Carlos Martins - Água (iPlay)  

 
 
Carlos Martins (sax tenor)
Bernardo Sassetti (piano, Fender Rhodes)
Júlio Resende (piano)
André Fernandes (guitarra)
Nelson Cascais (contrabaixo, baixo eléctrico)
Alexandre Frazão (bateria)
Pacman (voz)
 
Paço d'Arcos, Maio de 2008
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
 
“O Sol Verde das Searas”, tema cuja beleza faz dispensar qualquer improvisação, funciona como uma atraente “overture” para um álbum que apresenta a música de Carlos Martins no seu mais pleno estado de maturação, posta em movimento por músicos de nível irrepreensível, que bem podem ser vistos como a nata do nosso jazz.

Bernardo Sassetti revela-se em topo de forma logo no segundo tema, tecendo, sobre o contagiante ostinato do contrabaixo de Cascais e a exposição da melodia por Martins, o tipo de motivos que contribuem para o tornar dono de uma das mais reconhecíveis e originais abordagens pianísticas da actualidade. A improvisação inaugural do álbum, pelo saxofone do líder, anuncia o elevado nível de inspiração que permeia esta sessão, o que é de seguida reforçado pela fantástica clareza do discurso improvisado de Sassetti.

Com Frazão – implacável em todo o álbum – a fazer uso do seu “tuning” dinâmico em duo com o sax, o tema seguinte poderia ter resultado num momento especial, mas, se se excluir a inexplicável participação do malogrado Pacman no final do disco (desventura da qual nem a guitarra de André Fernandes é capaz de nos salvar), acaba por representar o momento menos aliciante de toda esta colecção. Logo depois, em “Azul Mediterrâneo” (ver vídeo, abaixo), o saxofonista surge com uma intensa improvisação, seguida por um momento carregado da deslumbrante intensidade a que Fernandes já nos habituou. Oferecendo um interessante contraste com os temas em que toca Sassetti, o piano está aqui, como em quatro das restantes faixas, muito bem entregue ao mais jovem Júlio Resende – vale a pena escutá-lo bem de perto no seu original “Underwater Light”.

Em “O Princípio”, tema de lirismo deslizante, da autoria de Sassetti, o pianista, o saxofonista e o guitarrista voltam a brilhar em desafiantes trocas a três, fazendo soar como fácil aquilo que na verdade não o é.

Ainda que, particularmente na faixa-título e em “O Infante”, seja inevitável a comparação com Charles Lloyd, a originalidade de Martins, sempre assente num som nobre e grandioso, nunca chega a ser posta em causa neste disco que constitui uma das mais interessantes propostas do jazz nacional em 2008.