O Concílio de Laodiceia

Ocorrido em 364 d.C., o concílio de Laodiceia discutiu em suas sessões qual o dia de guarda que o cristianismo deveria seguir e, após o julgamento dessa questão, decretou no cânon 29 a seguinte regra: "Os cristãos não devem judaizar e ficar ociosos no sábado, mas trabalhar nesse dia; devem apenas honrar especialmente o dia do Senhor [domingo], e como cristãos, devem se possível, não trabalhar neste dia. Se, entretanto, eles forem encontrados judaizando, que sejam excomungados por Cristo"1.

A análise desse cânon frente aos eventos religiosos de sua época, nos conduz às seguintes conclusões:

1. Em meio a crescente apostasia dentro do cristianismo, houve cristãos que permaneceram leais à Bíblia; eles optaram em obedecer integralmente aos Dez Mandamentos como Cristo lhes ensinara(a) (Mateus 5:17-19; Lucas 16:17; João 15:10);

2. A obediência desses cristãos ao quarto mandamento, que apresenta o sábado (sétimo dia da semana) como o verdadeiro "dia do Senhor"(b) (Isaías 58:13-14 cf. Marcos 2:28), causou indignação naqueles que decidiram ter o domingo (primeiro dia da semana) como dia santo;

3. O concílio de Laodiceia não apenas objetivou extinguir a guarda do sábado, pois determinou também perseguição a aqueles que seguissem com a observância sabática (Apocalipse 12:17 cf. Apocalipse 13:7); e,

4. O comportamento anti-judaico promovido pelo Império Romano estava presente na comunidade cristã (cf. Atos 18:1-2).

A Igreja de Roma envolvida nas campanhas antissemíticas(c) e diante da grande influência que o descanso dominical de Constantino exercia sobre os pagãos e cristãos, concluiu que a guarda do sábado era incompatível com os seus interesses; e, portanto, tinha que ser substituída pela guarda do domingo.

Então, a Igreja de Roma que já vinha combatendo os judeus e buscando vantagens políticas e religiosas dentro do Império Romano, passou a eliminar a observância do sábado e outras doutrinas comuns entre cristianismo e judaísmo com o intuito de separar os cristãos dos judeus e, ganhar a simpatia dos imperadores de Roma.

Na realidade, essa obra de separação foi comandada por Satanás, pois a união entre gentios e judeus ocasionada pela cruz do Calvário não favorecia o seu domínio neste mundo (Efésios 2:11-22; Colossenses 1:13-23). E Satanás obteve êxito. Os líderes da Igreja de Roma que já se encontravam indiferentes pelo evangelho, foram seduzidos pelos privilégios e riquezas que o Império Romano podia lhes conceder. Assim, prontamente se afastaram dos fundamentos judaico-cristãos e adotaram os ensinos grego-romanos. E as tradições pagãs assimiladas foram repassadas e aceitas pela grande maioria dos cristãos, o que ajudou a Igreja de Roma a controlar a cristandade por vários séculos(d) e perseguir os seus opositores (Apocalipse 13:5-7 cf. Apocalipse 12:6,13-17; Daniel 7:25).

Diferentemente, a Igreja Cristã que foi estabelecida por Jesus e que era formada por judeus e gentios, manteve a observância sabática. A comunidade judaica-cristã não exerceu suas atividades seculares aos sábados, mas dedicou o sétimo dia da semana para estudar as Escrituras e louvar a Deus (Atos 13:42-45; Atos 16:13; Atos 17:1-3). E renomados historiadores e teólogos (observadores do domingo) após a investigação desse assunto, declararam que:

"É certo que o próprio Cristo, Seus apóstolos e os primitivos cristãos por um considerável espaço de tempo observaram constantemente o sábado do sétimo dia; os evangelistas e São Lucas em Atos sempre delineiam o dia de sábado, fazendo menção à sua solenização pelos apóstolos e outros cristãos. [...] O sábado do sétimo dia foi solenizado por Cristo, pelos apóstolos e pelos primeiros cristãos, até que o concílio laodiceano até certo ponto aboliu totalmente à sua observância."2

"A oposição ao judaísmo introduziu o particular festival do domingo muito cedo, certamente, em lugar do sábado. [...] O festival de domingo, como todos os outros festivais, sempre foi uma ordenança humana, e estava longe das intenções dos apóstolos estabelecer um mandamento divino neste caso; longe deles e da primitiva igreja apostólica, transferir as leis do sábado para o domingo."3

"[...] Durante os primeiros séculos da igreja, ele [o domingo] nunca foi intitulado 'o sábado'; esta palavra está restrita ao sétimo dia da semana, o sábado judaico, que, como já dissemos, continuou a ser observado por vários séculos pelos convertidos ao cristianismo."4

"Pouco precisa ser dito sobre a mudança do sétimo para o primeiro dia da semana. Os primeiros discípulos conservaram ambos os dias: o sábado para o descanso, e o domingo para o trabalho. A Igreja Cristã não realizou de forma oficial, mas gradual e quase inconscientemente, a transferência de um dia pelo outro."5

"Acerca disso ou sobre alguma observação semelhante, os primeiros cristãos guardaram o sábado dos judeus; e não apenas pela complacência deles com os judeus, ainda que a distinção fosse notória e reconhecida; mas por causa da moral religiosa que foi disponibilizada por esse dia, até aquele momento a religião do dia do Senhor [domingo] não fora apresentada; portanto, os cristãos, por um longo tempo juntos, mantiveram suas reuniões no sábado, e no qual partes da lei foram lidas; e isto continuou até a ocasião do concílio de Laodiceia."6

A propagação do sábado

Tanto a presença dos judeus em várias localidades do mundo (principalmente em decorrência da diáspora), assim como a pregação do evangelho aos confins da Terra pelos discípulos de Jesus (Romanos 10:16-18), promoveram a guarda do sábado como parte vigente da lei de Deus (Lucas 16:17 cf. Lucas 23:54-56, Atos 16:13). Por conseguinte, diversos manuscritos antigos relatam que em todo o território do Império Romano havia cristãos gentios observando o sábado. Flávio Josefo, Agostinho, Sozomeno e Sócrates, por exemplo, descreveram respectivamente que:

"Já demonstramos que as nossas leis têm inspirado como sempre admiração e imitação em todos os outros homens. [...] Na verdade, mais que isso, a multidão humana em si mesma teve grande inclinação por um longo tempo para seguir as nossas práticas religiosas; pois não há qualquer cidade dos gregos, nem qualquer dos bárbaros, tampouco alguma nação, seja qual for, aonde o nosso costume de descansar no sétimo dia não tenha chegado, e nas quais os nossos jejuns e acender de lâmpadas, e muitas de nossas restrições, como as de nossa alimentação, não sejam observados."7

"Neste dia, que é o sábado, costumam reunir-se, na maior parte, os desejosos da Palavra de Deus. [...] Em alguns lugares a comunhão acontece diariamente, em outros, apenas no sábado, e em outro somente no domingo."8

"O povo de Constantinopla e de várias outras cidades congregam-se simultaneamente no sábado, bem como no dia seguinte; costume que nunca é observado em Roma ou em Alexandria. Existem várias cidades e aldeias no Egito, onde, ao contrário dos hábitos estabelecidos em outros lugares, as pessoas se reúnem ao anoitecer de sábado; apesar de terem ceiado previamente e compartilhado dos mistérios."9

"Pois, embora quase todas as igrejas em todo o mundo celebrem os sagrados mistérios no sábado de cada semana, por ora os cristãos de Alexandria e Roma, em vista de alguma antiga tradição, recusam-se a fazer isso. Os egípcios nas circunvizinhanças de Alexandria e os habitantes de Tebas, mantêm seus encontros religiosos no sábado [...]"10

O historiador Alexander Flick exemplifica também a abrangência da observância do sábado citando o povo celta, ele descreveu que: "Os celtas tinham seus próprios concílios e decretavam suas próprias leis, independente de Roma. Os celtas usavam uma Bíblia latina diferente da Vulgata, e guardavam o sábado como dia de repouso, com serviços religiosos especiais no domingo"11.

E como mencionado, a prática da observância sabática presente no vasto território do Império Romano não favorecia os planos da Igreja de Roma. Então, ela utilizando o seu poder (cedido pelos imperadores romanos) trabalhou para eliminar a influência que o sábado havia conquistado no império e no restante do mundo.

Assim, podemos afirmar que: 1. a infiltração de ensinos e ritos pagãos no cristianismo; 2. a criação do obscuro "Festival da Ressurreição"(e); 3. a lei civil decretada pelo edito de Constantino em 321 d.C.; 4. o antissemitismo, sobretudo contra os judeus; e, 5. a ânsia da Igreja de Roma em substituir o sábado pelo domingo, proporcionaram o caos quanto ao dia de descanso a ser santificado. O impasse entre guardar o sábado ou domingo ocasionou a observância de ambos os dias por muito tempo. E foi diante desse conturbado cenário que o concílio de Laodiceia regulamentou o cânon 29.

Ademais, a guarda do domingo como sendo o descanso semanal para o cristão, não é bíblica. E como atesta a própria Bíblia e a História, o domingo(f) nunca foi considerado sagrado pelas primeiras gerações da Igreja Cristã (Igreja Primitiva). O próprio cânon 29 (redigido no século IV) revela esse fato ao determinar que os cristãos evitassem, "se possível", seus trabalhos seculares aos domingos.

Abrangência do concílio de Laodiceia(g)

Entre os protestantes, há aqueles que se esforçam para anular os efeitos ocasionados pelo concílio de Laodiceia através dos seguintes argumentos: que foi um concílio realizado no Oriente e não em Roma; que a cidade de Laodiceia era grega e não romana; que a Igreja de Roma não estava presente; e, que esse concílio foi local, sem amplitude global. Na realidade tais alegações e similares são comumente utilizadas na tentativa de invalidar não somente as implicações do concílio de Laodiceia, mas qualquer fato histórico que comprove a origem pagã da observância dominical.

A ocorrência de um concílio fora de Roma não anula à sua autoridade, pois os primeiros concílios locais e gerais que estabeleceram as doutrinas e diretrizes eclesiásticas da Igreja Romana foram realizados na Turquia (Ásia Menor), a saber: Niceia I e II; Constantinopla I, II, III e IV; Éfeso e Calcedônia. Os demais concílios ocorreram na Europa a partir do concílio de Latrão (1123 d.C.), sendo que, na cidade de Roma, ocorreram somente os concílios de Trento e do Vaticano. No entanto, isso nunca impediu que as orientações eclesiásticas provenientes das assembleias realizadas fora de Roma tivessem autoridade para os fins que foram estabelecidas.

A alegação de que o concílio de Laodiceia foi local sem amplitude global revela tão somente ignorância sobre o assunto, visto que todas as decisões em seus 60 cânons foram ratificadas e oficializadas pelo cânon 01 do concílio (geral) de Calcedônia,12 demonstrando o poder e a universalidade da assembleia laodiceana. Na ocasião o concílio de Calcedônia promulgou que: "Os cânones até aqui determinados pelos santos pais em todos os sínodos terão validade".13 As enciclopédias Britannica e Americana sobre essa questão expõem respectivamente que:

"Além de reforçar os anteriores cânones dos concílios da Igreja [Romana], assim como as declarações de alguns sínodos locais, o concílio [de Calcedônia] emitiu decretos disciplinares direcionados a monges e clérigos e, declarou patriarcadas[h] Jerusalém e Constantinopla. O efeito global foi para dar à Igreja um caráter institucional mais estável."14

"O concílio [de Laodiceia] foi composto por 32 bispos das províncias da Ásia e os resultados de suas normas estão apresentados em 60 cânones que foram anunciados como credos obrigatórios aos cristãos em todo o mundo pelo concílio de Calcedônia em 451."15

Pode-se destacar ainda que, o concílio de Laodiceia estabeleceu quais livros pertenceriam a Bíblia. Na ocasião o livro de Apocalipse não foi aceito, porém, fora incluído posteriormente no concílio de Cartago (ocorrido na África) em 397 d.C. Medidas universais que foram prontamente confirmadas pelo concílio geral de Calcedônia.16

Assim, os concílios locais de Laodiceia e Cartago realizados fora do território de Roma e com pequena representatividade da Igreja Romana, organizaram os livros da Bíblia (conservando os inspirados e excluindo os deuterocanônicos ou apócrifos); a mesma Bíblia que hoje é utilizada pelos protestantes que se contorcem para invalidar os efeitos e a universalidade do concílio de Laodiceia. Lembrando que, na Contra-Reforma, a Igreja de Roma voltou a utilizar os apócrifos com o intuito de combater o protestantismo.

Considerações finais

É inegável que o conclave em Laodiceia estabeleceu orientações sobre o dia de guarda com o objetivo de substituir o sétimo dia descrito no quarto mandamento da lei de Deus, pelo primeiro dia da semana. A implementação do descanso dominical entre os cristãos sempre esteve sob a tutela dos líderes da Igreja de Roma. Mas a questão principal é que essa mudança não tem aprovação das Escrituras Sagradas, pelo contrário, seu fundamento encontra-se na tradição pagã. Logo, a observância do domingo deve ser rejeitada.




b. Acesse: O dia do Senhor
c. Atitudes contrárias aos semitas, por exemplo: hebreus, assírios, fenícios e árabes. Aquele que possui aversão aos judeus.
d. Acesse: Princípio do Dia Profético (tópico: "Um tempo, dois tempos e metade de tempo").
e. Acesse: Origem da Guarda Dominical (tópico: "Obstinação pelo erro").
g. Tópico baseado em: CHRISTIANINNI, A. B. (1981). Subtilezas do Erro, 2ª ed., São Paulo, BR-SP: CPB, cap. 38, p. 243-246.
h. Sob jurisdição, subordinadas à Igreja de Roma.

1. HEFELE, C. J. (1876). A History of the Councils of the Church: from the original documents, vol. II, Edinburgh, GB-SCT: T. & T. Clark, book VI, sec. 93, p. 316; (Charles Joseph Hefele formou-se em teologia pela Universität Tübingen e exerceu a função de bispo em Rottenburg, Germany).
2. PRYNNE, W. (1633). Dissertation on the Lord's Day Sabbath, p. 33-34, 44. Quote in: ANDREWS, J. N. (1862). History of the Sabbath and First Day of the Week, Batthe Creek, US-MI: Steam Press of the Seventh-Day Adventist Publication Association, part. II, p. 265; (William Prynne foi membro da Igreja Presbiteriana, estudou na Universidade de Oxford e atuou como advogado e escritor).
3. NEANDER, A. (1843). The History of the Christian Religion and Church, During the Three First Centuries, Philadelphia, US-PA: James M. Campbell & Co., sec. III, p. 186; (Johann August Wilhelm Neander, escritor e teólogo alemão, lecionou nas Universidades de Heidelberg e Berlin. Seus trabalhos sobre a história da Igreja Cristã tornaram-se referência acadêmica).
4. COLEMAN, L. (1852). Ancient Christianity: exemplified in the private, domestic, social and civil life of the primitive Christians, Philadelphia, US-PA: Lippincott, Grambo & Co., chap. XXVI, sec. II, § 2, p. 529; (Lyman Coleman formou-se na Universidade de Yale em 1817. Foi escritor, professor de idiomas (latim e grego) e ministro da Igreja Congregacional).
5. FARRAR, F. W. (1892). The Voice from Sinai: the eternal bases of the Moral Law, New York, US-NY: Thomas Whittaker, § 3, p. 152; (Frederic William Farrar foi escritor religioso e membro da Igreja Anglicana, fez parte do corpo eclesiástico da Abadia de Westminster, sendo nomeado arquidiácono em 1883. E, em 1895 até à sua morte, atuou como decano de Canterbury).
6. HEBER, R. (1828). The Whole Works [by Jeremy Taylor], vol. XII, London, GB-ENG: Thomas Davison, book II, chap. II, §49, p. 416; (Jeremy Taylor foi clérigo da Igreja Anglicana e escritor. Graduou-se na Universidade de Cambridge e foi ordenado em 1633. Em 1643, o rei Charles I lhe concedeu mediante decreto real o título de doutor em teologia. As obras literárias de Jeremy Taylor influenciaram John Wesley, fundador da Igreja Metodista).
7. Flavius Josephus, Agaist Apion, book II. In: WHISTON, W. (1873). The Works of Flavius Josephus, London, GB-ENG: T. Nelson and Sons, §40, p. 822(b).
8. Epistola ad Janerius, tomo VII, chap. II, sermon 128. Quoted in: OLSEN, V. N. Did the early church keep sabbath? Liberty, Washigton, US-DC, v. 63, nº 1, p. 27-29, 1968. Too in: HARDINGE, L. (1995). The Celtic Church in Britain, Brushton, US-NY: Teach Services, Inc., p. 76.
9. WALFORD, E. (1855). The Ecclesiastical History of Sozomen: history of the church, from A.D. 324 to A.D. 440, London, GB-ENG: Henry G. Bohn, book, II, chap. XIX, p. 344.
10. VALESIUS, H. (1853). The Ecclesiastical History of Socrates: history of the church, London, GB-ENG: Henry G. Bohn, book, V, chap. XXII, p. 289-290.
11. FLICK, A. C. (1964). The Rise of the Mediaeval Church: its influence on the civilisation of western europe from the first to the thirteenth century, New York, US-NY: The Knickerbocker Press, chap. XII, p. 237; (Alexander Clarence Flick foi professor de História (especialmente europeia) e Ciência Política na Universidade de Syracuse. Trabalhou como historiador e diretor do acervo histórico do estado de Nova Iorque).
12. "Laodicea, Synod of". (1911). The Encyclopædia Britannica, 11ª ed., vol. XVI, Cambridge, GB-ENG: Cambridge University Press, p. 189b.
13. HEFELE, C. J. (1883). A History of the Councils of the Church: from the original documents, vol. III, Edinburgh, GB-SCT: T&T Clark, book XI, sec. 200, p. 385.
14. "Chalcedon, Council of". (2010). Encyclopædia Britannica, Chicago, US-IL: Encyclopædia Britannica.
15. "Laodicea, Council or Synod of". (1919). The Encyclopedia Americana, vol. XVI, Albany, US-NY: J. B. Lyon Company, p. 739b.
16. Ibidem. Too in: "Laodicea, Synod of". (1911). The Encyclopædia Britannica, 11ª ed., vol. XVI, Cambridge, GB-ENG: Cambridge University Press, p. 189b.

Outros estudos:
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IASD On-line,
10 de jul de 2015 21:48