Lourinhã História


 

Das Origens à Idade Média

           O território da Lourinhã foi habitado desde os tempos pré-históricos. O espólio recolhido no Museu do GEAL, testemunha a presença humana na região desde o Paleolítico (estações de superfície ao longo da costa), passando pelo Neolítico (grutas do planalto da Cesareda e Cova da Moura, Ribamar) e pelo Calcolítico (Tholos de Paimogo).

            Vagas sucessivas de povos vão, entretanto, deixando marcas da sua passagem pela região até que, em 220 a.C., chegam os romanos, cuja acção civilizadora moldou definitivamente o modo de vida das populações. Segundo alguns autores, o topónimo de Lourinhã, teria tido origem numa vila romana – “Laurinianum”, existente nas proximidades. Para outros o nome da Lourinhã poderia derivar da palavra latina “Laurius – Laurii”, que significa loureiro ou terra onde existem loureiros, árvore abundante na região.

            Depois dos romanos vieram os povos germânicos (vândalos, alanos, suevos e visigodos), tendo estes últimos submetido toda a Península Ibérica ao seu domínio, no ano de 585 e procedido à sua cristianização após a sua conversão de Recaredo ao Cristianismo. Em 711, dá-se a invasão árabe e em pouco tempo, os árabes conquistam toda a Península Ibérica, à excepção das montanhas das Astúrias, a partir das quais, os cristãos, aí refugiados, iniciam o movimento da Reconquista Cristã.

            É neste contexto que surgem os reinos cristãos da península, entre os quais Portugal (século XII), após vários séculos de luta contra os muçulmanos. Na sequência da ajuda prestada pelos cruzados na conquista da cidade de Lisboa aos mouros, em 1147, D. Afonso Henriques doa o senhorio da Lourinhã a D. Jordão*, cavaleiro franco. Este, com autorização do rei, concede aos moradores da Lourinhã uma uma carta de foral provavelmente em 1160 (o documento original perdeu-se). O foral foi depois confirmado por D. Afonso II, em 1218 e por D. Afonso III, em 1251. Com a reforma dos forais ordenada por D. Manuel I, a Lourinhã recebe um novo foral datado de 1 de Junho de 1512.

            O senhorio da Lourinhã manteve-se, durante a 1ª dinastia, na linha de sucessão de D. Jordão, 1º donatário da Lourinhã, até que o último dos seus descendentes, Gonçalo Vasques de Azevedo, vê-se desapossado de todos os seus bens e senhorios por ter tomado o partido de Castela, na crise política de 1383-85. Pelos serviços prestados ao Mestre de Aviz na referida crise, D. Lourenço Vicente arcebispo de Braga e natural da Lourinhã, recebe o senhorio da vila a 10 de Outubro e 1384, o mesmo acontecendo com o Dr. João das Regras* (carta emitida por D. João I), a 29 de Maio de 1396.

 Maria dos Anjos Luís

Bibliografia

- CIPRIANO, Rui Marques, «Origens», «Donatários», «Forais», Vamos Falar da Lourinhã, Lourinhã, ed,ª Câmara Municipal da Lourinhã, [2001], pp.11-55.

- PEREIRA, Mário Baptista, «I- O Senhorio da Lourinhã nas Quatro Dinastias»,Lourinhã – Contribuições para a sua História, Lourinhã, ed,ª Câmara Municipal da Lourinhã, [1987], pp.9-34.

- SILVA, Manuela Santos, «Os Finais de uma Época: A dos Senhorios do Pós Reconquista», Turres Veteras I – Actas de História Medieval, Torres Vedras, Câmara Municipal de Torres Vedras, [2000], pp. 37-46.

 

 * D. Jordão

  Desenho do brasão de D. Jordão - Rafael Ferreira

D. Jordão era um fidalgo francês que integrou a Segunda Cruzada à Terra Santa.

Tornou-se, por virtude da sua ajuda a D. Afonso Henriques, na tomada de Lisboa aos Mouros, em 1147, o primeiro senhor da Lourinhã, a que deu foral em 1158, com devida autorização de D. Afonso Henriques, confirmada depois por meio de carta, em Março de 1160. Foi com esta que se consolidou a Autonomia Municipal da Lourinhã.

A partir da doação D. Jordão torna-se o primeiro donatário da Lourinhã.

 

D. Jordão pertencia à nobreza, sendo filho segundo e era, muito provavelmente, originário da Aquitânia, região que ficava entre os Pirinéus, as Savenas, o Rio Loir e o mar, uma das três grandes divisões existentes na Gália, quando da conquista romana.

 

Na Igreja de Santa Maria, Matriz da Lourinhã, existe uma arca tumular de pedra, que antes das obras de restauro da igreja estava metida dentro da parede, com tampa igualmente de pedra com forma trapezoidal, hoje partida, que é tradição ter servido de túmulo a D. Jordão.

É trabalho do séc. XIV e devia ter servido para guardar os ossos daquele, antes de terem sidos transladados para a outra igreja.

A tampa tem esculpido uma lança e uma espada cruzadas, tendo aquela, uma flâmula junto ao ferro o que prova que só pode ter pertencido a um cavaleiro ou a rico-homem de pendão, o que perfeitamente se aplica a D.Jordão.

Tem também na face externa o brasão em cima representado.

 

                                                                   Rafael Ferreira, 6º ano, História e Geografia de Portugal - 2006/2007

 

 * Dr. João Das Regras

 

João das Regras, jurista, nasceu em data desconhecida em Lisboa, onde faleceu em 3 de Maio de 1404.

Filho de João Afonso das Regras e de Sentil Esteves, o segundo casamento da sua mãe, torna-se enteado de Álvaro Pais.

De ascendência ilustre, era sobrinho de outro eminente legista, Lopo Afonso.

Foi conselheiro de D. Fernando.

Tal como o seu padrasto, teve uma acção importante no levantamento de Lisboa que tornou o Mestre de Avis Regedor e Defensor do Reino.

Em 1385 tornou-se chancelar do reino, opondo-se à nobreza.

Ficou conhecido em virtude da excelente representação da causa do Mestre de Avis nas Cortes de Coimbra, em 1385, cujo corolário foi a aclamação de D. João I como rei de Portugal. Conselheiro e chancelar do Mestre, nessas cortes teve uma inteligente argumentação em que, omitindo o nome do Mestre, negou validade às pretensões dos outros candidatos ao trono.

A D. Beatriz, filha do falecido rei de Portugal, nega ao Dr. João das Regras quaisquer direitos por nulidade do casamento de D. Fernando com Leonor Teles, que já era casada com João Lourenço da Cunha quando o rei a desposou; por incerteza quanto à paternidade de D. Fernando, dado o comportamento irregular de Leonor Teles; por haver contraído um casamento com o rei D. João I de Castela, seu parente (a mãe do rei de Castela era tia – avó de D. Beatriz) sem a dispensa do papa legítimo Urbano IV de Roma, em vez do antipapa Clemente VII de Avinhão;

O rei de Castela, por ser herege, refuta João das Regras o direito a ser rei de Portugal, pois reconhecera o antipapa e fora excomungado pelo legítimo papa, porque o seu parentesco com o rei D. Fernando se dava pela linha feminina (as suas mães eram irmãs), o que pelo direito consuetudinário hispânico não dava direitos de sucessão.

Os infantes D. Dinis e D. João, filhos de el-rei D. Pedro I e de Inês de Castro, portanto, irmãos de D. Fernando, não podiam ter direito ao trono porque eram ilegítimos: D. Pedro nunca casara com Inês de Castro; além disso fizeram guerra contra Portugal aliados a Henrique II e a D. João I de Castela.

 

Inteligentemente, a sua estratégia demonstrara que o trono estava vago pois nenhum dos pretendentes tinha direito a ele. Pertencia assim às cortes escolher livremente um novo rei, sendo o Mestre, « per unida concordança de todolos grandes e comum poboo » aclamado rei de Portugal.

 

Bateu-se em Aljubarrota como simples peão.

 

O rei concedeu muitas mercês ao Dr. João das Regras: fê-lo cavaleiro da sua casa, senhor das vilas de Castelo Rodrigo, Tarouca e Beldigem; senhor de Cascais e seu termo, do reguengo de Oeiras, das dízimas das sentenças condenatórias de Évora, da jurisdição da Lourinhã e das rendas da portagem de Beja. Fernão Lopes refere-se a ele «como notável barom, comprido de ciência [ e ] mui grande letrado em leis [ … ]

 

De acordo com Fernão Lopes esteve em Bolonha, e é possível que tenha estudado na universidade daquela cidade de Itália.

Foi professor da Universidade de Lisboa, onde mais tarde desempenhou o alto cargo de encarregado ou protector, equivalente, segundo alguns, ao cargo de reitor (carta régia de 25 de Outubro de 1400).

A sua maior contribuição para com o direito, contudo, foi a magnifica tradução que fez da Compilação de Justiniano.

 

Depois da sua prestação política, pediu ao rei D. João I os terrenos de uma quinta em S. Domingos de Benfica para a construção de um convento dominicano, ao que o rei acedeu de bom grado. Depois de construído o convento, o Doutor João das Regras ingressou nele como frade e aí se manteve até à morte. O seu túmulo com a estátua jacente encontra-se na Igreja da Nossa Senhora do Rosário, integrada no convento de S. Domingos do Benfica, hoje pertença do Instituto Militar  dos Pupilos do Exército.

 

Nota:

Na Lourinhã há a Escola Básica 2, 3 Dr. João das Regras. A homenagem deve-se a João das Regras ter sido um famoso jurista, que, embora nascendo em Lisboa, no séc. XIV,  como braço direito, amigo e servidor de D. João I recebeu deste o título de doação as terras da Lourinhã. Daí a sua ligação e o seu nome a esta escola.

 

Tatiana Sofia Robalo Ferreira Rodrigues, 6º ano, História e Geografia de Portugal - 2006/2007

 

 

 

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