TORD GUSTAVSEN QUARTET
The Well
 

António Branco

Leonel Santos

Paulo Barbosa

Rui Duarte

Ivo Martins

Luís Figueiredo

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Em The Well, o pianista norueguês aparece-nos em formato renovado. Depois do fim forçado do popular trio de Tord Gustavsen, ditado pela doença e posterior falecimento do contrabaixista Harald Johnsen, o pianista baralhou e voltou a dar, e o resultado é o Tord Gustavsen Quartet, herdeiro do Tord Gustavsen Ensemble com que gravou entretanto Restored, Returned em 2009. Ao longo dos três álbuns editados pela ECM (Changing Places, The Ground e Being There), a carreira do trio ficara marcada pela sonoridade cristalina e introspectiva do norueguês e pelo ambiente (alguns diriam) distintamente escandinavo da banda.

Se este caso é um testemunho dos processos de “glocalização»” do jazz (ou seja, a sua adaptação a diferentes locais do planeta mediante condições diferenciadas), a verdade é que Gustavsen acabou por representar um certo jazz escandinavo e de alguma forma personificar o som da editora germânica. Na minha opinião, a tremenda coerência estilística da obra de Gustavsen em trio tem o senão óbvio de gerar um ambiente demasiado monocromático. A título de comentário, diga-se que é bastante interessante o trabalho do pianista nos discos da compatriota Silje Nergaard, onde a sonoridade geral é mais diversificada.

No presente disco, o saxofonista Tore Brunborg vem acrescentar diversidade tímbrica e portanto quebrar um pouco a monotonia, à semelhança do que acontecera em Restored, Returned (no ouvido fica a comparação algo óbvia com o saxofone de Jan Garbarek, outro norueguês com presença histórica no jazz “made in Scandinavia”). De resto, a música poderia ter saído de qualquer um dos discos anteriores em trio: o piano de Gustavsen é polido e económico, e a sua música harmonicamente límpida. Aqui e ali aparecem resquícios do “gospel-country-R&B” de Jarrett e até pequenos “orientalismos” denunciados pela utilização da harmonia menor harmónica. A dinâmica é maioritariamente baixa e o som geral da banda é, como habitualmente, irrepreensível. Uma nota para dar conta do bom trabalho do contrabaixista Mats Eilertsen com o arco.

Em suma, um bom disco que, à semelhança dos seus antecessores, peca por monótono.

Luís Figueiredo


Tore Brunborg (sax tenor)
Tord Gustavsen (piano)
Mats Eilertsen (contrabaixo)
Jarle Vespestad (bateria)
 


Foi com The Ground, em 2005, que o pianista norueguês Tord Gustavsen se estreou na ECM, tornando-se rapidamente num dos seus ícones, em grande medida pela sonoridade contemplativa e poética. Espécie de poesia da tundra, gélida e extática, a música de Gustavsen privilegia o silêncio e a quietude, com raros assomos de agitação. O novo disco de Gustavsen, The Well, acrescenta um saxofone ao seu trio, mas a música não mudou realmente. O saxofone acentua apenas a atmosfera hipnótica, num registo cálido e económico, muito nórdico. O piano permanece no centro, e apenas ocasionalmente o arco do contrabaixo ou o saxofone ousam intrometer-se. Música de grande beleza formal, muito contida, melódica e misteriosa.  LS



O disco começa bem, com um “Prelude” de admirável beleza e alguma emoção, e continua a ouvir-se com algum prazer na faixa seguinte – ambas as faixas em trio; quando, porém, ao fim de dois minutos e meio da terceira faixa, entra em cena o saxofone de Tore Brunborg, sentimo-nos imediatamente em maus lençóis, e é essa a cama na qual, a grande custo, somos forçados a deitar os ouvidos pela maior parte desta gravação. É inegável o relativo interesse de alguma da ação desenvolvida por Tord Gustavsen, Mats EilertsenJarle Vespestad nos momentos em que o Brunborg está ausente, mas a presença do saxofonista acaba por revelar-se mais frequente e sempre menos interessante – muitas vezes mesmo insuportavelmente melosa – do que se desejaria, a não ser que se seja um enorme apreciador da música que Jan Garbarek nos tem vindo a oferecer nas duas ou três últimas décadas. E não há forma de não reconhecer que o próprio trio perdeu pelo caminho a maior parte da dose de vitalidade e inventividade que agraciou as primeiras gravações do pianista (nas quais o contrabaixo estava a cargo do lamentavelmente falecido Harald Johnsen), bem como que a criatividade e o bom gosto de Gustavsen enquanto líder e compositor têm também vindo a esvair-se de disco para disco.  PB

Um prelúdio inicial lindíssimo cria expectativas entusiásticas para o resto desta viagem musical que o grupo nórdico de Tord Gustavsen nos apresenta em mais uma edição com a chancela da ECM. Neste caso, as expectativas saem goradas ao fim do primeiro quarto de hora de música. O trio habitual de Gustavsen, transformado em quarteto com adição do saxofonista Tore Grunborg, desenvolve a sua viagem musical dentro de um habitual balanço controlado, tendencialmente hipnótico, sugestivo de paisagens planas, tranquilas e planícies geladas, onde as melodias/melopeias se sucedem em cambiantes cromáticos ténues e esbatidos. O contrabaixo de arco e o saxofone evocativo do Garbarek dos primeiros tempos da ECM acentuam a profundidade das águas musicais deste Well. O que acaba por saturar é a monotonia da paisagem, a falta de surpresas e o embalar que convida a sonolência. Ou como um álbum de viagem muito bonito, progressivamente se vai transformando num documentário de música para adormecer adultos…  RD



Este trabalho questiona e constata a tentativa fracassada de reabilitação de um pensamento e de uma linguagem baseados no modelo esgotado das vanguardas. “O Novo” que muitos críticos, músicos e programadores procuram com uma ansiedade quase obsessiva é um conceito de significação arriscada e ambivalente. Essa elaboração subjectiva já não tem interesse. O culto da novidade é o lado mais ligeiro e acessível de todas as propagandas e das muitas apologias da diferença e da inovação que caracterizam o marketing e o consumo actuais. Hoje fala-se de um esgotamento relativo à criação contemporânea, elevando-se o novo à condição de princípio. Na música, criam-se constantemente novas formas de acção e interacção e a maneira como os músicos interpretam ou reagem ao mundo sonoro à sua disposição é reordenada. São, no fundo, novos métodos de utilizar e articular informação, actos inseridos num alargado mecanismo de transmissão cultural e artística. Há sempre um perigo simplificador, quando se colam etiquetas generalistas para distinguir determinados géneros ou tipos de jazz, ao qual acresce o facto de se passar a ideia, ligada ao carácter progressivo da era moderna, de que a cultura avança por fases num movimento linear e sequencial, num processo evolutivo facilitado pela assimilação de obras canónicas – ora, isto não é verdade.  IM