Apêndice Documental B1
Documentos 1 -3, referentes ao MPLA 
Portolani Books Volume Dois: Misérias do Exílio

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APÊNDICE DOCUMENTAL B1 1 
 
 
DOCUMENTOS Nºs 1, 2 e 3, REFERENTES AO MPLA
 
 
 
Documento Nº 1
 
Declaração de Viriato da Cruz aos militantes do MPLA2


Ao partir de Leopoldville cumpro o dever de informar os militantes do seguinte: Parto de Leopoldville, mas não abandono o MPLA nem a luta pela libertação do povo de Angola.
I - Tenho estado em desacordo com alguns dirigentes do Movimento sobre o seguinte:
  —    Não aceito a teoria da inevitabilidade do neo-colonialismo em Angola, teoria que alguns dirigentes vêm defendendo. Essa teoria, que afirma não podermos evitar o neo-colonialismo em Angola, desarma o espírito combativo do Povo, atraiçoa o grande sacrifício, em vidas e em sangue, que o Povo vem fazendo; abre as portas do nosso Movimento a uma política sem princípios, oportunista e de falta de escrúpulos e de carácter.
—    Não aceito a política de divisão que um grupo de dirigentes e militantes vem fazendo dentro do Movimento, desde há dois meses. O MPLA, que lutou sempre sinceramente para a união de todo o nacionalismo angolano, deverá continuar a dar, ele próprio, o exemplo de união dos angolanos.
—    Não aceito a política de perseguição e afastamento de militantes da secção política e da secção militar do MPLA. Essa política está errada, é odiosa, é policial. Essa política, que alguns dirigentes vêm fazendo ilegal e arbitrariamente, baseia-se na vontade de
um grupo que pretende impor ao Movimento a sua política.
—    Não aceito as manobras que certos militantes vêm fazendo para impor ao  Movimento uma direcção cujo núcleo principal será um grupo de pessoas que fizeram  longa amizade na Casa dos Estudantes do Império.
—    Não aceito que não se condene a intriga e a calúnia dentro do nosso Movimento. Nem aceito que os intriguistas e os caluniadores continuem a receber o apoio moral e material do Movimento, quando, por outro lado, esse apoio é negado a militantes honestos e trabalhadores.
—    Não aceito a ambição exagerada de um grupo de militantes de vigésima hora.
—    Não aceito o culto da personalidade dentro do Movimento. Cada dirigente deve conquistar a confiança e o respeito dos militantes, na base do seu valor pessoal e real, na medida em que ele é fiel à linha política do Movimento, na medida em que ele se dedique ao trabalho sem demagogia, e na medida em que ele respeita e faz respeitar os princípios do nosso movimento.
No MPLA houve sempre lugar e deverá continuar a haver lugar para todos os nacionalistas honestos. O MPLA foi fundado e construído precisamente para esses nacionalistas honestos que pretendem dedicar-se sinceramente à libertação e à defesa dos interesses dos milhões de homens e de mulheres humildes de Angola.
Peço a todos os militantes que permaneçam dentro do Movimento.
É absolutamente necessário realizar-se dentro em breve um Congresso do MPLA (ou uma Conferência Nacional, como se vem dizendo).
Esse Congresso deverá ser preparado por um largo Comité Preparatório composto por militantes que representem os diferentes problemas do povo que deverão ser tratados no Congresso.
Não aceito um Comité Preparatório com uma maioria de amigos que se constituiram em grupo dentro do Movimento.
Estou pronto a curvar-me perante as decisões de um Congresso representativo da massa de militantes do MPLA, um Congresso preparado honestamente por um Comité Preparatório representativo dos diferentes problemas do povo, mas não aceito a política que um grupo de militantes da vigésima hora pretende impor arrogantemente ao nosso Movimento.
Estou confiante que a inteligência, a razão, o bom-senso e o verdadeiro espírito revolucionário triunfarão dentro em breve no nosso Movimento.
Que cada militante lute por um MPLA unido, forte e fiel aos interesses de milhões de homens humildes de Angola.
Leopoldvile, 15 de Novembro 1962.
Ass. Viriato Cruz
Comité Preparatório
Todo o 1º Comité Director
Todo o 2º Comité Director
Boal, Videira, Viana, Boavida, Rocha, Pestana, Rui de Carvalho, Lima, Condesse, Ramos, + 2 do EPLA, + 3 sindicalistas, Amaro, Borges, Pimentel.
O Comité Preparatório deverá funcionar como uma Assembleia Preparatória   

Documento nº 2
 

Proclamação aos militantes do MPLA3
Movimento Popular de Libertação de Angola – MPLA (Leopoldville)
Proclamação aos membros do Movimento Popular de  Libertação de Angola:


—    Considerando que o governo da República do Congo (Léopoldville), num gesto de grande significado político para a África inteira,  acaba de fazer justiça à luta heróica que o povo angolano conduz desde de há dois anos, acaba de reconhecer de jure o Governo Revolucionário de Angola em exílio (GRAE);
—    Considerando o facto de o reconhecimento do GRAE constituir ainda uma importante contribuição para a descolonização do continente africano;
—    Considerando que o GRAE pode acelerar bastante a independência da pátria angolana;
—    Considerando que é urgente unir todo o povo angolano à volta do GRAE e que é urgente tornar mais fácil as relações deste governo - que devem ser justas e democráticas - com o povo angolano;
—    Considerando que o Comité Directivo, que esteve até agora à cabeça do Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA),  falhou na sua política e na confiança que os membros do MPLA nele tinham depositado;
—    Considerando que é urgente pôr fim às divisões no seio do MPLA e que é tam-
bém urgente associar o MPLA unido com a FNLA;
—    Considerando que é urgente revestir o Governo Revolucionário de Angola no Exílio com a maior autoridade e a maior força (que deve basear-se, sobretudo, na união do povo e dos partidos nacionalistas);
—    Membros do Movimento Popular de Libertação de Angola, reunidos no dia 5 de Julho, 1963, em Léopoldville; em Assembleia Geral Soberana, obedecendo aos imperativos sagrados da causa da unidade do povo para a libertação da pátria angolana;
Resolveram:
1 -     Retirar toda a autoridade ao Comité Directivo que estava até agora à cabeça do Movimento, o qual deve considerar-se imediatamente destituído;
2 -     Eleger um comité pela  unidade e pela cooperação, o qual é mandatado para os seguintes efeitos:
a) - Dirigir o MPLA na sua qualidade de órgão executivo provisório, isto é, o seu  novo Comité Directivo;
b) - Pôr fim às divisões no seio do MPLA;
c) - Associar o MPLA à FNLA, mantendo, ao mesmo tempo, a autonomia do MPLA no seio da FNLA;
d) - Apoiar o GRAE e resolver o problema da participação do MPLA nos órgãos do GRAE;
e) - Convocar, dentro de um prazo de três meses, um Congresso do MPLA, o qual deve eleger novos órgãos directivos do Movimento;
3 -     Que o Comité Directivo destituído entregue todos os bens e todos os valores do MPLA à Comissão que, para este fim, será mandatada pelo novo Comité Directivo;
4 -    Que o novo executivo supremo do MPLA seja constituído pelos seguintes membros:
1 - Matias Miguéis
2 - José Bernardo Domingos
3 - Viriato da Cruz
4 - Georges Manteya Freitas
5 - José Miguel
6 - António Alexandre
7 -
8 -
9 -
10 -
5 - Que os membros do executivo supremo acima mencionados gozarão de autoridade para integrar no novo Comité Directivo até quatro novos membros, os quais estarão revestidos dos mesmos direitos que têm os membros designados por esta Assembleia.
Viva a unidade do povo angolano!
Viva a República Fraterna do Congo!
Viva o MPLA unida!
Viva o Governo Revolucionário de Angola no Exílio!   
Tudo pela aceleração da independência de Angola!
Leopoldville, 5 de Julho de 1963

 

Documento nº 3
 

Révolution Africaine (Argel), nº 27, de 3 de Agosto de 19634

Resumo do relatório geral da Missão de Boa Vontade
 junto dos nacionalistas angolanos.
 
     O Comité de Coordenação para a libertação de África, criado pela conferência da Organização de Unidade Africana de Adis-Abeba, reunida em Dar-es-Salam de 25 de Junho a 4 de Julho de 1963, decidiu enviar a Léopoldville uma Missão de Boa Vontade com o objectivo de contribuir para a reconciliação dos movimentos nacionalistas angolanos.
 

 A Missão era composta pelos chefes das delegações da Argélia, Congo (Léopoldville), Guiné, Nigéria e Uganda, que cooptaram o Senegal.
A Missão de Boa Vontade reuniu-se em Léopoldville de 13 a 18 de Julho de 1963. O seu objectivo, que era a reconciliação dos movimentos nacionalistas angolanos, teve porém que ser modificado no decurso das investigações.
AUDIÇÕES
As duas organizações seguintes foram chamadas a depor perante a Missão: a FNLA, dirigida por Holden Roberto; o MPLA, dirigido por Agostinho Neto.
As declarações do sr. Holden foram apoiadas por um certo número de membros que tinham representado a sua organização em Dar-es-Salam e também por dirigentes de diversas regiões de Angola.
O sr. Neto recusou-se a depor em nome do MPLA, em virtude de ter sido formada uma nova frente, a FDLA (Frente Democrática de Libertação de Angola), da qual era presidente.


A Missão, todavia, não podia ouvir o sr. Neto nesta nova função, dado o objectivo do seu mandato que era o de ajudar na reconciliação das duas organizações nacionalistas que testemunharam em Dar-es-Salam.
Durante os trabalhos a Missão recebeu uma carta de Viriato da Cruz pedindo para ser ouvido em nome do comité preparatório da conferência do MPLA.
O sr. Cruz expressou então o seu ponto de vista na presença de outros nacionalistas angolanos, incluindo o sr. Neto, que foi convidado a comentar as suas declarações. Em resposta a perguntas colocadas por membros da missão, o sr. Neto forneceu indicações sobre a força política e os efectivos militares do MPLA.
O ponto de vista do governo da República do Congo sobre a questão da libertação de Angola foi expresso pelo ministro da Justiça, sr. Justin Bomboko, e pelo ministro dos Negócios Estrangeiros, sr. Mabika Kalanda.


SÍNTESE DOS DEPOIMENTOS
A Missão de Boa Vontade colheu informações sobre a FNLA desde a data da sua formação a partir dos dois movimentos nacionalistas, a UPA e o PDA.  A Missão tomou conhecimento do seguinte:
—     A maneira como se desenvolveu a revolução em Angola.
—    As razões da formação do Governo Revolucionário de Angola no Exílio, recentemente reconhecido pelo Governo da República do Congo (Léopoldville).
—    A extensão da actividade da
, o número dos seus adeptos, os seus efectivos militares e o território de Angola sob seu controlo.
—    Os esforços da FNLA para preparar cada vez mais quadros militares, políticos, etc.
—    A cisão do MPLA.
—    A situação no seio do pequeno contingente de quadros militares formados sob os auspícios do MPLA:
a) um certo número aderiu à FNLA;
b) outros abandonaram o MPLA;
c) os que ficaram com o MPLA não estão envolvidos em qualquer acção                         militar.
—    A força do MPLA e o número dos seus aderentes são muito limitados, comparados com os da  FNLA.
—    As razões que levaram o governo do Congo a reconhecer o Governo Revolucionário de Angola no Exílio.
—    O apoio fornecido pelo governo do Congo (Léopoldville) às organizações nacionalistas angolanas.


A Missão de Boa Vontade, depois de considerar todos os factos postos à sua disposição,  decidiu recomendar o que se segue:
I)     Que os efectivos militares da FNLA são, de longe, muito mais importantes que  quaisquer outros, são mais eficazes e, na verdade, a única frente de combate real  em Angola.
II)     Que a melhor via para fornecer ajuda aos combatentes pela libertação de  Angola é  por intermédio do governo da República do Congo (Léopoldville).
III) Que a existência separada e permanente de uma frente inactiva e de fraca importância como o MPLA é prejudicial à acessão do povo angolano  à  independência.
IV)     Que a FNLA é o único movimento em luta.
RECOMENDAÇÕES
A Missão de Boa Vontade decidiu recomendar o seguinte:
I)      Que toda a ajuda à Frente nacionalista angolana vinda, ou de África, ou de fora do continente, devia ser fornecida através  da República do Congo (Léopoldville), em cooperação evidentemente com o Comité de Coordenação para a libertação de África.
II)     Que a FNLA deve ser considerada como a única frente de combate pela libertação de Angola.
III)     Que o estabelecimento de outras frentes em Angola deve ser desencorajado e  que a actual força militar do MPLA deve juntar-se à FNLA.
IV)     Que se devem aconselhar as unidades e as pessoas que receberam formação militar para a libertação de Angola a pedir entrada na frente de combate da  FNLA.
V)     Que a FNLA deve conservar o direito de rejeitar o pedido de pessoas que ela    considere inaptas.
VI)     Que todos os governos africanos sejam solicitados a não receberem ou   oferecerem ajuda a quaisquer outras organizações que, dentro do seu território, pretendem trabalhar pela libertação de Angola.
VII)    Que a Missão de Boa Vontade peça ao Conselho de Ministros da OUA, por ocasião da sua próxima reunião em Dakar, que recomende a todos os Estados africanos o reconhecimento do Governo Revolucionário de Angola no Exílio, porque essa será uma acção muito positiva e eficaz contra Portugal e em favor  duma libertação rápida de Angola.


Comentário da Révolution Africaine5 

I  - Mitos e Realidades


As resoluções da Missão de Boa Vontade foram bastante inesperadas para os numerosos amigos da revolução angolana. No entanto, não se pode esconder que a chamada “divisão do nacionalismo angolano” se reflectia  entre  todos  os  partidários  da luta angolana: na Argélia, em África e na Europa. E em muitos lugares afastados de Angola um certo mal-estar se estabeleceu, o qual tem gravemente travado as iniciativas em favor de uma solidariedade eficaz e activa, com prejuízos para a causa da libertação de Angola.

Uma profunda e complexa história do nacionalismo angolano fica por fazer e uma parte desta história deverá necessariamente ser consagrada a uma análise do processo da evolução e propagação das ideias erradas. Aliás, de um tal estudo poderão resultar ensinamentos ricos com implicações políticas, sendo mesmo um dever tirar estes ensinamentos para que a luta pela libertação de África e pela unidade africana seja conduzida de maneira vitoriosa.

Verificando os dados objectivos, a Missão de Boa Vontade abriu caminho para um tal estudo. De imediato, porém, é de estimular uma solidariedade activa; a liquidação dos equívocos e das divisões nas fileiras dos próprios nacionalistas angolanos dará um novo impulso à sua luta e constituirá uma vitória importante contra o colonialismo português.


Quais foram as constatações que levaram a Missão de Boa Vontade a tomar estas decisões?
No decurso do trabalho in loco, o mandato de reconciliação provou não ser relevante. Com efeito, a Missão constatou que a situação real diferia muito dos relatórios apresentados por observadores partidários.

Uma força real?

Em que declarações do MPLA se baseavam os estrangeiros para acreditarem que este partido representava uma força real dentro do movimento nacionalista angolano?


No seu memorando aos governos africanos, de 15 de Abril de 1962, denunciando a formação do  governo provisório da República de Angola,  o comité directivo do MPLA reivindicava a sua representatividade declarando que tinha 'cerca de 50 000 militantes com cartão e muitos milhares de outros militantes que, por razões evidentes, devido ao trabalho na clandestinidade política, não possuem cartões'.


No relatório da sua primeira Conferência Nacional, publicado em Dezembro de 1962 sob a forma de brochura, o MPLA reivindicava 65 000 militantes só no Congo. Em diversas ocasiões, os dirigentes do MPLA mencionaram números impressionantes quanto à força militar do EPLA (ramo militar do MPLA). Numa entrevista publicada pela Révolution Africaine (nº 16, de 18 de Maio de 1963), Mário de Andrade declarou que o EPLA estava equipado com 250 quadros e 10 000 homens; e o chefe do departamento de Guerra do MPLA, Manuel Lima, fez declarações do mesmo jaez.

 
Mais, insistiu-se muito na capacidade do MPLA para desenvolver actividade militar e politização de massas em todo o território de Angola6. Na base destas declarações, certos dirigentes do MPLA foram ao ponto de sistematicamente subestimar a influência da FNLA6 Durante a conferência da UGTA (Union Générale des  Travailleurs Algériens)  em Janeiro de 1963, o dr. Eduardo dos Santos6 declarou perante uma assistência de sindicalistas argelinos e de outras personalidades do mundo inteiro, bem como do presidente Ben Bella, que «o MPLA é o  único  movimento  autêntico  que luta pela verdadeira libertação de Angola». Estas declarações e as acusações de que a FNLA, dirigida por Holden Roberto, era prisioneira das suas alianças com o Ocidente e sem qualquer ideologia capaz de politizar as massas para uma luta vitoriosa, foram utilizadas para explicar por que motivo o MPLA nunca pudera chegar a um acordo sobre uma frente unida de combate. O MPLA, segundo ele, tinha feito reiteradas tentativas para conseguir uma tal frente e, com efeito consultando os documentos do MPLA, encontravam-se diversas declarações a favor da unidade, embora Holden se opusesse às negociações sinceras por causa das suas ligações «com  interesses estranhos à África7

 

Os resultados de um inquérito
 

Qual a realidade que a Missão descobriu ao chegar ao Congo no mês de Julho de 1963?


 Que o MPLA estava, há alguns meses, dividido em duas tendências rivais: a tendência de Agostinho Neto e a tendência de Viriato da Cruz, sem falar de diversas outras tendências muito fracas.


 Que o número de militantes do MPLA, de todas as tendências, era de 200, dos quais 30 passaram para a FNLA e 90 pertenciam à tendência de Viriato da Cruz; uma minoria ficara com Neto. Estes números foram admitidos por diversos dirigentes do MPLA que compareceram perante a Missão. 


Que o chefe do departamento de Guerra do MPLA admitiu já não ter mais controlo sobre qualquer força militar e que as declarações produzidas no estrangeiro careciam de qualquer fundamento.
 

Que o MPLA era desprovido de qualquer estrutura no interior de Angola (facto admitido por Neto) e que a fronteira com o Congo estava inteiramente sob controlo da FNLA.
 

Que a tendência Neto acabara de constituir uma Frente com partidos notoriamente ligados ao regime salazarista, partidos que, até recentemente, haviam sido denunciados como traidores pelo próprio MPLA.
 

Que a formação da FDLA em Brazzaville, sob patrocínio do presidente Fulbert Youlou, não estava desligada das reivindicações territoriais deste último no que dizia respeito ao enclave de Cabinda, actualmente sob domínio português.
 

Que o reconhecimento de jure do GRAE fora decidido pelo Congo (Léopoldville), como contrapartida às iniciativas do Congo (Brazzaville), que visava uma futura anexação de Cabinda.


No tocante à situação no interior de Angola, acrescenta-se ter o doutor Neto declarado que o seu movimento não conseguia estabelecer contactos com o interior por causa do controlo exercido pela FNLA sobre toda a fronteira. A FNLA asseverou que, controlando efectivamente a fronteira, não podia permitir acesso àqueles que não eram portadores de um salvo-conduto emitido pela FNLA.

II. O MPLA do isolamento à decomposição

Estas constatações por parte de um organismo representativo da autoridade suprema em África obrigam-nos a formular algumas perguntas:


Terá o MPLA, no princípio, sido uma força nacionalista autêntica? Será que modificações surgidas no seu seio depois do lançamento da guerra em Angola alteraram fundamentalmente o seu carácter, diminuindo o número de seus aderentes?


Quais foram as dificuldades objectivas que o MPLA teve de enfrentar depois dos acontecimentos de Luanda no mês de Fevereiro de 1961?


Quais os diferendos ideológicos que provocaram a cisão entre o fundador do movimento, Viriato da Cruz, e o dr. Neto, o seu novo presidente?
Como foi que um partido com uma ideologia avançada e um programa estruturado  falhou na mobilização das massas, chegando à decomposição actual, enquanto um partido rival, cujos origens se encontram numa organização de tipo tribal, sem ideologia definida, evoluiu até chegar a ser uma força nacionalista combatente autêntica com o apoio das massas?
 

Não se pode responder separadamente a cada uma destas questões e, mais, uma resposta definitiva é impensável no momento actual. Cs factos verificados podem desde já, no entanto, indicar algumas pistas.
 

Um partido urbano

 

Em Fevereiro de 1961, o MPLA gozava do apoio das massas urbanas de Luanda, capital de Angola; isso é certo. Não se pode negar que seus militantes dirigiram o assalto às prisões e casernas  colonialistas nos dias  4, 5 e 6  de  Fevereiro  1961, um mês e meio antes da insurreição camponesa no norte do país8  Mas a questão de saber se outras actividades de resistência foram organizadas no interior pelo MPLA ou pela UPA, ou foram espontâneas, fica em suspenso.


Mercê da sua ideologia e do seu programa estruturado, o MPLA exerceu uma influência considerável sobre os intelectuais e estudantes angolanos, a maior parte em Lisboa ou Paris. Mas é  preciso lembrar  aqui que, sendo a situação social e  cultural abominável nos territórios sob dominação colonial portuguesa, estes elementos são necessariamente originários dos estratos mais privilegiados da população africana. Aliás, a separação imposta pela colonização entre as camadas privilegiadas e as massas negras está particularmente acentuada nas colónias portuguesas por duas razões:


—    O abismo existente, de um lado, entre o assimilado e o mestiço de origem pequeno-burguesa, e as massas negras totalmente deserdadas do outro;
—    A grande distância que separa Angola da Europa implica frequentemente para os estudantes e intelectuais que partiram para a Europa uma ausência de cinco, dez ou doze anos.


A repressão feroz, a partir de 1959 e especialmente depois dos acontecimentos de Luanda, em 1961, destruiu quase totalmente os quadros e a estrutura do MPLA no interior de Angola9.

 
A direcção do MPLA era constituída de um lado por homens como Viriato da Cruz que foi obrigado a fugir de Angola em 195910, do outro lado, por intelectuais vindos da Europa. Estes dirigentes, sem contactos com o Congo, não souberam durante muito tempo, por causa da conjuntura internacional, estabelecer-se num país vizinho de Angola.


A importância do Congo

 
Quando, em Setembro de 1961, a direcção do MPLA acabou por chegar ao Congo, ela encontrou o movimento nacionalista rival firmemente enraizado no seio de meio milhão de emigrantes angolanos e de um quarto de milhão de refugiados de guerra. Estas populações eram compostas por camponeses e trabalhadores forçados com quem a maioria do MPLA nunca tivera contactos antes de Setembro de 1961.
Os movimentos enraizados no Congo, especialmente a UPA, beneficiavam, entre outras coisas, das seguintes vantagens:


—    Ligações estreitas de características tribais, linguísticas, religiosas e sociais com estas massas;
—    Anos de trabalho organizativo junto delas desde de 1958;
—    Ligações estreitas com os meios políticos do Congo, particularmente as relações de Roberto Holden com Lumumba que asseguraram a implantação da UPA no Congo11.
—    A participação de muitos militantes angolanos nos movimentos políticos congoleses, donde eles tiraram lições;

O isolamento político do MPLA no Congo, a sua incapacidade (devido à prévia implantação da UPA) de desenvolver contactos com o interior, obrigou os seus dirigentes a concentrarem uma grande parte dos seus esforços nas actividades de tipo diplomático e propagandístico no plano internacional.
 

Contudo, enquanto a propaganda dava os seus frutos, e a ajuda material foi fornecida, dificuldades logísticas tornaram impossível a utilização eficaz desta ajuda no Congo e no interior de Angola.
 

Num movimento revolucionário, a inacção e o isolamento político acabam por operar cisões resultantes de divergências ideológicas latentes e origens de classe diferentes, o que não é um fenómeno novo.

A unidade falhada
 

Quando Neto fugiu de Portugal para se juntar ao MPLA no Congo-Léopoldville, os militantes dos dois partidos, a UPA e o MPLA, acreditavam na possibilidade de uma frente unida, mas   as  tentativas  de  unidade, ao  falharem,  deram  lugar  à  decepção,  à  amargura e à acrimónia no seio do MPLA e lutas facciosas, já latentes, rebentaram à luz do dia.
 

Num esforço para reorganizar o MPLA para que pudesse ter ligações mais estreitas com as massas, Viriato da Cruz anunciou a 25 de Maio de 1962 uma remodelação do comité executivo. Nesta óptica, certos elementos foram excluídos da nova direcção.
 

No entanto, a seguir à volta de Neto, esta nova direcção foi substituída e as divergências entre Neto e Viriato eclodiram. Numa carta dirigida aos militantes, no 15 de Novembro de 1962, Viriato da Cruz atacou abertamente a direcção de Neto, lançando contra esta graves acusações; acusações segundo as quais alguns dirigentes defendiam a teoria da inevitabilidade do neocolonialismo em Angola;  manobras caluniosas e policiais foram feitas por certos militantes da vigésima hora com o fim de impor ao movimento uma direcção cujo núcleo principal é um grupo de pessoas que nutriam entre elas ligações de amizade muito intimas datando de tempos de estudante12.
 

Em conclusão, Cruz pediu a reunião de uma Conferência do MPLA, democraticamente organizada, para resolver estes problemas.
 

A Conferência teve lugar em Dezembro de 1962; deu a vitória à tendência Neto e Viriato da Cruz acabou por ser afastado de qualquer cargo de responsabilidade.
 

Algumas semanas depois, o vice-presidente Matias Miguéis demitiu-se da nova direcção. A situação actual, revelada pela Missão de Boa Vontade, demonstra que as críticas de Viriato da Cruz eram fundamentadas. Entretanto, o ritmo de deterioração e o número de militantes perdido pelo MPLA desde o ano passado ainda não é claro…13

 
Caixa do dossier da Révolution Africaine
Os partidos políticos angolanos:

Unidos na Frente Nacional de Libertação de Angola, 27 de Março de 1962:

  • ---União das Populações de Angola,  dirigida por Holden Roberto.
  • ---Partido Democrático de Angola, dirigido por M. Kunzinka (conhecido antes pelo nome  de Aliazo).

Frente Democrática de Libertação de Angola, princípio de Julho de 1963:

  • ---Movimento Popular de Libertação de Angola, dirigido pelo dr. Neto.
  • ---NGWIZAKO - Associação dos Congoleses de expressão portuguesa.
  • ---Movimento Nacional de Angola (MNA).
  • ---Movimento da Defesa dos Interesses de Angola (MDIA, a que se juntou o NTOBAKO (Associação dos Bakongos de Angola, filiada à ABAKO do Congo).
  • ---(O NGWIZAKO, o MDIA e o MNA tinham sido denunciados pelo MPLA e pela FNLA por terem contactos com os salazaristas).
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REFERÊNCIAS

 
1.    Todos os documentos reproduzidos neste apêndice pertencem ao arquivo pessoal da autora.


2.    De 15 de Novembro de 1962.


3.    De 5 de Julho de 1963. Tradução do original francês.


4.    Dossier sobre Angola com o título ‘Angola: La Minute de Verité’


5.    Quem elaboraram este comentário foram Carlos Lança e a autora deste livro, baseado nos dados então ao seu dispor, muitos deles fornecidos pelo Ministério dos Negócios Estrangeiros de Argélia. As inexactidões encontram-se  corrigidas em notas de rodapé.


6.    Ver o memorando de 15 de Abril de 1962.


7*.    Trata-se do médico Eduardo Macedo dos Santos e não de José Eduardo dos Santos que veio a ser presidente da República de Angola

.
8*.    *Esta versão da sublevação de Luanda em Fevereiro de 1961, de longa data aceite internacionalmente, é hoje contestada por novos estudos historiográficos. Cf. Carlos Pacheco, op.cit.


9*.    A repressão de 1959 não atingiu o MPLA porque este Movimento não existia sequer. Atingiu outros grupos, como o Grupo dos Enfermeiros, o ELA (Exército de Libertação de Angola) e o MIA (Movimento de Independência de Angola), os dois primeiros ligados à UPA. Só em Maio de 1960, com o aparecimento do MPLA em Conakry, tentou-se criar em Luanda uma extensão desta organização sob o comando de Agostinho Neto. Porém, não se chegou a durar mais  do que duas  a três semanas. Os seus quadros, em pequeno número, foram todos presos, não se chegando a montar qualquer estrutura de coordenação da luta, por falta de tempo. Por isso, é de todo errado dizer que em Fevereiro de 1961 existia no interior um corpo activo e organizado de militantes desse  movimento. Cf. Pacheco MPLA (...), pp. 34-38.


10*.    O Viriato foge de Angola em Setembro de 1957, depois de ter fundado o PCA (Partido Comunista Angolano) e o PLUAA (Partido da Luta Unida dos Africanos de Angola), Cf. Pacheco pp.64-66.


11*.    *A implantação da UPA no Congo é anterior a Holden Roberto. Foram seus obreiros o tio de Holden, Barros Nekaka e Pinock Eduardo (esta informação foi-me prestada pelo historiador angolano Carlos Pacheco).


12.    Ver neste Apêndice doc. nº 1.

O artigo termina com uns parágrafos de conselho para actuação futura.

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