes parlamentares. Quem se mostrasse pouco disposto a aplicar as resoluções tomadas na segunda conferência, de preparar uma revolução a sério, teria forçosamente que ser afastado da Junta. Não condenar tais pessoas teria sido para Delgado, no máximo, uma traição aos compromissos que ele assumira; no mínimo, uma demonstração de tibieza, imprópria dum chefe militar.
 

Não nos cabe, nesta narrativa dos acontecimentos de Argel, avaliar objectivamente as pretensões de Delgado, nem analisar se existia ou não, nessa altura, uma situação favorável aos seus projectos dentro de Portugal. O importante é descrever o comportamento dos personagens e tentar medir a distância entre as suas declarações de intenção e respectiva actuação, a fim de julgar a sua 'moralidade' política e não o seu 'realismo' político.

Guerra Fria

O que iria ser o comportamento de Delgado em Argel ficou logo indiciado no aeroporto, à sua chegada. Quando uma pequena multidão composta por entidades oficiais argelinas, exilados portugueses e jornalistas o rodeou para ouvir as suas palavras, Piteira tentou, em vão, impingir ao general um discurso escrito, o qual Delgado soberanamente ignorou. 

No dia 2 de Julho, o general convocou uma conferência de imprensa em que se apresentou aos jornalistas argelinos e estrangeiros. Falou dos seus projectos, do problema colonial, das suas relações com os 'países socialistas'.  Foi a única vez que apareceu em público, unido aos elementos da Comissão Delegada.

Seguiram-se cinco semanas de 'guerra fria' até ao dia 4 de Agosto, data em que se desfez irremediavelmente essa união, quando o general dirigiu aos membros da Junta uma carta explosiva pormenorizando os numerosos delitos dos que se diziam seus colaboradores17

A Junta que, segundo a conferência de Praga, substituía agora a antiga Comissão Delegada, era composta por Piteira Santos, Tito de Morais, Ruy Cabeçadas e o representante do PCP, Pedro Ramos de Almeida, que fora substituir, havia pouco tempo, Pedro Soares.  Ramos de Almeida já era conhecido do general, por residir em Praga na altura da hospitalização deste. Havia ainda um quinto membro da Junta, ausente no Brasil, Manuel Sertório Marques da Silva.  A cada um dos quatro presentes na Argélia o presidente da Junta iria imputar graves faltas. 

À parte os pecados individuais de cada um, o general descobriu logo que os vastos recursos que lhe tinham dado a entender ir encontrar na Argélia eram extremamente reduzidos. 

As instalações da FPLN eram decepcionantes. As preocupações dos seus novos colaboradores estavam bem longe do que o general esperava.  Piteira, e depois Ramos de Almeida, eram os mais insistentes em exigir que o general tomasse medidas junto dos argelinos para conseguir que os elementos relacionados com a publicação Revolução Portuguesa e a FAP fossem expulsos18.

Também  Piteira insistia com o general para usar da sua autoridade e exigir 'pesadas contribuições pecuniárias, coercivamente em regime de chantagem…» aos exilados19.

O general Delgado, revoltado, chamou-o à ordem.  Mas Piteira, cioso dos seus poderes e às escondidas do general, continuava a escrever ao Ministério dos Negócios Estrangeiros argelino em nome da (agora extinta) Comissão Delegada. Ora, com a chegada de Delgado, a Comissão Delegada, segundo decisão da conferência de Praga, deixara de existir.  De molde a sanar a situação, Delgado nomeou então como seu agente de ligação com o MNR argelino o médico dr. Amilcar Castanhinha20.

Mais: no dia 26 de Julho, publicou na imprensa argelina um comunicado anunciando a cessação de funções da 'comissão delegada'. Os termos do comunicado não deixavam margem para dúvidas de que entre o general e o grupo de Piteira havia surgido um grave diferendo. As palavras  … Consequentemente: ditadura, despotismo e favoritismo serão excluídos das decisões do seu órgão em Argel … eram claramente dirigidas aos membros do extinto órgão21.  

No dia 31 de Julho, após o regresso de Ramos de Almeida do estrangeiro, o qual, sem dúvida, fora consultar Cunhal, Humberto Delgado convocou uma reunião da Junta. Ramos de Almeida aparecia então como o primeiro a insistir na expulsão de portugueses, onde se incluiam também, desta vez, o dr. Amilcar Castanhina e Adolfo Ayala. Exigia o despejo dos habitantes da casa-abrigo, fazendo acompanhar tais exigências de ameaças veladas de retirar a Delgado o apoio financeiro do partido e a caução da FPLN junto do governo argelino.

A expulsão de portugueses, exilados políticos, muitos deles indocumentados, implicaria, como é óbvio, obrigá-los a voltar para Portugal onde, como anti-salazaristas declarados, seriam presos. A ameaça de retirar apoio financeiro a Delgado era igualmente grave. Delgado não tinha emprego nem recursos, embora tivesse insistido muitas vezes querer garantir «a sua vida vegetativa» pelo trabalho.

Apesar disso, o general não se deixou intimidar e mostrava-se confiante. Não se apercebera ainda que Piteira tinha altos apoios no próprio gabinete de Ben Bella e que o PCP se encostava à crescente influência do ilegal PC argelino. Tentou iniciar contactos que lhe permitissem arranjar emprego e, durante algum tempo, teve esperanças de ser nomeado conselheiro técnico do presidente da República, com um ordenado de 2200 dinars (equivalente a francos franceses da altura).

No dia 4 de Agosto, por forma a tornar as coisas bem claras, escreveu uma carta aos outros membros da Junta em que descreveu, pormenorizadamente, o clima que se vivia na direcção da FPLN.  Falou da passividade revolucionária do grupo de Piteira e da sua concentração nos «ódios locais». Por fim, anunciou a suspensão destas figuras «em férias de Verão22.

9.   GUERRA ABERTA

Dois dias mais tarde, a 6 de Agosto, Ruy Cabeçadas entrou na sede da FPLN e apoderou-se da chave da secretária e da chancela da Frente. Delgado emitiu um comunicado e o Boletim da JAPPA publicou um número especial sobre o assunto, descrevendo o sucedido. O Boletim denunciava em termos violentos os dirigentes da FPLN, chamando-lhes 'vulgares ladrões' e auto-nomeados, … que, durante ano e meio, aterrorizaram a colónia portuguesa de Argel23.
 

O Boletim também noticiava:

 … que há poucos dias esse mesmo indivíduo [Ruy Cabeçadas] levou a sua cobardia ao ponto de ameaçar fisicamente o nosso camarada Ayala, anti-fascista há mais de 30 anos, veterano das prisões salazaristas. O Cabeçadas pretendia utilizar precisamente os mesmos métodos que a PIDE já tem exercido inúmeras vezes contra o nosso camarada Ayala: as sevícias, a violência cobarde e a intimidação fascista24.
 
A notícia do Boletim concluia com um apelo aos antifascistas para formarem  … piquetes de segurança tanto no bureau como na Casa-abrigo. Delgado mandou fazer chaves e chancela novas e ordenou a constituição de piquetes. Armou os desertores com varapaus e deu ordens para responderem à violência com violência, caso houvesse um assalto ao bureau. 

O ambiente na colónia portuguesa tornou-se assim mais escaldante. Previndo esta situação, o mesmo número especial do boletim da JAPPA  publicou também um artigo propondo medidas para a democratização da vida interna da colónia portuguesa e o fim da 'luta fratricida'25. Reiterando a «confiança moral» no General, o artigo também chamava atençao ao facto que isso não impedia que muitos tivessem posições políticas diferentes das de Delgado. Do lado dos delgadistas havia agora euforia. Do lado dos membros suspensos da Junta e dos seus clientes medo e intriga.  Meteram-se em casa e, a partir dessa data, não foram vistos nos cafés de Argel onde, antes, cultivavam o hábito de passar grande parte do tempo.

Como  Piteira recebera ordens que não cumpriu, de devolver ao  bureau os bens da Junta, uma delegação, acompanhada pelos desertores 'armados', foi a sua casa. Piteira escondeu-se e vizinhos portugueses do andar do lado contaram que ele e a esposa gritavam histericamente, apesar da delegação nem sequer ter entrado.

Entretanto, o general, depois de ter suspenso os membros da Junta, queria agora assegurar as emissões da Rádio Voz da Liberdade. Com a ajuda do dr. Castanhinha, Delgado gravou um programa para a emissão de sábado, dia 8 de Agosto, mas não tinha  contado com os adversários. Eles, embora suspensos, continuavam a ter contactos com as autoridades argelinas da rádio. Conseguiram organizar o seu próprio programa, com seis pessoas, e foi esta a emissão a ir para o ar - falando em unidade.

O general começou também a encontrar dificuldades na imprensa. Mandou vários comunicados para os jornais, anunciando a suspensão da Comissão Delegada. Não foram publicados. Redigiu um novo comunicado, anunciando a expulsão da Junta dos membros da antiga Comissão Delegada. Também este foi ignorado.

Os membros da colónia portuguesa que continuavam a apoiar o grupo de Piteira resumiam-se agora à família Tito de Morais e a militantes do PCP, cujo número aumentara nessas semanas, com um súbito influxo de cunhalistas, incluindo o poeta Manuel Alegre. Estes não falavam aos delgadistas. Até nos hospitais os médicos do PCP cortaram relações com os médicos delgadistas.

Pedro Ramos de Almeida, enquanto intrigava contra Delgado, que o suspendera, fez publicar no Alger Républicain do dia 11 uma  declaração a regozijar-se de ter vindo para Argel e ter a honra de trabalhar ao lado do general Delgado, de Piteira Santos, Tito de Morais e Ruy Cabeçadas.

A fraude de Pedro Ramos de Almeida

Não obstante isso, Delgado continuava com os trabalhos do seu comando operacional. Já no dia 30 de Julho tinha tido conversações com Ben Bella referentes à preparação duma acção, partindo do exterior. É natural que os inimigos de Delgado tivessem vindo a saber, através de Pablo, que Delgado fizera algumas diligências secretas. Então  Ramos de Almeida resolveu descobrir do que se tratava.

Delgado nomeara como seu executivo, encarregado do Comando Operacional, o major Ervedosa, um piloto militar português recém-chegado26, que ficou incumbido de tratar com os argelinos de todas as questões relacionadas com operações, inclusive as emissões de rádio. Ervedosa substituía Tito de Morais, até aí temporariamente encarregado da questão da rádio.

No sábado, 15 de Agosto, de manhã, Pedro Ramos de Almeida, apresentou-se ao director do serviço argelino respectivo, dizendo que ele era o major Ervedosa. E para dar verosimilhança à burla, fazia-se acompanhar de Tito de Morais. 

O falso Ervedosa informou o alto funcionário argelino que pertencia ao grupo do general e avisou-o que os argelinos deviam tomar previdências contra o grupo adversário que poderia querer intrometer-se no «delicado serviço». O cinismo de Ramos de Almeida foi até ao ponto de fazer crer ter sido militar em Portugal. 

Conseguiu deste modo apoderar-se do material preparado pelos delgadistas para a próxima emissão. A fraude de Ramos de Almeida foi descoberta na própria tarde desse dia quando o general teve a oportunidade de falar com o funcionário argelino em questão.

A carta que Delgado enviou a Ramos de Almeida, descreve em pormenor o incidente27.  

Com este abuso de confiança do representante do PCP que, nessa altura, era tido como  delfim de Cunhal, Delgado tinha agora razões de queixa gravíssimas contra todos os membros da antiga Comissão Delegada.  À sua certeza quanto à falta de idoneidade moral desses indivíduos, juntava-se também a prova de que nenhum deles tinha a mínima intenção de colaborar nessa «revolução a curto prazo», que era a razão de ser do general. 

A ruptura total estava consumada.

Embora não iremos, de momento, adiantar sobre o comportamento ainda mais desleal que se verificou da parte do grupo de Piteira, seis meses mais tarde, depois do desaparecimento de Delgado - e que fica para outro capítulo - convém dizer algumas palavras sobre a personagem que Delgado habitualmente chamava de 'rato branco'.
Pedro Ramos de Almeida, cuja qualidade moral ficou classificada pelo episódio acima relatado, é o mesmo indivíduo que, depois do 25 de Abril, se erigiu em especialista do 'caso Delgado'. É o mesmo indivíduo que se deu ao luxo de histericamente caluniar e acusar pessoas honestas. Veio à televisão, no filme de José Eliseu , com uma convoluta e ridícula história de agentes e espiões 'do imperialismo' sem qualquer fundamento. Ao mesmo tempo escondeu cuidadosamente como foi que ele próprio tratou Delgado e como este o retratou. Igualmente deixou de aparecer como membro do Comité Central do PCP para passar a dirigente do MDP, sem explicar nunca como entrou em Portugal antes do 25 de Abril e conseguiu de Marcello Caetano autorização para cá viver legalmente28 .
Densos mistérios cobrem a figura política de Ramos de Almeida, competindo portanto aos historiadores tirar estas coisas a limpo29.

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Referências:


1 Esses dissidentes eram o dr. Marcelo Fernandes, dr. Zulmiro de Almeida, José Hipólito dos Santos e Helder Veiga Pires.

2 Apêndice Documental B,  Docºs nºs 5, 8, 12, 13

3. Idem.  Docº nº 9.

4 Em diversas versões deste periodo da vida do General, o encontro é referido como tendo sido em  ‘Chateau Grand’, presumivelmente código para Praga, capital da Checoslováquia..  Nunca se explicou bem como foi que Delgado conseguiu documentos e recursos para esta viagem, nem porque voltou para o Brasil. Ver Sertório, 1978, p. 183-4.

5.Ver Apêndice Documental B, Docº nº

6.Marcelo Fernandes  um dos dissidentes que mandara vir o general, mostrou há uns anos na RTP, no filme de José Eliseu, o documento que Delgado trouxe do sanatório checo. Viu-se ali - e o dr. Fernandes também o confirmou - que o documento estava escrito em língua russa. Na rapidez do filme poucos telespectadores terão notado a estranheza deste facto. O dr. Marcelo Fernandes tinha motivos suficientes para assinalar o significado desse documento.

7.  Pedro dos Santos Soares, membro do Comité Central do PCP, voltou a Argel anos mais tarde. Soares e a mulher, Maria Luisa Palhinha da Costa Dias, encontraram morte subita em Portugal aos 10 de Maio de 1975 num violento acidente rodoviário.

8. Silva Pais também os qualificou como tal no julgamento do “Caso Delgado”, em Outubro de 1978, na penúltima audiência em que prestou declarações (ver ‘Se é verdade o que diz Salazar, mente o director da PIDE S. Pais, se é verdade o que diz  Silva Pais, Salazar foi monstro de cinismo’,
Expresso 28 de Outubro 1978, pp. 6-R, 7-R).

9. Ver Manuel Sertório.
Humberto Delgado, 70 Cartas Inéditas, Lisboa, Praça do Livro, 1978.

10. Conhecido no PCP com o pseudónimo de ‘Campos’, Rodrigues depois conheceu um futuro conturbado. Ver rol de Personagens.
     
    
11.A 22 de Novembro de 1976.
Cuidado com Eles’, artigo do
Avante de Dezembro de 1964.
   
12 Francisco Martins Rodrigues e Ruy d’Espiney eram personagens apenas conhecidas dentro dos círculos restritos dos maoistas.portugueses.

13.Ver no Apêndice B ‘Comunicado de 5 de Dezembro de 1964’, alínea   Apêndice Documental B, Docº nº 5

14 Ver Apêndice Documental, Docº nº 12.

15.Ibid.  Docº nº 5.

16.Neurologista, Amilcar Cardigos Castanhinha e  sua mulher, a ginecologista Fernanda Castanhinha, ambos então adeptos do PCP, partiram para a Argélia com os cinco filhos à sugestão de Carlos Lança, seu familiar. Cedo desencantaram-se com os dirigentes da FPLN  e tornaram-se fieis apoiantes de Delgado.

17.Ver Apêndice B Docº nº 4.

18.Ver Apêndice B Docº nº 5.

19.Ver Apêndice B Docº.nº 6.

20.Adolfo Ayala era, desde a infância, deficiente físico, sofrendo de uma acentuada curvatura da coluna dorsal.
 
21.Ver Apêndice Documental B, Docº nº 7. O teor deste artigo mostra quão falsas eram as acusações posteriores de que os adversários de Piteira e do PCP se colaram ao general no intúito de se insinuarem na sua organização.  Na realidade, passaram a ser conhecidos como ‘delgadistas’ por ter-lhe dado o seu apoio contra os abusos do grupo de Piteira.

22 Desertor da Força Aérea Portuguesa  tinha combatido em Angola.  Mais tarde abandonou Delgado e aderiu ao grupo de Piteira.

23 Ver em Apêndice B, Docº  nº 8.
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