MARXISMO


 
Data de nascimento
05-05-1818
Local de nascimento
Trèves, Renânia
Data de morte
14-03-1883
Local de morte
Berlim, Alemanha
Nacionalidade (país)
Alemanha
 
Antes de Karl Marx (1818-1883), o socialismo nunca conhecera uma visão integradora e científica da realidade social e política do mundo saído da Revolução Industrial. Os socialismos da primeira metade de Oitocentos eram utópicos, propondo a formação de comunidades igualitárias e rejeitando o conceito de fábrica, enquanto base do capitalismo industrial. Marx, por seu turno, inovará ao partir deste mesmo conceito, incentivando os seus trabalhadores, o proletariado, a encetar a revolução socialista, derrubando o mundo antigo, da burguesia e do conservadorismo, e forjando um mundo novo. A política, a economia e a análise social eram pela primeira vez, de forma original, conjugadas entre si, conferindo um sentido histórico à luta do proletariado, uma luta que deveria ser internacional (daí a formação da primeira Internacional Operária, 1864-1876).
A Europa, em meados do século XIX, de facto, estava política e economicamente dividida, com uma pujante Inglaterra industrializada e avançada em termos sindicais e sociais; a Alemanha ainda muito aristocrática e rural, em industrialização, com poucas liberdades em questões sociais e políticas; a França, muito rural ainda, agitada politicamente, a caminhar para a industrialização maciça do país; a Itália ainda muito atrasada e fragmentada politicamente, muito tradicionalista; a Rússia, enfim, num feudalismo e conservadorismo aristocrático e rural entorpecedores. Surgiu assim, naturalmente, o ano das grandes revoltas sociais e políticas que foi 1848, apeando-se governos (estados alemães e italianos, Áustria), derrubando-se reis, como Luís Filipe, em França, todo um mundo proletário já em clara agitação política, enfim, contra a burguesia dominadora politicamente.
Foi precisamente nesse ano de 1848 que surgiu o "Manifesto do Partido Comunista", por Karl Marx e Friedrich Engels, como programa para a já internacional Liga dos Comunistas. O "comunismo" apareceu como forma de distinguir o socialismo científico, marxista, do tal socialismo "utópico", anterior a 1848. O marxismo vem então defender que a transformação da sociedade depende do processo histórico. Este obriga essa mesma sociedade industrial a criar uma nova classe trabalhadora, o proletariado industrial, massa social de origem rural que veio para as cidades das fábricas. Esta nova classe tinha em si o gérmen revolucionário, alavanca essencial para se mudar a sociedade, a tal revolução social. Só a revolução poderá superar as situações que o processo histórico impuser ao proletariado, o que lhe confere êxito à partida. Em termos históricos, o capitalismo estaria condenado, porque ultrapassado e ferido de erros e injustiças, de acordo com Marx. Para substituir o capitalismo e numa transição para o socialismo, a revolução acabaria por impor a ditadura do proletariado, um poder baseado na força do operariado, mesmo em armas, se preciso fosse.
O marxismo considera ainda que a acção política e suas soluções, numa sociedade, estão condicionadas pela força económica, pelo desenvolvimento material, pelo que, tal como o sistema capitalista superara o sistema feudal, também o socialismo anularia para sempre o capitalismo. Estes valores defendidos por Marx, principalmente na sua obra de charneira que foi O Capital-Análise Crítica da Produção Capitalista, publicada em 1867, encorajaram ainda mais, no plano ideológico, o movimento operário socialista, já então amplamente organizado internacionalmente. A História, para o marxismo, está do lado do proletariado e da revolução, é a base dialéctica da acção marxista (materialismo histórico), através das causas políticas (super-estrutura, como conjunto de fenómenos jurídico-políticos e ideológicos e suas instituições representativas) e, principalmente, económicas (infra-estrutura). Os partidos, já mais que os sindicatos, prefiguravam-se como as células ideológicas e operativas da vanguarda revolucionária contra o capitalismo industrial burguês. O Marxismo era assim uma autêntica fé, capaz de ultrapassar a condição escrava da sociedade e dos trabalhadores, de impor a reforma das instituições e de garantir o progresso, através da mudança do sistema económico e social, claro está, também dos métodos de produção e de troca. O Marxismo trouxe assim, além de um estímulo ideológico, princípios e registos de natureza científica, longe já da utopia e do igualitarismo "ingénuo" do primeiro socialismo. A luta de classes, antagónicas na sua natureza, estribada na consciência de classes, é o motor da revolução e do processo histórico tendente à tomada do poder pelo proletariado.
A doutrina marxista, através das revoluções de 1848 e a posteriori, apoderou-se da tradição revolucionária do Liberalismo, como também do radicalismo, do drama e do sentimento de revolta da Comuna de Paris, apesar da derrota desta. O Marxismo estava já em mudança, a experimentar o travo da derrota, o sentimento de que a revolução não estava assim tão segura da vitória à partida. Depois adaptou-se à emergência dos nacionalismos (mais fortes que a unidade entre os proletários), emergindo no século XX como ideologia laboral opositora aos totalitarismos de direita, impondo-se na Rússia através da revolução comunista de 1917, a partir da qual enxameou na Europa e no mundo. A partir dos anos 70, o Marxismo, enquanto sistema de governo de estados e nações entrou em profunda crise, até aos dias de hoje.
Concluindo, podemos considerar o Marxismo como uma visão global da natureza e do Homem, baseada no materialismo. A sua concepção do mundo opõe-se às concepções cristãs e individualistas, pois nega-se a estabelecer uma hierarquia exterior aos indivíduos, não aceitando como objectivo final a consciência do indivíduo e o seu exame de forma isolada, mas antes de forma colectiva. Chama ainda a atenção para realidades que escapam a esse exame isolado da consciência, só possíveis de percepcionar através da consciência de classes, do sentido colectivo do processo histórico: realidades naturais (a natureza, o mundo exterior), práticas (o trabalho, a acção), sociais e históricas (a estrutura económica da sociedade, as classes sociais). Na sua base, como afirmou Lenine, estiveram a filosofia alemã (a dialéctica de Hegel, mas sem Deus), a economia política inglesa e o socialismo francês, "as três fontes e as três partes integrantes do marxismo".