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Opinião & Crítica



Arte e Literatura de Valor Intelectual e Filosófico

 

Johannes de Silentio (*)

Kierkegaard certa vez escreveu que “o poeta é o gênio da recordação”. E ele tinha razão. Isto faz do poeta um elemento fundamental num grupo social, que tem uma valiosa missão: registrar para as gerações presentes e futuras, através de sua arte: os sentimentos, as idéias e os fatos mais relevantes de seu contexto histórico específico. Não é uma tarefa fácil, pois exige não somente a técnica, mas acima de tudo, uma habilidade natural, uma vocação. O poeta louva e elogia o belo, porém da mesma forma censura e critica o inestético.

E nesta atividade do poeta é preciso liberdade de expressão, pois caso contrário sua tarefa se torna irrelevante. Sempre digo: o poeta é censor do clima intelectual e sentimental de seu tempo. E aqui temos um poeta brasileiro contemporâneo:  João Batista do Lago com o seu primeiro e joaobatistalagoesperamos não último livro de poesias – EU, PESCADOR DE ILUSÕES.

Com certeza as Musas, filhas do senhor do Olimpo, inspiradoras das artes, auxiliaram este autor a transformar a matéria bruta das intuições sensíveis e intelectuais em formas preciosas de expressão poética. É uma obra que consiste numa coletânea de poesias que nasceram numa fértil imaginação e que expressam uma grande variedade de sentimentos e reflexões. Exibem uma riqueza de palavras e idéias de ótima qualidade. Encantam com a beleza da forma e do estilo literário. Impressionam com a profundidade semântica dos conceitos trabalhados. Cativam com a relevância histórica política e social.
Esta obra é fruto de uma mente genial e brilhante e que demonstra ser amante do saber. É uma obra plena de ideais nobres e humanitários, que fecundam não na mente de um jovem inexperiente e ingênuo, mas ao contrário, na mente de um “ancião”, que fluiu existencialmente na história por vários momentos antagônicos.
Nesta obra é importante destacar o empenho intelectual de compreender o mundo percebido não como uma representação idealista, estática e alienada do tempo-espaço natural, mas pelo contrário, seguindo o exemplo pioneiro de Heráclito, uma tentativa de compreender o mundo numa representação realista e dinâmica.
Percebe-se um elemento dialético, as vezes paradoxal, no movimento das palavras, neste fluir poético, que expressa um pensamento vivo e interessante. Poesias que procuram expressar adequadamente a realidade histórica e natural em constante movimento. São pensamentos que não pretendem ser a expressão de uma realidade eterna e distante, mas sim, o retrato de uma realidade viva e experimentada, em todas as suas contradições.
O poeta João Batista do Lago, cidadão consciente e culto, nesta sua obra, expressa e reflete sobre variados temas. Com isto demonstra aptidão e conhecimento em várias áreas do conhecer humano: Filosofia, Arte, Antropologia, Sociologia, Mitologia, Literatura, Política, História, Ecologia e outras mais.
Evidencia portanto não só a qualidade intelectual da obra, mas também a própria erudição do autor. Deste modo a obra não se limita somente a satisfazer o gosto estético do leitor, mas procura satisfazer também o gosto intelectual e às vezes apela até mesmo à volição.
A obra não consiste somente numa coletânea de poesias com o fim de satisfazer o desejo pelo belo. Objetiva também a reflexão sobre a própria atividade reflexiva do homem, revelando seus potenciais e suas limitações, numa perspectiva dialética. Expressa o sentimento de finitude do homem, um ser que questiona o infinito e que busca respostas para questões transcendentes à própria existência natural.
João Batista do Lago é um poeta, e nesta obra não só louva e celebra o belo, mas censura os abusos políticos, nacionais e internacionais, testemunhados pela nossa história contemporânea. Poesias que denunciam atos desumanos dos que estão no poder. É um poeta que incita a indignação. Censura por exemplo: a corrupção política, a exploração do pobre pelo mais rico, os agentes da injustiça social, a cumplicidade das instituições que preservam e reproduzem ideologias, a atividade tecnológica do homem que destrói a natureza. Poesias que até mesmo profetizam libertação social e fazem apelo à ação.
Concluindo, “EU, PESCADOR DE ILUSÕES” é uma bela obra de arte, mas também, uma peça literária de valor intelectual e filosófico muito grande. Uma obra que exige, portanto, um tempo razoável de reflexão, pois toca em temas complexos e profundos da existência humana. É uma obra relevante para o homem contemporâneo, pois fala do que aconteceu e acontece aqui e agora. Será também uma obra de relevância histórica, retratando o sentimento e pensamento de um cidadão culto, que no seu tempo refletiu criticamente a história política e social.
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(*) Johannes de Silentio (Paulo Sérgio Alves) é Teólogo e profissional liberal da área de Processamento de Dados.

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Verbo Verberante

Mhário Lincoln (*)


Se para o Velho Testamento, em Gênesis, “no começo era o VERBO”, para João Batista do Lago, o poeta, a Palavra tem pasto livre, ama e odeia feito besta fera.
E se no Novo Testamento Jesus pronunciou o “vinde a mim as criancinhas”, o poeta João Batista do Lago asseverou: A los niños desesperanzados (…) são indulgentes (…) del capitalismo carrasco.
Fez-se luz à sombra hermética dos pseudos-lançamentos do pós-modernismo a classitude ferina dos sonetos e poemas. Fez-se lua à poesia moderna, sem varinha mágica. Mas com muita imprudência racional, o que a torna bela e sensível, real, mas chocante, lasciva, mas empolgante:
Ah, como eu queria ter podido ficar com todas as putas…
Poesia romântica até demais à lá “Te amo tanto, que te esqueço”:
No meu laboratório de visões/busco toda tua presença./Nela não me há.
Frágil, mas ecológico-saudosista:
Sapo Cururu
Na beira do Itapecuru
Há tanta saudade mirim
Do Itapecurumirim.
Acima, fantástica revisitação à poética-chão, onde encontra um tipo de estrume que aduba e sedimenta seu cantar poético, além de sentir o cheiro de memoráveis picardias. E assim, João Batista do Lago, o poeta, vai parindo seus anseios, devaneios e mágoas. Desilusões. Paraísos, com Éden e sem maçã:
O cadáver da vida
floresceu entre os parreirais
O Diabo lho fizera prece
deus e o diabo beberam
do mesmo vinho dionisíaco
Entre as páginas João Batista do Lago pari seu próprio ventre, numa dor pungente, mas com força lírica invejável - morro-me a cada instante – auto-exílio, pré-litium; supra-exílio, pós-litium. Exemplo claro da força do meio ultrapassando a ganância da métrica. Mesmo assim há lampejos dilacerados de prazer mitológico:
A vaca de Ébano (…) Transforma o belo no teatro do imundo.
Ou, ainda, lampejos discursivos entre o óbvio – O canto não canta a rima não versa. E o cartesiano: – Apenas os idiotas pensam que o “Eu” é o único dos sujeitos.
Mas como nem sempre de poesia vive o Homem, João Batista do Lago conseguiu enveredar pela trilha do protesto, da mesma forma como outros protestaram na força de cada versículo. Isto me lembrou o latino Nicanor Parra, nascido num mundo acostumado a cultuar Pablo Neruda e Gabriela Mistral. Lembro de Nicanor Parra haja vista sua polêmica versicular, contestante e contestável, características íntimas de ambos, pois ambos já foram considerados antipoetas.
Parra, por seu lado, é perfeito influente de toda uma geração de poetas rebeldes das Américas. João Batista do Lago não fica atrás. Dele, também recebeu energia.
Suas poesias-protesto, incluídas no livro, também influenciaram a logomarca jorrante das idéias poéticas centrais do conteúdo de – EU, PESCADOR DE ILUSÕES – que ora, me orgulha lê-lo.
Por isso não é a toa que, João Batista do Lago e eu, juntos, a cada lambida de página, navegamos delirantemente sob a égide das nossas lutas internas, postulantes insigths de nossos eu’s revolucionários:
Essa ambígua ordeiricidade brasileira (…) Sob este manto praticam-se o terrorismo social e econômico, o político e o cultural, abstrusos (…) Prestai atenção, ó brasileiros! (…) Povo deserdado, vexado e proscrito. Ou mais: Irmãos dos campos (…) é hora de guarnecer; esta, uma chamada própria da militância anti-eclesiástica, anti-jesuíta; anti-simonica. Ah! Esse João Batista, hoje, rio Jordão; amanhã, Tietê; ou verso-vice.
João da hora do Ângelus:
Queres impor-me a não-razão? (…) Donde surge o Ângelus mortal sobre as consciências vérmicas (…).
João mítico:
Atentai para o fogo das ventas.
João desértico, até onde seus males espanta, desapaixonado e pugnaz. Cada linha da trama organográfica de seus poemas investem sempre na firmeza do que raciocina; orgasmo literário puro!
Nenhuma dor é tamanha/Que nela não me contenha.
Olha João Batista do Lago com a dor do parto; parindo linhas auto-pensantes, cheias de explosão carismática, de sensibilidade magnética. Afinal, quem lê este João Batista de todos os Lagos, sente imediatamente sua energia magnética corroendo o bestunto dos incrédulos e moendo a medula dos hipócritas:
Enganar é preciso; votar não é preciso não… com precisão.
Destarte, de TORMENTAS até REGRESIÓN, vivencio uma viagem inesquecível pelo cérebro de um homem nascido no interior do Maranhão, em Itapecurumirim, mas fugaz no hábito de revirar a terra brasilis ou da América Latina, na incessante busca de encontrar as minhocas fantasmas, escondidas em montinhos de terra-santa, embutidas nas meias colegiais, transformadas em bola de chute, escondidas no fundo de seus armários de pau-d’arco roxo.
Pela viagem, lendo a obra, notei que o autor acabou recorrendo à astúcia para se enveredar cedíssimo pelas dunas da criação, lendo e relendo clássicos afrodisíacos assexuados, reforçando sua base empírica na observação do Mundo ou dos seus vários Mundos.
Escapuliu de Itapecurumirim, rodou o Brasil, e de repente viu-se em Buenos Aires, entre calafrios, nos becos das tangarias ou sob um lampião, nas livrarias que nunca dormem.
Finalmente, ao arregaçar as últimas páginas do livro – EU, PESCADOR DE ILUSÕES - chego à conclusão incomum: só escreve tais versos quem tem asas de homem–pássaro; ou, paradoxalmente, quem consegue, numa ponta livreira, cativar-se com Edgar Allan Poe e Franz Kafka; Fernando Pessoa e Machado de Assis; Hegel e Marx; e sonhar com Miguel de Cervantes, servir de laboratório para as agruras dantescas. Num outro beiral de intelectualidade João Batista do Lago tenta encontrar na pedra filosofal, desde os Milésios – Tales, Anaximandro e Anaxímenes, passando por entre os caminhos dos ensinamentos de Sócrates, Platão e Aristóteles; pelos Sofistas Protágoras e Górgias; entre os Cínicos e Céticos Diógenes e Pirro; os Estóicos e Escolásticos; chegando por fim a Kant, Nietzsche, Schopenhauer e Kierkegaard, até atingir toda a história do pensamento dos frankfurtianos e seus pós. Ou chorar ouvindo Gardel. Talvez por isso – Regresión – componha seu vetusto intelectual.
E… se o homem pariu, João Batista do Lago pariu um livro rico em consciência, livre de enxertos apelativos, iluminado em luz própria, vagalumiado por certezas, incertezas, dores… até, pasmem, um Feliz Natal.
Eis seu êxodo intestino:
Neste Natal eu gostaria de desinternar-me.
Dar-me alta.
Gostaria de ser entendido.
Assim é João Batista do Lago. Homem-Bala, no picadeiro da vida: do Sul ao Norte poéticos em alguns segundos. Como num piscar d’olhos vai do telúrico ao estado de nirvana:
Estou debruçado na janela do mundo.
Mas consciente, não se esvai, volátil, e preconiza:
nas asas da liberdade serei salvo.
João Batista do Lago está salvo, sim! Viva a boa poesia brasileira.

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MHÁRIO LINCOLN é jornalista e advogado; Editor-chefe do portal Mhário Lincoln do Brasil.

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Poesia dialética e rebelde

Margarita de Cássia Viana Rodrigues*

É com imenso prazer que faço a APRESENTAÇÃO do livro de João Batista do Lago. Na verdade devo confessar que o convite, para apresentá-lo, me deixou meio “fora do ar”, pois uma mescla de sentimentos de temor, prazer, surpresa e vaidade se misturaram dentro de mim!
Temor, porque de literatura não entendo nada! Prazer e surpresa, porque muito embora já conhecesse a preocupação e o interesse dos textos desse jornalista com o social, com a educação e a filosofia, não esperava que esses temas fossem capazes de despertar e se transformar em tão profundo sentimento de lirismo! Vaidade, porque dentre as inúmeras pessoas bem mais credenciadas sobre o assunto, fui escolhida para tão gratificante tarefa.
Seus poemas são frutos de reflexões profundas sobre a vida de alguém que não apenas “vai levando” a vida. Ao contrário, eles representam a cristalização do viver uma vida cotidiana como uma relação entre pensar o Eu pessoal e seu papel social, e que eu chamaria de uma dialética rebelde. Ou seja, uma vida pensada e vivida inserida na cotidianidade desse nosso mundo construído por uma cultura hegemônica, que apresenta fraturas sociais incomensuráveis, mas que ao mesmo tempo se rebela a ser mais um do rebanho.
Sua rebeldia fica muito clara, por exemplo, quando se nega a se enquadrar no “quadrado mágico da ordem estabelecida”, ou mesmo quando se questiona sobre um possível medo que anestesia a sociedade brasileira em “quem são?” esses corruptos que envergonham a política brasileira. E alerta que “é chagada a hora da ação, o “espírito” da nação reclama: revolução”. Na educação essa rebeldia também se manifesta ao questionar a ordem das filosofias que a guia, e que tolhe o verdadeiro conhecimento.
Sua sensibilidade reconhece ambigüidades e inseguranças da nossa atual temporalidade, batizada de pós-modernidade, como a causa da desistência do homem pela buscar pelo “ser imanente” existente em si próprio, e que prefere se acomodar numa visão “religiosa” de vida e que os transformam em “pobres humanos inconscientes”. Porém, em “Esse Homem” sua preocupação e rebeldia retornam com força quando afirma que só se alcança o verdadeiro equilíbrio, quando as necessidades da vida material provocam uma revolução interior. Por isso se revolta e afirma: “não me venhas enfim com ideologias; todas são iguais, consciências falsas, simulacro de todas as deidades”.
Em “A quimera da repetição” retorna à suas origens de nordestino e através das figuras representativas do folclore - os Bois bumbas Mimoso e Caprichoso – nos leva a pensar da importância do despertar a consciência coletiva para não sermos apenas mais um “boi inconsciente” que manso, inocente e tranqüilamente segue em direção ao matadouro.
Um nordestino do Maranhão e como ele mesmo diz, saiu pelo mundo a perambular e que hoje se sente um “desenraizado”, “multicultural”, “sem língua… sem pátria…” que se considera um “anarquista babélico”, mas que na verdade sente saudade e nunca esquece de sua pequena Itapecurimirim.
“Libertação” e “Autocídio”, não posso negar, são minhas preferidas! Mais que poemas são um presente, um brinde à sociologia crítica brasileira. Poemas sínteses de revolta sobre a sujeição do povo brasileiro, à dominação da classe hegemônica.
É nessa perspectiva sociológica que entendi os textos do João e comentei apenas alguns, aqueles que mais são representativos para mim. Com o João compactuo dessa rebeldia, e me deixa imensamente feliz ver a minha amada sociologia na forma de poesia, longe do discurso acadêmico. Mas o leitor com certeza, além da possibilidade de desencadear um processo de rebeldia ao “status quo” social em que vivemos, encontrará jóias belíssimas que lhe falarão ao coração.
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* Margarita de Cássia Viana Rodrigues - MS. Em Comunicação, Doutoranda em Ciências Sociais.

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