GÊNEROS DO DISCURSO


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Língua Portuguesa

Oficina Pedagógica - DE S.J.Casmpos/SP

Katty Rasga - ATP / LP

 

OFICINA PEDAGÓGICA | GÊNEROS | SEQ DIDÁTICA | TECENDO LEITURA | CAPAC DE LEITURA | NOSSA LÍNGUA | PROD TEXTUAL

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Textuais ou discursivos

por Lia Seixas in Gêneros Jornalísticos

Roxane Rojo, em artigo apresentado em 2000, mostra como são tênues os limites entre gênero discursivo e gênero textual, como são diluidas as fronteiras entre texto e gênero. A pesquisadora  mapeou os autores:aqueles que trabalhavam com gênero do discurso citavam Bakhtin e seu circulo, e aqueles que falavam em gêneros textuais citavam, principalmente, Bronckart e Adam.

Depois de 10 anos (1995), esta é uma tendência que se repete nos trabalhos brasileiros do Siget, mas também que preocupa claramente os pesquisadores.  Um dos trabalhos discute especificamente a diferença entre gênero textual e discursivo, outro ("Editorial: um gênero textual?") questiona através da nomenclatura.

Pela tabela abaixo, fica claro como as linhas entre textual e discursivo são imperceptiveis:

 clique na imagem para aumentá-la

 

Muito interessante observar também a diversidade de produtos, composições, eventos que podem ser considerados um gênero. Um gênero discursivo pode ser, desde uma "situação de trabalho", "depoimento de orkut", a uma noticia de jornal impresso. A charge, por exemplo, é considerada como textual e como discursivo. Os gêneros jornalisticos são, em geral, considerados gêneros textuais. Dos 21 gêneros textuais, quase a metade (10) é gênero jornalistico de impressos (jornais e revistas).

 

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A GRAMÁTICA E OS GÊNEROS


A gramática que se ensina está articulada ao gênero que se escreve.
Por exemplo:
Saber quais são os conceitos gramaticais de que eu preciso para escrever um texto de opinião.
Há muito que se ensinar:
* Como se toma posição em um texto?
* Que expressões usar para mostrar opiniões contrárias?
* E para desqualificá-las?
Se o aluno aprende uma gramática descolada do contexto, ele até reconhece que a oração é coordenada adversativa, mas não sabe quando utilizá-la, que palavras são mais adequadas para dar coesão e garantir o sentido do texto.

Por exemplo:
Saber quais são os conceitos gramaticais de que eu preciso para escrever um texto do gênero Conto (de aventura).
Há muito que se ensinar:
* Como se posiciona o narrador (1ª pessoa, 3ª pessoa)
* A coesão e coerência na seqüência dos fatos
* A introdução do elemento complicador
* A elaboração do clímax
* A resolução do conflito
Se o aluno aprende uma gramática descolada do contexto, ele até reconhece ......, mas não sabe quando utilizá-la, que palavras são mais adequadas para dar coesão e garantir o sentido do texto.
 


 

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Gêneros do discurso e produção de textos


Os gêneros do discurso são um elemento fundamental no processo de produção de textos, porque são os responsáveis pelas formas que estes assumem. Qualquer manifestação verbal organiza-se, inevitavelmente, em algum gênero do discurso, seja uma conversa de bar, uma tese de doutoramento, seja linguagem oral ou escrita.

Os gêneros são, portanto, formas de enunciados produzidas historicamente, que se encontram disponíveis na cultura, como notícia, reportagem, conto (literário, popular, maravilhoso, de fadas, de aventuras...), romance, anúncio, receita médica, receita culinária, tese, monografia, fábula, crônica, cordel, poema, repente, relatório, seminário, palestra, conferência, verbete, parlenda, adivinha, cantiga, anúncio, panfleto, sermão, entre outros.

Os gêneros se caracterizam pelos temas que podem veicular, por sua composição e marcas lingüísticas específicas. Assim, não é qualquer gênero que serve para se dizer qualquer coisa, em qualquer situação comunicativa.

Se alguém pretender discutir uma questão polêmica, como a descriminalização das drogas ou a pena de morte, precisará organizar o seu discurso em um gênero como artigo de opinião, por exemplo. É o gênero que pressupõe a argumentação a favor ou contra questões controversas, mediante a apresentação de argumentos que possam sustentar a posição que se defende e refutar aquelas que forem contrárias àquilo que se defende.

Por outro lado, se a finalidade for relatar um fato ocorrido no dia anterior, certamente a notícia deverá ser o gênero escolhido. Se o que se pretende é orientar alguém na realização de determinada tarefa, pode-se escrever um manual ou relacionar instruções, por exemplo. Se a intenção for apresentar algum ensinamento por meio de situações exemplares, colocando animais como protagonistas para representar determinadas características humanas, então a fábula é o gênero mais apropriado.

Portanto, saber selecionar o gênero para organizar um discurso implica conhecer suas características, para avaliar a sua adequação aos objetivos a que se propõe e ao lugar de circulação, por exemplo. Quanto mais se sabe sobre esse gênero, maiores são as possibilidades do
discurso ser eficaz.

Dessa forma, a proficiência do aluno em Língua Portuguesa depende também do conhecimento que ele tem sobre os gêneros e de sua adequação às diferentes situações comunicativas. Suas características, portanto, devem ser objeto de ensino e tema das atividades que se organizar.

Texto original: Kátia Lomba Bräkling

 

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Proposta de Atividade com diferentes gêneros

Carta, Telégrafo, Internet, Telefone

Painel mostrando a seqüência cronológica de várias situações de comunicação, o que permite trabalhar com a relação linguagem e cultura, tipos de linguagem e funções da linguagem. As situações apresentadas permitem ao professor elaborar com os alunos a idéia de que, através dos tempos, a comunicação entre as pessoas vem se realizando por meios diferentes, porém sempre cumprindo o seu papel principal: falar do mundo em que vivemos, isto é,

representar esse mundo.
Carta de Pero Vaz de Caminha , trecho em que Caminha se refere ao primeiro encontro com os índios.

"O capitão, quando eles vieram, estava assentado em uma cadeira e uma alcatifa aos pés por estrado, e bem vestido, com um colar d'ouro mui grande ao pescoço. (...) Um deles pôs olho no colar do capitão e começou d'acenar com a mão para a terra e depois para o colar, como que nos dizia que havia em terra ouro..."

A carta de Caminha é o primeiro texto sobre o Brasil. Não apresenta intenções artísticas, mas é muito significativa por registrar as condições de vida dos primeiros colonizadores e habitantes da terra descoberta. Ela não só informa as características dessa terra, como mostra a visão de mundo dos portugueses, apresentando a cultura dos índios por oposição à dos europeus.

Na época em que foi escrita, a carta era o único meio de comunicação verbal à distância que os navegantes podiam utilizar. Ela deveria ser bem detalhada para cumprir a função a que se destinava --- registrar o novo mundo, sob a forma de notícia. Essa característica é comum a outras manifestações escritas da linguagem, em que o texto escrito tem que suprir a ausência da situação, fornecendo o maior número possível de pistas para esclarecer o seu sentido, a sua intenção.

 

Telégrafo

DA DIFÍCIL ARTE DE REDIGIR UM TELEGRAMA
(Jô Soares)

Uma coisa é incontestável: a linguagem telegráfica só surgiu depois do telegrama. Nunca ninguém escreveu uma carta assim: "Viagem boa. Nós bem. Tempo maravilha. Beijosfulano." O "Beijosfulano", numa palavra só, é um expediente para economizar no telegrama. Não. Quando as pessoas só escreviam cartas e não havia crise de papel, o negócio era escrever laudas e laudas. Quanto mais páginas tinha uma carta, mais bonita era. Inventaram até o P.S. , que é uma maneira de se escrever uma carta depois da carta.

Depois, veio Morse, com seus traços e pontos e todo mundo teve que se virar para escrever mais coisas em menos palavras. Fica aqui uma pergunta: o que será que Morse inventou primeiro? O telégrafo ou o código Morse? Das duas uma: ou ele inventou a telegrafia e depois quebrou a cabeça até achar um alfabeto que se prestasse para sinalizar palavras, ou então criou um dia o código, assim de brincadeira e depois ficou pensando: "Como é que eu posso transformar isto aqui num troço útil?" E aí bolou o telégrafo.

Seja como for, com ele surgiu o estilo telegráfico, muito usado
hoje em dia não só nos telegramas mas também nos recados e até nos lembretes que às vezes nós deixamos para nós mesmos: "Dar banho no cachorro", "Passar banco pegar dinheiro", "Cancelar dentista" etc.


Este texto, ao lado das intenções humorísticas, permite-nos reconhecer inúmeras características da linguagem telegráfica, utilizada não só nos telegramas, mas em recados e bilhetes. Apesar de serem textos escritos, telegramas, recados e bilhetes têm em comum a intenção de comunicar de maneira econômica. São eliminados artigos, pronomes, adjetivos, preposições ou outras palavras que não sejam estritamente necessárias aos objetivos do autor.

 


Internet
Texto da música de Gilberto Gil sobre a Internet

PELA INTERNET

Gilberto Gil ( 1997 )

Criar meu web site
Fazer minha home-page
Com quantos gigabytes
Se faz uma jangada
Um barco que veleje
Que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve um oriki do meu velho orixá
Ao porto de um disquete de um micro em Taipé
Um barco que veleje nesse infomar
Que aproveite a vazante da infomaré
Que leve meu e-mail até Calcutá
Depois de um hot-link
Num site de Helsinque
Para abastecer
Eu quero entrar na rede
Promover um debate
Juntar via Internet
Um grupo de tietes de Connecticut
De Connecticut acessar
O chefe da Macmilícia de Milão
Um hacker mafioso acaba de soltar
Um vírus pra atacar programas no Japão
Eu quero entrar na rede pra contactar
Os lares do Nepal, os bares do Gabão
Que o chefe da polícia carioca avisa pelo celular
Que lá na praça Onze tem um vídeopôquer para se jogar


Gilberto Gil, na música Pela Internet, apresenta sua visão sobre a Internet, meio de comunicação mundial que vem revolucionando nossos hábitos de obtenção e transmissão de informações. Esse universo é trabalhado poeticamente:

* o verbo "navegar" é uma metáfora para a atividade de entrar em contacto com as informações disponíveis via Internet. Faz parte do campo semântico de mar, expresso, na música, por meio dos seguintes vocábulos: velejar, jangada, barco, vazante, maré, mar, porto, rede.
* a amplitude espacial abarcada pela Internet, a "rede", vem apresentada sob a forma de países e regiões longínquas: Taipé, Calcutá, Helsinqui, Connecticut, Nepal, Gabão, Milão, Japão.
* a partir do vocábulo "vírus", referindo-se a programas que atacam e destroem informações, cria-se uma associação com Macmilícia de Milão, hacker mafioso, polícia carioca.
* o vocabulário específico de informática aparece em todo o texto, promovendo a articulação entre a realidade e o universo poético: web-site, home-page, gigabytes, disquete, e-mail, micro, site, hot-link, infomaré, infomar, acessar, contactar, rede, vírus.

 


Telefone


Em uma comunicação telefônica, reproduzem-se algumas características da interação face-a-face. Distantes espacialmente, emissor e receptor não possuem todas as informações contextuais, como gestos, olhares, ambiente, mas conseguem estabelecer um diálogo simultâneo, com interrupções, reordenamentos, frases inacabadas, marcadores conversacionais, elipses de elementos discursivos, próprios da conversação natural.

Essas características dizem respeito à telefonia tradicional. Com os avanços da tecnologia, as informações gestuais e contextuais passarão a fazer parte da comunicação telefônica.


Tanto no título como no final da música, Gil faz uma homenagem a Donga, parodiando a música "Pelo telefone", que, na sua época, teve o papel que hoje cabe à Internet. Na paródia, o telefone é substituído pelo celular, condizente com a época atual.

"O chefe da folia
pelo telefone
manda me avisar
que com alegria
não se questione
para se brincar"
(Donga)
"O chefe da polícia
carioca avisa pelo celular
que lá na Praça Onze
tem um videopôquer
para se jogar."

(Gil)


O texto abaixo, Velho diálogo de Adão e Eva, do romance "Memórias póstumas de Brás Cubas" (Machado de Assis), é um exemplo muito sugestivo de comunicação sem palavras.


 

Capítulo LV / O VELHO DIÁLOGO E ADÃO E EVA

Brás Cubas .......................................................?
Virgília ..................................................
Brás Cubas ................................................................................
...............................................................................
Virgília..............................................................!
Brás Cubas ...........................................
Virgília........................................................................
...............................................................?.............
..................................................................................
Brás Cubas ..............................................
Virgília ...........................................................
Brás Cubas ...............................................................................................

............................................................ !..........................
.........................! ............................................
................................................................................!
Virgília ......................................................?
Brás Cubas .........................................!
Virgília .................................................!

 

 

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História de um conceito 

(de Roxane Rojo)

 

Da enunciação aos letramentos críticos

 

Porque trabalhar com gêneros de discurso no ensino de línguas hoje?

 

 

Leitura/escrita no mundo contemporâneo

ü      O mundo mudou muito nos últimos 15 anos

ü      Novas tecnologias da informação e da comunicação (TICs)

ü      Globalização

ü      A escola mudou muito nos últimos 50 anos

ü      Alunado das classes populares

ü      Professorado das classes populares

ü      Letramentos múltiplos e difrenciados

ü      Como trabalhar a leitura e a escrita para o mundo contemporâneo?

 

 

Objetos de ensino de Língua Portuguesa

Até 1970

        Textos modelares

         Língua:

         Gramática

         Norma

         Forma

1970-1990

        Língua:

         Gramática

         Norma

         Forma

         Textos:

         Leitura/escrita

         Tipos

 

a partir de 1990

        Texto/Discurso:

         Gêneros/Esferas

         Usos/Práticas

         Língua:

         Funcionando nos textos/discursos

 

 

“São muitos os discursos que nos chegam e são muitas as necessidades de lidar com eles no mundo do trabalho e fora do trabalho, não só para o desempenho profissional, como também para saber fazer escolhas éticas entre discursos em competição e saber lidar com as incertezas e diferenças características de nossas sociedades atuais... Ensinar a usar a língua e a entender como a linguagem funciona no mundo atual é tarefa crucial da escola na construção da cidadania, a menos que queiramos deixar grande parte da população no mundo do face-a-face, excluída das benesses do mundo contemporâneo das comunicações rápidas, da tecno-informação e da possibilidade de se expor e fazer escolhas entre discursos contrastantes sobre a vida social”...

                                       (Moita-Lopes & Rojo, 2004)

 

Como ensinar a usar a língua e a entender como a linguagem funciona no mundo atual?

O trabalho com gêneros do discurso (PCN) como forma de desenvolver as capacidades de leitura e escrita  e de articular aspectos das disciplinas de língua ou entre disciplinas.

 

A escola e a ampliação dos letramentos

Um dos objetivos principais da escola é possibilitar que seus alunos possam participar de várias práticas sociais que se utilizam da leitura e da escrita (letramentos):

ü      Multiletramentos

ü      Letramentos multissemióticos

ü      Letramentos críticos e protagonistas

 

LINGUAGEM - Práticas Sociais

  • Contexto de produção /uso
  • Conteúdo / tema
  • Forma
  • Efeitos de sentido

 

 

Essas práticas sociais envolvem diferentes gêneros (primários, secundários) do discurso e diferentes capacidades de leitura e escrita.

 

Não há um tipo de texto que possa ensinar todos os outros ou desenvolver todas as capacidades de leitura e produção de escrita requeridas por essas práticas.

Para tanto, a escola deve propiciar que os alunos se apropriem dos diferentes gêneros do discurso e desenvolvam as diferentes capacidades de leitura e escrita m práticas de letramento variadas de esferas variadas.

Mas...

 

O que são os gêneros do discurso?

ü      Qual a diferença entre as expressões gêneros literários/discursivos?

ü      Quais fatores definem um gênero?

ü      O gênero é uma (sub)especificação de um tipo de texto?

ü      Há diferença entre as expressões gêneros de discurso/gêneros de  texto?

 

Formalistas e Bakhtin/Medvedev (1928) - Gêneros literários X Gêneros

ü      Normalmente, os formalistas definem o gênero como um certo agrupamento permanente e específico de procedimentos com una dominante determinada. Uma vez que que os procedimentos principais foram definidos já a partir do  gênero, este se comporá mecanicamente a partir dos procedimentos. A verdadeira importância do gênero nunca foi compreendida pelos formalistas.

                                            (Bakhtin/ Medvedev, 1928/1994: 207)

 

Qual sua “verdadeira importância”?

ü      A totalidade artística de qualquer tipo, isto é, de qualquer gênero, aparece duplamente orientada na realidade, e as particularidades desta dupla orientação determinam o tipo de totalidade, quer dizer, o gênero[...]

ü      Uma obra se orienta, em primeiro lugar, para os ouvintes e receptores e para as condições específicas de execução e recepção. Em segundo lugar, uma obra se orienta na vida, do interior, por assim dizer, por seu conteúdo temático. A sua maneira, cada gênero se orienta tematicamente para a vida, para seus acontecimentos, problemas, etc.

                                            (Bakhtin/Medvedev, 1928/1994: 209)

 

ü      Assim, a obra participa na vida e entra em contato com os diferentes aspectos da realidade que a cerca, mediante o processo de sua realização efetiva como aquilo que é proferido, ouvido, lido em um determinado lugar, em determinadas circunstâncias. A obra, enquanto corpo sonoro real com certa duração, ocupa um lugar definido que lhe corresponde na vida. Este corpo está situado entre a gente organizada de um determinado modo. Esta orientação imediata da palavra enquanto um fato, ou mais  exatamente, enquanto um fazer histórico na realidade circundante, é o que determina todas as variedades dos gêneros dramáticos, líricos e épicos.

                                           (Bakhtin/Medvedev, 1928/1994: 210)

 

E os gêneros não literários? Também?

ü      O enunciado concreto (e não a abstração lingüística) nasce, vive e morre no processo da interação social entre os participantes da enunciação. Sua forma e significado são determinados basicamente pela forma e caráter desta interação. Quando cortamos o enunciado do solo real que o nutre, perdemos a chave tanto de sua forma quanto de seu conteúdo – tudo o que nos resta é uma casca lingüística abstrata ou um esquema semântico igualmente abstrato.

                                                               (Volochinov, 1926: 9)

 

Gêneros “lingüísticos” - 1ª aparição do conceito

ü      Mais tarde, em conexão com o problema da enunciação e do diálogo, abordaremos também o problema dos gêneros lingüísticos. A este respeito faremos simplesmente a seguinte observação: cada época e cada grupo social tem seu repertório de formas de discurso na comunicação sócio-ideológica. A cada grupo de formas pertencentes ao mesmo gênero, isto é, a cada forma de discurso social corresponde um grupo de temas. Entre as formas de comunicação (por exemplo, relações entre colaboradores num contexto puramente técnico), a forma da enunciação (‘respostas curtas’ na ‘linguagem de negócios’) e enfim o tema existe uma unidade orgânica que nada poderia destruir. Eis porque a classificação das formas da enunciação deve apoiar-se sobre uma classificação das formas da comunicação verbal.

                                                      Bakhtin/Volochinov (1929: 43)

 

 

O Método Sociológico:

Disso decorre que a ordem metodológica para o estudo da língua deve ser o seguinte:

1. As formas e os tipos de interação verbal em ligação com as condições concretas em que se realiza.

2. As formas das distintas enunciações, dos atos de fala isolados, em ligação estreita com a interação de que constituem os elementos, isto é, as categorias dos atos de fala na vida e na criação ideológica que se prestam a uma determinação pela interação verbal (leia-se, gêneros; ênfase adicionada).

3. A partir daí, exame das formas da língua em sua interpretação lingüística habitual.

 

É nessa mesma ordem que se desenvolve a evolução real da língua: as relações sociais evoluem (em função das infra-estruturas), depois a comunicação e a interação verbais evoluem no quadro das relações sociais, as formas dos atos de fala [enunciados] evoluem em conseqüência da interação verbal, e o processo de evolução reflete-se, enfim, na mudança das formas da língua.

                                                     Bakhtin/Volochinov (1929: 124)

 

 

Gêneros do discurso - Algumas definições

ü      Bakhtin (< XML="true" PREFIX="SKYPE" NAMESPACE="">              1952-53/1979       : 279 -280)ü      ...cada esfera de utilização da língua elabora seus tipos                             

   estáveis de enunciados, sendo isso que denominamos gêneros do discurso

     ü      O enunciado reflete as condições específicas e as finalidades de cada uma dessas esferas,   não só por seu conteúdo (temático) e por seu estilo verbal, ou seja, pela seleção operada nos recursos da língua - recursos lexicais, fraseológicos e gramaticais - mas também, e sobretudo, por sua construção composicional.

 

 

ü      Bakhtin (      1952-53/1979     : 279 -280):

 

ü      A diversidade funcional parece tornar os traços comuns a todos os gêneros do discurso abstratos e inoperantes. Provavelmente seja esta a explicação para que o problema geral dos gêneros do discurso nunca tenha sido colocado.

 

  GÊNERO DE DISCURSO         ≠              TIPO DE TEXTO

                                                                      GÊNERO DE  TEXTO

 

ü      Marcuschi (em prep.: 21)

ü      “Um tipo textual é um construto ideal que se identifica no contexto de uma tipologia textual que pretende determinar estruturas lingüísticas e formais que constituem esses tipos;

 

ü      Um gênero textual é uma ocorrência textual que permite uma classificação por gêneros aproximando-se de uma taxonomia de formas textuais empíricas. Não procede por algum tipo de estrutura lingüística interna do evento textual, mas por uma relação das condições de produção, dependentes sobretudo da identificação da estrutura da participação, situacionalidade, propósitos e dos meios de organizar a informação”;

 

ü      Bronckart (1997: 75-76)

ü      “Chamamos de texto toda unidade de produção de linguagem situada, acabada e auto-suficiente (do ponto de vista da ação ou da comunicação). Na medida em que todo texto se inscreve, necessariamente, em um conjunto de textos ou em um gênero, adotamos a expressão de gênero de texto em vez de gênero de discurso.

    

 

Enquanto, devido a sua relação de interdependência com as atividades humanas, os gêneros são múltiplos, e até mesmo em número infinito, os segmentos que entram em sua composição (segmentos de relato, de argumentação, de diálogo etc.) são em número finito, podendo, ao menos parcialmente, ser identificados por suas características lingüísticas específicas [...] Na medida em que apresentam fortes regularidades de estruturação lingüística, consideraremos que pertencem ao domínio dos tipos, portanto, utilizaremos a expressão tipo de discurso...”

 

ü      Bakhtin (1934-35/1975       :  81):

 

ü      [...] Tomamos a língua não como um sistema de categorias gramaticais abstratas, mas como uma língua ideologicamente saturada, como uma concepção de mundo, e até como uma opinião concreta que garante um maximum de compreensão mútua, em todas as esferas da vida ideológica. Eis porque a língua única expressa as forças de união e de centralização concretas, ideológicas e verbais, que decorrem da relação indissolúvel com os processos de centralização sócio-política e cultural...

 

Gêneros e esferas de atividades humanas

 

 

 

Esferas ou campos de circulação de discursos

 

 

 

 

 

Situação de Comunicação

Esfera Comunicativa

Tempo e lugar históricos

Participantes (relações sociais)

Tema

Apreciação    valorativa

Modalidade de linguagem  ou mídia

 

Mídias e suportes

 Forma Composicional

ü      Forma(s) de organização/ estruturação global dos textos pertencentes àquele gênero;

 

ü       Partes típicas dos textos pertencentes àquele gênero e suas relações/formas de conexão (multimodalidade).

 

Estilo

Seleção dos recursos da língua:

 

ü      Lexicais, fraseológicos, gramaticais etc.

 

 

GÊNEROS DO DISCURSO

 

 

Multiletramentos--------------------------  ESFERAS
                                                   

Letramentos multissemióticos ---------------  LINGUAGENS

                                             ---------------  MIDIAS

 

Letramentos críticos e protagonistas -------- TEMAS

                                                       --------  IDEOLOGIA

 

 

O gênero em sala de aula: como fazer?

ü      Didatização e modelo didático - o gênero como objeto de ensino?

ü      Forma de gêneros ou uso (leitura, produção)?

ü      Leitura ou produção?

 

O que (não) fazer...

ü      Decorrências principais

ü      O texto não entra em sala de aula como pretexto para ensino de outros conteúdos (história da literatura, gramática, ortografia etc.)

ü      O texto não entra em sala de aula para modelização ou gramaticalização de ordem superior (normatização)

ü      O texto entra em sala de aula pelas vozes que pode trazer e pelo seu potencial de significações e de uso efetivo

ü      O texto deve ser abordado de maneira multimodal e preferencialmente multimidiática

  

Referência: Roxane Rojo  .  IEL/UNICAMP - SEALI - UEM

 

 

O ENSINO DOS GÊNEROS TEXTUAIS É MAIS UMA "MODA" EM EDUCAÇÃO?


Para Schneuwly e Dolz, a escola sempre trabalhou com os clássicos gêneros escolares narração, descrição e dissertação ou com o estudo de gêneros literários, como o conto ou a crônica.

A novidade consiste em fazer com que a aprendizagem dos gêneros que circulam fora da escola - os literários, jornalísticos ou mesmo os gêneros cotidianos - seja significativa para o aluno e contribua para um domínio efetivo de língua, possibilitando seu uso adequado fora do espaço escolar.

Os autores levantam três das formas como os gêneros são usados na escola atualmente, as quais quase sempre aparecem mescladas:
** Gênero como objeto de estudo, fora de seu contexto de produção.
O caso, por exemplo, de se estudar notícias com os alunos, retirando-as do jornal - seu lugar de produção e circulação - e anulando suas marcas textuais e gráficas específicas.

** Gênero estudado dentro de uma situação de produção ficcionalizada
É o caso de produzir um jornal na classe, como se fosse um jornal verdadeiro, para estudar as formas de produção e circulação de notícias de um modo mais próximo do que ocorre fora da escola.

** Gênero estudado numa situação real de produção
Utilizado pelos alunos para dizer algumas coisas a alguém. É o caso, por exemplo, da escrita de uma carta ao prefeito, solicitando que a rua da escola seja asfaltada, ou um debate com pessoas convidadas para falar de orientação sexual para pré-adolescentes, em que os debatedores são os alunos.

Para organizar o trabalho com um gênero textual em sala de aula, sugerimos a seguinte SEQÜÊNCIA DIDÁTICA:
*Apresentação da proposta
*Partir do conhecimento prévio dos alunos
*Contato inicial com o gênero textual em estudo
*Produção do texto inicial
*Ampliação do repertório
*Organização e sistematização do conhecimento: estudo detalhado dos elementos do gênero, suas situações de produção e circulação
*Produção coletiva
*Produção individual
*Revisão e reescrita


Como sabemos, todos os gêneros de texto tem origem em situações de comunicação específicas e marcas lingüísticas próprias.
Quando os professores conhecem a situação de produção e as marcas do gênero que propõem que seus alunos escrevam, podem auxiliá-los a melhorar suas produções.
É a intervenção objetiva do professor consciente das características dos gêneros que ensina a escrever que leva os alunos a aprimorarem continuamente seus textos.

 
GÊNEROS 
 
 
 
 
Nossos textos 
  • TEXTUAIS OU DISCURSIVOS
  • A Gramática e os Gêneros
  • Proposta de Atividade com diferentes gêneros
  • História de um Conceito (Roxane Rojo)
  • O ENSINO DOS GÊNEROS TEXTUAIS É MAIS UMA "MODA" EM EDUCAÇÃO?
RECOMENDO

 

NOSSOS ESPAÇOS 

 
 
 
“ O que um dia
eu vou saber
não sabendo
eu já sabia.”
                                                       
                       Guimarães Rosa

 
 
 
Um bom trabalho.
 
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ATP / LP
SÃO JOSÉ DOS CAMPOS/SP