CARLOS BICA
+ Matéria-Prima
(Clean Feed)

António
Branco
Leonel
Santos
Manuel
Jorge Veloso
Paulo
Barbosa
Raul Vaz
Bernardo
Rui
Duarte






 

 
Figura central do jazz nacional desde há um quarto de século, Carlos Bica não pára de procurar trilhar novos caminhos para a sua música, seja renovando velhas parcerias ou encetando colaborações com músicos de outras gerações. Certa vez, em entrevista, disse-me que «todo o músico criador tem interesse em estar em permanente movimento, tem necessidade de ser constantemente surpreendido.» Carlos Bica + Matéria-Prima (certamente uma alusão ao facto de estas peças serem tomadas como materiais para elaborações ulteriores) é mais um capítulo a acrescentar a esse percurso, revisitando peças antigas e abordando alguma da obra alheia que povoa o seu imaginário, reforçando a aura imagética que sempre transpareceu da sua música.

Ao longo da carreira multidimensional do contrabaixista, compositor e arranjador sempre têm coexistido, de modo coerente e frutuoso, elementos provenientes de distintas latitudes musicais – que vão do jazz à música erudita contemporânea, passando pela música tradicional portuguesa e pelo fado – sendo difícil, muitas vezes, destrinçar o papel desempenhado por cada um deles na construção de um universo musical onde reconhecemos características muito próprias. É precisamente nessa confluência de estilos e influências – habilmente absorvidos e processados – que radica a principal mais-valia da sua obra, livre de constrangimentos.

O disco ora em mãos é composto por temas gravados ao vivo em três apresentações da formação na Culturgest, Casa da Música e Museu do Oriente, em Junho e Julho de 2008. A função inicia-se com “D.C.”, longo e arrastado blues, marcado pelas várias camadas que Mário Delgado vai tecendo, a que se vem juntar o contrabaixo, tocado com arco, com aquela leveza tão particular.

Em “Bela Senão Sem” a guitarra de certa forma evoca a sonoridade de Frank Möbus, companheiro de Bica no Trio Azul. O trompete cristalino do alemão Matthias Schriefl (alternado entre diferentes registos, como que dialogando consigo próprio) e o acordeão dolente de João Paulo (autor da peça) contribuem para a placidez das atmosferas.

Melodicamente exuberante, “Believer”, peça que dá nome a um dos melhores discos de Bica, mantém aqui as suas características essenciais, ancoradas num ostinato desenhado pelo contrabaixo, com o piano delicado de João Paulo e os voos planantes de Schriefl a motivarem atenção. “For Malena”, peça do guitarrista Marc Ribot, convoca referências latino-americanas e com o seu trompete alucinado e aquele órgão desengonçado é um dos momentos mais curiosos de todo o disco.

O lado mais lírico da música de Bica emerge mais uma vez na beleza gélida de “Iceland”. A melodia luminosa de “Canção Número Dois” antecede “Roses for You”, peça habitual nas apresentações ao vivo do contrabaixista, que ganha aqui novos e interessantes contornos.

O disco encerra com uma longa exploração do emblema maior de Ry Cooder, o tema principal da banda sonora do filme “Paris, Texas” (1984), do cineasta alemão Wim Wenders, que Bica já havia abordado a solo e no abortado projecto Contra3aixos.

Depois deste belo disco, resta-nos aguardar pelo próximo passo de um músico que nos habituou a horizontes amplos e que continua a surpreender.

António Branco












 
Matthias Schriefl | trompete, fliscórnio, melódica
João Paulo | piano, teclados, acordeão
Mário Delgado | guitarra
Carlos Bica | contrabaixo
  João Lobo | bateria



O que faz de Carlos Bica um músico absolutamente original no panorama Jazz nacional e diria mesmo internacional, é esta contaminação explícita e assumida pela pop music e os folclores exteriores ao Jazz. Não é novidade e já foi inúmeras vezes observado e escrito, também por mim, desde há muito. O que este novo disco acrescenta, esta nova formação, onde João Lobo substitui Jim Black, Mário Delgado substitui Frank Mobus, João Paulo surge nos teclados e Matthias Schriefl no trompete é, sobre uma paleta tímbrica e harmónica bastante mais generosa, uma nova roupagem para velhos hits e alguns novos temas onde Bica explora as possibilidades da nova fórmula, entre a melancolia da "Canção Número Dois", o extravagante Marc Ribot’s Cubanos Postizos "For Malena", a ternura de "Paris Texas" (Ry Cooder) ou o country de Bill Frisell mais explícito em "D.C.". Esta é uma banda perfeita como o já era o anterior Trio Azul; outra forma de Carlos Bica explorar o universo pop/folk (enfim, os universos); de, com despudor o fundir com o Jazz até já não se poder perceber onde realmente começa um e acaba outro. Esta é uma banda perfeita onde Delgado e Lobo – inevitavelmente sujeitos à comparação com os fantásticos Black e Mobus - se demonstram bastante mais que apenas eficientes, o impetuoso Schriefl revela explicitamente a feliz ascendência de Lester Bowie e o virtuoso João Paulo se parece substituir a Carlos Bica na antecipação e no entendimento da alma pop de Bica. Carlos Bica é o autor e o líder dos Matéria Prima. A Matéria Prima é a música popular do mundo, Jazz incluído.  LS



Para já não referir a adequação dos três espantosos sapatos de mulher que ilustram a capa deste objecto sonoro, julgo que, em termos puramente musicais, não se pode partir com ideias preconcebidas para a audição de qualquer disco de Carlos Bica. Quero eu dizer, excessivamente preocupados com a catalogação da música que nos espera: Jazz? Nova música? Cabaret? Schlager? Sendo certo que, vindo de onde vem (e de com quem vem), previsivelmente o jazz ou o lado mais provocante, jovial, ingénuo e aberto desse maravilhoso produto de uma tão especial Promenadenmichung que é o jazz, tal como sempre o conhecemos, terá forçosamente de estar presente, mesmo que da forma mais belamente enviezada. Ou então andamos a mentir uns aos outros! [Ainda há uns tempos, alguém se admirava de figurar aqui, em Jazz 6/6, a crítica a Disfarmer, essa maravilhosa obra-prima-não-jazz de Bill Frisell. E depois?!!!] Julgo que a compreensão e o conhecimento da cultura popular da Europa Central – e, em particular, do Schlager, que, bem vistas as coisas, alguns pontos de contacto tem com as canções mais populares a puxar ao sentimento, à bebida, à dança e, porque não dizê-lo, com uma certa e bem localizada expressão pimba (!!!) – estão admiravelmente expressos em peças de antologia como "Believer", "For Malena" ou "Iceland", na “bandalheira” de "Roses For You", nas memórias de "I Think I’ve Met You Before". Enfim, um imenso gozo cá p’ró rapaz e calorosos aplausos para os companheiros de palco de Bica, pois então! E para a súbita magestade de "Paris Texas".  MJV

Um novo disco e um novo grupo que vieram tornar ainda maior a minha admiração pela enorme sensibilidade de Carlos Bica enquanto compositor e pela sua capacidade de produzir uma música que, embora tendo no jazz o seu ponto de partida, e sendo apimentada com as doses certas de rock, de Americana e de Portugália, e aqui também de alguns aromas da música latino-americana, resulta numa estética perfeitamente consistente e original. Vários são motivos que tornam urgente a audição deste novo disco: as qualidades hipnóticas de “D.C.”, o novo tema de Bica que abre o disco, a envolvente releitura da “Canção Número Dois” – conhecida de White Works, álbum no qual João Paulo interpreta temas de Carlos Bica – e dos mais conhecidos “Believer”, “Iceland” e “I Think I’ve Met You Before”, o humorado “For Malena” (de Marc Ribot), o misterioso “Paris Texas” e um magnífico ternário da autoria de João Paulo. “Roses For You” é o único dos originais aqui revisitados que fica claramente atrás da versão pelo Trio Azul, sendo “Schlager” (qualquer coisa como pimba em alemão) a única faixa verdadeiramente dispensável naquele que é já um dos discos do ano para o jazz feito em Portugal. Paralelamente às suas prestações cada vez mais interessantes no acordeão, João Paulo continua a evidenciar o mais distinto e cristalino dos toques no grande instrumento, da mesma forma que Bica nunca deixa de emocionar (já para não falar da sua prodigiosa afinação) sempre que “ataca” com o arco as cordas do seu contrabaixo. Com uma diversidade de abordagens rítmicas perfeitamente adequadas aos diferentes contextos pelos quais o disco vai sendo percorrido, João Lobo volta a dar provas da criatividade e do bom gosto que já há algum tempo lhe vêm sendo reconhecidos. Mas é talvez, ainda assim, o guitarrista Mário Delgado, tão inventivo quanto requintado em todas as suas intervenções, quem prende a atenção durante mais tempo em todo o álbum. E embora a presença do trompetista Matthias Schriefl possa em vários temas ser sentida como um “divertimento extra”, o seu contributo é crucial para o sucesso de “For Malena” e “I Think I’ve Met You Before”.  PB



Uma inesperada surpresa para mim. A música de Bica, um excelente contrabaixista e orquestrador, sempre me soou um pouco fria na sua laboriosa feitura. Com Matéria-Prima nada disso acontece. Talvez em função da composição instrumental ou doutro conceito de Carlos Bica, este CD é uma constante festa para os ouvidos. Qualquer um, mesmo que desprovido de preparação para o jazz ou outro típo de música, reconhece-se nos sentimentos que irradiam de Matéria-Prima. Trata-se de música extremamente melódica, com uma mescla notável dos instrumentos, Carlos Bica no contrabaixo, trompete, fliscorne e melódica dum mesmo músico, Matthias Schriefel, João Paulo no piano, sintetizadores e no acordeão, Mário Delgado na guitarra e João Lobo na bateria. Fazem uma música notável, cuja originalidade está tanto na simplicidade temática, como na mistura tímbrica, para a qual todos os elementos devem ter dado o máximo da sua imaginação. Com um início avassalador com a continuidade da figura de baixo de "D.C.", os músicos encontram uma rara empatia de sons em que ou a guitarra ou o contrabaixo com arco, ou o acordeão organizam um universo sónico magnético. Um dos temas alheios, "For Malena" de Marc Ribot parece-me ser o apogeu da festa que Matéria-Prima constrói, tal como o tango "Roses For You". Uma festa que também pode acontecer na música portuguesa de jazz, do mesmo modo como Frisell sabe descobri-la no country & wetern da música rural da América.  RVB



Carlos Bica e a Matéria-Prima gravaram este CD no decorrer de alguns espectáculos realizados no ano de 2008. Trata-se de um quinteto composto por músicos de jazz nacionais de top com a inclusão do trompetista alemão Matthias Schriefl que se reuniram para este projecto de Bica. Poder-se-ia resumir a música deste projecto a um conceito de jazz universalista electro-acústico com fortes influências na música popular ligeira, onde o som da guitarra e algumas composições (“D.C.”, “Paris Texas”, por exemplo…) evocam fortemente o universo musical country de Bill Frisell mas onde cabem baladas de sabor mediterrânico com acordeão como na bela “Bela Senão Sem” de João Paulo; incursões pela electrónica quase lounge ou de inspiração nórdica como em “Believer”; bailinhos ou marchinhas com inspiração bem-humorada como em “For Malena” de Marc Ribot ou em “Roses For You”. Os melhores momentos ocorrem nos momentos mais meditativos de João Paulo ou nas intervenções muito consistentes e por vezes fortemente milesianas de Schriefl (“Iceland”) ou naquele que é, porventura, o melhor tema do CD: “I Think I’ve Met You Before”, por exemplo. Cançonetas como “Schlager” e outros momentos mais ligeiros que incluem a guitarra tremolo de Delgado eram, contudo, dispensáveis neste testemunho agradável de uma faceta do jazz de Carlos BicaRD