DEMIAN CABAUD
How About You?
Toneofapitch

 




José Pedro Coelho (sax tenor)
Miguel Fernández (sax tenor)
Leo Genovese (piano)
Demian Cabaud (contrabaixo)
Marcos Cavaleiro (bateria)




Depois de nos ter dado provas da sua inspiração enquanto compositor no seu álbum de estreia, Naranja, e de ter revelado uma excecional facilidade em fazer da liberdade o principal motor da sua música (o que pode ser comprovado na maior parte de Ruínas, o seu segundo disco), Demian Cabaud vem agora tornar claro que, quando a intenção é genuína e a ação é guiada pela mão da criatividade, vale a pena relembrar uma série de temas que, não por obra do acaso, se tornaram standards. Um dos motivos para o sucesso do presente How About You? reside, naturalmente, numa inspirada escolha de repertório, na qual, para além da qualidade inerente a cada um dos temas selecionados, há a louvar o contraste que se faz sentir entre a toada mais romântica e contemplativa de standards como “Come Rain or Come Shine”, “Body and Soul”, “How About You?”, ou “Laura” e a extraordinária agitação trazida por temas da pena de iconoclastas como Ornette Coleman (“Humpty Dumpty”) e Thelonious Monk (“Gallop’s Gallop”, uma composição tão raramente ouvida, mesmo na vasta discografia do seu autor), bem como pela hilariante versão em trio de “When You’re Smiling”. Mas mais importante ainda é a capacidade de Cabaud e dos seus colegas de, respeitando a estrutura básica destes temas, transfigurar a sua essência através do tipo de uma inconformidade modernista que, ironicamente, apenas músicos profundamente conhecedores da tradição são capazes de ambicionar.

Por outro lado, a alternância entre faixas em quarteto sem instrumento harmónico e outras em trio de piano, contrabaixo e bateria vem igualmente contribuir para a sensação de diversidade vivida em cada audição de um disco que, numa altura em que tantos registos perdem muito daquele que poderia ser o seu impacto por se alongarem até próximo dos 80 minutos hoje permitidos pela tecnologia do CD, me parece apresentar também o peso e a medida certa – uma duração de 42:40.

Na linha da frente dos temas em quarteto, os tenores de José Pedro Coelho e do catalão Miguel Fernández complementam-se na perfeição. Evitando os convencionais esquemas estruturais tema-solo(s)-tema e os uníssonos típicos do bop, os dois músicos preferem colocar em prática uma série de ideias frescas através do estabelecimento de um diálogo quase constante no qual se vão encadeando episódios simplesmente originais com outros absolutamente inesperados.

A qualidade das faixas que contam com a participação de Leo Genovese, é, porventura, ainda superior à das faixas em quarteto. A facilidade revelada por Genovese em percorrer, com enorme segurança e pertinência, toda a história do piano no jazz num único tema – uma característica encontrada, entre poucos outros, no enciclopédico Jaki Byard – e a energia que transborda de cada uma das suas improvisações – e o mais frequente é aqui ouvi-lo a improvisar alguma parte da melodia dos próprios temas – fazem dele um dos mais inspirados (e excêntricos) pianistas da atualidade.

O prazer de Demian Cabaud em se apresentar entre Genovese e o sempre exemplar Marcos Cavaleiro (músico com quem tem vindo a construir uma química rítmica muito especial) é por demais evidente no contagiante balanço que o seu contrabaixo confere a “When You’re Smiling” ou a “Gallop’s Gallop”, bem como na notável qualidade do seu trabalho com arco e da sua longa improvisação em pizzicato em “Body and Soul”, duas situações que, em meu entender, fazem desta versão do famoso standard um dos momentos mais altos da sua admirável carreira.

Paulo Barbosa