Prefácio à Edição Electrónica

Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio


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PREFÁCIO À EDIÇÃO ELECTRÓNICA

 

Periodicamente tenho tido oportunidade de revisitar na memória os quatro anos que passei  no  norte de África, logo a seguir à independência da Argélia.  Ao percorrer esse caminho, apoiada na documentação que guardei durante tantos anos, fico cada vez mais impressionada com o significado do que se passou.  Quando releio o que escrevi nos finais dos anos setenta  em O Bando de Argel, e num segundo livro, As Misérias do Exílio, nos anos 90, consolido a minha convicção de que os acontecimentos de Argel revelaram e continuam a revelar muito sobre a natureza do salazarismo e da oposição anti-salazarista. Com efeito, ajudam a explicar a longevidade do Estado Novo.  Para quem soubesse interpretá-los, esses acontecimentos foram um pré-aviso de dramas  futuros. Foram ainda um verdadeiro presságio do que viria a acontecer mais tarde, depois da queda da ditadura. E ajudam-nos hoje a entender alguns problemas da nossa actual política partidária. 

É um lugar-comum dizer que para compreender o presente temos que conhecer o passado. Toda a gente concorda mas, na prática, poucos reflectem sobre isso. Se tivesse havido entre 1966 e 1974 um verdadeiro interesse pelos acontecimentos de Argel da parte dos opositores ao salazarismo, talvez não tivessem ocorrido algumas das desgraças de 1974-75, nem tivesse continuado até hoje  a persistente hegemonia de uma esquerda velha, caduca e desacreditada. Não houve esse interesse. Bem pelo contrário: ninguém queria saber. Lembro-me da reacção de um familiar a quem mostrei em l967 alguns dos documentos escritos por Delgado.  Era um  simpatizante  comunista e não gostou do seu conteúdo: Estes papéis, disse ele, só podem ser fabricações da PIDE.  Recusou ouvir como eu os tinha recebido, todos eles, em Argel, das mãos de pessoas que estavam a trabalhar com Delgado. 

E, assim, tudo foi varrido por baixo do tapete, como se diz na gíria.  O tema de Argel e as desavenças de Delgado com a Oposição tradicional entrou no longo rol dos tabus: questões  que antes de 1974 não podiam ser abordados para não perturbar a ‘unidade antifascista’,  e que desde então precisam de ser escondidos para preservar o status quo.  Nos conturbados tempos depois do 25 de Abril, mesmo os mais recalcitrantes maoistas não queriam ouvir falar em acontecimentos que reflectiam o pouco crédito dos seus protagonistas. Hoje, o muro de Berlim pode ter caído;  já há muitos anos que os países da chamada ‘democracia popular’ podem ter corrido com os seus regimes comunistas. Em Portugal, porém, continuam de pé velhos ídolos com pés de barro. Continua a haver muita gente empenhada em esconder a verdade.  Não me refiro  só ao mistério que rodeia o assassinato de Delgado, embora haja pessoas ainda vivas que não querem levantar o véu sobre o crime. 

Não existe por esse país fora uma cidade, uma vila, uma aldeia onde não se encontre uma rua ou uma praça com o nome de Humberto Delgado.  Às crianças e aos estrangeiros que perguntam quem foi essa pessoa, a resposta é sempre: ‘Um general que foi candidato democrático à presidência da república e que foi assassinado por ordem de Salazar.’ No entanto, quem investigar os acontecimentos que precederam a morte de Delgado, rapidamente chega à conclusão que Salazar não tinha razão alguma para querer que o general desaparecesse.  É por isso que o assunto se tornou tabu. 

Independentemente do problema de saber quem matou  o general, e de quem tenha  sido  o seu mandante, o que os acontecimentos de Argel revelam, sobretudo, é a incompetência e a patética infantilidade de todos, assim como a falta de moralidade de alguns dos actores do drama que se desenrolou naquela época, no norte de África. 

Aquele foi, em boa verdade, um palco onde todas as tendências da oposição tiveram a oportunidade, que não existia em Portugal, de mostrar o que valiam. Relendo hoje os documentos tanto de Delgado, como dos comunistas, como da extrema-esquerda, ficamos com a desconfortável sensação de ver e ouvir bonecos de cartão, como se de um teatro do absurdo se tratasse, a desempenharem papéis  e a disputarem  poderes pouco mais do que imaginários. Um teatro onde não é fácil distinguir entre o cómico e o trágico.  É por isso que os comunistas fizeram e fazem  tudo para esconder o seu  papel na farsa. É por isso que inventaram histórias fantasiosas sobre o que se passou, tendo o próprio Álvaro Cunhal recusado qualquer responsabilidade nos acontecimentos,  afirmando até o fim da vida que os documentos, publicados pelos protagonistas e comprovativos da verdade, eram ‘apócrifos’. 

As divisões políticas e as impotências que observamos no Portugal de hoje derivam em larga medida da persistência obstinada de um mito que alimenta as hostes da esquerda e que intimida e culpabiliza a castrada direita.  Poucos compreendem realmente o passado.  Nem querem  compreendê-lo, como ficou amplamente demonstrado durante o famigerado concurso para o maior português; como também fica demonstrado anualmente com a benevolência estendida à ‘Festa’ do Avante.  O ‘politicamente correcto’, a mais recente arma da esquerda,  proíbe uma discussão desapaixonada do salazarismo, como igualmente impede qualquer pergunta inconveniente sobre a impotência e a mediocridade da oposição anti-salazarista no seu todo.  A continuada influência  dos comunistas em alguns sectores cruciais da sociedade portuguesa depende do mito de uma heróica resistência contra  uma feroz ditadura que durou quase meio século.  Podem os comunistas não apreciar os oposicionistas não-comunistas e não se perderem  de amores pelos herdeiros da Primeira República, mas estão todos de mãos dadas quando se trata de exagerar os pecados da ditadura. É, porém,  mais que evidente para um observador desapaixonado  que, em comparação com as sanguinárias tiranias que foram os regimes comunistas ou os actuais infernos das ditaduras do terceiro mundo,  o Estado Novo de Salazar não passava de uma ditadura bastante branda. 

Pretender o contrário é realmente uma ofensa ao sagrado dever de respeito pela verdade histórica e uma traição às centenas de milhões de mortos em outras paragens. Num país pobre e subdesenvolvido como era o Portugal de então, havia certamente muitas práticas típicas de um estado policial: censura, partido único, algumas centenas de presos políticos, obscurantismo no ensino, uma burocracia sufocante e muitas vezes prepotente, ausência dos normais direitos cívicos e laborais, a repressão de protestos e de manifestações pacíficas, o estatuto subordinado da mulher. Todos esses desafios aos princípios liberais existiam no Portugal de Salazar como, aliás, existiam antes da Segunda Guerra Mundial em todos os países da Europa rural e subdesenvolvida.   Devido ao seu isolamento por causa da Segunda Guerra Mundial e da Espanha franquista, a sociedade portuguesa estava atrasada e parada  no tempo. Tudo tinha fatalmente que culminar num desastroso confronto  quando eclodiram as revoltas coloniais. Foram elas e a fuga dos emigrantes que precipitaram a modernização.  Mas um regime criticável, e em muitos aspectos condenável,  não é necessariamente um regime fascista.  Confundir categorias políticas leva ao esvaziamento do seu sentido e semeia confusão. É a arma do demagogo, do terrorista do verbo.  Na escola é antipedagógico e  na vida política é utilizado como instrumento  de chantagem. 

Para os comunistas a confusão é necessária para manter o seu estatuto heróico e é por isso que exageram vergonhosamente os malefícios do antigo regime.  Muita gente, por diversos motivos, aceita a grande mentira. Não importa que tenha havido várias amnistias para militares revoltosos; não importa que a alguns dos exilados com maior evidência em Argel lhes tenha sido permitido voltar para Portugal, ainda durante a ditadura; não importa que a políticos da oposição, deportados para as colónias, lhes fosse permitido exercer localmente as suas profissões. 

        Não importa nenhum desses sinais duma ditadura própria da Ruritânia: o regime era fascista! 

É por isso que tudo o que tenho escrito ao longo de quarenta anos sobre o que se passou em Argel  tem sido  mal recebido ou simplesmente ignorado.  Fui avisada constantemente, até hoje, que apesar de minha narrativa ser verdadeira, era sempre inconveniente. Antes do 25 de Abril, ajudava ‘o fascismo’.  Até aos anos 80, disseram-me que só podia favorecer os nostálgicos do Estado Novo.  Hoje dizem-me que estou a prejudicar o bom nome da  ‘resistência’ e ‘ajudar a reacção’. 

Houve somente um breve período, nos fins dos anos setenta, quando o ambiente era diferente e a comunicação social mais diversificada, que foi evidente alguma abertura. Havia muito mais debate do que há hoje: era o tempo da Aliança Democrática.  O meu primeiro ensaio sobre o ‘caso Delgado’, foi então  um best-seller e em seis meses venderam-se muitos milhares de exemplares do livro.  A versão impressa do texto agora posto on-line,  pelo contrário, foi boicotada; não recebeu qualquer promoção ou publicidade.  Não sei quantos exemplares foram vendidos, porque até hoje o editor não me apresentou quaisquer contas. 

Foi pena—ou talvez não. Agora existe a internet e uma audiência potencialmente muito maior. Sobretudo, há toda uma nova geração de leitores.  E se não tivesse havido aquele boicote,  talvez eu não tivesse tido o incentivo para colocar o livro on-line.

O valor histórico do livro consiste, sobretudo, na reprodução, na totalidade,  de todos os meus documentos referentes aos acontecimentos narrados. A primeira edição, por pressão de tempo, só trazia extractos de alguns deles.  Esta edição também reproduz alguns comentários curiosos incluindo um de Álvaro Cunhal e outro de Pedro Ramos de Almeida.  São curiosos porque descaradamente mentirosos, revelando mais uma vez a natureza dessa famigerada  ‘superioridade moral dos comunistas’.  Cunhal falou de ‘documentos apócrifos’. Ramos de Almeida e o agente russo Ignatiev mentiram escandalosamente sobre o meu passado político e alegada pertença ao Intelligence Service. As palavras dessas figuras são bem reveladoras do seu carácter e das suas motivações.

A verdade sobre o assassinato de Delgado ainda está por descobrir e talvez nunca seja conhecida.  A verdade sobre a moralidade e os objectivos de muitos opositores ao Estado Novo já se sabe.  Resta agora tirar as conclusões. A minha esperança é de que os textos agora publicados sejam instrumentos úteis dessa  tarefa.

 

Algures no Alentejo, 15 de Setembro de 20007

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