KEITH JARRETT
Rio
 

António Branco

Leonel Santos

Paulo Barbosa

Rui Duarte

Ivo Martins

Luís Figueiredo

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A lendária capacidade de Keith Jarrett para a improvisação livre está documentada em concertos a solo que com o tempo se tornaram referências míticas, como Köln Concert (1975), Sun Bear Concerts (1976), Paris Concert (1988), Vienna Concert (1991) ou La Scala (1996). Paralelamente à sua produção extraordinária enquanto compositor (nomeadamente à frente do Quarteto Americano e do Quarteto Europeu) e enquanto intérprete (o Standards Trio vem imediatamente à memória), o Jarrett improvisador free form marcou a história da música do séc. XX e deu expressão maior ao formato de improvisação livre. Aquilo que sempre me impressionou mais nestes registos foi a capacidade que Jarrett tem de assumir a ideia de tabula rasa e construir a partir daí um discurso musical que tem sempre (sempre!) significado. As longas improvisações, frequentemente atingindo os quarenta minutos de duração, davam a ideia de levar o impulso criativo às últimas consequências, como um gigantesco fôlego que só termina quando nada mais há a dizer.

Foi, por isso, com algum desapontamento que recebi a mais recente fase nos registos de Jarrett a solo, iniciada em 2002 com Radiance. Muito provavelmente por motivos relacionados com o estado de saúde do pianista, as longas improvisações foram abandonadas e substituídas por trechos mais episódicos. Esta tendência repetiu-se no concerto do Carnegie Hall (2005) e no álbum triplo Testament, registo dos concertos de Paris e Londres (2008). Porventura mais importante do que esta mudança, notou-se também uma inclinação maior para a linguagem atonal, sugerindo que o pianista poderia já ter perdido alguma motivação para improvisar sobre estruturas tonais, progressões harmónicas, grooves, etc. Na minha opinião esta opção afastou-o um pouco do universo profundamente sensorial que ele construiu e que tanto me dizia.

Neste contexto, Rio é um álbum admirável: fresco, vibrante e imaginativo. Claramente mais interessante que os seus antecessores recentes, combina ambientes e vocabulários distintos e arrebata o público brasileiro. Tem passagens monumentais e, em certos momentos, chega a ser festivo como há muito não acontecia – terá isto a ver com o próprio Rio de Janeiro? Num apontamento quase humorístico, Jarrett introduz até uma referência ao blues que aparece no final do Paris Concert, reproduzindo um ostinato muito semelhante (Pt. 11). Contudo, confesso que não me apaga a saudade de outros discos, outras improvisações, outros tempos em que me parece que a música atingia uma densidade verdadeiramente transcendente.

Numa altura em que se comemoram 40 anos sobre a edição de Facing You (primeiro disco a solo de Jarrett e seu primeiro disco na ECM), esta audição ganha significado redobrado. Jarrett é sempre brilhante, disso não há dúvidas. Mas também é verdade que há momentos da sua música que me abalam profundamente, enquanto outros apenas me deixam pasmado.

Luís Figueiredo


Keith Jarrett (piano)



Não será a primeira vez que lemos na imprensa "mais um!", a propósito do lançamento de um novo disco de Keith Jarrett. E no entanto não deixa de ser com ansiedade que o esperamos e não é sem surpresa que vemos como Jarrett persiste em adiar o fim de uma fórmula, sempre de forma brilhante, como se de uma fonte inesgotável de energia e inspiração se alimentasse. Keith Jarrett é um fantástico improvisador, mas talvez se deva fazer notar que é preciso mais do que técnica para que a improvisação faça sentido (quero dizer, pelo menos no Jazz). Ora se Jarrett é reconhecido como um dos pianistas mais dotados tecnicamente da História do Jazz, o que faz a diferença no genial pianista é a personalidade simultaneamente frágil e esfusiante de criatividade e uma inteligência que tem tanto de perturbação e desordem, quanto de rigor matemático. Quantas vezes nos deixámos enlear numa ou noutra versão dos standards, quantas vezes nos deslumbrámos com as soluções de Jarrett na recriação das velhas canções do cancioneiro americano. Uma das facetas mais controversas de Jarrett é o que aparenta ser uma personalidade múltipla, qual Jeckill-Hyde, que assume quando interpreta standards (com o trio, com DeJohnette e Peacock) ou quando toca a solo, e que divide não poucos apaixonados do Jazz. Apresentei há alguns anos Testament, disco a solo gravado ao vivo entre Paris e Londres no final de 2008, como uma sinopse do passado, registo ao mesmo tempo sintético e luxuriante, assumidamente testamento de um singular percurso que começou com Facing You em 1972. O primeiro tema de Rio marca desde logo a diferença com Testament, num registo que evoca Cecil Taylor na forma percussiva de atacar as teclas, na vertigem, nas súbitas alterações na métrica, mas também nas harmonias abstractas e na atonalidade. "Rio pt.2" (todos os temas são simplesmente numerados, de 1 a 15) traz consigo o silêncio e uma vaga melodia que nos escapa em melancolia, mas o terceiro tema é já o Jarrett que se tornou famoso em The Köln Concert, nas repetições obsessivas e no uso peculiar dos graves. Menos surpreendente, mas ainda assim digna de nota, é o classicismo de algumas peças, dir-se-iam inspirados nos nocturnos de Mozart ou Chopin nos harmónicos rendilhados, sugerindo uma outra hipótese de caminho. No resto, Rio é um Jarrett inteiro, as melodias circulares, as quase-canções, os ostinatos, um boogie-woogie!, a poesia, as ambiências hipnóticas, e enfim as vocalizações estranhas. Menos homogéneo que Testament, Rio, que lhe sucede (como disco a solo, gravado ao vivo no Rio de Janeiro em 2011), é por um lado uma continuidade desse caminho percorrido para aí chegar (e, nesse sentido, eterno e fascinante), mas ele parece colocar também algumas interrogações e apontar novas direcções que apenas o tempo poderá confirmar.  LS
Acerca de Keith Jarrett já quase todos falámos ou escrevemos até à exaustão. Quando temos a oportunidade de acompanhar a contemporaneidade de um génio artístico, as palavras vão faltando para adjetivar o músico e a sua obra. Mas a realidade da sua produção musical periódica e regular, quer no formato em trio com os seus companheiros habituais do seu Standards Trio, quer a solo, leva a que seja recorrente termos que falar da sua obra. Ora, este Rio, gravado ao vivo em Concerto no Rio de Janeiro e que celebra os 40 anos de carreira do músico na editora ECM é um novo marco da discografia do genial músico. Isto, porque é um Jarrett apaixonado, irradiando felicidade e serenidade aquele que absorve as suas habituais deambulações introspectivas e explorações improvisadas ao longo de mais de hora e meia de música total. O confronto entre o homem e a sua alma através da música que Jarrett arranca das teclas do piano é, em Rio, progressivamente substituído pela contemplação extática de motivos de grande beleza e melodias intensas que se complementam numa escalada emocional. Jarrett confessa que raramente se sentiu tão feliz ou realizado após um concerto como em Rio. A inspiração quente e extrovertida do Brasil e o seu relacionamento apaixonado com a sua nova companheira de origem asiática proporcionaram um concerto luminoso com momentos de uma beleza que chega a doer e as improvisações abstratas foram-se fundindo em novas canções e breves sonatas clássicas. Uma obra-prima mais na carreira de Jarrett. Dispensáveis estão, apenas, os frequentes aplausos de um público encantado. Belíssimo.  RD



A
tribuir pontuação máxima a três dos seis discos aqui em recensão é uma situação que não deixa de ter o seu quê de extravagante, mas que outra coisa se poderia fazer quando nos deparamos com mais um recital a solo por um dos maiores pianistas de sempre, em grande forma e com um nível de entrega emocional a cada nota que toca superior à de qualquer outro mortal? Ainda que se possa preferir o anterior registo a solo de Keith Jarrett – o assombroso Testament –, o concerto registado neste duplo CD resultou de forma sublime. Como tem algumas vezes acontecido ao longo sua carreira, Jarrett consegue fazer da adversidade – neste caso, tal como como se verificara no genial The Köln Concert, um piano em condições algo questionáveis – um estímulo acrescido para a sua inesgotável criatividade. É como se Jarrett tentasse colmatar as imperfeições do piano que teve ao seu dispor através de uma total entrega ao momento, aliando-se ao instrumento com toda a força do seu ser musical. O pianista consegue, a partir do nada – o que aqui se passa é, por definição, improvisação livre, na qual Jarrett se senta ao piano e toca o que lhe vai atravessando a alma – criar música perfeita e brilhante como cristal, tão emocionalmente intensa quanto tecnicamente perplexante. A primeira das quinze improvisações que aqui podem ser ouvidas, que me soa como uma forma de aquecimento e acomodação às características do instrumento, a oitava, a décima quarta (duas “canções” tingidas de folk que ficam aquém de momentos semelhantes no referido The Köln Concert) e a décima primeira (um blues que não chega a conduzir-nos a nenhum destino particularmente interessante) constituem as faixas que, ainda assim, menos me agradaram nesta hora e meia de música, mas não deixariam de constituir, se nas mãos de qualquer outro pianista, quatro episódios musicais de notável inspiração. De resto, tudo o que aqui se ouve é um paraíso para o piano, para o jazz e para a música em geral. Um disco sublime por um dos mais fascinantes músicos de todos os tempos.  PB



Este trabalho tece um fio condutor de memória que se nos dirige como se existisse a mesma narrativa incessantemente repetida, numa estranha sensação de viagem temporal – uma navegação interpessoal por um labirinto intimista, onde cada corredor se transforma numa versão sempre diferente da anterior. Olhando para todas as formas atravessadas pelo conhecimento e pela informação, adquire-se a consciência de que tudo o que se descobre provém de forma inclusa do imenso terreno da vida vivida por cada indivíduo, assim como de um impulso de recriação de um mundo interior…  IM