Apêndice Documental B4

Documentos Nºs 18 - 25 

 Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio


                                                                                                                                              


APÊNDICE DOCUMENTAL B 4
(Documentos Nºs 18-25 publicados depois do desaparecimento de Delgado )

Documento nº 18

Declaração de nove democratas portugueses, residentes em Argel,
sobre o desaparecimento de Delgado, datada de 12 de Março de 1965,
à qual está anexado telegrama de Ruy Luís Gomes e José Morgado
residentes no Brasil:


Segundo comunicado do representante do general Delgado em Marrocos, do dia 23 de Fevereiro, e confirmações posteriores da mesma fonte, citados por órgãos da imprensa internacional, o general Delgado teria sido preso em Espanha por volta do dia 14 de Fevereiro.
Os abaixo assinados sentem-se na obrigação de vir declarar:
1.  Que estão profundamente preocupados com a sorte do general Delgado.
2. Que condenam todas as tentativas para manter o silêncio, escamotear ou diminuir a importância deste facto, pelos tremendos perigos que tais atitudes podem trazer para uma situação dramática em que o general eventualmente se encontre.
Em particular, lamentam que a Frente Patriótica dispondo de uma rádio (Voz da Liberdade) só no dia 6 de Março, num breve comunicado e em termos e tom acintosos, se tenha referido a este assunto.
3. Que, independentemente de posições políticas, prestam homenagem ao general Delgado, figura irrefutável do movimento democrático português, candidato à presidência da República em 1958, esmagadoramente apoiado pelas massas portuguesas, o qual obrigado a exilar-se nem um só momento deixou de lutar e, mesmo nas condições mais difíceis,  manteve a sua independência, nunca aceitando interferências estranhas em assuntos nacionais.
4.  Que consideram que, enquanto este problema não estiver resolvido, o dar inteira solidariedade ao general Delgado, é, para além de um problema humano e político, uma questão de respeito pelo povo português que o aclamou nas ruas.
5. Que repudiam o aproveitamento, por elementos da Frente Patriótica, da ausência e da notícia da prisão do general, para se tentarem  apoderar de instalações e bens de que este estava dispondo.
6.  Dirigem-se aos anti-fascistas portugueses, no interior e no exterior, para que condenem todas as atitudes e atentados contra os direitos fundamentais dos exilados políticos e a utilização de métodos desonestos, como forma de actuação política por outros exilados.
7.  Apelam a todos os cidadãos portugueses, tanto em Portugal como no estrangeiro, para que formem comissões de solidariedade ao general Delgado, que saibam, além de procurar dar-lhe apoio, prolongar o seu espírito de luta.
8.  Consideram que há que constituir uma comissão de portugueses responsáveis a cuja guarda deverão ser confiados os bens do general, de manifesto interesse nacional. Desta comissão, os seus inimigos pessoais serão naturalmente excluídos.
9. Apelam para a imprensa internacional para que procure informar-se e se interesse por este assunto.
10. Pedem a todos os portugueses para que secundem esta iniciativa e deixem este abaixo assinado em aberto.                                                            
Alger, 12 de Março de 1965


Alzira Carvalho Seabra, advogada   
António Brotas,  professor
Fernando Echevarria,  escritor
José Augusto Seabra, licenciado em Direito e escritor
Helder Veiga Pires,  economista, oficial miliciano desertor
Maria Luísa Hipólito dos Santos, licenciada em Economia
António Gomes Paula Figueiredo, jornalista
José Moura Marques, oficial miliciano desertor (com ressalva ao ponto 8)
Adolfo Ayala, participante na acção de Beja (1/1/1962)1
 Argel, 12.3.1965
Anexo:
Telegrama recebido em Alger no dia 8 de Março de 1965
Recife
Apoiamos movimento absoluta solidariedade General Delgado Agradecemos noticias.
José Morgado   Ruy Luís Gomes.



Documento nº 19


Notícia do boletim Angola Informations
da Frente Nacional da Libertação de Angola 2
Foi o general Humberto Delgado preso pela polícia espanhola?

Segundo comunicado publicado pela Frente Portuguesa da Libertação Nacional de Portugal, em Rabat, o general Humberto Delgado, eminente dirigente da oposição portuguesa, terá sido preso em Espanha, onde se encontrava “em transito” para Portugal onde ia entrar clandestinamente, como há dois anos.
As autoridades franquistas afirmam que não prenderam ninguém com o nome de Humberto Delgado. Evidentemente! O general viajando com certeza  sob um nome falso não podia ser preso em Espanha sob o nome de Humberto Delgado.
O Governo Revolucionário de Angola no Exílio levanta um enérgico protesto contra esta prisão que prova mais uma vez as ligações estreitas entre os dois ditadores ibéricos, Salazar e Franco, e lança um apelo a todos os democratas, anti-colonialistas e anti-fascistas do mundo  para que este acto seja vigorosamente denunciado.



Documento nº 20


Comunicado da Frente Patriótica de Libertação Nacional
referente ao desaparecimento do general Humberto Delgado


Frente Patriótica de Libertação Nacional
Comunicado  23 de Março 1965


A partir do dia 23 de Fevereiro começou a ter acolhimento na imprensa a notícia de que o general Delgado teria sido preso e eventualmente assassinado por uma polícia ibérica.
A propósito da especulação a que esta notícia deu lugar, a Junta Revolucionária Portuguesa deseja precisar o seguinte:
1. São conhecidas as profundas divergências quanto a objectivos políticos, princípios de direcção democrática e métodos de trabalho e luta que separam o general Delgado do movimento democrático português, da Frente Patriótica de Libertação Nacional.
Não foram, entretanto, estas divergências que levaram a Frente Patriótica de   Libertação Nacional a manter, sobre o desaparecimento do general Delgado, uma atitude de prudência e reserva.
Entre o silêncio diante de um crime fascista e a defesa da vida e da liberdade de um anti-salazarista, mesmo quando a sua actividade é prejudicial à unidade anti-fascista e a sua pessoa não interessa ao futuro democrático do país, a Frente Patriótica de Libertação Nacional nunca hesitou nem hesitará agora.
De facto, são outras as poderosas razões  que levaram a Frente Patriótica de Libertação Nacional a adoptar, neste assunto, uma posição de reserva.
2. Na base de todo o noticiário internacional, até hoje produzido sobre o desaparecimento do general Delgado, encontra-se, exclusivamente, um tal sr. Henrique Cerqueira, residente em Rabat, pessoa destituída de idoneidade política, que se apresentou primeiramente como ‘porta-voz’ do general Delgado e, posteriormente, segundo um ‘testamento político’ que o próprio general lhe teria confiado, como seu ‘herdeiro político’.
3. Consideramos inverosímil que o general Delgado pudesse ter escolhido a pequena e vigiada cidade de Badajoz, situada junto da fronteira portuguesa, para teatro de um seu perigoso e ‘decisivo’ encontro clandestino com portugueses vindos de Portugal, França e Itália.
4. Consideramos inverosímil que, na precisa data do pretendido encontro, o próprio general Delgado tivesse enviado, directamente de Badajoz, postais destinados a não poucas pessoas, postais esses que vieram de facto a ser recebidos em diversos países.
5. Consideramos inexplicável que nem um dos portugueses, que se anunciou terem acompanhado o general ao ‘encontro de Badajoz’ e sido presos na mesma ocasião, tivesse ainda sido identificado como desaparecido ou anunciado como reaparecido.
6. Consideramos muito estranho que o sr. Henrique Cerqueira, 10 dias depois do último postal que diz ter recebido do general Delgado, se tenha permitido revelar à imprensa o ‘itinerário’ do general Delgado na sua pretendida viagem a Espanha e o próprio nome que figuraria no seu passaporte falso, quanto é certo que não tinha nenhuma razão para crer que, em definitivo, o general Delgado tivesse sido efectivamente preso.
7. Consideramos também muito estranho que um encontro tão importante e que teria obrigado a tantas, tão longas e arriscadas deslocações, acabasse por ter lugar no curto espaço de tempo que vai desde a chegada a Badajoz, no dia 13, do general Delgado e o postal que teria sido posto por ele no correio, na manhã do dia seguinte, anunciando o final da reunião.
8. As inverosimilhanças e incoerências indicadas, não obstante serem de molde a justificar a prudente reserva atrás formulada, não permitem excluir completamente a possibilidade de o general Delgado ter sido atingido pela repressão fascista.
A Frente Patriótica de Libertação Nacional sabe bem, por custosa experiência própria, que como todos os governos profundamente impopulares que pretendem manter-se no poder, o governo de Salazar precisa de perseguir, prender, torturar, matar os seus inimigos e mesmo os seus adversários.
9.  Assim a Junta Revolucionária Portuguesa decide:
1º  - Continuar a averiguar por toda as formas ao seu alcance as circunstâncias em que se verificou o desaparecimento do general Humberto Delgado.
2º - Reiterar o seu propósito de, a comprovar-se a prisão do general Delgado, lutar pela sua pronta libertação.
3º - Denunciar a ambiguidade das declarações feitas a este respeito pelos governos espanhol e português.
4º - Denunciar também não só as calúnias do governo fascista português como as tendenciosas especulações dos meios reaccionários internacionais.
5º - Condenar o aproveitamento para uma actividade divisionista e provocatória do desaparecimento do general Delgado por elementos anti-unitários e irresponsáveis.
A Junta Revolucionária Portuguesa
FPLN 13 Rue Auber – Alger - Tél 659969



Documento  nº 21


Declaração divulgada por António Brotas, José Augusto Seabra
e Fernando Echevarria 3


A Junta Revolucionária Portuguesa (Frente Patriótica de Libertação Nacional), com sede em Argel, publicou no dia 23 de Março um comunicado sobre a sua posição perante o problema do desaparecimento do general Delgado (lido depois na rádio Voz da Liberdade).
Este comunicado exige rectificações e comentários em vários pontos. É bem contra gosto que os vimos fazer aqui, mas o movimento democrático português perderia a sua razão de ser se os seus elementos não usassem da palavra quando disso têm obrigação.
No seu comunicado a Junta refere-se à sua ‘atitude de prudência e de reserva’. Admite no entanto ‘a possibilidade do general Delgado ter sido atingido pela repressão fascista’. Diz que o governo de Salazar  persegue, prende, tortura, mata.
A ‘prudência’ da Junta consiste assim em não agir quando admite que o general esteja em risco de vida ou a ser torturado.
Infelizmente, a ‘prudência e reserva’ da Junta não foram nem são de simples efeito nulo. A ‘reserva’ da Junta, o estranho silêncio da organização portuguesa com melhores contactos com a imprensa e melhores meios de divulgação de informações, teve uma grande influência no atraso com que a imprensa internacional noticiou o assunto.
E os componentes da Junta têm experiência suficiente para saber quanto isto pode ser dramático para o general, na hipótese de este estar preso, hipótese que admitem (e é afirmada pelas fontes mais sérias).
De facto, a dita ‘reserva e prudência’ não é uma posição neutra, é uma posição activa contra o general.
Assim, a Junta manteve um quase silêncio durante cerca de um mês e só quando a grande imprensa internacional começou a aceitar o facto de o general ter ido a Espanha e lhe ter sucedido algo, saiu com um comunicado em que, no essencial, desenvolve a ideia de que essas notícias são inverosímeis.
E fá-lo com evidente má-fé, omitindo factos, deformando outros, buscando a confusão com detalhes de segunda importância, considerando inverosímeis questões que têm explicação absolutamente clara e simples.
A Junta escreve, por exemplo:
3 - Consideramos inverosímil que o General Delgado pudesse ter escolhido a  pequena e vigiada cidade de Badajoz,  situada  junto  da  fronteira portu- 
guesa, para teatro do seu perigoso e ‘decisivo’ encontro clandestino, com portugueses vindos de Portugal, França e Itália.

A Junta omite que o general já outras vezes fora a Espanha.
O general estava de facto preparando um levantamento em Portugal. Badajoz é a cidade espanhola mais fácil de visitar para quem vem de Portugal e pode-se ir lá, inclusive sem passaporte. Aceitando sobre si grande parte dos riscos, o general Delgado sabia que com isso estimulava e incitava os elementos do interior.
A escolha de Badajoz é pois inteiramente verosímil, dentro de uma dinâmica de luta em que todos sabemos que o general estava empenhado e que era bem conforme à sua índole.
Talvez seja essa luta que seja inverosímil para a Junta.
A Junta escreve:

6 - Consideramos muito estranho que o Sr. Henrique Cerqueira, 10 dias depois do último postal que diz ter recebido do general Delgado, se tenha permitido revelar à imprensa o ‘itinerário’ do general Delgado na sua pretendida viagem a Espanha e o próprio nome que figuraria no passaporte falso, quanto é certo que não tinha nenhuma razão para crer que, em definitivo, o general Delgado tivesse sido efectivamente preso.

Independentemente de se confirmarem ou não as afirmações da Junta, notamos que: a Junta omite que o sr. Henrique Cerqueira (que aliás não conhecemos) era de facto o representante do general Delgado em Marrocos e omite que o sr. Henrique Cerqueira explicou ter agido segundo directivas expressas deixadas pelo general Delgado para a hipótese de não regressar até determinada data.
O general receava ser sumariamente executado ou fazerem-no desaparecer, inclusive sob a cobertura do nome falso do passaporte. Daí toda a conveniência na divulgação rápida da notícia.
Por outro lado, a Junta diz ter decidido ‘continuar a averiguar’, mas não fez o mais elementar de uma averiguação, que consiste em procurar saber o que se sabe.
Assim no seu comunicado não se refere ao professor Emídio Guerreiro, pessoa de idoneidade incontestável, e em consequência não cita as informações que nessa data ele já poderia fornecer e a que a imprensa inglesa se referiu com grande destaque.
A Junta refere-se a ‘profundas divergências’ que separam o general Delgado do movimento democrático português, da Frente Patriótica de Libertação Nacional.
O uso da vírgula revela cuidadas ponderações gramáticas e políticas.
Temos a dizer que o movimento democrático português é algo mais largo do que a FPLN e que o general Delgado, quanto mais não fosse pela sua coragem e espírito de luta, é nele a figura mais destacada.
A Junta escreve:
…A sua actividade é prejudicial à unidade antifascista!
Seria verdade se aceitássemos reduzir a unidade a certas fórmulas estreitas, estáticas, cómodas para alguns, no fundo de reduzida projecção no povo português e sobretudo passivas no balanço da luta antifascista.
A Junta escreve:
…E a sua pessoa não interessa ao futuro democrático do País.
A Junta pretende desde já substituir-se à expressão da vontade popular uma vez derrubado o regime fascista.
E a Junta, na sua preocupação de pesar as palavras, vai mais longe: nem sequer se refere ao general Delgado como antifascista, mas anti-salazarista.
Todas estas posições estão em franca contradição com vários textos da Frente Patriótica de Libertação Nacional.
Citamos:
Do manifesto ao povo português e aos democratas portugueses, da II  Conferência da FPLN:

A Conferência, como organismo superior deliberativo da Frente Patriótica de Libertação Nacional, consciente das novas tarefas que cumpre realizar, do caminho percorrido e que importa percorrer para libertar o País da opressão fascista e pôr termo à guerra colonial, adoptou a decisão, cuja gravidade se ponderou, constituir a Junta Revolucionária Portuguesa como órgão impulsionador da luta de libertação nacional. Ao solicitar ao Senhor General Humberto Delgado que assumisse a presidência da Junta Revolucionária Portuguesa, a Conferência entendeu corresponder ao voto do Povo Português. O Senhor General Humberto Delgado, candidato nas eleições presidenciais de 1958 da coligação de toda a oposição democrática, encontra-se investido numa singular representatividade.

Das Resoluções da III Conferência da FPLN (Outubro de 1964):
 
IV - Junta Revolucionária Portuguesa.
1 - A IIIª Conferência lamenta que o general Humberto Delgado não tenha desejado  participar  nos  seus  trabalhos.  Se  bem que o general Humberto
Delgado não seja já o presidente da Junta Revolucionária Portuguesa, a Conferência  pensa  que  formas  de  cooperação  da  FPLN  com o general
continuam a ser possíveis. Pelo seu lado, a Conferência fará todo o possível para realizar essa cooperação.

Mas há mais. A Conferencia da FPLN, na mesma reunião de Outubro de 1964, redigiu uma carta de saudação ao general. A JRP permitiu-se não tornar esta pública. Como o general está desaparecido, e nem é certo que a tenha recebido, sugerimos a quem se interesse por este importante documento que o peça directamente à JRP.
A Junta termina o seu comunicado condenando o aproveitamento para uma actividade divisionista e provocatória do desaparecimento de general Delgado.
Sem dúvida que este problema está dando e vai dar azo a provocações e especulações de diversa natureza, que são lamentáveis. Só que a Junta não tem qualquer espécie de autoridade para os condenar, pois que pelas suas actividades condenáveis das quais o comunicado do dia 23 é apenas um exemplo, tudo fez para as provocar e facilitar. Os abaixo-assinados precisam que não são membros da Frente Portuguesa de Libertação Nacional, que o general Delgado dirigia 4.
Alger, 31 de Março de 1965.
a) António Brotas
    José Augusto Seabra
    Fernando Echevarria

P.S.- Lamentamos não poder divulgar simultaneamente com este texto o comunicado da JRP do dia 23 de Março. Sugerimos aos portugueses que o peçam directamente à FPLN (13, rua Auber-Alger) e que os estudem em conjunto.



Documento nº 22

Carta de Emídio Guerreiro
sobre a atitude da Frente Patriótica de Libertação Nacional 5
 Frente Portuguesa de Libertação Nacional
(cópia)
Argel, 28/4/1965  Nº D/103/65
Paris, 31 de Março de 1965
Exmº Senhor
Dr. Manuel Sertório                   
Membro da Junta Revolucionária
13, Rue Auber
Alger


Caro Dr. Sertório,
Quando lhe escrevia para o Brasil, nem sequer me lembrava que o dr. Sertório era membro da JRP. Escrevia para o Amigo que sempre tinha manifestado uma independência de espírito e um aprumo moral, coisas que nos tempos que vão correndo são apreciáveis. E é ainda por isso que lhe escrevo esta carta, mesmo que ela não tenha resposta, o que importa pouco; o que interessa é que seja mais um documento do trágico dossier em preparação.
Foi-me enviado de Argel um documento intitulado Comunicado da F.P.L.N.  Já conhecia uma versão em francês, publicado no Le Monde, mas a versão original portuguesa só hoje a conheci e é sobre isso que lhe escrevo. Devo confessar que a minha primeira reacção foi de indignação. Depois li e reli esse documento, meditei profundamente na atitude dos seus companheiros da JRP e na sua própria, tentando encontrar uma explicação.
A primeira questão que pús foi a seguinte: no momento em que um companheiro de luta (sobretudo vosso companheiro de luta, durante bastante tempo), um antifascista, um lutador corajoso, tão valente como imprudente, desaparece e não dá mais sinais de vida - passados 40 dias! - lembram-se uns portugueses de publicar um requisitório  contra esse homem! Que portugueses?  Homens vindos da nossa pátria; que lutam contra o mesmo tirano! Que crime cometera esse homem para que, nem razões morais, nem razões políticas, nem razões humanas vos impedissem de admitir e de publicar, como fez a PIDE, por intermédio da ANI, que o general Delgado era um impostor e que o seu desaparecimento é uma ridícula operação publicitária em seu proveito próprio! Que sentimento vos domina para, nem sequer se manter aquela atitude de elegância elementar, que exige o respeito do vencido!
Ah! Eu sei que vós afirmais que não se trata de sentimentos vagamente humanos, mas de ‘poderosas razões’ que levaram a FPLN a adoptar, neste assunto uma posição de reserva. Mas esse documento, que pretende justificar a reserva da FPLN, é um sudário de imprecações!
O general é uma pessoa que não interessa ao futuro democrático do País! O general não pode ter escrito (é inverosímil!) directamente de Badajoz  postais destinados a ‘não poucas pessoas’!
Mas esses postais foram recebidos e eram enviados de Badajoz; portanto, tudo isso é uma impostura do general! No número 7 do vosso comunicado arrogai-vos o direito de admitir, fazendo fé em notícias incontroláveis, que o general chega a Badajoz no dia 13 e anuncia, no dia seguinte 14 de Fevereiro, o final da reunião, por meio de um postal datado desse dia!  Se juntarmos ao vosso comunicado uma ‘correspondência particular’ publicada no Le Monde, datada de Lisboa em 26 de Março, e que, sem poder ser atribuída à JRP, é claramente forjada pelos mesmos cérebros, não posso deixar de me interrogar sobre os sentimentos que determinaram uma tal atitude.
Ouça bem, dr. Sertório: antes que o Cerqueira (que não conheço) anunciasse o desaparecimento trágico do general, já eu tinha dito à dona Maria Lamas 6, dr. Saraiva 7 e Jorge Reis 8 , na véspera, que uma catástrofe tinha fulminado o general. Eu afirmo que o general foi preso em Badajoz, na noite de 13 de Fevereiro, e é falso o que dizem no comunicado sobre a existência de um postal com data de 13. É falso que o general tivesse enviado a ‘não poucas pessoas’, postais. Ele escreveu somente a três pessoas (três países). Eu afirmo que esses postais foram postos pelo general, em Badajoz. Eu posso dizer-lhe que tentei desesperadamente, por escrito e oralmente, com o concurso de dois amigos de Portugal, até ao dia 8 de Fevereiro (dia em que ele saiu de Argel), convencê-lo da temeridade, do perigo evidente que ele corria. Mas o dr. Sertório e os que conviveram com o general tanto tempo, nunca puderam compreende-lo! Era um homem indomável! Se, nos momentos duros da luta, os homens se podem aferir pelos riscos que sabem afrontar, o general Humberto Delgado era dos que sabiam correr corajosamente esses riscos! Tudo, no vosso comunicado, é inverosímil, é inverosímil para vós, porque o general com todos os seus defeitos tinha qualidades que não vos é dado compreender. O dr. Sertório sabe, por experiência própria, que quando eu afirmo… Ora, quando foi publicado o vosso comunicado, não podiam ignorar as afirmações que eu fiz, numa triste reunião do Comité da Defesa das Liberdades em Portugal, (há já mais de um mês), sem falar das declarações que fiz à imprensa…
Mas  então, porquê esse encarecimento? Razões políticas? Mas o general Delgado era o presidente eleito da República, escolhido por toda a oposição! Se era um impostor, oh! pobre oposição democrática portuguesa! Tu ofereces, numa bandeja de vermeil, ao sinistro Salazar, o frangalho que tinhas eleito, como o mais digno para representar a nação! Agora Salazar pode dizer: Vox populi, vox Dei! O povo português soube escolher o Tomás! A oposição tinha o chefe que merecia! É o triunfo apoteótico do ditado! Não, dr. Sertório, mil vezes não! A vossa atitude é escandalosa. E politicamente horrível! Ela é desumana e perigosa, porque permite à PIDE fazer o que quiser do general, se… já não o fez.
Então como explicar que não se tivesse levantado uma voz, nessa JRP, para, pelo menos humanamente e sem perigo político para a Frente Patriótica, mostrar a desumanidade que representa essa vossa atitude e esse vosso documento!!!
Como explicar que estas circunstâncias trágicas, não tenham sido aproveitadas para nos unirmos todos contra o inimigo comum?!
Eu não creio que vós sejais homens sem sentimentos humanos, até porque escolhestes o campo dos que lutam pela felicidade do nosso povo… Eu não creio que no vosso peito, onde os homens têm um coração, fervilhem simplesmente sentimentos desnaturados… A vossa luta é nobre! O vosso ideal é sublime! Ao vosso lado estão dezenas e dezenas de mártires, que expiam nas prisões de Salazar, o “crime” de lutarem pela liberdade…Mas então, como é possível ter-se chegado a este abismo de vergonha?! Eu não vejo senão uma explicação sociológica: Quarenta anos (!) de regime infame criaram uma sociedade desencarecida, onde não pode medrar facilmente acervo de civismo e onde os homens aceitaram a fatalidade como fenómeno ínsito da vida! Então, uns curvam a espinha e lá vão vegetando, admitindo com resignação e mesmo com insensibilidade a desgraça do nosso povo; outros, não se resignam a uma vida vegetativa, querem viver de pé, com a espinha dorsal erecta, aceitando, no entanto, uma fatalidade trituradora de sentimentos humanos que não puderam explicitar-se numa sociedade aviltada pelo medo. Assim surgiram homens com aspirações elevadas e ao mesmo tempo vítimas de alienações… São sociologicamente produtos híbridos do regime salazarista…
Caro dr. Sertório: no documento que foi aprovado pelo Comité de que ainda sou presidente, e que teve o seu apoio, apelava-se para se evitar o escândalo público que certamente virá desprestigiar a oposição democrática portuguesa.
Seja qual for o curso dos acontecimentos relativos ao trágico desaparecimento desse grande homem que era o general Humberto Delgado, eu ficarei fiel ao espírito desse documento, evitando assim regalar o ditador, e aos democratas portugueses, certas atitudes pessoais ou outras e que, como é evidente, devam ser apreciadas em relação à sinceridade com que se procedeu desde o início deste triste acontecimento e não, a posteriori, com fingidas campanhas de que os cálculos políticos parem não estar ausentes.
Aceite deste velho lutador e sincero democrata e socialista, as mais fervorosas saudações democráticas
a) Emídio Guerreiro
Frente Portuguesa de Libertação Nacional
Argel-Algerie

 


Documento nº 23

Carta de seis democratas portugueses publicada no jornal brasileiro  Semana Portuguesa 9

Senhor Director:

Tendo o Jornal Semana Portuguesa, de 29/5/65, publicado uma notícia sobre a prisão em Argel, de 12 democratas portugueses, relacionando-a com o assassinato do General Humberto Delgado, e sendo citado os nossos nomes, pedimos a V., uma vez que o vosso jornal não está sob a alçada da censuira fascista de Salazar, a publicação, na íntegra, da seguinte rectificação e esclarecimento:
1 — Não é verdade que os 12 democratas portugueses, antifasccistas e anticolonialistas, presos em Argel, de 4 a 8 de Maio, pertencessem todos à Frente Portuguesa de Libertação Nacional, fundada e presidida pelo General Delgado, embora todos fossem amigos do General e, alguns, seus colaboradores, mas nenhum fazendo parte da chama ‘Frente Patriótica’.
2 — Foi por instigação dos inimigos pessoais e políticos do General Humberto Delgado que, em Argel, dirigem essa ‘Frente Patriótica’, que se efectuaram essas detenções, o que provocou imediata repulsa de inúmeros democratas portugueses como se prova pelos documentos juntos. De entre eles citamos uma carta do engº António Brotas:

Argel, 6 de Maio de 1965

Senhores Piteira Santos e Tito de Morais

Pela presente vos informo que vos tenho por responsáveis das prisões de portugueses havidas em Argel na noite de 4 para 5 e de outras que eventualmente se venham a verificar.
António Brotas.


3 —A libertação a 8 de Maio dos antifascistas detidos, foi devida à intervenção imediata de muitos democratas portugueses, principalmente, a do Prof. Emídio Guerreiro junto das autoridades argelinas, vindo expressamente de Paris a Argel para esse efeito10  Os instigadores dessas prisões disseram, depois, num comunicado, que as detenções nada tinham a ver com o assassinato do General Delgado (comunicado da “Frente Patriótia” de 10/5/65).
4 —Esses dirigentes da ‘Frente Patriótica’, são os mesmos indivíduos que no dia 25 de Fevereiro, dois dias depois de se ter tido conhecimento do desaparecimento do General Delgado, da cidade de Badajoz, dirigiram o assalto, em Argel, do Bureau do General Humberto Delgado, envolvendo no caso a polícia argelina.
5 —Foram ainda esses mesmos dirigentes da ‘Frente Patriótica’ que fomentaram o ‘complot’ de silêncio quando do desaparecimento do General Delgado e contra ele lançaram uma campanha de descrédito e difamações, no que, objectivamente, tiveram atitude idêntica à da imprensa fascista de Salazar e de Franco.
6 —A causa de todos estes acontecimentos tem origens claras e facilmente explicáveis. Eles só continuam a aprecer estranhos enquanto documentos fundamentais forem mantidos escondidos do Povo Português.
Fazemos apelo para que o jornal de V., livre da censura fascista, publique estes textos.
Anexo: Carta do engº António Brotas. Docs de 12/3/65, 31/3/65 e 29/4/65. Comunicados da ‘Frente Patriótica de Libertação Nacional’ de 23/3/65 e 10/5/65. Doc. P/89 de 4/8/64.11
aa) Adolfo Ayala, Marcelo Fernandes, Joaquina Fernandes, Manuel José Fernandes Vaz, António Gomes Paula Figueiredo e José Moura Marques.



Documento nº 24


Carta de Tito de Morais 12
Sr. Director: Só a consideração que me merecem os leitores, a direcção, o corpo redactorial e os colaboradores da Semana Portuguesa me faz responder ao convite formulado na nota intitulada ‘Uma briga lamentável’, aparecida no nº 98 do seu jornal, com data de 3 do corrente e que acabo de receber.
Com efeito, à mentira, ao desejo de destruir por destruir, o silêncio seria a melhor resposta, ainda porque os signatários da carta endereçada ao seu jornal não podem, por lhes faltar o indispensável, ofender seja quem for.
Vou pois relatar-lhe, sr. director, com algum pormenor, mas sem remontar à origem, ‘o que realmente se passou em Argel no dramático mês de Maio último’.
Quando o general Humberto Delgado, deixando-se ‘apoderar’ por uns tantos revolucionários de café, rompeu com a Frente Patriótica de Libertação Nacional, pretendendo expulsar da Junta Revolucionária todos os seus membros, a Conferência da Frente, reunida para decidir sobre a gravidade da situação, entendeu que o general não podia continuar a presidir à Junta Revolucionária Portuguesa. Contudo não se recusava, em princípio, a colaborar com ele em eventuais casos concretos e em moldes diferentes dos existentes até aquela data.
Para não agudizar incompatibilidades, a Junta deixou ao general o bureau que as autoridades argelinas haviam posto à disposição da Frente, mas solicitou-se-lhe por escrito - e sem sucesso - que devolvesse a documentação e outros bens que ali se encontravam e que à Frente pertenciam.
Tempos depois, ao ser noticiado o desaparecimento do general Delgado, uma delegação da Junta, de que eu próprio fiz parte dirigiu-se ao bureau e solicitou a entrega dos bens em questão à pessoa que ali se encontrou, o sr. A. Ayala.
Este senhor pôs depois a correr a versão de que havíamos ‘assaltado o bureau do general’ que ele defendera com risco da própria vida.
Em face da recusa testemunhada, a Junta solicitou das autoridades argelinas o encerramento do Bureau e da residência do general onde abusivamente o sr. Ayala se instalara com alguns dos seus amigos - até que ele regressasse. As pessoas que rodeavam o general Delgado não mereciam a confiança da Junta para poderem ser depositárias dos bens da Frente.
As autoridades argelinas anuíram ao pedido e selaram os dois locais com o intervalo de alguns dias.
Quando se tornou evidente que o general Delgado não regressaria a Argel, por ter sido preso ou assassinado pelos agentes do fascismo que lhe armaram a cilada de Badajoz, solicitamos a devolução dos documentos da Junta e qual não foi o espanto das autoridades argelinas ao verificarem que as portas haviam sido violadas e que toda a documentação se havia evaporado. Tinham ficado as pastas vazias13 
Nessa altura fomos informados de que as autoridades abriam um inquérito sobre “o desaparecimento de documentos com violação de locais selados”. Dias depois corre a notícia da prisão em fila de vários portugueses e de um casal francês. Este casal foi expulso da Argélia, os portugueses postos em liberdade três ou quatro dias depois e os documentos - segundo nos informaram - recuperados nas respectivas residências.
Entretanto, o prof. Emídio Guerreiro mandou-nos perguntar se a Junta lhe conseguiria as facilidades necessárias para a entrada imediata na Argélia. Foi-lhe respondido evidentemente que sim e ele veio a Argel, onde suponho que teve um encontro com uma autoridade argelina.
Eram 10 horas da noite vieram dizer-me que também o prof. Guerreiro havia sido preso!  Uma intervenção imediata da Junta - que já em devido tempo se informara e interessara pelos outros presos - conseguiu a libertação do professor poucas horas depois da sua prisão.
Estes foram os factos. O que está por detrás da campanha contra a Junta Revolucionária Portuguesa, que os signatários da carta há muito vêm desencadeando, é outro assunto. O arquitecto desta campanha não o consigo apontar, pois prudentemente conserva o anonimato, mas a falta de escrúpulos, a desfaçatez com que se mente, identificam os joguetes de que se serve.
Para cúmulo, na esperança de que nunca mais se consigam apurar as responsabilidades dos executores e dos mandantes do crime que vitimou o general Delgado, vêm agora acusar também a Frente de ter em seu poder os documentos de grande importância de que eles próprios dispuseram durante mais de dois meses e que hoje ou estão na posse das autoridades argelinas ou foram ainda pelos mesmos surripiados.
O processo continua a ser reles, mas que se pode esperar de amigos e colaboradores de um Cerqueira de Rabat e de um Carvalho de Roma?14
Que pretendem na realidade estes sujeitos, depois de terem explorado o temperamento intempestivo do general até às últimas consequências e de o terem abandonado no momento que ele considerava decisivo? Que objectivos querem atingir estes homens, que reles paixão os move?
Através da mentira, da confusão, o que desejam é destruir a arma que, embora imperfeita e ainda frágil, é a mais poderosa que até hoje conseguimos construir para lutar contra o fascismo. Tão poderosa ela poderá vir a ser, se o quisermos todos, que o fascismo desde já teme e lança mão de todos os meios quiçá até deste para a eliminar.
O fascismo apercebe-se desse perigo, esses “revolucionários” não percebem e não desistem. Infiltram-se em toda a parte e agora que a  Semana Portuguesa está atingindo o nível que a consagrará como um grande jornal dos democratas portugueses, havia também que trazer para as suas colunas o veneno que os alimenta.
Não se trata de uma ‘briga lamentável’ como a Semana Portuguesa intitula a nota. A Junta Revolucionária e qualquer dos seus membros não têm ‘brigas’, têm a noção das suas responsabilidades políticas e consciência plena da importância dos seus actos, sabe que tem um inimigo muito forte a combater e a derrotar que é o fascismo português e para isso conta com o apoio e a confiança da enorme maioria dos democratas que na Junta se fizeram representar. Não deseja, e tempo não lhe sobra, lançar-se em polémicas estéreis com meia dúzia de falhados irresponsáveis.
Mas como reagir a estes ataques vindos de elementos que se conseguiram infiltrar nas nossas fileiras?
Indignação? Sim. Sinto-a ao pensar nas condições de miséria em que vive o nosso povo, no dramático destino a que um governo sem escrúpulos, que a ganância corrompeu persiste em reservar à nossa pátria. Mas não me posso furtar também a um sentimento de profundo nojo.
Queira aceitar sr. director os meus respeitosos cumprimentos.
(a)    Tito de Morais 

  
Documento nº 25


Carta de António Brotas ao jornal Semana Portuguesa 15 

Senhor Director,
No dia 29.05.65 a Semana Portuguesa referiu-se numa nota a 12 portugueses presos por uns dias, em Argel, no início de Maio, dizendo tais prisões terem sido por suspeita de estarem implicados no caso da morte do general Delgado.
Era o elementar direito das pessoas referidas o poderem esclarecer nas páginas em que os seus nomes tinham sido citados as circunstâncias das suas prisões. Sendo assim, seis de entre eles enviaram uma carta a Semana Portuguesa que a não publicou, mas a propósito da qual fez uma nota nela convidando os srs. Piteira Santos e Tito de Morais a esclarecerem-se, uma vez que eram citados como responsáveis das prisões. Respondeu o eng. Tito de Morais numa longa carta que foi publicada 16.
Desejava esclarecer os leitores de Semana Portuguesa sobre vários pontos da carta do eng. Tito de Morais. O meu nome de resto foi referido neste assunto. Embora de forma um pouco atrapalhada apareceu escrito na 2ª nota que eu responsabilizava os srs. Tito de Morais e Piteira Santos pelas prisões havidas. É esta uma acusação evidentemente gravíssima e eu tenho a obrigação e o direito de justificar o que digo. Mas é evidente, para poder cumprir a obrigação tem de me ser dado o direito. Não é assim um direito de resposta que invoco para pedir a publicação desta carta, o direito que invoco é
pura e simplesmente o direito à informação, direito que não é só meu, mas também dos leitores de Semana Portuguesa.
O eng. Tito de Morais na sua carta falta várias vezes à verdade, simula ignorar factos de importância fundamental nalguns dos quais foi autor e mais ainda, faz afirmações gravíssimas.
Assim o Eng. Tito de Morais escreve:
…Dias depois corre a notícia da prisão em fila de vários portugueses e de um casal francês


As prisões começaram na noite de 4 para 5 de Maio e prolongaram-se até ao dia 7 ou 8. Na noite de 4 para 5, a polícia argelina que prendia os portugueses esteve em contacto directo telefónico com o eng. Tito de Morais. Quando o dr. Marcelo 17 saía de sua casa preso cruzou-se com um médico português com quem trocou algumas breves palavras em português. Os polícias voltaram atrás e prenderam este médico18. Quando ele chegou à sede da polícia disse que era da Frente Patriótica. Após telefonema para o eng. Tito de Morais foi libertado. Se o eng. Tito de Morais deseja maior insistência em detalhes pode ser indicada a pessoa com quem teve o contacto telefónico.
De qualquer modo a actuação da Junta neste assunto começa antes. No dia ou 30 de Abril ou 1 de Maio houve discussão entre os três elementos da Junta presentes em Argel, a saber: Tito de Morais, Piteira Santos e major Ervedosa (os outros três estavam viajando 19)  sobre o fazer prender portugueses pela polícia argelina.
São a favor Tito de Morais e Piteira Santos e é contra o major Ervedosa. Resolvem convocar-me. No dia 2, domingo, soube ao fim da tarde que havia dois dias o major Ervedosa me procurava. Vou a casa dele depois do jantar. Está preocupadíssimo e pede-me que aceite ir falar com a Junta. Disse-lhe que não tinha que ir sem saber para quê, que em minha opinião dirigentes como os da Junta o que tinham a fazer era demitir-se - que, no entanto, se tinham algo a dizer-me que mo dissessem por escrito, e se tinham algo a perguntar-me que mo perguntassem por escrito.
Diz-me que isso evidentemente eles (Piteira Santos e Tito de Morais) não o fariam, diz-me que eles iam fazer uma asneira tremenda. Aconselhei-o a procurar ganhar tempo para esperar o regresso dos outros elementos da Junta. Quando me despedi disse-me que não ia nessa noite transmitir a minha recusa à Frente para evitar decisões imediatas.
Fico com a certeza que a Junta prepara qualquer coisa contra portugueses de Argel. Desde o aparecimento do cadáver do general, o carácter disparatado de denúncia e instigação dos comunicados e da rádio da Frente Patriótica já o faziam sentir. Não aceitei ir falar com a Junta porque me pareceu que a convocação que me era feita era uma armadilha e uma manobra para quebrar a solidariedade, instintivo de defesa dos portugueses de Argel não da Frente Patriótica.
No dia seguinte, dia 3, de manhã, avisei Adolfo Ayala de que a Junta preparava algo e que ele era certamente a pessoa mais visada. Cheguei a dizer que acreditava no risco de eles o fazerem prender. Não acreditou muito no meu aviso. Preocupei-me sobretudo quando voltava a Argel o dr. Sertório. No dia seguinte, dia 4, procuro de novo o major Ervedosa. Está inteiramente descansado, diz-me que os outros dois elementos da Junta recuaram, que tinham desistido, que tinha sido assegurado de que não ia haver nada. Convidou-me a ir à praia. Fico descansado. Nessa mesma noite há as prisões. O major Ervedosa é apanhado inteiramente de surpresa. O eng. Tito de Morais, como disse, esteve em contacto com a polícia.
O major Ervedosa confirmou depois que o problema tratado na Junta fora de facto o das prisões.
Sobre este assunto o que está dito é bastante. Se forem necessários mais elementos isso poder-se-à fazer. O exposto é relacionado directamente com as prisões. Para compreensão das coisas é conveniente vir à origens.
O eng. Tito de Morais escreve:
…ao ser noticiado o desaparecimento do general Delgado uma delegação da Junta de que eu próprio fiz parte dirigiu-se ao bureau e solicitou a entrega dos bens em questão à pessoa que ali encontrou, sr. Ayala.
…em face da recusa testemunhada
a Junta solicitou das autoridades argelinas o encerramento do bureau e da residência do general onde abusivamente o sr. Ayala se instalara com alguns amigos.
O que o sr. eng. Tito de Morais diz tem de ser corrigido e situado no seu contexto.
No dia 23 de Fevereiro à noite as agências internacionais noticiaram o desaparecimento em Espanha do general Delgado. As pessoas amigas do general em Argel tinham
todas as razões para crer que a notícia era verdadeira. No dia 24, para saberem notícias e dominados pela preocupação, inúmeros portugueses afluem aos escritórios da Frente Portuguesa, 118 Bd. Bouakir, 5º andar, que estavam à guarda do sr. Adolfo Ayala, secretário do general, antigo funcionário da Frente Patriótica.
Nesse escritório existiam documentos de antes da cisão de Outubro, cuja posse a F. Patriótica disputava à Frente Portuguesa. Esses documentos de momento não corriam qualquer risco pois estavam à guarda do sr. Ayala, tal como sempre tinham estado. Não era sobretudo o momento para se pensar numa reivindicação deles.
Nesse mesmo dia 24 fui à sede da Frente Patriótica para pedir solidariedade para o general Delgado. Falei com o dr. Cabeçadas, representante do MAR na Junta. Usei argumentos de sentimento e de razão, mas da parte dele só encontrei reticências, insensibilidade, franca má vontade e sobretudo profundo receio de contribuir para valorizar a figura do general.
No dia 25 de Fevereiro o presidente Ben Bella convocou os membros da Junta. O general Delgado fora recebido em Argel quase com honras de chefe de Estado.  Depois da conferência de Outubro, a Junta manobrando aos vários níveis da administração argelina tinha feito reconhecer a Frente Patriótica como o movimento ‘válido’ português. O general perdera a quase totalidade das possibilidades de apoio na Argélia e os membros da Junta trabalhavam activamente para o tentar desacreditar e criar-lhe uma situação de indesejável. Mas o general era ainda, mesmo por si só, uma personalidade que se impunha. E assim, quando é noticiado o seu desaparecimento em Espanha, o chefe de Estado argelino chama os membros da Junta para lhes perguntar o que há a fazer.
O ter o presidente Ben Bella chamado imediatamente os portugueses residentes em Argel que considerava como representativos, é uma prova de simpatia que devemos reconhecer. Bem entendido que num caso como este estavam em questão as possibilidades de auxílio e a posição do Estado argelino sobre o assunto. Um chefe de Estado não se incomoda para menos. Mas os políticos da Junta não estavam à altura do gesto. Quando havia eventualmente a possibilidade de um Estado ajudar o general Delgado o sr. Ramos de Almeida tomou a iniciativa de se adiantar e dizer que o necessário era tomar posse dos documentos que estavam no escritório do general (deve ter dito que estavam em risco ou coisa parecida). O presidente Ben Bella deve ter ficado surpreendido, mas sendo um homem de acção e sendo a posição dos portugueses aquela disse: Então vão e vão já.
É assim que o eng.º Tito de Morais vai numa delegação ao escritório da Frente Portuguesa. E não vão poucas pessoas, vão cerca de 10 embora só 3 tenham subido ao 5º andar. Foi isto que se tornou hábito chamar ‘assalto’, em que de facto não houve violências físicas, mas que não deixou de ser uma acção de força e com a cobertura prévia das autoridades. Não resultou porque no escritório, embora sozinho, estava o secretário do general, sr. Ayala. Quando três elementos da Frente Patriótica entraram pela porta e lhe disseram que vinham buscar os documentos, respondeu: Documentos, só morto.
Tornando-se evidente que os documentos só podiam ser levados ficando o sr. Ayala ou morto ou muito bem amarrado, a comissão desceu para conferenciar. Pelo telefone o sr. Ayala apelou imediatamente para vários portugueses de Argel que acorreram ao escritório.  Pouco depois apareceu a polícia argelina que se manteve numa posição de aparente neutralidade e assegurou a guarda exterior do escritório mas sem nele entrar. A situação manteve-se assim um ou dois dias até que a polícia noticiou ao sr. Ayala que o escritório devia ser fechado e que ela asseguraria a guarda. O sr. Ayala fechou a porta e foi entregar a chave num comissariado na presença de várias testemunhas.
O eng.º Tito de Morais continua:
Quando se tornou evidente que o general Delgado não regressaria a Argel por ter sido preso ou assassinado pelos agentes do fascismo que lhe armaram a cilada de Badajoz, solicitámos a devolução dos documentos da Junta e qual não foi o espanto das autoridades argelinas ao verificarem que as portas haviam sido violadas e que toda a documentação se havia evaporado. Que tinham ficado as pastas vazias…
É de registar que houve um intervalo entre a saída da comissão da Junta e a chegada da polícia.
Que as portas haviam sido violadas é falso. Que dentro só se encontravam pastas vazias é verdade. Mas por que é que as autoridades argelinas se haviam de espantar? Elas não conheciam o conteúdo do bureau.
Pergunto aqui ao eng.º Tito de Morais se nenhum elemento da Junta foi ao bureau acompanhando a polícia e, em particular, se não foi lá o sr. Ramos de Almeida no dia 15 de Março num grupo de mais ou menos 7 pessoas?
A grande insistência de alguns elementos da Junta em se apoderarem dos documentos referidos que, parece, eram de relativa pouca importância, só aparece explicável de um dos modos: ou como fase da campanha de tentativa de eliminação política do general (a detenção dos documentos marcava uma continuidade material entre a antiga
Frente Patriótica e a Frente Portuguesa do general), ou pelo desejo de fazer desaparecer elementos que pudessem revelar verdades desagradáveis para os antigos membros da ‘Comissão Delegada’. Esta segunda hipótese é uma suposição não provada, mas a carta do eng.º Tito de Morais vem singularmente dar-lhe apoio. Assim, lendo-a de uma ponta à outra vemos que: a Junta tentou tomar posse dos documentos, pediu a intervenção das autoridades argelinas, outros portugueses detiveram os documentos, a polícia prende-os e, segundo informações dadas à Junta, os documentos teriam sido encontrados em suas casas. Junta-se que se seguiu um golpe de estado na Argélia. Em suma, os documentos desapareceram e o eng.º Tito de Morais que tinha ido, no início, numa comissão para os ir buscar apresenta o assunto como encerrado.
É estranho e há perguntas a fazer: como é que a polícia podia reconhecer documentos que nunca tinha visto?
Sublinhemos que pela primeira vez um elemento da Junta reconhece por escrito que as autoridades argelinas, encerrando o escritório do general, agiram a pedido da Junta. O facto era conhecido mas o reconhecimento por escrito tinha sido até hoje cuidadosamente evitado. Porém o eng.º Tito de Morais diz mais; diz que as autoridades selaram a residência do general a pedido da Junta. Isto é bem importante e era desconhecido. Quando li o texto na Semana Portuguesa fui a casa do dr. Sertório Marques da Silva, membro da Junta, e perguntei-lhe se conhecia o facto. Declarou-me que o desconhecia. Devemos concluir que membros da Junta agiram em nome da mesma e esconderam o facto a outro membro residente em Argel.
 De qualquer modo, o eng.º Tito de Morais assumiu uma responsabilidade muito grande e em casa do general não havia nada a que a Junta pudesse pretender ter direito. As autoridades argelinas, de facto, dias depois de receberem a chave do escritório, pediram ao sr. Ayala a chave da residência do general, mas passaram-lhe documento de que a presidência assegurava a guarda da mesma. Depois (provavelmente em Abril) o cofre do general foi aberto - não estando presente nenhum amigo ou pessoa documentada pelo general. O secretário da presidência da República, sr. Magraoui, que tratava destes assuntos, instalou-se com sua família residindo na casa (em Maio), e os móveis, documentos importantes, dinheiros e contas do general ainda têm de ser encontrados.
Há ainda muitas falsidades mais na carta do eng.º Tito de Morais, em particular as referências ao dr. Guerreiro que foi a pessoa que veio a Argel conseguir a libertação dos portugueses presos, mas nem vale a pena tratá-los agora aqui.
Há algo de bem mais espantoso e grave.
O eng.º Tito de Morais escreve:
Quando se tornou evidente que o general não regressaria a Argel por ter sido preso ou assassinado…
Em que momento se tornou evidente para o eng.º Tito de Morais que o general tinha sido preso ou assassinado? Por que continuou depois disso encobrindo esse crime, sustentando a tese de ser inverosímil a ida do general a Espanha, como é afirmado no comunicado da Junta de 23 de Março a que nenhum se seguiu desmentindo-o? Por que procurou a Frente Patriótica dificultar a formação de uma comissão internacional de inquérito?
Por que continua ainda agora a Junta lançando sempre a confusão quando os inquéritos incidindo na responsabilidade do fascismo português fazem evidenciar a figura do general?
Continuam atacando depois da morte o general que não conseguiram vencer. E os homens como o eng.º Tito de Morais tomam agora certas audácias.
Vem agora escrever: O general Delgado deixando-se ‘apoderar’…
Como se o general Delgado se deixasse apoderar por alguém. Era dele sozinho que tinham medo. Enquanto houve receio de ele estar vivo, não houve um português preso em Argel.
Senhor director, há uma fotografia de que gosto muito. Um dia há-de ser publicada em Portugal. Foi tirada em Argel no dia 3 de Janeiro deste ano. É o general sentado e ao lado dele 5 moços. Todos mandados prender pela Junta.
Desta carta faço chegar cópia a todas as pessoas nela referidas a que convido a fazer rectificação de qualquer incorrecção nela encontrada, a V. Ex.ª, sr. director, peço a publicação não só da carta, como, antecipadamente, de qualquer correcção que lhe seja feita.
Com os meus cumprimentos, com consideração.
a)  António Brotas.

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Referências

      
 1    À margem, pelo seu próprio punho, Ayala escreveu:  com respeito ao ponto 8, considero que se deve constituir imediatamente uma comissão em Argel, que se deverá  subordinar a uma comissão repre-sentativa, com carácter nacional.   

2    De 15 de Março de 1965, p.8, tradução do francês.

3.   Em resposta ao comunicado reproduzido como doc. nº 20.

4.   Os três signatários pertenciam à Frente Patriótica  e eram     tidos como simpatizantes do MAR.

5.   Distribuída em Argel  pelos serviços da Frente Portuguesa

6.   Romancista e directora de revistas. Autora de Mulheres do Meu País, 1948; A Mulher no Mun-do, 1952. Um dos fundadores do Movimento Nacional Democrático.  Membro do Conselho Mundial da Paz, exilou-se em Paris onde mais tarde se tornou simpatizante da FAP.

7.   António José Saraiva, escritor e professor universitário, co-autor com Oscar Lopes da conceituada  História da Literatura Portuguesa, e de uma vasta obra literária. Exilou-se em França e Holanda.  Durante muitos anos militante do PCP,  separou-se desse partido por altura da fundação da FAP.
   
8.   Jorge Reis, escritor radicado durante longos anos em Paris e marginalizado pelo PCP ao qual tinha           pertencido na juventude.  Autor do conceituado romance Matai-vos Uns aos Outros, 1963 (5º ed. 1977).

9.   Publicada em São Paulo,  de Julho de 1965, Nº 98

10   Como foram libertados os portugueses presos é contado na Quinta Parte 'O Apelo a Ben Bella'.

11   Publicam-se neste Apêndice alguns destes documentos.  Ver  Nº 18, Nº 20, Nº 21, Nº 22.

12   Publicada no semanário brasileiro Semana Brasileira,     São Paulo, nº 102, 31 de Julho de 1965.

13.   Sublinhado da autora deste livro.

14.   Mário de Carvalho.

15.    Datada de Paris, 24 de Agosto de 1965.
     
16.   Transcrita neste Apêndice como doc. nº 23.

17.    Marcelo Fernandes.

18.  Jorge Fausto Mendes Landeiro (N.A,)

19.  Presumivelmente: Manuel Sertório, Pedro Ramos de     Almeida e Manuel Alegre (N.A.)

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