Dias, Meses, Tempos e Anos

"Outrora, porém, não conhecendo a Deus, servíeis a deuses que, por natureza, não o são; mas agora que conheceis a Deus ou, antes, sendo conhecidos por Deus, como estais voltando, outra vez, aos rudimentos fracos e pobres, aos quais, de novo, quereis ainda escravizar-vos? Guardais dias, e meses, e tempos, e anos." (Gálatas 4:8-10 RA).
A palavra "rudimentos"(a), em Gálatas 4:9, refere-se ao conjunto de princípios fundamentais e seus respectivos hábitos. Sendo assim, quais são os "rudimentos" e os "períodos" de tempo mencionados nos versos acima?

"Rudimentos fracos e pobres"
Os cristão gentios da igreja de Galácia não estavam praticando "outra vez" (verso 9) os rudimentos pagãos, visto que, eles tinham abandonado seus princípios e costumes (Gálatas 4:3 e 8). Porém, se envolveram por exigência dos judaizantes(b), com os rudimentos cerimoniais prescritos na lei de Moisés.1 Apesar da enorme diferença entre os costumes litúrgicos pagãos e mosaicos, ambos, naquele momento, causavam escravidão por se tratarem de cerimônias sem utilidade alguma; além disso, havia o constante intuito de se obter o favor divino por meio deles.

Desde os seus primórdios, as práticas litúrgicas pagãs são por natureza repulsivas e inúteis. Em contrapartida, as liturgias mosaicas foram estabelecidas por Deus com o propósito de direcionar o pecador a Cristo; mas, cessaram na cruz do Calvário.2 Embora extremamente distintas quanto a origem, objetivos e procedimentos, as cerimônias pagãs e mosaicas promoviam escravidão por não terem condições de beneficiar os seus respectivos praticantes, eram cerimônias igualmente "fracas e pobres" em relação a utilidade - a princípio não tinham importância e apartavam o pecador de Deus. Por isso Paulo indagou os gálatas: porque vocês estão "voltando àqueles mesmos princípios elementares, fracos e sem poder? Querem ser escravizados por eles outra vez?" (Gálatas 4:9 NVI cf. Gálatas 2:4, Gálatas 5:1). E, a circuncisão, era um desses "rudimentos fracos e pobres" que os escravizavam. A propósito, a circuncisão era o principal problema confrontado por Paulo na igreja de Galácia (Gálatas 2:3-5 e 12; Gálatas 5:2-4; Gálatas 6:12-15).

Aqueles que planejavam obter perdão ou justificação por meio da lei de Moisés permaneciam escravos de seus pecados, visto que Deus sempre agiu mediante a fé no sacrifício de Jesus (Gálatas 2:16-21; João 1:29 cf. Apocalipse 13:8). E esse proceder equivocado já havia sido condenado por Paulo em Gálatas 3:10-11 (RA): "(...) Maldito todo aquele que não permanece em todas as coisas escritas no livro da Lei(c), para praticá-las. E é evidente que, pela lei, ninguém é justificado diante de Deus, porque o justo viverá pela fé." (cf. Gálatas 5:3, Gálatas 6:13). Portanto, apesar de livres da escravidão ocasionada pelos rudimentos do paganismo, os cristãos da igreja de Gálatas haviam se tornando escravos, novamente, mas agora de rudimentos litúrgicos da lei mosaica.

Estes rudimentos cerimoniais da lei eram "fracos e pobres" em vários aspectos: não tinham condições de proporcionar salvação(d); continham diversos simbolismos ultrapassados (Hebreus 9:9-10); estavam repletos de tradições rabínicas destituídas de fundamento escriturístico (Isaías 29:13-14; Tito 1:10-14); e, não havia mais interação de Deus por meio deles (Mateus 27:51 cf. Hebreus 8:1-6). Em resumo, os cristãos da igreja de Galácia estavam renunciando a mensagem de salvação transmitida pelo evangelho e acatando a perdição (a escravidão) imposta pelos judaizantes, que consideravam a observância integral da lei de Moisés como meio de conseguir a vida eterna (cf. Atos 15:1-5).

"Guardais dias, e meses, e tempos, e anos"
O povo israelita tinha diversos dias festivos e de consagração destinados a: comemorar a historicidade de Israel; exercer as liturgias específicas do santuário terrestre; e, praticar jejuns (individuais e coletivos). E a expressão de Paulo, "guardais dias, meses, tempos, e anos", refere-se ao conjunto desses dias especiais. Exemplificando pela Bíblia:
Dias: refere-se aos dias exclusivos para devoção, entre eles: 15.º e 21.º dia do mês de Nissan (Levítico 23:6-8); 06.º dia do mês de Sivan (Levítico 23:15-21); 01.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:23-25); 10.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:26-32); 15.º e 21.º dia do mês de Tishrei (Levítico 23:33-36); e, dias de jejum (Jeremias 36:6; Zacarias 8:19).
Meses: comemoração do início de cada mês, ocorria a cada Lua Nova (Números 28:14; Salmos 81:3-5).
Tempos: corresponde ao período de duração das festas anuais e santas convocações, tais como: Pães Asmos (Deuteronômio 16:3-4), Primícias (Deuteronômio 16:9-10), Trombetas (Levítico 23:24), Tabernáculos (Levítico 23:42-43), Páscoa (Levítico 23:5) e, Purim (Ester 9:26-28).
Anos: refere-se ao sétimo ano (ano sabático, Êxodo 23:10-11) e ano do Jubileu (Levítico 25:8-12).
Deve-se destacar ainda que, os simbolismos de Jesus não refletiam-se apenas nos dias litúrgicos do santuário, mas estavam presentes também nas comemorações históricas de Israel. De qualquer forma, nos dois casos, com o evento da cruz do Calvário a finalidade simbólica findou e o valor histórico das comemorações permaneceu. Apesar disso, os judaizantes ignoravam estas questões e persuadiam os cristãos gentios de Galácia a guardarem esses dias; algo similar ao que ocorrera na igreja de Colossos(e).

A guarda do sábado
Muitos, sem base escriturística e histórica sobre este assunto, ao lerem a expressão: "guardais dias, meses, tempos, anos" (Gálatas 4:10), alegam que Paulo incluiu também a guarda do sábado estabelecido no sétimo dia da semana e, o classificou como algo escravizador, rudimentar e fraco (Gálatas 4:9). Entretanto, por meio da própria Bíblia observa-se a leviandade desta insinuação pelos seguintes fatores:
  • Se a observância do sábado sujeita à escravidão, então, o próprio Deus tornou-Se escravo pela observância do sábado ao instituí-la no Éden (Gênesis 2:2-3; Êxodo 20:11). Cristo, igualmente, permaneceu em escravidão ao santificar o dia de sábado (Lucas 4:31-32; Lucas 6:6-7); e não Se conteve em escravizar-Se, pois direcionou outros à mesma situação (Mateus 24:20; Lucas 4:16 cf. I Tessalonicenses 1:6).
  • Que motivo conduziria Paulo a sobrepujar as recomendações e bênçãos de Deus sobre o sábado descritas em Isaías 56:1-7, Isaías 58:13-14 e, Isaías 66:22-23?
  • Paulo considerara a lei de Deus, integralmente, "santa, justa e boa" (Romanos 7:12). E, no âmago de sua vida, tinha prazer em obedecê-la (Romanos 7:22). Então, como ele poderia tê-la como prazerosa, se o sábado (defendido pelo quarto mandamento desta mesma lei) fosse tratado como algo escravizador e rudimentar? (cf. Isaías 58:13-14). Ele poderia realmente afirmar que a lei de Deus era "justa e boa"?
Paulo nunca considerou o sábado um "rudimento fraco e pobre", ao contrário, o Novo Testamento(f) apresenta diversas referências demonstrando o seu zelo por este dia.3 Ele teve diversas oportunidades para classificar diretamente o sábado (sétimo dia da semana) como obsoleto, pobre e escravizador; houve várias ocasiões em que ele poderia ter asseverado aos cristãos judeus e gentios que os propósitos do descanso sabático findara; contudo, nunca o fez.

Apesar das provas bíblicas em favor do sábado, os mais revoltosos contra ele, apresentam ainda a alegação de que Paulo dirigia-se às sinagogas aos sábados motivado pelo seu encontro com os judeus, e não pela observância sabática determinada pela lei de Deus (Decálogo). Esta insinuação além de ser desprovida de fundamento bíblico, contrapõe três pontos da vida deste apóstolo:
  1. Paulo após aceitar o evangelho foi severamente perseguido pelos judeus (principalmente pelos líderes) e sempre encontrou resistência por parte deles em decorrência de seus ensinos, houve até mesmo tentativas de matá-lo;4 fatos semelhantes aconteceram com Jesus (Mateus 26:1-4; Marcos 14:55; Lucas 11:53-54). Portanto, a sua ida às sinagogas aos sábados não era por causa dos judeus, ele observava o sábado por questões espirituais e tinha satisfação nisso (Romanos 7:14 e 22 cf. Atos 16:13).
  2. O ministério de Paulo era voltado preponderantemente aos gentios, uma vez que os judeus (não todos) rejeitavam o evangelho:
  3. "No sábado seguinte, quase toda a cidade se reuniu para ouvir a palavra do Senhor. Quando os judeus viram a multidão, ficaram cheios de inveja e, blasfemando, contradiziam o que Paulo estava dizendo. Então Paulo e Barnabé lhes responderam corajosamente: 'Era necessário anunciar primeiro a vocês a palavra de Deus; uma vez que a rejeitam e não se julgam dignos da vida eterna, agora nos voltamos para os gentios. Pois assim o Senhor nos ordenou: Eu fiz de você luz para os gentios, para que você leve a salvação até aos confins da Terra'. A palavra do Senhor se espalhava por toda a região." (Atos 13:44-49 NVI).
    Fato inquestionável: havia multidões de gentios aos sábados acompanhando as pregações de Paulo, em várias ocasiões a quantidade de judeus era ínfima em comparação aos gentios presentes. E o Novo Testamento sempre destaca ambos os grupos reunidos neste dia estudando as Escrituras, louvando e orando a Deus (Atos 13:42-43; Atos 17:1-4; Atos 18:4), ou seja, guardavam o sábado por questões espirituais.
  4. Paulo era fariseu, profundo conhecedor da lei e exigente quanto a obediência de seus mandamentos:
  5. "Sou judeu, nascido em Tarso da Cilícia, mas criado nesta cidade. Fui instruído rigorosamente por Gamaliel(g) na lei de nossos antepassados, sendo tão zeloso por Deus quanto qualquer de vocês hoje." "(...) Se alguém pensa que tem razões para confiar na carne, eu ainda mais: circuncidado no oitavo dia de vida, pertencente ao povo de Israel, à tribo de Benjamim, verdadeiro hebreu; quanto à Lei, fariseu; quanto ao zelo, perseguidor da igreja; quanto à justiça que há na Lei, irrepreensível." (Atos 22:3 NVI; Filipenses 3:6 NVI).
    Os fariseus eram extremados na dedicação à lei, e os Evangelhos demonstram vários exemplos do zelo radical que eles mantinham com o sábado.5 Então, como Paulo poderia se considerar zeloso e irrepreensível em relação a lei se profanasse o sábado? A fé que Paulo tinha tanto em Jesus quanto na Sua graça(h), nunca desviou a sua lealdade da lei de Deus (Romanos 3:31; Romanos 6:15). Qualquer desrespeito de sua parte pelo sábado transgrediria diretamente o quarto mandamento desta lei, que Jesus ensinou ser intocável (Mateus 5:17-19; Lucas 16:17 cf. Apocalipse 14:12).
E, para finalizar, um comparativo muitíssimo oportuno quanto a guarda do sábado promovida por Jesus, pelo apóstolo Paulo e demais cristãos de sua época:
"Jesus voltou para a Galileia no poder do Espírito, e por toda aquela região se espalhou a Sua fama. Ensinava nas sinagogas, e todos O elogiavam. Ele foi a Nazaré, onde havia sido criado, e no dia de sábado entrou na sinagoga, como era Seu costume. E levantou-Se para ler." (Lucas 4:14-16 NVI).
"Segundo o seu costume, Paulo foi à sinagoga e por três sábados discutiu com eles com base nas Escrituras, explicando e provando que o Cristo deveria sofrer e ressuscitar dentre os mortos. E dizia: 'Este Jesus que lhes proclamo é o Cristo'." (Atos 17:2-3 NVI). "Portanto, suplico-lhes que sejam meus imitadores." (I Coríntios 4:16 NVI).
"Quando Paulo e Barnabé estavam saindo da sinagoga, o povo os convidou a falar mais a respeito dessas coisas no sábado seguinte." (Atos 13:42 NVI). "De fato, vocês se tornaram nossos imitadores e do Senhor, pois, apesar de muito sofrimento, receberam a Palavra com alegria que vem do Espírito Santo." (I Tessalonicenses 1:6 NVI).

a. O termo "rudimentos" origina-se do substantivo grego "stoicheion", que significa: princípio elementar; noção inicial; algo primordial, primário; fundamento básico.
b. Aquele que pratica os ritos judaicos e motiva outros a segui-los; aquele que procura converter outros ao judaísmo.
d. Na realidade as práticas mosaicas nunca tiveram o poder de perdoar e salvar. As regras cerimoniosas entregues por Deus, sobretudo às vinculadas ao santuário terrestre, tinham o objetivo de transmitir o plano da salvação. Deus nunca concedeu o cerimonialismo da lei de Moisés com o propósito de ser o foco da fé, ou, o motivo pelo qual deveria-se abandonar o pecado (Hebreus 10:1-4 cf. Colossenses 2:17). E pela falta de entendimento desta questão, os judeus praticavam as orientações litúrgicas da lei com o intuito de conseguir a justificação por meio de suas obras (Romanos 9:30-33).
e. Acesse: Sábados Semanais e Anuais (em: Sombra das coisas que haviam de vir).
f. Acesse: O Sábado no Novo Testamento (em: Reuniões sabáticas no Novo Testamento).
g. Gamaliel era fariseu, mestre da lei e respeitado por todo o povo judeu (Atos 5:34).
1. Gálatas 1:6-7, Gálatas 2:3-5, Gálatas 4:17; Gálatas 6:13.
2. João 1:45; João 5:46; Marcos 15:37-39; Gálatas 3:23-24.
3. Atos 13:42-44; Atos 16:13; Atos 17:1-4; Atos 18:1-4.
4. Atos 9:20-25; Atos 9:28-29; Atos 14:1-4; Atos 21:27-36; Atos 23:1-10; e etc.
5. Mateus 12:1-8; Mateus 12:9-14; Lucas 13:10-17; Lucas 14:1-6; e etc.

Outros estudos:
Ċ
IASD On-line,
19 de out de 2013 16:38