Império de Trevas

Textos para ambientação do clima de Corrupção, Paranóia e Decadência do Mundo das Trevas

Na Bandeirantes, o ar seco, fétido e quente perturba os olhos e o espírito dos motoristas parados no trânsito do final de tarde. No Cambosa, jovens perdidos começam a chegar, procurando um pouco de diversão e, quem sabe, alguns tiros que façam a vida valer a pena. Em uma Fazenda com Quatro Estações, turistas aproveitam a riqueza cultural refinada da Cidade do Sol. No Beco Fino ouve-se o funk proibidão, desafiando a polícia e a ordem vigente, enquanto a períferia esquecida continua sendo patrocinada pelo tráfico e pelo abandono do poder público. Nas festas de São João, monstros em máscaras humanas se esgueiram, dançando ao som do forró enquanto escolhem quem, mais tarde, lhes servirá de alimento. Na fria noite na Serra do Japí, uivos ecoam carregados de fúria – certamente cães selvagens, e as pessoas fecham as janelas de suas casas confortáveis, cercadas por grades e segurança particular, assim como fecham as janelas de seus carros, evitando a mão infantil que pede uma moeda. Atrás dos blocos tradicionais de carnaval, herdeiros do Sonhar festejam seus rituais, tentando inspirar algo no período onde vale tudo. Professores marcham nas ruas por melhores condições na educação pública, e são respondidos por balas de borracha e bombas de efeito moral da Polícia Militar. Uma procissão religiosa parte, celebrando algum santo – português ou italiano, quem sabe? Enquanto debatem a corrupção que assola o país durante o dia, quando a noite cai, pessoas fazem o sinal da cruz para espantar assombração. Atabaques ressoam nos terreiros, pedindo paz, prosperidade, ou pr'a fechar o corpo contra os inimigos. Nossas lendas, heranças dos povos indígenas que se mesclou às dos povos negros e europeus que desembarcaram em nossos portos durante a colonização, vindos ou trazidos pelas marés revoltas da História. Quem disse que a Serra do Japí é só uma serra? Quem inventou o saci, ou a noiva que, dizem, pede carona a motoristas da madrugada na porta de cemitérios? Quem tem coragem de passar, na madrugada, algumas horas dentro dos diversos prédios Abandonados ou sobre os restos das antigas senzalas? Quem, por mais racional que seja, gostaria de morar numa casa construída em um antigo cemitério de índio?


  A violência prospera. Você já esteve nos Amarais? Abra os jornais e você vai encontrar um novo morto. A sensação é de “acabou”. Jovens soldados do tráfico trocam tiros, a população se tranca em casa, enquanto políticos vendem terrenos públicos, que deveriam ser destinados a habitações populares para empreiteiras que construirão obras faraônicas. Gangues de jovens lutam na saída das escolas pela supremacia de seus grupos sobre os grupos rivais, e grupos de carecas saem enlouquecidos pela noite, levando a violência para aqueles que não se encaixam nas suas ideias delirantes de supremacia. Crianças e idosos moradores de rua tentam se proteger, em bando, de serem mortos a pauladas durante a noite, esperando… esperando o quê? Torcidas de futebol se enfrentam nos estádios e fora deles, “o inimigo” é um lixo a ser descartado.


   Indústrias químicas deixam nosso horizonte sombrio, trazendo, nas garoas de inverno ou nas chuvas de verão, uma água ácida, que irrita a pele e corrói o concreto. A natureza se revolta em forma de tempestades torrenciais que alagam, matam, alastram a malária e a leptospirose para os sobreviventes.


   E no entanto, corações continuam a bater, e as pessoas esperam. Esperam a ajuda de Deus, dos santos, de algum evento cósmico. Ou simplesmente não esperam mais nada de ninguém, exceto de si mesmas, de seus ganhos, de sua sobrevivência e de seu trabalho árduo. Elas querem acreditar em algo. Só não se importam o bastante pra isso.
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