Almeida Faria («O Murmúrio do Mundo - A Índia Revisitada»)


Meio século depois

 


António Rego Chaves


 

Em 1962, quando o jovem Almeida Faria publicou «Rumor Branco», o livro depressa foi votado ao ostracismo por alguma esquerda antifascista, que talvez nem sequer se tenha dado ao trabalho de o ler: vinha prefaciado por Vergílio Ferreira e daria origem à ruidosa polémica com Alexandre Pinheiro Torres, que então pontificava no suplemento literário do «Diário de Lisboa». Mas a verdade é que o escritor erguia uma voz ímpar, sem mácula, não apenas contra o bafiento Portugal salazarista, mas contra o desconcerto da existência e do mundo, desde sempre estabelecidos. Muitos pasmaram pela pontuação, não poucos se indignaram. Pois, como se atrevia ele, com apenas 19 anos, a surgir assim, de supetão? Em boa verdade, não lhe perdoavam o talento. E poucos ousaram aprovar João Gaspar Simões, quando este se arriscou a falar de uma «incontestável genialidade literária».  

Almeida Faria movera-se sem pedir licença a «proprietários» de escolas. Escreve-se que se opôs à estética neo-realista – o que assumiu e continua a assumir, para alguns, foros de excelsa virtude ou condecoração oficiosa – e que veiculou a revolta da geração de 60. Talvez fosse assim, mas só na medida em que se escusava a ser utensílio de alguém. Era uma «pequena voz pessoal» («small personal voice»), como então dizia a britânica Doris Lessing. Essa voz que, vinda do princípio dos tempos, ninguém pode calar.

Eduardo Lourenço prefacia este texto, ilustrado com belos desenhos de Bárbara Assis Pacheco, sem o focar por inteiro. Diz o muito que tem a dizer, como só ele sabe, passando ao lado do «primeiro homem», do jovem revoltado que nos ofereceu «Rumor Branco». Ou melhor, passa ao lado do que decerto nunca morreu nele, do que decerto não podia ter morrido nele. E não será que tanto nos importa a «verdadeira» Índia que se revisita como a Índia que sempre se leva dentro de si a Bombaím, a Goa, a Cochim?

Que procurava, que poderia eventualmente vir a encontrar, este homem, este escritor, na Índia? Uma sabedoria, uma religião, uma memória de Portugal? Magistral, Eduardo Lourenço opta por utilizar um sujeito que coloca na primeira pessoa do plural: «Toda a viagem é viagem à Índia, exigindo-nos que a refaçamos perpetuamente como para nos convencermos que a mais onírica das nossas peripécias de pequeno povo do Ocidente não foi o puro sonho que também foi.» (…) «Para nós, portugueses, a chegada à Índia, o deslumbramento que nos causou, a dimensão onírica que nos conferiu para sempre tanto como o futuro fascínio inglês por esse império de sonho que eles converteram em império da realidade, fizeram da Índia o símbolo mesmo da vida como fantasma e fantasmagoria do Ocidente.»

«Lendo esta tão original crónica de uma não menos singular viagem, que é, sobretudo, viagem ao nosso próprio passado de ‘gloriosos conquistadores’, agora só a braços com monumentos sem mais vida e leitura do que a nossa imperial nostalgia – no melhor dos casos – o que Almeida Faria acabou por escrever foi o mais melancólico dos Requiem (sic) por esse esplendor, real e onírico, do nosso perdido Império» – conclui, ainda, Eduardo Lourenço.

Almeida Faria, é bem certo, recorre a quantas autoridades mundiais poderia invocar para dar consistência ao seu texto: Diogo de Couto, D. João de Castro, Garcia de Orta, Gil Vicente, João de Barros, Luís de Camões, Sá de Miranda são apenas alguns dos portugueses ilustres citados ao longo da obra que, segundo afirmou em recente entrevista, lhe deu mais trabalho do que qualquer dos romances que escreveu, «talvez» com a excepção de «O Conquistador», que, disse, o obrigou «a grandes investigações sobre D. Sebastião». Mas o escritor não virou historiador, nem quis – e talvez nem sequer soubesse – cingir-se a essa subtil tarefa de obscurecimento de si.

E o «eu» lá fica, bem vivo e expresso, desde as primeiras páginas da obra, por vezes impondo-se, mesmo, ao leitor, a finalizar um parágrafo: «De acordo com um censo recente, três quartas partes dos indianos são hindus, doze por cento muçulmanos, seis por cento cristãos. Os seis ou sete por cento restantes são animistas, budistas, judeus, siques, jainistas e, em número residual, os masdeístas ou parses, descendentes dos persas e seguidores. Sem esta riqueza de religiões, como suportariam os indianos tanta miséria?» (…) «O visitante ocidental que pela primeira vez chega a Goa e Cochim enfrentará provavelmente a vertigem do caos à sua volta e dentro de si.» (…) «Mas há Índias e Índias, cada um vê a sua.»

A finalizar: «Trouxe comigo um bloco confusamente escrevinhado, uma curiosidade acrescentada, uma crescente descrença na elegância da descrença. E tornei-me mais atento à infindável memória do mundo, mais capaz de escutar o incansável murmúrio do mundo.» «Mundo», que palavra antiga, foi o mesmo «mundo» que o jovem Almeida Faria enfrentou, e que fechava o «IV Fragmento» de «Rumor Branco». Releiamos esse seu texto sem pontuação, de há meio século, nada menos: «…os enigmáticos sinais do meu hermético relógio do meu rumor eternamente branco nada me regularam nem o tempo por isso ele desconheceu em mim significado e tive de construir-me templo deste confuso tempo e assim será metamorfose que se segue perante os vossos olhos (sss isto é: sempre e só se o vosso imaginar for igual ou maior que muito e assim consiga mudar o mundo).»

 «Mudar o mundo»?  Pois era de «mudar o mundo» que o jovem Almeida Faria falava em 1962. Agora não levanta a voz, como antes, com alguma estridência, mas confidencia-nos que o seu mundo de «primeiro homem» e o mundo que hoje habita, com Índia real ou com Índia sonhada, com Índia exterior ou com Índia interior, com Índia desconhecida ou com Índia revisitada, é o mesmo. E já nem precisa de dizer que temos de mudar esse mundo que tanto nos dói, embora não nos sobre imaginação para o mudar. 

 

                                             

Almeida Faria, «O Murmúrio do Mundo – A Índia Revisitada», Tinta-da-China, MMXII, 150 páginas        

           

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