Nascidos como cogumelos

  |  Lisboa . 25 de Abril de 1999



Democracia fez aparecer dezenas de partidos políticos

 

Nos meses logo a seguir ao 25 de Abril de 1974 o panorama político português explodiu numa proliferação de associações partidárias espalhadas por todo o país, contrariando o monolitismo herdado da Constituição de 1933. Antes da revolução, Portugal era um país amordaçado que aos poucos ia recuperando a voz sob o espectro da existência da Acção Nacional Popular (ex-União Nacional), um partido de Estado, tão liderante quanto único.


O regime democrático mostrou ser o veículo para a participação de todos no sistema governativo, assistindo-se a uma proliferação dos partidos políticos na sociedade portuguesa. Na sua maioria eram organizações tendencialmente aversas ao centro e raramente tiveram alguma representatividade.


O primeiro Governo Provisório, liderado por Adelino da Palma-Carlos, formou-se com base nas grandes correntes político-ideológicas da altura: o Partido Socialista (PS), dirigido por Mário Soares; o Partido Comunista Português (PCP), cujo secretário-geral era Álvaro Cunhal; o Movimento Democrático Português (MDP) e o recém-criado Partido Popular Democrático (PPD).


É nesta atmosfera de política que dezenas de partidos se assumem, surgindo na praça pública como autênticos "cogumelos". São projectos alternativos aos dos grandes da altura - no fundo, os mesmos que ainda hoje dominam a política portuguesa -, que apelam ao eleitorado, oferecendo perspectivas da realidade, do presente e do futuro alternativas e tirando votos aos representantes da mesma esfera política, muitas vezes com projectos e ideologias entrelaçados. Quando isto não bastava, as alianças eram a única opção que teriam de tomar se queriam permanecer activos na sociedade.


Contudo, para muitos, isso não foi mais do que o adiar de uma morte prevista. Antes do primeiro acto eleitoral, realizado em 1975, um decreto do Conselho da Revolução suspende as actividades do PDC, MRPP e AOC, "para assegurar a regularidade do processo eleitoral". Os desígnios da democracia levarão muitos outros a extinguir-se devido aos seus fracos resultados. Para a Assembleia Constituinte, além do PS (116 deputados), PPD (81), PCP (30) e CDS (16), só o MDP/CDE (cinco parlamentares), a UDP (um) e a ADIM-Associação para a Defesa dos Interesses de Macau (também um deputado) conseguiram lugares no hemiciclo.


  • Causa Monárquica
    Extrema-direita
  • Comissão de Base Socialista (CBS)
    Extrema-esquerda
  • Comité de Apoio à Reconstrução do Partido Marxista-Leninista (CARP-ML)
    Extrema-esquerda
  • Comités Comunistas Revolucionários Marxistas-Leninistas (CCR-ml)
    Extrema-esquerda
  • Frente Socialista Popular (FSP)
    Esquerda. Fundado por Manuel Serra em Setembro de 1974, resulta de uma cisão dentro do PS: opunham-se a que os socialistas se conciliassem com a social-democracia e os Estados Unidos. Coligou-se com o PCP na FEPU, de onde saiu para se dissolver em 1979.
  • Grupo Autónomo do Partido Socialista (GAPS)
    Esquerda
  • Juventude Monárquica Revolucionária (JMR)
    Direita
  • Liga Comunista Internacionalista (LCI)
    Movimento trostskista
  • Liga da Unidade da Acção Revolucionária (LUAR)
    Extrema-esquerda
  • Movimento Democrático Português (MDP-CDE)
    Frente unitária da esquerda, constituída a partir da Comissão Democrática Eleitoral (CDE), já existente em 1973.
  • Movimento de Autogestão Revolucionária do Proletariado (MARP)
    Extrema-esquerda
  • Movimento Democrático de Mulheres (MDM)
    Esquerda unitária
  • Movimento da Esquerda Socialista (MES)
    Esquerda. Fundado em 10 de Maio de 1974. Nasce a partir da ala católica da CDE e do movimento estudantil pré-25 de Abril. Tem uma ampla aceitação na juventude universitária e mantém uma forte ligação com as classes trabalhadoras. Das suas fileiras faziam parte, entre outros, o actual Presidente da República, Jorge Sampaio, José Manuel Galvão Telles e João Cravinho.
  • Movimento Federalista Português (MFP)
    Direita. Ligado a sectores da direita salazarista que se tinham distinguido pela oposição a Marcelo Caetano. Entre estes encontram-se os "nacionalistas revolucionários" ligados à cooperativa "Cidadela", activa em Coimbra e no Porto; o Comité Nacional de Acção Revolucionária (CNAR) do Porto; membros da "Associação Programa"; monárquicos da Liga Popular Monárquica e ex-membros da Acção Nacional Popular (ANP). Este movimento mantém contactos nas colónias com forças de direita, criadas depois do 25 de Abril.
  • Movimento da Juventude Trabalhadora (MJT)
    Esquerda
  • Movimento Libertário Português (MLP)
    Anarquista
  • Movimento Popular Português (MPP)
  • Movimento Reorganizativo do Partido do Proletariado (MRPP)
    Extrema-esquerda. Fundado a 18 de Setembro de 1970, a partir de um núcleo de militantes da antiga Esquerda Democrática Estudantil (EDE). Grupo marxista-leninista-maoista, que se opõe tanto ao PCP como a outras organizações políticas marxistas-leninistas.
  • Organização Comunista Marxista-Leninista Portuguesa (OCMLP)
    Extrema-esquerda. Organização fundada em 1973, com grande implantação nas comunidades emigrantes e no Norte e Centro de Portugal. Resulta de uma cisão do PCP, ocorrida em Maio de 1968. Em 1975 lança a FEC-ml às eleições para a Assembleia Constituinte - um partido "anti-social-fascista e anti-imperialista", que recebeu perto de 33 mil votos. Pedro Baptista, actual deputado do PS, foi o secretário-geral até à sua dissolução, no final dos anos 80.
  • Partido Cristão Social Democrático (PCSD)
    Centro-direita. Surge em Maio de 1974.
  • Partido Comunista de Portugal Marxista-Leninista (PCdeP-ml)
    Extrema-esquerda marxista-leninista-maoista. As suas origens remontam a 1956, altura em que uma cisão no seio do PCP leva ao afastamento de personalidades que criam a Frente de Acção Popular (FAP) em 1964 e, poucos meses depois, o Comité Marxista-Leninista Português. Este último extingue-se em 1970, com a constituição do PCdeP-ml, que voltará a designar-se CMLP em 1975.
  • Partido Comunista Português Marxista-Leninista (PCP-ml)
    Extrema-esquerda. Defendia a instauração da ditadura do proletariado, a salvaguarda da independência nacional "em relação ao social-imperialismo e ao imperialismo". Marxista-leninista-maoista, as suas origens também remontam ao CMLP. Nas eleições de 1975 apresenta-se com a face legal de Aliança Operária-Camponesa (AOC).
  • Organização para a Reconstrução do Partido Comunista Marxista-Leninista (ORPC-ml)
    Resulta da fusão, efectuada em 1975, de três organizações marxistas-leninistas: CARP-ml, CCR-ml e URML. Em Dezembro do mesmo ano, juntamente com o CMLP e a OCMLP, dará origem ao PCP(R).
  • Partido Democrata Cristão (PDC)
    Centro-direita. Criado a 11 de Maio de 1974. Resulta de uma cisão no seio do Partido Cristão Social Democrata (PCSD). Defendia a livre iniciativa e a propriedade privada.
  • Partido Democrata Socialista (PDS)
    Esquerda. Defendia a criação de um "socialismo lusitano", pretendendo reformar as estruturas económicas e políticas, através da promoção das classes menos favorecidas.
  • Partido Liberal (PL)
    Centro-direita. Criado em Maio de 1974 por um conjunto de militantes que, por discordarem do aparecimento do PPM, abandonam a Convergência Monárquica e a que se juntam outros da Acção Católica. Programa político próximo do PPD.
  • Partido Nacionalista Português (PNP)
    Direita. Fundado em Maio de 1974 por antigos elementos da Legião Portuguesa. Acabou por ser extinto a 18 de Setembro, com a PSP a invadir as suas instalações no Porto e a deter os militantes.
  • Partido Popular Monárquico (PPM)
    Centro. Data de 23 de Maio de 1974 a sua fundação, a partir da Convergência Monárquica, após a fusão das diversas correntes de pensamento monárquico. Pretende restaurar um sistema monárquico semelhante ao sueco.
  • Partido Revolucionário do Proletariado-Brigadas Revolucionárias (PRP-BR)
    Extrema-esquerda. Nascido em Setembro de 1973. Anti-imperialista, exigia a saída de Portugal de todos os pactos militares. Defendia a luta armada na perspectiva da tomada do poder pelo proletariado. Existentes desde 1971, as BR funcionavam como braço armado do movimento.
  • Partido Social Democrata Independente (PSDI)
    Centro-direita. Fundado em Maio de 1974, tinha como ideias mestras contribuir para a "construção de uma sociedade humana pluralista em que impere a Justiça Social".
  • Partido Trabalhista Democrático Português (PT)
    Centro-direita. Fundado a 3 de Maio de 1974 por Fernando Correia Ribeiro e Carlos da Silva Fernandes, defendia a reestruturação dos sindicatos, o direito à propriedade privada, a Reforma Agrária e a revisão da Concordata com a Santa Sé.
  • Partido de Unidade Popular (PUP)
    Extrema-esquerda. Legalizado em Fevereiro de 1975, deve a paternidade a militantes do PCP m-l. Foi absorvido pela UDP logo em 1976.
  • União dos Estudantes Comunistas (UEC)
    Esquerda, ligada ao PCP.
  • União Revolucionária Marxista-Leninista (URML)
    Extrema-esquerda

 

Fernando Cabrera, Paulo Curado e Filipe Escobar de Lima





Comments