TIM BERNE
Snakeoil
 

António Branco

Leonel Santos

Paulo Barbosa

Rui Duarte

Ivo Martins

Luís Figueiredo







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O trabalho do saxofonista alto e compositor Tim Berne tem sido caracterizado pela dispersão por inúmeros projetos e formações, não raras vezes reconfigurações operadas a partir de um núcleo não muito alargado de colaboradores próximos. Não seria, pois, de estranhar que nesta sua estreia como líder para a ECM se rodeasse de alguns desses habituais consortes (penso por exemplo em Craig Taborn ou Michael Formanek). Mas a validade de grupos como Science Friction e Hard Cell parece estar a expirar e Berne chama três músicos emergentes – porém de predicados mais do que reconhecidos – com os quais se tem apresentado ao longo do último par de anos sob a designação Los Totopos: o clarinetista Oscar Noriega, o pianista Matt Mitchell e o baterista Ches Smith.

Se nos últimos anos, o saxofonista se tem dedicado particularmente à livre improvisação e a contextos mais abrasivos, a estreia na casa de Manfred Eicher alimentou fundadas expetativas sobre a forma como se encaixaria numa editora de estética tão marcada. E parece não restarem dúvidas de que há em Snakeoil dedo do fugidio alemão. Mantendo-se presentes as premissas que objetivam a sua abordagem, resulta claro que vai mais longe em termos de construções mais espaçosas e delicadas.

Berne apresenta um conjunto de peças de que avulta um notável equilíbrio entre o apurado rigor e complexidade composicionais e a liberdade e fluidez das improvisações, numa combinação de câmara que surpreende pela riqueza dos motivos, pelas longas e insinuantes melodias e pelas mudanças súbitas de atmosfera, alternando passagens dissonantes e austeras, com outras de refinado lirismo.

O sopro mais visceral e serpenteante de Berne contrasta com a abordagem mais melódica de Noriega – é evidente a química existente entre ambos em peças como “Spare Parts” e “Not Sure” – suportados pelo pianismo requintado de Mitchell (que atinge momento de verdadeiro brilhantismo, como nos instantes iniciais de “Simple City” e em “Scanners”) e pela notável prestação de Ches Smith, responsável por um trabalho textural de grande contenção.

Desde já apontado diretamente ao topo da lista dos melhores de 2012.

António Branco


Tim Berne (sax alto)
Oscar Noriega (clarinete, clarinete baixo)
Matt Mitchell (piano)
Ches Smith (bateria, percussão)



Com um longo percurso na vanguarda do Jazz, ao longo de mais de trinta anos, Tim Berne é um dos seus mais consistentes representantes. Berne surgiu na cena Jazz de New York no final dos anos 70, no crepúsculo do free-jazz. Desde muito cedo que os seus gostos musicais se revelavam bastante dispersos mas, como ele próprio revela, a música de Julius Hemphill mudou a sua orientação. Os seus discos revelam um improvisador notável e um compositor de vastos recursos. Reconhecido como um dos mais influentes representantes da downtown nova-iorquina, Berne tem o seu saxofone e a sua escrita espalhada por umas largas dezenas de discos em seu nome, como co-autor ou sideman. Na sua estreia na editora de Manfred Eicher, o saxofonista Tim Berne convocou um grupo de músicos inesperados, mesmo se tocou com todos eles e os conhece bem. O quarteto começa por surpreender pela ausência de baixo, o que lhe embute aspereza; mas também o baterista, Ches Smith, nunca se comporta como um mero marcador rítmico, e a sua atracção pela percussão nada tem de «étnico» ou colorido. Enfim, sobre uma secção rítmica incomum (com o piano de Matt Mitchell a servir com frequência mais de contraponto que complemento da bateria), estão dois sopros: o saxofone alto de Berne e os clarinetes de Óscar Noriega, um músico com um percurso atípico, entre o Jazz, o free-jazz, a música erudita, a pop e até a música folclórica das Caraíbas. Snakeoil impressiona pela consistência entre a escrita e a improvisação. Do ponto de vista da estrutura, os temas pouco possuem de convencional: eles foram concebidos como um todo recusando a fórmula tema-solo-tema. As composições incluem elementos de improvisação, que são atribuídos aos vários instrumentos de forma irregular, fazendo deslocar os elementos (visíveis) da estrutura de um para outro músico-instrumento, associando-os de forma pouco comum ou opondo-os. A improvisação entrosa a composição como raras vezes observámos, fazendo de temas como “Yeld”, “Spare Parts” ou “Scanners” verdadeiros monumentos do Jazz contemporâneo.  LS

Tim Berne é um músico que não para de crescer. Este discípulo de Julius Hemphil, pouco preocupado com a forma como a sua música se relaciona com as diferentes abordagens estilísticas de que o jazz nos últimos tempos tem sido alvo, tem-se afirmado, como líder ou em gravações para outros músicos, como uma força maior no jazz de hoje. Neste Snakeoil, estreia em nome próprio para a ECM, Berne dá continuidade a um trajeto no qual os rótulos pouco ou nada importam, reforçando o cariz original e descomprometido da música que tem para nos oferecer. O aspeto menos positivo do disco é talvez o facto de o quarteto se mostrar algo despido pela ausência de um contrabaixo, instrumento que certamente teria conferido uma maior força gravitacional e uma maior capacidade de envolvimento a uma música que pode, por vezes, soar demasiado fria e distante. Acontece também que, pela inevitável comparação com os fenomenais Jim Black e Tom Rainey, bateristas que nos últimos anos se sentaram à bateria nos grupos de Berne, a prestação de Ches Smith não me convenceu apenas parcialmente. Convenceram-me plenamente, porém, a notável comunicação entre Berne e o clarinetista Oscar Noriega e o impressionante equilíbrio entre composição e improvisação que o líder conseguiu imprimir em quase toda esta gravação. Um disco a ouvir atentamente por todos quantos possam estar interessados nas novas tendências do jazz, ou, talvez mais significativamente, na ausência delas.  PB 



T
im Berne não pertence à lista dos meus saxofonistas preferidos, o que condiciona a priori a apreciação deste seu primeiro registo, como primeiro autor, para a ECM. Berne é um saxofonista ligado às explorações mais avant-garde do jazz branco nova-iorquino e, por isso, visceralmente afastado da estética ECM, daí alguma expetativa havia acerca deste encontro entre Berne e Manfred Eicher, embora a gravação de outros seus companheiros (David Torn, Craig Taborn) para a editora já o prenunciasse. Juntou-se Berne em novo quarteto com o clarinetista Oscar Noriega, o pianista Matt Mitchell e o inventivo Ches Smith na bateria. Com a inicial “Simple City” Berne quase surpreendia numa linha intensionalmente melódica mas são as explorações e invenções livres à volta das complexas estruturas compostas por Berne que predominam. Há forma e há estrutura; há espaço livre e texturas diversas. Estamos no reino do jazz mais difícil, muitas vezes atonal, sem o balanço do contrabaixo ausente mas onde os dois sopros se misturam inteligentemente e onde Mitchell e Smith, sobretudo este, se revelam acompanhantes de grande mestria. O universo musical descomprometido de Tim Berne acaba por se enriquecer com o rigor sonoro e a contenção em estúdio nesta incursão pelo mundo da ECM. Interessante.  RD



Este trabalho relembra uma música que, na sua génese, precisou de resistir e de recusar acreditar na viabilidade das sociedades e se baseou num tempo de guerra e de agressão. Ela foi, no entanto, perdendo ao longo do tempo a sua marginalidade, sendo progressivamente integrada no sistema. A força e o reconhecimento destes factores e a sinalização de um percurso que se fez da margem para o centro favorece a utilização da música num novo contexto de centralidade como imagem libertadora de transformação – um símbolo universal orientador e pacificador. Porém, a música perdeu a dimensão de confrontação e de negação que a alimentava, actuando hoje mais como símbolo e critério de viabilidade estética do que como motor gerador de potência criativa. O Jazz perdeu, portanto, o seu ímpeto guerrilheiro na sociedade contemporânea, e esta perda gerou uma necessidade de adoptar outras estratégias de sobrevivência, destinadas a não se deixarem absorver pelo exterior. Estas estratégias compõem uma nova narrativa fundada nas ideias do trajecto, da viagem, do vaguear, dos encontros e do acaso de cada caso e remetem-nos para o velho mito do segredo e do mistério – momentos que fazem parte desse imaginário secreto do poder e da liberdade, condensados na imagem do homem solitário e ao mesmo tempo mundano.  IM