MÁRIO LAGINHA

Mário Laginha dos Santos nasceu no dia 25 de Abril de 1960. Aos cinco anos recebeu o seu primeiro piano vertical e nessa altura começou a ter aulas particulares, numa mistura de clássico, valsas e modinhas, sonhando com uma carreira de pianista. No entanto, o sonho tinha momentos menos agradáveis, como os recitais de sábado à tarde exigidos pela escola, perante uma plateia de familiares, amigos e professores. E foi assim que o piano passou para segundo plano na vida do rapaz, decidido então a aprender guitarra. Durante algum tempo empenhou-se no estudo desse instrumento, quase sempre sozinho, mas o apelo do piano foi mais forte e o regresso inevitável. Pelo meio, e como acontece com qualquer miúdo, ficaram as aspirações de um dia ser bombeiro, médico ou até professor de ginástica.

A paixão pelo jazz surgiu aos 17 anos de idade, quando viu um concerto do pianista Keith Jarrett na televisão. Ficou fascinado e, no dia seguinte, começou a estudar piano 8 horas por dia. Resolveu então inscrever-se no Conservatório Nacional, procurando uma formação clássica e de bases mais sólidas, tendo tido como professores Jorge Moyano e Carla Seixas. Concluiu o curso de forma brilhante, com a classificação máxima.

No sexto concurso de Braga classificou-se em 2º lugar e obteve o prémio Bach e em 1986 o prémio Teresa Vieira. Paralelamente aos estudos clássicos, continuou a dedicar-se ao jazz, estudando os grandes mestres do jazz, mas sempre sem perder de vista o génio de Keith Jarrett.

Com o Sexteto de Jazz de Lisboa tocou em inúmeros e prestigiados festivais: Edinburgh Internacional Jazz Festival, Brecon Jazz Festival, The Malting Proms, III Festival de Jazz de Macau, Bienal das Artes de Barcelona e 15º Festival de Jazz de Cascais.O Decateto Mário Laginha surgiu em 1987, ano em que foi considerado pela crítica especializada o melhor músico de jazz português, e com o qual participou no Festival “Jazz em Agosto” da Fundação Gulbenkian, com um projecto em que assinou todas as composições.

Em 1988 participou num disco de José Peixoto, intitulado El Fad. No ano seguinte foi seleccionado para a fase final do Concurso Internacional de Piano Jazz Martial Solal e em 1990, foi distinguido com os prémios de melhor composição, melhor instrumentista e melhor grupo (referente ao seu quarteto) pelo Concurso de Jazz e Música Improvisada, promovido pela Secretaria de Estado da Juventude. Mário Laginha colaborou igualmente com o grupo Ficções, tendo participado em três temas do disco “Aqua”, de 1992.

Com o pianista clássico Pedro Burmester, para além de fortes laços de amizade, Laginha mantém há vários anos uma estreita colaboração musical. Juntos realizaram alguns espectáculos em duo pelo país, tendo sido gravado o concerto realizado em Dezembro de 1993, no Centro Cultural de Belém, que deu origem ao disco “Duetos”, no qual os pianistas interpretam compositores do século XX, como Ravel, Samuel Barber e Aaron Copland.

Em 1994, surgiu o seu primeiro disco, “Hoje”, que contou com a participação de Julian Argüelles (saxofone), Sérgio Pelágio (guitarra), Bernardo Moreira (contrabaixo) e Alexandre Frazão (bateria).

Compôs para algumas curtas-metragens e para o filme “Passagem por Lisboa”, de Eduardo Geada. Escreveu música também para teatro: “Estudo para Ricardo III / Um Ensaio sobre o Poder” e "Berenice" (ambos com encenação de Carlos Pimenta e apresentados no Teatro Nacional D. Maria II). Em 2001 apresentou em estreia mundial a obra escrita para orquestra “Mãos na Pedra Olhos no Céu”, uma encomenda da Porto 2001 Capital Europeia da Cultura, apresentada na cerimónia de abertura oficial.

Em 2005 estreou “Até aos Ossos”, obra escrita para o Remix Ensemble e encomendada pela Casa da Música. Ainda como compositor, Mário Laginha tem escrito para diversas formações, como a Big Band da Rádio de Hamburgo, Orquestra Metropolitana de Lisboa, Orquestra Filarmónica de Hannover, Remix, Drumming e Orquestra Nacional do Porto.

À parte dos seus projectos individuais, Mário Laginha tem estado nos últimos 10 anos directamente ligado à carreira da cantora Maria João. Juntos formam um duo de invulgar cumplicidade que tem conquistado o seu público com momentos de verdadeira magia, emoção e energia. A primeira colaboração com Maria João data de 1983, quando ambos davam os primeiros passos profissionais no mundo da música e Laginha integrou o Quinteto de Maria João. Esta formação rendeu dois discos - Quinteto de Maria João (1983) e Cem Caminhos (1985). Em 1985, uma zanga feia levou-os a enveredar por caminhos distintos. Maria João rumou à Alemanha e Mário Laginha passou a dedicar mais atenção ao Sexteto de Jazz de Lisboa.

Os dois músicos só voltaram a encontrar-se em 1991, para a gravação do disco “Sol”, também com a participação do grupo Cal Viva. “Sol” foi editado em 1992 pela editora alemã Enja. A partir de então partilharam diversos projectos com músicos estrangeiros, até que em 1994 se aventuraram num disco em duo. “Danças” foi o primeiro disco editado pela prestigiada Verve e nele Laginha destaca-se como intérprete e compositor. O segundo trabalho com Maria João surgiu em 1996, com o disco “Fábula”, no qual colaboraram músicos de renome, como Manu Katché, Ralph Towner, Dino Saluzzi, entre outros. Laginha assinou algumas das composições e a maior parte dos arranjos do disco.

Em 1998, uma encomenda da Comissão Nacional para a Comemoração dos Descobrimentos Portugueses (CNCDP) levou o duo a embarcar numa viagem pela Índia e África. O resultado da “pesquisa” saiu no disco “Cor”, onde pela primeira vez o duo é reconhecido como tal: Maria João & Mário Laginha. “Cor” contou com a participação de Trilok Gurtu na bateria e percussão e Wolfgang Muthspiel na guitarra, sendo a totalidade das músicas da autoria de Mário Laginha e as letras de Maria João. “Lobos, Raposas e Coiotes”, gravado antes de “Cor”, foi editado em 1999 e surpreendeu pela fusão da música do duo com a Orquestra Filarmónica da Rádio de Hannover, dirigida pelo Maestro Arild Remmereitt. O disco recebeu rasgados elogios por parte da crítica e emocionou o público pela beleza e sensibilidade das composições e arranjos de Laginha na voz arrepiante de Maria João.

No ano de 2000, e em resultado de mais uma encomenda da CNCDP, Maria João e Mário Laginha lançaram o disco “Chorinho Feliz”, assinalando os 500 anos da descoberta do Brasil. No disco participaram destacados nomes do panorama musical brasileiro como Gilberto Gil, Lenine, Toninho Horta, Toninho Ferragutti, Nico Assumpção e muitos outros. Mais uma vez, todas as composições do disco são de Mário Laginha. Vivendo um momento de especial aceitação junto do público, os dois músicos juntaram-se, este ano, a Toninho Ferragutti e a Helge Norbakken (percussionista que os acompanha ao vivo desde 1999) para formarem um quarteto de nome Mumadji, que deu também origem a um disco ao vivo com o mesmo nome. O disco “Mumadji” reúne temas dos três discos anteriores dando o merecido destaque aos quatro músicos enquanto solistas. Em 2002 editam o álbum “Undercovers”, disco de versões de autores tão diversos como Sting, Björk, Caetano Veloso, U2, Tom Waits, etc, e dois anos depois “Tralha”, novamente de originais. Ambos contam com a participação de Mário Delgado, Alexandre Frazão, Yuri Daniel, Miguel Ferreira e Helge Norbakken.

Mário Laginha tem também colaborado em outros projectos, trabalhando com músicos prestigiados como Wayne Shorter, Julian e Steve Argüelles, Christof Lauer, Howard Johnson, Lou Donaldson, Al Grey, Dino Saluzi, Ralph Towner, Manu Katché, Kai Ekkart, Trilok Gurtu, Laureen Newton, entre outros.

Em 1999 tocou em duo com o pianista Bernardo Sassetti, num concerto integrado no Festival “Jazz em Agosto”. A fusão dos dois estilos e a empatia musical que os une conquistou de imediato o público e essa primeira experiência resultou em muitas mais. Desde então, têm realizado concertos um pouco por todo o país, culminando com a gravação de um disco de originais (“Mário Laginha e Bernardo Sassetti”), editado em 2003, e de “Grândolas” (2004), disco integrado na comemoração dos 30 anos do 25 de Abril. Foram ainda convidados a tocar com a Sinfonieta de Lisboa, conduzida pelo maestro Vasco Pearce de Azevedo, e Orquestra Clássica da Madeira, dirigida pelo maestro Rui Massena.

Laginha liderou também um trio do qual faziam parte Julian Argüelles (saxofone) e Helge Norbakken (percussão), com alguns concertos realizados.

Gravou o seu primeiro trabalho a solo, “Canções e Fugas”, em 2005, projecto que foi apresentado em estreia absoluta no grande auditório da Culturgest, com o qual vence o “Grande Prémio SPA-Millennium BCP” e pelo qual foi distinguido com o “Prémio Carlos Paredes 2007”.

Lidera actualmente um trio composto pelo pianista, o contrabaixista Bernardo Moreira e o baterista Alexandre Frazão, com o qual gravou já o CD “Espaço”, alvo de excelente acolhimento pela crítica. Reavivou, ainda em 2007, a sua parceria com os pianistas Bernardo Sassetti e Pedro Burmester, de onde resultou o CD/DVD “3 Pianos”.

Num contínuo processo de rejuvenescimento, integra actualmente o André Fernandes 4teto, com Nelson Cascais e Alexandre Frazão, com o qual gravou já os CD “Cubo” e "Imaginário", e colaborou, juntamente com o saxofonista e clarinetista Chris Speed, na gravação de “Baligo”, do Mikado Lab de Marco Franco, e no álbum de estreia do guitarrista Ricardo Pinheiro, que conta também com colaboração do saxofonista Chris Cheek.

Já em 2008, e em comemoração de 25 anos de carreira com Maria João, foi editado “Chocolate”, álbum que de imediato recebeu a melhor aceitação por parte da crítica, sendo frequentemente apontado como o melhor trabalho da dupla. Ainda nesse ano, tocou com Bernardo Sassetti e Camané no espectáculo "Vadios", no CCB, num espectáculo que juntou o jazz e o fado.

Com Maria João, David Linx, Diederik Wissels e a Orquestra Nacional do Porto, publicou em 2010 um trabalho de grande fôlego: "Follow the Songlines" (Naive). No mesmo ano, respondendo a um desafio colocado pelo Teatro de São Luiz e pela Orquestra Metropolitana de Lisboa, no âmbito do Festival Chopin, promovido por estas duas instituições, gravou "Mongrel", novamente com o seu trio com Bernardo Moreira e Alexandre Frazão.

Em Maio de 2011, aceitou um convite completamente diferente, desta feita vindo de Duarte Mendonça, para revisitar os clássicos do jazz no Estoril Jazz. Com o seu trio habitual, percorreu durante 90 minutos alguns dos mais célebres standards do jazz, com grande aplauso da assistência.