Sábados Semanais e Anuais

A maior parte dos ataques contra a lei de Deus são em decorrência do sábado descrito no quarto mandamento, e essa colossal aversão é completamente injustificável. A desinformação, acompanhada em alguns casos de fanatismo religioso, promove as inúmeras polêmicas criadas em torno da observância sabática. Na realidade, a maioria não teve a devida orientação sobre a origem e o propósito do sábado(a), fato análogo ao ocorrido com o oficial etíope (Atos 8:30-31). Outros, apesar de cientes do intuito de Deus ao estabelecer o sábado, preferem evitá-lo, pois de acordo com seus pensamentos isso acarretaria mudanças "desconfortáveis" em suas vidas; em essência, não estão dispostos a seguir algo que lhes privem de suas satisfações seculares.

Distinções sabáticas
O desconhecimento e preconceito sobre este tema é tão acentuado que muitos se surpreendem com a existência de outros sábados que diferem daquele descrito no Decálogo. Os sábados listados na Bíblia apresentam diferenças significativas que impossibilitam qualquer confusão ao classificá-los. Por exemplo, o sábado semanal citado pelo quarto mandamento, distingui-se por:
  1. Ter sido instituído após o término da criação, numa época em que não havia pecado no mundo;
  2. Estar voltado para as questões da origem e manutenção da vida;
  3. Exigir santificação do sétimo dia de cada semana para exclusiva consagração a Deus, sem liturgias mosaicas;
  4. Ser de natureza moral e estar incluído na lei de Deus, reunido entre mandamentos estritamente de princípios morais;
  5. Ter sido destinado a toda humanidade, independentemente de tempo e lugar.1
Enquanto os sábados anuais, presentes na lei mosaica, caracterizam-se por:
  1. Terem sido instituídos no monte Sinai, numa época em que o pecado se fazia presente no mundo;
  2. Estarem voltados para as questões da salvação do pecador e erradicação definitiva do mal;
  3. Exigirem santificação de períodos específicos do ano para consagração exclusiva a Deus, com liturgias mosaicas;
  4. Serem de natureza cerimonial e estarem incluídos na lei de Moisés, reunidos com vários tipos de mandamentos(b);
  5. Terem sido destinados aos israelitas e, dependerem de circunstâncias temporais e geográficas(c).2
Existe ainda um terceiro tipo de sábado destinado à terra. Este sábado, que ocorria a cada sete anos, tinha o propósito de amparar os necessitados com a produção do "sétimo ano" e, beneficiar a terra de forma similar ao que ocorre atualmente nos intervalos entre plantios (Êxodo 23:10-11 cf. Levítico 25:1-7).

E ao contrário do pensamento popular, a observância sabática instituída no Éden não é um assunto restrito ao Velho Testamento, ensinos ao seu respeito são encontrados também no Novo Testamento(d). Nos dois casos, Deus declara pessoalmente que o sábado semanal é de Sua propriedade:
"Cada um respeitará a sua mãe e o seu pai e guardará os Meus sábados. Eu sou o Senhor, vosso Deus." (Levítico 19:3 RA); "Guardareis os Meus sábados e reverenciareis o Meu santuário. Eu sou o Senhor." (Levítico 19:30 RA); "Porque assim diz o Senhor: 'Aos eunucos que guardam os Meus sábados, escolhem aquilo que Me agrada e abraçam a Minha aliança'." (Isaías 56:4 RA); "Também lhes dei os Meus sábados, para servirem de sinal entre Mim e eles, para que soubessem que Eu sou o Senhor que os santifica." (Ezequiel 20:12 RA); "Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. (...)" (Êxodo 20:10 RA); "Porque o Filho do homem é Senhor do sábado." (Mateus 12:8 RA); "Assim, pois, o Filho do homem é Senhor até mesmo do sábado." (Marcos 2:28 NVI).
Lembrando que os versos de Mateus 12:8 e Marcos 2:28 fazem parte das arguições de Cristo contra as acusações dos fariseus de que Ele e Seus discípulos eram transgressores do quarto mandamento(e). Nestas duas ocasiões, Ele transmitiu os verdadeiros objetivos da observância sabática do sétimo dia e afirmou que o sábado Lhe pertence (cf. João 1:1-3).

Em relação aos sábados anuais, conhecidos também como sábados cerimoniais, Deus os considerou pertencentes ao povo de Israel.3 Esta nação possuía diversos dias de festas ao longo do ano, mas alguns eram exclusivamente reservados para consagração e foram tratados como sábados. Esses dias sabáticos ocorriam em datas fixas e, devido a dinâmica do calendário de cada ano, eram celebrados em diferentes dias da semana (Levítico 23:4; II Crônicas 8:12-13). Deve-se destacar ainda que, quando um sábado anual (sábado cerimonial) coincidia em ser celebrado no sétimo dia da semana (sábado semanal), ele era chamado de grande sábado (João 19:31). Adiante os dias de santa convocação regulamentados como sabáticos:
1.º sábado cerimonial: Pães Asmos (Início) - 15.º dia do mês de Nissan (Levítico 23:6-8).
2.º sábado cerimonial: Pães Asmos (Término) - 21.º dia do mês de Nissan.
3.º sábado cerimonial: Primícias - 06.º dia do mês de Sivan (Levítico 23:15-21).
4.º sábado cerimonial: Trombetas - 01.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:23-25).
5.º sábado cerimonial: Expiação - 10.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:26-32).
6.º sábado cerimonial: Tabernáculos (Início) - 15.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:33-36).
7.º sábado cerimonial: Tabernáculos (Término) - 21.º dia do mês de Tishrei.
A respeito destes sábados cerimoniais, a Bíblia esclarece:
"São estas as festas fixas do Senhor, que proclamareis para santas convocações, para oferecer ao Senhor oferta queimada, holocausto e oferta de manjares, sacrifício e libações, cada qual em seu dia próprio, além dos sábados do Senhor, e das vossas dádivas, e de todos os vossos votos, e de todas as vossas ofertas voluntárias que dareis ao Senhor." (Levítico 23:37-38 RA). "Estas coisas oferecereis ao Senhor nas vossas festas fixas (...) (Números 29:39 RA).
Esses dias de devoção eram chamados de sábados porque as atividades do cotidiano cessavam e os israelitas se reuniam solenemente em adoração a Deus, assim como ocorre com o sábado semanal do quarto mandamento. Mas, enquanto os sábados anuais (cerimoniais) conduziam a mente da nação à providência divina para a salvação e eliminação do pecado e, recordavam momentos especiais da História de Israel, o sábado semanal direcionava os pensamentos às obras da criação, na vida originada e mantida pelo poder de Deus: "Lembra-te do dia de sábado, para o santificar. Seis dias trabalharás e farás toda a tua obra. Mas o sétimo dia é o sábado do Senhor, teu Deus. (...) Porque, em seis dias, fez o Senhor os céus e a terra, o mar e tudo o que neles há e, ao sétimo dia, descansou; por isso, o Senhor abençoou o dia de sábado e o santificou." (Êxodo 20:8-11 RA cf. Hebreus 4:4 e 10).

"Sombra das coisas que haviam de vir"
"Ninguém, pois, vos julgue por causa de comida e bebida, ou dia de festa, ou Lua Nova, ou sábados, porque tudo isso tem sido sombra das coisas que haviam de vir; porém o corpo é de Cristo." (Colossenses 2:16-17 RA).
Estes versos são comumente deturpados para apoiar a falsa teoria de que o sábado semanal seria também um sábado cerimonial e, portando, uma "sombra" (simbologia) de Cristo concretizada na cruz do Calvário. Esta interpretação além de insinuar que Deus descansou no sétimo dia (sábado semanal, Gênesis 2:1-3) com o mesmo objetivo que os israelitas descasavam aos sábados cerimoniais, revela-se um grosseiro pretexto para, sorrateiramente, se esquivar do quarto mandamento do Decálogo.

Em Colossenses 2:16-17 demonstra-se algo completamente oposto à referida teoria, visto que estes versos destacam uma das principais diferenças entre os sábados semanais e cerimoniais: o sábado referente ao sétimo dia da semana não representa "coisas que haviam de vir" porque está vinculado a um acontecimento do passado, a criação. As obras desempenhadas por Cristo em favor da salvação da humanidade eram "as coisas que haviam de vir", e foram simbolizadas pelas cerimônias mosaicas da antiga aliança(f). As liturgias praticadas em cada sábado cerimonial, especialmente as sacrificais, transmitiram os eventos proféticos que foram cumpridos pela missão redentora de Jesus Cristo.

Deve-se observar também que o apóstolo Paulo não condenou as festividades, luas novas e sábados destinados para os judeus(g). Embora os sábados cerimoniais e seus respectivos rituais tenham representado a Cristo e Seus atos de salvação, eles continuam vinculados a História do povo de Israel, pois:
A festa dos Pães Asmos recorda a boa vontade e prontidão de Deus em libertar os israelitas do Egito (Êxodo 12:33-39; Deuteronômio 16:3-4);
A festa das Primícias (festas das Semanas) indicava o encerramento do período da colheita e fixava a mente dos israelitas na dependência que eles tinham de Deus, como na época em que estavam no Egito (Deuteronômio 16:9-12);
A festa das Trombetas marca o início do ano civil judaico e lembra os acontecimentos do ano que se encerra (Levítico 23:24-25; Números 29:1-2); e,
A festa dos Tabernáculos (festa das Cabanas) recorda o tempo em que o povo de Israel viveu quarenta anos em tendas (cabanas) durante a sua jornada pelo deserto (Levítico 23:42-43).
Diante disso e, baseados no contexto de Colossenses capítulo 2, nota-se claramente que Paulo (hebreu, fariseu e profundo conhecedor da lei de Moisés, Atos 22:3; Atos 26:4-5; Filipenses 3:4-6), não afirmou que os sábados cerimoniais eram impróprios, e tampouco que foram totalmente anulados para os judeus. Mas ensinou que os rituais e os significados messiânicos de cada um deles foram concretizados (cumprido), porque "estas coisas são sombras do que haveria de vir; a realidade, porém, encontra-se em Cristo." (Colossenses 2:17 NVI cf. Hebreus 9:9-10).

Paulo orientou os cristãos gentios da igreja de Colossos a não admitir entre eles, crenças e práticas que originavam-se de tradições de homens, pois elas deturpavam tanto o real significado que a liturgia mosaica possuía, quanto os ensinos de Cristo: "Tenham cuidado para que ninguém os escravize a filosofias vãs e enganosas, que se fundamentam nas tradições humanas e nos princípios elementares deste mundo, e não em Cristo." (Colossenses 2:8-9 NVI cf. Tito 1:10-14). Ora, os critérios alimentares, dias de festas, luas novas e sábados citados em Colossenses 2:16 não foram criados pelo homem e muito menos são enganosos ou baseados em princípios deste mundo, visto que tais coisas foram instituídas por Deus para proporcionar benefícios; de modo algum promoveram a escravidão e o engano.

Os colossenses não eram obrigados a seguir os regimentos da lei de Moisés direcionados aos judeus(h), e tampouco aceitar ensinos perniciosos que anulavam o evangelho (Colossenses 2:18-23). Eles foram orientados ainda a não permitir que os indivíduos que disseminavam falsos ensinos os julgassem ("ninguém, pois, vos julgue", Colossenses 2:16).

"Cessarei os seus sábados"
"Farei cessar todo o seu gozo, as suas festas de Lua Nova, os seus sábados e todas as suas solenidades." (Oséias 2:11 RA).
Este é outro verso retirado de seu contexto e associado ao falso ensino de que o sábado semanal era cerimonial e foi anulado. O capítulo 2 do livro de Oseias em momento algum transmiti tal coisa, mas discorre sobre: a idolatria dos israelitas e a repreensão que receberam(i); o afastamento de Deus por causa dos atos pecaminosos da nação de Israel (deixando-a para que recebesse os resultados de suas maléficas escolhas, versos 2-13); e, sobre a misericórdia que foi concedida novamente a ela (verso 14-23).

O texto de Oseias 2:3 quando relata: "Para que Eu não a deixe despida, e a ponha como no dia em que nasceu (...)" (RA), refere-se a condição que a nação de Israel foi submetida quando era escrava no Egito, e situação similar retornaria caso ela não abandonasse os seus pecados (haveria o retorno de seu anterior estado de debilidade). A decadência dos israelitas tinha atingido um nível tão deprimente, que eles consideraram as bênçãos concedidas por Deus, provenientes de Baal (Oseias 2:5 e 8). Então, Deus retirou a Sua proteção e demais benefícios. Esta atitude resultou no cativeiro dos israelitas pelos assírios (Oseias 2:9; II Reis 17:21-23), e os seus "amantes" (outras nações) com os quais eles se corromperam não puderam ajudar (Oseias 2:7).

Em sua nova realidade, a nação de Israel não podia celebrar as festas de Lua Nova, os sábados cerimoniais, e outras festividades solenes (Oseias 2:11). Na verdade, antes do cativeiro, ela estava apenas seguindo por formalidade e superstição essas celebrações, além de as contaminar com suas práticas abomináveis. Ela encontrava-se afastada de Deus e em vão exercia as cerimônias descritas na lei de Moisés (II Reis 17:7-20 cf. Isaías 1:10-17).

Posteriormente, Deus a despertou para os Seus caminhos, a resgatou do cativeiro, auxiliou a restaurar suas plantações e, proporcionou novamente segurança em sua terra (Oseias 2:14-18). Assim, a nação israelita voltou a celebrar "as suas festas de Lua Nova, os seus sábados e todas as suas solenidades", porém, sem as antigas atitudes que a conduzira a ruína. Pode-se destacar ainda que, na época de Jesus, e após o Seu retorno ao Céu, essas comemorações continuaram sendo praticadas.4 Portanto, não existe nenhuma profecia em Oseias capítulo 2 anunciando o fim do sábado pertencente ao Decálogo, tampouco há algo nesse sentido no restante das Escrituras. Esta fictícia alegação é apenas mais uma inútil e desesperada investida contra o santo dia do Deus Criador (Isaías 58:13-14).


c. Os sábados cerimoniais dependiam de um lugar específico para que as suas respectivas liturgias fossem exercidas, e esse lugar era o santuário terrestre e seus arredores (Êxodo 25:1-9 cf. Deuteronômio 16:13-15). Posteriormente esse santuário foi substituído pelos templos, como aquele construído por Salomão (I Reis 6:38). Contudo, essas exigências litúrgicas e geográficas não se aplicam ao sábado semanal, que é santificado sem a necessidade dos rituais mosaicos e de um santuário ou templo, permitindo deste modo a sua aplicabilidade universal (Levítico 23:3; Atos 16:13).
g. Apesar das festas sabáticas terem sido destinadas para os judeus, havia a possibilidade dos gentios participarem delas (Levítico 24:22; Números 15:15-16).
i. Esta mensagem de repreensão e advertência foi destinada ao reino do norte (reino de Judá) entre 723-722 a.C.; e, após ter sido ignorada, houve a primeira invasão e prisão do povo pelos assírios.
1. Gênesis 2:1-3; Hebreus 4:4; Êxodo 20:8-11; Marcos 2:27-28 cf. Isaías 56:1-7; Neemias 13:15-18 cf. Isaías 58:13-14.
2. Levítico 23:37-38 cf. Levítico 7:37-38, Neemias 9:13-14; Ezequiel 45:16-17.
3. Levítico 23:32; Isaías 1:13-14; Lamentações 2:6; Oséias 2:11.
4. Zacarias 14:18-19; Marcos 14:12; João 2:13; João 5:1; João 7:2; João 10:22; Atos 2:1; Atos 12:4; Atos 20:16.

Outros estudos:
Ċ
IASD On-line,
24 de out de 2013 11:22