Prefácio:  Misérias do Exílio 

Portolani Books Volume Dois

 


1. Em Defesa da História.  2. Os Antecedentes da Aventura.

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PREFÁCIO Á EDIÇÃO IMPRESSA
 
1. Em defesa da História
 
A primeira edição deste livro apareceu há dezanove anos quando jovens que agora estão a entrar na idade adulta ainda não tinham nascido. Os acontecimentos  nele descritos passaram-se há mais de trinta anos. São acontecimentos que pertencem à história contemporânea, história que no caso português resta, em larga medida, por fazer. Uma  constatação de muitos historiadores, tanto nacionais como estrangeiros, é da exiguidade em Portugal de memórias pessoais de importantes acontecimentos escritas  por participantes ou observadores. Na França, Grã Bretanha, Estados Unidos, para falar só de alguns, as estantes das bibliotecas estão repletas deste género de obras, que constituem uma valiosa fonte de documentação e parte importante do património do respectivo país.


Em Portugal, pelo contrário, parece haver o mesmo desprezo para com a documentação escrita, tal como existe com muitos dos nossos arruinados monumentos. No último caso, podemos atribuir o fenómeno ao simples descuido ou à falta de verbas necessárias para a conservação. Quanto à escassez de memórias, a causa parece ser outra: a reticência de muitas potenciais testemunhas deve-se ao receio das reacções.  Num meio restrito, como é o da intelectualidade portuguesa onde todos se conhecem, muitos partilham de cumplicidades de vária ordem, muitos são devedores de favores mútuos. Como na casa onde falta o pão e todos ralham, também num país onde o bolo é pequeno cada um se agarra à sua fatiazinha e não suporta que outros venham desvendar factos inconvenientes. As décadas de ditadura exacerbaram uma situação já existente e que sobreviveu ao 25 de Abril. Ao receio de criar inimigos pessoais, juntou-se o temor de criar inimigos políticos, partidários e, até, institucionais. A extrema polarização ideológica de antes e depois da instauração da democracia veio acentuar as inibições.

Assim, enquanto não faltam livros e artigos de jornais sobre alguns aspectos da vida—e da morte—do general Humberto Delgado, são raríssimas as pessoas que quiseram, publicamente, analisar ou documentar os últimos meses da sua vida e as reacções, bastante diversas, à notícia do seu desaparecimento.  

Nos Estados Unidos, a bibliografia sobre o assassinato do presidente John Kennedy, tanto impressa como cinematográfica, é vasta e não para de crescer. As teorias e hipóteses continuam a confrontar-se e raramente acontece que os autores sejam insultados ou caluniados por terem a ousadia de publicar as suas opiniões ou documentação sobre o trágico fim do presidente americano que perdeu a vida em Dallas. 

Em Portugal acontece o contrário. Prevalecem poderosos tabus que poucos ousam romper. Na situação portuguesa não é de admirar que assim seja. Vivemos em democracia; todos os dias se ouve falar na existência de um Estado de Direito;  é suposto vivermos sem censura. No entanto, sobre o caso Delgado, sobre a oposição anti-salazarista, sobre a descolonização, sobre os movimentos de libertação, existe esse género de censura tão bem conhecido dos escritores e editores que viveram o ‘socialismo real’ dos países do Leste europeu.  É a auto-censura: a consciência inibidora da existência de assuntos incómodos os quais  não se deve abordar.

A auto-censura é castrante; estende-se a muitos campos. Não só atinge a historiografia mas também a literatura criativa. Envenena os espíritos e empobrece a vida intelectual. Subverte a própria democracia.  Não pode haver combate de ideias se não for permitido o seu confronto franco. Se teorias ou relatos desagradáveis, em vez de serem analisados abertamente, sejam abafados pela calunia e pela perseguição dos seus autores, torna-se difícil senão impossível chegar à verdade. Torna-se, com efeito, impossível fazer  História.

A história da ditadura e da oposição anti-salazarista; a história da descolonização; a história dos movimentos de libertação das colónias portuguesas - todos estes temas, riquíssimos em acontecimentos e lições para o futuro, continuam afogados em dogma, mitologia e mentira.  Ou, então, enterrados no silêncio - o que talvez seja ainda pior. Os historiadores do futuro quando encontrarem mitos e mentiras, ao menos enfrentarão o desafio de cavar mais fundo. Se encontrarem silêncio e lacunas devido à ausência de documentos e testemunhos é como se a história tivesse sido apagada; simplesmente não aconteceu.

Desde 1965 tenho tentado que fossem conhecidas algumas verdades sobre o caso Delgado, que considero intimamente ligado com alguns aspectos do problema colonial. Não foi somente por acreditar na necessidade histórica de publicar documentos. Foi também por respeito à memória de uma figura importante nos anais do país, uma figura que não hesitou em sacrificar a própria vida pela causa em que acreditava.  Considerei sempre que ignorar, ocultar ou deformar o período argelino da vida de Delgado constituiria a última traição à sua memória. Senti ainda com mais intensidade o imperativo de contar a verdade na medida em que nunca partilhei da sua crença na viabilidade de uma acção armada partindo do exterior contra a ditadura. Por motivos bastante divergentes dos do
Partido Comunista pensei então, e continuo a pensar hoje, que Delgado não tinha uma apreciação informada sobre a conjuntura internacional dos anos 60. Por isso, embora admirando e apoiando de Londres em 1958 a sua candidatura à presidência da República, nunca quis, nos anos do seu exílio, aderir a qualquer movimento que ele encabeçasse. Ao contrário do que depois disseram alguns, nunca tive qualquer contacto político ou pessoal com o general, além de um único aperto de mão quando lhe fui apresentada numa paragem de carro eléctrico em Argel, na véspera da sua  fatídica partida.

Todavia, assisti de perto ao desenrolar da tragédia. Em Marrocos e na Argélia, de 1962 a 1966, conheci quase todas as principais personagens; recebi e guardei relevantes documentos; conversei quase diariamente com muitos que conviviam com o general e também com muitos argelinos e outros africanos. Nunca procurei conhecer Delgado pessoalmente, embora como jornalista pudesse muito bem tê-lo entrevistado. Estava de tal maneira consciente do poço de intrigas em que se envolvia a comunidade lusófona  na África do Norte, que escolhi ficar afastada das organizações e confinei as minhas actividades à escrita. Nos anos que se seguiram, tenho por vezes lastimado esse distanciamento. Podia, talvez, ter tentado aconselhar o general;  podia tê-lo informado dos antecedentes do complot em que ele, ingenuamente, se metera;  podia ter partilhado com ele os meus conhecimentos da política argelina e dos comunistas. Mas quem era eu para que ele me ouvisse? Uma modesta escritora, meia-estrangeira, já com muitos inimigos políticos devido à minha independência e, não menos, pelo facto de ter sido uma vez comunista, deixando de o ser. Hesitei, portanto, em contactar Delgado e acabei por manter a postura de observadora.

Foi esse sentimento de não ter feito o que podia enquanto o general estava vivo que também me impulsionou a tentar fazer-lhe justiça depois de morto. Considerei essencial que se soubesse a verdade; que fossem desmascarados os inimigos de Delgado, doer a quem doesse. Pensei, e penso ainda, que a verdade sobre as intrigas de Rabat e Argel fosse importante para um entendimento global da política da oposição anti-salazarista e de certos sectores do nacionalismo africano.

A minha primeira tentativa neste sentido foi um artigo na revista política francesa Partisans, no Verão de 1965.  Logo começou uma campanha cheia de calúnias contra a minha pessoa, campanha que ia durar muitos anos e que, talvez, não tenha ainda chegado ao seu termo. Como a ‘vitimologia’ não é o meu forte, não irei adiantar-me sobre o assunto neste prefácio. Contudo, como as respostas dos adversários são tantas vezes reveladoras, os leitores encontrarão em apêndice um resumo destas, assim como um apêndice reproduzindo o meu artigo da Partisans.

Hoje o mundo é bastante diferente do que era em 1979. A URSS desmoronou-se.  Em toda a parte faz-se agora a verdadeira história. Análises pormenorizadas e documentadas sobre os partidos comunistas aparecem em França, na Inglaterra, nos Estados Unidos. Os russos publicam todos os dias relatos dos anos tenebrosos. Está hoje provado que infâmias, longamente negadas e atribuídas ao inimigo, foram realmente cometidas por comunistas. Os próprios russos confirmaram que os milhares de oficiais polacos abatidos em Katyn foram-no pelos soviéticos e não pelos nazis como antes tinham insistido - apodando-se de fascista quem ousasse dizer a verdade. Tantas e tantas vítimas do comunismo foram reabilitadas. Tantos e tantos crimes desvendados.

Portugal, com os seus ‘brandos costumes’, foi poupado a uma grande parte dos sofrimentos que martirizaram outros povos europeus. Por isso, esquecemos muitas vezes que quem não foi poupado no mundo lusófono foram os africanos – e, sobretudo, os angolanos. No drama angolano, existem muitas culpas e estas são partilhadas por portugueses que agiram em nome de Portugal. Alguns desses portugueses são os mesmos que aliciaram, perseguiram e abandonaram Delgado. Fizeram-no em nome de um ideal que hoje está desmascarado como ‘o maior embuste do nosso século’1. A honra de um povo depende da sua capacidade de reconhecer as culpas. Os alemães já o fizeram. Os russos estão em vias de fazer o mesmo. Os portugueses não podem ficar fora deste processo, sob pena de viver o futuro numa ‘apagada e vil tristeza’. Não basta pedir desculpas ao povo judeu pela Inquisição. Não basta culpar Salazar e os salazaristas pelos malefícios pátrios neste século. É preciso também analisar o papel dos seus adversários e procurar todas as culpas e em todos os campos. Espero que esta nova edição, melhorada e ampliada de O Bando de Argel ajude nesta tarefa difícil mas inadiável, que se impõe a todos os investigadores sérios.

2. Os antecedentes da aventura

 
Alguns dos personagens que vim encontrar em Marrocos no Verão de 1962 já eram meus  conhecidos. Também já sabia alguma coisa sobre a guerra de libertação dos argelinos contra a França. Participei na tradução para inglês de um livro publicado na Suiça sobre a luta da FLN e a perseguição e tortura dos seus militantes2. No decurso desse trabalho tive os meus primeiros contactos com argelinos cuja luta estava a ser seguida apaixonadamente nos meios anticolonialistas ingleses.
Na esquerda inglesa, depois do relatório de Khruchtchev em 1956 sobre os crimes de Estaline e da repressão da revolução na Hungria, houve uma enorme efervescência e a formação da chamada Nova Esquerda. O Partido Comunista Britânico perdera milhares dos seus militantes. Muitos deles, intelectuais de primeiro plano, envolveram-se em vivos debates sobre todos os aspectos do marxismo, especialmente sobre a questão colonial. Nessa Nova Esquerda encontravam-se todas as tendências anti-estalinistas do marxismo, incluindo trotskistas de diversas facções.

Na década de 50, em colaboração com amigos portugueses ajudei no trabalho de divulgar a luta dos anti-salazaristas portugueses. Pessoalmente consegui que Kingsley Martin, director do influente semanário New Statesman, viesse a Portugal por ocasião da  visita da rainha de Inglaterra em Fevereiro de 1957. O jornalista inglês avistou-se com personalidades da oposição, entre as quais António Sérgio; descreveu depois as suas conversas  num artigo que causou bastante escândalo nos meios salazaristas3. Consegui também que Gerald Gardiner, mais tarde Lord Chancellor4, viesse assistir ao julgamento de Ruy Luís Gomes acusado com quatro outros da tentativa de publicação de um artigo apelando pela a restauração das liberdades. Também ajudei a organizar a visita de Robert Kee, da BBC, que fez o primeiro programa sobre Portugal na conceituada série documental Panorama. Lançámos em 1961 uma publicação mensal5  e conseguimos a formação de uma Comissão6  composta por importantes figuras britânicas: parlamentares, juristas e conhecidos jornalistas que se preocupavam não só com a situação em Portugal mas também nas suas colónias.

Desde o início, porém, verificou-se uma tensão acentuada entre os portugueses quanto ao modo de tratar o problema colonial. Havia os que, seguindo a linha do PCP, se mostravam bastante reticentes sobre a questão da independência das colónias portuguesas. Enquanto outros, geralmente pessoas de origem colonial, não aderiam à tese segundo a qual só depois de derrotada a ditadura se podia enfrentar essa questão. Estes achavam que era precisamente no problema colonial que residia o ponto mais fraco do salazarismo.

Em 1959, princípios de 60, passei alguns meses em Portugal com o objectivo de recolher dados para a feitura de um livro que seria publicado em 1961 com o título - 
Oldest Ally: A Portrait of Salazar’s Portugal7 . Foi nessa visita que conheci pela primeira vez Fernando Piteira Santos. Depois de voltar para Londres fui procurada por várias pessoas interessadas na questão das colónias portuguesas, em especial trotskistas, já muito envolvidos no apoio à FLN argelina. Um desses era Michel Raptis-Pablo, que mais tarde veio a desempenhar um papel significativo no nascimento da FPLN portuguesa8.

Conheci também, ao passarem por Londres, vários dirigentes dos incipientes movimentos nacionalistas das colónias portuguesas, entre os quais Aquino de Bragança, com quem continuei a ter contactos por correspondência9.

Durante os meses que se seguiram à publicação de Oldest Ally, aumentaram as minhas reservas quanto à utilidade de tentar colaborar com os exilados portugueses em Londres, tão inibidos alguns deles em relação ao problema colonial - em particular os recém-chegados de Portugal - para quem a discussão só servia para perturbar a ‘unidade anti-fascista’. Esses mesmos elementos, sectários e totalmente ultrapassados no seu estalinismo, não gostavam de mim nem do meu livro.  Desconhecendo o debate aberto, normal num país democrático, eles achavam as minhas eclécticas relações com a esquerda inglesa altamente suspeitas, em especial porque tinha me afastado do Partido Comunista inglês uns anos antes.
Por conseguinte, quando Aquino de Bragança e Michel Raptis-Pablo insistiram comigo nas suas cartas de Marrocos para eu pensar em abandonar Londres e transferir-me para África do Norte, comecei a pressentir uma saída. Num contacto mais estreito com os nacionalistas, pensava eu, talvez fosse possível fazer um novo livro anti-salazarista, desta vez dedicado inteiramente ao problema colonial. A oportunidade de realizar este projecto surgiu quando assinei um contrato para a tradução inglesa de Os Maias de Eça de Queiroz, trabalho que não necessitava da minha presença em Londres10.  Assim, com algum dinheiro na algibeira, avançado pelo editor, mais os necessários dicionários na bagagem, embarquei na companhia de Carlos Lança11 para Rabat no Verão de 1962. Não podia adivinhar que iria encontrar os mesmos problemas na África do Norte, mas desta vez com contornos dramáticos.  

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REFERÊNCIAS 

1. Palavras de Mário Soare.

2. Hafid Keramane. La Pacification, Lausanne, La Cité, 1961. Quando viu a tradução, o editor inglês ficou de tal maneira chocado com as revelações do autor argelino que acabou por recusar editar a versão inglesa, dizendo que não podia acreditar que os civilizados franceses pudessem cometer tais atrocidades. 

 

3. New Statesman, Fevereiro de 1857, Kingsley Martin, ‘Fascism in the name of Jesus’ (Fascismo em nome de Jesus).

4. Esse alto cargo no Reino Unido não tem equivalente em Portugal. É o principal magistrado, responsável pela nomeação dos juízes e a condução da justiça. É o segundo ministro do governo. Um dos mais distintos juristas ingleses, Lord Gardiner ficou indignado com o que viu no tribunal salazarista e que descreveu no diário Manchester Guardian de 19 de Outubro de 1957.

 

5. Portuguese and Colonial Bulletin, Londres. O primeiro número saiu em Fevereiro de 1961, celebrando a captura do Santa Maria em Janeiro de 1961.


6. Council for Freedom in Portugal and Colonies. 

 

7. Peter Fryer e Patrícia McGowan Pinheiro, Oldest Ally, A Portrait of Salazar’s Portugal, Londres, Dobson, 1961. Peter Fryer tinha sido expulso do PC inglês em 1956 por escrever a verdade sobre a revolução húngara. Este facto bastou para que Oldest Ally fosse boicotado pelos comunistas; ou seja, banido das livrarias do PC inglês; em Paris, segundo me informou António José Saraiva, o PCP proibiu aos seus militantes o fornecimento de fotografias para as edições francesa e espanhola. No entanto, Oldest Ally descreve a política do PCP com serenidade e bastantes louvores, sem qualquer vestígio de ‘anticomunismo primário’. A PIDE, por sua vez, também não gostou do livro: os autores foram proibidos entrada em Portugal e PMGP foi só permitida voltar a vir a Portugal dez anos mais tarde em 1971.

 

8. Ver Rol de Personagens. 

9. Ver Rol de Personagens.

 

10. The Maias, Londres, The Bodley Head, 1961. 

 

11. Carlos Alberto Lança (1919-1994) aderiu, ainda estudante, ao PCP. Organizou com Francisco José Tenreiro dois volumes, Contos e Poemas, Lisboa, Abril e Novembro de 1942, colectâneas de obras de vários autores que depois se distinguiram no neo-realismo português, tais como Mário Dionísio, Sidónio Muralha, Soeiro Pereira Gomes e Manuel da Fonseca. Em Moçambique, verificando o despropositado das directivas do PCP, concentrou-se em actividades culturais, sendo um dos principais promotores do Cine-Clube da Beira e da revista Paralelo 20. Foi preso em 1959, acusado de crime contra a Lei da Imprensa por ter circulado uma Carta Aberta ao Presidente da República pedindo a discussão do problema colonial. Promoveu a formação de um grupo de brancos anticolonialistas, ‘Movimento Democrático de Moçambique. O MDM reivindicava sem equívocos a total independência das colónias e o apoio aos nacionalistas africanos. Com a partida de Moçambique da maioria dos seus elementos, o MDM sobreviveu pouco tempo. Carlos Lança partiu para Rabat com o propósito de colaborar com Marcelino dos Santos, mas cedo entrou em conflito com outros brancos de Moçambique, adeptos do PCP.

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