DIOGO VIDA
Alegria
Numérica

 





José Pedro Coelho (sax tenor e soprano, flauta)
Diogo Vida (piano)
Filipe Teixeira (contrabaixo)
João Cunha (bateria)
+ 
Paulo Perfeito (trombone)
Rui Teixeira (sax barítono)


Fotografia: Renato Nunes
Que belo registo de estreia nos apresenta aqui o pianista Diogo Vida! Cada um destes temas – todos da autoria do pianista, excepto “Nardis”, de Miles Davis, que aqui recebe um tratamento com um bom travo de flamenco – evidencia um extremo cuidado no domínio da composição e é do tipo que não só entra com enorme facilidade no ouvido como teima em nele persistir por algum tempo. A faixa de abertura, “Alegria Mundi”, é aquela que, sob os pontos de vista técnico e estilístico, mais facilmente se descreve como be-bop, mas está mais próxima de explorações ulteriores à maneira de um Joe Henderson do que da forma mais básica pela qual aquele vocabulário “pilar” do jazz moderno costuma servir tantas outras situações musicais menos diferenciadas e menos sofisticadas. A contrastar, logo a seguir, “Domingo II” apresenta-se-nos como um chorinho bem intrincado e melodicamente muito preciso mas ao mesmo tempo feliz, cantável e dançável, como o título do álbum parece sugerir. É azul brilhante como um quente domingo de verão ou como a capa do próprio CD e veicula uma ternura tão grande como a menina que a ilustra. Uma pequena delícia para ouvir vezes sem conta.

De facto, uma das façanhas deste álbum reside exactamente na diversidade que nele podemos encontrar, não apenas ao nível estilístico, mas também (ou talvez acima de tudo) no que concerne às diferentes combinações instrumentais através das quais Diogo Vida decidiu dar vida a cada um destes temas. Há seis faixas em quarteto, uma em trio, uma em sexteto e quatro em piano-solo. Pesa ainda o facto de José Pedro Coelho alternar ao longo do disco entre o sax tenor (três faixas), o sax soprano (outras três) e a flauta (no arranjo para sexteto). Um programa muito bem pensado e com belíssimos resultados.

Belíssimos são também os dotes pianísticos do líder, o que fica talvez mais claramente ilustrado nos temas a solo, onde Diogo Vida opta por se espraiar com mais à-vontade. De entre estes, destacaria “Bôtto” pelo considerável virtuosismo e pelo grande “fôlego” aí evidenciados pelo pianista – parecem ser três as mãos envolvidas nesta alucinante cavalgada. Na faixa em trio, Diogo Vida revela, principalmente na exposição do próprio tema, uma bem articulada fluidez melódica e, de forma mais particular no desenvolvimento da sua improvisação, um domínio harmónico capaz de fazer inveja a muitos pianistas bem mais experientes.

Em todas as faixas em quarteto, tanto no tenor como no soprano, José Pedro Coelho apresenta-nos aquela que é até à data a sua mais brilhante prestação. É aqui também que o saxofonista mais claramente manifesta o afastamento que aos poucos tem vindo a efectuar relativamente à sua influência mais central (Mark Turner, obviamente), com isso proporcionando ao ouvinte uma abordagem mais pessoal e original do que nunca.

Filipe Teixeira e João Cunha, dois músicos que aqui tenho o prazer de pela primeira vez ouvir em disco, estão um primor em qualquer das oito faixas para as quais Diogo Vida requisitou os seus serviços, não apenas no papel de acompanhantes, mas também nas várias improvisações através das quais se vão destacando ao longo do álbum.

Chego ao final deste texto com a sensação de que poderei estar a ser demasiado “folgado” na classificação que atribuo a este disco; mas o facto é que, se lhe desse apenas 4 estrelas, ficaria com a sensação inversa de estar a ser injustamente “forreta”, o que seria bem pior, principalmente para um disco que tanto me tem acompanhado e que tanto prazer me tem dado nos últimos tempos. O certo é que ninguém quer levar estrelas para o caixão, mais ainda quando por aqui há quem bem as merece!

Paulo Barbosa