ENRICO RAVA QUINTET
Tribe
 

António Branco

Leonel Santos

Paulo Barbosa

Rui Duarte

Ivo Martins

Luís Figueiredo

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Tribe é uma obra de grande fôlego e um atestado à inesgotável inspiração do grande trompetista italiano. Toda a música que aqui se ouve é marcada por uma beleza indescritível e, ao mesmo tempo, por uma criatividade que, sendo uma das principais características de toda a carreira de Enrico Rava, nos surge aqui renovada, não apenas pela vontade do trompetista, mas também pela de cada um dos músicos que o acompanham neste novo grupo. Tribe é um disco de tal forma bem-conseguido que me leva a questionar-me sobre quantos outros músicos terão gravado um dos seus melhores discos ao fim de quatro décadas de carreira.

O ambiente do disco é, como tão bem serve ao próprio Rava, predominantemente lírico, mas frequentemente assaltado por surpreendentes surtos de liberdade expressiva, grande parte dos quais da responsabilidade do próprio trompetista. Rava continua a impressionar, porventura cada vez mais, pela sua capacidade de fazer crescer a temperatura de um solo até à explosão de notas agudas nas quais por vezes se torna difícil de acreditar. Cada improvisação de Rava corresponde, por isso mesmo, a uma escalada musical que atinge níveis de intensidade que, à partida, o ouvinte dificilmente poderia prever.

A notável empatia que ao longo dos últimos anos se vem gerando entre Rava e o jovem Giovanni Guidi atinge aqui o seu ponto mais alto; esta é, aliás, a melhor prestação do pianista até à data e a prova acabada de que nos encontramos perante um dos mais interessantes pianistas europeus dos últimos tempos.

Digna de nota é também a facilidade com que o veterano Fabrizio Sferra lida com a modernidade rítmica imposta pelo líder na maior parte desta gravação. É impressionante a forma como, estranhamente, o baterista imprime um ilusório ritmo de balada aos rubatos que caracterizam grande parte do álbum.

É isso mesmo que se vive nas duas primeiras faixas, a elas se seguindo o mais agitado “Choctaw” e o mais experimental “Incognito”, a faixa mais longa do álbum, com muito espaço para deixar brilhar também o trombonista Gianluca Petrella, um parceiro ideal para a linha da frente nos mais recentes grupos do trompetista.

Com Petrella novamente na ribalta, “Cornettology” (originalmente apresentado no álbum Tati, em trio com Paul Motian e Stefano Bollani) faz, como se perceberá pelo seu título, alusão à música de Ornette Coleman e ao cornetim do seu parceiro Don Cherry; poderia, por isso mesmo, constituir a faixa menos original do disco, mas resulta da melhor forma exatamente porque Rava soube evitar a tentação de banalidade que poderia advir da explícita citação de qualquer material composto por Ornette.

“F. Express”, o tema que se segue, é um momento de rara beleza, uma delícia à qual é impossível ficar indiferente; ao fim de dois minutos da sua duração, Rava leva-nos a viajar na estratosfera, altura à qual o desconhecido Giacomo Ancillotto nos presenteia com um solo de guitarra deliciosamente perverso, mais próximo da fase psicadélica dos Pink Floyd do que do universo do jazz – um momento tão inesperado quanto inesquecível, que pede repetidos rewinds. É ainda aqui, bem como na faixa seguinte – “Tears for Neda” –, que o pianista melhor justifica tudo o que dele acima disse.

E a verdade é que a qualidade nunca decai até ao final do disco, antes do qual vale a pena ouvir com muita atenção a faixa que lhe deu nome, um remake de um tema que originalmente surgira a abrir o já clássico The Plot, gravação de 1976 que se seguiu ao (ainda mais clássico) The Pilgrim and the Stars na discografia do trompetista para a ECM. É louvável que, 35 anos mais tarde, Rava nos venha apresentar um dos grandes discos de 2011 exatamente na editora de Manfred Eicher.

Paulo Barbosa


Enrico Rava (trompete)
Gianluca Petrella (trombone)
Giovanni Guidi (piano)
Gabriele Evangelista (contrabaixo)
Fabrizio Sferra (bateria)
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Giacomo Ancillotto (guitarra)



Tribe é o título do CD ECM 2011 de Enrico Rava, mas é também o adjectivo adequado para o quinteto/ sexteto que o gravou. Exemplar na coesão (como o são, por regra, os grupos de Rava), Tribe é um modelo também de coerência na procura de um caminho. Doze dos treze temas de Tribe são de Rava (e apenas “Improvisation” pertence ao colectivo), sendo que mais de metade são revisitações de composições editadas ao longo dos mais de cinquenta anos de actividade musical do trompetista. Longe vão os tempos do free-jazz ou da vanguarda do Jazz. De há muito que Enrico Rava persegue um modelo de beleza «capaz de fazer as pessoas felizes», como me disse um dia. Verdadeira instituição do Jazz europeu, Enrico Rava fez em Tribe um dos seus mais belos discos de sempre, pleno de lirismo e inspiração. Beleza melancólica, invernia, presente mesmo nos tempos mais rápidos, por um grupo onde ressalta a consistência e a comunhão de ideais (melódicos).  LS



A nova tribo de Enrico Rava inclui dois grandes jovens músicos italianos consagrados pelo próprio Rava, o fulgurante Gianluca Petrella no trombone e o excelente Giovanni Guidi no piano e, ainda, uma nova secção rítmica como sempre eficaz e promissora. Em Tribe mantêm-se todos os atributos dos mais recentes trabalhos de Rava. A sonoridade, a ambiência, a ressonância, o lirismo e a dose certa de loucura imprevista. Rava conseguiu criar um som próprio individual e de conjunto nesta sua fase de maturidade como trompetista e compositor no seu regresso à ECM. Como curiosidade, o regresso a algumas composições antigas de Rava e a presença de um sexto elemento, o guitarrista Giacomo Ancilloto, discreto mas afirmativo harmonicista em 4 temas tecendo belas teias sonoras com Guidi. Tribe é mais um brilhante capítulo na bela história do jazz de Rava.  RD




Desde o seu regresso à editora germânica ECM em 2004 após 26 anos de separação, Enrico Rava produziu seis discos. Exceptuando The Third Man (2007), em duo com o pianista compatriota Stefano Bollani, e Tati (com o mesmo Bollani e Paul Motian), falamos de discos em ensemble mais alargado. Dessa lista, este Tribe parece ser o mais interessante e mais bem conseguido. À semelhança de vários outros projectos no passado, Rava mantém uma relação simbiótica com o trombonista Gianluca Petrella, formando um eixo central do ensemble à volta do qual tudo flui. Mas há que referir a notável maturidade de uma secção rítmica surpreendentemente jovem que inclui o pianista Giovanni Guidi, encarregue da difícil tarefa de substituir o singular Bollani. Em quatro das faixas do disco, o quinteto transforma-se em sexteto com a presença do guitarrista Giacomo Ancillotto, aqui e ali a fazer lembrar o icónico Bill Frisell. A música de Rava soa livre sem precisar de ser free. É fluida e profundamente comunicativa, e recorre sem receios tanto a harmonias claras como à improvisação livre, tanto a swing como ao rubato em tempo aberto. O próprio músico afirmou numa entrevista sentir-se mais livre nesta altura do que na década de ‘60, quando estava mais comprometido com a estética free. Essa liberdade é aqui evidente porque se trata de uma liberdade real na escolha dos recursos utilizados. Há espaço para o caos e para a violência mas também para o lirismo. Isto é claro, por exemplo, na faixa “Cornettology”, que já ouvíramos em Tati: a banda insinua um swing rápido ao mesmo tempo que desenvolve improvisações sobre um tempo rubato, concluindo o tema com uma melodia profundamente lírica e marcadamente tonal. Rava tem sabido amadurecer e rejuvenescer ao longo das suas (mais de) quatro décadas de carreira, e presenteia-nos agora com um belo disco: intenso, diversificado e lírico.  LF



Este trabalho enuncia que a sociedade pós-moderna caracteriza-se pela dissolução dos tradicionais corpos sociais e fomenta o aparecimento de diferenças internas, tornando-as mais evidentes. Enquanto, paradoxalmente, os modernistas queriam proteger ou ressuscitar os corpos sociais tradicionais, os pós-modernos aceitam e celebram a dissolução e a fragmentação das identidades (o povo) e das uniformidades colectivas (as massas). A evocação revivalista deste tipo de formações sociais do passado constitui-se como uma elaboração nostálgica, projectada perante a ameaça de uma sociedade individualista fragmentada. Há um tom analogamente saudosista e deslocado nas evocações de um certo género de Jazz intimista e mais livre, quando a música parte em busca de novas formas e se sobrepõe a todos os outros géneros, apontando para a inexistência de hierarquizações de valores que, como acabamos de referir, não têm actualmente fundamento. A pós-modernidade revela o momento final das grandes narrativas populares e dos grandes projectos massificadores, identificados em inúmeros sintomas de derrota, visíveis nas formas de organização centralizada. O jazz remete para um espaço de organização em rede que desagrega as relações de autoridade, transformando-as em relações de colaboração. Quando nos afastamos desta maneira de entender os fenómenos musicais contemporâneos, sentimos uma manifesta incapacidade de anteciparmos as formas musicais do devir.  IM