Primeira Parte: AS ORIGENS


Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio


1.  Prólogo.   2.  O complot de Morrocos

   

Primeira Parte

AS ORIGENS

 

1. Prólogo


As origens da Frente Patriótica de Libertação Nacional e a sua instalação na República Argelina, logo após a independência desta antiga província francesa em 1962, continuam enredadas em mistério. Conspiração comunista, como diziam os salazaristas?

Até à crise dos mísseis no Outono de 1962, com Khruchtchev no Kremlin, os partidos comunistas pró-soviéticos, plenamente empenhados na então intensa campanha a favor da coexistência pacífica, desconfiavam profundamente das intenções dos novos governantes da Argélia independente, tal como tinham desconfiado de Fidel Castro. Nessa época, a revolução árabe não tinha ainda caído sob a hegemonia soviética. Os nacionalismos não-marxistas, para os partidos comunistas, estavam perigosamente próximos das teses chinesas.

Solidariedade de um ‘país progressista’? Os novos governantes da Argélia tinham as suas razões e a sua estratégia próprias quando decidiram abrir as portas aos exilados políticos estrangeiros. Essas razões continuaram, durante muito tempo, escondidas dos portugueses ingénuos. E, em larga medida, continuam ocultas.

A Frente Patriótica de Libertação Nacional foi o título pomposo de um pequeno grupo de pessoas cujo fim era o aproveitamento de acções e sacrifícios feitos por outros. Só em sentido figurativo comeram na África do Norte o pão amargo do exílio político. Na realidade gozaram de um exílio dourado, à custa de um povo que ainda chorava um milhão de mortos1 Como é que esse grupo de pessoas, cujos nomes em 1962 apenas se conhecia nos cafés do Chiado, conseguiu instalar-se na Argélia logo após a independência deste país? Como é que chegaram a convencer os dirigentes argelinos—anti-marxistas—a dar-lhes asilo político, apoios financeiros e meios de propaganda, que nem o PCP, com tanta autonomia nos países de Leste, alguma vez chegou a ter?

Não se sabe ainda muito bem a posição de alguns membros do que veio a ser conhecido como o ‘bando de Argel’ no início das suas aventuras: se estavam suficientemente afastados do PCP e ambicionavam concorrer com o partido de Cunhal. Para compreender toda a história, teremos que recuar no tempo e traçar o cenário da situação internacional nos começos da década de sessenta.

O fim da guerra da Argélia

    Em 1961-62, a França estava traumatizada pela guerra da Argélia. A esquerda encontrava-se dividida. O Partido Comunista Francês, estalinista, sempre se recusou a apoiar a Frente de Libertação Nacional (FLN) argelina, chegando até a acusar os seus dirigentes de estarem vendidos aos Estados Unidos. Nasser,do Egipto, que ajudou os argelinos, era apontado como agente da CIA. O Partido Comunista Argelino, composto em grande parte por colonos europeus, tinha-se desmoronado e muitos dos seus militantes ingressaram nas fileiras da OAS2. A União Soviética ainda não tinha posto o pé no Mediterrâneo—e muito menos em África. 

    Por toda a Europa onde havia emigrantes argelinos—França, Bélgica, Suiça e Alemanha—os dissidentes europeus da esquerda tradicional, intelectuais e jovens, criaram os famosos réseaux de soutien, grupos de apoio à revolução argelina. Nestes grupos havia representantes de toda a família marxista, salvo os incondicionais pró-soviéticos3. Particularmente activos eram os trotskistas da IV Internacional4. Alguns europeus dos réseaux haviam sido presos em França e noutros países. Um dirigente da IV Internacional, o grego Michel Raptis (mais conhecido pelo nome revolucionário de Pablo), fora condenado na Holanda por falsificação de moeda moeda a favor da FLN. Uma campanha internacional de solidariedade tornara-o famoso e altamente estimado junto de alguns sectores da FLN..

Mas toda esta solidariedade tinha o seu preço. Cada grupo ideológico europeu tentava influenciar e converter os argelinos à sua linha política. Impotentes para influenciar a política nos seus próprios países, e inflamados com os êxitos recentes de Fidel Castro, esperavam o nascimento de uma Cuba árabe no Mediterrâneo. Em nome do anti-colonialismo, davam largas ao seu paternalismo para com os argelinos, tal como veio depois a acontecer com os povos das colónias portuguesas.

Entretanto, dentro da própria Argélia, as guerrilhas estavam praticamente dominadas. De Gaulle prometera a paz e um referendo sobre o futuro estatuto da província. A guerra, em 1961, resumia-se a uma luta política entre as diversas facções argelinas no exterior e no combate à OAS. Havia a emigração de quase 400.000 argelinos que trabalhavam em França; em Marrocos e Tunísia, ao longo das fronteiras, havia 60.000 soldados argelinos armados, transformados agora em militares profissionais. Havia ainda milhares de presos nos cárceres franceses, incluindo o futuro presidente Ahmed Ben Bella.

A preocupação principal dos dirigentes argelinos já não era a derrota dos franceses e sim a luta intestina das várias facções para alcançar o poder. Os grupos de apoio europeus envolveram-se com zelo na mesma luta. Cada um escolhia a ‘sua’ tendência argelina e declarava guerra às outras. Os argelinos encorajavam os seus clientes. Os da Tunísia, onde funcionava a sede do Governo Provisório, eram hostis aos militares argelinos de Marrocos, e vice-versa.

Ahmed Ben Bella, um dos dirigentes históricos, era um civil. Participara na elaboração e execução da revolta inicial de 1954. Contudo, esteve preso durante cinco anos. Em 1962, pouco tinha em comum com os ‘coronéis das fronteiras’. Era um galicizado, antigo sargento do exército francês, que admitia só ter estudado a língua árabe na prisão. O Coronel Houari Boumedienne, seu sucessor em 1965, passava por ser, à semelhança de outros militares, um arabizante, um muçulmano ortodoxo, ligado ao Egipto. A prisão tinha isolado Ben Bella dos militares e aproximara-o das várias tendências dos réseaux europeus.

Não e meu objectivo pormenorizar a luta que encheu todo o Verão de 1962 e que culminou na escolha de Ben Bella pelo governo provisório como presidente do novo país e a sua relutante aceitação por parte dos coronéis. O importante é mostrar a fraqueza do chefe histórico face ao poder militar. Para compensar a sua falta de apoios nacionais, Ben Bella rodeou-se de conselheiros estrangeiros; para preencher o vazio da política interna, concentrou-se na política internacional; insistindo no não-alinhamento aos blocos da Guerra Fria, a sua primeira visita ao estrangeiro foi a Cuba, onde o não-alinhamento de Fidel Castro já se tinha evaporado com a sua submissão à política soviética, evidenciada na crise dos mísseis desse Outono. Desde o início, Ben Bella proclamou o seu apoio às revoluções africana e latino-americana. Disse estar pronto até a oferecer ajuda aos Papuas da Oceânia se estes a pedissem.

Michel Raptis-Pablo apareceu, justamente nesse contexto como um dos principais conselheiros do presidente Ben Bella. Tinha não só o prestígio da sua prisão e dos seus escritos trotskistas, mas também uma corte de revolucionários estrangeiros, alguns dos quais lusófonos.

2. O COMPLOT DE MARROCOS

A Conferência das Organizações Nacionalistas das Colónias Portuguesas (CONCP) tinha a sua sede em Rabat, capital de Marrocos. Secretariada pelo goês Aquino de Bragança5 e pelo moçambicano Marcelino dos Santos6, era composta principalmente pelo MPLA e PAIGC. Recebeu asilo e ajuda em Marrocos, graças à alegada amizade pessoal existente entre o Rei Hassan II e Marcelino dos Santos.7

No princípio as relações dos nacionalistas da CONCP com os argelinos não foram estreitas. Os lusófonos eram marxistas, críticos do PCP, mas desconfiados do islamismo dos argelinos e da sua política. Os argelinos pareciam já comprometidos em apoiar a UPA de Holden Roberto, movimento francamente anti-comunista. Holden Roberto mantinha excelentes relações com muitos dirigentes argelinos, principalmente na Tunísia8.

Em 1962 os chefes do MPLA, PAIGC e futura FRELIMO aguardavam nervosíssimos a independência argelina pelo apoio prestigioso que ela poderia trazer à UPA. Por isso, procuraram desesperadamente um esquema que impressionasse os argelinos e anulasse a influência de Holden Roberto. No entanto, tornava-se difícil saber qual a facção argelina que iria ganhar.

Foi, portanto, nesse Verão quente, a arder de intrigas, cheio de grupos de pressão internacionais, que Fernando António Piteira Santos foi cair em Rabat9. Fugido de Portugal, após um período de clandestinidade, atravessou a fronteira vestindo três fatos. Com muitos inimigos na oposição anti-salazarista, perigosamente ambicioso (como diria mais tarde Delgado), Piteira Santos era um dos raros portugueses familiarizado com as dissidências no movimento marxista. Expulso do PCP por duas vezes, em 1945 e 1951, acusado, primeiro, de delator quando preso e, depois, de pró-jugoslavo, numa altura em que Tito fora afastado da família comunista, Piteira Santos juntava à fama de trotskista o ser visto, bem ou mal, pelos militantes do PCP como agente da PIDE

Em Rabat foi bem acolhido pelos dirigentes da CONCP. Mas os portugueses que iam chegando a Marrocos e o encontravam ficavam perturbados. A maior parte eram desertores e refractários. Exemplo: Helder Martins, que veio a ser ministro da Saúde de Moçambique e desertara de Londres do seu posto de médico-oficial da Marinha de Guerra portuguesa10. Ao verificar a presença de Piteira Santos em familiar cavaqueira com os africanos alarmou-se. Imediatamente correu os cafés frequentados pelos exilados portugueses a alertá-los para a presença na sede da CONCP de um ‘perigoso agente da PIDE’. Porém, pouco tempo depois, a seguir a longas conversas com os dirigentes nacionalistas, acalmou-se e converteu-se rapidamente num dos mais fiéis colaboradores de Piteira. O mesmo iria acontecer com outros militantes do PCP que foram aparecendo, só mais tarde começando as dissidências.

Os dirigentes da CONCP encararam Piteira Santos como aliado e conseguiram para ele a ajuda dos marroquinos e documentos para poder viajar. Apresentaram-no também a Michel Raptis-Pablo que o recebeu de braços abertos.

Todas os principais personagens estavam agora ali, preparando os ingredientes de uma trama que se iria revelar desastrosa. Nenhum representava qualquer movimento real no seu país de origem. Cada qual ambicionava apenas o poder. Todos receavam os rivais de outros quadrantes ideológicos. Contudo, uniam-se num mesmo objectivo: aproveitar a confusão que fatalmente iria acompanhar o nascimento do novo Estado argelino para lá estabelecer uma base onde o grande rival - o PCP de Cunhal - estivesse sempre em segundo plano.

Foi Pablo quem reuniu o grupo e concebeu o projecto de o apresentar aos argelinos, reforçando com isto o seu prestígio junto de Ben Bella enquanto este ganhava trunfos na sua luta contra outras facções argelinas.

O plano era muito simples mas bastante adequado às pretensões de todas as forças envolvidas. A nova Argélia, abandonada por quase um milhão de colonos franceses, carecia dramaticamente de quadros técnicos. A oposição portuguesa no exílio dispunha de médicos, engenheiros e outros diplomados, além de descontentes e mal pagos em Portugal. Além destes havia os «assimilados» das colónias portuguesas, diplomados também, e irrequietos com a onda de nacionalismo africano. Com essa mercadoria os negociantes políticos contaram poder comerciar. Ofereceu-se a Ben Bella esta cooperação técnica, uma cooperação a preço bastante mais em baixo comparada com uma futura e ainda hipotética cooperação francesa.

Em contrapartida, Ben Bella daria todo o apoio à CONCP, em prejuízo de Holden Roberto. E Piteira Santos, como chefe da oposição portuguesa na Argélia, teria finalmente vantagens sobre Cunhal e o resto da oposição. Apesar de expulso do PCP e escorraçado durante longos anos por certos meios da oposição, ele poderia finalmente ter as suas massas, financeiras e humanas. Dono do direito de asilo e de bons lugares na Argélia, estaria optimamente colocado para negociar com outros sectores da oposição, desta vez com todos os trunfos na mão.

Pablo também se sentia triunfante. O dirigente da Quarta Internacional trotskista via-se como conselheiro não só do presidente argelino como de futuros dirigentes de países de expressão portuguesa, situação que lhe asseguraria uma primazia sobre os seus rivais no movimento trotskista.

Ben Bella, que ambicionava ser o Fidel Castro do Mediterrâneo, teria mais dois valiosos pontos de propaganda a adicionar ao seu projecto político: a solidariedade com os povos de Portugal e suas colónias de molde a contrabalançar o inconveniente (no plano demagógico) das excelentes relações que a FLN mantinha com a Espanha de Franco; e a solução parcial do problema de quadros para a reconstrução de Argélia.

Agora só faltava um pormenor que desse ao plano o último retoque convincente. O nome de Piteira Santos, que era desconhecido no estrangeiro, polarizava muitos inimigos na oposição anti-salazarista. Fora uma tese de licenciatura, não tinha obras publicadas e tão pouco representava qualquer organização. Para servir de bandeira impunha-se uma personalidade conhecida: uma figura idónea, de envergadura internacional, alguém que não fosse um teórico de revoluções de café, nem marxista. Os argelinos admiravam sobretudo homens de acção. Sem uma figura dessas para encabeçar a grande aliança que Piteira sonhava dirigir, o plano não teria qualquer viabilidade. Nem para vender aos argelinos, nem para encontrar eco dentro da oposição anti-salazarista.Foi assim que surgiu o nome do general Humberto Delgado que, longe no Brasil, vivia totalmente alheio à intriga que se tramava em Rabat.

Primeira aposta: Henrique Galvão

Quando os dirigentes nacionalistas da CONCP, ainda em 1961, procuraram uma oportunidade para estar na berlinda, aproveitando a luta armada iniciada pela UPA em Março desse ano, voltaram-se para uma aproximação com a oposição não-cunhalista. A princípio apostaram em Henrique Galvão.

Galvão vinha do salazarismo, tal como Delgado. Mas a sua oposição era muito anterior à do general. Durante largos anos o PCP e outros elementos da oposição tinham olhado esse velho africanista como uma personalidade a aproveitar. Em 1949 já o PCP tinha editado um panfleto clandestino que reproduzia o relatório de Galvão sobre as condições de Angola na altura. Delgado, pelo contrário, nunca foi visto com agrado pelo PCP e os seus simpatizantes. Se o apoiaram nas eleições de 1958, desistindo da candidatura de Arlindo Vicente, fizeram-no com bastante má vontade. Delgado era demasiado carismático, demasiado independente para servir de fantoche. Embora se tente hoje esconder das novas gerações esta fase da política sinuosa do PCP, ela está suficientemente documentada para quem quiser averiguar a verdade.

Atribuindo a captura do paquete Santa Maria inteiramente a Galvão, e querendo aproveitar-se da publicidade mundial à volta do seu nome, os oposicionistas de esquerda, e também os nacionalistas da CONCP, estavam prestes em 1961 a tentar uma aliança com o capitão. Sintomaticamente um futuro dirigente da FPLN nesse mesmo ano, em carta dirigida do Brasil a um correligionário de Londres, escreveu: ‘Delgado está impossível. Terá que ser eliminado politicamente. Galvão é o nosso homem!’.

Galvão, contudo, provaria também ser incontrolável. Numa viagem à Suécia destruiu em poucas palavras quaisquer esperanças que nele depositavam os aventureiros. Condenou o nacionalismo nas colónias portuguesas e atacou o comunismo, escapando assim de cair nas malhas que acabaram por enredar Delgado.

A oposição volta a apoiar Delgado

 Como Galvão já não servia, voltou-se a propor Delgado como bandeira. O general, de passagem por Marrocos, quando da revolta de Beja, conversou com os nacionalistas da CONCP, deixando-lhes uma impressão favorável.

Mário de Andrade11, Marcelino dos Santos e Aquino de Bragança eram indivíduos que tinham saído de Angola, Moçambique e Goa respectivamente 15 a 20 anos antes. Tinham fraquíssimas possibilidades de encabeçar movimentos de luta armada. E sabiam bem que não seriam acolhidos de bom grado nas fileiras da UPA. Daí o seu interesse em patrocinar um movimento anti-salazarista na metrópole com o qual pudessem contar no futuro para os ajudar a ascender ao poder.

Quando Piteira Santos chegou a Rabat parece que os dirigentes da CONCP já tinham abordado Cunhal sobre a questão de Delgado, como cabeça duma frente a ser formada. Mas a hora ainda não tinha chegado. Para negociar efectivamente com Cunhal, era preciso ter o trunfo de Argel nas mãos.

 Piteira entusiasmou-se logo com o projecto Pablo-CONCP. Não só iria conseguir a colaboração de Delgado como os seus projectos eram mais vastos. Também falava em Rui Luís Gomes12 e outros universitários portugueses de renome. A Universidade de Argel, outrora a segunda da França, abandonada pelos franceses, carecia de docentes. Através de Pablo, convenceu Ben Bella a oferecer uma cadeira ao distinto matemático portuense, na altura exilado no Brasil13.

Os contornos do plano acima relatados foram traçados, sem inibições, nas conversas que eu e Carlos Lança tivemos com Aquino e Pablo. Para ambos, Fernando Piteira Santos representava uma peça chave. Pablo andava deliciado com o português. A melhor referência que este podia colher junto dos trotskistas era ser um expulso do PCP e simpatizante dos jugoslavos. Aquino apreciava também o facto de Piteira ser um comunista dissidente. Carlos Lança e eu nutríamos mais simpatias pelas teses chinesas e desconfiávamos dos jugoslavos. Pablo insistia connosco, em vão, para que fossemos com ele à Embaixada da Jugoslávia, que frequentava com assiduidade. Os Jugoslavos eram os únicos, dos países de leste, que tinham ajudado a FLN argelina, mas nem por isso víamos utilidade em conhecê-los.

Carlos Lança já conhecia Piteira de Lisboa, tal como eu, e quando nos encontrámos em Rabat o futuro dirigente da FPLN mostrou-se extremamente afável. Não hesitou em falar dos seus projectos, tentando captar-nos como aliados. O facto de Carlos ter passado muitos anos em Moçambique longe das intrigas de Lisboa valia como recomendação. O meu ‘prestígio’ vinha do Oldest Ally e de ter uma próxima edição em francês e espanhol; e ser uma pessoa com contactos em Inglaterra que lhe poderiam ser úteis, o que, sem dúvida, o influenciou favoravelmente. As nossas reacções, porém, foram de desconfiança. Numa das nossas primeiras conversas, Piteira Santos emitiu uma frase lapidar que nos pôs logo de sobreaviso: ‘Nós temos de adquirir as armas antes que eles as tenham’. Referia-se aos africanos. Então seguiu-se o velho debate sobre a ‘unidade antifascista’. Mas Piteira era um aprendiz astuto: as suas conversas com Pablo e o ambiente anti-colonialista de Rabat rapidamente o convenceram da necessidade de modificar o seu discurso, pelo menos connosco e com os nacionalistas da CONCP.

Com Aquino de Bragança tivemos um convívio diário. Arranjámos um apartamento no mesmo prédio, onde igualmente habitavam Amilcar Cabral e a família, sendo frequentes os serões até altas horas. Aquino era um companheiro sedutor,. inteligente e culto à maneira parisiense Tinha uma enorme admiração por Amilcar Cabral e Mário de Andrade, mas mal sabia esconder a sua condescendência para com os africanos em geral, especialmente os de pura raça negra. Para ele a chave da independência colonial passava por um entendimento com os portugueses e não parecia ter muita confiança no êxito de qualquer luta armada. ‘Eu sou capaz de negociar com o próprio Salazar’—dizia muitas vezes, algo vaidosamente—‘o essencial é exercer a pressão necessária para que ele venha a aceitar conversas connosco, recusando-as à UPA.’ Enquanto Aquino insistia comigo, dizendo que eu tinha o dever de fazer um ‘grande livro’ sobre o nacionalismo angolano, eu e Carlos Lança começámos a sentir que tínhamos caído num enleio cujas implicações ainda não eram muito claras.

Piteira Santos tinha outros aliados além de Pablo. Era demasiado perito em intrigas para se entregar totalmente ao dirigente da Quarta Internacional trotskista, embora tivesse com este as maiores afinidades políticas. Através da CONCP, entretinha também relações com personalidades que eram mais do agrado dos comunistas.

Uma delas era Jacques Vergès, advogado francês, de origem franco-vietnamita. Antigo dirigente da União Internacional de Estudantes, com sede em Praga, íntimo amigo de Alexandre Chelepine, que veio a ser chefe do KGB, Vergès gozava de enorme prestígio entre argelinos e inúmeros intelectuais franceses14. Naturalizou-se argelino, ‘converteu-se’ à religião muçulmana, casou com uma das grandes heroinas argelinas, Djamila Bouhired, e instalou-se em Argel. Foi o primeiro director do semanário Révolution Africaine, que depois se tornou órgão do partido FLN. Vergès era tido, na altura, por maoísta e concorria com Pablo no controlo dos revolucionários de diversas nacionalidades que afluíam a Argel. Desde o início seria amigo e protector da CONCP e, portanto, também disposto a ajudar Piteira. Conheci-o através do Aquino e ele logo me contratou para trabalhar no semanário que ia dirigir.

Outro poderoso protector de Piteira foi o notório réseau Curiel, dirigido por Henri Curiel, um antigo secretário-geral do Partido Comunista do Egipto15. A fama deste réseau era bastante sinistra e dizia-se que mantinha boas relações com o PCP e com a polícia francesa. De tal modo que, quando Delgado nos últimos dias rompe com os ‘patrióticos’, o reseau Curiel conseguiu penetrar na organização do general português. 

Os sonhos de Piteira 

 Ainda em Rabat, Piteira sonhava com um ‘Governo Português no Exílio’, segundo o modelo do Governo Republicano Espanhol. Com sede na Argélia, presidido por Delgado e com o prestígio dos votos recebidos por este nas eleições de 1958, e ainda rodeado por nomes de destaque que lhe deviam os lugares, Piteira disporia finalmente de um trampolim para o assalto ao poder em Portugal e, se este demorasse, ao menos marcaria a sua posição como rival de Cunhal na líderança da oposição anti-salazarista.

Vale a pena insistir nesta fase inicial do nascimento do grupo de Argel. Se não se entender o alcance do plano, será difícil perceber a actuação desesperada e ‘o fel’ de Piteira (como diria Delgado mais tarde), quando começou a verificar o colapso dos seus esquemas. Na realidade, para muito boa gente afastada dos acontecimentos é difícil, hoje como ontem, acreditar em tanto ódio e tanta loucura como, três anos depois, se verificou com o grupo de Piteira.

Em retrospectiva, toda essa conspiração parece mirabolante. Teria Piteira Santos acreditado verdadeiramente que a Argélia iria ajudar numa invasão armada de Portugal? Teria ele realmente pensado que iria arranjar centenas de técnicos portugueses para a Argélia? Teria ele imaginado que fosse possível domesticar Delgado ou manipular Álvaro Cunhal? Quem conheça a experiência portuguesa de 1974-75 sabe que o ambiente revolucionário é intoxicante para os espíritos mais ambiciosos e permite todos os sonhos. Na África do Norte o ambiente da segunda metade de 62 era esse.

Depois de terem sido marginalizados durante tantos anos pelos comunistas ortodoxos, tanto o português como o grego Raptis andavam agora eufóricos. Piteira Santos estava embriagado com as entrevistas que Pablo lhe conseguira com o chefe de Estado argelino. À mesa do café, num hotel de Argel, onde nos encontrámos por ocasião das festas da independência, em Novembro de 1962, e na véspera da sua partida para França, falou-nos das negociações que iria ter com outros exilados portugueses. Mal continha o seu delírio. ‘Realmente—exclamou—nós, da oposição portuguesa, temos sido muito saloios. Faltaram-nos iniciativas. Mas isso tudo acabou. Agora que estou tu-cá, tu-lá com Ben Bella, por que não havia também de estar tu-cá, tu-lá com De Gaulle?’.

Não é de admirar que Piteira andasse tão optimista. Tinha encontrado a chave que lhe abrira o portão do seu isolamento. Depois das festas da independência em Argel, com Ben Bella instalado no palácio do governo e Pablo num gabinete ao lado, Piteira partiu para a Europa. Foi ao encontro dos outros exilados e de Cunhal, convencido de que agora seria ele a mandar.

Em Dezembro de 1962, teve lugar em Roma a primeira conferência da FPLN. Piteira Santos era indubitavelmente o ‘grande’ do encontro. Estava no auge da sua carreira. Cheio de promessas, conseguiu lançar a ‘empresa patriótica’. Delgado, que não podia ainda sair do Brasil por falta de passaporte, fez-se representar pelo Manuel Sertório Marques da Silva16. Relutante, o PCP entrou no jogo, hesitando em mandar quadros seus a esse imprevisível país árabe, muçulmano e oficialmente anti-comunista17. Porém, já não podia ignorar Fernando Piteira Santos.

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REFERÊNCIAS

1. Esse número é hoje contestado em alguns meios. Os mais conceituados especialistas, porém, confirmam a estimativa feita já em 1962. Ver Michael Kettle, De Gaulle and Algeria 1940-1960, Londres, Quartet Books, 1993, e Alistair Horne, A Savage War of Peace, Londres, Macmillan, 1996.

2. Ver a narrativa de um ex-dirigente comunista argelino, Amar Ouzegane, que abandonou o PCA para juntar-se à FLN. Le meilleur combat, Paris, Julliard,1962.

3. Só quando o fim se aproximava é que alguns sectores do PCF começaram a participar nos reseaux.

4. Agrupamento de seguidores de Léon Trotsky, assim chamado por combater a Terceira Internacional, patrocinada pela URSS. Depois do assassínio do seu fundador, a IV Internacional sofreu várias cisões e já na época da guerra da Argélia existiam outros grupos reclamando do mesmo nome. Refere-se aqui à IV Internacional dirigida por Ernest Mandel, Pierre Frank e Michel Raptis, este último já em conflito com os dois primeiros.

5. Aquino de Bragança, nascido em Goa, tinha vivido alguns anos em Moçambique. Depois emigrou para França onde travou conhecimento com os nacionalistas africanos, estabelecendo –se mais tarde em Marrocos onde leccionava Matemática. 

 6. Marcelino dos Santos, natural de Moçambique.

7. Contava-se que Marcelino dos Santos, enquanto estudante em Paris, prestara serviços ao então principe herdeiro de Mohamed V, quando os marroquinos ainda lutavam pela independência do antigo protectorado francês.

8. O diferendo MPLA-UPA é tratado em pormenor na Sexta Parte.

9. Ver Rol de Personagens.

10.Ver Rol de Personagens.

11.Mário Coelho Pinto de Andrade, nacionalista angolano e um dos fundadores do MPLA,

12.Ver rol de Personagens.

13.Ruy Luís Gomes não apareceu e Piteira atribuiu o fracasso aos preconceitos católicos da esposa do professor que, diaia, não querer ir para um país muçulmano.

14.Vergès ganhou notoriedade internacional quando, anos mais tarde, assumiu o papel de advogado de defesa do nazi Kllaus Barbie e, actualmente, do terrorista ‘Carlos’, nos tribunais franceses.

15.Christopher Dobson e Ronald Payne, autores do The Dictionary of Espionage, Londres, Harrap, 1984. referem Curiel como ‘pessoa misteriosa’ que tinha ficheiros ‘não só na DST (serviços franceses de contra-espionagem) mas também em muitos serviçoa secretos do mundo’- (p.35). Ainda segundo aqueles autores, pensa-se que ele, após a expulsão do Egipto por Nasser, tenha começado a trabalhar para o KGB NA Europa Oriental. Curiosamente, era primo do espião britânico, George Blake,condenado a 42 anos de prisão por espionagem a favor dos soviéticos. Curiel acabou por se instalar em Paris e envolveu-se com grupos de apoio às organizações terroristas e de libertação na Europa, na América Latina e na África do Sul. Os serviços franceses acreditavam que ele fornecia aos russos informações respeitantes a tais organizações. A vida de Curiel terminou em 1978 quando foi assassinado em Paris por homens armados não identificados.

16.Advogado exilado no Brasil, foi durante algum tempo íntimo de Delgado. Ver Quarta e Quinta Parte e rol de Personagens.

17.Pouco antes, Ben Bella proibiu o PC Argelino.

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