CRAIG TABORN
Avenging Angel
 

António Branco

Leonel Santos

Paulo Barbosa

Rui Duarte

Ivo Martins

Luís Figueiredo















Música absoluta e dificilmente categorizável, tocada no mais completo dos instrumentos por um dos mais completos e versáteis pianistas da atualidade. Para a gravação deste seu primeiro registo a solo, que é também a sua estreia como líder no catálogo da ECM, Craig Taborn parece ter feito um reset de (quase) tudo o que sabia e de tudo o que antes havia tocado para se dedicar a uma intensa exploração das possibilidades oferecidas por um piano (em excelente estado e magnificamente captado, como ninguém melhor do que Manfred Eicher sabe garantir).

A música daí resultante move-se, de faixa para faixa, em sentidos contrastantes, ora mais enérgicos (“Glossolalia”), quando não mesmo alucinantes (“Gift Horse / Over The Water” “Spirit Hard Knock”, “Neither-Nor”), ora mais meditativos (“Diamond Turning Dream”, “True Life Near”, “Forgetful”) ou enigmáticos (“A Difficult Thing Said Simply”, “This Voice Says So”).

Num caso ou noutro, Taborn percorre com uma impressionante fluidez um território musical altamente original e traçado de acordo com conceitos rítmicos e harmónicos que pouco ou nada devem a estruturas típicas do jazz ou de qualquer outro género musical, se bem que possam episodicamente emergir, de forma mais ou menos explícita, memórias de Gyorgy Ligeti e dos seus estudos para piano, bem como ainda, bastante mais dissimuladas, de Keith Jarrett, Paul Bley ou de Thelonious Monk e, por esta última via, de toda a tradição do piano stride e boogie woogie.

Se o percurso de crescente qualidade até então efetuado por Craig Taborn vinha tornando cada vez mais clara, para mim, a sua posição como um dos grandes pianistas da atualidade, Avenging Angel veio constituir, de forma mais alternativa do que complementar ao restante do seu trabalho, a prova inequívoca disso mesmo.

Há grandes discos perante os quais o escriba pode confrontar-se com algumas dúvidas entre a classificação de cinco estrelas ou de quatro estrelas e meia, o tipo de hesitação pela qual confesso ter passado relativamente ao disco de Keith Jarrett de que nestas páginas se fala; Avenging Angel é, no entanto, uma gravação na qual todas as faixas, sem exceção, são merecedoras de uma classificação máxima, não restando, por isso, qualquer dúvida quanto ao valor global do álbum. Quanto mais se ouve certos discos, mais deles vamos gostando; quanto mais se ouve este, mais nele vamos ficando viciados.

Paulo Barbosa



Atalhemos para o essencial: revelador de um universo musical muito próprio, Avenging Angel é um disco espantoso. Não é novidade para ninguém que o seu criador é, há década e meia, um dos mais decisivos pianistas do jazz do nosso tempo, com um percurso muito abrangente do ponto de vista estético e verdadeiramente esmagador, qualitativa e quantitativamente. Nesta sua estreia a solo e enquanto líder para a ECM – etiqueta, ela própria, de tão forte marca identitária –, e sendo certo que a sua base temática é o jazz, Craig Taborn põe à prova os seus próprios limites e vai mais além na sua idiossincrática arte, brindando o ouvinte com uma música emocionalmente ampla, tão enternecedora quanto inquietante, ora fluida ora densificando-se, de luz e sombra, que guinda o músico ao restrito núcleo dos maiores do género. Seja explorando recantos e detalhes, trabalhando os motivos mais simples ou as estruturas mas complexas, Taborn deixa claro um virtuosismo consequente, um pianismo espaçoso e intensamente delicado (delicadamente intenso também é válido) e uma liberdade de pensamento apenas ao alcance dos melhores. Atente-se na cascata de notas que se desprendem em “Glossolalia”, no refinamento elegante de “The Voice Says So”, na beleza inacreditável de “True Life Near” ou no borbulhante “Spirit Hard Knock”. Termino como comecei, permitindo-me apenas alterar a adjetivação. Magnífico.  AB


Craig Taborn (piano)



Creio que a primeira vez que ouvi falar de Craig Taborn terá sido pela sua participação no quarteto de James Carter em Jurassic Classics; grupo que viria a Cascais, ao Estoril Jazz de 1995. Concerto fabuloso esse, com todo o grupo a tocar no máximo; máximo de energia, máximo de velocidade, máximo de virtuosismo. Mas para quem esperava de Craig Taborn uma história mais ou menos mainstream (que esse combo sugeria), o percurso do pianista haveria de desmentir e o grupo que se apresentou no Jazz em Agosto de 2006 dificilmente poderia ser confundido com o grupo de Carter. Como músico de Jazz, Taborn descende dos pianistas de culto dos anos 60 e 70 como Lennie Tristano e Paul Bley, mas a sua música deve igualmente muito à música erudita, como o revelam por exemplo a utilização do silêncio ou as intrincadas harmonias de algumas das peças. Avenging Angel, apresentação a solo, gravada nas melhores condições na sala de recitais de Lugano do RSI Studio, com um Steinway fantástico, pelos melhores técnicos de Manfred Eicher, é a peça que faltava no currículo de Craig Taborn, e creio que não exagerarei se disser que ele será nos próximos anos uma referência do piano. Avenging Angel é constituído por treze peças, treze improvisações, notáveis pela consistência, pela criatividade e pela erudição. Música angulosa, raramente melódica, harmonias insólitas, silêncio nunca antes ouvido, estruturas vagas sucedendo-se a ritmos obsessivos ou turbilhões de notas, insuportáveis de violência. Em peças de especial dificuldade de execução como “Gift Horse/ Over The Water”, “Neither-Nor” ou “Avenging Angel”, Taborn revela-se um pianista ambidextro, enquanto noutras como “This Voice Says So” ou “Diamond Turning Dream” ao silêncio, insuportável, sucedem-se notas disparadas como setas. Enfim, “Forgetful” é a derradeira "canção".  LS



O que torna intrigante este registo de Craig Taborn não é o facto de ser uma gravação para a ECM, espécie de Olimpo dos deuses do piano-solo, mas o facto de Taborn, mestre incontestável de várias abordagens dos teclados, espírito inquieto e inventivo, participante em diversos projectos jazzísticos de qualidade, ter optado em Avenging Angel por um registo profundamente introspectivo e contemplativo, atreveria mesmo a dizer, europeizado e erudito e, por isso, muito afastado das suas raízes afro-americanas. Está o jazz, contudo, presente na improvisação, na técnica exuberante, no domínio dos diferentes estilos pianísticos e na abordagem exploratória dos sons e do teclado de Taborn. São intensas as explorações dos silêncios e das temáticas em contraponto, as cascatas sonoras e os tons pastorais. Evitam-se as repetições e cadeias rítmicas em contraste com uma multitude de harmonias complexas e sequências melódicas inesperadas. Taborn parece, frequentemente, fascinado e envolto na extraordinária acústica da sala de gravação. Trata-se, sem dúvida, de um trabalho pianista a solo fascinante. Quanto ao resultado final, falta, na minha perspetiva, algum espaço para as linhas melódicas e para o compasso do ritmo. Convencionalismos, talvez…  RD
Para mim (e suponho que para a maioria dos ouvintes), Craig Taborn está associado a uma quantidade monumental de registos discográficos, integrando-se em variadíssimos contextos estéticos ao comando de diversos teclados. Dos experimentalismos de David Torn com Tim Berne e Tom Rainey aos projectos liderados pelos saxofonistas James Carter e, mais tarde, Chris Potter (em que o seu rhodes cumpre também a função do baixo), Taborn demonstrou há muito ser um músico de difícil catalogação e com poucas fronteiras estilísticas. No entanto, ao piano a sua musicalidade parece revelar-se de forma particularmente impressionante. O seu trio (sobretudo em Light Made Lighter, com os talentosíssimos Chris Lightcap e Gerald Cleaver) exibe uma fluidez notável e uma criatividade avassaladora. Este Avenging Angel, estreia do pianista a solo na ECM, apresenta-nos um músico com grande domínio do instrumento e uma invulgar capacidade de explosão criativa. O seu controlo dinâmico é notável (oiça-se, por exemplo, a faixa “This Voice Says So”) e é impressionante a facilidade com que explora ostinatos e motivos repetidos que aparecem como que surgidos do nada. Em toda a viagem narrada ao longo do disco, Taborn mostra-se extremamente à vontade com a improvisação livre: a sua linguagem é profundamente original e fresca, num contínuo fluxo de ideias que fazem uso de toda a extensão do teclado e alternam entre contenção e explosão. Parece claro que o pianista adoptou um registo muito particular para este registo a solo: de uma forma geral, a sua abordagem é menos groovy do que outros registos que lhe conhecemos, e a sonoridade geral mais reflexiva. Contribui para este efeito a magnífica acústica do auditório de Lugano onde teve lugar a gravação. Taborn assina aqui um grande disco, digno representante da prestigiada tradição de pianistas ECM que conta com nomes como Paul Bley, John Taylor, Stefano Bollani ou o incontornável Keith Jarrett.  LF



Este trabalho faz-nos reflectir sobre nos nossos dias, nos quais o conceito de jazz tornou-se demasiado estreito para dar conta de todos os seus fenómenos – como sucede com variadíssimos conceitos complexos, a sua amplitude acaba por mascarar a realidade e, quando o tentamos definir, somos confrontados com inúmeras excepções, casos que apenas abarcam alguns dos seus critérios enunciados e não abrangem todos os atributos estabelecidos para a sua inequívoca classificação. Este problema leva a afirmar que para se produzir juízos de valor sobre o jazz é necessário encontrar um limiar mínimo de identificação, forçosamente arbitrário. Nesta tabela imaginária de classificações o free-jazz é, ao contrário do senso comum, mais convencional e pró-tradicional do que aparenta. As diferenças entre os vários tipos de jazz operam-se segundo convenções distintas das do jazz clássico considerado como cânone, libertando-se da cadência do fraseado e do ritmo forte, marcado por compassos definidos do swing, por exemplo. No fundo o jazz, o free-jazz e os outros tipos mais recentes desta música não têm a radicalidade que muitas vezes lhes é atribuída, quando comparados com outras experiências musicais do início do século XX, como as de Charles Ives, Harry Partch ou de John Cage. Estes músicos compunham o som no limite da sua executabilidade e possibilidade de difusão – usavam instrumentos preparados e inventados, partituras com anotações exteriores à própria linguagem musical, atingindo níveis de abstracção e graus de emoção muito fortes, coisas verdadeiramente inovadoras que aumentaram a amplitude da sua expressão artística.  IM