Entrevista

 

No passado mês de Fevereiro, realizou-se nesta escola uma acção de formação, promovida pela SPM (Sociedade Portuguesa de Matemática), sobre Jogos de Matemática, cujo formador, o Drº Jorge Nuno Silva (Doutorado em Matemática, Presidente da Associação Ludus – Associação dedicada à Matemática Recreativa e aos Jogos Matemáticos, Docente na Faculdade Ciências da Universidade de Lisboa e Formador na SPM) teve a amabilidade de conceder esta entrevista onde fala sobre a acção de formação, sobre Matemática, Jogos Matemáticos e sobre o Jornal de Matemática da escola.

Como nasceu a SPM (Sociedade Portuguesa da Matemática)?

R: A SPM é uma sociedade que tem uma história muito interessante, porque, é uma sociedade que vem do séc. XX (na primeira metade do séc. XX) e que reunia pessoas que gostavam de Matemática. Nessa altura em Portugal, as pessoas não se podiam reunir, isso era proibido, é um pouco difícil de explicar. Mas ir para um café com regularidade e juntar mais de meia dúzia de pessoas era proibido por lei. E o Salazar nunca deixou formar a Sociedade Portuguesa de Matemática só depois do 25 de Abril é que se veio a institucionalizar. A SPM viveu perigos de clandestinidade, de dificuldades financeiras, entre outras. O que torna a sua história muito pitoresca e interessante, com um passado de resistência. A única coisa que nos une é o gosto pela Matemática.

Depois do 25 de Abril formou-se, institucionalizou-se e tem vindo a crescer. Hoje é uma sociedade importante que junta pessoas com enorme gosto pela Matemática, de todos os níveis, secundário, universitário (…), todos os níveis.

 

Nós temos conhecimento que a SPM realiza actividades que se destinam a professores e alunos, pode falar acerca dessas actividades e do que o trouxe à nossa escola?

R: Vim cá realizar uma acção de formação. A SPM tem um centro de formação profissional para os docentes do ensino básico e secundário.

Existem vários centros de formação no país, a SPM é um deles, tendo sido esse o motivo pelo qual me desloquei aqui, na qualidade de formador.

A Sociedade também organiza actividades dirigidas aos alunos, como por exemplo, as Olimpíadas da Matemática. Juntamente com outras associações, organiza o Campeonato Nacional de Jogos Matemáticos (tema da acção de formação de hoje), as Tardes da Matemática, Feiras de Matemática e palestras (algumas delas abertas ao público em geral). Estas actividades iniciaram-se em Lisboa mas actualmente já se realizam no Porto, Coimbra, Aveiro, Madeira, Açores, etc.

Também existem publicações da SPM, sendo uma delas um jornal mensal chamado “ Jornal da Matemática Elementar”, que os vossos professores conhecem, dirigidos a alunos e a professores do ensino básico e secundário.

Depois tem as publicações, a “Gazeta da Matemática”, o boletim da SPM, uma revista dirigida a universitários e uma revista de investigação cujo nome é “ Portugal e a Matemática”.

 

Nesta acção de formação que tipos de jogos é que ensinou aos nossos professores?

R: Falamos sobre jogos de tabuleiro da família do xadrez. Isto é, jogos que não têm sorte, não têm nada escondido, não é como nos jogos de cartas (por exemplo), em que cada um não sabe o jogo dos outros. São jogos que nós denominamos de jogos de informação completa, Jogos Matemáticos ou jogos abstractos pois são apenas de estratégia. O modo de jogar baseia-se muito no raciocínio. Por isso apostamos nestes jogos, visto o mais conhecido ser o xadrez, nomeadamente no Campeonato Nacional de Jogos Matemáticos, nos livros que publicamos e nas acções que promovemos.

 

Qual foi a reacção dos professores a esta acção de formação? 

R: Eu espero que tenham gostado. No final eles preenchem uma ficha anónima de avaliação, as quais ainda não li, mas fiquei com a ideia de que gostaram.

 

Qual é a sua opinião relativamente ao mau conceito que os alunos têm para com a Matemática?

R: Bem, é pena que assim seja. Mas é preciso ver que não é só no nosso país que isso acontece. Embora pense que isso esteja relacionado com a cultura de cada país. Os portugueses não são menos inteligentes do que os outros, só que têm, por exemplo, hábitos familiares que não ajudam. Em Portugal não existe o hábito de no final do dia pais e filhos realizarem trabalhos escolares juntos. Se virem aqueles filmes antigos americanos, dos anos 50, em que filmam famílias típicas americanas, existe uma cozinha enorme, com uma grande mesa e onde se vê a(s) criança(s) a fazer os trabalhos de casa  enquanto a mãe está a cozinhar e o pai a ler o jornal. Todos ajudam, e isso parecendo que não, é muito importante sob o ponto de vista afectivo e emocional. No nosso país, ser mau aluno a Matemática, não é considerado “grave” (e isso é que é difícil de vencer), pois já se parte do princípio que isso é “normal”, é fácil de desculpar, e se repararem houve-se muitas vezes os pais dizerem “eu também nunca gostei, também nunca fui bom”, “ vai fazer os trabalhos de casa sozinho que quando cresceres também não sou eu que te ajudo”, e essa permissividade ao falhanço a Matemática é muito mau. Eu acredito que é mais positivo e que se obtém melhores resultados em ajudar os filhos e em fazer dos momentos de aprendizagem, momentos partilhados, de comunhão afectiva. Aliás, estatisticamente está provado que esse é o caminho mais correcto.

Por outro lado, a Matemática é um ramo de conhecimento muito especial, porque vocês alunos (e sabem disso tão bem como eu) quando perdem o contacto com o desenvolvimento da matéria, isso reflecte-se no vosso dia a dia e no vosso futuro profissional. E porquê? Porque a Matemática é, por vezes, abstracta, muito condensada e quase sempre lógica.

 

Acha que existem medidas/estratégias para que os alunos modifiquem a sua opinião em relação à Matemática?

R: Sim, eu acho que uma das estratégias em que mais falhamos é a de não transmitir ao professor uma dose monstruosa de entusiasmo que ele possa passar para os seus alunos. Um aluno entusiasmado passa por cima das dificuldades ou contrariedades, se falha alguma coisa, sozinho e com grande entusiasmo consegue ultrapassar obstáculos. O entusiasmo é uma das grandes chaves para resolver o problema da Matemática. Mas, para se ter alunos entusiasmados é preciso ter professores motivados. E ter professores motivados não é fácil por diversas razões: primeiro porque a vida de professor é muito difícil, porque se ganha pouco e porque o seu trabalho não é reconhecido como deveria ser. Também nas universidades onde eles andaram ninguém lhes transmitiu entusiasmo, e também que, como professores teriam entusiasmo.

 

 

Qual é a sua opinião relativamente ao facto da escola estar a concorrer ao projecto da “Fundação Ilídio Pinho”? Acha que permite que haja uma maior “interacção” com a Matemática?

R: Eu acho muito bem, e tanto quanto eu sei a “Fundação Ilídio Pinho” ajuda projectos deste âmbito. Acho que um jornal feito por alunos, para alunos é óptimo. Um jornal feito por vocês, com as vossas investigações, produzir o material final é uma ideia fantástica. Uma das grandes dificuldades de ensinar Matemática é o facto de que quem ensina não ter a perspectiva de quem aprende. Eu sugeria que vocês fizessem o jornal e também, se pudessem, fabricassem materiais físicos, o que de um modo geral existe pouco. Isso ajuda imenso na compreensão da Matemática. Não só jogos, mas materiais físicos, tais como puzzles, geoplanos, sólidos, etc.

Um jornal, sendo on-line, é muito interessante pois consegue fazer a conjunção do ensino da Matemática com as novas tecnologias. Basta ver a grande polémica que se tem com a utilização ou não da máquina calculadora, metade das pessoas é a favor, metade das pessoas é contra, metade das pessoas só usa “texas”, metade das pessoas só usa “casio”. É uma confusão e é uma confusão muito injusta para o aluno. Por exemplo, é obrigatório o aluno aprender a mexer nas máquinas de calcular durante o secundário e quando chegam à faculdade é proibido usar a máquina.

De maneira que, explorar e juntar as duas coisas acho óptimo pois vai filtrando o que é bom e o que é mau; e como é que as coisas se podem ajudar uma ás outras. É um óptimo veículo das novas tecnologias.

 

Mensagem aos alunos:

R: A Matemática é o prazer de pensar. O que é difícil é isso passar de geração em geração. É de facto algo que dá um prazer imenso, mas é preciso aprender como. É como na música, não se nasce gostando, por exemplo, música clássica, é necessário ouvir e, mais importante ainda, aprender a ouvir e assim aprender a gostar. Na Matemática isso também acontece.

 

Entrevista realizada por  Soraia Moreira, nº19 – 9ºA, no dia 14/02/2009