Apêndice Documental C

 

Comentários Curiosos sobre o 'Caso Delgado'

 

Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio


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Ramos de Almeida            
Oleg Ignatiev
Álvaro Cunhal



 
APÊNDICE DOCUMENTAL  C
 
Alguns  comentários curiosos sobre o ‘Caso Delgado’
 
 
EXTRACTO Nº 1

 Pedro Ramos de Almeida, ‘Post-Scriptum’, Diário de Lisboa, 16 de Dezembro de 1976, pp 3-4. 

O autor que assinava esta coluna regular resolveu desta vez dedicá-la às suas ‘teórias’ sobre o ‘caso Delgado’. Uma chamada introdutória reza assim: ‘O imperialismo está directamente envolvido na morte de Delgado’. O autor desenvolve ao longo de duas colunas a tese de que Delgado, devido à sua origem social, caiu na armadilha tecida pelo imperialismo Ocidental. Depois de alegar que isso explica a sua ligação a Mário de Carvalho em Roma e a contratação de uma senhora francesa, depois expulsa da Argélia por espionagem (a já referida senhora David), Ramos de Almeida dá largas à sua imaginação:

É isso que explica que tivesse admitido a ligação política, na Inglaterra e em África, com Patrícia McGowan Pinheiro, portuguesa de origem, anos atrás expulsa do Partido Comunista inglês por comprovada ligação ao ‘Intelligence Service’. Esta senhora, aliás, pouco antes de Delgado chegar a Argel e de a conhecer, associara-se (vide boletim divisionista Revolução Portuguesa, por eles publicado) a um português suspeito de ligações policiais franco-americanas, tanto em Paris como depois no Mali (Trata-se do indivíduo que, por volta de 1960, falsa e abusivamente falou, em nome do PCP, no enterro na região de Paris, de um trabalhador português morto, pela Policia francesa, que julgara tratar-se de um argelino.)


Comentário da autora

No Prefácio já esclareci o meu passado político e o meu desconhecimento pessoal do general Delgado; aqui só preciso de mencionar alguns factos referentes ao infeliz Rui Nóbrega, vítima ao longo de anos da perseguição do PCP. Este anti-salazarista era conhecido do meu marido, em Moçambique. Emigrou para França onde aderiu ao PCF. No enterro do trabalhador português, um enterro presenciado por entidades oficiais portugueses, é verdade que ele falou. Falou como português e como comunista, condenando igualmente o colonialismo francês e o salazarismo. O seu discurso, que não estava previsto, irritou sobremaneira os portugueses, tanto da embaixada como os PCPs presentes. Como não fora autorizado pelo partido, estes últimos consideraram o discurso uma provocação, tanto mais que comparou a Argélia colonial com Portugal! A partir de então Nóbrega passaria a ser anatematizado pelos comunistas portugueses, embora continuasse sem problemas a militar no PCF até se estabelecer no Mali como funcionário do Banco Nacional desse país. No Verão de 1964 passou por Argel à procura de portugueses anti-fascistas. Daí o reencontro com Carlos Lança.  Insatisfeito com  o que ele considerava a passividade do PCP, projectava fazer um boletim de luta, que finalmente se concretizou com o título Revolução Portuguesa, editado por um pequeno grupo de quatro pessoas, Nóbrega, Américo Nunes da Silva, Carlos Lança e eu própria, os dois primeiros de Moçambique onde Carlos Lança tinha vivido também longos anos. Escrevia-se sob pseudónimo e, salvo o primeiro, todos os números se produziram na Prensa Latina com o apoio material dos cubanos. O angolano Viriato da Cruz também lá escreveu.
Eis a ‘ligação imperialista’ dos seus elementos! Este boletim sempre criticou a Frente Patriótica e o que considerava a sua associação contra natura com Humberto Delgado. Chegou-nos aos ouvidos que Delgado, apesar das nossas críticas, admirava a combatividade do GPRL e queria conhecer-nos. O grupo sempre evitou qualquer contacto com o general mas ele, homem justo, resistiu todas as tentativas, as mais insistentes de Ramos de Almeida, de fazer expulsar da Argélia os membros do GPRL. 


EXTRACTO Nº 2

Oleg Ignatiev. Conspiração contra Delgado. História duma operação da CIA e da PIDE. Uma crónica documentada, Moscovo, Edições Progresso, 1987, pp. 323-324.
 
Nos últimos meses de 1964, Delgado estava sob vigilância dos serviços secretos de vários países. Já sabemos que, em Marrocos, a PIDE tinha um informador permanente, Henrique Cerqueira; na Argélia, o general estava ao ‘cuidado’ de Ferreira da Silva. O serviço de espionagem inglês, ‘Intelligence Service’, recebia informações sobre Delgado de uma certa Patrícia McGowan Pinheiro, uma descendente de portugueses e ingleses. Tinha sido expulsa em tempos do Partido Comunista da Inglaterra precisamente por causa das suas ligações com a ‘Intelligence Service’, mas continuava trabalhar para esta organização.
 

Comentário da autora

Ignátiev foi correspondente em Lisboa durante alguns anos do diário moscovita Pravda.  Publicou vários livros sobre países da América Latina, muitos deles editados na Inglaterra. A obra sobre Delgado é uma narrativa em forma de romance, embora mencionando pessoas reais, especialmente figuras da CIA e da PIDE, as suas refeições, os seus charutos e as suas conversas canalhas, tudo fruto da fértil imaginação do autor.  Infelizmente, Ignátiev não editou esta última obra em inglês, senão teria incorrido no risco de ser processado por calúnia segundo as rigorosas leis inglesas, que punem não só o autor mas também o editor, tipografia e livreiros com pesadas indemnizações pecuniárias por este tipo de ‘literatura’. 
Ferreira da Silva, mencionado diversas vezes por Ignátiev, era um topógrafo de sessenta anos de idade que trabalhara em Angola e se achava há longos anos radicado na África do Norte. Era muito amigo de vários angolanos e também de Delgado. Tinha chorudos contractos com empresas construtoras de ‘pipelines’ e a sua situação  desafogada permitiu-lhe ajudar o general financeiramente. A sua independência grangeou-lhe a desconfiança da FPLN que espalhou a insinuação de ele ser agente da PIDE, embora o seu nome só tenha sido mencionado nesse sentido por Ignátiev. Contrariamente às alegações do autor russo, e segundo o próprio Ferreira da Silva,  em conversa com o meu marido, a sua fuga de Portugal  nada tinha a ver com política, mas sim com a sua predilecção por meninas de menor idade.

 

EXTRACTO Nº 3

Álvaro Cunhal. Acção Revolucionária, Capitulação e Aventura, Lisboa, Editorial ‘Avante’, 1994, pp 225- 271.

Recebendo ‘informações’ fantasistas de pessoas irresponsáveis e de provocadores; receptivo à apresentação da fácil perspectiva de golpe militar ou insurreição que propagandeavam fapistas, maristas e aventureiros de todas as latitudes; permeável ao elogio servil de aduladores e oportunistas e à intriga que procurava mostrar-lhe que o PCP só queria a aliança com ele para ‘controlar as aspirações do general à acção violenta’ e ‘sabotá-la’ (Revolução Portuguesa, Julho, 1964); aceitando como verídicos os ‘relatórios’ sobre ‘organizações’ e ‘movimentos’, como os do Carvalho de Roma, do Cerqueira de Marrocos, do Mário Mendes da Venezuela que apelavam à sua ‘chefia’ para lançar o levantamento armado a curto prazo; julgando-se na Argélia reconhecido como único e incontestável ‘chefe’ da Oposição portuguesa dadas as honrarias e facilidades que lhe foram concedidas pelas autoridades—o general julgou chegado o momento para dispensar os aliados da FPLN, assenhoreando-se entretanto dos meios de trabalho que estes haviam conseguido criar.
A ‘operação’ ficou conhecida como o ‘golpe de Estado’ do general. De facto merece esse nome. Em fins de Julho, princípios de Agosto, pretendendo passar a exercer um poder directivo pessoal, abriu violentos conflitos, a que deu publicidade, com os outros membros da Junta
2,
fazendo-lhes violentas acusações e ameaças físicas e acabando por decretar a sua ‘demissão’. Abusando da autoridade de ‘presidente’, o general apossou-se momentaneamente dos meios de trabalho da FPLN (sede, arquivos, rádio, serviços de propaganda, ligações, recursos, etc.), a maior parte dos quais datavam duma época em que o general não fazia parte da FPLN.
A luta contra o PCP e a histeria verbal ultra-revolucionária uniram nesse momento em torno do general praticamente todos os grupos e grupelhos pseudo-revolucionários. Não houve aventureiro ou provocador que, de uma forma ou de outra, não lhe tivesse dado ou declarado o seu apoio.  Aqueles mesmos que haviam acusado o PCP de se aliar ao general para, segundo eles, entregar assim à burguesia a direcção do movimento antifascista, logo que o general deu o ‘golpe’ e se apossou por momentos dos meios de trabalho da FPLN em Argel, consumando aquilo a que tinham chamado a ‘direcção burguesa’, tornaram-se os mais diligentes difusores de todas as mentiras e ataques contra o PCP, instigaram o general à campanha contra o Partido e contra a FPLN, espalharam documentos apócrifos, tornaram-se os mais próximos aliados, colaboradores e homens de mão do general.
Os da FAP, o Nóbrega do Mali, agora ligado aos aventureiros Lança-Patrícia McGowen (sic), o Carvalho de Roma, o Cerqueira de Marrocos e toda uma série de indivíduos desclassificados, julgaram ter chegado a sua hora de ‘triunfo’, julgaram poder liquidar as possibilidades de trabalho da FPLN e do PCP na Argélia. Tornaram-se as ‘forças’, os operacionais e os apoios do general. Este momento é particularmente rico de ensinamentos. Mostra como o ódio ao Partido Comunista, a hostilidade à unidade antifascista, o verbalismo pseudo-revolucionário, conduzem a um novo tipo de unidade: a unidade da aventura, da irresponsabilidade e da provocação.
A FAP disse mais tarde que ‘sempre se manteve alheia’ as ‘querelas’ entre o general e a FPLN (Acção Popular, nº 4, Maio de 1965).  Isso não corresponde porém à verdade. Os fapistas de Argel tornaram-se os dilectos impedidos do general, que além do mais se ligaram à Embaixada da China. Para lugares de confiança, uns reais outros imaginários, o general ‘nomeou’ fapistas. Fapista o ‘director da Rádio’, fapista o novo ‘chefe do Estado Maior’. Fapista o ‘director da Casa Abrigo’. Num boletim intitulado JAPPA, os fapistas publicam em 6 de Agosto de 1964 os mais insultuosos ataques aos membros da JRP e apoiam a acção de Delgado em nome dos ‘métodos democráticos’ (sic) no movimento antifascista!!!
O boletim Revolução Portuguesa (do ‘Grupo Revolucionário Português de Libertação’ do Nóbrega do Mali, transformado em ‘um dos numerosos grupos’ da FAP), ataca furiosamente o PCP, a cujos dirigentes chama ‘os revisionistas, dirigentes pequeno burgueses do partido da classe operária’, insulta os democratas da JRP que compara aos salazaristas e a quem chama ‘malfeitores agora em desgraça’. Arracadando de si próprios rótulos que lhes iam à maravilha, toda essa gente acusa a FPLN  de ‘corrupção’ e ‘podridão política’. Elogiam e secundam (embora com aparentes reservas) o general e o seu ‘golpe’, ameaçam denunciar ‘as actividades criminosas’ dos democratas portugueses e prometem aplicar-lhes medidas de violência física…em Portugal.


Comentário da autora

Existe nesta descrição do então secretário-geral do PCP um amalgama de mentiras, meias-verdades e omissões que fazem lembrar o procurador-geral da URSS, Vishinski, nos processos de Moscovo.  

---Omite qualquer menção das prepotências dos dirigentes da FPLN, as quais tinham provocado a revolta das bases e a repulsa de Delgado. 

---Refere-se a ‘documentos apócrifos’, quando todos os documentos que circularam eram autênticos.
---Afirma que a FAP e o Grupo Revolucionário de Libertação apoiavam Humberto Delgado. Qualquer consulta às publicações destas duas formações confirma que cada grupo criticava a política do general, limtando-se a aplaudir as suas tentativas de acabar com as perseguições conduzidas pelos dirigentes da FPLN contra os portugueses.

---Afirma que o general nomeou fapistas para lugares de confiança quando, na realidade, nenhuma das pessoas nomeadas por Delgado era membro da FAP: nem Amilcar Castanhinha, nem Adolfo Ayala, nem o encarregado da rádio, major Ervedosa. Aliás, os mais activos membros da FAP em Argel, Rui d’Espinay e esposa, o médico João Pulido Valente e o estudante Branquinho Pequeno, tinham deixado Argel no Verão de 1964. D’Espinay e Pulido Valente, pelo contrário, foram denunciados no Avante como já se referiu4.
---Afirma que os ‘aventureiros Lança-Patrícia McGowen’ (sic), entre outros, tornaram-se as ‘forças’, os operacionais e os apoios do general. Eu não conhecia Delgado, como já referi; Carlos Lança encontrou-se com ele apenas uma vez num convívio social.
---Afirma que os fapistas de Argel tinham ligações com a Embaixada de China quando, na verdade, os únicos lusófonos que tinham, na altura, essas ligações eram Viriato da Cruz, o meu marido e eu. Encontrámos os chineses com alguma frequência em casa de Josie Fanon e com ela visitámos regularmente a Embaixada.  Tal como Viriato, que aceitou, Carlos e eu fomos convidados a ir viver na China.  Os chineses contaram-nos que Delgado fora visitar uma vez a Embaixada.
---Cunhal omite referências à atitude do PCP e da FPLN a seguir ao desaparecimento de Delgado e ainda ao facto de terem sido os  amigos do general (dos quais só Marcelo Fernandes e esposa eram da FAP, e ninguém do GPRL) a alertar a opinião pública de que Delgado corria  perigo.


Poder-se-à perguntar como foi que, insinuado na intimidade do general, como alega Cunhal, ninguém da JAPPA recebeu de Delgado confidências quanto aos seus planos e viagens.  Com efeito, as únicas pessoas que conseguiram ganhar a confiança do general em Argel, sobre os quais existem motivos de suspeita, foram o português Bettencourt Rosa e o casal francês David. Eram conhecidos como afectos ao reseau Curiel2, trabalhando este grupo sempre a favor da Frente Patriótica e do MPLA. 

Temos que concluir que a prosa acima citada de Cunhal, lançando a torto e a direito acusações de provocação e cuidadosamente escondendo as culpas do PCP, constitui mais um exemplo de terrorismo verbal no bom estilo estalinista. Cunhal, no prefácio ao seu livro, admite que o ensaio foi escrito em 1967 e ‘conservado na gaveta’  até 1994. O facto de vinte e sete anos mais tarde esse autor o considerar merecedor de publicação, evidencia aflitivamente o seu distanciamento da realidade.

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REFERÊNCIAS

1. Jóvem  estudante anti-fascista, Américo Nunes da Silva tinha fugido para França afim de  evitar o serviço militar. Trabalhava como jornalista na Prensa atina.
    
 2. O livro constitui uma colectânea de peças escritas antes do 25 de Abril.
 

3.  Nota de Álvaro Cunhal: Fernando Piteira Santos, Pedro Ramos de Almeida, Tito de Morais, Rui Cabeçadas.
 

4. Ver Quarta Parte.

5.  Ver Primeira Parte

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