Quinta Parte: TRAGÉDIA E TRAIÇÃO
 
Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio

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QUINTA  PARTE
 
TRAGÉDIA E TRAIÇÃO


13.  As Preocupações Aumentam


A  FPLN inicia a sabotagem
Foi neste ambiente de angústia que rebentou, na noite do 23 de Fevereiro, a notícia de que Henrique Cerqueira, representante do general em Marrocos, anunciara o desaparecimento de Humberto Delgado. Cerqueira baseava-se  em postais recebidos de Badajoz e em instruções do general antes da sua partida. Pouco depois divulgou-se uma declaração, no mesmo sentido, vinda de Emídio Guerreiro, em Paris.
Nos meios jornalísticos de Argel esta notícia caiu como uma bomba. Eu estava, nesse momento, numa situação em que podia bem avaliar a reacção dos meios de comunicação internacionais. Desempregada do jornalismo, tinha sido convidada pelo correspondente do New York Times, em Argel, Peter Braestrup, a organizar um arquivo para um livro que ele tencionava escrever sobre a Argélia.
Ia quase todos os dias ao escritório do New York Times, onde naturalmente se congregavam vários jornalistas estrangeiros. Queriam saber da sorte de Delgado e interrogavam constantemente os exilados portugueses, inclusive os ‘patrióticos’ e  Piteira. Estes, todavia, teimavam em insistir que a notícia provinda de Cerqueira em Rabat não tinha qualquer fundamento; que Cerqueira não era pessoa idónea; que Delgado não tinha ido a Espanha; que estaria a gozar férias em qualquer praia italiana; que o general tinha montado uma operação publicitária.
Os portugueses, amigos de Delgado, também me disseram que os ‘patrióticos’  insistiam nesta versão, quando interrogados pelas ‘bases’ sobre a sorte do general.
Contudo, parece que o Presidente Ben Bella não ficou tranquilizado e no dia 25 de Fevereiro teria convocado os dirigentes da Frente Patriótica para conhecer a sua opinião.  O conteúdo preciso dessa conversa não é conhecido, mas pelo que se passou e, sobretudo, pelo que não se passou a seguir, podemos concluir que os ‘patrióticos’ deram a Ben Bella as mesmas ‘informações’ que tinham dado a outras pessoas: que não havia motivo para alarme. Só que também teriam aproveitado a entrevista para arrumar outro assunto: o problema de se apoderarem dos arquivos do general. Com o pretexto de que, na ausência prolongada de Delgado, os seus arquivos corriam o risco de cair em mãos indesejáveis, teriam conseguido a autorização do presidente argelino para ir ao bureau buscar os documentos do general. 

Tito e Alegre armam-se em valentes

Assim o tentaram: 48 horas depois da notícia do desaparecimento, na noite de 25 de Fevereiro - uma data a fixar - fizeram o que até aí não tinham tido a coragem de fazer. Mas não conseguiram. Uma dezena de indivíduos, com Tito de Morais à frente e Manuel Alegre atrás, tentou arrancar do Adolfo Ayala o arquivo. Este, que se encontrava sozinho no bureau, respondeu-lhes: Só morto! Perante esta atitude firme do homem que acompanhara Delgado na noite do assalto ao quartel de Beja, os ‘patrióticos’ desistiram. Foram então chamar a polícia argelina que ficou a guardar a entrada do bureau.  Poucos dias depois, Ayala foi informado pela polícia de que o bureau devia ser fechado. Contrariamente ao que disse mais tarde Tito de Morais, Ayala fechou a porta à chave, deixando o bureau à guarda da polícia e entregou a chave no comissariado da polícia, diante de várias testemunhas. Os documentos levou-os Ayala para a residência do general, onde passou a habitar, com o intuito de proteger esse último reduto contra um eventual assalto dos ‘patrióticos’1.
 

Ora, esta sequência é muito significativa, como iremos ver. Os ‘patrióticos’ recusavam dar qualquer crédito à notícia do desaparecimento de Delgado; pelo contrário, à semelhança da campanha dos salazaristas dentro de Portugal desenvolveram uma intensa campanha junto dos núcleos da emigração política portuguesa e na imprensa internacional tendente não só a desacreditar Delgado, mas também todo aquele que apelasse à salvação da vida do general. Enquanto o faziam, aproveitaram-se da situação para tentar apoderar-se do bureau e do arquivo. Com essa finalidade, já estavam a agir, como se o general tivesse realmente desaparecido 2.

Para qualquer solidariedade com o anti-salazarista que, oito meses antes, era o ‘chefe incontestável da oposição’, não só se recusaram a levantar um dedo mas, ao invés, tudo fizeram para sabotar a campanha que os amigos de Delgado se esforçavam por desencadear.
 

Guerreiro3 em Paris, tentando, ao longo dos dois meses que passaram antes do aparecimento dos cadaveres, organizar um inquérito internacional, deparou com constantes sabotagens dos ‘patrióticos’. Amigos de Piteira, utilizando as suas cunhas no jornal Le Monde, inspiravam artigos que insinuavam ter o general embarcado numa operação publicitária. Na rádio Voz da Liberdade, o major Ervedosa e Manuel Alegre insultavam Delgado5.  

Durante esses dois meses de angústia, foram os dirigentes da Frente Patriótica—Fernando Piteira Santos, Manuel Tito de Morais, Pedro Ramos de Almeida e Manuel Alegre - que envidaram todos os esforços para bloquear a realização de um inquérito e, caso o general estivesse preso ou com vida, quaisquer tentativas para o salvar. Esses ditos ‘anti-fascistas’ nutriam tanto ódio ao general Delgado que foram ao ponto de, criminosamente, se revelarem indiferentes quanto à sua sorte perante a PIDE; não sem o difamarem e vilipendiarem. 

A confissão involuntária de Tito de Morais

Para cúmulo, tentaram incriminar os amigos de Delgado. Todavia, antes de relatar o que se passou nos meses de Março e Abril, convem debruçar-me um pouco mais sobre que veio a ser chamado ‘o assalto ao bureau’.

Quando eu e os meus amigos soubemos, no dia seguinte, que os dirigentes da Frente Patriótica tentaram apoderar-se do arquivo do general, a conclusão foi unânime: só teriam essa desfaçatez se tivessem a certeza absoluta que Delgado já não voltaria mais. Sendo do domínio público em Argel a cobardia dos ‘patrióticos’, era inimaginável que tomassem tal iniciativa se houvesse a possibilidade do general vir a saber do desmando. Mesmo que conseguissem  proibir a sua entrada na Argélia, pensámos nós, ainda era cedo para tanta ousadia. Delgado, vivo e livre, viria a saber e denunciaria o roubo aos quatro ventos.  Com esta conclusão, ficámos ainda mais convencidos que algo de muito grave acontecera ao general: algo de que os ‘patrióticos’ tinham mais conhecimento do que nós.

Conclusão subjectiva? Talvez assim fosse na altura. Embora a nossa subjectividade se baseasse em qualquer coisa de muito objectiva—ou seja, a experiência vivida ao longo de dois anos sobre a falta de escrúpulos por parte dos inimigos de Delgado. 

Contudo, meses depois, veio uma inesperada confirmação dessa conclusão ‘subjectiva’. O jornal Semana Portuguesa de São Paulo, na sua edição nº 102 de 31 de Julho de 1965, publicou uma carta do eng. Tito de Morais, comentando notícias sobre os acontecimentos de Argel6. Além de conter muitas falsidades e confusões de vária ordem, a carta dizia:
Quando se tornou evidente que o General Delgado não regressaria a Argel por ter sido preso ou assassinado pelos agentes do fascismo que lhe armaram a cilada de Badajoz, solicitámos a devolução dos documentos da Junta…

Este parágrafo é muito elucidativo. Só depois da descoberta dos cadáveres, anunciada no dia 27 de Abril, é que a Frente Patriótica abandonou a tese de uma ‘operação publicitária’ por parte do general; só então, quando o mundo inteiro já sabia da morte do general, é que eles começaram a emitir protestos e apelos, recorrendo aos argelinos para se apoderarem do bureau e dos documentos. O parágrafo acima citado, da carta de Tito de Morais, não diz quando é que para ele se tornou evidente que o general teria ‘sido preso ou assassinado’. Mas foi-o forçosamente antes do aparecimento dos cadáveres, senão a referência à possibilidade do general ter sido preso não faria sentido7.  

Então, quanto tempo antes é que se tornou evidente para Tito de Morais e comparsas que o general não regressaria mais? Logo em Fevereiro? E quais as fontes de informação dos ‘patrióticos’?  Como era hábito deles recorrer às autoridades argelinas, será que aproveitaram a conveniente presença da polícia espanhola em Argel para confirmarem o desaparecimento de Delgado? 

Mesmo se admitirmos que não foi tão cedo que ‘se tornou evidente’ e que a intervenção da polícia argelina no dia 25 de Fevereiro fora ‘fortuita’, sabemos pela declaração do próprio Tito de Morais que a Frente Patriótica estava convencida, antes do aparecimento dos cadáveres,  que o general ‘não regressaria à Argélia’.

Está assim confirmado que essa Frente prosseguia a sua miserável campanha de dessolidariedade,  apesar de convencidos que alguma coisa de grave acontecera ao general.


           14. Os ‘Patrióticos’ Desmascarados

É evidente que a campanha de difamação conduzida pelos dirigentes da FPLN  suscitou vivos protestos da parte de núcleos de exilados portugueses espalhados pelo mundo. Em Argel, nove portugueses divulgaram, no dia 12 de Março, uma  declaração alertando para o desaparecimento do general e condenando a atitude da FPLN pelo seu silêncio e falta de solidariedade8. Os signatários repudiavam também o aproveitamento feito pela FPLN na ausência de Delgado para tentarem apoderar-se dos seus bens. Os nove subscritores eram membros da JAPPA9.  A declaração era acompanhada por uma cópia de um telegrama de solidariedade assinado por José Morgado e Ruy Luís Gomes10.
Um comunicado infame

No dia 23 de Março a Frente Patriótica viu-se obrigada a quebrar o silêncio que mantivera até aí, salvo nas emissões escabrosas da Voz da Liberdade, pelas vozes de Alegre e Ervedosa. Ao referir-se ao general Humberto Delgado, o comunicado da FPLN declara, inter alia, que … a sua actividade é prejudicial à unidade anti-fascista e a sua pessoa não interessa ao futuro democrático do país …11.
Levanta dúvidas quanto ao alegado desaparecimento do general por ter origem  em … um tal sr. Henrique Cerqueira12, residente em Rabat, pessoa destituída de idoneidade política, que se apresentou primeiramente como ‘porta-voz’ do general Delgade, posteriormente, segundo um ‘testamento político’ que o próprio general lhe teria confiado, como seu ‘herdeiro político’.
 
O comunicado enumera então uma série de motivos considerados suficientes pela FPLN para reputar como inverosímeis as notícias do desaparecimento de Delgado13. 


Democratas denunciam o comunicado da FPLN 

No dia 31 de Março, António Brotas, José Augusto Seabra e Fernando Echevarria14 divulgaram um comentário a este comunicado dos ‘patrióticos’15. Os assinantes escalpelizaram ponto por ponto as pretensões dos dirigentes da Frente Patriótica, desmascarando as contradições e a sua  má fé, caminho em que persistiram, depois do 25 de Abril até hoje,  para esconder o seu vergonhoso papel no ‘caso Delgado’.
Nesse mesmo dia, Emídio Guerreiro escreveu uma carta a Manuel Sertório, cujas cópias foram divulgadas pela Frente Portuguesa em Argel15. Em palavras apaixonadas, Guerreiro protestava veementemente contra o comportamento e o comunicado de Sertório e seus comparsas:
A vossa atitude é escandalosa. É politicamente horrível! Ela é desumana e perigosa, porque permite à PIDE fazer o que quiser do general, se…já não o fez16
.

E classifica os dirigentes da Frente Patriótica de sociologicamente produtos híbridos do regime salazarista17.

Todos estes documentos mostram na sua essência a atitude dos amigos do general e a atitude de Piteira e seus coniventes.

De Rabat, evidentemente, vinham constantes comunicados. Henrique Cerqueira iniciava a sua dolorosa e incansável luta contra os inimigos do general. Alguns desses documentos contêm acusações bastante graves e relatam factos que não estou em condições de confirmar ou infirmar18 .
No dia 27 de Abril terminaram as hipóteses e quaisquer esperanças. As agências noticiosas divulgaram o aparecimento dos cadáveres na aldeia espanhola de Villa Nueva del Fresno. Tudo levava a supor que se tratava do general e da sua secretária. Contudo, abria-se uma nova fase: de outras hipóteses, estas não menos macabras, e de uma actuação ainda mais ignóbil por parte dos ‘patrióticos’.


15. As Prisões

Depois da notícia de dia 27 de Abril, a Frente Patriótica viu-se compelida a desistir da sua campanha de denegrição de Humberto Delgado. Afinal, estava tragicamente provado não ter havido qualquer ‘operação publicitária’ e sim uma tentativa desesperada do general de pôr em movimento preparativos para uma acção revolucionária.

Então a Frente fez uma viragem de 180 graus. Morto, o general já merecia solidariedade. Morto, ele serviria de novo como bandeira da ‘unidade anti-fascista’. Morto, já não se podia dizer, como no comunicado de 23 de Março, que Delgado era uma pessoa que ‘não interessava ao futuro democrático de Portugal’. Senão como explicar que a PIDE o tivesse assassinado?

A imprensa salazarista e também alguns importantes jornais estrangeiros já falavam na hipótese do general ter sido vítima de uma conspiração comunista. Tornava-se agora imperativo, depois de tudo quanto acontecera, acusar a PIDE e não deixar margem para dúvidas.

Assim a Frente Patriótica, cujas atitudes desde o dia 23 de Fevereiro tinham objectivamente ajudado os assassinos, concentrava-se agora no esforço de abafar o passado recente e tentar incriminar as pessoas que pudessem vir a ser testemunhas inconvenientes.

Portanto, mais urgente do que nunca era a Frente apoderar-se de quaisquer documentos que o general tivesse deixado. Sabia-se que antes de partir Delgado confiara aos cuidados de Adolfo Ayala um documento importante para ser aberto dez anos depois da sua morte. Evidentemente que Piteira e o PCP nunca podiam deixar um documento desses nas mãos de pessoas que não controlavam.

Nos dias que se seguiram à notícia do aparecimento dos cadaveres, a rádio Voz da Liberdade desencadeou uma intensa campanha. Passou a transmitir diariamente. Proclamava que a Frente Patriótica estava empenhada num inquérito aprofundado; que já tinha nas suas mãos dados que provavam que o general fora atraiçoado pelos seus companheiros próximos, agentes da PIDE, infiltrados na oposição. O alvo principal das acusações era Henrique Cerqueira - o homem que, cumprindo rigorosamente as ordens de Delgado, alertara o mundo no dia 23 de Fevereiro. Mas não era o único. As emissões, pela voz de Manuel Alegre e Ervedosa, insinuavam que também existiam em Argel pessoas culpáveis da morte do general.  E prometiam que, dentro de poucos dias, teriam dados concretos a fornecer. Preparava-se o ambiente para se prenderem os inimigos da Frente Patriótica.

Existem diversas versões da maneira como se processaram tanto as detenções como a libertação de pessoas presas nessa primeira semana de Maio de 1965. Para completar a história do que se passou em Argel, julgo ser de alguma importância contar em pormenor tudo a que pessoalmente assisti.

Aparece a polícia

Na noite de 4 de Maio, Carlos Lança e eu tinhamos ido visitar Amílcar Castanhinha em sua casa. A conversa naturalmente concentrava-se à volta da tragédia de Badajoz. Debatemos todas as hipóteses. Vim a saber que, logo de início, se sabia que o general fora a Espanha, em virtude de Arajarir de Campos ter pedido um visto de entrada no seu passaporte brasileiro à embaixada de Espanha em Argel. Era óbvio que as autoridades espanholas e, portanto, as argelinas sabiam muitíssimo bem desde o começo da ida do general a Espanha. Escusado dizer que ficámos bastante perplexos perante mais este exemplo da falta de prudência de Delgado.

Estávamos no meio desta conversa, pesada de implicações, quando apareceu, excitadíssima, Joaquina Fernandes, mulher de Marcelo Fernandes. Trazia a notícia de que o marido acabara de ser preso pela polícia argelina e que outros portugueses tinham sido igualmente detidos. Mal iniciara o relato dos pormenores, quando de novo se ouviu bater à porta.

Entraram polícias argelinos à paisana, acompanhados de um agente fardado e armado de metralhadora, mais o dr. Fernandes, algemado. Tinham vindo buscar o dr. Castanhinha e a mulher, a médica Fernanda Castanhinha. Perguntaram se nós também éramos portugueses. Eu invoquei o meu passaporte britânico, mas em vão. Vai tudo! -disse o que parecia ser o chefe argelino. Protestámos - havia os cinco filhos dos Castanhinhas, menores de 15 anos - como é que podiam ser deixados sós a essa hora da noite?

Os polícias não quiseram ouvir. A porta da sala estava aberta para o átrio de entrada onde se achava Marcelo Fernandes, que tentava dizer-nos qualquer coisa em português. Temendo a reacção dos polícias, caso suspeitassem que ele queria esconder-lhes algo, dissemos-lhe que falasse em francês. E tivemos razão porque, quando persistiu em falar português, o polícia mais perto virou-se para ele e deu-lhe uma forte bofetada.

Perante isto, vimos que não havia  nada a fazer senão obedecer. Descemos os oito andares às escuras, pois havia muito tempo que os elevadores e as luzes nas entradas tinham deixado de funcionar na maioria dos prédios argelinos. Lá em baixo, entrámos nos Peugeots da polícia, que arrancaram logo para fora da cidade.

Esse passeio ficou-me gravado na memória. Dentro de breves instantes tornou-se evidente que não estávamos a ser levados a qualquer comissariado normal, mas sim na direcção das tenebrosas instalações, outrora de uma clínica psiquiátrica, onde durante a guerra colonial os legionários franceses torturavam com electro-choques os combatentes nacionalistas. Eu já sabia, pelos meus amigos argelinos, que essas instalações estavam de novo a funcionar e ouvira boatos sinistros sobre o que se passava lá dentro.

Chegámos finalmente. Separaram os homens das mulheres. Numa sala mandaram-me ficar de pé num canto e às minhas companheiras noutros, aguardando o interrogatório. Passaram-se talvez duas horas assim, até que fui chamada. O agente que me interrogou passou a pente fino tudo quanto eu trazia na carteira, até os bâtons e a caixa de pó de arroz. As perguntas, porém, eram de rotina e demoraram pouco. Depois mandou-me sair, acompanhada por dois jovens polícias que me levaram a minha casa para revistarem o que lá tinha.

Nunca antes fora presa, por isso a minha preocupação principal foi manter-me calma, não provocar a polícia e procurar aproveitar uma característica dos árabes, a sua susceptibilidade a um tratamento delicado por parte de europeus. Os rapazes foram correctos e até gentis comigo. Resolvi tentar saber do que se tratava. Mostrei-lhes tudo o que havia no meu apartamento, que eles revistaram muito sumariamente. Sob pretexto de inanição, pedi licença para fazer um café. Que também lhes ofereci. Então perguntaram-me como explicava eu falar francês com um sotaque inglês. Expliquei e mostrei-lhes exemplares dos meus escritos sobre Portugal. E eles, cada vez mais encavacados, finalmente admitiram que se tratava de um inquérito sobre o caso Delgado.

Voltaram a levar-me à ‘clínica’ e, por volta das duas ou três da manhã, eu e Fernanda Castanhinha fomos transportadas a casa desta, acompanhadas por dois agentes e um jovem polícia fardado, armado de metralhadora. Aí, revistaram toda a casa sem encontrar nada que lhes interessasse. Finalmente deixaram-nos, mas presas, à guarda de um polícia que permaneceu toda a noite na sala com a sua metralhadora, dizendo que os nossos maridos haviam de aparecer dentro em breve.

Claro que não dormi. Fiquei acordada ao lado da Fernanda a meditar num plano para alertar os meus amigos. Por volta das sete da manhã resolvi tentar ganhar a confiança do nosso guarda e fui à cozinha fazer café que lhe ofereci, com um cigarro. O rapaz estava morto de sono e irritado com os seus chefes. Agradeceu-me o café, dizendo que tinha estado 48 horas de serviço e que, se não aparecesse um substituto, ele largava o posto e ia para casa. Então eu perguntei se as crianças podiam ir às aulas ou se estavam, também elas, presas? Respondeu-me que não tinha quaisquer instruções a respeito das crianças.

Fui falar com o filho mais velho de Castanhinha, o Fernando Amilcar. Entreguei-lhe um bilhete para uma amiga minha, que morava ao pé, contando os acontecimentos da noite e pedindo que ela contactasse outros amigos meus, sobretudo a imprensa estrangeira. O pequeno partiu para a escola e, no caminho, passou pela casa da minha amiga. Ela era a Josie Fanon, viúva de Frantz Fanon, o psiquiatra da Martinique que se tornara uma das mais prestigiadas figuras da revolução argelina e um escritor de renome internacional19.

Dentro em pouco o telefone começou a tocar e o nosso guarda, cada vez mais farto do seu ingrato papel, deixou-me atender. Era Pierre Moser do Le Monde; Peter Braestrup do New York Times; o cônsul britânico e mais outros. Embora não soubéssemos nada dos nossos maridos, sentia-me já um pouco aliviada: o nosso caso já era conhecido. Agora o inimigo não podia mais, à boa maneira fascista—e comunista—contar com o segredo das detenções a altas horas da noite!  Não tardaria que as agências do mundo inteiro começassem a divulgar a notícia das nossas detenções.
Por volta das dez da manhã apareceram os indivíduos que nos tinham prendido, em companhia da Joaquina Fernandes. Mesdames, vous êtes libres comme des oiseaux! - anunciou-nos o chefe, com um sorriso algo forçado. E os nossos maridos? –perguntámos - Estarão cá dentro de poucas horas!—respondeu.

Presos por instigação dos ‘patrióticos’

Não era verdade. Os outros  detidos viriam a passar alguns dias, incomunicáveis, na prisão. Soube então que tinha havido 16 pessoas detidas; a lista completa era a seguinte:

•    Adolfo Ayala
•     Amílcar Castanhinha e esposa
•    António Gomes Paula  Figueiredo
•    António Tavares
•    Carlos Lança e esposa
•    Fernando Bettencourt Rosa e esposa (francesa)
•    José Ferreira da Silva
•    José Moura Marques
•    Manuel Fernandes Vaz
•    Marcelo Fernandes e esposa
•    Raymond David e esposa (franceses)  
Com excepção da Fernanda Castanhinha, Joaquina Fernandes e eu própria, os outros continuaram presos.

Tornava-se claro, e veio a ser depois confirmado por António Brotas em cartas publicadas, que as prisões foram mesmo instigadas pelos dirigentes da Frente Patriótica que discutira esse projecto numa reunião, poucos dias antes20. Piteira Santos e Tito de Morais votaram a favor, o major Ervedosa contra. Mais tarde, o porta-voz da FPLN, Tito de Morais, assustado com a inesperada notoriedade do caso, veio desavergonhadamente mentir, primeiro em 1965 e depois no filme da RTP de José Eliseu21, chegando ao ponto de alegar que os detidos foram postos em liberdade devido à intervenção da Frente Patriótica!

Infelizmente, para a averiguação total das culpas, houve também da parte de alguns delgadistas uma certa falta de lisura no relato dos acontecimentos. Na realidade, passado o primeiro choque da morte de Delgado e das prisões, tanto os delgadistas como os maoístas da FAP deixaram de atacar publicamente a FPLN para se concentrarem sobre a PIDE, e só a PIDE.  O velho tabu de não prejudicar a ‘unidade antifascista’ prevaleceu. Para quase todos era impensável trazer à luz factos que pudessem desprestigiar a ‘oposição’ e fazer, segundo eles, o jogo do regime de Salazar. Do mesmo modo, qualquer facto que não fosse susceptível de aproveitamento político, era para esquecer. 

Foi assim que ninguém até hoje se interessou em contar como se conseguiram libertar os detidos e desfazer a conspiração dos ‘patrióticos’, embora não fosse segredo nenhum e todos os interessados estivessem bem a par de como as coisas se passaram.

O apelo a Ben Bella

Enquanto outros amigos dos detidos se movimentavam para contactar os núcleos da emigração e projectar iniciativas despropositadas, como uma manifestação de mulheres portuguesas junto à prisão (que felizmente nunca se realizou), eu afastei-me, assim que pude, e comecei a trabalhar junto dos meus amigos argelinos. Logo me encontrei em desacordo com os outros portugueses que, reagindo como se estivessem ainda em Portugal a lutar contra a PIDE, me criticavam por ter oferecido café e cigarros ao nosso guarda - estava a ‘colaborar com a polícia’, diziam eles, ignorando que só assim conseguiria alertar a imprensa mundial.

Mas eu sabia que agora a prioridade era conseguir a libertação urgente dos presos e não algum aproveitamento político do caso, aliás, muito discutível. Conhecia a sensibilidade ultra-nacionalista dos argelinos, que podiam muito bem irritar-se se os presos e os seus amigos começassem a armar-se em valentes e, ainda pior, com manifestações de rua, certamente ridículas, dado o número insignificante de portugueses em Argel. Também não tinha dúvidas que a polícia argelina podia ter para com estrangeiros sem  protecção diplomática do seu país um comportamento bem pior do que a PIDE.  Para mim e os meus amigos argelinos o momento não era de tentar tirar qualquer proveito político, nem de atitudes histriónicas, e sim meter simplesmente as maiores cunhas possíveis para conseguir ultrapassar as poderosas cunhas dos ‘patrióticos’.

E assim procedi.

Josie Fanon, que além do seu prestígio como viúva do grande Fanon, era uma jornalista conhecidíssima em Argel, resolveu que a estratégia mais correcta seria intervir, como nossa amiga íntima, a favor de Carlos Lança e não pretender tomar partido na querela entre os delgadistas e a FPLN. Dar a conhecer a situação de Carlos e as circunstâncias das prisões, seria automaticamente dar publicidade a todos, no plano argelino.
Ao longo de três dias, acompanhei  Josie Fanon aos gabinetes das mais poderosas entidades argelinas. Parecia que ninguém sabia nada do assunto, até chegarmos a falar com o comandante da gendarmerie de Argel, o coronel Ben Sharif. Este informou-se logo. Era um homem temível, conhecido pela alcunha de ‘o tigre’. As prisões tinham sido efectuadas, disse-nos, por um sector da polícia dependente da presidência e sobre o qual ele não exercia poder. ‘O tigre’ lamentou muito, mas as circunstâncias eram difíceis. Se tivesse acontecido alguns dias atrás… Só mais tarde percebemos que as circunstâncias foram realmente difíceis: um golpe de Estado estava em preparação e os argelinos não estariam muito dispostos a preocupar-se com problemas de menos importância.

Foi então que Josie Fanon decidiu fazer uma coisa que até lá, por princípio, nunca fizera, apesar do prestígio que, na Argélia independente, cobria o seu nome: pedir um favor pessoal a Ben Bella.

No dia seguinte, sexta-feira à tarde, acompanhei-a ao palácio do presidente da República, onde ela pediu uma audiência com o próprio presidente. Fiquei lá fora no carro, à espera, ansiosa, porque esta ocasião era a nossa última esperança. Finalmente ela voltou com a boa nova de que, dentro de poucas horas, os detidos estariam em liberdade.  Ben Bella tinha-se mostrado surpreendido com o pedido. Dissera nada saber da prisão de portugueses (embora os jornais estrangeiros noticiassem as prisões todos os dias!…). Ainda assim pegou no telefone, informou-se e então mandou que os libertassem imediatamente!

Soubemos depois que Emídio Guerreiro se deslocou de  Paris  a Argel para ajudar os presos, mas sem conseguir falar sequer com um único alto funcionário do gabinete do presidente, tal era o poder de Piteira e seus comparsas. Foi então que os ‘patrióticos’, postos em xeque, propalaram ter sido eles a tomar medidas junto dos argelinos para conseguir a libertação dos presos!

Convenhamos que esta história é particularmente triste. Embora sabendo muito bem como foi que se efectuou a libertação dos presos e a publicidade feita imediatamente após as detenções, nenhum dos interessados teve alguma vez a elegância de relatar os factos verdadeiros nas numerosas entrevistas e depoimentos que deram ao longo destes  anos todos22. Porquê?  Pela mesma razão, talvez, porque todos fizeram silêncio sobre um artigo meu na Partisans? Nem Carlos Lança, nem eu, e ainda menos Josie Fanon, partilhávamos as ideias dos delgadistas.  E, deste modo, a oposição portuguesa no exílio continuou com a tradicional política das capelinhas, que tanto mal nos tem trazido, antes e depois do 25 de Abril.

Que lhes valeu tal atitude? Nenhum deles foi chamado a elucidar, imparcialmente, o caso Delgado. Pelo contrário, Fernando Piteira Santos, o mais feroz inimigo do general, seria a pessoa chamada a depor em Espanha pelo juiz Crespo Marquez como testemunha do processo do assassínio de Delgado. Deslocou-se de Argel, no dia 18 de Abril de 1966, com um salvo-conduto das autoridades franquistas. No mesmo dia partiu para Roma outro dos inimigos principais de Delgado, o fraudulento Ramos de Almeida. Naquela cidade deu uma conferência de imprensa, apresentando aos jornalistas as conclusões principais da análise dos documentos apresentados ao tribunal espanhol por Piteira Santos!

Nessa mesma data a viúva e o filho do general, acompanhados pelo seu advogado, Mário Soares, também viajaram para Madrid.

Daí em diante, até hoje, a versão oficiosa do que aconteceu em Argel continua a ser a versão dos inimigos de Delgado. Qualquer indivíduo que teime em apresentar factos contrários é caluniado e perseguido. Com poucas excepções, a imprensa do Portugal democrático, a rádio e a televisão conservam-se vedados a testemunhas que não partilhem a ‘versão oficial’. Ou, então, como nos filmes de José Eliseu e Cândido de Azevedo23, tem havido cortes e censuras nos depoimentos inconvenientes.

Os piores inimigos de Delgado foram e continuam a ser protegidos e mantidos em posições de destaque, ao mesmo tempo que peroram desavergonhadamente em seu nome,  aquando das comemorações e homenagens.
Como se tem processado, desde o 25 de Abril, o encobrimento dos crimes da FPLN? Como se explicam as contradições e incongruências do julgamento do caso Delgado? Tudo isso não cabe nesta narrativa. A minha história de Argel está a chegar ao fim no que diz respeito a Delgado. Pouco mais há.

O golpe de Estado 

No dia 19 de Junho de 1965, seis semanas depois da libertação dos portugueses presos, Ben Bella foi derrubado pelo golpe de Estado do coronel Houari Boumedienne. As portas das prisões abriram-se e saíram milhares de presos políticos. O jornal do Partido Comunista Argelino foi encerrado. Os partidos comunistas estrangeiros ficaram desorientados. Os seus jornais relatavam que o sangue corria pelas ruas de Argel quando, na realidade, o golpe foi tão pacífico como o pacífico 25 de Abril de 1974 em Portugal. Boumedienne seria apelidado de ‘fascista’. Michel Pablo-Raptis e outros conselheiros estrangeiros do presidente deposto fizeram as malas e fugiram da Argélia. Durante algum tempo pensámos que a FPLN de Piteira tivesse perdido o seu mais influente suporte. Porém, pouco a pouco, tornou-se evidente que a política estrangeira da Argélia não seria modificada. Só tinham sido afastados os esquerdistas mais excêntricos. A União Soviética, ao vender as suas armas aos coronéis argelinos, acendeu a luz verde e Boumedienne deixou de ser ‘fascista’.

Os ‘patrióticos’ tinham de novo as suas emissões radiofónicas e de novo se pavoneavam pelas esplanadas. De novo faziam as suas intrigas. A mim roubaram o meu passaporte britânico que, depois, apareceu ‘misteriosamente’ nos arquivos selados do jornal do Partido Comunista Argelino, vindo novamente a ser roubado por um português da Frente Patriótica24. Contra Carlos Lança conseguiram uma ordem de expulsão do território, que só não teve efeito por ele ter ido trabalhar como topógrafo longe de Argel, no deserto, onde as intrigas da capital mal chegavam. E, finalmente, em 1966, Manuel Alegre atacou-me na rádio, como será relatado mais adiante.

Para a Argélia, o golpe de Boumedienne trouxe pelo menos uma vantagem: desapareceram os conselheiros estrangeiros do presidente.. Então viemos a saber como foi que se conseguira a prisão dos portugueses. Pablo era o encarregado dos biens vacants - como já referimos - e distribuía os prédios abandonados pelos franceses. Ora, um certo funcionário, de nome Magraoui, da presidência da República, necessitava de uma habitação ‘condigna’. Instigado por Pablo, que por sua vez actuava em favor do seu amigo Piteira Santos, foi monsieur Magraoui quem combinou com a polícia a prisão dos portugueses, a evacuação da vivenda atribuída a Delgado e a entrega do arquivo. Passados poucos dias, monsieur Magraoui foi instalar-se na vivenda com a família. Os móveis, documentos e dinheiros do general desapareceram. Foi talvez a última manobra de Pablo, na Argélia.No que diz respeito a Delgado, esta narrativa acaba neste ponto. Sei que tem lacu
nas. Mas elas são involuntárias. Contei a verdade, tal como a vivi.

Nas semanas que se seguiram à morte de Delgado e à prisão dos portugueses, refugiei-me em Douaouda, na casa de praia de Josie Fanon, e ali meditei longamente na experiência desses três anos passados na Argélia e na problemática da oposição portuguesa.

Ainda me considerava marxista. Como tantos outros, julgava que o materialismo dialéctico era uma filosofia válida e que o estalinismo da União Soviética não era mais do que um desvio no caminho ideal para um mundo melhor. Iriam passar alguns anos, muitos estudos e reflexão, até conseguir curar-me dessa doença que contraí na adolescência. Assim, nesse Verão de 1965, esforcei-me por analisar a situação  portuguesa, partindo de bases marxistas. A ditadura salazarista seria um regime fascista, embora eu já levantasse a hipótese de uma  transformação pacífica. Hipótese herética, aliás, porque, segundo o dogma marxista, regimes fascistas não eram susceptíveis de reforma. Só acabariam por meio da guerra ou da revolução popular.

Numa óptica maoísta, sobrestimava as potencialidades da revolução colonial, pela qual os ‘condenados da terra’ iriam salvar o mundo. Inspirada por essa visão utópica, revoltada contra as indignidades cometidas por Piteira e os seus comparsas e profundamente chocada com a tragédia de Badajoz, escrevi um artigo para a revista Partisans, que gozava de uma grande audiência na esquerda francófona25.

Apesar da errónea óptica política, os factos relatados são verdadeiros e sintetizam, quanto ao caso Delgado, o que vem narrado neste volume. Devo a Viriato da Cruz o conhecimento de muitos dados económicos e políticos que citei sobre Portugal. Só não toquei no papel dos argelinos e na prisão dos portugueses por ainda me achar a viver na Argélia na situação insegura de estrangeira com muitos inimigos. O artigo, por conseguinte, constitui um testemunho contemporâneo sobre os acontecimentos e também uma análise bastante exacta da evolução da situação portuguesa da altura. Julgo de uma certa importância republicá-lo agora, passados tantos anos, por causa das suas repercussões naquele tempo e durante os anos seguintes. Estas demonstram cabalmente como, desde o princípio, os principais actores estavam empenhados em ocultar os factos e a raiva caluniosa com que tratavam quem ousasse contar a verdade.

Hoje, não adiro completamente à apreciação política da figura de Humberto Delgado feita em 1965. Nessa altura não acreditava que um golpe de Estado viesse derrubar o regime. A História veio dar razão a Delgado e desmascarar o vazio das pretensões da velha oposição marxisante. Infelizmente, o putsch de 25 de Abril de 1974, pelo carácter de algumas das suas principais personagens, foi susceptível de aproveitamento por essa mesma oposição.
Quem foi que projectou a eliminação de Delgado? Os ultras do regime? O PCP?  Elementos de um determinado nacionalismo africano? Ou foi um obscuro conluio de vá rios grupos, servindo-se de agentes infiltrados na PIDE? Sempre fiz e continuo a fazer as mesmas perguntas? A velha máxima latina - cui bono? - ficou-me no espírito até hoje. A quem beneficiou o crime? A quem beneficia ainda hoje a ocultação da verdadeira história de Argel?  Quem não deve, não teme, diz o povo.

Os dirigentes da FPLN, naturalmente, sentiram-se bastante lesados pelo meu artigo na Partisans. A princípio, sem qualquer capacidade de resposta aos factos ali citados, refugiaram-se no silêncio absoluto. Mas nos começos de 1966 surgiu-lhes uma oportunidade de empregar a sua arma preferida—a calúnia. Marcel Niedergang, jornalista especializado em assuntos portugueses, publicara no jornal Le Monde uma série de artigos sobre Portugal, altamente críticos do regime salazarista26. Em resposta, o então chefe da Casa de Portugal em Paris, Manuel Rino, escreveu uma longa carta ao Le Monde, citando extractos do meu artigo, e nela tratou a autora de ‘comunista inteligente’27. Este inesperado ‘elogio’ provou ser um presente envenenado.

Os inimigos de Delgado em Argel imediatamente agarraram a ocasião oferecida pelos salazaristas. Encarregaram Manuel Alegre de ler um comunicado a meu respeito numa emissão da rádio Voz da Liberdade. ‘Informou’ o poeta que Patrícia McGowan Pinheiro era uma cidadã estrangeira que nunca tinha pertencido a qualquer formação da oposição portuguesa; pelo contrário, fora expulsa de um partido estrangeiro, suspeita de espionagem; era correspondente em Argel do New York Times e, como tal, agente da CIA (sic!) e uma comunista feita pelo SNI.
Na Argélia de 1966, onde depois de se  livrarem de Delgado, estavam Piteira Santos e os seus amigos, outra vez ‘no poder’, e como o governo Argelino se tinha recentemente aproximado da URSS, não havia qualquer possibilidade de uma resposta minha às difamações e veladas ameaças. 

Fiz as malas e, pouco depois, voltei para Inglaterra, seguida umas semanas mais tarde por Carlos Lança28.  Daí, até depois do 25 de Abril, abandonei tanto a política como o jornalismo e dediquei-me ao ensino Os ‘patriotas’, todavia, sentiram-se tão feridos que não se esqueceram de mim.  Como aludi no prefácio, continuaram a preocupar-se comigo já no Portugal democrático29.

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Referências

1. Ver em Apêndice Documental B3 doc. n.º 23.

2. Ibid. doc. n.º 22,. Rui Perdigão, dissidente do PCP e antigo encarregado da emissora do partido em Bucareste, em artigo publicado na revista trimestral Nova Renascença, vol. XII, Primavera/Outono de 1992, 'As Relações do PCP com dois eminentes antifascistas: Emídio Guerreiro e Manuel Valadares' confirma o papel de Álvaro Cunhal nessa campanha: Quando começa a circular a notícia do desaparecimento de Delgado encontro-me ocasionalmente em Moscovo, e em contacto quase diário com Álvaro Cunhal. Tive ocasião de conversar muito com ele sobre isso, opondo-me aliás com muita força à sua opinião de que tudo aquilo não devia passar de um golpe publicitário do general e insistindo com veemência em que a Rádio Portugal Livre, de que eu continuava a ser um dos responsáveis, deveria cessar de fingir ignorar o caso e tomar muito a sério a hipótese do general ter sido preso ou estar morto.
Ver também A Tirania Portuguesa, (Organização, compilação e introdução de Iva Delgado e Carlos Pacheco), Lisboa, Publicações Dom Quixote, 1995: Anexo Documental, Documento Nº 37 ‘Comunicados da Rádio Portugal Livre’ de 31 de Março e de 15 de Abril de 1965; e Documento Nº 38, Entrevista de Álvaro Cunhal na mesma rádio, 28 de Fevereiro de 1965.

3. Ver em Apêndice Documental B3, Docº N
º 22.
   
4. Segundo carta de António Brotas publicado por Henrique Cerqueira em Acuso,   Lisboa, Intervenção, 1976, pp 94-98, entre esses amigos figuravam o jornalista Veiga Pereira e o engenheiro agrónomo António Poppe Lopes Cardoso.

5. Manuel Alegre de Melo Duarte, chegou a Argel no último quartel de 1964 onde participou no IIIº Congresso da Frente Patriótica e foi eleito para a sua direcção.  Durante dez anos foi o principal animador e locutor da rádio 'Voz da Liberdade', ver Cândido de Azevedo, Classe Política Portuguesa.

6. Ibid. docºs. n.º 22 e nº 23.

7. Ibid. docºs. n.º 21 e nº 22.

8. Ibid. docº. n.º 18

9. Os signatários eram: Alzira Carvalho Seabra, António Brotas, Fernando Echevarria, José Augusto Seabra, Helder Veiga Pires, Maria Luisa Hipolito dos Santos, António Gomes Paula Figueiredo, José Moura Marques, Adolfo Ayala.

10 Anexo ao doc. Nº 18.

11 Apêndice Documental B3, Docº Nº 20.
 
12 Henrique dos Santos Penha Cerqueira, também conhecido por Henrique Penha,  activo nos serviços    electorais de Delgado em Huambo , Angola, em 1958. foi o representante do general em Marrocos,. Autor do livro Acuso, Lisboa, Intervenção, 1976, Cerqueira atraiu, desde a sua chegada a Marrocos, em Outubro de 1963, a hostilidade ferrenha dos dirigentes da  Frente Patriótica. Atacaram-no com toda a especie de acusações, nenhuma das quais ficou alguma vez provada, incluindo a de ele ter-se apresentado como ‘herdeiro político’ de Delgado.

13 Ver Apêndice Documental B3, Docº Nº 20.

14 Ibid. Docº Nº 21.
 
15 Ibid. Docº.N.º 21.

16 Ibid.

17 Ibid.

18 Henrique Cerqueira, op.cit.

19 Filosofo da revolução colonial, e especialmente africana, as duas mais conhecidas obras de Fanon são: Peau noire, masques blancs, Paris, Editions  de Seuil, 1952, e Les Damnés de la terre, Paris, François Maspero, 1964

20 Ver em Apêndice Documental B3, docº. nº 24.

21 Outubro de 1978.

22 Tanto os 'patrióticos' como Emídio Guerreiro vieram a reivindicar a 'honra' de terem sido eles a conseguir a libertação dos portugueses presos.  Estavam à vontade para inventar tal mito.  O distanciamento da Josie Fanon tanto do regime de Ben Bella como do de Boumedienne e a sua escrupulosa postura de neutralidade política nos assuntos internos argelinos, eram garantia suficiente que nem ela, nem eu, iamos alguma vez vir a público nesses tempos falar da sua intervenção junto de Ben Bella.  No entanto cada um dos portugueses que foram presos lhe agradeceram pessoalmente a sua actuação.
 
23 Documentos exibidos na RTP.

24 Evidentemente que me queixei à polícia. Pouco depois recebi, em casa  de Josie Fanon, a visita de dois agentes espanhois, devidamente identificados, que queriam mais informações sobre o assunto. Com a maior naturalidade explicaram que estavam em comissão de serviço junto da polícia argelina, que      conheciam  bem Portugal e que gostavam muito dos portugueses.

25. Este artigo, 'A oposição portuguesa depois da morte de Delgado', que figura no n.º 21, Junho/Julho-Agosto de 1965, pp. 23-33, daquela revista, vem reproduzido na integra no Apêndice Documental A.

26 Le Monde, 'Le Silence du Portugal', 7.12.1965 e seguintes.

27 Le Monde, 'Correspondance', 13.1.1966.
 
28 Curiosamente, Carlos Lança foi recusada um visto de trânsito pela Embaixada francesa, e uma carta metida por ele no aeroporto em Paris onde mudou de avião nunca chegou ao seu destino.

29 Ver os documentos reproduzidos no Apêndice Documental C. Contudo, além do que foi publicado a meu respeito, também houve intrigas. Enquanto eu trabalhava no Gabinete de Estudos e Planeamento do Ministério da Educação, em 1974-75, o Director do GEP, o Eng. António Brotas foi chamado ao Ministro, o MFA, Emílio Silva. Este queixou-se de que Brotas tivesse nomeado para funcionária do Ministério uma senhora que seria um agente duma potência estrangeira. Brotas, que bem conhece as manigâncias do bando de Argel, recusou as acusações, remetendo-as para o emissor—Piteira Santos.


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