Sócrates com seus discípulos pouco antes de ser executado

SÓCRATES

O filósofo Sócrates, considerado o patrono da Filosofia, rebelou-se contra os sofistas, dizendo que não eram filósofos, pois não tinham amor pela sabedoria nem respeito pela verdade, defendendo qualquer idéia, se isso fosse vantajoso. Corrompiam o espírito dos jovens, pois faziam o erro e a mentira valer tanto quanto a verdade.

Discordando dos antigos poetas, dos antigos filósofos e dos sofistas, o que propunha Sócrates?

Propunha que, antes de querer conhecer a Natureza e antes de querer persuadir os outros, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo. A expressão “conhece-te a ti mesmo” que estava gravada no pórtico do templo de Apolo, patrono grego da sabedoria, tornou-se a divisa de Sócrates.

Por fazer do autoconhecimento ou do conhecimento que os homens têm de si mesmos a condição de todos os outros conhecimentos verdadeiros, é que se diz que o período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento do homem, particularmente de seu espírito e de sua capacidade para conhecer a verdade.

Sócrates fazia perguntas sobre as idéias, sobre os valores nos quais os gregos acreditavam e que julgavam conhecer. Suas perguntas deixavam os interlocutores embaraçados, irritados, curiosos, pois, quando tentavam responder ao célebre “o que é?”, descobriam, surpresos, que não sabiam responder e que nunca tinham pensado em suas crenças, seus valores e suas idéias.

Mas o pior não era isso. O pior é que as pessoas esperavam que Sócrates respondesse por elas ou para elas, que soubesse as respostas às perguntas, como os sofistas pareciam saber, mas Sócrates, para desconcerto geral, dizia: “Eu também

não sei, por isso estou perguntando ”. Donde a famosa expressão atribuída a ele: “Sei que nada sei”.

A consciência da própria ignorância é o começo da Filosofia. O que procurava Sócrates? Procurava a definição daquilo que uma coisa, uma idéia, um valor é verdadeiramente. Procurava a essência verdadeira da coisa, da idéia, do valor. Procurava o conceito e não a mera opinião que temos de nós mesmos, das coisas, das idéias e dos valores.

Marilena Chauí (Convite à Filosofia)

Confira:


Filme de Roberto Rossellini (1971)

Livros


         Coleção Filosofinho


A IMPORTÂNCIA DE SABER QUE NÃO SE SABE

(Trecho extraído da obra Apologia de Sócrates)

Sócrates : Conheceis, se não me engano, Querofonte. Meu amigo desde jovem e amigo da maior parte de vós, convosco, não faz muito tempo, esteve no exílio e depois regressou à cidade. Sabeis com certeza como era Querofonte, como se apaixonava por qualquer coisa que fizesse. Assim, uma vez, indo para Delfos, ousou consultar o oráculo acerca da questão de que estamos a falar. Já vos pedi, atenienses, para não rumorejar aquilo que digo. Perguntou ele então a Pítia se havia alguém mais sábio do que eu, e Pítia respondeu que não havia ninguém. Sobre isso prestará testemunho o seu irmão, aqui presente, porque Querofonte está morto. (...)

Depois de saber do fato, refleti comigo mesmo: o que o deus pretendia dizer e o que escondia sob os seus enigmas? Eu, pelo que me diz respeito, estou bem consciente de não ser sábio, nem muito nem pouco: e então o que ele quer dizer ao afirmar que sou o mais sábio de todos? Certamente não está mentindo, porque isso não é possível a um deus. Assim, fiquei muito tempo em dúvida quanto ao sentido da resposta.

Depois me dediquei com todas as minhas energias a procurar resolver o enigma. Fui ter com um daqueles que têm fama de sábio com o intuito de encontrar elementos para refutar o oráculo, se isso fosse possível de alguma maneira, contrapondo o fato de que ele mesmo era com certeza mais sábio do que eu, quando o que se dizia era que o mais sábio de todos era eu.

Interrogando, então, tal pessoa (...) e falando-lhe, tive a impressão de que de fato parecia a ele (...) ser sábio, mas na verdade não o era. Então tentei demonstrar-lhe que ele se acreditava sábio, mas que na verdade não era assim.

Por isso, atraí sobre mim o seu ódio e também o de muitos dos que estavam presentes. No entanto, ao ir embora refleti comigo mesmo que na verdade eu era mais sábio do que aquele homem: de fato, cada um de nós dois corre o risco de não saber absolutamente nada de belo e de bom, mas ele acredita saber alguma coisa, quando na verdade não sabe; eu, no entanto, não só não sei como não acredito saber. Portanto, parece-me que eu seja mais sábio do que ele justamente por esta pequena diferença, de que não acredito saber aquilo que não sei.