Fragmentos - Livro I
Ana de Sousa Baptista

Fragmentos - Livro I, é composto por 365 textos de escrita poética, de natureza fragmentária, introspectiva e vincadamente existencialista, por vezes introduzindo o onírico como elemento de retratação, por vezes o gótico e por vezes o sensual.

A obra apresenta uma leitura de características fluidas, que página após página, envolve e transporta o leitor numa viagem por um mundo criado pela autora Ana de Sousa, construído por imagens, fragmentos, de rara beleza.

[sobre o autor]


       Fotos: profanArte photographia


"Penso poder dizer que há muito não tinha o prazer de ler poesia que me tocasse, que não me deixasse indiferente. A sua poesia tem respiração e sentido. Ela exprime a existencialidade, e por isso é mais que transformação de sensações. Por isso, acho que por isso, me comoveu profundamente."
Carlos Lopes Pires, poeta e romancista português



#25
Many times, I think that in the reflection of mirrors designs of immobility occur,
Only tactile by the presence of my look and eternal only due to my inability to retain them.

Many times, I think if I will find in the next mirror that contemplates my back, my face of yesterday or the one to come in any tomorrow, in a disorganized accumulation of times;

The more I think that, sometimes, I find in the mirrors reflection, all the possible life of statues and I give them pulsating members, in the dance of silences of my soul

Of the dance
(read it as ballet)
I retain the wave from me to myself, in any threshold or edge of humble insanity.



# 162
as noites são uma febre e tu sabes disso.
mais ou menos leve, mais ou menos violenta.
acossa os que têm medo da dor.

é na noite que determinados encontros acontecem
as feras e os seus pecados evadem-se dos olhos
pássaros de fogo atravessam, ininterruptamente, os desassossegos
e explodem em espasmos de fogo que se arremessam livremente
em todas as direcções, queimando os limites dos espelhos

ouço-te, no sussurro precário que pernoita ao largo
ouço-te pela madrugada inerte e despojada de paisagens

sei que, na proximidade vertiginosa das sombras
se desprende dos braços o abraço, e nómada escorre
discorre da parede mais próxima a certeza de que não
partirás enquanto não se apagarem as luas, transformistas;
de que não partirei enquanto não se estilhaçarem os seus reflexos
nas águas duras do rio

habitamos a primeira morada da desolação, noite dentro
tecendo outros corpos de soturnas vogais, nomeando peles animais
em construções de fogueiras mansas
engolindo a acidez da saliva vazia do latejar permanente do teu sémen
espiando os sulcos da ausência, discretos, sob as marcas dos punhais
nos pulsos inflamados como papoilas


# 183
sou eu quem fecha a porta. uma chave. um adereço verde.
inspiro, o confronto do corpo nu com o raiar do crepúsculo, os olhos das sombras delineando aquele mais sensível ângulo, os ombros - qual público ávido de reconhecimento.
ignoro-o se o desejo ali, permanente e suspenso.
viro as costas e as mãos, esvaziando as suas expectativas do centro das minhas pernas.

[nunca toques o que realmente não queres - a voz sussurra, num terceiro plano, lá atrás]

respondo no mais firme saber - ler:
- estou aqui oh! hedionda consciência. as tuas línguas nada sabem a respeito dos silêncios, se aqueles de que se alimentam são só intenções deles.

[um passo ao centro - um palco de húmus]

- os verdadeiros não são comestíveis - ainda mal grito. 
- comem-nos! - grito.

os braços rodeiam agora as circunstâncias, as mãos de dedos esticados rasgam o negro do cenário, enchendo-se de um alcatrão doce - as unhas iluminam o percurso e os olhares espectrais.

chegar a meio da sessão é um pecado.
[se chegas tarde nunca saberás... - a voz, em terceiro plano, à direita;
- nunca saberás... - um rir, aglutinando e quase engolindo a língua]

conduzir até ao oriente mais próximo para pagar ao público o vazio da sua presença, com rebuçados.
Elisa, de rosto nos nós dos dedos, diria distraidamente - envenenados.
[um passo à direita - um cenário de húmus crescente, lodoso]

roço os mamilos na fragilidade das cortinas de alumínio traçado (pelas linhas das mãos do abandono) e inicio o ritual do suicídio, pendurando o coração no negro repleto de pequenos anzóis de prata:

- senhores meus... retiro-me. - sorrio, de cabeça para baixo, o cabelo rasando o húmus.
- por favor, apaguem a luz quando saírem.
- pela manhã, estarei sangrada.

fecho os olhos.

as luzes partem no encalço da vida.
o último do público fecha a porta. uma chave.

[um adereço verde - a voz sussurra, num primeiro plano e junto ao meu ouvido - como a esperança...]
# 276
para el tiempo.
ve esos pasos que en el silencio del sueño
del mundo escriben el camino.
siente el cuerpo que les da sombra
a través del pasillo sin luz.

estás solo.

escalón a escalón el creciente mar en los ojos
que te hace presentir el sumergir de los pisos ya recorridos
e inmediatamente allí, en el nivel siguiente, una llegada,
un jardín blanco donde en ninguna forma orgánica
afloran las sensibilidades de un suelo perenne,
que en el enrollar de las estaciones se sabe de silencio blando,
suave, se construye de notas retiradas al viento
a través del enrejado de las ventanas de ventilación.
respira.

es Pergolesi el que oyes y que te conmueve,
te tulle el pecho en incandescencias y tantos dolores
lentos y pequeñitos. nacen nódulos de minerales preciosos
donde antes eran frágiles los aterrizajes de las mariposas,
tus dedos rampas de lanzamiento crecen
a través de las carnes porosas del vientre lanzando
loros lunares en tantas direcciones
como los brillos latentes en tus ojos.

estás solo.
y todo sumerge a tu pasaje, al abandono del pasado.
en el vientre los pulsos reclaman la inconstancia de los brazos,
siempre olvidados a la vuelta de una soledad cualquiera,
envolviendo en una danza de espejos una melancolía cualquiera,
zurciendo cuidadosamente una garganta cualquiera
con el arte del constructor de cuadros de memorias.

acepta. es desmesurado el pasillo que tienes en la frente.
sólo Pergolesi lo recorre en su inmaterial razón y nunca tú,
nunca tu cuerpo o sombra osarán corromper del vacío
la esencia cuando este sucumbe muchas veces, repetidamente,
continuamente, a gracia de tentarte con el sueño del suicidio.

engulle tu saliva.
engulle el mar que te sumerge. engúllete.

borra, en la imposibilidad de la palabra, tu identificación.


#16
jamais atracarei meu barco
impelida pela voracidade
do vento que clama ao longe
os meus muitos nomes!

apenas ao de leve cruzarei oceanos de infinito ócio
e olharei o fundo do mar sorrindo aos náufragos,
acenando-lhes
com a minha eternidade.


# 65
that fingers stay still then
that obliquely tip the superfluous work of winds
may they sit and rest all arguments on the fall of tides
and only lullaby themselves when I give myself,
while I give myself,
in a sip
of slight ambiguity.

(it’s in the offspring of trees that the quiet sleep occurs,
so thick
as the questions of rivers at the break of dawn,
so round as the neighbourhood of the chill at your breast)

and I only don’t know of the waiting,
I only don’t know of the incarcerated vacuum in my arms,
because it has nominated the address
in the connivent silence of all distrusts
and at my side sleeps, lies, the discursive spectre of fear.