Quarta Parte: OS MESES DO FIM

 

Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio


10. A Frente Portuguesa.  11. Ben Bella Aposta nos Adversários de Delgado. .  12. Delgado Desaparece 

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Quarta Parte

OS MESES DO FIM
  
10. A FRENTE PORTUGUESA

A ruptura entre o Delgado, presidente da Junta Revolucionária Portuguesa, e os restantes membros presentes em Argel ficou, como vimos, finalmente consumada com a carta do general de 4 de Agosto de 19641. Delgado, contudo, ainda não tinha rompido com a Frente Patriótica, enquanto organização. Somente suspendera membros que ele considerava indignos dos altos cargos que a Segunda Conferência lhes tinha atribuído.  Delgado actuou impulsivamente, revoltado, por um lado, contra a situação que foi encontrar na colónia portuguesa de Argel e, por outro, contra a evidente falta de vontade dos outros membros da Junta para um trabalho em conjunto na preparação de uma acção revolucionária a curto prazo.
 

O equívoco argelino

Depois de algumas hesitações durante o mês de Julho, em consequência da sua entrevista com o presidente Ben Bella no dia 30 desse mês, Delgado agora sentia-se forte. Não conhecia nem o ambiente do país nem o carácter do dirigente argelino. Em todas as cartas e documentos de Delgado, até hoje divulgados, não transparecem quaisquer dúvidas a respeito da boa fé de Ben Bella.  Parece eviden-te que o general vivia numa ignorância quase total quanto à complexa política argelina e ao passado do presidente. Várias vezes se referia ao presidente argelino como militar quando, na realidade, Ben Bella não fora mais do que um mero sar-gento no exército francês. Depois, na luta pela independência, praticou actos terro-ristas, incluindo o assalto a um banco. Enquanto os verdadeiros militares argelinos estavam a formar-se nos maquis e depois nas fronteiras, Ben Bella passara a maior parte desses anos na prisão. 

Ora, nesse Verão de 1964, dois escassos anos depois de chegar ao poder, a notoriedade grangeada por Ben Bella era de querer sempre agradar a gregos e troianos,. Nos meios políticos e da imprensa contavam-se diariamente exemplos grotescos do comportamento flagrantemente contraditório do presidente. Rodeado por conselheiros estrangeiros, da esquerda católica francesa, passando  por trots-kistas, até comunistas egípcios, libertados por Nasser a pedido de Ben Bella, este parecia ser incapaz de dizer «não» a quem quer que fosse. Extremamente afável no contacto pessoal, deferia todos os requerimentos, fazia promessas a todas as delegações, enquanto os seus discursos públicos tornavam-se cada vez mais demagógicos. Tanto garantia o seu apoio ao MPLA de Neto como à FNLA de Holden Roberto; cada um ficava convencido que os dias do adversário em Argel estavam contados.

Não se sabe ao certo o que Ben Bella prometera a Delgado na famosa conver-sa de 30 de Julho. Pessoas próximas do general diziam, na altura, que houvera promessas de dinheiro, de material, de campos de treino—e até homens—para uma acção de envergadura contra Salazar, partindo do exterior. Mesmo que Ben Bella tivesse sido momentaneamente sincero com Delgado, a realidade era que não tinha qualquer possibilidade de cumprir as suas promessas. O poder argelino estava fraccionado entre diversos feudos militares cujas origens datavam da guerra contra os franceses. Quem iria ganhar a luta surda que se tramava nos bastidores (nesse ano que antecedeu o golpe de Estado de Boumedienne em Junho de 1965) era um mistério, mesmo para os argelinos melhor informados.  Nos meios mais islamistas as queixas contra o entourage marxista  e estrangeiro do presidente aumentavam de dia para dia. No vazio de poder real, os comunistas argelinos e franceses manobravam com a ajuda sempre presente dos serviços soviéticos.

Que poderia o cândido general português adivinhar de tais enredos? Se tivesse melhores conhecimentos nunca teria ido para a Argélia, isso é certo. Mas estava habituado a jogos menos complexos e tinha chegado à Argélia havia poucas sema-nas, desconhecendo totalmente a nova África independente. Sem conselheiros polí-ticos bem informados, Delgado ignorava a própria situação entre os seus compatriotas quanto mais a política dos governantes de um povo tão desconhecido. E assim, qual Dom Quixote, prosseguiu no caminho do desafio ao establishment da oposição anti-salazarista, confiante de que seria apoiado pelos argelinos. Seria também infundada a confiança ilimitada  que tinha no continuado apoio à  sua pessoa por parte do povo português? Este problema permanecerá sempre tema de controvérsia para futuros historiadores. O certo é que aqueles que o destruiram, dos dois lados da barricada, iriam agir como se Delgado nada significasse no plano nacional. Os futuros bajuladores do MFA iriam tratar Humberto Delgado como nunca fora tratada qualquer personalidade de vulto na história portuguesa—humilhando-o, espezinhando-o e, ainda por cima, com a ajuda de estrangeiros.

Cunhal toma a iniciativa

Nos começos de Agosto de 1964, Delgado ainda contava com a ajuda de quem ele considerava um precioso colaborador: o Manuel Sertório Marques da Sil-va, eleito membro da Junta Revolucionária na segunda conferência da FPLN. Este, que se encontrava no Brasil, não tivera ainda a oportunidade de atraiçoar o seu chefe. Mas a ocasião não iria tardar. Segundo cartas publicadas por Sertório, o general depositava uma total confiança no futuro ‘dirigente’ trotskista2. Na altura da crise da Junta, Delgado chamou  Sertório urgentemente do Brasil. Este chegou a Argel no dia 13 de Agosto e, poucos dias depois, apareceu também Álvaro Cunhal. Quase imediatamente Sertório abandonou Delgado e aderiu ao adversário.

Não há dúvida de que os principais dirigentes do dito establishment oposicio-nista experimentaram momentos de pânico. Para que o cauteloso Cunhal deixasse a segurança dos países de Leste e pusesse pés na Argélia, tinham que existir razões muito poderosas. (Durante o seu exílio o chefe do PCP ia frequentemente e sem problemas a Itália e à França, mas nesses países gozava do apoio dos influentes PCs locais.) Parece que o propósito de Cunhal  era tentar apaziguar o irrequieto general e adiar a cisão definitiva, enquanto ganhava tempo e preparava um am-biente mais propício.

Durante os meses de Agosto e Setembro de 1964, os dirigentes da FPLN, fechados nas respectivas casas, ou percorrendo as capitais europeias, dedicaram o seu tempo a escrever para todos os cantos do mundo onde havia núcleos de exila-dos políticos portugueses. Ecos desta campanha chegavam aos amigos de Delgado em cartas perplexas vindas de amigos em outros países. Os dirigentes da FPLN  ressuscitavam as velhas acusações de ‘autoritarismo’ e de ‘putschismo’ contra o general, sabendo que estas iriam cair em terreno fértil: a tradicional oposição de velhos republicanos e marxizantes, com algumas honrosas excepções, nunca tinha aceite sinceramente Delgado. 

Enquanto o grupo de Piteira preparava o ambiente, Cunhal (como mais tarde, em Portugal, em relação a todos os presidentes eleitos depois do 25 de Abril) estendia a mão ‘amiga’ a Delgado. Chegou a convencê-lo da conveniência de um novo encontro das forças da oposição: uma terceira conferência da FPLN, mais representativa, com o fim de sanar as querelas da Argélia.

Delgado concordou com o princípio, mas queria uma conferência dentro de Portugal. Conhecia bem o ambiente dos exilados na América Latina onde tinha criado muitas inimizades; com a África do Norte já ficara desiludido. E aprendera a lição da segunda conferência. Pensava, pois, que só em Portugal seria possível reunir um encontro genuinamente representativo. É claro que, mesmo em Portugal onde teria possibilidade de encher a conferência com homens  seus, Cunhal não iria por causa de Delgado pôr em perigo a máquina clandestina do partido. Rejeitou terminantemente a realização do encontro no interior e, finalmente, ficou decidido que a terceira conferência   teria lugar em Argel.

Dos convites e convocatórias que se enviaram, é interessante notar que uma destas foi endereçada a Mário de Carvalho, em Roma e assinada por Piteira Santos, segundo informações de Ayala3. 

Desde o 25 de Abril temos tido larga experiência das dificuldades inerentes à organização de encontros verdadeiramente representativos, quando a preparação prévia for deficiente. No exílio, as dificuldades apareciam multiplicadas. Delgado podia gozar de um prestígio indubitável, mas carecia tanto da máquina disciplinada, como de recursos financeiros para fazer deslocar adeptos seus. Cunhal e a FPLN tinham-nos. Segundo testemunham pessoas que assistiram a essa conferência (nomeadamente António Brotas e Emídio Guerreiro, que  abandonou o encontro logo no primeiro dia), a imensa maioria da assistência, aliás pouco numerosa, era do PCP, membros assumidos ou encapotados4

Delgado, quando soube da composição da terceira conferência, viu que não valia a pena assistir. Cunhal foi ao ponto de mandar ao escritório do general, durante a primeira sessão, uma delegação composta por membros do grupo de Piteira. Conforme constou na altura, os seus componentes nem chegaram a bater à porta, tal era a falta de coragem para enfrentar o adversário de caras. Com essa tibieza, iria contrastar flagrantemente, mais tarde, a atitude de audácia desavergonhada dos mesmos indivíduos, quando já tinham a certeza de que Delgado não mais voltaria a Argel.

A chamada terceira conferência teve lugar, por conseguinte, na ausência do general. Como já indicámos, as  resoluções eram nitidamente menos bélicas do que as da segunda conferência. O PCP e congéneres consagraram oficialmente o rompimento com o general que, assim, deixou de fazer parte da Frente Patriótica.

A resposta de Delgado

Delgado não esperou pelo fim das sessões. Saiu de Argel em viagem. Tinha já combinado entrar na  clínica do Dr. Valdoni, em Itália, onde se fez operar nova-mente.

Em meados de Outubro, ainda hospitalizado, Delgado emitiu um comunicado, o primeiro da nova FPLN, a Frente Portuguesa de Libertação Nacional5. As iniciais eram as mesmas, no entanto a palavra portuguesa substituía agora a palavra patriótica. O comunicado, distribuído em Argel, trazia no cabeçalho: Algures, na fronteira. 

É geralmente admitido que a reunião da Frente delgadista não teve lugar na fronteira portuguesa, mas provavelmente em Paris. Quem assistiu? Quais os sectores da oposição representados? As respostas são contraditórias e parece existir uma estranha reticência em  reivindicar hoje a participação nesse encontro. Em Argel, o representante oficial de Delgado,  Amílcar Castanhinha, e outros delgadistas, não sabiam, ou não deixaram transparecer qualquer informação.

O comunicado de Delgado julgou e condenou «severamente» os seus adver-sários Seguiram-se várias considerações sobre as medidas a tomar e um voto de reiterada confiança ‘ao líder da Oposição General Humberto Delgado’, concluindo a alínea XV com uma saudação ao presidente argelino.
 

11. BEN BELLA APOSTA NOS ADVERSÁRIOS DE DELGADO

Dentro de pouco tempo, Delgado iria perceber que já não podia mais contar com o apoio de Ben Bella. Saiu da clínica do Professor Valdoni no dia 25 de Outubro e regressou à Argélia em Novembro. Dos contactos tidos na Europa pouco soubemos. Dizia-se que  tinha conseguido consideráveis apoios financeiros de meios italianos. Contudo, os amigos do general, em Argel, estavam desanimados. Na sua ausência, o major-piloto Ervedosa mudara de campo e estava agora com Piteira. O encarregado por Delgado da rádio Voz da Liberdade tinha evidentemente feito as pazes com o ‘pseudo-Ervedosa’,  Ramos de Almeida.

Membros do MAR (Movimento de Acção Revolucionário), sempre vacilantes, que inicialmente pareciam apoiar o general, estavam a ser aliciados pelos ‘patrióti-cos’. Os membros mais activos da FAP já tinham deixado, ou preparavam-se para deixar, a Argélia—entre eles o médico  João Pulido Valente e Rui D’Éspinay, cuja presença ilegal em Portugal seria dentro em breve denunciada nas colunas do jornal do PCP6. Por razões diferentes cada um veio a passar uns bons anos na cadeia.

Os restantes, animados principalmente pelo inquebrantável Ayala, tinham fei-to um esforço heróico para assegurar as emissões radiofónicas mas pressentiam que a batalha de Argel estava perdida.                                              
Na ausência de Delgado, os seus haveres foram transferidos, por ordem das autoridades argelinas, do palácio de Ben Bella para uma pequena moradia nos ar-redores. O acesso ao Ministério dos Negócios Estrangeiros e a outros organismos encontrava-se agora vedado ao general. Tornava-se claro que Cunhal e os seus acólitos tinham conseguido convencer as autoridades argelinas que eles eram ‘os verdadeiros representantes do anti-fascismo’. Desde o período áureo de Piteira, em que este, invocando o prestígio de Delgado, se insinuara na Argélia, haviam decor-rido 24 meses Mas ele já não era o dono da Frente. Agora todos os seus comparsas sabiam que quem lhe tinha salvo a pele na Argélia fora  Cunhal.

Delgado permaneceu em Argel todo o mês de Novembro e parte de Dezem-bro, tentando fazer-se ouvir por Ben Bella e pelos jornais. Foi na Révolution Africaine, n.º 95, de 21 de Novembro de 1964, que a imprensa argelina finalmente ousou, num artigo de Lounes Laribi, falar da crise na oposição portuguesa7. Com o título - Où en est l’opposition portugaise?, o articulista falou abertamente das duas FPLNs e reproduziu as denúncias dos ‘patrióticos' feitas por Delgado. O general ficou tão favoravelmente impressionado com o artigo, que mandou fazer centenas de reproduções copiografadas. Tomou a nuvem por Juno e, julgando que afinal nem tudo estava perdido na Argélia, emitiu o já referido comunicado de 5 de Dezembro8.

Esse comunicado, que contém o  retrato da população portuguesa de Argel, começa por dizer que o ‘PC clássico’ se incluía no grupo que se apoderou das facili-dades em Alger durante a sua ausência.

Denunciou o despotismo da Comissão Delegada e o pacifismo do PCP e desmascarou a falta de representatividade  da Frente Patriótica. Explicou a sua recusa e a de Emídio Guerreiro de ‘participar na farsa’.

O comunicado termina denunciando as actividade dos ‘patrióticos’ junto às autoridades argelinas e explica a formação da Frente Portuguesa.

O  último apelo de Delgado aos argelinos

No dia 15 de Dezembro, Delgado elaborou a sua última exposição ao governo argelino num memorando, intitulado ‘Perturbações no Seio da Oposição Portuguesa’9. O general dirigiu-se nomeadamente ao presidente da República argelina e aos ministros da Defesa Nacional, Negócios Estrangeiros, Orientação Nacional, DDT e Transportes. 

Começa por reiterar a falta de representatividade dos dirigentes da Frente Patriótica e, mais uma vez, denuncia as suas intrigas. Volta a historiar as origens do diferendo entre ele e a Comissão Delegada. Relembra a Ben Bella a qualidade em que viera a Argel. Demonstra na alínea nº 5 que tinha finalmente percebido a estratégia do PCP para atrasar a luta. Faz a história da táctica do PCP a seu respeito desde as eleições de 1958 e aponta a tradição deste partido de «mandar ou destruir’.

O memorando também se refere, na alínea nº 7, a um assunto confidencial…, tratado em  anexo e dado a conhecer somente aos destinatários do Memorando. Dadas as relações que agora existiam entre os ‘patrióticos’ e os argelinos, é natural que este anexo tivesse ido parar, como mais tarde outros documentos confidenciais de Delgado, às mãos dos seus inimigos. O general acabou por agradecer mais uma vez, em termos calorosos, aos argelinos e, em especial, a Ben Bella.

A humilhação final

De pouco valiam a Delgado estas palavras. O general convocou uma confe-rência de imprensa para o dia 18 de Dezembro com o intuito de esclarecer a imprensa argelina e internacional sobre a situação da oposição portuguesa na Argé-lia e a sua ruptura com o PCP. Poucos momentos antes da hora marcada, o Ministério da Informação mandou proibir a conferência10.

Delgado já não podia ter mais ilusões. Manipulando os argelinos, Piteira, Tito, Ramos de Almeida e Sertório, conseguiram o que Salazar não conseguira em 1958 em Portugal: amordaçar o general que, seis meses antes, fora acolhido como chefe da oposição portuguesa!

Teimoso até ao fim, Delgado fez distribuir um comunicado, a 18 de Dezembro, sobre os motivos da conferência de imprensa, ao qual acrescentou uma nota reproduzindo a proibição do ministério argelino. 

Pouco depois saiu da Argélia para uma viagem a França e à Inglaterra. Volta-ria mais uma vez em Janeiro. Os ‘patrióticos’, porém, tinham vencido—pelo menos na Argélia.   

Contudo, o problema do general subsistia. Tornara-se definitivamente anti-comunista. Seria ainda mais perigoso para o partido fora da Argélia— em contacto comos núcleos de exilados em várias capitais. E terrivelmente mais perigoso se, porventura, entrasse clandestinamente em Portugal. Era uma testemunha viva da incompetência e corrupção moral de certos prestigiados «anti-fascistas». Preso em Portugal ou livre na clandestinidade constituiria uma ameaça terrível para os projectos do Partido Comunista.

12. O DESAPARECIMENTO DE DELGADO

O ano de 1964 estava a chegar ao seu termo e Humberto Delgado ao fim do caminho. Quando partiu para a Europa, em Dezembro, deixou preocupados e pes-simistas esses portugueses de Argel que não alinhavam com a direcção da Frente Patriótica.  As pessoas com quem eu me dava, inclusive o representante do gene-ral, dr. Amilcar Castanhinha, pareciam nada saber dos planos do presidente da Frente Portuguesa. Algumas coisas, porém, tornavam-se evidentes. 

Embora a sede, outrora dos ‘patrióticos’ continuasse na posse dos delgadistas, parecia claro que as autoridades argelinas tinham apostado definitivamente em Piteira e no seu grupo. A imprensa argelina permanecia fechada aos delgadistas e os ‘atrióticos’ ontinuavam activos. Um pequeno incidente ilustra bem que a sua táctica de perseguir os portugueses que os criticavam não tinha mudado.

Carlos Lança e eu tínhamo-nos demitido, havia algum tempo, do jornal arge-lino Révolution Africaine, por discordância com a sua linha cada vez mais pró-soviética. Carlos estava agora a trabalhar, a título provisório, como redactor na Prensa Latina, a agência noticiosa cubana, enquanto não viesse um novo jornalista cubano. Importa notar que, nessa altura, ainda a linha pró-soviética não se esten-dia a todos os organismos cubanos. Os cubanos residentes em Argel tinham até seguido os acontecimentos no seio da oposição portuguesa com manifesta repulsa pelas actuações dos ‘patrióticos’. Entretanto, chegavam-nos rumores de que a independência da revolução cubana perante Moscovo estava prestes a acabar. Os comunistas portugueses estavam agora mais à vontade com os cubanos. Tão à vontade, que Pedro Ramos de Almeida tomou a iniciativa de visitar o embaixador de Cuba, a exigir que Carlos Lança fosse demitido do seu emprego! Mas estava a ser precipitado: os cubanos ainda não estavam totalmente subjugados. Não acede-ram à simpática intervenção do ‘rato branco’ e Carlos continuou no seu lugar até ao fim do contrato.

Os portugueses ‘anti-Piteira’ sentiam-se mais inseguros do que nunca. Per-guntavam-se mesmo se seria permitido ao general regressar à Argélia. Alguns começaram a fazer as malas para procurar outro país de refúgio.

Contudo, o general voltou em Janeiro. E o seu escritório, no quinto andar do n.º 118, Boulevard Salah Bouakouir, distribuiu mais dois documentos copiografa-dos. Um era o curto Comunicado da IIª  Conferência da Frente Portuguesa, datado de ‘Algures na Europa’, Dezembro de 1964, informando que tinha havido uma reunião … com a presença dos representantes de diversas forças oposicionistas do interior e do exterior.  Proclamava que a Frente Portuguesa entrava … definitivamente no seu período revolucionário, iniciando todas as acções necessárias para uma revolução vitoriosa11

Tal como na primeira conferência, em Outubro, não se sabia quem estivera presente. Ainda hoje subsistem versões diversas quanto à identidade dos participantes.

O segundo documento, creio que o último emitido pelo general, foi uma mensagem Ao povo português, do Presidente da Junta Revolucionária Portuguesa,  por ocasião do 31 de Janeiro de 196512. Nessa noite, reuniram-se em casa de Delgado alguns dos seus amigos. Foi a última festa do general em Argel.

No dia 8 de Fevereiro,  Humberto Delgado e a brasileira Arajarir de Campos saíram de Argel. Entre os portugueses das nossas relações ninguém deixou trans-parecer que tivesse qualquer conhecimento do destino dos viajantes.

Lembro-me que o ambiente, na Argélia dessa altura, era deprimente. A euforia da imediata pós-independência tinha-se evaporado. Entre os portugueses que eu frequentava, reinavam a decepção e a amargura. Havia já algum tempo que eu, pessoalmente, tinha perdido qualquer ilusão a respeito da política argelina e do seu ‘socialismo árabe’. Conhecia agora a fundo a história da guerra com a França e das lutas intestinas entre as facções argelinas do interior e do exterior, dos massacres e dos assassinatos no seio dos próprios argelinos. Sabia que os melhores, os idealistas, tinham tombado no campo de  batalha e nas prisões ou tinham sido abatidos por rivais ou, então, estavam agora afastados da política. Quem dominava eram os oportunistas, os arrivistas, os especuladores. Tal como a maior parte das nações africanas recém-independentes, o país caminhava a passos largos para uma ditadura militar.

De Cuba, as notícias que nos chegavam eram cada vez mais alarmantes. Exi-lados de vários países latino-americanos passavam por Argel e contavam como, a troco de promessas de apoio a grupos revolucionários não-comunistas, o governo de Fidel Castro conseguia conhecer os seus planos para depois os entregar aos PCs dos respectivos países. Deste modo, vários movimentos tinham sido atraiçoados e os seus quadros dizimados.

Amigos meus argelinos insistiam comigo que o papel da Argélia não seria muito diferente. Por conseguinte, nesse Fevereiro de 1965, eu não esperava que o diferendo ‘Delgado-patrióticos’ encontrasse qualquer solução positiva na Argélia. A única esperança, para o bem-estar dos portugueses exilados, era que, ao menos, Piteira e os seus amigos não mais dispusessem na Argélia desses poderes despóticos que Delgado denunciara. Ingenuamente pensava ainda que talvez tivessem aprendido a lição e adoptassem um comportamento mais prudente no futuro. Porém, estava bem longe de imaginar o que iam trazer as semanas seguintes.

Por volta de 20 de Fevereiro os portugueses meus amigos começavam a mostrar-se inquietos com a ausência prolongada de Delgado. Não me lembro da data exacta em que começaram a manifestar essas preocupações, mas, já antes do desaparecimento ter sido anunciado, havia quem se mostrasse intranquilo.

Juntavam-se igualmente outros motivos de preocupação. Por um lado, recrudescia a campanha dos ‘patrióticos’ contra o general; com ar triunfalista, espalhavam que Delgado era considerado um indesejável por parte das autoridades argelinas. No campo dos delgadistas, havia também o problema de o general, antes de partir, ter admitido colaboradores considerados duvidosos. Uma senhora francesa (mais tarde expulsa da Argélia por alegada pertença aos serviços de espionagem franceses) trabalhava agora no bureau, como secretária13; um português, Fernando Rosa, ex-oficial do exército português, cujos antecedentes eram bastante obscuros, seria o encarregado de assuntos militares da Frente Portuguesa do general. 

Não me compete avaliar o papel destas pessoas mas  dizia-se, em meios franceses e argelinos, que ambos estariam ligados ao réseau Curiel. Este réseau, como antes se apontou, também colaborava com a Frente Patriótica e era notoria-mente pró-soviético14. De qualquer forma, os mais próximos colaboradores do general em Argel tinham razões mais que suficientes para se sentirem desconfiados dos dois. 

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REFERÊNCIAS

1.   Ver Apêndice Documental B. Doc. nº 6.

2.   Ver Manuel Sertório, op.cit.

3.   Esse mesmo Mário de Carvalho, tido hoje por quase todos como a    eminência parda do ‘caso Delgado’, estranhamente ausente da lista dos réus no julgamento de Lisboa em 1978, em virtude das autoridades portuguesas  lhe term recusado sempre um passaporte para regressar a Portugal.

4.   Ver Apêndice Documental B, doc. nº 12.

5.   Ver Apêndice Documental B, doc. nº 10.

6.   ‘Cuidado com Eles’,
Avante
, op.cit.

7.   Ver Apêndice Documental B, doc.nº 11.

8.   Idem, doc.nº 13.

9.   Idem, doc.nº 14.
                    
10.  Idem, doc. nº 14.

11.  Idem, doc.nº 16.

12.  Idem, doc. nº 17.

13.  De apelido David, esta funcionária foi contratada pelo general  através de um anúncio na imprensa de Argel.

14.  Ver  Primeira Parte, nº 1.

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