Origens - História do Asé Pantanal

HISTÓRICO DO ASÈ PANTANAL

 

De forma bem resumida tentaremos contar um pouco de nossa história, bem como tudo começou, para que, quando ouvir falar de nosso Ase, saiba quem somos, de onde viemos, o que representamos para nossa cultura e a que ela se destina. Já decorreram mais de 200 anos desde que um negro escravo de nome Baba Irufan, que adotou o nome de José Firmino dos Santos (tio Firmo), deixou a Ilha de Efon, situada no litoral Africano, entre a Nigéria e o antigo Daomé. Acompanhado de sua filha Asika, sua ama seca Iyá Adeboluim que adotou o nome de Maria Bernarda da Paixão, conhecida também como "Maria Violão", atravessou o Atlântico e aportou em Salvador, capital da Bahia.

Não haveria nada de especial no fato de um negro africano transferir-se de sua terra natal para o Brasil, se não fosse a importante missão a que estava destinado este ser humano, missão essa que lhe fora imposta por seus ancestrais e pelos orixás que cultuavam, e que consistia em plantar em terras Brasileiras, um poderoso Asé, revestido de um ritual diferente dos que aqui existiam.  Designados para trabalhar na Fazenda do Engenho Velho de Brotas, depois da libertação dos escravos, os donos da fazenda dividiram-na em lotes para que os negros (ex-escravos) cuidassem da terra. Tocou para o tio Firmo a responsabilidade do lote 12 da Travessa do Oloke.

Naquele local, em 1901, instalou-se então o primeiro Candomblé do Efon com o nome de Ilê Ashe Olorokê, na rua Olorokê nº 12 (hoje rua Antonio Costa nº 12) no bairro de Engenho Velho de Brotas – Salvador – Bahia. Fundado então por esse escravo de nome Baba Irufan, que lutou com grandes dificuldades, pois naquela época o Candomblé era perseguido pela polícia e por isso ele foi preso várias vezes.

Os Ibás de assentamento dos Orisas foram trazidos da África e estão até a presente data devidamente preservados no Ilê D'Olokê, fundado por este escravo de nome Baba Irufan, que era dirigido por ele e sua filha Asika. Morre Baba Irufan e assume o Asé sua filha carnal Asika. Asika teve um mandato relativamente breve e com sua morte o Asé foi sucedido por Ya "Abebolui" "Maria Brenarda da Paixão" (Maria Violão), que foi sucedida por Ya "Babalu", Matilde Muniz do Nascimento. Com a morte de Ya "Babalu", assumiu o Asé Cristóvão Lopes dos Anjos, sobre o qual faremos uma breve explanação:

Em 1905 morre Asika, então tio Firmo passa a dividir as funções do Asé com Maria Bernarda da Paixão (Iyá Adebolui), até o ano de 1929, quando este vem a falecer. Após a morte de tio Firmo, Iyá Adebolui fica a frente do Asé até o ano de 1940. Durante este período, dentre vários filhos iniciados por Iyá Adebolui, destacamos mãe Milu D'Yemonjá, Iyá KeKerre do Asé, Cristóvão Lopes dos Anjos, Asogun, Matilde de Jagun, Celina de Yemonjá (esposa de Cristóvão) e o filho carnal de Mãe Milú, Paulo S. de Oliveira, de Sango. Seu comando a frente do Asé foi até o ano de 1940. Morre Iyá Adeboui, assumindo o Asé Matilde Muniz Nascimento (Matilde de Jagun) Iyá Babalú, que governa o Asé até o ano de 1976.

Morre Iyá Babalú e assume Baba Ode Orum Anauejeí, nascido aos 24 de julho de 1908, filho de Tertuliano Lopes dos Anjos e Matilde Oliveira Guedes, numa casa modesta perto do Largo de Santa Luzia, que ficava no fim da linha do Engenho Velho de Brotas em Salvador, Bahia. Mesmo sendo de família humilde, seus pais fizeram questão de lhe dar educação. Terminado o curso primário, Cristóvão se inscreveu no Liceu de Artes e Ofício de Salvador, onde se formou como tipógrafo. Desde muito pequeno freqüentava o Candomblé da Travessa Antônio Costa que, nesta época era dirigido por Maria Bernarda da Paixão, conhecida também por "Maria Violão". Alguns dizem que este apelido era em razão de seu corpo escultural. Outros dizem que recebeu o apelido por ter quebrado um violão na cabeça de um cara saliente. Particularmente achamos que a primeira versão seria a mais acertada.

Voltando a Cristóvão, como poderia prever aquele menino, na sua inocência de infância, crer que um dia, por determinação dos Orixás, seria o responsável pela manutenção daquele sagrado Asé, o que implicava numa complexidade de obrigações, sacrifícios, aprendizados teóricos e práticos que o habilitariam espiritual e intelectualmente a ocupar tão importante posição? Os desígnios de Odu não podem ser compreendidos por nós, falhos e frágeis seres humanos.

A vocação, no entanto, surge paralela às determinações superiores e, não fugindo a esta regra, nosso querido Pai Cristóvão trocava, prazerosamente a correria empreendida pela criançada da vizinhança por longas e demoradas conversas, mal iluminadas pela luz trêmula do lampião de querosene quando Maria Bernarda da Paixão confiava-lhe os segredos do culto, os fundamentos dos orixás e as mensagens transmitidas por Odu na parte divina de Ifá.

Cristóvão cresceu, fez-se homem; adquiriu plena consciência de sua importância na comunidade da qual fazia parte. Sua iniciação fora feita quando contava apenas 10 anos de idade, ocasião em que foi confirmado Axogum da Nação do Efon, sendo investido, mais tarde, nas funções de primeiro Oluô da casa.  Maria Violão faleceu quando Cristóvão completava 19 anos de idade. Uma dissidência entre seus irmãos de Asé provocaram seu afastamento da casa e conseqüentemente iniciou as funções na sua primeira casa de santo – Casa da Obarana – dirigida por ele mesmo. Como já dissemos, quando Maria Bernarda da Paixão faleceu, a cadeira mais alta do Ile Efon passou a ser ocupada por Matilde de Jagum, também chamada de Iyá Babalú, enquanto Cristóvão no ano de 1938, fundava sua própria cada na Obarana de Salvador.

Por ocasião do falecimento de Iyá Babalú, uma série de acontecimentos insólitos ensejaram o retorno de Cristóvão à sua casa de origem, restabelecendo seus direitos como legítimo herdeiro daquele Asé. O que ocorreu foi que, por várias vezes, tentou-se oficializar o Asese de Dona Matilde mas sempre Egun intercedia e impedia a realização do evento. Consultado através dos búzios, Egun exigiu que Cristóvão realizasse e arriasse seu Asese, confirmando que somente ele poderia cuidar de seu carrego.  Convidado, Cristóvão não se negou a realizar os funerais da irmã Matilde, e desta vez tudo correu normalmente. Após sua realização Egun agradeceu e partiu sem mais incômodo para as pessoas que pertenciam ao Asé, visto que a missão de Egun, era entronizar seu herdeiro. Tudo voltou ao normal e durante o tempo que Cristóvão esteve na Bahia iniciou várias Iyawos.

Era casado com dona Celina Alves de Souza (D'Yemonja), e desse casamento nasceram: Milton, Arlinda, Dinorah e Valdomiro. Milton suspenso Ogan de Obaluae, faleceu em 1984. Arlinda, negra de raríssima beleza, fez santo na Obarana, pelas mãos de Runhó Meredogi do B'Ógun, falecida em junho de 1979.  Dinorah é filha de Logun Ede e foi feita em Cachoeira de São Félix (Bahia), pertencendo portanto ao Gege Mahin.

Valdomiro ou Ogan Vavá como era conhecido, foi confirmado na Casa de Valdomiro Baiano e faleceu em 12 de janeiro de 1993.  Por volta de 1940, Cristóvão em obediência a determinações superiores transfere-se para o Rio de Janeiro, na Av. Jacatirão, em Duque de Caxias, onde viveu cerca de 10 anos, viajando regularmente para Salvador para cuidar de seus filhos de Santo e do Asé de Oloke.

Em 1949, já morando no Rio de Janeiro e pensando em difundir o Asé Efon naquela cidade, muda-se para a Av.Assis Vargas nº 626, Gramacho – Caxias, e em 1950 compra o terreno na rua Eça de Queiróz, quadra 69, lotes 15 a 18, 31 e 32, Pantanal – Caxias.
 
 
 
Em 1951, no dia 10 de maio, planta o Iroko Igi e no dia 13 de junho do mesmo ano, após 12 dias de ladainha de Santo Antônio (santo de quem era devoto fervoroso), inaugura a Casa de Candomblé do Pantanal de Caxias no Rio de Janeiro, para onde transferiu os Orisas que estavam assentados na Obarana, mas sem permissão para transferir aqueles que estavam assentados na Casa de Oloroke.  No dia 23 de setembro de 1985 às 15h00 Cristóvão faleceu. Sua missão estava cumprida e os Orisas resolveram premiá-lo aos 83 anos de idade.

Sua neta Maria José Lopes dos Anjos (Mãe Maria de Sango), assume o Asé do Efon dando continuidade nas funções exercidas por seu avô, tanto no Rio de Janeiro como em Salvador. Cristóvão legou a todos os filhos, netos e bisnetos, sabedoria milenar de seus ancestrais africanos, cuja chama se mantém viva através de sua neta Maria de Sango. Cristóvão, utilizando-se de um processo semelhante ao de seu aprendizado, passou à sua neta tudo o que recebeu de sua mãe de santo, Maria Violão. Maria, investida no cargo de Iyalorisa do Pantanal, herdou a sabedoria de Cristóvão e a beleza de sua mãe Arlinda (Lindinha de Inhasã). Maria José foi iniciada pelo próprio Cristóvão em 6 de janeiro de 1951, com apenas 6 anos de idade e já aos 14 anos de idade recebeu o cargo de sucessora no Asé.  A disciplina imposta por Cristóvão é ainda mantida nos mesmos moldes. No Pantanal cada um tem seu cargo com sua confirmação específica. Entretanto, todos tem a mesma importância no contexto comunitário. A continuidade cultural será plenamente mantida, uma vez que Maria José tem como proposta básica conservar esta cultura passando seus conhecimentos a quem de direito, conforme determinação dos Orisas.

A HERDEIRA – MÃE MARIA DE SÁNGÒ

Seu nome é Maria José Lopes dos Anjos. Nasceu em 26 de fevereiro de 1948 em Salvador, na Rua Manoel Faustino, mas meu avô me registrou em Duque de Caxias. É neta de Pai Cristóvão e filha de Lindinha. Foi iniciada aos seis anos de idade. Com cinco anos de idade Sangô já incorporava e desacatava seu avô, que não aceitava que ela incorporasse Orisá com essa idade. Seu segundo santo é Osun, e segundo Mãe Maria "é ela quem me governa e que domina toda a minha vida".  Aos 14 anos de idade fez sua obrigação de sete anos de santo e recebeu o cargo de Herdeira do Asè Pantanal. Para ela, assumir o posto de Yalorisà do Asè Pantanal, após o falecimento de seu avô foi a maior alegria, "eu ia ser mãe, todo mundo ia bater cabeça. Isso foi a maior felicidade.Nasci na Nação, tudo era pro Orixá, aprendi a zelar pelo Orisa, e tudo era importante". Assumiu realmente o Asè após a morte de seu avô Cristóvão. O Asese durou sete dias, ficaram de luto durante um ano. Ao abrir com novo Axexe, foi aberto um jogo de Ifá, para confirmar o seu posto, saber se o Orisa consagrava mesmo seu cargo de herdeira. Perante todos os presentes, o Ogan Bento, Asogum da Casa, confirmou que fora consagrada pelos Orisas para ser a herdeira do Asè. Hoje Pai Bento é o seu zelador de santo.
 

TRABALHO SOCIAL

O Asè Pantanal desenvolve trabalho social para a comunidade. Todo último domingo do mês é feito um almoço beneficente com a comunidade, principalmente com as crianças e os idosos. No mês de dezembro, no último domingo, fazem homenagens às crianças e distribuem cestas básicas.  Durante todo ano mantém atividades de danças afro e capoeira, dentro da cultura africana do Asè.

 

Origem: http://asepantanal.com.br        

 

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